POESIA CANTADA

A NOVIDADE

GILBERTO GIL

Nascido aos 26 de junho de 1942, em Salvador, Bahia, GILBERTO Passos GIL Moreira, um dos maiores nomes da música popular brasileira, é um verdadeiro sincretismo musical. Transitando entre o baião, o funk, o rock, o afoxé, o samba, o reggae, o pop e a bossa nova, suas composições, de grande riqueza rítmica e melódica, mesclam a modernidade da vida urbana, como a tecnologia, aos elementos da cultura popular brasileira, como o carnaval, a religiosidade e a cultura africana, sem deixar de cantar o amor e a amizade. Nascido em Salvador, na Bahia, passou seus primeiros oito anos de vida em Ituaçu, em meio à banda local, aos sanfoneiros, aos cantores e violeiro à música de Bach e Beethoven e de grandes ídolos do rádio, em especial Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Em Salvador, formou-se em Administração de Empresas e conheceu, em 1963, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia e Tom Zé, com quem se apresentou em público pela primeira vez com o show “Nós, por Exemplo”, no Teatro Vila Velha (1964). Formado, conseguiu um estágio na Gessy Lever e mudou-se para São Paulo. Em 1966, concorreu como compositor no I Festival Internacional da Canção, da TV Rio, com “Minha Senhora”, na voz de Gal, e no II Festival de MPB, da Record, com “Ensaio Geral” (classificada em 5ª lugar), cantada por Elis Regina. Em 1966, Elis Regina gravou “Louvação”. Com o sucesso da música, foi convidado a gravar seu primeiro LP, “Louvação”, e abandonou a carreira de administrador. Influenciado pelos fenômenos da contracultura, pelo psicodelismo dos Beatles, pela montagem de “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, e pelos filmes de Glauber Rocha, iniciou o movimento tropicália, cujo deboche e irreverência revolucionaram a música popular brasileira. Durante o III Festival de MPB da TV Record, em 1967, com “Domingo no Parque” (cantada com os Mutantes), causou polêmica e obteve o 2ª lugar. Ao lado de Caetano Veloso, Gal, Rogério Duprat, Torquato Neto e os Mutantes lançou o disco “Tropicália ou Panis et Circensis” (1968). Com o Ato institucional número 5, foi preso e obrigado a exilar-se. Depois de passar dois meses na prisão, gravou “Aquele Abraço” e partiu para Londres (1969), onde lançou o disco “O Sonho Acabou”. Regressou ao Brasil em 1972, quando surgiu “Expresso 2222”, “Refazenda” (1975), “Os Doces Bárbaros” (1976), “Refavela” (1977), “Refestança” (1977), “Realce” (1979), revisitou a tropicáilia com Caetano Veloso, em “Tropicália II” (1993), gravou “Unplugged” (1994) e “Quanta” (1997). Gilberto Gil foi premiado com o Grammy na categoria de World Music em 1999, com o disco “Quanta Gente Veio Ver”

A NOVIDADE

COMPOSIÇÃO: BI RIBEIRO / GILBERTO GIL / HERBERT VIANNA / JOÃO BARONE

Uh! Heiê! Oh!
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Ah! Aaaah!
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Ah! Aaaah!
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Ah! Aaaah! Heiê! Heiê!
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Ah! Aaaah!…

A novidade veio dar à praia
Na qualidade rara de sereia
Metade o busto
D’uma deusa Maia
Metade um grande
Rabo de baleia…

A novidade era o máximo
Do paradoxo
Estendido na areia
Alguns a desejar
Seus beijos de deusa
Outros a desejar
Seu rabo prá ceia..

Oh! Mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Oh! De um lado esse carnaval
De outro a fome total
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!…

Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Ah! Aaaah!
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Ah! Aaaah!

E a novidade que seria um sonho
O milagre risonho da sereia
Virava um pesadelo tão medonho
Ali naquela praia
Ali na areia…

A novidade era a guerra
Entre o feliz poeta
E o esfomeado
Estraçalhando
Uma sereia bonita
Despedaçando o sonho
Prá cada lado….

Oh! Mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Oh! De um lado esse carnaval
De outro a fome total
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!…

Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Ah! Aaaah!
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Ah! Aaaah! Ah! Aaaah!
Ah! Aaaah! Ah! Aaaah!
Ah! Aaaah! Ah! Aaaah!

OUTROS OLHARES

O PODER INVISÍVEL

Não é mais ficção científica: a inteligência artificial está entre nós, por meio dos algoritmos que decidem e pensam no lugar dos humanos, trazendo vários avanços – e riscos imensos

Diariamente, Carlos acorda às 7 horas ao som de Stevie Wonder. “Bom dia, Carlos”, diz Alexa, sua assistente digital, responsável por despertá-lo para, em seguida, lhe falar sobre a previsão do tempo e listar notícias selecionadas para seu “dono”. No café da manhã, ele lê mensagens recebidas no celular, antes de espiar o Twitter, o Facebook e o Instagram, redes sociais que mostram desde análises políticas com as quais ele concorda até memes que o fazem rir. Carlos sai para trabalhar e liga o aplicativo de GPS Waze, que o ajuda a se desviar do trânsito. Ao longo do trajeto, escuta músicas escolhidas pelo Spotify. No fim da tarde, abre oTinder, puxa papo com pretendentes que surgem como opção na tela, e encontra sugestões de restaurantes no Google Maps para um encontro no fim de semana. De volta ao lar, o rapaz abre uma garrafa de vinho e clica na opção aleatória da Netflix, que lhe exibe um filme-surpresa.

Carlos é um personagem fictício, mas sua rotina regrada pelas facilidades da tecnologia é a realidade de boa parte das pessoas pelo mundo. Provavelmente, em algum grau pelo menos, uma delas é você. No geral, os benefícios trazidos por esses aparatos são mais que bem-vindos. Eles facilitam e agilizam o dia a dia das pessoas ao realizar uma tarefa aparentemente simples, a de tomar decisões. Para tanto, os dispositivos precisam de outra habilidade bem mais complexa: a de prever o que você quer ou precisa. Desempenhar tal missão cabe à ferramenta tecnológica que caiu na boca do povo nos últimos anos – o algoritmo. Fruto mais palpável da tão anunciada inteligência artificial, o algoritmo é alimentado por uma quantidade colossal de informações adquiridas na interação diária com seus usuários. O objetivo é levar a máquina a “pensar” como o ser humano. A ação parece inofensiva, mas vem revelando riscos preocupantes que levantam a questão: e se em vez de pensar como você, o algoritmo faz é você pensar como ele?

O domínio das máquinas sobre a vida dos seres humanos não é mais uma ficção futurista – e nem se deve esperar que ele venha na forma de robôs e androides ameaçadores. De forma mais sorrateira e insidiosa que aquela imaginada pela literatura e pelo cinema, a inteligência artificial já está entre nós, quebrando inúmeros galhos e trazendo melhorias à vida, da medicina à segurança – mas também nos manipulando, controlando e até colocando as democracias em risco. Os avanços provocam um sentimento misto de maravilhamento e temor, algo quantificado agora no país por uma pesquisa da empresa de dados Locomotiva. Ela revela que nove em cada dez brasileiros se dizem satisfeitos com as praticidades proporcionadas pelos algoritmos. Uma larga maioria acredita que esses sistemas – na verdade, complexas equações matemáticas capazes de interpretar o comportamento humano – encontram opções melhores do que as que eles escolheriam para tudo. Ao mesmo tempo, 63% afirmam que já se sentiram manipulados por esses códigos imperscrutáveis.”O brasileiro prefere não ver que é influenciado pelos algoritmos”, analisa Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.

O avanço da inteligência artificial e os dilemas éticos que a tecnologia provoca têm sido objetos de debates e estudos. Esse fenômeno ganhou até um neologismo, “algocracia”, ou seja, o governo dos algoritmos, expressão que traduz bem o estado de coisas no mundo atual. O termo foi cunhado por um dos principais especialistas no tema, o irlandês John Danaher, professor de filosofia na ciência da computação. “As pessoas entregaram o controle de sua vida às máquinas”, disse o especialista, que há mais de dez anos vem pesquisando sobre tecnologias persuasivas. A soberania é inquestionável: ele constata que os algoritmos conduzem ao menos 50% do dia de um indivíduo hoje. Não à toa, o valor de mercado global do setor de inteligência artificial já bate em 327,5 bilhões de dólares. Um estudo recente da Microsoft diz que a economia brasileira pode se beneficiar de um aumento de 7% do PIB até 2030 com a ampla adoção dessas tecnologias.

Datado do século X, o termo matemático “algoritmo” foi aplicado pela primeira vez a uma máquina em 1843, pela cientista inglesa Ada Lovelace.

Em seu cerne está uma antiga sanha do homem: a de transferir a inteligência humana para mecanismos não humanos. Do mito grego de Prometeu, titã que cria bonecos de argila e lhes transmite conhecimento até seu desdobramento no clássico gótico Frankestein, ou o Prometeu Moderno (1818), da inglesa Mary Shelley, no qual um ser artificial se percebe dotado de intelectualidade, o assombro de serem os únicos indivíduos pensantes na Terra levou os humanos a promoverem inovações que, como alerta a ficção, muitas vezes extrapolam os limites e revelam-se temerárias. O cientista inglês Alan Turing já questionava, em 1950: “As máquinas podem pensar?”. Mais tarde, ele substituiu a palavra pensar por “imitar”. Nascia então o teste batizado de “jogo da imitação”. Nele, um computador reproduziria tão bem o que é um ser humano que poderia se passar por uma pessoa.

A grosso modo, é assim que a inteligência artificial funciona até hoje. Amparados pelo método Machine Learning (aprendizado de máquina, em português), programadores criam códigos que se retroalimentam, cruzando informações de usuários e a realidade social em torno deles. Assim, o algoritmo não só aprende qual o gênero musical favorito de alguém, como nota quais são seus medos e opiniões, criando bolhas nas redes sociais e acentuando, inclusive, a polarização política, terreno fértil para a propagação das fake news. Os benefícios e os perigos advindos da inteligência artificial são grandezas inversamente proporcionais. De aplicativos que instigam o autocuidado a redes elétricas inteligentes que podem reduzir o aquecimento global e programas de diagnósticos na área da saúde, a tecnologia pode ser, ao mesmo tempo, a salvadora e a maior ameaça à civilização.

Exemplo desse perigo ocorreu no dia 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Donald Trump invadiram o Capitólio, nos Estados Unidos, com o intuito de impedir a formalização da vitória de Joe Biden. Os nervos à flor da pele do grupo foram alimentados pela ampla circulação, no Facebook e no Twitter, de ideias antidemocráticas e informações falsas de que as eleições haviam sido fraudadas, bombadas nas redes graças a algoritmos que buscam o maior engajamento possível para trazer lucro às empresas. O ato exigiu uma resposta contundente: Donald Trump foi banido de ambas. Por trás da decisão do Facebook estava o Comitê de Supervisão criado pela companhia em 2019, do qual fazem parte pesquisadores e pensadores de diversos países. O comitê independente, que fiscaliza as ações éticas da empresa de Mark Zuckerberg e ainda decide os parâmetros que definem o que é ou não um discurso de ódio, surgiu na esteira do escândalo da Cambridge Analytica, no qual dados vazados de milhões de usuários foram vendidos para campanhas políticas. Mais que bloquear pela primeira vez na história um presidente americano, o Facebook e o Twitter anunciaram mudanças nos seus algoritmos, prometendo reduzir o alcance de publicações extremistas e equiparar a visibilidade de conteúdo produzido por subgrupos raciais. Ainda que isso represente um avanço, as medidas recebem críticas por serem tímidas e suscitam um debate sobre se o poder de limitar conteúdos, sem uma discussão transparente com toda a sociedade, não aumenta ainda mais o poder nas mãos das chamadas big techs.

Além do claro objetivo de lucrar o máximo possível no ambiente das redes, convém lembrar que os algoritmos gestados no ventre desses gigantes de tecnologia são criados por mãos humanas, algo que vem suscitando uma série de outros dilemas. Exemplo: as máquinas, quem diria, tendem a ser racistas. A razão para esse “desvio de caráter” é que a inteligência artificial não é, de fato, tão inteligente assim: ela só reproduz o que os humanos lhe ensinam. “Há o mito de que a inteligência é algo natural, independente de questões sociais, culturais, históricas e políticas. Logo, a inteligência artificial não é, e está longe de ser, de fato, inteligente”, escreve a pesquisadora de ética da Microsoft Kate Crawtord no excelente livro recém-lançado Atlas of AI (ainda sem tradução no Brasil).

Em maio, o Instagram foi acusado de censurar postagens pró-Palestina em meio ao conflito com Israel – um erro de programação que foi corrigido. A rede já havia sido acusada de privilegiar publicações feitas por brancos em detrimento dos negros – o que levou à criação de uma Equipe de Equidade para promover ações de diversidade. Recentemente, veio à luz uma surpreendente análise sobre os serviços de streaming musicais. Ao coletar as indicações feitas para 330.000 usuários, notou-se que só 25% dos artistas recomendados pelo Spotify eram mulheres. O Spotify afirma que tem buscado soluções para dar a elas e alega, baseado em uma pesquisa que patrocinou, que a indústria musical tem baixa presença feminina (um argumento questionável, para dizer o mínimo).

Para a cientista holandesa Christine Bauer, responsável pela pesquisa, um eventual desfalque mercadológico não anula a procura por soluções. “Os algoritmos replicam erros do nosso mundo. Cabe a nós mudarmos isso”, diz.

A busca por transparência e a chance de questionar a ação dos algoritmos são uma antiga bandeira de ativistas da área, que pedem por regulamentações e limites éticos para as empresas de tecnologia. O que era uma queda de braço entre Davi e Golias ganhou reforço de peso em abril deste ano, quando a União Europeia apresentou uma proposta de legislação para definir o uso da inteligência artificial em seus países. O documento divide a tecnologia em três classes: baixo risco, alto risco e inaceitável. As de baixo risco usam algoritmos básicos, como em redes sociais e streaming, e deverão manter às claras seu método de funcionamento. As de risco alto poderão ser     estabelecidas por máquinas, como lista de implementadas se comprovarem sua segurança e transparência como sistemas automatizados que selecionam candidatos para vagas de emprego. As de inaceitável serão proibidas em todo o território, caso de pontuações sociais estabelecidas por máquinas, como lista de criminosos em potencial. No Brasil, aliás, programas alimentados por denúncias estatísticas de crimes já apontam locais para patrulhas estratégicas da polícia. O reconhecimento facial também vem sendo testado por aqui para encontrar foragidos em espaços públicos. São usos benignos, é evidente. Mas vale lembrar que é fácil canalizá-los para ações nocivas: a China recorre a sistemas de segurança com reconhecimento facial, guiados por algoritmos, para perseguir dissidentes.

À medida que esse mercado cresce, também aumenta a preocupação do ser humano em ser substituído pelas máquinas. Relatório do Fórum Econômico Mundial mostra que 85 milhões de empregos serão cedidos para a inteligência artificial até 2025. Ao mesmo tempo, porém, estima-se que 97 milhões de vagas serão criadas com seu avanço. Nesse cenário otimista, funções ligadas à tecnologia despontam como promissoras: a busca por especialistas em dados cresceu 42% entre 2019 e início de 2020. Ocupações que exigem sensibilidade humana, como terapeutas e cuidadores, parecem a salvo, mas atividades como telemarketing, serviços gerais e domésticos estão com a corda no pescoço. As funções rotineiras serão das mais impactadas – o que preocupa, já que constituem uma parcela grande do mercado de trabalho”, alerta o professor Glauco Arbix, do Centro de Inteligência Artificial da USP.

Até Rembrandt se viu perto da fila do desemprego. O mestre holandês (1606-1669) foi analisado minuciosamente por um algoritmo de aprendizagem profunda, com o intuito de completar uma parte perdida de sua obra­ prima A Ronda Noturna. O quadro, recortado para caber numa parede em 1710, foi reconstituído pelo programa que, em um dia, decifrou o estilo do pintor. “É como se o computador fosse para a escola de artes”, explica Robert Erdmann, responsável pelo projeto. O resultado é crível, mas não perfeito. “Não somos capazes de duplicar o talento de Rembrandt.” Agenialidade, ao menos, ainda não chegou às máquinas – mas é bom não confiar nisso em meio ao advento de um admirável e perturbador mundo novo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 23 DE JULHO

ENTENDIMENTO, FONTE DE VIDA

O entendimento, para aqueles que o possuem é fonte de vida; mas, para o insensato, a sua estultícia lhe é castigo (Provérbios 16.22).

O rei Davi, depois de ter sido confrontado pelo profeta Natã, reconheceu a loucura que havia cometido ao adulterar com Bate-Seba e mandar matar seu marido. Durante muito tempo ele tentou esconder seu pecado e abafar a voz da consciência. Depois que se arrependeu e voltou à sensatez, Davi disse que não devemos ser como o cavalo ou a mula sem entendimento. Gente de cabeça dura precisa apanhar para aprender. Indivíduos de dura cerviz, que muitas vezes repreendidos não se dobram, serão quebrados repentinamente sem oportunidade de cura. A estultícia do insensato é como chicote para as suas costas. O entendimento, porém, é fonte de vida. Uma pessoa que olha para a vida com os olhos de Deus tira o pé do laço do passarinheiro, foge de terrenos escorregadios e aparta-se do mal. O entendimento abre os olhos da nossa alma para não entrarmos no corredor escuro da morte. O entendimento tira o tampão dos nossos ouvidos para darmos guarida aos conselhos que emanam da Palavra de Deus. O entendimento inclina nosso coração para a verdade e coloca nossos pés nas veredas da justiça.

GESTÃO E CARREIRA

MILLENNIALS E GERAÇÃO Z: AS DIFERENÇAS NO MODO DE TRABALHO

O contexto em que cada pessoa cresce ajuda a definir os valores, crenças e comportamentos. Mas isso não significa que ao crescer em uma realidade similar todos sejam iguais – cada um vive, sente e reage de uma maneira de acordo com as experiências pelas quais passa -, porém, um perfil geral pode ser traçado. Esse é o caso das gerações denominadas como Z e Millennials. Todos que nasceram entre 1980 e 1994 pertencem a Geração Y, mais conhecida como Millennials, enquanto a Geração Z é composta por aqueles nascidos entre 1995 e 2010.

Muito diferentes um do outro, cada um tem suas peculiaridades e maneiras de pensar – fazendo com que surjam conflitos em alguns momentos e, em outros, interações. Os Millennials cresceram em uma realidade já ditada pela tecnologia, então sabem se virar muito bem. São resilientes, voltados para resultados e possuem espírito empreendedor. “Essa geração mostrou a importância de conciliar trabalho com o lazer e tempo para a família e amigos, ajudando a flexibilizar a jornada de trabalho”, comenta o consultor em gestão e planejamento estratégico Uranio Bonoldi.

Já a Geração Z nasceu em uma realidade ainda mais tecnológica e imediatista, na qual cada vez mais foram levantadas pautas sociais, étnicas e sobre sustentabilidade. “Como resultado são, de maneira geral, poucos pacientes, não têm medo de mudança, são ótimos e rápidos em aderir a novas tecnologias e vivem nas redes sociais”.

As características não são absolutas, mas todos os estudos entendem que de fato existem peculiaridades que conectam os indivíduos da mesma geração, confirmando alguns padrões de comportamento. Tudo isso se mantém no ambiente de trabalho – muitas das qualidades das gerações acontecem no âmbito pessoal e profissional.

Qualquer organização eventualmente vai se deparar com diferentes gerações ao longo de sua história, seja internamente com os colaboradores ou externamente com clientes, fornecedores etc. Uranio afirma que “não adianta fugir dessas interações, o importante é aprender com as diferenças e com isso criar uma cultura que potencialize todas as qualidades das gerações”.

Conviver com pessoas de diferentes gerações é uma oportunidade de se adaptar às mudanças e adquirir novos conhecimentos. “A troca entre a Geração Z e Y é importante para ambos, o primeiro ajuda a pensar fora da caixa e se adaptar, enquanto os Millennials ensinam a ter resiliência e se empoderar – um complementa o outro”, ressalta.

O desafio é integrar pessoas de eras distintas no cotidiano do trabalho sem gerar conflitos. “Agradar e atrair talentos das duas gerações sem perder a identidade da organização não é uma tarefa fácil. Os gestores precisam entender e conciliar as necessidades para promover um ambiente confortável, próspero e produtivo”, finaliza Uranio, ex-CEO da Fundação Butantan que além de escritor, é professor do Executive MBA da Fundação Dom Cabral, onde leciona sobre Poder e Tomada de Decisão.

(www.influenciaepoder.com.br)  

EU ACHO …

A GOTA DE CHUMBO

O toque plúmbeo que a mais deslavada alegria não consegue sublimar talvez seja consciência

Lloré, lloré, lloré. Y cómo pudo ser tan hermoso y tan triste? Agua y frío rubí, transparencia diabólica graba ban em mi carne un tatuaje de luz. (Pere Gimferrer,’Oda a Venecia Ante el Mar de los Teatros’)

O poeta catalão Pere Gimferrercontempla a cidade do Adriático no poema Ode a Veneza Diante do Mar de Teatros. O turista fotografa e o casal romântico se beija. O poeta, claro, não conversa com o Instagram, ele lança sua pena ao horizonte mais denso. Para o autor, o mar tem sua mecânica como o amor, seus símbolos. Ao continuar sua viagem em versos, ele destaca que uma gota de chumbo ferve no seu coração (uma gota de plomo hierve em mi corazón). O poema é forte e denso. Talvez seja a inteligência ou a idade (ainda que Gimferrer fosse novo ao escrever isso). A consciência nos torna covardes, pensava o príncipe Hamlet. Eu acho que ela nos torna prudentes no entusiasmo. Adesão absoluta à euforia de réveillon parece necessitar de muito colágeno. Para os outros, sempre um “pesinho”, uma “gota de chumbo”, a desconfiança de que a novidade é uma bruma que torna indistinto o solo e confere beleza de Monet à paisagem.

Não fiz uma análise dos densos versos citados. Na verdade, pincei uma frase solta e dei a ela um rumo meu. Confesso, de forma consciente, que procedi a algo que quase todos fazemos ao ler outras pessoas: um recorte Tenho refletido muito sobre a “gota de chumbo”. Usando um adjetivo amigo derivado do metal: o toque plúmbeo que a mais deslavada alegria não consegue sublimar. Não é melancolia ou confissão de tristeza estrutural. Talvez seja consciência, mecanismo de defesa, sei lá. Admiro quem se entrega ao momento de forma plena. Fico impressionado com toda pessoa que, ao escutar uma música, ver um quadro namorar ou aproveitar uma comida especial sai da medida do tempo e vive a comunhão como objeto de prazer. Entendam-me: sinto imenso prazer nos pequenos e grandes momentos. Lembro-me de jantares, paisagens, pessoas, beijos, textos, melodias e delícias imensos. Tenho uma vida dominantemente feliz e com momentos paradisíacos de quando em vez. Porém, sem nunca ter sido atacado pelo mal grave da depressão, uma gotinha de chumbo foi sempre presente.

Lendo Clarice Lispector, percebi que ela, com mais talento, tinha uma consciência de si que a impedia da dissolução no aqui e agora que parecia tomar a todos. No caso dela, de forma muito mais forte, parecia que observava a vida e as pessoas de um camarote um pouco distante. Se, eventualmente, ela sofreu com a realidade psíquica de ser Clarice, nós ganhamos a felicidade de ler aquilo que a percepção dela proporcionou. Benefício ambíguo: Beethoven sofreu muito com a surdez; os ouvintes ganharam as mais sublimes páginas de uma mente que passou a ouvir tudo à medida que deixava de ser tocado pelo barulho do mundo. O chumbo dele, alquimicamente, foi transmutado em ouro para nós.

Você sente isso, querida leitora e estimado leitor? Estoura o champanhe na virada do ano novo, alegra-se com a festa (ou… alegrava-se antes da pandemia) e se entrega por completo ao anelo coletivo de bem-estar e de votos esperançosos que o calendário em câmbio proporciona? Ou sorri, canta, bebe e come com um discretíssimo péarrás, consciente de que já viveu muitos outros inícios, bailes de debutantes, esperanças em botão que mal atingem a festa de reis? Para mim a vida sempre se situou entre dois extremos da confiança em si: a exaltação exuberante de song of Myself (Walt Whitman) e The Waste Land (T. S. Eliot). Nunca desci ao vale inteiramente cético e cinzento da consciência de Eliot e jamais flanei com Whitman pelas florestas virgens da América. Jamais incorporei homem oco (outro verso de Eliot) que testemunha o encerrar do mundo com um suspiro melancólico.

Pessoalmente, sempre achei pesadas e desagradáveis as pessoas negativas por escolha, críticas em excesso, profetas e proféticas acres. Da mesma forma, os entusiastas plenos da vida como uma aurora boreal coruscante conseguem me cansar, igualmente.

Como estou embebido em poetas hoje, penso em outro, Miguel Vázquez Montalbán, que condenava o astronauta que contemplava o céu para evitar a visão dos ratos (“inútil”] cosmonauta el que contempla estreltas para no ver las ratas”). Talvez seja essejogo que extrai da fórceps de grandes poetas. Quem vive com ratos tende a um mundo complicado. As pessoas com cabeça permanente nas estrelas podem perder um pouco da humanidade que disputa comida com os roedores.

E assim, quando alguém entra no trabalho ao alvorecer da segunda, gritando um bom-dia de acordar qualquer defunto, sinto um estranhamento similar ao que se surge como um cortejo fúnebre, mono-vivo de um projeto biográfico em frangalhos. Um coração e uma gora de chumbo parecem descrever outra posição. Um coração para sentir a esperança de que tudo pode ser diferente; o metal denso para que nossos pés continuem tocando a terra elembrando que nós, sonhadores e esperançosos, faremos companhia aos ratos um dia. E você, queridíssima leitora e estimadíssimo leitor, quanto de chumbo seu coração carrega?

***LEANDRO KARNAL – é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras. Autor de ‘O Dilema do Porco-Espinho’, entre outros

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SOBRE A GRATIDÃO

Considerada a mais agradável das virtudes e o mais virtuoso dos prazeres pelo filósofo Comte-Sponville, a gratidão pode ser “sabotada” pela falta de atenção que assola o homem contemporâneo

Um dos primeiros exercícios de Psicologia Positiva ao qual me submeti foi sobre gratidão. Ainda estava escrevendo meu doutorado quando me dispus a, ao final de cada dia, reservar alguns minutos para agradecer pelas coisas boas que havia recebido. Não queria fazer um agradecimento mecânico, de forma que, a menos que o sentisse do fundo da minha alma, não poderia agradecer por estar viva, ter duas pernas, dois braços etc. Definitivamente não faria sentido “roubar” no exercício ao qual espontaneamente me propus.

Confesso que não encontrei nenhuma dificuldade na empreitada por uns bons meses (afinal, como vim a saber mais tarde, gratidão é uma de minhas forças pessoais). Até que chegou um “daqueles” dias. Todo mundo já viveu um dia “daqueles”. Sai atrasado de casa, pega um trânsito monstruoso, as coisas não dão certo, chegam as más notícias e, no caso de nós mulheres, tudo isso juntamente com uma TPM à altura. Costumo dizer, numa alusão ao filme O Exorcista, que são dias em que estamos “virando o pescoço”. Como era de se esperar, ao final desse meu dia “daqueles” não consegui encontrar nada para agradecer. E por ter decidido que não trapacearia, fiquei completamente sem alternativas. Fui dormir frustrada e irritada (mais ainda) comigo mesma, pois meu lado racional me dava pistas de que o maior problema estava em mim. Numa espécie de ato de rebeldia decidi, antes de cair, exausta, no sono, que no dia seguinte prestaria uma atenção redobrada às coisas boas a minha volta para ter o que agradecer à noite.

Na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, observei meu pergolado florido e imediatamente pensei: “Se esta noite não me lembrar de mais nada para agradecer, agradecerei por este pergolado”. Nesse momento me dei conta de uma característica importante da gratidão: sua ligação com a percepção.

A pessoa que não percebe as coisas boas que a rodeiam, que leva a vida no piloto automático, simplesmente não encontra coisas passíveis de gratidão. Nesse sentido, é possível que não vivencie tal emoção não pela falta de tê-la como traço psicológico, mas por ter uma percepção deficiente do mundo.

Aqueles que têm olhos pra ver, por outro lado, conseguem enxergar até mesmo o bom no ruim, tal como o aprendizado nas situações mais difíceis.

Hoje muito se fala sobre os problemas da falta de atenção. Contudo, nunca li nada sobre os efeitos dessa falta de atenção sobre outras emoções, tais como a gratidão.

Mas, afinal, por que devemos nos preocupar com a gratidão?

Robert Emmons, professor da Universidade da Califórnia e um dos principais pesquisadores do tema, afirma que o cultivo sistemático da gratidão traz vários benefícios mensuráveis ao indivíduo, tanto no âmbito psicológico quanto no físico, sem excluir os benefícios de ordem social.

Além disso, ele afirma que tais estudos contradizem a ideia do “set point da felicidade”, amplamente aceita por vários autores da Psicologia Positiva, visto que muitas pessoas que se engajaram nos exercícios de gratidão relataram essa experiência como verdadeiramente transformadora em suas vidas, aumentando-lhes o nível de felicidade.

Sentir-se grato é também a consciência de que somos alvos de bondade, o que, sem dúvida, pode nos servir de alento nas fases difíceis da vida.

O mais interessante disso tudo é que se trata de uma habilidade treinável. É claro que para aqueles que a possuem como força pessoal, a gratidão é um estado de espírito. Contudo, os que não estão acostumados a sentir gratidão podem se beneficiar dessa emoção fazendo um esforço consciente para desenvolvê-la. Afinal, como diz o próprio Emmons, “a gratidão não é para os emocionalmente letárgicos”.

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clinico, consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiaposiitva.combr