EU ACHO …

A DEMANDA REPRIMIDA

Pior do que não ter dinheiro, é ter tido e perdê-lo. É preciso ter prudência sobre o futuro

Quase todos crescemos com demandas reprimidas, especialmente financeiras. A falta de recursos impede certo padrão de consumo. Os que possuem quase nada, os medianos e mesmo os ricos têm algum tipo de repressão ao consumo. Faça um exercício de imaginação: se eu ganhasse cem mil reais por mês. Claro que isso resolveria grande parte das minhas demandas atuais. “‘Eu poderia viajar, trocar de carro, pagar conta atrasadas!” Sim, minha querida sonhadora e meu estimado sonhador, mas dentro de limites. Há algumas pessoas que ganham cem mil reais por mês e podem viajar, mas não podem, por exemplo, passar as férias todas na suíte real do hotel Burj AI Arab Jumeirah de Dubai. Ali, em dois dias, a renda magnífica da pessoa de cem mil reais estaria consumida. Se optasse pela suíte similar do hotel Presidente Wilson (Genebra, Suíça), necessitaria quase dois meses de renda para passar um dia naquele espaço com vista para o lago. Sim, alguém com cem mil reais por mês (ou até um milhão) também teria ”demandas reprimidas”.

A demanda reprimida explica muita coisa na vida profissional e financeira. Pessoas que trabalham demais costumam oferecer a si mesmas recompensas que comprometem sua saúde financeira. “Ah, eu mereço, eu trabalhei tanto!” Além do estresse do excesso laboral, existe um sistema de compensações perigoso quando vivemos sobre o fio da navalha da exaustão. O mesmo ocorre para pessoas que tiveram necessidades básicas severamente reprimidas por muito tempo e, de repente, entram na posse de uma grande quantia. Pode ser uma indenização trabalhista, uma loteria, uma herança súbita: a conta, antes vermelha, torna-se superavitária. Anos lutando com um orçamento que não fechava, evitando comer ou vestir o que desejava, morando em casa onde a reforma essencial era adiada a cada semestre e, de repente, as pepitas de um ouro súbito refulgem. É frequente que o dinheiro se evapore com rapidez. E a tal de “demanda reprimida”. “Dinheiro na mão e vendaval”, cantava Paulinho da Viola.

Quando escrevo isso, não me refiro apenas às histórias contadas por terceiros ou criadas por mente ficcional. Também eu já recebi dinheiros súbitos no passado e já vi o milagre da “subtração dos pães”, a inversão do milagre bíblico. Se a localidade de Tabgha visualizou dois peixes e cinco pães alimentarem milhares de pessoas sob a brisa gentil do Mar da Galileia, cestas repentinas com pães e peixes podem minguar na mão de quem pensa que o fenômeno vai se repetir sempre. Se o universo ao meu redor tiver, igualmente, grande fome, a evaporação se acelera. Trocar meu carro, presentear esposa e filhos, atender a santa mãezinha que não tem casa própria, emprestar a um amigo que se sufoca com dívidas e puf! Sumiu o capital da mesma forma miraculosa com que surgiu.

Sim: pobres, classe média e ricos têm “demandas reprimidas”. Não tratadas ou refletidas, elas podem corroer qualquer montante. A fome excessiva pode levar a um mastigar tão rápido que provoca mal-estar. A sede em excesso possui potencial para que a bebida escorra do copo edos lábios para se perder entre roupas e mesa. Como pedir moderação a quem atravessou um deserto de austeridade ou necessidade? Deque forma se pode incitar à prudência quem carrega uma dor profunda e corrosiva? Em toda cena de filmes nos quais um grupo, quase à morte, encontra um oásis, todos se atiram nas águas, ninguém faz uma degustação equilibrada do líquido. A sede abrasiva derruba civilidades. Dizendo de forma popular, “quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza”.

Bem, quanto melado precisamos para um patamar de prudência? Difícil dizer. Há um erro comum no Brasil: supor que educação financeira é coisa de gente muito rica. Na verdade, quanto menor o capital, maior deveria ser a educação dos bens. Voltando um pouco: o cantil deve ser racionado no deserto, não no oásis. Gastos são estudados pelos economistas, todavia, o caso quase sempre é mais psíquico do que de leis de mercado.

Sim, a abundância ajuda. Todas as vezes que meu refrigerador esteve sem nada, tive vontades fortes de comer muito. Com estoques em casa, a vontade diminui. Será que o sábio rei Salomão olhava com tédio para seu harém numeroso com setecentas esposas e trezentas concubinas? Em oposição, como pensaria o adolescente hebreu fervente de hormônios que nem uma única mulher conseguia nas vielas de Jerusalém? Se, subitamente, por um passe mágico e inesperado, o jovem ansioso estivesse no lugar do governante, supomos que os dias iniciais seriam de intensidade única. Agora, com o refrigerador cheio, cansaria logo? Alguns especialistas na psique imaginam que hábitos de gastos seguem uma lógica erótica, o que ajuda a explicar minha referência ao rei de Israel. Salomão foi homem de muitas mulheres e de grande fortuna. Uma coisa excluiria outra ou explicaria?

Bem, todos temos carências afetivas, sexuais e financeiras. Ter consciência delas ajuda bastante. Todo dinheiro deve responder a algumas questões antes de assumir a cidadania no meu lar: de onde veio este haverá mais? Como fazer com que ele vire mais dinheiro? Quais demandas posso atender agora e quais posso adiar para que sejam atendidas no futuro sem risco? Sem responder a tais perguntas, há uma chance de evaporação dolorosa. Sim, pior do que não ter dinheiro, é ter tido e perde-lo. É preciso ter esperança e alguma prudência sobre o futuro.

*** LEANDRO KARNAL – é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de ‘O Dilema do Porco Espinho’, entre outros

OUTROS OLHARES

CIENTISTAS TESTAM VACINA CONTRA HIV

Imunizante que está sendo avaliado em estudo de fase 3, inclusive no Brasil, é visto como o mais promissor em 40 anos de epidemia

O desenvolvimento em tempo recorde de várias vacinas contra a covid-19 parece ter dado o impulso que faltava para a criação de um imunizante contra o HIV. Quarenta anos depois do início da pandemia de aids, o mundo parece estar perto de ter um produto eficaz na prevenção da infecção. Um estudo com mais de 6 mil pessoas está sendo conduzido em vários países da África, Europa, América do Norte e América Latina, inclusive no Brasil. Para especialistas, é o mais promissor em quatro décadas.

O estudo está dividido em duas frentes. A primeira delas, na África Subsaariana, testa 2.637 mulheres heterossexuais. Uma segunda, chamada de Mosaico, conduzida na Europa, na América do Norte e na América Latina, está testando 3.600 voluntários, entre homens homossexuais e pessoas trans. No Brasil, o estudo ocorre em oito centros de pesquisa em São Paulo, no Rio, em Minas e no Paraná.

A pesquisa está na fase 3, que testa a eficácia em larga escala. As fases 1 e 2, com menos voluntários, determinam a segurança do produto e a dose apropriada. Numa fase anterior, em macacos, o imunizante apresentou uma proteção de 67% contra a infecção. É por conta deste número que os cientistas estão otimistas. Até hoje, o candidato a vacina contra a aids mais eficaz já testado no mundo apresentava proteção de 30% – e sua pesquisa foi deixada de lado.

“Nas fases 1 e 2, a vacina se mostrou muito segura. Os efeitos colaterais são parecidos aos da AstraZeneca contra a covid: dor local, febre por um dia, dor de cabeça”, afirma o infectologista Ricardo Vasconcelos, coordenador da fase 3 no Hospital das Clínicas, em São Paulo. “A imunogenicidade do produto, ou seja, o quanto ele conseguiu induzir uma resposta imune, foi considerada muito satisfatória. Resta saber se essa resposta é capaz de reduzir a incidência da infecção.”

A vacina está sendo aplicada em pessoas soronegativas que tenham o risco aumentado de exposição à infecção. Os voluntários serão acompanhados por 30 meses. Metade receberá placebo e a outra metade, o imunizante. Cada um tomará quatro doses, com intervalos de três meses entre cada uma.

MUTAÇÕES

A grande capacidade de mutação do vírus HIV – muito superior à do Sars-CoV-2 – sempre foi o maior obstáculo para a criação de uma vacina eficaz. A tecnologia usada no novo imunizante é similar à da AstraZeneca desenvolvida contra a covid-19. Um adenovírus inativado é usado como um ‘cavalo de Troia’ para levar fragmentos genéticos do HIV para dentro da pessoa a ser imunizada, “treinando” o seu sistema imunológico a combater o vírus real. A diferença é que, neste novo produto, estão sendo usados milhares de fragmentos genéticos.

“São muitos tipos diferentes de vírus circulando pelo mundo, a ideia é conseguir cobrir o maior número possível de variantes”, explica Vasconcelos. “(Essa pesquisa) se chama Mosaico porque reúne milhares de fragmentos de HIV.”

Mas, afinal, por que várias vacinas contra a covid foram desenvolvidas em menos de um ano e ainda não se chegou a um imunizante contra o HIV? “A principal resposta é que são vírus diferentes. Não é porque chegamos rápido a uma vacina contra o coronavírus que poderemos chegar na mesma velocidade a um imunizante contra outro vírus”, pondera Vasconcelos. “Muitas pessoas pegaram covid e se curaram. Ninguém se curou da infecção pelo HIV. Ou seja, de partida, sabemos que é possível curar a covid. A resposta imune contra o HIV é muito menos eficaz.”

Por outro lado, a vacina da AstraZeneca contra a covid-19 pode ser desenvolvida em menos de um ano porque a plataforma do adenovírus já tinha sido desenvolvida na Universidade de Harvard, em 2015. Sem falar, é claro, do interesse político e do alto investimento financeiro. Agora, as plataformas de RNA mensageiro inéditas, criadas para a covid, podem facilitar, num futuro próximo, o surgimento de mais candidatos a imunizante contra a aids.

“Foram 40 anos de evolução nas pesquisas, houve várias tentativas, pelo menos seis estudos muito grandes”, diz o infectologista Bernardo Porto Maia, coordenador da pesquisa Mosaico no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo. “Mas o HIV é um vírus com uma capacidade de mutação muito grande. A diversidade genética inviabilizava a criação de uma vacina, sobretudo com as tecnologias antigas que tínhamos.”

Atualmente, 38 milhões de pessoas vivem com HIV no planeta, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Até hoje, pelo menos 33 milhões de pessoas morreram vítimas da infecção. Com a evolução nas técnicas de prevenção e nos tratamentos, a mortalidade caiu de 1,7 milhão em 2004, no pico da epidemia, para 690 mil em 2019 – uma redução de 60%. A taxa de infecção também caiu. De 2,8 milhões de novas infecções ao ano em 1998 para 1,7 milhão em 2019, queda de 40%.

“Os avanços mais recentes, como a profilaxia pós-exposição, estão mudando o rumo da epidemia. A situação melhorou, mas é inaceitável termos quase 700 mil mortes ao ano por uma doença que sabemos como prevenir e como tratar”, afirma Maia. “Nada melhor que a imunização em massa para combater uma pandemia.”

CONFIANÇA

Ativista do coletivo Colid, em prol da diversidade, o pesquisador de Ciências Contábeis da Universidade Federal do Rio de Janeiro Thauan Carvalho, de 26 anos, é um dos voluntários brasileiros do estudo Mosaico, que testa o mais novo e promissor imunizante contra o HIV já desenvolvido em 40 anos de pandemia. A fase 3 da pesquisa tem a participação de 3.600 voluntários em oito países da Europa, da América do Norte e da América Latina, incluindo o Brasil.

Carvalho tomou no dia 2 de junho a primeira dose do imunizante – no total, são indicadas quatro para a vacina. A próxima está prevista para agosto.

O cientista já teve um relacionamento sorodiscordante (em que uma pessoa é soropositiva e outra é soronegativa) e sabe o quanto a aids é cercada de estigma e preconceito. Ele acredita que seu gesto pode ajudar a reduzir esses danos. “Para combater o preconceito, precisamos de conhecimento”, diz o pesquisador, que está concluindo um doutorado. “Vivemos em meio a um negacionismo muito forte, um obscurantismo muito grande. Me senti muito feliz de poder ajudar.”

Em macacos, o novo imunizante conseguiu reduzir a infecção em 67% dos casos, um marco na pesquisa da vacina contra a aids. “Estou muito confiante de que teremos boas notícias vindas da ciência”, diz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 16 DE JULHO

APRENDA A LIDAR COM SEUS SUPERIORES

O semblante alegre do rei significa vida, e a sua benevolência é como a nuvem que traz chuva serôdia (Provérbios 16.15).

A atitude daqueles que nos lideram e estão sobre nós atinge-nos diretamente. Se esses líderes estão de bom humor, com o semblante alegre, um clima agradável e ameno se estabelece. Se estão furiosos e mal-humorados, porém, o ambiente se transtorna. Quando o rei fica contente, há vida; a sua bondade é como a chuva da primavera. A alegria do líder transborda em ações de bondade, e essas ações descem sobre nós como chuva serôdia, preparando o campo do nosso coração para uma grande colheita. É claro que os sentimentos, as ações e as reações daqueles que nos estão governando dependem, e muito, da maneira como os tratamos. Nossas ações de obediência e fidelidade provocam reações de benevolência. Nossa presteza em servir com alegria retorna a nós como chuvas de bênção. Colhemos o que plantamos e bebemos o refluxo do nosso próprio fluxo. Servos insubmissos produzem patrões carrascos. Servos fiéis produzem líderes generosos. Quando lidamos de forma sábia com os nossos superiores, estamos investindo em nós, pois colhemos os frutos sazonados de nossa própria semeadura.

GESTÃO E CARREIRA

EMPRESAS PROCURAM PROFISSIONAIS QUE POSSAM ENSINAR O QUE É ESGDemanda por especialista é alta, mas há risco de transformar agenda em mais um departamento

Com o ESG ganhando cada vez mais tração no mundo dos negócios, as empresas correm contra o tempo para entrar no jogo. Muitas tem procurado especialistas para conseguir implementar princípios ambientais, sociais e de governanças nos negócios.

Essas três práticas representam o ESG, sigla, em inglês, para Environmental, Social and corporate Governance.

Os desafios, porém, são encontrar profissionais capacitados e fazer com que a agenda não se torne apenas um novo departamento.

Segundo o CFA Institute, associação global que reúne e certifica profissionais de finanças, a demanda por esse tipo de expertise é alta e a oferta segue baixa.

Em pesquisa feita em dezembro de 2020, a instituição analisou 1 milhão de contas no LinkedIn é concluiu que menos de 1% tinha qualificação na área.

O levantamento considerou apenas pessoas do ramo financeiro, um dos fatores mais entusiasmados com o tema. Ou seja, se faltam profissionais nesse mercado, é de se esperar que o mesmo ocorra em outros segmentos. Para capturar a crescente demanda, a PWC, rede global de auditoria e consultoria, anunciou que vai contratar mais de 1.000 pessoas nos próximos cinco anos. O plano faz parte de um investimento bilionário do grupo para aperfeiçoar seus serviços de assessoria em questões ESG, que devem ser cada vez mais requisitados.

Maurício Colombari, sócio da PWC, diz que já percebeu um aumento na busca por consultorias e especialistas no Brasil no último ano. Segundo ele, atualmente, os profissionais mais capacitados são os que possuem conhecimento aprofundado em algum dos temas que a agenda engloba. “Os maiores especialistas na parte de meio ambiente, por exemplo, vêm das áreas de gestão ambiental e de engenharia de produção. São pessoas que cuidam da cadeia de valor, economia circular, gestão de resíduos. Na parte social, são os profissionais de ciências humanas, e em governança, do direito e da administração”, afirma.

Para Colombari, a expertise em ESG acaba sendo um “puxadinho” de outras formações – o que não é algo necessariamente ruim, já que o tema demanda uma gama diversa de especializações.

“Um profissional de ESG é até difícil de existir, porque precisaria dominar tantas temáticas que você começa a pensar se é possível transitar entre todas elas”, diz. “Quem quiser abraçar tudo corre o risco de ser superficial, o que não será suficiente para tratar dos desafios das organizações.

No Brasil é comum que algumas empresas depositem a responsabilidade de suas agendas ESG no departamento de sustentabilidade quando não no marketing. No entanto, ao fazerem isso, correm o risco de tratar o tema como incumbências de um setor específico, em vez de compromisso de todo o negócio, como defende Colombari.

“No mundo ideal, cada, área da empresa pensaria com a mentalidade de ESG ao tomar decisões. O ideal é que isso esteja incorporado em todos os departamentos”, afirma.

É o que também pensa Nelmara Arbex, sócia de ESG da KPMG, multinacional de auditoria e consultoria. Para ela, lugares mais avançados na agenda, como Europa e Estados Unidos, se destacam por entender os três princípios de forma mais abrangente.

“A primeira coisa que a gente percebe no exterior é que a educação para os aspectos sociais, ambientais e éticos são esparramados por toda a organização. Especialmente na Europa, nas grandes e médias empresas, você vê que qualquer executivo tem facilidade de falar sobre a relação do ESG com a sua área, seja ela finanças, RH ou planejamento”, diz.

Arbex, que também foi vice presidente da GRI (Global Reporting Inictative) entidade internacional que estabelece padrões para relatórios de sustentabilidade, diz que não é tão comum ver, em outros países, pessoas se formando para um cargo de gestão de ESG. “Na verdade, você tem profissionais de várias áreas trazendo cursos de especialização no tema”, afirma.

Segundo a especialista, o Brasil está atrasado nesse aspecto de formação, mas a expectativa é que isso ande mais rápido nos próximos anos.

“Não é só formar um profissional superespecializado numa área específica. Vamos ter que capacitar as pessoas que já estão dentro das empresas. Todo mundo vai ter que passar por um upgrade”, diz.

Foi o que a Nespresso norte-americana fez. Após sofrer críticas sobre o impacto ambiental de suas cápsulas de café, viu a necessidade de expandir o conceito de sustentabilidade para seus funcionários. Como? Criando um curso para seus executivos.

Em parceria com a NYU Stern School of Business, a Nespresso desenvolveu formação para ensinar seu quadro sobre sustentabilidade na indústria do café. Em uma das atividades, os participantes visitam uma fazenda na Costa Rica para ver o programa de abastecimento sustentável da empresa. Eles também têm aulas de negócios e são incentivados a desenvolver projetos para reduzir o desperdício nos escritórios.

O curso existe desde 2016 e, de lá para cá, 118 funcionários de diferentes áreas da Nespresso participaram, o que ajudou a melhorar os índices de reciclagem das cápsulas.

Aqui no Brasil, a alta busca por programas de qualificação é percebida por quem oferece formações em ESG. Segundo Adriane de Almeida, diretora de desenvolvimento do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), a demanda nunca foi tão grande.

O instituto lançou seu primeiro curso sobre o tema no segundo semestre de 2020, para conselheiros de empresas. Todas as edições lotaram e eles viram a necessidade de criar um para gestores.

João Carlos Redondo, coordenador da comissão de sustentabilidade do IBGC, concorda que o conhecimento sobre os princípios ambientais, sociais e de governança devem ser difundidos por todos os departamentos da organização. No entanto, ele julga imprescindível a existência de um coordenador das ações.

“A inexistência de alguém para liderar essa agenda nas empresas pode comprometer o avanço. Tem que ter um ‘sponsor’ (patrocinador), alguém tem que organizar tudo isso”, diz.

Assim como o IBGC, instituições como o Insper, FGV e Fundação Dom Cabral também têm conteúdos sobre o tema. Mas a oferta é recente – pelo menos com ESG no nome.

A FGV ofereceu sua primeira capacitação sobre o tema em novembro. No Insper, o primeiro curso específico de gestão em ESG está programado para setembro.

Ricardo Assumpção, diretor executivo da Grape ESG, consultoria que atual no cenário social, ambiental e de governança, lembra que quando procurou um curso sobre ESG aqui no Brasil, no início do ano passado, não achou quase nada. Segundo ele, as formações tinham maior foco em temas específicos, como meio ambientei ou responsabilidade social.

Ele diz que só foi encontrar o curso que procurava na London Business School, onde, além de se especializar no tema, conheceu sua sócia Ione Anderson.

Assumpção também defende que a agenda seja vista de forma transversal e não como um departamento, algo que a maioria das empresas aqui no Brasil ainda não faz. Na visão dele, não adianta contratar um expert se o negócio não tiver essa mentalidade incorporada em sua cultura.

“Uma empresa que coloca um especialista em ESG lá dentro quer muito mais atender os anseios do mercado do que se preparar para o desenvolvimento sustentável. Claro que você vai precisar de uma pessoa para cuidar dessa área, mas não começa por aí. Vejo muita empresa achando que trazer um bom profissional a preço de ouro vai fazer toda a diferença, mas não é essa a  solução”, afirma.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A (DES)CONSTRUÇÃO DO NOME-DO-PAI

Uma discussão recorrente na sociedade é se o adolescente infrator é culpado pela extrema crueldade que comete ou se ele está na posição de vítima da violência que recai sobre seus ombros, causada pelos problemas sociais

Discute-se com muita frequência o impacto que os crimes pratica­ dos por adolescentes vêm causando na sociedade. Há os que defendam que o adolescente infrator é “culpado” pela extrema crueldade, e há os que acreditam que ele se tornou “vítima” de uma violência que recai sobre ele a todo instante: falta de cidadania, conteúdos escolares pouco (ou nada) atraentes, desemprego dos pais, banalização do sexo e da criminalidade, elementos que estão presentes em nosso cotidiano. Na realidade, ocorrem as duas coisas: essa violência física, psíquica, moral ou social impõe ao jovem um sofrimento que o impele a destruir tudo o que está à sua volta, inclusive a si próprio – na oposição aos valores sociais e morais através da participação em crimes, e/ ou no consumo de drogas, que prejudica a sua própria saúde.

Para Araújo, qualquer forma de violência, mesmo que simbólica, remete o sujeito a um embrutecimento que destrói sua autoestima e tudo o que está ao redor. Em uma sociedade onde não existe respeito ao cidadão, há a tendência a se violar as leis, porque estas se tornam inimigas da sociedade, atacando-a, limitando-a e cerceando-a em vez de protegê-la e garantir seu desenvolvimento. Para Barros, a sociedade sempre apostou na máquina formal do Direito como reguladora do laço social, mas, diante da degradação dos valores morais e da falência das instituições, tende a injetar esse formalismo nos aparatos institucionais destinados à vigilância e à segurança em torno de leis cada vez mais duras para exercer o controle dos laços sociais caóticos de nossa sociedade.

A adolescência provoca questionamentos e mudanças na família, em função dá expansão das relações do adolescente, e pressupõe uma evolução dos pais frente à nova realidade. Também a família extensa é afetada. Exigindo mudanças e renegociação de papéis e questionamentos das regras intergeracionais. Assim, quando o adolescente se vê envolvido com drogas e/ ou com a criminalidade (atos infracionais), ocorre um sintoma que denuncia as falhas do sistema familiar e uma necessidade de mudança de seu funcionamento.

Para essas autoras, a família se vê assolada em um “pânico parental” de que será aniquilada, porque a manifestação de independência do filho adolescente voltou-se para o lado negativo, destrutivo. As autoras apontam que o aparecimento dos atos infracionais na adolescência está relacionado às dificuldades específicas de comunicação e a características relacionais dentro da família, onde impera a “lei do silêncio”, e o adolescente passa a agir no mundo externo, com atos delinquentes, para expressar o que não pode ser explicitado no interior da família. Nessas famílias, a autoridade parental encontra-se debilitada em função de um desacordo crônico entre os pais sobre a educação dos filhos, sendo que um deles está excessivamente envolvido com o filho delinquente, seja como “companheiro” seja como “cúmplice” do filho infrator.

Em geral, o adolescente desempenha diferentes papéis ao lado da mãe, ocupando espaços vazios do relacionamento conjugal, mantendo­ se numa relação de rivalidade e/ ou de afastamento do pai, o que dificulta sua identificação com ele, e, por extensão, sua própria autoidentificação. Daí, o adolescente busca outras vias para lidar com a angústia pelas falhas da construção identitária: as drogas e/ou a criminalidade.

A grande queixa da sociedade é a falta de limites de violência e agressividade do adolescente, na sua fase de transição para a vida adulta. Para explicarmos como isso ocorre, temos de nos remeter às relações primordiais com nossos pais e a função dos objetos transicionais, dos ensinamentos de Winnicott.

O Suficientemente bom bebê passa do estado da completa dependência dos pais para a formação de um espaço subjetivo, que utiliza objetos do mundo interno para propósitos originários do mundo interno, quando o bebê está em relação fusional primária com a mãe, sem diferenciação; posteriormente ele começa a criar um espaço psicológico interpessoal entre esses dois mundos, no qual o pai passa a entrar nesse estado subjetivo trazendo a lei necessária à criança/ adolescente, para que ele se estruture como sujeito social. Mas, para que isso ocorra de forma saudável, o pai deve ser legitimado pela mãe como sendo alguém que irá auxiliá-la a ser uma “mãe suficientemente boa” (conforme descreve Winnicott.

Husrtel afirma que o pai teria a função primordial de realizar um corte simbólico no laço primário da relação mãe-bebê, em decorrência da própria denominação “pai”, que implica outra filiação da criança diferente daquela da mãe, e com esse corte o pai pode exercer a função paterna (ou quem o substitua, no exercício da função paterna – pois pode haver famílias formadas por pessoas do gênero feminino, nas quais a figura masculina não existe), que, para Araújo, é muito mais do que uma simples presença masculina na vida do bebê: é um exercício do poder decorrente da representação da lei.

A função paterna deve ser internalizada pela criança, para que esta passe a ver o “mundo” conforme as regras sociais de proibição do assassinato, do canibalismo e do incesto, o que é fundamental para a estruturação do superego. O pai não é a lei, mas é seu representante. O pai suficientemente bom, constituído dessa relação, oferece ao filho a oportunidade de criar e “transgredir” (no sentido positivo da palavra, de experimentar e transformar o que foi aprendido na infância), contribuindo para as transformações sociais. Porém, se essa lei não for internalizada, a transgressão deixa de ser positiva e passa a ser negativa, destrutiva, expressando uma revolta.

O contato afetivo da criança com seus pais favorecerá a introjeção daquilo que, em Psicanálise, denomina-se ”imagos”, ou imagens parentais internas. A partir dessas imagens, a criança delimitará os papéis de cada um dos pais, estabelecendo vínculos triangulares que serão absorvidos internamente e farão parte da estrutura psicológica dessa criança. Por isso, é necessário que haja o convívio com ambos os genitores, biológicos ou não, e que estes exerçam funções parentais, pois a ausência de qualquer uma dessas figuras poderá produzir uma “hemiplegia simbólica” na criança, que a privará de uma relação que tem papel fundamental na sua constituição psicológica adequada.

Para Gottman e DeClaire, “pai envolvido” é o que tem disponibilidade emocional e contribui para a educação e bem-estar da criança, especialmente quanto ao desenvolvimento da sociabilidade e competência escolar. Por outro lado, Corneau ressalta que a ausência da “paternagem adequada” gera confusões quanto à identidade sexual e dificuldades quanto ao manejo da agressividade, autoafirmação, ambição e curiosidade exploratória dos filhos.

Ainda segundo e DeClaire, o pai pode influenciar os filhos de algumas maneiras que a mãe não consegue, especialmente no tocante ao relacionamento com a criança e seu desempenho na escola. Os autores apontam pesquisas que indicam que meninos com pais ausentes têm mais dificuldade de encontrar o equilíbrio entre a afirmação da masculinidade e o autocontrole e, consequentemente, mais dificuldade de aprender a se controlar e adiar a gratificação, habilidades que adquirem maior importância quando o menino encontra modelo masculino paterno positivo, à medida que cresce e busca novas amizades, sucesso acadêmico e ascensão profissional.

No caso dos meninos, aqueles cujos pais são presentes e interessados são menos propensos a cair precocemente na criminalidade e inclinados a estabelecer relacionamentos saudáveis com as mulheres quando se tornarem adultos.

No caso das meninas, aquelas cujos pais são presentes e interessados são menos propensas a cair precocemente na promiscuidade sexual e inclinadas a estabelecer relacionamentos saudáveis com os homens quando se tornarem adultas.

Em uma revisão da literatura nacional e internacional acerca da interação entre pais (homens) adultos e filhos de O a 6 anos e sua correlação com o desenvolvimento infantil, Cia et al. mencionam estudos que apontam as seguintes conclusões:

Quanto maior o suporte que o pai oferecia para o filho, melhor o desenvolvimento cognitivo, menor a probabilidade de problemas de comportamento e menor o número de sintomas depressivos dos filhos.

Dentre as crianças que não conviviam com o pai ou com uma figura paterna, quando estavam com quatro anos apresentaram maior índice de problemas de comportamento; e quando estavam com seis anos mostraram maior escore de depressão e maior índice de externalização de comportamentos agressivos.

Os estilos parentais educativos também podem influenciar na for­ mação da personalidade dos filhos e na qualidade dos vínculos: crianças com maior índice de problemas de comportamento, tanto na escola quanto no ambiente familiar, tinham o pai com comportamento mais hostil e intruso; da mesma forma, a presença desses pais agia negativamente na influência positiva do relacionamento materno com o filho.

Mas o que vemos atualmente é o esvaziamento da figura paterna: pais (homens) ausentes, omissos, estilo laissez-faire, enfraquecidos, ou que abandonam deliberadamente a família, ou que são excluídos da relação (em atos nefastos de alienação parental, por exemplo – sendo seu substrato simbólico mais pernicioso a falsa acusação de abuso sexual). Felzenswalb considera que: “a ausência do pai é uma das principais causadoras dos altos índices de criminalidade e delinquência, da sexualidade prematura e gravidez precoce, pelo fraco desempenho escolar, pela depressão e drogadição”.

Nesse sentido, complementam os ensinamentos de Gottman e DeClaire; A pesquisa (…) sustenta a convicção de que a criança realmente precisa do pai. Mas nosso trabalho também apresenta essa importante distinção: nem todo pai serve. A vida da criança é altamente enriquecida quando há um pai emocionalmente presente, legitimador e capaz de confortá-la quando está triste. Do mesmo modo, a criança pode ser prejudicada quando o pai é abusivo, excessivamente crítico ou emocionalmente frio, ou, ainda, quando ambos ficam várias horas mudos diante da televisão.

DESESTRUTURAÇÃO

Quando o adolescente não encontra o “pai” como estruturador do superego, enfrenta dificuldades de internalizar as normas, valores, regras morais e sociais. As crianças e adolescentes são mais exigentes e cobram mais empenho e participação dos pais, precisando de mais valores e limites, e esse pedido não pode ficar no vazio. Porque quando ele clama pelo “pai” e não encontra resposta, ele vai buscá-lo em outras figuras, que podem não ser adequadas: no traficante, no líder da gangue.

A fragilização do pai real, em uma sociedade que impõe o consumismo desenfreado, e a necessidade do adolescente de ser visto e aceito no grupo fazem com que ele menospreze a Lei do Pai e encontre no criminoso as referências “paternas” que não encontrou em casa. “Ter uma arma na mão dá a esse adolescente a visibilidade e o ‘respeito’ que ele não encontrou na escola e na sociedade. O tráfico proporciona o status econômico que a sociedade tem lhe recusado”. Segundo a citada autora, o adolescente busca um mecanismo de defesa da autoalienação e desinvestimento de si para lidar com a necessidade, e destruir o que está à sua volta, por­ que o mundo interno está completamente destruído.

Conforme a teoria sistêmica, o sintoma de um elemento da família reflete o sintoma de todo o sistema familiar. Devemos considerar que, nessas situações, ocorre uma dificuldade dos pais em assumir os papéis parentais, por terem vivenciado situações de sofrimento ou ausência de seus próprios pais, por isso buscam no filho adolescente um substituto do pai ou um rival, e colocam esse filho em papel parental (parentificação) muito precocemente, sem que ele encontre formas de reagir.

É nesse contexto que a droga e/ ou o ato infracional surge(m) e passa(m) a ter o poder de ajudar o adolescente a lidar com seus sentimentos, ou a se relacionar com as pessoas, e garante a possibilidade de vivenciar outros papéis, além daqueles do filho parental, propiciando a sensação de pertencimento e afiliação a outros contextos. Isso assegura formas de inclusão social (substituindo a “invisibilidade” na família). A necessidade de sustentar a família pode fazer com que o adolescente cometa o primeiro delito e permaneça nessa trajetória, ocupando o espaço vazio deixado pelo(s) pai(s) no sustento da família.

O “PAI JURÍDICO”

É assim, com o esvaziamento e enfraquecimento do pai, que o adolescente infrator acaba buscando na violência e na delinquência uma forma de ser percebido, ser “respeitado” (ou melhor seria, ser “temido”?), como uma forma de impor pela força uma “autoridade” (em um assalto à mão armada, por exemplo, dominando a vítima) que não obteve adequadamente nem da figura paterna nem das instituições (família, escola).

E esse declínio da autoridade paterna se estende também para as instituições estatais, na medida em que o desrespeito à lei paterna se inicia dentro da família, com o não cumprimento às normas, na busca imediata e desenfreada de satisfação de desejos, na vivência narcísica com o muito, sem respeito ou consideração pelo outro, e se estende para o desrespeito constante ao Estado.

Por sua vez, esse Estado se torna esvaziado e busca recuperar seu espaço através do autoritarismo, da repressão, de leis que, teoricamente, apregoam a proteção à sociedade, mas na prática produzem efeitos contrários, de restrição de possibilidades a toda a sociedade, e mais especificamente ao adolescente. Assim, conforme Araújo, torna-se difícil ao adolescente compreender os limites da lei e da ordem, quando o próprio Estado não cumpre adequadamente tais funções.

Claro que as questões da dinâmica familiar e da construção identitária não são os únicos fatores que influenciam o adolescente a ingressar no mundo das drogas e/ ou do ato infracional. Existem também os fatores sociais, econômicos, individuais e políticos. Podem existir outras formas de organização familiar que dificultem ao adolescente a construção de sua identidade e fomentem o envolvimento dele em atos infracionais sem privações econômicas, por simples “prazer” ou “diversão”, como ocorre com adolescentes de classes mais abastadas que praticam vandalismos, pichações, estelionatos, ou outros delitos até de maior periculosidade.

Para Neuburger, Costa, Legnani e Zuim, o papel de pai estabelecido pela cultura europeia abrange três dimensões: a de reconhecimento da filiação, da relação afetiva da filiação e a do “pai de família”, aquele que tem um lugar e uma responsabilidade social. É esse papel que a Justiça quer resgatar. E, segundo Penso e Sudbrack, o contexto da Justiça pode resgatar essa função, com a intervenção do terceiro (o juiz) que é a autoridade que pode restaurar a função paterna para os adolescentes infratores.

Araújo estabeleceu o termo “pai jurídico”, que deve ser compreendido “como aquele que é representado por uma instituição que atua em nome da lei, a Vara de Infância e Juventude e a Promotoria da Infância e da Juventude, e que traz para a criança e para o adolescente a lei que pode propiciar a formação do sujeito social, quando esta não foi suficientemente instalada no domínio familiar e social”. Para a referida autora, não basta oferecer escolas ou empregos para os adolescentes; mais importante que isso, é imprescindível resgatar valores como solidariedade entre as gerações, e estabelecer políticas públicas que permitam que as pessoas desenvolvam sua criatividade no sentido do crescimento e autoestima.