EU ACHO …

O BEIJO FALSO E O TAPA SINCERO

Todas as pessoas do mundo já deixaram de cumprir promessas, inclusive eu e você!

Você já deve ter ouvido que é melhor um tapa sincero do que um beijo falso. Há variantes da ideia: é mais fácil lidar com um inimigo declarado do que ter um falso amigo. A referência bíblica é o beijo de Judas, símbolo máximo da traição. Três evangelhos o descrevem (Mateus, Marcos e Lucas). João fala do encontro, todavia omite o beijo. Os dois primeiros evangelistas usam um termo grego forte e afetivo para o ato: karaphilein.

O traidor foi motivado pelas 30 moedas? Teria se decepcionado com Jesus porque o Mestre se recusava a uma revolução armada contra os romanos? Judas seria, na verdade, um militante zelote, grupo radical? Seria o arquétipo de traidor um mero executor do plano divino que já continha a morte do Messias? A questão central é que uma deslealdade implica afeto prévio. Por algum motivo, quem trai pode ser sincero quebrando o propósito anterior. O perjuro poderia ser fiel a alguém antes do ato e permanecer fiel, agora, em nova situação. Incômodo indagar: fiel a quem?

A idade costuma trazer a lição da impermanência. Quem já te amou ontem pode te odiar hoje. Todas as pessoas do mundo já deixaram de cumprir promessas, inclusive eu e você. Votos feitos a si ou a outra pessoa, desejos piedosos que, diante do real cotidiano, foram desgastados. A vida já nos obrigou a cumprimentar com a mão ou com um beijo pessoas que detestamos. Judas recebeu um saco de prata. Faríamos de graça (e até pagando do nosso bolso) a entrega de um desafeto à Justiça, se pudéssemos? Raramente nos conhecemos e nem sempre podemos ser livres nos jogos sociais.

O que ocorreria se disséssemos tudo o que pensamos aos outros? Que família, que escritório, que amizade sobreviveria a tantos “tapas sinceros”? A frase mais citada de João (conhecereis a verdade e a verdade vos libertará) costuma esconder um detalhe importante: o custo. Seria como dizer: subireis naquela montanha elevadíssima e a vista será estonteante. Sim! Porém, para estar lá, todos os pedágios da sua resiliência serão acionados. E ainda haverá o custo da descida! A verdade liberta ao custo de toda a prata do mundo, e do ouro, e da paciência, e do choro, e da dor.

Todo julgador de teses em banca já viveu a experiência. O trabalho é muito ruim. Não é desonesto. Não existe plágio, algo que justificaria uma reprovação veemente. Nem sequer chega a pretensioso. É, apenas… ruim. O pesquisador fez um enorme esforço, deu o máximo da sua capacidade escassa. Por qual régua deve ser julgado? Você, na confortável situação de julgador empoderado, deve distribuir tapas sinceros? Deve ostentar uma falsa simpatia? Deve usar a lente paternal/maternal que, recebendo o cartão medonho do filho, rabiscado de forma irregular e sem energia criativa, foi o máximo que aquela criança, no seu limite alto e no seu afeto claro, conseguiu? Que homem, que mulher diria ao seu rebento: “Filho, sua capacidade ainda é limitada. Faça cursos de desenho e de composição artística e só me dê novos cartões quando seu conhecimento e técnica forem capazes de produzir algo significativo. Até lá, não desperdice material e tempo”. Um pesquisador profissional não é uma criança amorosa, porém o paralelo vale. A tese seria fruto de muita gente incentivando sem senso crítico? Faltaram tapas naquela trajetória que conduziu a este dia complexo?

Entre tapas e beijos, eu, meu homônimo falecido e o irmão Leonardo vamos levando a vida. Bofetadas sinceras podem enfraquecer a vaidade que tanto atrapalha nosso progresso. Existe uma medida entre a crítica e o elogio? Trai mais Judas que beija de forma solene e entrega Jesus ou Mateus, que não vendeu o Messias, não beijou, porém… nada fez para deter soldados ou sequer foi até a cruz? O lscariotes beijou. Pedro negou de forma tripla e dez ficaram olhando. Você, querida mãe, teria mais raiva de um psicopata que colocasse espinhos na cabeça do seu filho ou do seu marido que estava do lado da cena e nada fez?

Volto à banca. Como medir a subjetividade? O trabalho não estava bom porque…eu já li trabalhos excelentes nas melhores universidades. Para aquela instituição, porém, a pesquisa está acima da média. Qual o tapa mais pedagógico e qual o beijo menos infiel? Reprovar vai melhorar o mundo acadêmico? Não existe nenhuma desonestidade no texto, apenas o pesquisador tem poucos recursos intelectuais. Deveria só aprovar trabalhos brilhantes? O meu teria sido aprovado com tal exigência? Tive um colega chileno na universidade que pegava o trabalho e dizia: “Está uma porcaria”. Era famoso pelos rompantes de tapas sinceros. Mas ele sempre lia e suas críticas eram muito claras. Era sincero, direto, negociava pouco com o mundo e dizia coisas de forma explícita. Nunca foi muito diplomático, pelo menos na época em que diplomacia era sinônimo de cordialidade e equilíbrio. Mais gente como ele faria crescer o nível intelectual ou aumentar os suicídios? Uma coisa excluiria a outra?

Como você vê, querida leitora e estimado leitor, tenho muitas perguntas e poucas respostas. Já dei tapas sinceros e tasquei beijos falsos. Viver é administrar as duas coisas. Uma grande semana para todos nós, sinceros beijadores e controlados estapeadores.

*** LEANDRO KARNAL – é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de “O Dilema do Porco espinho”, entre outros.

OUTROS OLHARES

SAMPLEIA QUE EU (NÃO) GOSTO

Popular no hip-hop, ato de usar partes de músicas em outras volta a ter cartilha debatida após novas polêmicas

Além da tradução literal, “amostra”, um sample, no contexto musical, pode ser muita coisa. Gravar a chuva ou o barulho de um carro e usar numa canção, por exemplo, é um sample. Replicar um refrão de música conhecido, como fez Emicida com “Sujeito de sorte”, do Belchior, em “AmarElo”, também é, assim como quando Anitta usou “Garota de Ipanema” em “Girl from Rio”; Madonna com “Gimme gimme”, do ABBA, em “Hung up”; ou quando o produtor DJ Ivis e o cantor de forró Zé Vaqueiro utilizaram na pisadinha “A recaída” trechos instrumentais do hit eurodance “What is love”, do Haddaway.

Há quem adore ser sampleado, como o astro pop canadense The Weeknd, que em janeiro ficou sabendo que o paulistano DJ Guuga havia usado livremente voz e melodia de sua música “Earned it” no remix funk de “Quer esquecer sua mulher, vem pro cabaré”. Weeknd botou o batidão para tocar no programa de rádio que apresenta na Apple Music e ainda mandou uma mensagem privada no Instagram de Guuga, dizendo que amou a versão.

Mas o ato de samplear, principalmente no Brasil costuma render muita polêmica e judicialização. Há duas semanas, Carmelo Maia, filho de Tim Maia, entrou com uma notificação extrajudicial contra o rapper mineiro Djonga por usar como pano de fundo em toda a faixa “Eterno”, de 2018, a canção “Contacto com o mundo racional”.

“Toda vez que você utiliza um trecho de uma música preexistente para criar uma nova música você tem que pedir autorização para os titulares originais”, explica Glória Braga, advogada especialista em direito autoral. “O que acontece às vezes é que um artista novo começa usando trechos sem pedir autorização, para fazer uma homenagem, ou outra coisa qualquer. Mas sempre tem algum que vai orientar para que ele peça autorização.

ACORDOS DIFÍCEIS

Foi mais ou menos o que aconteceu. Em 2018, Djonga estava em começo de carreira, e o álbum em questão foi um marco de virada. Em nota, o rapper alega que desde que foi notificado se mostrou disposto a dialogar com o herdeiro de Tim Maia. “Ambos chegaram a concordar em um valor pelo uso da obra. Carmelo Maia, contudo, propôs uma divisão de fonograma que é abusiva e fora de qualquer padrão seguido pelo mercado, o que inviabilizou a formalização do acordo.

Procurado, Carmelo não quis falar sobreo caso, mas seu advogado, Caio Mariano, explicou o procedimento: “Quando as pessoas fazem músicas com samples do Tim Maia, elas mandam para a gente ouvir. Não me recordo de nenhuma vez em que o Carmelo não autorizou por questões artísticas. Mas a gente avalia cada situação à parte, tudo depende do uso que é feito da música sampleada. Se o cara pega a base harmônica inteira e cantarola por cima, a gente entende isso como versão e pede 100% porque houve um aproveitamento total da obra original”.

É conhecido no mercado, porém, que alguns artistas ­ ou seus herdeiros, o que complica ainda mais – são menos receptivos a serem sampleados. Tim Maia é um deles, Milton Nascimento (que mandou tirar do ar uma música do rapper baco Exu do Blues, em 2018), e Jorge Bem Jor também, assim como Roberto Carlos e os Beatles, que nunca autorizam samples. Nos Estados Unidos, berço da cultura hip-hop que popularizou de vez o ato de samplear, há um melhor entendimento das partes envolvidas com editoras e gravadoras sabendo rentabilizar e intermediar diálogos entre sampleadores e sampleados.

“Aqui no Brasil rola uma má vontade, parece uma repartição pública quando você liga para uma editora para pedir liberação de sample”, reclama Marcelo D2, pesquisador e entusiasta da cultura dos samples. “O ideal é conversar com o autor, bater um papo direto, como fiz com Ivan Lins quando usei “Abre alas.

Mas nem sempre existe a chance ou o interesse do diálogo aberto. O produtor Nave Beatz, que trabalha com Emicida, o próprio D2 e outros grandes nomes do rap, aponta que a questão embola, muitas vezes, pelo sampleado não ter conhecimento das origens do hip-hop, gênero que passa diretamente pelo uso de samples.

“É difícil para um jovem rapper, ainda sem visibilidade, chegar para um figurão e explicar que está pegando um trecho de dez segundos de uma música dele, que vai ser bom para renovar o público… Às vezes o cara nem é atendido. Por isso até lá fora, existe a máxima “se deu problema, é porque deu certo”, a música estourou. E aí você lida depois.

Em 1990. o pioneiro do funk carioca DJ Marlboro teve que “quebrar 30 mil discos de vinil” de “Funk Brasil 2” por ter regravado duas músicas, que julgava ser de domínio público, mas que não eram. Numa delas (“Marcha do remador”, de Antônio Almeida e Oldemar Magalhães), não conseguiu autorização dos herdeiros e Oldemar. Agora, ele vive o outro lado da moeda: está envolvido numa discussão com o rapper carioca Xamã pelo uso de um sample do funk “Atoladinha”.

“A revitalização é legal, necessária, a gente tem gratidão por isso, mas não se pode tirar os créditos e os rendimentos dessas pessoas que vivem de arte. Sou imobiliária, mas sou inquilino também. Não tem problema em samplear as minhas músicas, sejam aquelas em que eu sou autor ou administrador, desde que se faça legalmente”, garante o produtor.

Procurado, Xamã alega que quis reverenciar a obra de Marlboro: “Quis valorizar algo daqui. Os escritórios conversaram sim, mas eu foco mais na parte artística, as coisas delicadas deixo para o jurídico”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 14 DE JULHO

A RECOMPENSA DA VERDADE

Os lábios justos são o contentamento do rei, e ele ama o que fala coisas retas (Provérbios 16.13).

A verdade anda solitária em nossos dias, enquanto a mentira desfila garbosa na passarela. A mentira cobriu sua cara enrugada e cavernosa e usou os cosméticos da conveniência. Há várias máscaras de mentira no mercado. Máscaras para todos os gostos, de todas as formas e tamanhos. Máscaras cheias de brilho e máscaras transparentes. A mentira pode parecer inocente, mas ela procede do maligno. Pode parecer inofensiva, mas os mentirosos não herdarão o reino de Deus. Os lábios justos, porém, são o contentamento do rei, pois este ama o que fala coisas retas. A verdade é luz e por isso prevalece. A verdade é justa e por isso alegra aqueles que julgam com retidão. A verdade abençoa, pois, ainda que fira quem a ouve, essas feridas trazem cura para o corpo e delícias para a alma. Aqueles que falam coisas retas, em vez de espalhar boatos e contendas, promovem a justiça, edificam a família e fortalecem a nação. Aqueles que têm lábios verazes e justos são promotores do bem, terapeutas da alma e arquitetos do progresso. Aqueles que de coração falam a verdade, juram com dano próprio e não se retratam são cidadãos do reino dos céus, os notáveis nos quais Deus tem todo o seu prazer.

GESTÃO E CARREIRA

COWORKINGS APOSTAM EM BAIRROS FORA DOS GRANDES CENTROS

No pós-pandemia, setor quer virar opção mais próxima de residências de trabalhadores

Antes da covid-19 e sem o trabalho remoto, o publicitário Expedito Assunção levava duas horas para sair da sua casa, no ABC paulista, e chegar até a sede da fintech Duck Tech, em Alphaville, onde trabalha como analista de ESG. O home office, portanto, está salvando um bom tempo do seu dia. Com a expectativa de normalização no pós-pandemia, o deslocamento físico até o trabalho voltará a ser a rotina de milhões de brasileiros, mas não mais a de Assunção.

A Duck Tech, que presta serviços de tecnologia para instituições financeiras, decidiu eliminar o seu escritório físico. A sede servirá somente para reuniões e eventos. A solução encontrada para quem está cansado do home office foi disponibilizar um “vale-coworking”: por meio de um aplicativo, os mais de 350 funcionários podem escolher lugares espalhados pelo Brasil. Assunção sempre escolhe na região do ABC. “Hoje, tenho muito mais qualidade de vida e não tenho mais vontade de trabalhar longe de casa”, diz.

Com a pandemia mostrando sinais de controle no horizonte, as empresas começam a planejar a volta aos escritórios. Porém, o retorno está sendo desenhado de maneira híbrida, com a divisão entre dias em casa e outros trabalhados na sede. Ao mesmo tempo, muitos funcionários não querem mais abrir mão de um tempo perdido no trânsito. Com isso, a tendência do mercado deve ser de, cada vez mais, espaços de coworking em bairros mais afastados das regiões centrais – e mais próximos das residências dos empregados.

De acordo com pesquisa global da consultoria JLL, 66% das pessoas querem um modelo hibrido e ainda trabalhar em lugares diferentes de casa e da sede da empresa. E os coworkings aparecem como opção para mais da metade delas. Isso tem feito com que o setor, que viu a receita despencar cerca de 50% na crise, comece a se animar com uma retomada.

Ajuda também o fato de localidades em outros bairros terem preços mais baixos em comparação com regiões mais cobiçadas, como a Faria Lima, Berrini e Paulista, em São Paulo, ou áreas centrais de outras grandes capitais do País. Para completar, urbanistas apontam a necessidade de as pessoas trabalharem mais perto de casa e, assim, melhorar o caótico trânsito e o transporte público das grandes cidades brasileiras.

“Os coworkings estão tirando alguns lugares da inércia, especialmente em regiões satélites. Esses lugares bem localizados, não necessariamente centrais, têm tido uma demanda maior”, diz Roberto Patillo, diretor da JLL, companhia especializada em propriedades.

A rede de coworkings Regus, controlada pela IWG, é uma das empresas que estão de olho nesse filão. A companhia já abriu espaços no bairro da Lapa, na zona oeste, e também em Santo Amaro, na zona sul. Com 70 unidades no total, a meta de Tiago Alves, CEO da Regus, é inaugurar 30, sendo todas franquias. Com o risco diluído com um investidor, a ideia é abrir em espaços mais distantes dos grandes centros, como nos municípios de Cotia e Osasco, na região metropolitana de São Paulo. “Como há muitos imóveis vazios, muitos proprietários nos procuram para dar um viés diferente para eles e, aí, a expansão fica acelerada”, diz Alves.

PROJETOS.

A construtora Tecnisa é outra que acredita que ainda há muito espaço para coworkings e até para novos entrantes. Por isso, a empresa está para lançar três prédios com esse fim, sendo dois deles mistos com unidades residenciais.

Eles ficarão localizados nos bairros de Jardim Prudência (zona leste), Mirandópolis e Vila Dom Pedro (ambos na zona sul). Segundo Joseph Meyer, CEO da Tecnisa, a ideia é colocar entre 250 e 300 estações de trabalho por prédio e adquirir uma startup para gerenciar toda a locação.

Meyer enxerga um potencial de 100 mil pessoas por dia em São Paulo precisando de um espaço de trabalho nesse modelo hibrido. “Podemos alugar essas posições de trabalho como se fossem quartos de hotel”, diz Meyer.

A WeWork, que é a líder do setor, também observa que o modelo do coworking do futuro passa por essa contratação mais facilitada. De acordo com Lucas Mendes, diretor-geral da WeWork, como houve a devolução de muitas sedes por empresas com a pandemia, muitas acabarão migrando para o coworking para reduzir custos. “Já temos prédios em áreas mais afastadas, como a sede de São Bernardo, e em bairros residenciais, como a Vila Madalena, e estamos de olho em todas as possibilidades para novas aberturas”, afirma.

O TRABALHO NO PÓS-PANDEMIA

Funcionários querem passar menos tempo dentro do escritório e frequentar diferentes sedes

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DE ALIENAÇÃO PARENTAL – A INTRODUÇÃO DE FALSAS MEMÓRIAS

Estudos científicos apontam que a informação enganosa induz à distorção da memória e a passagem do tempo enfraquece as recordações. Em casos de Síndrome da Alienação Parental, esses fatores podem facilitar a deturpação da verdade

A Síndrome da Alienação Parental (SAP) é definida de forma simples como a maneira pela qual o genitor que possui a guarda do menor, ou menores, de forma subliminar e implícita sistemática e constante, em comportamentos do cotidiano, mata, dia a dia, minuto a minuto, a figura do outro genitor na vida e no imaginário do filho – ou filhos.

A criança vira um mero instrumento de vingança do genitor guardião e é coagida a deixar de amar um dos pais.

O alienador provoca o afastamento intencional de um dos pais da vida do filho menor por meio de comportamentos específicos, inicialmente apresentando obstáculos ao convívio entre ambos, distorcendo fatos relativos às partes e manipulando a “verdade” da forma que lhe for mais favorável.

O que começa como uma campanha difamatória ou a imposição de obstáculos à convivência do outro genitor pode ser levado à gravidade extrema como, por exemplo, a consolidação nas mentes em formação de fatos, sensações e impressões que jamais existiram. Nesses casos, muitas das informações prestadas ao menor sobre o genitor alienado e repetidas por dias, meses ou anos podem ser falsas ou falseadas impregnando a mente e o imaginário infantil que, em muitos momentos, confunde realidade com fantasia.

Tais narrativas falsas podem ser referentes a maus-tratos, episódios inexistentes de descaso, abandono ou até falsas denúncias de abuso sexual.

AA escritora Martha Medeiros afirma que a maioria de nossos tormentos não vem de fora, está alojada na mente, cravada na memória, afirmando ainda que nossa sanidade (ou insanidade) se deve basicamente à maneira como nossas lembranças são assimiladas.

Desta forma pode-se inferir que a construção de nosso presente e futuro está fundada na trilha deixada pelo passado. Não são apenas nossas experiências que nos constroem como pessoas, mas também a forma como nos lembramos das experiências vividas e lidamos com determinadas situações.

Exercício simples de memória é aquele que se faz quando se recorda o tamanho dos espaços do passado. O pátio da escola parecia imenso, mas na realidade nada mais era do que o quintal de uma casa de três por seis metros. Ou seja, as lembranças e suas impressões variam de acordo com o momento da vida. O referencial é fator primordial na forma da recordação.

A informação incorreta ou enganosa neste contexto tem o poder de invadir nossas memórias e transformá-la ou corroê-la dependendo da maneira que nos é imposta ou colocada. Vale então a máxima de que uma mentira repetida muitas vezes se transforma em verdade. Pior. Pode construir uma recordação inexistente.

A invasão da informação incorreta na lembrança verdadeira tem a seu favor o tempo. Com o passar dos dias, as memórias se tornam cada vez menos claras e, justamente por isso, mais facilmente influenciáveis.

LEMBRANÇA MAL LEMBRADA

As influências externas, como informações repetidas por terceiros, são capazes de introduzir ou modificar elementos em experiências pelas quais efetivamente passamos. Uma lembrança mal lembrada pode nos remeter a sentimentos não sentidos ou momentos não vividos, situação clara de dicotomização e fragmentação da personalidade.

É preciso diferenciar a memória, a memória reprimida e a falsa memória para entendermos o funcionamento do cérebro, suas sinapses e suas respectivas exteriorizações. De forma simplista temos que a memória é a recordação de fatos ocorridos na vida de uma pessoa. A memória reprimida está guardada no inconsciente, o que leva a uma “sensação” de esquecimento do fato, das sensações e sentimentos advindos dele. As recordações da memória reprimida podem ser resgatadas por meio de terapia ou de outros métodos.

A memória introduzida ou a falsa memória é aquela baseada em fatos que jamais ocorreram. São memórias baseadas em sugestionamentos e informações enganosas. Quando uma pessoa que presenciou um determinado evento é exposta a informações enganosas ou inverídicas sobre o fato, com frequência, passa a possuir memórias distorcidas sobre o ocorrido.

Havendo um mero indício de veracidade, o resto se constrói, se reconstrói e se destrói. Na realidade, existem dois processos: o de modificação de memória e o de introdução de memória falsa. No primeiro caso, modificam-se detalhes de um fato existente, real. No segundo, a introdução de memórias falsas faz crer que uma situação que não existiu realmente ocorreu.

Quando se descreve uma situação real, na grande maioria dos casos, há um maior número de detalhes do que nos casos de memórias introduzidas. É que nossas recordações não se limitam a fatos. Incluem percepções como sons, odores, falas, cores, ambientes. Por menos que nos lembremos desses detalhes, eles estão impressos em nosso inconsciente.

A introdução de falsas memórias afeta particularmente as crianças pequenas. E é a força motriz das falsas denúncias de abuso, um problema que vem se tornando, infelizmente, muito comum e, na maior parte das vezes, cem o único objetivo de impedir que um filho conviva com o (a) ex ou seus familiares. Importante ressaltar que quando o fato inexistente é narrado e confirmado por uma pessoa do círculo de confiança da criança e, mormente por aquele genitor que detém sua guarda e com quem o menor convive diariamente, a recordação do “fato” é mais facilmente confirmada pela criança.

Isto se dá porque a confiança que o filho deposita no genitor cuidador é, na grande maioria das vezes, incontestável e incomensurável. Por ser este responsável seu “porto seguro” não é crível para o menor que ele seja capaz de mentir ou lhe fazer qualquer mal. Assim, uma mentira dica por aquele em quem se confia transforma-se em uma verdade inquestionável.

VERDADEIRO OU FALSO?

Os tribunais e delegacias estão abarrotados de casos em que crianças contam como foram abusadas. Estima-se que a metade seja falsa. Entretanto, a improbabilidade de uma criança pequena recordar de qualquer evento possivelmente ocorrido naquela época, se dá por questões médicas, ou seja, o hipocampo, parte do cérebro responsável pela criação e armazenamento das recordações, não teve seu amadurecimento efetuado de forma suficiente para fabricar e armazenar recordações que poderiam ser resgatadas na fase adulta.

Uma criança que afirma com firmeza que o pai abusou dela quando tinha 1 ano, e repete a mesma história por anos a fio, se questionada, não consegue alocar o fato no tempo nem no espaço, não consegue se lembrar de cores, odores, sensações e sentimentos que o pretenso abuso teria gerado. Não consegue ao menos dizer a cor do vestido que usava na festa de 1 ano de idade, fato importante em sua vida, ou qualquer outro que teria ocorrido no mesmo período.

O que chama a atenção nesses casos especificamente é que quando a memória do fato é real, o tempo a torna mais embaçada, menos clara, enquanto que as falsas memórias não desvanecem, não se modificam, permanecem intocadas e inalteradas pelo fator repetição. Estudos realizados demonstram que é possível a condução de pessoas adultas para que se lembrem do seu passado de forma diferente, ou, pior ainda, é possível que se consiga persuadir o adulto a se “recordar” de fatos e eventos que jamais aconteceram. No entanto, mais grave é ainda a possibilidade da introdução da falsa memória em crianças. Estas são mais vulneráveis às opiniões e informações a que são submetidas.

A cruel submissão de uma criança à informação enganosa de que teria sido abusada sexualmente por um de seus genitores é reforçada pela comoção com que o assunto é tratado, tanto por familiares que cercam o menor e muitas vezes acreditam na informação daquele adulto que criou a história inverídica, quanto também pelos profissionais de saúde e da lei que atuam na legítima intenção de “proteger” a vítima de seu “abusador “. A fala e o comportamento dos adultos que cercam o menor fazem que se reforce em seu íntimo a “recordação do faro inexistente”.

Na grande maioria das vezes a afirmação do abuso é utilizada para fomentar brigas judiciais pela guarda da criança, separação, visitação e outras mais. No entanto, para que se deem ares de gravidade necessários à acusação e se garanta uma medida de afastamento eficaz do genitor acusado de abusador, a criança é submetida a um sem-número de procedimentos – inquirição por psicólogos, policiais, parentes, amigos, exames ginecológicos, exames no Instituto Médico Legal, conversas com advogados e assistentes sociais e ainda oitiva do menor pelo Ministério Público e juízes de Direito.

AMADO INIMIGO

O genitor acusador, que não possui quaisquer pudores em criar uma memória falsa no filho, é aquele que permanece ao lado da criança orientando-a ao que dizer e como fazer para manter aquele que a subjugou, a abusou longe de si. A criança repete, repete, repete e acredita na existência do fato. Mas essa crença do fato significa a certeza da vivência da situação com a dificuldade de alocação nas sensações e sentimentos que a envolvem.

O abuso, seja ele psicológico, físico ou sexual, quando verdadeiro, trás a reboque além da simples memória da vivência, a impressão física das sensações e sentimentos vivenciados no momento de sua ocorrência. A mera repetição da história não criará no adolescente e no adulto tais vivências, mas trará a ele indubitavelmente urna fragilidade emocional irrecuperável, pois a memória introduzida, a emocional, existirá sem uma correspondente memória física de um fato não vivido. A integração entre o emocional e o físico é que traz o equilíbrio necessário à maturidade comportamental de um ser humano feliz.

Ou seja, para que se recupere a memória real ou o equilíbrio emocional do ser humano, não é necessário esquecer o fato gerador do sentimento doloroso, mas sim se lembrar corretamente o que realmente aconteceu.

TERAPEUTAS DO MAL

O YouTube traz uma série do canal People and Arts sob o título de Falsas Memórias de Abusos Sexuais. Um documentário que relata como terapeutas induzem clientes a acreditarem em falsas memórias.