EU ACHO …

DIA DE TEREZA

Entre passos adiante e para trás, aprendo com a história de Benguela que devemos celebrar mulheres negras e indígenas alcançando cada vez mais espaços

Ontem foi o dia da mulher negra latino-americana e caribenha. Para muitos pode representar um nome grande, difícil de repetir e urna data ainda não tão familiar.

A data foi estabelecida a partir de uma reunião de mulheres negras e indígenas em 1992, em Santo Domingos, na República Dominicana, em uma pressão para que a ONU assumisse as lutas de raça e gênero.

No Brasil também ficou conhecido como Dia de Tereza de Benguela, uma homenagem à mulher que resistiu à escravidão e ficou célebre por liderar o quilombo Quariterê. Certamente, se eu posso escrever aqui hoje é também por causa da sua luta e de seu legado. Ainda temos muito a avançar, mas também precisamos celebrar aquelas que entenderam que, se não levantassem suas vozes e até arriscassem suas próprias vidas, nada mudaria.

“E não sou eu uma mulher? ” Trago este famoso questionamento de Sojourner Truth para esses diálogos sobre o quanto a luta pela igualdade de gênero ainda anda em descompasso. Abolicionista e ex- escravizada nos Estados Unidos, Trulh levantou esse questionamento em 1851, quando não recebia ajuda dos homens para subir nas carruagens ou passar pelas poças de lama, apoio que só era oferecido para as brancas.

Aqui no Brasil, as mulheres brancas pertencentes às elites começaram a entrar nas universidades em 1879. Enquanto isso, mulheres e homens negros ainda eram escravizados até 1888. O descompasso segue até hoje: 70% das babás são negras, e 99% das mulheres em conselhos de administração de empresas são brancas.

Não dá para dizer para falarmos primeiro sobre mulheres e, depois, sobre raça. Ao evitar combater os efeitos do racismo estrutural, à medida em que avançam nas conquistas feminista, muitas mulheres brancas reproduzem a opressão que vivem na luta antimachista.

Entre passos adiante e para trás, aprendo com a história de Benguela que devemos celebrar mulheres negras e indígenas alcançando cada vez mais espaços. Ao olhar a dura história de resistência por existência, entendo que uma da maiores disrupções que uma mulher negra ou indígena pode produzir na sociedade é a de ser feliz.

Somos muitas vezes vistas com arquétipos de tristeza, subserviência e dependência, que também são efeitos da perpetuação do racismo estrutural. E, quando conseguimos subverter essa lógica e nos sentimos felizes, rompemos com esse ciclo cruel.

Angela Davis já dizia em sua famosa frase: “Quando a mulher negra se movimenta, toda sociedade se levanta junto com ela e entendemos que se a base sobre toda sociedade se levanta, todos ganham. Se Davis é cânone para essa reflexão, entendo que também precisamos ler mais Lélia Gonzales, para além de Angela Davis (palavras da própria Angela Davis que acha que nós podemos reverenciar ainda mais nossas próprias referências negras e indígenas). Lélia, além de falar sobre feminismo negro, cunhou o conceito de amefricanidades para pautar centralmente um olhar sobre as experiências dos negros e indígenas a partir das diásporas da América latina.

Precisamos combinar mais estratégias para alcançarmos conquistas coletivas e por isso mais fortes. Valorizar-nos e nos unir ainda mais. Por isso, sou tão favorável a redes de mulheres negras profissionais e mães, entre outras. Juntas e trocando informações, somos mais fortes. Que nossas vitória individuais e coletivas avancem e possamos celebrá-la não somente hoje, mas nos outros 365 dias do ano. O dia de Tereza é também de todas nós.

*** LUANA GÉNOT

lgenot @simaigualdaderacial.com.br  

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.