A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EDUCAÇÃO PARA ROMPER MITOS SEXUAIS

Muito do que é aprendido em termos de sexualidade se faz informalmente, podendo gerar inúmeros equívocos. Desfazer mitos, além de ser uma responsabilidade social, é dever dos profissionais ligados à área da saúde

Muitos temas que envolvem a sexualidade não são abordados adequadamente e contribuem para a perpetuação do que conhecemos como mitos sexuais, bastante difundidos na população, entre eles:

1) não se pode conversar sobre sexo, porque a espontaneidade é perdida;

2) masturbação é imoral, prejudica a saúde física e mental;

3) quem deve começar o sexo é o homem;

4) mulheres que conseguem atingir o orgasmo somente com a estimulação do clitóris são imaturas;

5) o homem está sempre pronto para ter relações sexuais;

6) tamanho do pênis é fundamental para o prazer sexual da parceira;

7) não se aprende sexo: praticá-lo é cansativo e requer esforço;

8) sexo oral é vergonhoso.

Todas essas informações enganosas, entre outras, podem criar falsas expectativas e interferir no desenvolvimento e no desempenho sexuais.

Ser potente, como mito sexual, é mais do que ser forte: é estar sempre pronto a solidificar uma conquista por meio dos órgãos genitais. Aspectos como troca, bem-estar, respeito, interação não compõem a potência, mas muitos homens convivem diariamente com esses paradigmas.

Todos que lidam com o ser humano devem estar preparados para aproximar os conceitos estudados durante a formação acadêmica da realidade de vida de seus pacientes; mas surgem contradições entre o que é aprendido nas faculdades e o exercício profissional. Por exemplo, os médicos podem ter noções sobre a fisiologia e as doenças do aparelho genitourinário, bem como sobre reprodução humana, contudo eles podem estar despreparados sobre a diversidade dos comportamentos sexuais. Se mal informados durante a graduação, esses profissionais podem perpetuar conceitos falsos, as suas próprias incertezas e inseguranças gerarão ansiedade ao ouvirem queixas relacionadas à sexualidade de seus pacientes. Felizmente esse cenário está mudando, a passos lentos, e algumas escolas médicas contemplam na sua grade curricular o ensino sobre a sexualidade humana e seus transtornos.

Os profissionais da saúde, quando inexperientes no assunto, tendem a inferir seus próprios padrões de conduta, insuficientes para uma avaliação mais precisa do tema. Falar sobre sexo pode ser constrangedor para o paciente (e para o profissional da saúde, quando despreparado), mesmo ambas as partes sabendo que as práticas sexuais podem ser realizadas de diferentes maneiras.

Três conflitos podem emergir ao refletirmos sobre o tema:

1) o que está acontecendo com a sexualidade na cultura;

2) o que acontece nos meios acadêmicos; e

3) nas áreas da saúde.

Em cada caso, as respostas sobre o estudo da sexualidade humana têm sido negligenciadas, talvez pelo desinteresse e/ou pelas dificuldades e implicações profundas desse desafio. Como consequência, sensações como perda do controle e dúvidas se apropriam, portanto é imprescindível que os estudiosos da sexualidade criem métodos de pesquisa a fim de trazer à tona a realidade, para que assim possamos trabalhar com ela.

De um lado, as mudanças dos costumes sociais, relativas à esfera sexual – ainda que as pessoas não tenham superado as barreiras de defesa da própria intimidade -, fazem com que algumas pessoas se sintam inclinadas a buscar informações por meios variados, recorrendo, em muitas ocasiões, a qualquer profissional da equipe de saúde que lhes inspire confiança, para que esse lhe dê esclarecimentos a propósito dos problemas que estão ocorrendo em sua vida sexual.

Por outro lado, nos chamam atenção a medicalização da sexualidade e os riscos a ela concernentes: o da sexualidade das funções, ou seja, dividida em compartimentos corporais; o de uma sexualidade dependente da tecnologia “misteriosa”; o da sexualidade na qual a subjetividade é desconsiderada, em favor de informações cedidas por máquinas; o da sexualidade definida como funções de partes corporais, independentes de qualquer relacionamento com o contexto cultural; o da sexualidade centrada na atividade sexual com penetração, sempre dependente de especialistas.

As escolas médicas, mas não só elas, todos os cursos que preparam profissionais nas ciências da saúde devem estar atentos a uma visão mais holística do ser humano. Além de fornecerem os princípios técnicos e científicos adequados, precisam conjecturar sobre a importância de oferecer subsídios ao estudante referentes à amplitude do comportamento humano. Distorções nessa área acarretam um mau posicionamento do profissional frente ao paciente. Em contraposição, um relacionamento compreensivo, baseado na confiança do saber técnico e humano, aliado às experiências de vida profissional e pessoal do profissional da saúde, cria um ambiente de respeito recíproco, facilitando a condução do exame, permitindo a troca e abarcando o sofrimento.

GIANCARLO SPIZZIRRI – é psiquiatra doutorando pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do IPq e professor do curso de especialização em Sexualidade Humana da USP.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.