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MENOS ‘AMOR’ POR FAVOR!

Os arromânticos, pessoas que não se apaixonam e já ganharam até uma Semana da Consciência sobre a comunidade, reivindicam em redes sociais e livros reconhecimento para sua maneira de se relacionar

O soldador catarinense Fabio Muller, 28 anos, nunca conseguiu sentir aquele “amor” que se vê em filmes, novelas e músicas. Casado há seis anos, ele tinha dificuldade em retribuir o romantismo do marido, gerando desgaste no relacionamento. Foi então que, numa pesquisa sobre bandeiras LGBTQIAP+ no ano passado, deparou-se com a das cores verde, branca e preta da arromanticidade.  Foi uma revelação: Muller passou a se identificar como um arromântico, ou seja, alguém que não   sente interesse romântico por outras pessoas. Os aros, como eles se apresentam, podem gostar de sexo (ou não), podem ter relacionamentos sérios ou superficiais, podem ser heteros, gays, bi, trans… A única invariável: eles não se apaixonam, pelo menos não da forma como os seus antônimos, os alorromânticos, entendem a ideia de “paixão”.

O que costuma ser visto como uma frieza emocional agora vem sendo reivindicado como uma identidade sexual. Os aros buscam reconhecimento como uma comunidade, expondo as suas vivências em redes sociais, fóruns, podcasts e livros. Já existe, desde o ano passado, uma Semana da Consciência do Espectro Arromântico, que acontece alguns dias após a maior data mundial da celebração romântica, a de São Valentim, em fevereiro.

“Meu marido entendia meu arromantismo como desinteresse da minha parte”, diz Muller, que volta e meia se vê obrigado a “desmontar” o romantismo do parceiro. “Antes de conhecer o termo, eu tinha dificuldade de expressar, eu mesmo achava que era uma pessoa que nunca tinha aprendido a amar. Gosto do meu marido, gosto da companhia dele, das conversas, da amizade, e do afeto, mas o romantismo é quase inexistente. O que tenho com ele é uma amizade mais íntima.

FONTE DA FELICIDADE

Na prática, um arromântico tem tendência a não gostar de demonstrações exageradas de afeto, como jantar romântico com mesa enfeitada, e acha embaraçosas as declarações muito efusivas. Alguns dizem e sequer sentem saudade. É claro que varia de pessoa para pessoa, já que existem diferentes graus de arromanticidade.

Criado em setembro por um grupo de 20 arromânticos, o perfil @aroaceiros publica conteúdo informativo sobre a arromanticidade no Instagram, além de relatos e fotos. Entre as pautas do grupo, está o que questionamento do amor romântico como “a única fonte de felicidade e realização pessoal do ser humano”, explica um de seus administradores, Ravi Pires, de 21 anos. Outra queixa é a hierarquização dos relacionamentos, que colocaria o romântico sempre como o mais importante.

“Essa hierarquização é forçada, e precisa ser repensada, não apenas aceita como padrão”, diz Ravi, que vê a arromanticidade como uma identidade ainda muito “invisibilizada”, mesmo em contextos e espaços LGBTQJAP+.

Psicóloga e pesquisadora de políticas identitárias, Fabiana Araújo conta que, no consultório, ouve cada vez mais questionamentos sobre o “romântico” na vida. Um sinal, segundo ela, de que as pessoas estão tentando construir novas maneiras de “existir” em relações.

“É possível dizer que o sujeito arromântico tenta transcender modelos pré-estabelecidos de como se afetar diante das trocas íntimas”, diz ela.  “Isso não quer dizer pegação, frieza, ou falta de responsabilidade afetiva. O que está em jogo é o desejo do sujeito diante das relações consigo e com o mundo. Essa possibilidade, hoje, é infindável.

Também pelo fato de a nomenclatura ainda ser pouco difundida, muitas pessoas demoram para se declarar como membros da comunidade. Afinal, difícil negar que a cultura em que vivemos é voltada para o amor romântico. Na publicidade, na ficção e na maioria dos hits da indústria musical, o romantismo prevalece: como tema. Nos clássicos pagodes sentimentais ou nos romances açucarados, os que não se apaixonam ou é porque sofreram algum trauma e se desiludiram, ou porque ainda não encontraram a pessoa certa. Ou seja, outro papo.

Conhecida por narrar grandes paixões em livros como “O dia em que você chegou”. Nana Pauvolih admite que é difícil criar personagens que não se guiam pelo romantismo.

“Como escrevo romance, quem não se apaixona acaba virando coadjuvante”, diz ela.  “Difícil entender a parte psicológica de um personagem assim”.

SUSCETÍVEL À HISTÓRIA

O arromântico tem uma maneira só dele de pensar essas dinâmicas, como mostram obras recentes publicadas em plataformas digitais por escritores brasileiros, principalmente no gênero young adult. Entre as narrativas que trazem aros como protagonistas estão histórias como “Entre nós”, de Dayane Borges, “A coisa certa”, de Alanys Aleixo, e “Marcas do destino”, de Thais Lopes. Querendo dar visibilidade às suas próprias experiências, a escritora Mayara Barroli publicou o conto “A favorita”, sobre uma menina arromântica que passa o dia com uma amiga interessada por ela. No fim, ela se vê obrigada a tomar uma decisão sobre o relacionamento.

“Eu quis retratar uma relação em que ambas as personagens estavam se descobrindo, de forma a apresentar relacionamentos queer-platônicos para um público mais amplo também”, diz Mayara.  “Alguns leitores me falaram que se sentiram vistos pela primeira vez, o que me deixa extremamente feliz.

Como diz o Inescrupuloso publicitário Don Draper, da série “Mad Men”, “o que você chama de amor foi criado por caras como eu para vender náilon”. O psicanalista e professor da PUC-SP, Pedro Ambra concorda: o amor não é um sentimento espontâneo, mas algo que está suscetível ao malabarismo da História.

“Há poucas décadas, pedir a mão de uma menina para o seu pai podia ser visto como algo romântico, hoje já não é”, observa Pedro Ambra. “O amor é um jeito de viver por meio da linguagem, que vai se reconfigurando à medida que grupos vão reconhecendo suas formas. Afinal, há sempre um descompasso entre o  jeito que amamos e o jeito que gostaríamos de amar”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.