POESIA CANTADA

TRAVESSIA

 MILTON NASCIMENTO nasceu no Rio de Janeiro, no dia 26 de outubro de 1942. Ainda criança já mostrava interesse pela música. Com dois anos ficou órfão de mãe, passando a morar com a avó em Juiz de Fora, em Minas Gerais. Com seis anos foi morar em Três Pontas com os pais adotivos, o bancário e professor de Matemática Josino Campos e a professora de Música Lília Campos.

Com 13 anos ganhou seu primeiro violão. Aos 15 anos, Milton criou com Wagner Tiso, seu amigo de infância, o grupo vocal Som Imaginário. Logo depois criaram o W’s Boys, com Milton, Wagner, e seus irmãos Wesley e Wanderley. O grupo se apresentava nos bailes da região.

Em 1963, Milton mudou-se para Belo Horizonte, para fazer o vestibular para Economia, mas a música predominou. Na época, formou com Lô Borges, Beto Guedes, Márcio Borges e Fernando Brant, o Clube da Esquina.

Em 1966 foi para São Paulo, mas estava difícil conseguir que suas músicas fossem gravadas. A sorte começou a mudar em setembro desse mesmo ano, quando conheceu Elis Regina, que gravou “Canção do Sal”, sua primeira música.

Em 1967, Milton Nascimento teve três músicas classificadas no Festival Internacional da Canção da TV Globo, que consagrou o cantor como o melhor intérprete, e a música “TRAVESSIA”, composta em parceria com Fernando Brant, conquistou o segundo lugar no festival.

TRAVESSIA

COMPOSIÇÃO: MILTON NASCIMENTO / FERNANDO BRANT

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou, mas não tem jeito
Hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho pra falar

Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedra, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito o que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver

Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedra, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito o que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver

OUTROS OLHARES

CADA VEZ MAIS CEDO NAS REDES

Projeto do Facebook acaba de lançar um Instagram para menores de 13 anos e leva a um debate importante: não é hora de proteger as crianças das redes sociais?

“Como todos os pais sabem, as crianças já estão on-line.” Esse é o argumento de Mark Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook, para justificar seus planos recentemente revelados de lançar uma versão infantil do Instagram. A plataforma seria voltada para menores de 13 anos, atualidade mínima para usuários dessa e das principais concorrentes – exigência, ressalte-se, facilmente burlável, bastando que se minta a data de nascimento. A proposta, evidentemente, gerou acalorados debates nos Estados Unidos. Há alguns dias, legisladores democratas enviaram uma carta à empresa exigindo a desistência da empreitada e alegando que o Facebook tem “histórico de falhas em proteger crianças”. Eles se referem ao Messenger Kids, plataforma de mensagens do próprio Facebook destinada a usuários infantis, mas que é frequentada por adultos. Zuckerberg, ao que parece, não quer deixar as crianças em paz – e se mantém firme na intenção de levar adiante a versão kids do Instagram.

A polêmica está posta e deve seguir por algum tempo. Mas o que dizem os especialistas? Crianças absorvem conhecimento como uma esponja e formam sua identidade e repertório com base nos conteúdos que acessam desde pequenas. Assuntos sensíveis, como sexo, drogas ou violência, devem ser apresentados com cuidado, à medida que a capacidade cognitiva vai aumentando. Eis o desafio em meio a tantas telas e facilidades. Recentemente, uma criança de 3 anos ganhou fama ao fazer um pedido de 400 reais por um aplicativo de delivery. Isso é o de menos. A destreza com a tecnologia, somada à ingenuidade, pode acarretar problemas bem mais graves.

Procurado, o Instagram se defendeu. Disse que seus planos priorizam a segurança das crianças, e que especialistas em desenvolvimento e saúde mental infantis, além de defensores de privacidade, auxiliarão na criação da plataforma. A empresa se comprometeu a seguir os moldes do YouTube Kids, cujos perfis são gerenciados pelos pais, com ferramentas de controle como o uso de senhas.

Zuckerberg tem razão quando diz que as crianças já estão on-line: quase 80% dos brasileiros entre 10 e 13 anos têm acesso à internet. O número cresceu durante a pandemia, com famílias trancadas em casa e pais cada vez mais cansados e propensos a recorrer à equivocada percepção de que ao deixar o filho diante de um celular ou tablet vão acalmá-lo. “É o contrário. A criança é hiper estimulada e, sem gastar energia física, fica mais agitada ou irritada”, explica Vanessa Abdo, doutora em psicologia social pela PUC-SP e especializada em comportamento infantil. “O corpo se aquieta, mas o cérebro continua sendo bombardeado de informações”.

Um Instagram para crianças anteciparia a sanha por likes e a chamada síndrome de Fomo (sigla em inglês para “medo de ficar de fora”), termo cunhado em 1996 pelo estrategista de marketing americano Dan Herman sobre a necessidade de acompanhar tendências. “Isso aumenta a ansiedade e a angústia, porque a vida real não é tão interessante, bonita e colorida, e nem tão dramática, sem os filtros do Instagram”, completa Vanessa. Em suma, as redes já causam problemas para os adultos e não é difícil imaginar os efeitos perversos em crianças com personalidade em formação.

No passado recente, garotos e garotas também estavam expostos a conteúdos não recomendáveis, muitas vezes no rádio ou na TV aberta, e apresentados de forma naturalizada e banal. A diferença está em quem comandava o controle remoto. “Os pais tinham maior autonomia e o que era proibido era bem definido”, comenta Renato Rochwerger, mestre em psicologia clínica pela USP. “Hoje está tudo mais borrado. A liberdade tem aspectos positivos, mas impõe novos desafios aos pais.”

Outro ponto importante está relacionado ao cyberbullying. Ser chamado de bobo numa rede social, onde o clique de um print pode eternizar a ofensa, tem peso maior do que ser xingado no pátio do colégio. Trata-se, portanto, de uma discussão complexa e que permite várias abordagens. De todo modo, os especialistas afirmam que é recomendável adiar o ingresso de crianças nas redes socias. Elas, afinal, terão a vida inteira para se conectar. O fundamental é que os pais sejam responsáveis pela educação dos filhos. Isso, sim, merece todos os likes.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 21 DE JULHO

O SEGREDO DA FELICIDADE

O que atenta para o ensino acha o bem, e o que confia no Senhor, esse é feliz (Provérbios 16.20).

Muitas pessoas passam pela vida com os ouvidos obstruídos para o aprendizado. Não investem tempo para aprender. Repetem os mesmos erros dos ignorantes. São cegos guiados por outros cegos. Não lhes resplandece a luz do conhecimento, pois nunca atentaram para o ensino. Quem não semeia no conhecimento não pode colher o bem. É melhor investir em conhecimento do que adquirir ouro. É melhor dar educação aos filhos do que deixar herança para eles. A riqueza sem o ensino pode ser causa de tormento, e não fonte de felicidade. A verdadeira felicidade não está nas coisas materiais, mas na confiança em Deus. Os que buscam o sentido da vida na bebida, na riqueza, nas aventuras sexuais e na fama descobrem que todas essas coisas não passam de uma bolha vazia. O que confia em Deus, porém, é feliz. Nas noites trevosas da vida é a confiança em Deus que nos dá forças para esperar o amanhecer. Nos vales sombrios da caminhada é a confiança em Deus que nos faz marchar resolutos para o topo das montanhas. A confiança em Deus tira nossos olhos de nós mesmos, de nossas fraquezas ou da enormidade dos problemas, para colocá-los naquele que é onipotente e está no controle de todas as circunstâncias.

GESTÃO E CARREIRA

SEM BAGUNÇA

Rotina de home office aumenta procura por organizadores profissionais

“A organização é uma questão de disciplina e hábito”, sintetiza a organizadora profissional – ou personal organizer – Karina Lara. “Diferentemente da arrumação, em que você abre a gaveta e enfia tudo dentro, é preciso ter uma lógica no organizar e levar em conta a rotina da casa.” Com a pandemia e o crescimento do home office, as buscas por soluções de organização dispararam. “O ano passado foi quando eu mais trabalhei, especialmente no segundo semestre. Esse ano continuo no mesmo ritmo”, conta Karina.

Formada em relações públicas, a virginiana apaixonada por organizar suas coisas se deparou durante uma busca na internet com a profissão que hoje exerce. “Em 2016 comecei a me perguntar se eu realmente queria seguir a carreira corporativa que eu tinha feito faculdade, e de repente, essa história de personal organizer caiu na minha frente”, diz ela, que fez o curso profissionalizante em 2017 e criou sua empresa, KaLara Organiza, no ano seguinte. 

A profissão de personal organizer surgiu na década de 1980, nos Estados Unidos, mas foi em 2019, com a série da Netflix Ordem na Casa com Marie Kondo, que tudo começou a ganhar força. No Brasil, o programa Santa Ajuda, apresentado por Micaela Góes no canal GNT, trata do tema desde 2011 – com a pandemia, tudo isso se consolidou ainda mais.

A organização na casa leva em conta a praticidade e o dia a dia da família – em São Paulo, os profissionais cobram, média, de R$ 80 a R$ 250 a hora. Sendo necessário para isso uma reestruturação dos ambientes da casa ou de um cômodo específico, um trabalho completamente diferente do que uma diarista faz, por exemplo. “Quando eu comecei, as maiores demanda eram no closet. De 2018 pra cá, a gente já tem uma infinidade de outros serviços. Além da questão do home organizer, que é você olhar a casa como um todo, tem serviço de baby organizer, o qual oferece assistência para a mãe de planejamento, uma organização muito mais completa, muito mais profunda do que somente organizar o quarto do bebê”, detalha Karina.

A organizadora Mari Salles divide a mesma ideia. “Nosso principal objetivo não é a estética, isso é uma consequência. Queremos deixar a rotina mais fácil e que a casa seja funcional para o cliente. Através disso você tem mais tempo, mais qualidade de vida, mais economia. Organização tem tudo a ver com a saúde mental”, diz.

Fisioterapeuta por formação, Mari largou o mundo corporativo para se dedicar integralmente à filha em 2017. Vivendo o “mundo materno” percebeu a importância da organização e se profissionalizou no assunto. Uma das beneficiadas foi a analista de comércio exterior Andréa Allegrussi Lourenço.

ASSESSORIA ON LINE E PARA ORGANIZAR MUDANÇA

“Por conta da pandemia, e eu ser grupo de risco, não queria receber gente em casa, então acabei fechando um projeto online para criar espaços novos em um apartamento pequeno para receber a neném”, conta ela, que contratou os serviços de Mari em maio de 2020. 

Entre videoaulas e chamadas de vídeos, Andréa conseguiu organizar a casa. “Foi bem tranquilo para fazer e o ganho que eu tive foi imenso. Com dois filhos pequenos, o que a gente mais quer é agilidade. Ganhei qualidade de vida mesmo”, resume. “Só de ter um espaço determinado para cada item, ou seja, tudo que sai, volta para o mesmo lugar, já ajuda demais. Você consegue encontrar as coisas na hora, não precisa ficar caçando.”

Outra categoria que ganhou bastante destaque durante a pandemia são as chamadas pós e pré mudança, que basicamente consistem na separação, embalagem, transporte e organização das caixas de mudanças. “Enquanto antes algumas pessoas podiam ficar meses com as caixas pela casa, hoje a personal em cinco dias consegue desembalar e ainda organizar todos os produtos da casa da pessoa”, conta Mari, que recentemente ajudou a empresária Mariana Desidério neste processo.

“Nós somos cinco pessoas na família. Então são três crianças, quatro quartos, mais a sala, mais o escritório, então era muita coisa pra arrumar na mudança e tínhamos um pouco de urgência”, explica ela, que vai aprender com Mari, junto com a filha, o processo de organização. 

Mariana já conhecia a profissão, mas nunca havia contratado uma organizadora para ajudá-la. Na hora da mudança, não teve dúvidas. “Para o futuro, meu único medo é não manter a disciplina de sempre dobrar as roupas. Ter cada coisa no seu lugar facilita muito a vida. Estou na fé que a gente consegue”, brinca.

Sem tempo, com dois filhos e uma bagunça para administrar, a advogada Carol Huggare também decidiu pedir ajuda quando foi transferida do trabalho da Suíça para o Brasil. “Eu cheguei numa situação em que eu precisava trabalhar, as crianças estavam em casa porque as escolas estavam fechadas e eu tinha que administrar o que iria para o storage (armazenamento em galpão ou depósito), o que iria para casa. Então acho que foi a combinação de duas coisas: a falta total e absoluta de tempo e a falta de talento, da minha parte, para organização”, conta ela. 

Por indicação de uma amiga, Carol ligou para a organizer Karina e agendou uma visita presencial, na qual elas conversaram sobre as necessidades da sua família. “Nossa área é tão ampla que precisamos de fato ter esse olhar e a flexibilidade de atender o cliente não só naquilo que a gente faz. Se envolver e usar a criatividade para trazer a solução”, diz Karina, que aproveita os conhecimentos que adquiriu na faculdade de comunicação para isso.

Na cozinha, a dieta cetogênica do filho de Carol, Lars, não permitiu pães nas prateleiras baixas. Já na área de brinquedos, as etiquetas foram personalizadas para que Alice, de 6 anos, que ainda não lê, também entendesse o processo. “O tempo que eu economizo hoje quando eu tenho que achar algo para o meu filho ou alguma coisa na cozinha, arrumar o quarto das crianças, vale muito a pena. É um produto de extrema necessidade? Para a minha família com certeza sim”, diz Carol.

VENDA DE PRODUTOS ORGANIZACIONAIS TAMBÉM CRESCEU

Além do aumento da busca de profissionais na área, o crescimento da organização também foi perceptível no mercado, com aumento de produtos organizacionais. “Nós tivemos um grande avanço no faturamento de vendas em função desse cuidado durante a pandemia e de lançamentos de produtos, com mudança até mesmo de cores”, explica Maurício Moraes, gerente geral da Ordene. “Alguns anos atrás a gente pensava em caixas transparentes, fechadas, que eram guardadas em armários somente para armazenar alguma coisa. Hoje elas ficam em evidência e, por isso, passamos a ter caixas com cores e modelos atraentes”, diz.

O comportamento se refletiu também em outras áreas da casa para além do dormitório. “A Etna teve um aumento de 30% em produtos de fácil transporte e montagem ligados à organização. Mas, o que realmente se destacou no último ano, foi a linha de home office, com um incremento de 40% das vendas de acessórios de bancada, caixas organizadoras e lixeiras pequenas”, relata a gerente de produtos da Etna Luciana Abella. 

Dentre os itens mais recomendados e utilizados pelas organizadoras estão a colmeia para gavetas – seja para meias, roupas ou itens de escritórios –, potes herméticos (uma vez que eles permitem a visualização geral dos alimentos), aramados para a cozinha e o pack de TNT para guardar roupas de diferentes estações. “Os organizadores são essenciais para a gente conseguir uma boa organização, porém tudo que é em excesso também atrapalha. Apesar de hoje eles serem de fácil acesso, ainda não são produtos baratos, então temos de entender o porquê de ter aquele produto na nossa casa e sempre tentar reaproveitar tudo que temos”, diz a organizer Mari Salles.Ficou com vontade de sair arrumando a casa? Antes de tudo, avalie se você perde muito tempo para encontrar as coisas no seu dia a dia. Caso a resposta seja sim, pode ser que buscar uma profissional seja a resposta. “Muita gente acha que é luxo contratar uma personal organizer, mas na verdade, é um investimento que tem um retorno muito grande. É questão de necessidade, buscando ferramentas para otimizar o seu tempo, que hoje é o recurso mais precioso que a gente tem”, conta Andréa.

DICAS PARA UMA BOA ORGANIZAÇÃO

DESAPEGO

“A gente tem que pensar que nosso espaço é pequeno para o que a gente tem, na verdade a gente que tem muito para o espaço que a gente vive”, pontua Mari. No estilo Marie Kondo, guarde somente o que te traz felicidade.

PRÁTICA

Viva as mudanças por um tempo para ver se funciona para você. “Eu faço o projeto e depois de 15, 20 dias, no máximo 30 dias, eu volto na casa do cliente para fazer os ajustes. Além disso, dou três horas de treinamento para a funcionária ou para o próprio. cliente sobre dobras e organização porque não adianta nada a pessoa não saber”, conta Karina.

PLANEJAMENTO

Anote tudo o que você precisa fazer em cada ambiente da casa, sempre definindo metas reais para serem alcançadas. Olhe minuciosamente para todos os cômodos e comece por aquele que mais incomoda quando o assunto é bagunça.

REAPROVEITAMENTO

Não saia comprando todos os produtos organizadores do mundo. Entenda o motivo daquela compra e como o novo objeto irá te ajudar. É possível pensar também em soluções sustentáveis como fazer dos potes de sorvetes um porta-coisas ou transformar a tampa de uma caixa de sapatos em divisor de gavetas.

TEMPO

Acima de tudo, tenha paciência com você mesmo. Um bagunceiro não vai virar organizado da noite para o dia. Comece estabelecendo horários para lavar a louça do dia ou recolher todos os sapatos jogados da sala. Encontre uma rotina que caiba na sua.

EU ACHO …

DIGA NÃO AO HOMESCHOOLING!

Cavalo de Troia passa despercebidamente ameaçando nosso futuro

Não canso de me chocar com imagens que colocam lado a lado o Irã dos anos 1970 com o mesmo país após a Revolução Islâmica de 1979. Vemos nas fotos atuais a deterioração completa do lugar da mulher na sociedade iraniana, a perda de liberdade de ambos os gêneros, o inferno da perseguição a credos e costumes, o controle da vida privada dos cidadãos. Mas atenção, sua versão jabuticaba não pode ser subestimada.

A marcha à ré acelerada que o povo brasileiro engatou recentemente é um projeto de tirar o fôlego e representa anseios autoritários antigos, como Lilia Schwarcz documenta em sua obra “Sobre o Autoritarismo Brasileiro” (Cia das Letras, 2019). Tem conseguido retrocessos em todas as áreas de forma ampla e irrestrita: velhíssima política, escola sem reflexão, Estado francamente religioso, agenda ambiental digna da Revolução Industrial, pauta de costumes ultraconservadora. Olhe para qualquer lado e você verá algo a ser denunciado e contra o qual lutar para que sejam mantidos direitos básicos, conquistados a duras penas.

No entanto, esse show de horror só tem como se instalar definitivamente se a educação for impedida de cumprir sua função primordial: instruir com crítica, informar, socializar, enfim, educar paro a cidadania e para o bem comum, a partir da ciência, sem ignorar a subjetividade. Se a transmissão geracional se deteriorar ainda mais, seremos sucedidos por uma geração para quem racismo, misoginia e outras formas de opressão serão naturalizadas de forma programática e não haverá contraponto ao discurso hegemônico. Isso equivale a dizer que as crianças criadas no Estado fundamentalista não encontrarão nem nos livros de história – devidamente censurados – a versão do Estado laico e democrático que o precedeu.

Então, se você luta contra a reprodução de relações sociais nas quais exista m sujeitos com mais direito a viver do que outros e contra todo tipo de injustiça social, comece a se ocupar seriamente com o projeto que tramita atualmente no Congresso Nacional em favor da “educação domiciliar.

O cavalo de Troia que vai passando despercebidamente a partir do uso necessário e pontual da escola virtual durante a pandemia, carrega em seu bojo o pior. Animados por lobbies da educação que vendem acessibilidade, democratização do ensino e desempenho, mesmo os progressistas têm tido dificuldade de lutar contra o risco iminente.

Encampado pela ministra Damares Alves – que tem se mantido fora dos holofotes para melhor passar sua boiada -, o ensino domiciliar aponta para um caminho natural e inequívoco na direção do uso de recursos da educação (Fundeb) para financiar grupos religiosos e filantrópicos que assumam a tutoria pedagógica de um grupo considerável de crianças que se verão afastadas da escola presencial. Lembrando que o “bispo” Edir Macedo declarou publicamente que desaconselha sua filha a estudar, pois o estudo da mulher atrapalha o casamento – fica claro o rumo dessa conversa.

No Brasil a escola representa merenda, resistência ao trabalho infantil, vigilância contra a violência doméstica, convívio entre sujeitos de origens e costumes diferentes, igualdade de oportunidades, alternativa aos limites da família.

Entre interesses financeiros inescrupulosos, a retirada dos filhos de evangélicos do campo da escola presencial e a possibilidade de produção de material pedagógico próprio – projeto defendido há anos por Olavo Terra Plana de Carvalho -, alguém tem alguma dúvida do estrago irreversível que estão tramando sob nossos olhos?

Deputada Tábata Amaral, peço que diga não a mais essa terrível ameaça.

*** VERA IACONELLI – é diretora do Instituto Gerar, autora de “O Mal-estar na Maternidade” e “Criar Filhos no Século XXI”. Édoutora em psicologia pela USP

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EDUCAÇÃO PARA ROMPER MITOS SEXUAIS

Muito do que é aprendido em termos de sexualidade se faz informalmente, podendo gerar inúmeros equívocos. Desfazer mitos, além de ser uma responsabilidade social, é dever dos profissionais ligados à área da saúde

Muitos temas que envolvem a sexualidade não são abordados adequadamente e contribuem para a perpetuação do que conhecemos como mitos sexuais, bastante difundidos na população, entre eles:

1) não se pode conversar sobre sexo, porque a espontaneidade é perdida;

2) masturbação é imoral, prejudica a saúde física e mental;

3) quem deve começar o sexo é o homem;

4) mulheres que conseguem atingir o orgasmo somente com a estimulação do clitóris são imaturas;

5) o homem está sempre pronto para ter relações sexuais;

6) tamanho do pênis é fundamental para o prazer sexual da parceira;

7) não se aprende sexo: praticá-lo é cansativo e requer esforço;

8) sexo oral é vergonhoso.

Todas essas informações enganosas, entre outras, podem criar falsas expectativas e interferir no desenvolvimento e no desempenho sexuais.

Ser potente, como mito sexual, é mais do que ser forte: é estar sempre pronto a solidificar uma conquista por meio dos órgãos genitais. Aspectos como troca, bem-estar, respeito, interação não compõem a potência, mas muitos homens convivem diariamente com esses paradigmas.

Todos que lidam com o ser humano devem estar preparados para aproximar os conceitos estudados durante a formação acadêmica da realidade de vida de seus pacientes; mas surgem contradições entre o que é aprendido nas faculdades e o exercício profissional. Por exemplo, os médicos podem ter noções sobre a fisiologia e as doenças do aparelho genitourinário, bem como sobre reprodução humana, contudo eles podem estar despreparados sobre a diversidade dos comportamentos sexuais. Se mal informados durante a graduação, esses profissionais podem perpetuar conceitos falsos, as suas próprias incertezas e inseguranças gerarão ansiedade ao ouvirem queixas relacionadas à sexualidade de seus pacientes. Felizmente esse cenário está mudando, a passos lentos, e algumas escolas médicas contemplam na sua grade curricular o ensino sobre a sexualidade humana e seus transtornos.

Os profissionais da saúde, quando inexperientes no assunto, tendem a inferir seus próprios padrões de conduta, insuficientes para uma avaliação mais precisa do tema. Falar sobre sexo pode ser constrangedor para o paciente (e para o profissional da saúde, quando despreparado), mesmo ambas as partes sabendo que as práticas sexuais podem ser realizadas de diferentes maneiras.

Três conflitos podem emergir ao refletirmos sobre o tema:

1) o que está acontecendo com a sexualidade na cultura;

2) o que acontece nos meios acadêmicos; e

3) nas áreas da saúde.

Em cada caso, as respostas sobre o estudo da sexualidade humana têm sido negligenciadas, talvez pelo desinteresse e/ou pelas dificuldades e implicações profundas desse desafio. Como consequência, sensações como perda do controle e dúvidas se apropriam, portanto é imprescindível que os estudiosos da sexualidade criem métodos de pesquisa a fim de trazer à tona a realidade, para que assim possamos trabalhar com ela.

De um lado, as mudanças dos costumes sociais, relativas à esfera sexual – ainda que as pessoas não tenham superado as barreiras de defesa da própria intimidade -, fazem com que algumas pessoas se sintam inclinadas a buscar informações por meios variados, recorrendo, em muitas ocasiões, a qualquer profissional da equipe de saúde que lhes inspire confiança, para que esse lhe dê esclarecimentos a propósito dos problemas que estão ocorrendo em sua vida sexual.

Por outro lado, nos chamam atenção a medicalização da sexualidade e os riscos a ela concernentes: o da sexualidade das funções, ou seja, dividida em compartimentos corporais; o de uma sexualidade dependente da tecnologia “misteriosa”; o da sexualidade na qual a subjetividade é desconsiderada, em favor de informações cedidas por máquinas; o da sexualidade definida como funções de partes corporais, independentes de qualquer relacionamento com o contexto cultural; o da sexualidade centrada na atividade sexual com penetração, sempre dependente de especialistas.

As escolas médicas, mas não só elas, todos os cursos que preparam profissionais nas ciências da saúde devem estar atentos a uma visão mais holística do ser humano. Além de fornecerem os princípios técnicos e científicos adequados, precisam conjecturar sobre a importância de oferecer subsídios ao estudante referentes à amplitude do comportamento humano. Distorções nessa área acarretam um mau posicionamento do profissional frente ao paciente. Em contraposição, um relacionamento compreensivo, baseado na confiança do saber técnico e humano, aliado às experiências de vida profissional e pessoal do profissional da saúde, cria um ambiente de respeito recíproco, facilitando a condução do exame, permitindo a troca e abarcando o sofrimento.

GIANCARLO SPIZZIRRI – é psiquiatra doutorando pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do IPq e professor do curso de especialização em Sexualidade Humana da USP.