POESIA CANTADA

COMO NOSSOS PAIS

ELIS REGINA (1945-1982) foi uma cantora brasileira, considerada por muitos como a melhor cantora brasileira de todos os tempos. Sua morte precoce a transformou em mito. Diversas canções foram eternizadas na sua voz, entre elas: Águas de Março, Casa no Campo e COMO NOSSOS PAIS.

COMO NOSSOS PAIS

COMPOSIÇÃO: Antônio Carlos BELCHIOR.

Não quero lhe falar
Meu grande amor
De coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa

Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém

Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem

Hoje eu sei
Que quem me deu a ideia
De uma nova consciência
E juventude
Está em casa
Guardado por Deus
Contando o vil metal

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais

OUTROS OLHARES

A CASA EM UM CLIQUE

Plataforma se propõe a alugar imóveis por assinatura. Ao contrário do Air bnb, a prioridade são residências para moradia, e não para lazer

Sair à procura de um lugar para morar pode ser uma experiência desgastante, ainda mais se for às pressas. Périplo por imobiliárias, busca em sites, visitas, papelada e fiador são barreiras que costumam fazer as pessoas desistirem antes de começar. Além disso, é sempre uma tarefa inglória encontrar a moradia que combine localização ideal com serviços e preço adequados. O ambiente hostil, entretanto, está se tornando bem mais amigável: a tecnologia inovadora que mudou a forma como se consome entretenimento e transporte está também transformando o mercado de locação de imóveis. Ou seja, alugar um apartamento ou uma casa passou a ser tão fácil e cômodo quanto ver um filme no streaming ou pedir um carro pelo aplicativo.

Pensou no Air bnb? O revolucionário aplicativo, que começou a operar no Brasil em 2012, abriu um leque de opções para acomodar hóspedes por temporada, mas, até por suas características, ele é usado como plataforma de aluguel de veraneio, férias e feriados. Na cidade, o perfil do locatário é outro: o médico que migrou do interior, o divorciado que precisa sair logo de casa, o jovem executivo que não mora mais com os pais – apenas para citar alguns exemplos. Para esse público cosmopolita, acaba de ser criado o conceito de moradia por assinatura, cuja plataforma pioneira é a Housi, projeto do empresário Alexandre Frankel, também fundador da Vitacon, construtora especializada em pequenos apartamentos com serviços de cozinha e lavanderia compartilhados, um conceito igualmente inédito ao ser lançado, em 2019.

A Housi se propõe a alugar casas e apartamentos de forma instantânea, liberando imediatamente ao interessado a unidade escolhida. Para tanto, ele precisa ter cartão de crédito ou débito, do qual será cobrado o pacote que inclui aluguel, condomínio, IPTU e demais despesas. O inquilino não precisa passar em nenhuma imobiliária para assinar contrato e escolhe ficar pelo tempo que quiser, sendo cobrado por mês, como se fosse um assinante da Netflix, com a diferença de que, caso saia antes do período requisitado, deverá pagar 10% do restante da locação – a menos que se mude para outra unidade administrada pela Housi.

A modalidade simplificada, pronta para morar, serviu como uma luva para a modelo carioca Juliana Calderari, que está fixada em São Paulo por tempo indeterminado. Antes da pandemia, ela morava com os avós, mas precisou procurar seu canto para protegê-los da Covid-19 e também porque queria um apartamento de pé direito alto, onde pudesse fazer seus ensaios. Ela conta que procurou o serviço pela praticidade: “Se quebra alguma coisa, basta chamar pelo WhatsApp que eles vêm trocar”.

Embora o conceito seja novo, algumas empresas buscam caminhos similares – não exatamente iguais, ressalte-se. Em São Paulo, a construtora TPA reformou um prédio da década de 40 e colocou todas as 161 unidades para alugar, também sem qualquer burocracia e por períodos flexíveis. Em Belo Horizonte, a MRV, a maior construtora do país, descobriu no aluguel de unidades recém-construídas uma maneira de fazer dinheiro rápido. Lançada em Minas, a iniciativa foi expandida para outras regiões.

Crescente, o movimento está em sintonia com os hábitos de jovens de hoje, os millennials, mais interessados nos serviços e na localização do que na posse. Segundo Frankel, 82% desse público prefere alugar a comprar, porcentual que supera a média nacional. Trata-se de um contingente de milhões de pessoas que não querem adquirir uma propriedade só pelo fato de tê-la, uma vez que podem vir a morar em outra cidade ou mesmo em outro país de uma hora para outra – fenômeno que foi impulsionado pelo home office.

Das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, onde começou a operação em março de 2020, a Housi saltou para quarenta municípios em todas as regiões do país. Tem sob sua custódia 20.000 unidades, que contabilizam 10 bilhões de reais em ativos. A plataforma é dividida em site e aplicativo, mas o site ainda é mais utilizado, inclusive pelos proprietários que cadastram imóveis para alugar.

É de imaginar que o conceito represente uma ameaça às imobiliárias tradicionais, como a Netflix acabou com as videolocadoras. O fundador da Housi refuta esse atrito, afirmando que são modelos complementares e que a sua empresa pode prestar serviço às imobiliárias, como faz junto à hotelaria e a construtoras que vendem imóveis para investidores interessados na receita do aluguel. “Imóvel é apenas um hardware, precisa de um software para funcionar”, diz o empresário.

Iniciativas como essas reforçam um momento único para o setor. O mercado imobiliário não sabe o que é crise. De acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), o volume de financiamentos cresceu 113% no primeiro trimestre, ante igual período de 2020. Os números são ainda mais surpreendentes considerando que o crédito já havia avançado 57,5% no ano passado. Se não for viável comprar a casa, seja por razões financeiras, seja por desejos pessoais, a tecnologia pode ser uma aliada decisiva – e as plataformas digitais estão aí para provar isso.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 19 DE JULHO

SOBERBA, A PORTA DE ENTRADA DA RUÍNA

A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda (Provérbios 16.18).

A soberba procede de uma avaliação falsa a respeito de nós mesmos. Agostinho de Hipona disse que, se nós entendêssemos que Deus é Deus, compreenderíamos que nós somos apenas seres humanos. Viemos do pó e voltaremos ao pó, por isso somos pó. Não somos o que somos. Somos o que fomos e o que havemos de ser, pois só Deus é o que é. Deus se apresentou a Moisés no Sinai: “EU SOU O QUE SOU”. Deus é autoexistente e não depende de ninguém. Ele é completo em si mesmo. Tem vida em si mesmo. O homem, porém, é criatura, é dependente e não tem motivo para orgulhar-se. A soberba transformou um anjo de luz em demônio. Por causa da soberba, Deus expulsou Lúcifer do céu. Deus resiste aos soberbos. Ele declara guerra aos orgulhosos e humilha os altivos de coração. A soberba é a porta de entrada do fracasso e a sala de espera da ruína. O orgulho leva a pessoa à destruição, e a vaidade a faz cair na desgraça. Na verdade, o orgulho vem antes da destruição, e o espírito altivo, antes da queda. Nabucodonosor foi retirado do trono e colocado no meio dos animais por causa da sua soberba. O rei Herodes Antipas I morreu comido de vermes porque ensoberbeceu seu coração em vez de dar glória a Deus. O reino de Deus pertence aos humildes de espírito, e não aos orgulhosos de coração.

GESTÃO E CARREIRA

VAGAS PARA PCDS AINDA SÃO VISTAS COMO OBRIGAÇÃO

Com fim de validade de lei, Caged mostra alta nas demissões de pessoas portadoras de deficiências

Na última terça-feira, o psicólogo e tecnólogo em teatro João Paulo Lima, de 28 anos, recebeu a notícia que muitos esperam: foi aprovado em um processo seletivo de uma fintech para trabalhar no setor de atendimento ao cliente. A busca havia começado em abril, quando ele deixou o emprego na Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo.

João Paulo, que possui paralisia cerebral, vivenciava até a última terça-feira o drama do grupo das quase 25 mil pessoas com deficiência e reabilitadas desligadas no primeiro trimestre. Além das dificuldades convencionais que pessoas com deficiência (PCD) enfrentam no mercado, ele teve de superar uma barreira estatística: o número de PCDs e reabilitados desligados no País atualmente é maior do que o número de contratações.

As informações são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que de dezembro a abril tem registrado mensalmente um saldo negativo de admissões comparadas às demissões. O número contrasta com a categoria de pessoas que não portam deficiências, cujo índice se manteve positivo desde janeiro de 2021, apesar de o desemprego atingir 14,8 milhões de brasileiros.

Conforme os dados, o saldo para contratações de PCDs é negativo na maioria das atividades econômicas e em todos os tipos de deficiência e nos diferentes graus de instrução.

“Quando isso ocorre, o atributo ‘pessoa com deficiência’ está se sobrepondo aos outros atributos, como econômico e escolaridade”, diz o economista Fábio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.

LEGISLAÇÃO

Segundo especialistas ouvidos, diferentes motivos explicam a menor quantidade de admissões em relação aos desligamentos de PCDs nos últimos meses.

Ivone Santana, chefe-executiva da Rede Empresarial de Inclusão Social (Reis), acredita que a queda na absorção de pessoas com deficiência a partir de janeiro pode estar relacionada ao fim da validade da Lei 14.020, de julho de 2020, que vetava a demissão de PCDs em justa causa até 31 de dezembro. A lei deixou de ser aplicada em 2021, por estar submetida ao Decreto Legislativo nº 6, que reconhecia estado de calamidade pública no País até dezembro.

A lei, de fato, freou em 2020 as demissões de PCDs e reabilitados. Entre agosto e novembro, o Caged registrou mais admissões do que desligamentos. Em janeiro de 2021, sem mais a vigência da lei, os desligamentos voltaram a predominar.

Ivone lamenta que as pessoas com deficiência ainda precisem superar o despreparo de gestores e a falta de uma cultura de acessibilidade nas empresas “que não estão comprometidas com a inclusão”. Nelas, segundo a diretora da Reis, “as pessoas com deficiência são as primeiras a serem demitidas”.

José Carlos do Carmo, auditor fiscal da Superintendência Regional do Trabalho em São Paulo, é responsável por fiscalizar se as empresas cumprem a Lei de Cotas, que prevê a contratação obrigatória de PCDs e reabilitados a partir da quantidade de funcionários do quadro.

“Contratar não se trata de benevolência, mas de uma obrigação legal. É necessário que haja uma real política de valorização da diversidade”, afirma.

Para João Paulo Lima, no contexto de pandemia “se de um modo geral o custo para manter um funcionário com deficiência é maior por uma questão da acessibilidade, o empregador vai querer mandar esse funcionário embora porque, se ele já é grupo de risco, imagina se ele pega covid”.

CAPACITISMO

Ivone Santana, diretora do Instituto Parités, que promove a cultura de inclusão de PCDs em empresas, afirma que “enfrentamos uma sociedade extremamente capacitista, em que o preconceito e o despreparo de gestores e das empresas e a falta de acessibilidade ainda prevalecem”.

O capacitismo é o nome dado ao preconceito que atinge pessoas com deficiência, julgadas sob o estereótipo de não serem capazes de realizar determinadas tarefas.

“As empresas alegam que, muitas vezes, mesmo oferecendo vagas, não encontram pessoas para preenchê-las, pois acreditam que elas não têm as qualificações ou requisitos necessários para os cargos, como por exemplo ensino superior completo”, afirma a psicóloga Paolla Vicentim, líder de projetos da ASID (Associação Social para Igualdade de Diferenças).

Na mesma linha, a pesquisadora Maíza Hipólito questiona: “Por que a qualificação não pode acontecer no ambiente de trabalho?”.

EU ACHO …

DJ. IVIS NÃO É O ÚNICO COVARDE

”Precisamos educar nossos jovens: a mulher para não aceitar apanhar, o homem para não bater e as pessoas para denunciar”

Meninas e mulheres podem se orgulhar de uma enormidade de conquistas nos últimos 50 anos. Na vida, no trabalho, nas leis. Mas ainda enfrentam uma ameaça entre as quatro paredes de casa. Pode ser fatal. Essa ameaça é a força física do homem-marido, pai ou padrasto. E seu descontrole, por bebida ou surto. Ele age escorado numa sociedade ainda machista e condescendente, que não condena exemplarmente agressores de mulheres. E protegido pela insegurança e pelo medo da companheira.

Vi e revi as imagens do DJ. Ivis espancando sua agora ex-mulher Pamella Holanda, no quarto da bebê Mel, de 9 meses, e no sofá do apartamento da família em Fortaleza. Pamella diz que a primeira agressão do marido aconteceu quando ela estava grávida. Achou que era “do temperamento dele” e que ia mudar. Também receou que ninguém acreditasse nela sem imagens de vídeo. Ele é um fenômeno do forró eletrônico, ritmo que acho insuportável e brega, mas move milhões de fãs no streaming. Ela, uma esposa, dependente financeiramente.

Foram socos nas costas, na cabeça, pontapés, chutes, puxões de cabelo, empurrões. Testemunhados pela mãe de Pamella e pelo braço direito do DJ, o Charles: “Travei”, disse ele, ao explicar porque nada fez. Tenho evitado assistir a vídeos violentos ou grotescos – e nessa última categoria incluo as lives do presidente. Mas vi o vídeo do DJ. lvis porque sou mulher, mãe de dois homens, avó de uma menina e um menino. Na educação, na primeira infância, a tolerância com agressões deve ser zero.

Entendo que o choque e a indignação venham das mulheres. Cada tapa do DJ. Ivis é como se fosse em cada uma de nós. Mas é preciso que vocês, homens, se revoltem publicamente. Não sejam tímidos nem covardes. Protestem nas redes e em textos. Vocês têm mãe, irmã, filha, mulher. Não deleguem a raiva a nós. Porque é luta de todos. Não pode parecer uma guerrinha de gêneros. Sejam parceiros. Não há lugar de fala aí nessa história.

Levei surras de cinto e sapato do meu pai quando era criança. Lembro que uma vizinha me perguntou no elevador a causa dos roxos na perna e no braço, minha mãe respondeu que eu tinha caído da escada e eu protestei: “Não foi isso, foi meu pai que bateu em mim”: Sem saber, lá estava uma feminista mirim que nunca se calaria contra qualquer assédio. Depois, com psicanálise, eu o perdoei, embora ele nunca tenha se desculpado. Normal. Quem bate esquece. Ele era um pai carinhoso, protetor. E é isso que confunde meninas e mulheres. A violência mesclada ao amor.

A Lei Maria da Penha, de 2006, ajuda, mas não resolve. O Brasil está no quinto lugar mundial em feminicídios. Em quase 70% dos assassinatos de mulheres, o criminoso é companheiro ou ex. Mais armas nas mãos de civis agravarão essa tragédia. Não sei se a sociedade, por covardia, finge não entender: o espaço de casa continua perigoso para menina e mulheres. A violência familiar aumentou na pandemia, com o confinamento doméstico. Como quebrar esse padrão? “Precisamos educar os nossos jovens: a mulher para não aceitar apanhar, o homem para não bater e as pessoas para denunciar”, afirmou a ex vice-presidente da OAB-DF, Daniela Teixeira.

Nosso cronista Nelson Rodrigues dizia, num outro tempo, não tão distante, que “nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais”. Se você pensa que esse pensamento é totalmente ultrapassado, está fora da realidade estatística. O perfil do DJ. Ivis ganhou mais de 235 mil seguidores depois dos vídeos de agressão a Pamella.

*** RUTH DE AQUINO

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANDO O MEDO SE TRANSFORMA EM FOBIA

Apesar de ser imprescindível para a formação emocional da criança, e até mesmo para a sobrevivência da espécie humana, o medo pode desencadear um processo patológico, provocando uma série de transtornos

Todo mundo, e isso inclui crianças e adolescentes, tem medo de alguma coisa. Medo de aranhas, de cobras, do escuro, mas principalmente o medo do desconhecido. Ter medo é natural e até importante para o desenvolvimento emocional humano. Existe, porém, um medo patológico: a fobia, um transtorno que causa muito sofrimento e prejuízos ao seu portador e que pode atingir as crianças.

O medo tem acompanhado o ser humano desde os tempos mais remotos e é considerado imprescindível à sobrevivência, agindo como um grande e poderoso aliado, mecanismo de defesa essencial para a preservação da espécie. É ele que nos impede de pularmos de um precipício, atravessarmos uma rua sem olhar para os lados, entre tantas outras situações às quais frequentemente estamos expostos.

O medo é considerado, assim, uma emoção primária, associada a situações nas quais devemos nos defender (ou defender a quem amamos), que acompanha o homem desde os tempos pré-históricos e que o salva do perigo. É como se ele fosse um instinto que alerta o nosso cérebro a se organizar e reagir de modo totalmente incomum, em vista de uma situação de perigo.

No momento em que uma ameaça é percebida através de estímulos sensoriais (órgãos dos sentidos), imediatamente há como que o soar de um “alarme”, como se um “botão” fosse acionado. Este botão, que podemos chamar então de medo, é o responsável por enviar a mensagem de perigo, ao cérebro, que daí para frente passa a comandar uma série de ações e reações fisiológicas e comportamentais, mobilizando todo o organismo humano para enfrentar a situação.

Podemos ter várias reações diante de uma situação de ameaça de perigo: fugir, paralisar, lutar, submeter-se. Nosso organismo, porém, diante desta emoção vai se mobilizar, especialmente para duas opções: fuga ou luta e, assim, começa a organizar fisiologicamente um conjunto de respostas aos estímulos recebidos. A respiração torna-se acelerada, profunda, obrigando os pulmões a aumentarem sua atividade a fim de levarem mais oxigênio para o sangue. As pupilas tornam-se dilatadas, para que possamos ter uma melhor visão da situação, de um predador, ou mesmo do campo de fuga.

O fígado, dentro do seu sistema, imediatamente começa a trabalhar para liberar e enviar grandes quantidades de açúcar à corrente sanguínea, para dar energia extra ao corpo (que o cérebro entende que está em luta ou em fuga). O aumento de glicose auxilia o cérebro e os músculos. O coração aumenta sua velocidade e ritmo de batimentos. Vários hormônios são produzidos neste “frenesi”, estimulados por neurotransmissores como a adrenalina, noradrenalina, entre outros. Os hormônios adrenocorticotróficos entram em ação, há produção de betaendorfinas, que funcionam como analgésicos. Assim, em meio a uma fuga, se houver um ferimento, a dor será de alguma forma diminuída.

Como a energia é aumentada, gerando calor, o mecanismo da transpiração é acionado para que este calor seja eliminado de alguma forma. Tudo isso ocorre em frações de segundos. Trata-se de um incrível programa biológico pronto para entrar em ação em função do medo e nos ajudar.

Pode-se, então, dizer que o medo, como uma característica biológica favorável à manutenção da vida, fez com que as espécies que o apresentavam em maior grau sobrevivessem e gerassem mais descendentes, que foram, assim, transmitindo geneticamente esta característica, num ciclo de evolução.

Há medos típicos de cada fase do desenvolvimento que devem ser passageiros ou substituídos, assim como seus mecanismos devem ser adaptativos e ajustados. Ao passar pela situação de medo, o corpo gera um grande potencial de energia, que precisa ser descarregado, para que não haja uma sobrecarga prejudicial ao sistema fisiológico e psicológico humano.

INTELIGÊNCIA E IMAGINAÇÃO

Diferentemente dos outros animais, além das emoções primárias e instintivas, o homem é dotado de inteligência e uma extrema capacidade imaginativa. Embora, na maioria das vezes, essas características nos ajudem, em algumas situações podem ser prejudiciais, principalmente quando, através do pensamento criativo e da imaginação, confundimos perigos reais com irreais, desencadeando medos desnecessários e toda a “programação biológica” originada pelo medo. Quando isso acontece, estamos diante de estados de ansiedade.

A ansiedade ocorre quando não há exatamente uma ameaça iminente, mas o indivíduo desencadeia toda a tensão programada para o medo, como se o perigo já estivesse ocorrendo naquele instante. Vive uma sensação de agonia, de angústia e de aflição, em vista da incerteza do perigo ou, ainda, prevendo uma situação de ameaça, que muitas vezes não é real.

Estudiosos do comportamento humano ressaltam a importância da ansiedade como uma “mola propulsora de ação”, isto é, prevendo um perigo, o ser humano age em favor de sua autoproteção. Sentir-se ansioso, assim como ter medo, em certas situações da vida pode ser visto como algo natural, universal.

Muitas vezes, porém, a sensação de ansiedade passa a ser constante, persistente ou extrema, podendo evoluir para um transtorno com vários espectros, desencadeando problemas psicossomáticos. Neste contexto, pode surgir a fobia, que, segundo pesquisadores, carrega um alto nível de ansiedade, que interfere diretamente e negativamente na vida do seu portador.