EU ACHO …

O PASSADO NO PASSADO

Essa semana foi a semana do passado: em um pequeno intervalo de três dias, ele bateu à minha porta com insistência. Veio cheio de boas intenções e se reapresentou comedidamente como se fosse algo novo tentando, assim, fazer parte do presente e, quem sabe até abrir uma porta para o futuro. Em todas as ocasiões, me encheu de nostalgia de um tempo que não existe mais, de uma mulher que não existe mais, em um mundo que andou para frente. Essa é a questão do passado: por melhor ou pior que tenha sido e por mais marcas que tenha deixado, ele tem um lugar já definido.

Vamos primeiro fazer a distinção entre o reencontro e o passado querendo se fazer presente. O reencontro promove novas oportunidades, vem de um lugar de possibilidades ainda não vividas entre amigos, amores e parceiros profissionais em que por momentos de vida ou escolhas deixamos acontecer um hiato na relação. O reencontro é a árvore jovem que ainda pode oferecer floradas. Já o passado batendo à porta vem de um lugar de experiências que vivemos à exaustão e decidimos – ou a vida decidiu por nós – deixar ali no passado mesmo. Normalmente, esse espaço parece resolvido, mas, se a porta for aberta, ele, o passado, entra trazendo um retrato preciso de sentimentos bons e ruins que fazem parte da história de nossas vidas. Sabe aquele(a) ex-namorado(a) que reaparece e você sabe que não faz o menor sentido se conectar? Ou aquela(e) amiga(o) que te fez sofrer, que te ajudou a amadurecer até, mas que só de ver a foto já te dá um calafrio? Pois esse é o passado que deve estar no passado.

Existem histórias que não têm lugar no presente, como aquela roupa que você amou, que te remete a momentos marcantes, mas que ao colocar você tem a certeza de que está fora de contexto, fora do tempo certo para ser usada. Você pode até guardar por anos só para, quando pegar, sentir uma parte dessas sensações já vívidas, mas o ideal mesmo é deixar na memória e doar, ver ela ter melhor uso em outras e novas histórias.

Tudo simples quando explicamos racionalmente, certo? Mas “sou humano e nada do que é humano me é estranho”, diria o pensador Terêncio para Alice. Me debati por dias em reflexões sobre momentos diferentes do passado, até conseguir que a razão e a emoção dessem as mãos e estivessem em harmonia, e o impulso para me debruçar novamente em questões irresolvíveis fosse entendido simplesmente como humano. Aceitar que o passado tem um lugar de dores que não passam, a dor que não pode ser curada e deve ser só acolhida. Parece triste? Mas não é. É a vida na maturidade, como ela é.

*** ALICE FERRAZ – é especialista em marketing de influência e escritora. Autora de “Moda à Brasileira”.

OUTROS OLHARES

CRIMINALIZAR ‘STALKING’ AJUDA A PROTEGER MULHERES

Em vigor desde abril, nova lei permite que vítimas de perseguição afastem o seu agressor, com medidas protetivas, prisão e multa; em São Paulo, 686 boletins de ocorrência foram registrados no primeiro mês

Em setembro passado, a influenciadora digital Renata Meirelles não deu muita atenção à longa mensagem que recebeu por uma rede social de um seguidor. Não sabia que seria o primeiro passo de uma escalada de perseguição que chegaria ao ponto de ele passar o dia falando sobre ela nas redes, aparecer na porta da sua casa algumas vezes e até segui-la no cabeleireiro. O pesadelo só teve fim com a prisão do homem, graças à lei 147-A, que estabelece o crime de perseguição e passou a vigorar em abril.

Antes, o registro do crime, conhecido em inglês como stalking, era feito como uma contravenção de “perturbação da tranquilidade”. De acordo coma promotora Valéria Scarance, do Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo, no primeiro mês da vigência da lei foram registrados 686 boletins de ocorrência por esse crime em São Paulo. Já no Rio Grande do Sul, nestes três meses, foram registradas 1.085 ocorrências.

“Esse elevado número revela a importância e a necessidade dessa lei. Embora seja nova, a conduta de perseguição reiterada é multo antiga e acontecia com frequência por vários motivos desde o inconformismo com o término de um relacionamento até uma paixão imaginária ou vingança porque alguém se sentiu injustiçado”, diz Scarance.

Renata Meirelles procurou advogado, foi à Delegada da Mulher e depois à delegacia comum, mas pouco podia ser feito antes da nova legislação. Foram dez meses em que ficou “refém”: perdeu trabalhos por medo de dar pistas sobre sua rotina e, sobretudo, perdeu sua liberdade.

“Estava sempre ligada. Tinha receio de um dia entrar em casa e ele estar aqui dentro. Minha vida virou um inferno. Não podia andar a pé, para passear com o cachorro o segurança da rua tinha que ficar ligado. Mandava mensagens agressivas para minhas amigas e de cunho sexual para mim. Isso me dava medo, eu ficava horrorizada. Agora, espero que ele seja tratado, medicado, e não mude de vítima”.

Nos Estados Unidos, o crime de stalking está previsto em lei desde a década de 1990. Dados do país e da Europa demonstram que a maioria das vítimas de perseguição é de mulheres.

Segundo o projeto americano Prevenção, Conscientização e Centro de Informações de Stalking, uma em cada seis mulheres já foi stalkeada (contra um para 17 homens). Em 52,5% dos casos, o perseguidor é o parceiro ou ex-parceiro, em 31,5% são conhecidos e em 16% são desconhecidos. Ao menos dois terços deles agem semanalmente. Muitos perseguem a vítima diariamente.

Para ser caracterizado crime de perseguição é preciso que haja ameaça à integridade física ou psíquica da vítima, restrição da sua capacidade de locomoção ou invasão da sua esfera de liberdade ou privacidade.

“Quando se fala em stalking é um curso de conduta, não é um ato isolado, um incômodo ou aborrecimento, ou seja, é algo que tem habitualidade. Caracteriza assédio, perseguição, importunação, e vigilância constante. A vítima sofre medo ou abalo emocional e sua liberdade e privacidade são violadas”, afirma a promotora Ana Lara Camargo de Castro, autora do livro “Stalking e ciberstalking”.

Castro salienta que o crime pode ocorrer tanto física quanto virtualmente. O cyberstalking acontece não só pelo assédio feito por comunicação direta, como mensagens, mas também ”por uso”: ou seja, a pessoa se faz passar pela vítima e usa seu nome para prejudica-la. Há ainda a intrusão informática, em que são usados recursos como GPS e câmeras para monitorar a vítima.

Segundo a psicóloga Karen Netto, do Núcleo Especializado no Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, do Ministério Público do Rio Grande do Sul. há cinco principais tipos de perseguidor, mas o mais comum é o rejeitado, ligado à violência doméstica, que surge no contexto de um relacionamento, geralmente após o término.

É o caso da escritora e psicanalista Pauta Febbe, que até hoje é stalkeada por um ex-namorado de sete anos atrás. O perseguidor cria periodicamente perfis falsos na internet para tentar se aproximar dela. Para tentar prejudicá-la, produziu resenhas falsas em sites de literatura, com xingamentos eameaças, e conseguiu rebaixar as avaliações de seus livros.

“O pior de tudo é a tensão em que vivo por não saber como e quando ele vai vir de novo. Acabo me perguntando se vai vir pessoalmente”, conta Febbe, que já se viu observada por ele em festas e sabe que ele se mudou para o seu bairro. Agora, ela tem um dossiê pronto para entrar na justiça e acionar a lei de stalking assim que ele voltar a procurá-la.

AVALIAÇÃO DE RISCO

Embora as pesquisas indiquem que 25% dos casos de perseguição podem escalar para agressão física e sexual e 2% para homicídio, esse crime aconteceu antes de 98% dos feminicídios.

Há ainda outros tipos de stalkeador: o rancoroso, que persegue a vítima por vingança, mais comum em ambientes de trabalho; o desconhecido, que fantasia uma relação íntima com a vítima; o cortejador inadequado, que por uma limitação cognitiva não reconhece que não está agradando; e o mais perigoso, o predador que persegue a mulher já pensando no estupro.

Por isso, Netto defende que seja sempre feita uma avaliação de risco para identificar a possibilidade de violência, reincidência e persistência.

Já os impactos na vida da vítima vão do medo e hiper vigilância a transtornos de estresse pós-traumático, ansiedade, depressão e pânico. O cotidiano também é afetado. Pesquisas mostram que 81% mudam atividades e locais de trabalho, 73% adotam medidas adicionais de segurança, como aprender lutas e instalar câmeras, 39% chegam a mudar de casa e 7% são obrigadas a trocar de estado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 11 DE JULHO

JULGANDO COM JUSTIÇA

Nos lábios do rei se acham decisões autorizadas; no julgar não transgrida, pois, a sua boca (Provérbios 16.10).

Um rei íntegro julga com justiça, enquanto um rei iníquo transforma seu trono em território de opressão e violência. Reis piedosos lideravam seu povo pelas veredas da justiça; reis perversos e maus desencaminhavam a nação. Salomão foi constituído rei por escolha divina. Ele falava por autoridade divina e era justo no seu julgar. Certo dia, duas mães lhe trouxeram uma demanda. Ambas tiveram filhos e, numa noite, uma dessas crianças morreu. A mãe que perdeu o filho consolou-se roubando o filho da outra e afirmando que a criança viva era sua. O impasse estava estabelecido. Salomão, não conseguindo pacificá-las, mandou trazer uma espada e deu a seguinte ordem: Dividi em duas partes o menino vivo e dai metade a uma e metade a outra. Então, a mulher cujo filho era o vivo falou ao rei (porque o amor materno se aguçou por seu filho) e disse: Ah! Senhor meu, dai-lhe o menino vivo e por modo nenhum o mateis. Porém a outra dizia: Nem meu nem teu; seja dividido. Então, respondeu o rei: Dai à primeira o menino vivo; não o mateis, porque esta é sua mãe (1Reis 3.25-27). Toda a nação devotou respeito ao rei, porque viu que nele havia a sabedoria de Deus para fazer justiça.

GESTÃO E CARREIRA

HELL’S OFFICE – COMO LIDAR COM AMBIENTES TÓXICOS NO TRABALHO

Trabalhar em um escritório infernal não destrói só a autoestima: arrebenta até a sua capacidade cognitiva. Entenda as forças que transformam certas empresas em câmaras de tortura. E saiba como uma experiência ruim pode servir de trampolim para uma vida profissional mais saudável.

Meu nome é Alexandre Carvalho, sou jornalista e, no meu começo de carreira, sobrevivi a uma temporada no pior escritório do mundo – provavelmente não era, talvez haja lugares piores nas repartições públicas da Coreia do Norte. Mas acho que você entendeu o meu ponto. Se não entendeu, vem comigo…

Era uma editora de porte médio. Apesar de o jornalismo viver de informação, tínhamos de pedir licença à gerente administrativa para fazer ligações para o mundo exterior – o uso do celular era proibido. Internet’ só 5 minutos por dia. Era o tempo liberado para pesquisar tudo o que fosse necessário para sua matéria.

Um sistema de câmeras não menos invasivo que o do BBB monitorava a sala de redação o tempo todo. De verdade. A tal gerente administrativa trabalhava diante de duas telas: uma do computador em que fazia suas burocracias e outra que mostrava nossa entediante rotina.

Se você ia ao banheiro mais de duas vezes no mesmo expediente, o telefone do chefe de redação tocava: “Marco, por que o Alexandre foi ao banheiro de novo? Ele está doente? Por que não está trabalhando?” Sim, a executiva contava as vezes que cada um ia cuidar dos seus negócios no vaso sanitário. Também telefonava se percebesse alguém mais de 5 minutos sem digitar qualquer coisa. Ou se ela visse duas ou três pessoas rindo ao mesmo tempo.

Mas minha passagem por lá foi um voo de cruzeiro perto do que viveu meu chefe direto, Marco Marcelino, um verdadeiro herói da resistência. Porque a dona da empresa, a que inventava essas normas kafkianas, detestava o Marco. Só não o demitia porque nos temas técnicos das publicações que editávamos, só ele era bom de fato.

Até o dia em que – na perspectiva conspiratória dessa empresária – meu chefe “passou dos limites”. O que ele fez? Usou suas primeiras férias em três anos para conhecer a Europa, onde visitou uma feira de negócios – justamente do tipo de negócio que era o assunto de uma de nossas revistas. Ele ousou buscar conhecimento para além dos 5 minutos de internet, para além das ligações controladas. E pagou caro por isso.

“Quando voltei das férias, nem me deixaram subir para a redação. Fui direto para uma reunião com a diretora, que me disseque eu havia traído a confiança da empresa com essa viagem ‘sem autorização’, apesar de eu ter comunicado meus planos ao sócio dela”, lembra Marco, hoje rindo, 20 anos distante daquela conversa absurda. “Disse também que ia procurar motivos para me dar advertências até que eu pudesse ser demitido por justa causa.”

Mal o jornalista saiu – abalado, claro – dessa reunião, veio logo outro nonsense. A gerente lhe comunicava que, em vez de ser punido, ele estava sendo promovido. Seria o gestor do novíssimo “departamento de pesquisa”, que a empresa tinha inventado naquele exato momento.

Colocaram, o agora ex-chefe de redação para trabalhar solitário numa mesa minúscula, dessas de boteco, diante de um grosso exemplar das antigas Páginas Amarelas. Sua missão era procurar, naquele labirinto de nomes de empresas e números de telefone, potenciais anunciantes para as revistas da editora. Só procurar e anotar em folhas de sulfite, sem computador. De segunda a sexta, das 8h às 18h. Sua nova mesa, aliás, ficaria embaixo do relógio de ponto, colado às portas dos banheiros. Um silencioso assédio moral, basicamente.

Marco ainda durou algumas semanas nesse cargo de fachada. Consultou um advogado, avaliou processar a empresa, mas acabou por fazer o que a diretora tanto desejava para poder dispensá-lo sem o ônus das multas trabalhistas: pediu demissão. Só queria esquecer aquelas barbaridades e seguir com sua vida – bem longe dali.

CULTURA DO CAOS

Esse pior escritório do mundo, que acabei de descrever, talvez seja inviável hoje, numa realidade em que a Justiça é menos leniente com esse tipo de abuso. Mas o inferno é traiçoeiro, e conta com vários círculos intermediários de sofrimento quando se trata de ambientes tóxicos de trabalho.

O caso mais recorrente é o dos chefes abomináveis, e aí há diversas categorias de demônios para sabotar sua paz de espírito. Há o gestor que grita, o que rosna, o que faz escândalo, o que aponta o dedo para você na frente da equipe toda, o que se gaba de triunfos que não lhe cabem, o que coloca empregado contra empregado, o que só promove quem puxa o saco, o que impõe favores pessoais que nada têm a ver com a empresa (“manda meu carro para lavar”), o que liga às 6h da manhã… E esse novo tipo: o “chefe pandêmico”, que faz micro gerenciamento do seu home office, pedindo para compartilhar sua tela a fim de conferir se você está trabalhando de verdade.

Mas nem tudo é culpa das lideranças. Um ambiente tóxico também pode ser consequência de colegas do mal ou da própria cultura da empresa.

No primeiro caso, os diabinhos são divididos em pelo menos quatro espécies peçonhentas: o mais comum é o fofoqueiro do cafezinho, que quer saber (e compartilhar) da vida de todo mundo, faz insinuações e vem com ironias quando alguém é promovido; o segundo é aquele que só vê a parte vazia do copo em tudo que a empresa faz, tentando te atrair para a negatividade que o envolve como uma nuvem que faz as flores murcharem; já o terceiro é um caso mais grave: o assediador, que emenda comentários inadequados um atrás do outro, diz grosserias com um tom “charmoso”, quer forçar a intimidade ou algo mais; e há o colega que quer passar com uma escavadeira por cima do resto do time – zero por cento de espírito de equipe, obcecado por seu marketing pessoal. Um possível consolo é que chefes ruins podem ir embora um dia, colegas nefastos mudam de área – ou é possível evitá-los… Pior é quando a própria empresa é tóxica. “Quando a companhia promove um ambiente hostil, a situação é mais complicada”, diz Paulo Sardinha, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH).

Essa toxicidade aparece em eventuais falhas de ética, que permeiam dos negócios às relações internas, passando por desamparo aos empregados e pelo coquetel indigesto de pressão com falta de reconhecimento. Um lapso moral puxa o outro, num círculo vicioso que passa a envolver a companhia sob uma crosta de disfunções que vai ficando cada vez mais espessa.

Paulo explica que ambientes tóxicos são mais comuns em empresas de pequeno e médio porte – como a da minha infeliz experiência -, e principalmente em negócios familiares onde as relações de trabalho são um reflexo da própria natureza das interações entre parentes. “Quando você começa um empreendimento, a primeira preocupação é vender, para recuperar logo o seu investimento. Por isso seu primeiro foco está na elaboração do produto mais promissor e na estratégia comercial. Aí, se as vendas dão certo, você precisa aprimorar sua logística, seu controle financeiro, a questão tributária… Então, bem lá na frente, você já tem tanto pessoal que precisa de um RH. Ou seja, a gestão humana vem depois de um tempo em que uma série de más práticas nas relações já estão instaladas. Quebrar os vícios de uma estrutura organizacional leva tempo e demanda uma habilidade de negociação muito grande.”

Nas empresas maiores, os riscos de isso acontecer são bem mais controlados – ainda que nenhuma seja imune à patifaria. “Em multinacionais, que têm processos de governança muito bem estabelecidos, a gente supõe que, quando um excesso acontece, tende a ser uma exceção”, acredita Paulo Sardinha. “As companhias entraram num estado de vigilância maior porque o enfrentamento de uma situação adversa geralmente vem com uma conta muito pesada. Até pela repercussão negativa que um ambiente tóxico pode provocar nas redes sociais, já que hoje tudo pode ser filmado, gravado e compartilhado.”

TIRO NO PÉ

Um ambiente tóxico pode até dar resultado no curto prazo, por conta da pressão, mas é um veneno que vai matando a empresa por dentro. Um estudo de universidades da Califórnia e da Flórida revelou que profissionais menosprezados por seus chefes tendem a manifestar ideias menos criativas que as dos colegas que passaram ilesos por seus superiores. Já colaboradores que presenciaram atitudes grosseiras de seus líderes tiveram um desempenho inferior (28%, de acordo com as métricas do estudo). Os pesquisadores apontam que até 80% dos acidentes de trabalho estão ligados ao estresse crônico. São perdas de produtividade e de dinheiro por causa unicamente de maus comportamentos – individuais ou coletivos. E há ainda a questão da fuga de talentos. De acordo com o relatório Breathe’s Culture Economy 2021, quase um terço dos trabalhadores no Reino Unido pede demissão por causa de ambientes tóxicos no trabalho. E, das mulheres que trocaram seus empregos pela aventura de empreender, dois terços disseram que não voltariam ao mundo corporativo de jeito nenhum, mesmo que fosse para ganhar bem mais. O fato é que os ambientes tóxicos reduzem a motivação, arruínam as relações pessoais e dão espaço a líderes menos exemplares. Tudo isso se retroalimenta – um chefe com vocação para líder de facção criminosa tende a promover funcionários com os mesmos traços de personalidade. Quando você vê, a empresa virou um presídio. E a linha descendente nos resultados vai ficando mais íngreme.

COMORBIDADES

Se um escritório infernal afeta as contas da companhia, os danos psicológicos (e físicos) para o profissional são ainda mais impressionantes. Autor do livro Morrendo por um Salário, Jeffrey Pfeffer, professor da Universidade de Stanford, aponta que pessoas sufocadas na empresa “têm maior probabilidade de fumar, beber mais, são mais propensas a comer em excesso, a se envolver no uso de drogas ilícitas e têm menos vontade de praticar exercícios”.

Entre as comorbidades relacionadas a um escritório hostil estão fadiga crônica, pressão alta, gastrite, enxaqueca, dermatite, alterações de peso, quadros de ansiedade generalizada, insônia e depressão. “O profissional exposto a esse ambiente chega a ter perdas cognitivas importantes”, acrescenta a professora Ana Cristina Limongi França, falando em nome da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho (SBPOT). ”A pessoa vai perdendo a capacidade de fazer operações matemáticas ou dominar certas tecnologias, começa a ter falta de assertividade na comunicação, confunde metas…Tudo isso porque, naquele momento, seus mecanismos mentais estão focados numa coisa só: conseguir lidar com a dor e a quebra de autoestima que aquele ambiente provoca.”

SHOULD I STAY OR…

E aí vem a grande questão: se está tudo tão ruim, porque não pedir as contas ou negociar para ser demitido? Num país em situação de pleno emprego, essa parece a solução óbvia. Mas, você sabe, não é o que acontece no Brasil. Pelo contrário: estamos a marca próximos de 15 milhões de desempregados, e a pandemia é um desestímulo brutal a novas contratações – pelo menos se você não trabalha em setores como TI e e-commerce.

Dito isso – “vou ficar, não tem outro jeito por enquanto”-, é recomendável começar pela redução de danos. E o primeiro passo é reconhecer que o seu problema está no escritório. Fique atento aos sinais do seu corpo. Você sente ansiedade acima do normal no domingo à noite? Chega a ficar com tremedeira ao se aproximar da empresa? Começou a ter sonolência excessiva (chega em casa esó quer dormir, não pensar mais em nada)?

Outro distúrbio comum em casos de esgotamento por trabalhos tóxicos é a chamada alexitimia, uma dificuldade de expressar emoções diante dos horrores desse ambiente (ficar com cara de paisagem em reuniões, por exemplo), mesmo que por dentro você esteja tendo um colapso nervoso.

“O lado positivo é que é uma oportunidade de autoconhecimento”, explica Ana Cristina, da SBPOT. “O profissional percebe que tem de lidar com essas situações de forma diferente e começa a criar estratégias de proteção para quando vai entrar em contato com as pessoas hostis. Desenvolve ações de neutralização de lideranças e colegas tóxicos. São movimentos que dão certos desgastes, mas são bons paliativos. O ideal é fazer isso com a ajuda de especialistas, de preferência terapeutas.”

E dentro da empresa? Se for viável, o ideal é ter uma conversa franca com seu gestor. Mesmo que o problema seja ele. Às vezes, pode ser uma questão de encaixe na comunicação. Bons líderes sabem que cada colaborador responde melhor a um tipo diferente de interação: tem gente que gosta de pressão, tem os que paralisam com um tom de voz mais forte.

Se falar com o chefe não é uma opção, tente o RH. “Em empresas maiores, há um conjunto de recursos para o colaborador ir se fazendo ouvir antes que a situação chegue a um nível insuportável, como pesquisa de clima, avaliação de desempenho, reuniões de feedback, ouvidoria. Mas a proximidade do RH é fundamental”, diz Paulo Sardinha. “A empresa fala aos empregados por meio de dois mecanismos: o conjunto de suas políticas e o modelo de liderança. Já os colaboradores falam para a empresa por meio do RH. E precisam ter confiança absoluta nesse apoio.”

Nada resolveu? Então, cara leitora, amigo leitor, o jeito é ir se preparando para a despedida. Normalmente, passamos mais horas acordados com as pessoas com quem trabalhamos do que com nossas famílias – pandemia e home office à parte. Nenhum trabalho deve ser a medida de seu valor nem vir antes do seu bem-estar. Como é difícil mudar o comportamento de alguém além do seu, ainda mais de uma cultura organizacional, concentre-se em manter sua autoestima, não baixe a guarda do seu profissionalismo – se eles são ruins, você não precisa ser também – e tenha foco no compromisso com os seus objetivos de carreira.

Foi assim que Marco Marcelino conseguiu transformar aquela experiência traumática num gatilho para o que seria seu futuro profissional. “Aquela situação de ficar procurando anunciante em lista telefônica me deu um insight que mudou minha vida”, ele conta. “Constatei que muitas empresas ali não anunciavam nas revistas porque a editora não estava mirando nos alvos certos. Comecei então a procurar quais eram os maiores clientes em potencial de cada segmento, eisso foi uma coisa que levei para a minha vida inteira: a paixão por dados qualificados.”

Hoje Marco é uma autoridade em inteligência de mercado, presta consultoria para ensinar companhias a tirar melhor proveito de dados estratégicos e está lançando um app que sugere potenciais clientes para as empresas – com base em inteligência artificial. Não sucumbiu diante do ar insalubre daquele escritório – e hoje acredita que sair de lá, sem olhar para trás, foi a melhor decisão que já tomou. Afinal, seja qual for seu emprego, ele não define a pessoa que você é.  It’s justa job! Só cabe ponderar os prós e contras de sair ou lutar por um dia a dia mais saudável e produtivo – para você e para quem paga o seu salário.

FAZ MAL AO CORAÇÃO

O uso do termo “tóxico” para designar ambientes hostis de trabalho é coisa recente. Mas não é à toa. Basta uma olhada no dicionário. A primeira definição que você vai encontrar é “que produz efeitos nocivos no organismo”. E é isso mesmo. Trabalhar exposto a circunstâncias ameaçadoras é viver sob estresse, quando seu cérebro o prepara para uma reação de luta ou de fuga – aumentando a sua pressão arterial e a quantidade de açúcar no sangue. O problema é isso acontecer todo dia. Você se sente adoentado o tempo Inteiro? Talvez tenha a ver com o escritório. O estresse crônico prejudica o funcionamento do sistema imunológico, retardando o tempo de cura de doenças e tornando o indivíduo mais vulnerável a infecções. Aliás, é um belo fator de risco para o coração. Um estudo publicado em 2016 no Journal of Occupational Health Psychology mostrou que altas de pressão arterial após interagir com um chefe agressivo tendem a se manter no pós-expediente, quando o profissional fica ruminando sobre a conversa desagradável. O resultado, a longo prazo, pode ser hipertensão – um quadro característico (e perigoso) de pacientes cardíacos.

GUIA DE SOBREVIVÊNCIA

IDENTIFIQUE A FONTE

Às vezes o corre-corre do trabalho é tão insano que não damos conta do quanto estamos sendo abusados pela empresa – ou de como o chefe é um manipulador, desrespeitoso. Se você tem pequenos ataques de pânico entre o domingo à noite e a manhã de segunda, reflita sobre as causas. A fonte da energia tóxica pode estar na sua frente.

MANTENHA DISTÂNCIA

O sujeito sentado ao seu lado pode até ser simpático com você. Mas, se for do tipo que atropelar os outros para subir na empresa, não dê trela para conversa. Assim você evita se contaminado pelo vírus do mau comportamento e da negatividade.

EXPONHA O PROBLEMA

No melhor dos mundos, uma conversa franca com seu chefe resolveria muita coisa. Se você achar que isso só vai transformá-lo num alvo de perseguições, procure o RH. Também é uma oportunidade para questionar políticas da empresa que sufocam os colaboradores.

FOCO NO SEU BEM-ESTAR

Enquanto um pedido de demissão for carta fora do baralho, busque práticas de autocuidado para não adoecer de vez. Faça terapia, cuide dos efeitos colaterais do estresse (como gastrite, enxaqueca…) e se cerque de um grupo de apoio – amigos e familiares que vão lembrá-lo de que a vida não é só aquela droga de emprego.

PREPARE-SE PARA O FIM DA RELAÇÃO

Talvez despedir-se do mundo dos holerites por causa de um trabalho tóxico seja temeroso diante da alta no desemprego. Mas, constatado que esse ambiente não tem conserto, invista em cursos de aprimoramento e empenhe-se em fazer mais contatos profissionais fora da empresa. Assim uma oportunidade de mudança de ares tende a acontecer, naturalmente.

PARA A EMPRESA FAZER UM DETOX

PREVENIR EM VEZ DE REMEDIAR

“Nenhum diretor de empresa quer ter um gerente que trate mal os funcionários”, diz Paulo Sardinha, da ABRH, “porque ele não vai poder dizer que não sabia ou que não concordava. Ele se torna cúmplice. Nesse sentido, o RH pode construir, antes que o problema aconteça, um modelo de governança que já impeça essas situações.”

FALAR SOBRE GENTE

Em reuniões entre Lideranças, além dos assuntos associados a processos de trabalho, inclua temas a respeito de gestão de pessoas. Refinar as relações pode fazer a diferença entre reter talentos e ter de buscar reposição no mercado.

ANALISAR OS DADOS

Pesquisa de clima não pode ser só uma formalidade da empresa. Estude as respostas. E dê outros caminhos para que os colaboradores se expressem. Ali podem estar as pistas que vão levar à origem de uma insatisfação generalizada

INVESTIR EM CAPACITAÇÃO

Mais do que nunca, as habilidades comportamentais dos gestores influenciam num bom ambiente de trabalho. Nem todo mundo domina essas soft skills, mas o que não falta no mercado são boas consultorias para promover treinamentos focados nessas competências.

GERAR QUALIDADE DE VIDA

A maioria das pessoas quer ser feliz no trabalho. A empresa pode fazer sua parte sendo transparente, sabendo dosar as demandas, estabelecendo metas viáveis, abrindo canais de escuta e dando reconhecimento às conquistas individuais e coletivas. Construir uma cultura de inteligência emocional é um antídoto poderoso contra maçãs podres e ambientes hostis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MÉDICOS SE PREOCUPAM COM DICAS DE BELEZA SEM BASE CIENTÍFICA NO TIKTOK

Sempre sei o que está em alta no TikTok porque aparece um monte de pacientes me perguntando a mesma coisa”, diz o gastroenterologista Niket Sonpal, de Nova York. Normalmente a “coisa” é uma dica de beleza que ganhou circulação viral na plataforma de vídeo, mas sem qualquer comprovação de que realmente funcione.

 O conselho pode ser inútil e até perigoso, de beber clorofila para perder peso a usar protetor solar apenas em determinadas áreas do rosto a fim de criar um “contorno” facial.

“É engraçado, porque os pacientes muitas vezes ficam tímidos em nosso consultório quando sugerimos um tratamento”, diz a dermatologista e cirurgiã cosmética Dendy Engelman, de Nova York. “Mas se veem alguma coisa feita no Instagram por um influenciador de 18 anos, acham ótima ideia tentar aquilo em casa”.

Algumas tendências que dominam a plataforma são incompreensíveis para os médicos. Uma delas é chamada de “slugging” e aconselha pessoas a dormir com o rosto coberto por espessa camada de vaselina para ajudar na hidratação.

Vídeos com a hashtag foram assistidos 14,4 milhões de vezes na plataforma. Mas os dermatologistas afirmam que o método pode ter efeitos negativos. “Colocar isso em sua pele e deixar lá a noite toda, na verdade, agrava problemas de poros obstruídos e irritações cutâneas”, diz Dendy Engelman. Alguns influenciadores aconselham as pessoas que estão cansadas de usar maquiagem para definir o contorno de seus rostos a recorrer a um protetor solar com FPS (Fator de Proteção Solar) alto e aplicá-lo apenas nas áreas que gostariam de destacar, como o topo dos malares e o declive do nariz. O resto do rosto fica exposto ao sol e pode se bronzear (ou queimar) sem proteção.

É uma dica que contraria diretamente a recomendação da Academia Americana de Dermatologia de que todos deveriam usar um FPS de espectro amplo e proteção de pelo menos 30, sobre qualquer parte da pele exposta ao sol.

“Sabemos que fazer isso é crucial desde bem cedo para prevenir tanto o envelhecimento prematuro da pele quanto o câncer de pele e, por isso, a ideia de que esses vídeos estejam sugerindo o oposto a uma audiência muito jovem, é perturbadora”, afirma a dermatologista Neera Nathan, do Massachusetts general Hospital, em Boston.

Em abril, beber clorofila, uma recomendação que teve seus momentos em outras plataformas de mídia social, passou por um pico de interesse no TikTok com a ajuda de endossos de influenciadores. A clorofila foi definida como “produto miraculoso” que pode aumentar os níveis de energia, induzir perda de peso e limpar a pele. Médicos, porém, dizem que as afirmações não têm sustentação científica.

“Se algumas pessoas estão encontrando “resultados” depois de beber clorofila, deve ser porque passaram a beber mais água do que costumavam e, por isso, sua pele melhora e suas visitas ao banheiro se tornam mais regulares”, diz o gastroenterologista Senpal.

Tilly Whitfield, 21 estrela do Big Brother na Austrália, aprendeu da pior forma o quanto tendências de beleza podem ser perigosas. Durante a passagem pelo programa ela usou máscaras de argila e maquiagem pesada o tempo todo e foi questionada pelo público sobre o que escondia. Whitfield disse por telefone que não tinha contado a ninguém o que aconteceu exatamente porque sabia que a história a faria parecer idiota.

Em agosto, ela estava vendo vídeos na rede e um deles ensinava a criar sardas com agulha de costura e tintas; segundo o vídeo, as marcas desapareceriam em seis meses. Porque o vídeo não explicava que tipo de tinta usar, ela comprou tinta marrom de tatuagem via e-Bay (que mais tarde descobriu ser um produto falsificado e com alto teor de chumbo) e começou a espetar o rosto, criando um padrão de sardas.

“Não doeu nem um pouco e, por isso, não achei que precisava parar”, disse Whitfield. O tratamento para as falsas sardas infectou seu rosto, causando inchaço que a fez perder temporariamente a visão em um dos olhos.

Whitfield já gastou quase US$ 12 mil (R$ 61 mil) em consultas médicas, mas ainda não encontrou uma solução que corrija os danos. Histórias como a dela levam médicos a esperar que as empresas que operam essas plataformas alertem o perigo das dicas. Enquanto isso, eles prefeririam que as pessoas consultassem sim, um médico, antes de acatarem os conselhos de um vídeo no TikTok.