POESIA CANTADA

COMEÇAR DE NOVO

SIMONE

Simone Bittencourt de Oliveira, conhecida simplesmente como SIMONE, nascida em Salvador, em 25 de dezembro de 1949), é filha de Otto Gentil de Oliveira e Letícia Bittencourt de Oliveira, Simone nasceu prematura de oito meses no bairro de Brotas (Bahia) e sétima filha entre nove irmãos. Em 1966, mudou-se para São Caetano do Sul, cursou Educação Física em Santos, onde foi colega dos jogadores de futebol Pelé, Emerson e Leivinha, e deu aulas no bairro de Santana, na capital paulista.
Jogadora profissional de basquete, chegou a ser convocada duas vezes para a Seleção Brasileira de Basquetebol, mas devido a duas entorses, foi cortada antes do embarque e na segunda, durante o campeonato mundial de 1971, ficou no banco de reservas.

A partir de contatos que sua amiga e professora de violão, Elodir Barontini, tinha, Simone participou de um jantar na casa do então gerente de marketing da gravadora Odeon, Moacir Machado, o Môa. Ao final do encontro, Simone foi convidada para fazer um teste na Odeon, o resultado foi que a gravadora a contratou por quatro anos, com um disco por ano. O primeiro, Simone, gravado em outubro de 1972 foi regidos pelo maestro José Briamonte. A primeira tiragem foi distribuída apenas para amigos, parentes e para o meio artístico. O lançamento ocorreu em 20 de março de 1973 (considerada a data oficial do início da carreira) em São Paulo e Simone estreou no mesmo dia num programa da TV Bandeirantes. A participação no programa Mixturação (direção/produção de Walter Silva, TV Record, abril, 1973) também foi aguardada com expectativa e Simone apontada como um dos nomes mais promissores. O sucesso começava assim de forma gradual.
Antes de se tornar conhecida do público brasileiro, participou de uma turnê internacional (1973), organizada por aquele que se tornaria um dos grandes incentivadores, Hermínio Bello de Carvalho. A excursão internacional, intitulada Panorama Brasileiro, incluía no roteiro o Olympia em Paris, entre outras cidades europeias. Em 1974, Festa Brasil, percorre 20 cidades dos Estados Unidos, além do palco do teatro anexo do Madison Square Garden (Nova York). A turnê foi um grande sucesso e originou os discos Brasil Export 73 e Festa Brasil (lançado nos Estados Unidos) – ambos produzidos por Hermínio Bello, que ainda produziria os dois álbuns subsequentes, Quatro Paredes e Gotas d´Água; neste último a produção foi realizada em parceria com Milton Nascimento. Em 1976, ao lado de Vinícius de Moraes e Toquinho participa do Circuito Universitário, uma série de apresentações, que além do Brasil, viajou a Argentina, Uruguai, Chile, México e Brasil.
Quatro anos depois de estrear (1977) realizou a primeira apresentação solo, o show Face a face (Museu de Arte Moderna, RJ, com direção de Antonio Bivar). O ano marcaria o primeiro grande momento de reconhecimento, com as canções “Gota d´água”, “Face a face”, “Jura Secreta” e “O que será”. No Projeto Seis e Meia foi ovacionada por crítica e público quando interpretou “Gota d´água”, até hoje considerada uma das melhores apresentações da carreira: “Foi uma loucura total. Aquela gente toda – a quem se atribuía inicialmente apenas a vontade de ver Belchior – mostrou, na hora, que queria me ver também. O público foi ouvir os dois e, para mim, isso esclareceu algumas críticas ao meu trabalho. Diziam que eu era cantora de elite, que só escolhia compositores de elite para cantar para uma elite. E embora não cante músicas de parada de sucesso, foi o povo mesmo que foi ao Seis e Meia daquela semana, independente de qualquer coisa.”. O grande sucesso cinematográfico da época, Dona Flor e Seus Dois Maridos (Bruno Barreto), trouxe Simone cantando O que será na trilha sonora e foi gravada pela primeira vez em 1976, levando o nome da cantora aos quatro cantos do país. Lançada no disco Face a Face, a canção “Jura Secreta” (Sueli Costa e Abel Silva) foi a primeira interpretação de Simone constar de uma novela, O Profeta, (TV Tupi, Ivani Ribeiro).
No ano seguinte (16 de junho a 15 de setembro de 1978) estava entre os artistas do ambicioso Projeto Pixinguinha, e, ao lado de Sueli Costa, apresentou-se nas principais capitais do país. Um excerto do Projeto comenta o progresso da carreira: “Em 77, além do lançamento do LP Face a Face e da trilha sonora do filme Dona Flor e seus Dois Maridos fez muito sucesso num espetáculo no MAM. No Teatro Clara Nunes, com direção geral de Hermínio Bello, apresentou-se em Face a Face. Em cada espetáculo vem se projetando e se coloca, no momento, entre as melhores cantoras brasileiras. Acabou de gravar Cigarra, com músicas de Gonzaguinha (“Petúnia Resedá”), Fagner e Abel Silva (“Sangue e Pudins”), Milton Nascimento e Ronaldo Bastos (“Cigarra”). (Excerto: Funarte) Década de 1980.
O grande sucesso da canção “Começar de Novo”, tema de abertura do seriado Malu Mulher e uma das primeiras canções feministas da música brasileira, foi registrado pela primeira vez no disco Pedaços, em 1979. Considerado um divisor de águas na carreira, o espetáculo homônimo (30 de dezembro de 1979, Canecão) foi gravado ao vivo e lançado em disco em 1980, sob o título Simone ao Vivo (primeiro gravado ao vivo). Sucesso de público e crítica, Pedaços teve a primeira apresentação em outubro e foi considerado o melhor do ano; em termos de público, mais de 120.000 pessoas em todo o país só foi superado pelo espetáculo anual de Roberto Carlos. Dirigido por Flávio Rangel, que incluiu a canção “Pra não dizer que não falei das flores” no repertório, celebrando a primeira audição da canção antológica na voz e a primeira interpretação engajada da carreira, e que só não ficou mais conhecida do que a do próprio compositor Geraldo Vandré. Simone foi a primeira artista a cantar ‘Para não dizer que não falei das flores’ após a liberação pela censura. O sucesso lhe rendeu o primeiro disco de ouro e um especial da Rede Globo, gravado ao vivo no Teatro Globo (2 de março de 1980). O programa, chamado Simone Bittencourt de Oliveira, foi o primeiro da série Grandes Nomes.
“Caminhando” seria interpretada ainda em 1982, no Estádio do Morumbi, no espetáculo Canta Brasil; segundo o Jornal da Tarde (1982):`Simone foi a responsável pelo momento de maior participação popular e entrou no palco com a certeza de que isto aconteceria, mas não conseguiu conter a emoção, aliás, como dezenas de pessoas, diante de um coro de cem mil vozes. Em matéria publicada na Revista Veja (março de 1982): Simone Bittencourt de Oliveira nasceu duas vezes. A primeira, em 1949, num bairro de classe média de Salvador, na Bahia. A segunda, na noite de 7 de fevereiro passado, no estádio do Morumbi, em São Paulo, quando ergueu um coro de 90.000 vozes na apoteose do espetáculo Canta Brasil, com a canção Caminhando nos lábios e lágrimas nos olhos. Quando terminou de cantar, era mais uma estrela no céu.
Uma cantora cujos espetáculos se encerravam com flores distribuídas ao público, tornava-se não só uma grande voz para os versos de Vandré, mas também, ao lado de outros artistas, vivenciava-os: Ainda fazem da flor seu mais forte refrão, E acreditam nas flores vencendo o canhão. Ao final do espetáculo Delírios e Delícias (1983) clamou pelas Diretas Já; em 1989, ao lado de Marília Pêra e Cláudia Raia, declarou e apoiou o então candidato Fernando Collor de Mello. O despertar de uma postura artística engajada acompanharia toda a carreira, sendo enfatizada por interpretações de sambas como “Disputa de Poder” e “Louvor a Chico Mendes”, além de “Maria, Maria”, “Uma nova mulher”, “O sal da Terra”, “Será”, “Pão e poesia”, “Isto aqui o que é”, “É”, “O tempo não para”, “Blues da piedade”. Outro grande sucesso, “Tô Voltando”, um samba que canta a volta para a casa de um casal apaixonado, foi associado à ditadura militar e aos que retornavam ao Brasil depois do asilo político dos anos 1970.
O ano de 1982 foi marcado por grandes recordes de público, como na temporada de nove apresentações no Ginásio do Ibirapuera, em 3 semanas seguidas, com cerca de 15 mil pessoas, por noite, dando um total aproximado de 135 mil pessoas: “No último fim de semana, quando lotou o ginásio do Ibirapuera, também em São Paulo, com 45 000 ingressos vendidos em apenas 48 horas para três apresentações, ela mostrou que a nova estrela gosta de brilho, e muito. Com a programação de mais três espetáculos extras no próximo fim de semana, ela passa a recolher recordes; ao final do último show, será a artista brasileira que mais vezes se apresentou num ginásio de 15 000 lugares num espaço de tempo tão curto”. Foi em 1982 também que recebeu a primeira indicação para o Troféu Imprensa de melhor cantora, seguiram-se mais 10 indicações para o prêmio e a conquista do troféu no ano de 1987, ao lado de Marina Lima.
A primeira cantora a interpretar “Caminhando” depois da liberação da censura, seria também, aos trinta e dois anos, a primeira cantora a lotar sozinha um estádio, o Maracanãzinho, em 1981, com o espetáculo Amar; superlotou também o Mineirinho e o ginásio da Pampulha; no mesmo ano lançou Encontros e despedidas. Pioneirismo evidenciado em outras ocasiões como quando gravou, muito antes de Paul Simon ou Michael Jackson, com o Grupo Olodum da Bahia; ou quando, num dos espetáculos, surpreendeu a plateia levando para o palco uma cama, um ano antes da popstar Madonna chocar o mundo com a mesma ideia. Quatorze anos mais tarde, em 1995, foi a primeira cantora de renome a gravar um disco inteiro exclusivamente com canções natalinas. Em dezembro de 1983 parou a Quinta da Boa Vista onde uma multidão de 220 mil pessoas foram assisti-la na primeira transmissão ao vivo da história da ‘Rede Globo’ para um espetáculo de final de ano.
A partir da segunda metade da década de 1960 (1965), em plena efervescência da contracultura e no rescaldo do pós-bossa-nova, estrearam na televisão brasileira os especiais do Festival de Música Popular Brasileira (TV Record). Contemporâneos da Jovem Guarda e do Tropicalismo os Festivais açambarcavam todos esses estilos, a bossa nova, o rock vanguardista da Jovem Guarda e o ecletismo do tropicalistas -e ainda seria o palco de estreia de um novo e definitivo estilo, a MPB, inaugurado com a interpretação antológica da novata Elis Regina, então com apenas 20 anos de idade recém- completados, cantando “Arrastão”. Durante duas décadas a televisão brasileira foi marcada pelo sucesso da transmissão desses espetáculos que apresentavam os novos talentos, registrando índices recordes de audiência. O especial Mulher 80 (Rede Globo) foi um destes marcantes momentos da televisão; o programa exibiu uma série de entrevistas e musicais cujo tema era a mulher e a discussão do papel feminino na sociedade de então abordando esta temática no contexto da música nacional e da ampla preponderância das vozes femininas, com Elis Regina, Maria Bethânia, Fafá de Belém, Marina Lima, Simone, Rita Lee, Joanna, Zezé Motta, Gal Costa e as participações especiais das atrizes Regina Duarte e Narjara Turetta, que protagonizaram o seriado Malu Mulher.
Nos anos oitenta, que foram marcados pelo reconhecimento de grandes cantoras na MPB, firmava-se assim como uma recordista de público e de vendagem e o nome “Simone” despontava como um dos grandes nomes da indústria fonográfica nacional. A maior temporada ocorreu na tradicional casa carioca, Scala II (1986), durante oito meses seguidos e é o maior público já registrado, de 220 mil pessoas em uma única apresentação, ao ar livre. O sucesso de público, vendagem e o repertório refinado situaram-na como um dos nomes mais respeitados da “MPB”; de cantora elitista, passaria, a partir de meados da década de 1980, com a seleção de um repertório excessivamente popular, pela fase mais obscura da carreira, enfrentando o estigma da crítica especializada que desmerecia a interpretação, arranjos e compositores escolhidos—foi a chamada fase brega, que de uma maneira geral marcou os anos 1980 pela exacerbação aos apelos do romantismo.
Originalmente idealizado para a montagem do ballet teatro do Balé Teatro Guaíra (Curitiba, 1982), o espetáculo O Grande Circo Místico foi lançado em 1983. Simone integrou o grupo seleto de intérpretes que viajou o país durante dois anos com o projeto, um dos maiores e mais completos espetáculos teatrais já apresentados, para uma plateia de mais de 200 mil pessoas. Simone interpretou a canção Meu namorado, composta pela dupla Chico Buarque e Edu Lobo. O espetáculo conta a história do grande amor entre um aristocrata e uma acrobata e a saga da família austríaca proprietária do Grande Circo Knie, que vagava pelo mundo nas primeiras décadas do século. Um dos maiores sucessos da carreira seria lançado no ano seguinte, em 1983: “O Amanhã” foi o samba enredo da União da Ilha em 1978 e neste mesmo ano gravada por Elizeth Cardoso, mas foi com a primeira gravação de Simone, em 1983 (CD “Delírios e Delícias” e regravada no CD “Simone ao vivo”), que a canção se popularizou.
Valendo-se ainda do filão engajado da pós-ditadura e feminismo, cantou, ainda que com uma participação individual diminuta, no coro da versão brasileira de We Are the World, o hit americano que juntou vozes e levantou fundos para a África ou USA for Africa. O projeto Nordeste Já (1985), abraçou a causa da seca nordestina, unindo 155 vozes num compacto, de criação coletiva, com as canções “Chega de mágoa” e “Seca d´água”. Elogiado pela competência das interpretações individuais, foi, no entanto, criticado pela incapacidade de harmonizar as vozes e o enquadramento de cada uma delas no coro. Também em 1985 cantou no coro de vozes latinas Cantarei, Cantarás.
Em 1989, dez anos depois de conquistar o primeiro disco de ouro, a artista figurava entre os poucos a ainda protagonizar especiais televisivos: Simone – especial (Rede Globo) apresentou trechos do espetáculo Sedução, em cartaz no Palace (São Paulo); dividiu o palco na tradicional apresentação de final de ano cantando ao lado de Roberto Carlos. Participou também do especial da Rede Globo Cazuza – Uma prova de amor, interpretando ao lado de Cazuza a canção Codinome Beija-flor. No LP Vício grava Louvor a Chico Mendes ao vivo com a Caprichosos de Pilares.
Em 1991 gravou um clipe para o programa Fantástico, idealizado pelo sociólogo Betinho, intitulado “Luz do Mundo”, para arrecadar fundos para a reabilitação de menores. Dos álbuns gravados depois da década de 1980, uma época considerada de apelo mais popularesco, destacam-se Simone Bittencourt de Oliveira (1995), que trouxe baladas entre outros clássicos e sambas; Café com leite (1996, um tributo a Martinho da Vila) – trabalhos referidos como um reencontro com um repertório mais seletivo e arranjos mais apurados. Em 1995 lançou o Cd 25 de Dezembro, exclusivamente com canções natalinas, e obteve a maior vendagem da carreira, mais de um milhão e meio de cópias vendidas em apenas um mês e meio: Ao lançar, no ano passado, o disco natalino 25 de Dezembro, a cantora Simone quebrou um tabu. Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos e na Europa, os cantores brasileiros não têm o costume de lançar, no mês de dezembro, discos com músicas de Natal (Revista Veja).
Flávio Rangel, Jorge Fernando, José Possi Neto, Nelson Motta, Ney Matogrosso e Sandra Pêra são alguns dos nomes que assinam a direção dos espetáculos. O show Sou Eu ganhou o prêmio de melhor do ano em 1992 e originou o álbum homônimo — comemorativo dos vinte anos de carreira, que trazia regravações dos antigos sucessos entre outras canções consagradas. Em 1997 apresentou-se na casa de espetáculos carioca Metropolitan, com Brasil, O Show, dirigido por José Possi Neto apresentando clássicos do samba (Paulinho da Viola, Adoniran Barbosa, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Gonzaguinha, Mário Lago) entre outras gravações do álbum de estúdio do ano anterior, Café com leite.
Os álbuns Seda Pura (2001) e Feminino (2002) marcaram as mais baixas vendagens da carreira e repertórios de estilo pouco explorado até então, o pop. Baiana da gema, um tributo a Ivan Lins (2004, 2005), de repertório inédito do compositor, foi apresentado no eixo Rio-São Paulo. Em maio de 2006, num pocket show, no cenário intimista de uma casa noturna paulistana, exibiu um repertório romântico ao público que se encantou com arranjos originais, em tom jazzístico, para o “Projeto Credicard Vozes”. Outras recentes apresentações, no Peru, foi aplaudida de pé por mais de cinco minutos; em Miami, ao lado do parceiro Ivan Lins, obteve reconhecimento da crítica que considerou a apresentação uma das melhores dos últimos anos na Flórida. Em 2007 a parceria com Zélia Duncan foi registrada no CD e DVD Amigo é Casa (Biscoito Fino), que exibiu, além de regravações, canções inéditas na voz das artistas e apresentações pelas capitais do país, além de Portugal (2008).
Uma edição da década de 1970 foi organizada pelo jornalista e pesquisador Rodrigo Faour e lançada em 2009 pela EMI. Considerada a fase de maior qualidade vocal e musical, o box com 11 CDs reúne a obra completa deste período no qual a artista impos-se à crítica com interpretações definitivas e sucesso crescente junto ao público: Tá aí toda a minha formação musical, foi quando eu aprendi a mexer com estúdio, mixagem, tudo. Acho também que foi uma grande década da música brasileira, muito importante para as pessoas da minha geração. Claro que hoje eu faria algumas coisas diferentes. Mas a vida não tem ensaio….
Na Veia foi lançado em agosto de 2009 (Biscoito Fino), sem estilo musical definido, exibindo um repertório eclético que mescla o samba, o pop e o romântico para, segundo a cantora, “passar alegria e esperança”. Simone assina a composição de “Vale a pena tentar”, parceria com Hermínio Bello de Carvalho, segunda canção composta pela cantora que já havia estreado com Merecimento, ao lado de Abel Silva (1982): “Minhas composições eu não mostro pra ninguém, nem pra mim (risos). No caso desta com Hermínio, de 76, fiz a melodia e um esboço da ideia da letra, que era uma resposta à ‘Proposta’, do Roberto. Depois a entreguei pro Hermínio resolver algumas passagens da letra e só agora me liberei pra gravar. Como estou me reaproximando do violão, pode ser que venham algumas coisas por aí. Eu sempre tive muito pudor em colocar qualquer música minha. Mas um dia eu peguei o violão e cantei para o Rodolfo (Stroeter, do grupo Pau Brasil, produtor do CD) e a Kati (diretora da Biscoito Fino) e eles disseram: Você tá maluca de não gravar isso!? Em 76, depois de pronta, a música chegou a ser mandada para Roberto Carlos – disseram que ele gravou, mas não saiu”.

COMEÇAR DE NOVO

COMPOSIÇÃO: IVAN LINS / VITOR MARTINS

Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido

Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Sem as tuas garras, sempre tão seguras
Sem o teu fantasma, sem tua moldura
Sem tuas escoras, sem o teu domínio
Sem tuas esporas, sem o teu fascínio

Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Sem as tuas garras, sempre tão seguras
Sem o teu fantasma, sem tua moldura
Sem tuas escoras, sem o teu domínio
Sem tuas esporas, sem o teu fascínio

Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena já ter te esquecido

OUTROS OLHARES

HOMEM AUMENTA IDA AO MÉDICO, MAS A MULHER CUIDA MAIS DA SAÚDE

Embora tenha aumentado em 49,96% a procura do homem pelo médico entre 2016 e 2020, de acordo com o SUS, passando de 425 milhões de atendimentos para 637 milhões, os homens estão bem atrás das mulheres em termos de atenção à saúde. Dados de 2019 revelam que apesar de 76,2% da população terem ido ao médico naquele ano, o que corresponde a cerca de 160 milhões de pessoas, a proporção de mulheres (82,3%) superou em muito a dos homens (69,4%).

Por isso, a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) lançou dia 15, quando se comemorou o ‘Dia do Homem’ no Brasil, campanha de conscientização e valorização dos cuidados com a saúde pelos homens e seus filhos do sexo masculino. O presidente da SBU, Antônio Carlos Pompeo, ressaltou que a mulher vive em torno de sete a dez anos mais do que o homem, por várias razões, inclusive hormonais, e que a maior atenção dada pelo sexo feminino à saúde vem desde a adolescência.

O homem, pela característica machista, muitas vezes considera a ida ao médico como uma fraqueza. Pesquisa feita pela SBU com crianças e jovens estudantes na faixa etária de 12 a 18 anos de idade mostrou que 30% das meninas nessa fase já foram a uma consulta médica, contra 1% dos homens. Com adolescentes masculinos, 44% não usaram preservativo na primeira relação sexual e 35% não usam, ou usam raramente, nas relações sexuais. 38,57% dos meninos afirmaram não saber sequer colocar o preservativo.

Os reflexos dessa falta de conscientização serão sentidos depois, como a incidência de doenças sexualmente transmissíveis, sexo desprotegido, gestações indesejáveis. Pompeo acrescentou que, durante a vida, as mulheres vão regularmente ao médico, de forma preventiva, mas isso não é frequente, entretanto, entre os homens. “Os homens vivem menos que as mulheres porque não têm o hábito de cuidar da saúde”.

Pompeo destacou que nos anos de 1950, a expectativa de vida de uma pessoa era de 50 a 55 anos de idade. Hoje, é de quase 80 anos. “Mudamos hábitos, surgiram tratamentos mais eficazes, ganhamos 50% de vida a mais”. Por isso, disse ser extremamente importante que o homem procure assistência médica preventivamente.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 26 DE JULHO

CAMINHOS ENGANOSOS

Há caminho que parece direito ao homem, mas afinal são caminhos de morte (Provérbios 16.25).

Nem sempre as coisas são o que aparentam ser. Há muita ilusão ótica. Há muitas miragens. Muitos brilhos falsos. Muita propaganda enganosa. As aparências enganam. Nem sempre nossa percepção é confiável. Há caminho que parece direito ao homem. Seus aspectos externos são bastante semelhantes aos caminhos de vida. Mas o seu destino final é a morte. Jesus contou sobre o homem imprudente que edificou sua casa sobre a areia. Tudo naquela casa era parecido com a casa edificada sobre a rocha. O telhado, as paredes, as portas e as janelas. Mas o fundamento estava plantado na areia, uma base absolutamente frágil. Quando caiu a chuva sobre o telhado, o vento soprou contra a parede, e os rios bateram no alicerce, essa casa ruiu, e foi grande a sua ruína. É comum as pessoas afirmarem: Toda religião é boa. Todo caminho leva a Deus. O que importa é ser sincero. Mas essas opiniões estão longe de ser verdadeiras. Nenhuma religião pode dar-nos salvação. Só há um caminho que nos conduz a Deus. Jesus Cristo afirmou: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim (João 14.6). Só existe um caminho seguro para o céu: é Jesus. Só há uma porta de entrada no céu: é Jesus. Fora dele não há salvação. Os outros caminhos podem parecer direitos ao homem, mas são caminhos de morte.

GESTÃO E CARREIRA

AVON VOLTA À ORIGEM PARA RETOMAR CRESCIMENTO

Novos benefícios a revendedoras são aposta da marca para estancar perda de receita

Quando assumiu a presidência da Avon, às vésperas do fechamento da economia por causa da pandemia de Covid- 19, o executivo Daniel Silveira, que tinha longa trajetória na Natura, sabia que havia um caminho ladeira acima a ser trilhado: afinal, a marca de cosméticos tinha passado por uma recuperação judicial e estava com a imagem envelhecida. Quase 18 meses depois, e após algumas ações para dar nova roupagem à marca, o executivo lançou nesta semana uma importante frente de revitalização do negócio, concedendo benefícios inéditos a um público vital para a Avon: as revendedoras.

O investimento, que inclui benefícios até então inéditos para as parcerias de negócio – que são uma base flutuante e que trabalham por comissão -, visa à recuperação da marca, que é um projeto do Grupo Natura & Co. (também dono da Natura, The Body Shop e Aesop) para disputar o segmento de preço de entrada. Hoje, a Avon é, de longe, a marca de resultados mais fracos dentro da gigante brasileira dos cosméticos.

No primeiro trimestre, apesar da forte exposição da marca no programa Big Brother Brasil, as receitas fecharam em queda de 2,8% no Brasil, segundo os resultados da Natura & Co.  No mundo, o faturamento da Avon caiu 10,7%, quando se descontam efeitos cambiais. A companhia está muito atrás de suas irmãs: de janeiro a março de 2021, a margem bruta da Avon foi de 4,1%, bem abaixo dos patamares da Natura (12,2%), The Body Shop (14,7) e da luxuosa Aesop (acima de 26%).

A priorização das revendedora está relacionado ao fato de que a Avon vem sofrendo com uma “sangria” de parceira ao longo de 2020 e também no começo de 2021: no primeiro trimestre, o total de consultoras caiu 4,7% em relação ao mesmo período do ano passado. Apesar disso, a marca segue sendo uma gigante em termos de força de venda: hoje mantém 1,3 milhão de revendedoras cadastradas no país.

Nesta semana, o presidente da Avon Brasil apresentou um pacote de benefícios inéditos para revendedoras, que inclui remunerações maiores e também descontos em serviços como faculdades, escolas de idiomas, medicamentos, exame, consulta médica e odontológicas. Além disso, explicou Silveira, a barreira de entrada de novas parceiras está sendo reduzida: o investimento mínimo em produtos para quem quer começar a revender vai cair de R$250 para R$150.

IMAGEM DA MARCA

Quem assistiu ao Big Brother Brasil deste ano percebeu que a Avon usou a visibilidade do programa, que bateu recordes de audiência na TV Globo, para associar a marca a novas causas, como a diversidade sexual e de raça. “Desde sua origem, em 1885, a Avon trazia as mulheres como protagonistas de seus destinos”, diz o presidente da Avon, no Brasil. “Então, embora a questão da mulher siga sendo um tema importante nos dias de hoje, muitos temas de diversidade ganham igual importância – e percebem uma janela enorme para discutir essas questões.” Outra questão a ser trabalhada, além da imagem que a marca passa para a consumidora, é o posicionamento dentro do portfólio da Natura & Co. A Avon, que tem preços mais baixos do que a Natura, chega para ser uma ”porta de entrada” para o consumo de cosméticos. Para equilibrar melhor o portfólio de produtos e garantir um bom custo-benefício para a clientela, a Avon também está em uma fase de redução de sua oferta, especialmente na linha de moda e casa.

Para Jaime Troiano, presidente da Troiano Branding, que já fez trabalhos para a Avon no passado, o foco na revendedora é essencial. Isso porque, seja na porta ou pelo WhatsApp ou outras ferramentas digitais, essa profissional faz algo que nunca sai de moda: a venda consultiva, “Essa venda por relacionamento pode não ser mais tão importante nas áreas metropolitanas, mas certamente faz muita diferença em cidades menores”, diz o consultor.

Já a extensão da Avon para causas além do empoderamento feminino ou de questões de saúde da mulher é algo que tem de ser avaliado com cuidado, na visão do especialista. “Será que esse é o melhor caminho para a Avon ou só uma oportunidade? Tem tanta gente falando hoje de diversidade que a marca corre o risco de perder sua individualidade (ao entrar em uma área tão disputada)”, diz Troiano. “Na minha opinião, todas as marcas devem proteger aquilo que é só dela,  o que faz parte de seu projeto original de criação.”

EU ACHO …

DIA DE TEREZA

Entre passos adiante e para trás, aprendo com a história de Benguela que devemos celebrar mulheres negras e indígenas alcançando cada vez mais espaços

Ontem foi o dia da mulher negra latino-americana e caribenha. Para muitos pode representar um nome grande, difícil de repetir e urna data ainda não tão familiar.

A data foi estabelecida a partir de uma reunião de mulheres negras e indígenas em 1992, em Santo Domingos, na República Dominicana, em uma pressão para que a ONU assumisse as lutas de raça e gênero.

No Brasil também ficou conhecido como Dia de Tereza de Benguela, uma homenagem à mulher que resistiu à escravidão e ficou célebre por liderar o quilombo Quariterê. Certamente, se eu posso escrever aqui hoje é também por causa da sua luta e de seu legado. Ainda temos muito a avançar, mas também precisamos celebrar aquelas que entenderam que, se não levantassem suas vozes e até arriscassem suas próprias vidas, nada mudaria.

“E não sou eu uma mulher? ” Trago este famoso questionamento de Sojourner Truth para esses diálogos sobre o quanto a luta pela igualdade de gênero ainda anda em descompasso. Abolicionista e ex- escravizada nos Estados Unidos, Trulh levantou esse questionamento em 1851, quando não recebia ajuda dos homens para subir nas carruagens ou passar pelas poças de lama, apoio que só era oferecido para as brancas.

Aqui no Brasil, as mulheres brancas pertencentes às elites começaram a entrar nas universidades em 1879. Enquanto isso, mulheres e homens negros ainda eram escravizados até 1888. O descompasso segue até hoje: 70% das babás são negras, e 99% das mulheres em conselhos de administração de empresas são brancas.

Não dá para dizer para falarmos primeiro sobre mulheres e, depois, sobre raça. Ao evitar combater os efeitos do racismo estrutural, à medida em que avançam nas conquistas feminista, muitas mulheres brancas reproduzem a opressão que vivem na luta antimachista.

Entre passos adiante e para trás, aprendo com a história de Benguela que devemos celebrar mulheres negras e indígenas alcançando cada vez mais espaços. Ao olhar a dura história de resistência por existência, entendo que uma da maiores disrupções que uma mulher negra ou indígena pode produzir na sociedade é a de ser feliz.

Somos muitas vezes vistas com arquétipos de tristeza, subserviência e dependência, que também são efeitos da perpetuação do racismo estrutural. E, quando conseguimos subverter essa lógica e nos sentimos felizes, rompemos com esse ciclo cruel.

Angela Davis já dizia em sua famosa frase: “Quando a mulher negra se movimenta, toda sociedade se levanta junto com ela e entendemos que se a base sobre toda sociedade se levanta, todos ganham. Se Davis é cânone para essa reflexão, entendo que também precisamos ler mais Lélia Gonzales, para além de Angela Davis (palavras da própria Angela Davis que acha que nós podemos reverenciar ainda mais nossas próprias referências negras e indígenas). Lélia, além de falar sobre feminismo negro, cunhou o conceito de amefricanidades para pautar centralmente um olhar sobre as experiências dos negros e indígenas a partir das diásporas da América latina.

Precisamos combinar mais estratégias para alcançarmos conquistas coletivas e por isso mais fortes. Valorizar-nos e nos unir ainda mais. Por isso, sou tão favorável a redes de mulheres negras profissionais e mães, entre outras. Juntas e trocando informações, somos mais fortes. Que nossas vitória individuais e coletivas avancem e possamos celebrá-la não somente hoje, mas nos outros 365 dias do ano. O dia de Tereza é também de todas nós.

*** LUANA GÉNOT

lgenot @simaigualdaderacial.com.br  

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PANDEMIA PODE AUMENTAR CASAMENTOS INFANTIS E REVERTER PROGRESSO DE 25 ANOS

Evasão escolar e crise econômica, agravadas pela crise sanitária, favorecem matrimônio precoce

“Naquele momento, todos os meus sonhos foram destruídos. Assim a indiana Sunita, 16, descreve como se sentiu ao descobrir que seria forçada a se casar e deixar a escola, aos 12 anos. Hoje ativista pelos direito das meninas em sua comunidade, ela deu seu depoimento à ONG Save the Children.

A cada ano, 12 milhões de garotas têm a infância abreviada por serem obrigadas a se casar cedo demais. Esse cenário vem melhorando, e nos últimos melhorando, e nos últimos dez anos a proporção de mulheres comprometidas antes dos 18 anos no mundo caiu de 1 em cada 4 para 1 em cada 5.

Mas agora a tendência de queda está ameaçada pela pandemia. Um estudo da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) estima que a crise sanitária deve empurrar 10 milhões de meninas para casamentos precoces na próxima década. Esse número se somará aos 100 milhões já previstos anteriormente para o período, correndo o risco de reverter um progresso de 25 anos de redução do índice.

O tema virou motivo de preocupação de várias entidades, inclusive no Brasil – quarto país do mundo com mais casos -, e até do Banco Mundial, que já estimou que os casamentos infantis farão os países em desenvolvimento perderem trilhões de dólares até 2030. Segundo a ONG Visão Mundial, o aumento no número de casamentos infantis já está sendo sentido desde o ano passado. De março a dezembro de 2020, suas equipes receberam mais do que o dobro de chamados para atuar em casos do tipo do que no mesmo período de 2019.

Já a Save the Children divulgou que a pandemia levou a um aumento de ao menos 1 milhão no número de meninas grávidas em um dos maiores motivadores do casamento precoce, que afeta muito mais mulheres que homens.

Dos 12 milhões de garotas que se casam anualmente, 2 milhões têm menos de 15 anos. “E essas são apenas as que nós conhecemos. Acreditamos que seja o topo do iceberg”, afirma a organização. Como muitas uniões não são oficializadas – e essa informalidade é maior na América Latina e no Caribe -, os números reais provavelmente são bem maiores.

“Além de afetarem diretamente a saúde das pessoas epidemias frequentemente têm efeito desproporcional sobre mulheres e meninas”, diz Rita Soares, diretora de aprendizado e impacto da organização Girls not Brides. “Muitos dos fatores complexos que favorecem o casamento infantil em ambientes estáveis são exacerbados em situações de emergência, quando estruturas familiares e comunitárias se deterioram”, explica. “Uma pandemia como essa apresenta desafios únicos que podem aumentar o número de casamentos infantis tanto na fase aguda quanto na de reconstrução”.

São vários mecanismos pelos quais a crise sanitária contribui para o problema. O fechamento das escolas é um dos principais, já que há evidências de que a educação é um dos maiores antídotos contra o casamento precoce. Estatisticamente, quanto mais tempo uma menina frequenta as aulas, menor é o risco de se casar antes dos 18 anos. Calcula-se que cerca de 1,6 bilhão de crianças no mundo tiveram que interromper os estudos devido à Covid-19, e 11 milhões de garotas podem abandonar a escola em 2021. Muitas nunca vão retornar.

Segundo a experiência com o surto de ebola na África Ocidental de 2013 a 2016, quanto mais tempo as aulas são suspensas, menor é a chance de que as meninas voltem a estudar depois, especialmente se elas não tiveram acesso à educação a distância. Além disso, fora da escola as crianças passam mais tempo em casa sem supervisão, ficando expostas a abusos e a atividades sexuais no geral, o que pode levar a uma gravidez indesejada.

A suspensão do atendimento em serviços de saúde sexual e reprodutiva na quarentena, dificultando o acesso a contraceptivos, também favorece as gestações em adolescentes.

A crise econômica decorrente da pandemia é outro fator importante nessa equação. “O casamento da menina alivia a família do estresse econômico de duas maneiras: a perspectiva de receber um dote e o fato de ter menos bocas para alimentar, diz o documento do Banco Mundial. “A insegurança econômica causada pela recessão em comunidades já vulneráveis está forçando as famílias a casarem suas filhas mais novas, vistas como um fardo financeiro, e não como potenciais trabalhadoras que vão ganhar salários”.

Nas comunidades nas quais o noivo paga um dote à família da noiva, o incentivo é ainda maior. Quando é o contrário, há dois cenários. No geral, o casamento de meninas é desencorajado. Mas há pais que preferem destinar ao casamento as filhas muito novas, pois o dote tende a ser mais baixo quanto menor é a idade.

Casar cedo costuma mudar o curso de toda a vida de uma mulher. Estudos mostram que elas têm menor chance de negociar sexo seguro com o parceiro, ficando suscetíveis a adquirir infecções sexualmente transmissíveis e à gravidez. Gestantes jovens demais correm mais risco de intercorrências de saúde e até de não sobreviver ao nascimento.

Por terem que cuidar da casa e da família, muitas delas abandonam a escola e não constroem uma carreira. Elas também estão mais expostas à violência doméstica e a feminicídios. “O casamento infantil ajuda a perpetuar o ciclo da pobreza e tem consequências físicas, emocionais e psicológicas”, resume Soares.

As consequências não se restringem às mulheres. A sociedade como um todo perde, mostra estudo de 2017 do Banco Mundial. “O casamento precoce mina os esforços para combater a pobreza e alcançar equidade e crescimento econômico”, diz um dos autores.

Segundo a organização Save the Children, o sul da Ásia, a África Central e Ocidental e a América Latina e Caribe são as regiões com mais risco de registrarem aumento de casamentos infantis na pandemia.

“No Brasil, assim como no mundo, as causas que levam ao casamento infantil estão muito ligadas à pressão familiar por uma questão moral, de perda de virgindade ou gravidez durante uma relação, e fatores econômicos, quando o casamento é imposto como forma de trazer mais renda, por ser mais uma pessoa trabalhando”, aponta Itamar Goncalves, gerente de advocacy da Childhood Brasil. A associação trabalha pela proteção à infância e à adolescência.

O país, no entanto, não tem um monitoramento contínuo da questão. A última Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher foi realizada em 2006. Com os números daquela época, o Brasil fica em quarto lugar no ranking absoluto, com 3 milhões de mulheres de 20 a 24 anos que se casaram antes dos 18 anos, ou 36% do total das casadas nessa faixa etária. O matrimônio de menores de 16 anos é proibido no Brasil, mas a legislação é recente, aprovada em 2019. Até aquele ano, era possível se casar para evitar pena criminal por estupro de vulnerável ou devido à gravidez. Hoje, jovens entre 16 e 18 anos podem se casar se forem autorizados pelos pais ou por meio de processo judicial.

O Brasil não conta com um programa do governo para lidar com a questão, segundo o gerente da Childhood, o que para ele faz parte das soluções necessárias. Gonçalves pontua ainda “a importância de dar visibilidade ao tema tanto em casa como nas escolas, por meio da educação sexual, além da lei nua e crua no papel”.

Para ele, aliás, a legislação deveria proibir completamente o casamento antes dos 18 anos, sem exceção. Por fim, um programa que de fato empoderasse as meninas para realizarem projetos de vida também é peça-chave, aliado à conscientização da população. “Isso passa como algo marginal, como se não fosse um problema da nossa sociedade”.

Acabar com o casamento infantil até 2030 é uma das metas de desenvolvimento sustentável da ONU. Além de leis e políticas públicas protetoras da infância, as soluções passam por garantir educação e saúde sexual e reprodutiva, fazer campanhas de conscientização e incluir as crianças e adolescentes nas ações. A piora prevista nos índices é uma probabilidade, mas não precisa ser uma sina, diz a Unicef. “Programas efetivos aplicados em larga escala podem adiar a idade em que os jovens se casam e reduzir o número adicional de casamentos infantis pela metade”.