OUTROS OLHARES

NA ERA DO ZOOM, O LIVRO VALE TAMBÉM PELA CAPA

Com estantes em evidência no cenário de videoconferências e lives, bibliotecas de celebridades viram assunto nas redes sociais e cresce a procura por edições decorativas

Com plataformas de videoconferência expondo nas telas as casas de todo mundo, as estantes entraram em evidência. Difícil não ficar atento aos títulos nas prateleiras de artistas e jornalistas durante lives e entrevistas. Ou não se preocupar com os livros que mostramos nas reuniões. Efeito colateral dessa atenção aos hábitos de leitura, sebos on-line estão destacando o aspecto e a cor das lombadas de seus itens, e sites de varejo oferecem lotes de livros aleatórios divididos por cor (a famosa “compra por metro”). Em alguns casos, eles vêm até sem texto dentro.

Os sebos físicos também perceberam, a demanda. Dono do Belle Epoque, na Tijuca, Ivan Errante recebeu recentemente um pedido de compra de publicações com brochuras antigas para decoração. Ele relutou, mas acabou ajudando a cliente com itens encalhados.

“Gosto de ver livros circulando para que sejam lidos”, diz Errante. “Nesse caso, como não era pelo conteúdo mesmo, peguei alguns que ninguém procurava. Deu o maior trabalho para conseguir a quantidade de livros encadernados que ela queria, mas acabou dando certo”.

PARA INGLÊS VER

Embora pareça bom negócio, nem todos os livreiros veem a prática com bons olhos.

“Sinto uma certa repugnância quando ouço alguém falar que quer livro para decorar”, diz Mauricio Gouveia, do sebo Baratos da Ribeiro. “Inclusive já me neguei a vender com esse propósito”.

Essa preocupação enviesada com as bibliotecas tomou tal proporção que muitos recorrem a ajuda profissional.

“Antes da pandemia, já se usava o recurso de livros na decoração, mas o pessoal optava por edições maiores, de imagens, em mesas laterais etc. Agora, surgiu a demanda “espaço para home office” e esse “fundo” de conversa on­line”, diz a arquiteta de interiores Camila Salin, que contemporiza. “Não se trata de reduzir um livro a objeto de decoração, mas de criar um cenário que mostre a sua identidade. Se a pessoa gosta de esportes, por exemplo, recomendo que ela destaque livros com essa temática.

A live de Caetano Veloso em sua sala, por exemplo, em agosto do ano passado, causou frisson tanto pelo repertório quanto por sua elogiada estante. Já a do ministro da economia Paulo Guedes, também em agosto, provocou polêmica pelas prateleiras vazias. Em novembro, o vereador Carlos Bolsonaro gerou comentários ao gravar um programa eleitoral com uma biblioteca fake ao fundo, retirada de um banco de imagens. O fenômeno não escapou de humoristas e artistas. Paulo Vieira ironizou os vaidosos gravando uma crônica com livros falsos ao fundo. “Agora eu tenho minha parede intelectual”, postou ele nas redes sociais. O artista espanhol Eduardo Berazaluce viralizou ao criar um suporte de papelão com uma estante impressa (“perfeito para atores, jornalistas e comediantes”, brincou). E, no Twitter, o perfil Book­ case Credibility analisa a respeitabilidade da biblioteca dos convidados dos programas de TV. Famosa na internet pelo bordão “é de bom tom?”, a comediante Ilana Kaplan criou a personagem Keila, uma decoradora de lives”: “Na TV, todos os jornalistas passaram a falar de casa, e não tem como não olhar a estante deles e julgar: “Nossa, mas a prateleira do fulano, hein… podia estar melhor”, diz a humorista.

Da ficção bem-humorada para a realidade, uma dentista, de 38 anos, moradora de Ribeirão Preto e que pede para não ser identificada, começou a repensar suas próprias estantes ao observar o desfile de bibliotecas nas telas. Sua principal referência é o advogado Thiago Amparo, que durante suas intervenções na GloboNews costuma exibir ao fundo estantes com exemplares formando uma sequência degradé. Ela conta ter aprendido assim a separar os livros de culinária por cor.

Para fazer bonito no Zoom, também comprou títulos da extinta editora Cosac Naify, conhecida por suas edições caprichadas. E o fez só pelo visual, admite.

“Como me inscrevi em um curso com aulas pelo Zoom durante a pandemia, comprei clássicos da minha área que já havia lido na especialização e que não leria novamente. Coisas que pessoas do mesmo círculo intelectual reconheceriam”, diz ela.

Responsável pela estética das estantes da Livraria da Travessa a arquiteta Bel Lobo não recomenda organizar livros pela cor. Uma biblioteca de respeito, acredita ela, prioriza a disposição por temas. Já o professor de arquitetura da UFRRJ Mario Saleiro Filho explica que cada cor transmite uma mensagem. Predominantes em livros de arquitetura, as lombadas douradas em capas vermelhas, por exemplo, são sinônimo de poder.

“São as cores da coroação de Napoleão”, observa ele.

Não surpreende que, nesse mercado, os livros encadernados com brochuras antigas sejam muito procurados. Segundo Saleiro, o aspecto vintage passa uma ideia de nobreza, como se o conhecimento intelectual tivesse sido transmitido de geração em geração.

EXPERIÊNCIA COMUNITÁRIA

Muito antes do “efeito Zoom”, no entanto, o mundo virtual já vinha mudando a produção de livros. Hoje, os editores precisam levar cada vez mais em consideração a forma como seus produtos vão aparecer nas redes sociais. Editor da Antofágica, Daniel Lameira acredita que as pessoas veem nos livros uma forma de construir suas identidades digitais e materializar suas vontades.

“Por isso as editoras têm hoje uma preocupação maior de criar um sentimento expandido da leitura, que passa pelo visual e pela propagação do livro pelo digital”, diz. “Para nós, é o contrário do “desliga a tela e vai ler um livro”, porque o livro é uma espécie de experiência em comunidade, que o leitor fica feliz em compartilhar nas redes. Acho isso bonito e democrático.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 10 DE JULHO

A DIREÇÃO DE DEUS É MELHOR

O coração do homem traça o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos (Provérbios 16.9).

Somos pessoas limitadas tanto no conhecimento como no poder. Não sabemos todas as coisas nem podemos dar conta de todas as coisas. Traçamos planos, mas nem sempre podemos executá-los. Estabelecemos alvos, mas nem sempre os atingimos. Almejamos coisas, mas nem sempre as conquistamos. Na verdade, a pessoa faz seus planos, mas quem dirige sua vida é Deus. Em seu coração o homem planeja seu caminho, mas é o Senhor quem determina seus passos. A atitude mais sensata é submetermos nossos planos a Deus; ou melhor, buscarmos o conhecimento da santa, perfeita e agradável vontade de Deus para nossa vida. A direção de Deus é sempre melhor do que a nossa. Ele conhece os segredos do futuro e tem todo o poder para nos conduzir em triunfo, mesmo em meio às grandes dificuldades da vida. Deus está conosco sempre. Sua bondade e sua misericórdia nos acompanham todos os dias da nossa vida. Ele nos toma pela mão direita, guia-nos com seu conselho eterno e depois nos recebe na glória. Sua direção é sábia e segura. Ele jamais nos desvia da rota da santidade, pois suas veredas são caminhos de justiça. Quando Deus caminha conosco, marchamos resolutos rumo à glória.

GESTÃO E CARREIRA

A ASCENSÃO DOS BRECHÓS

Foi-se o tempo em que lojas de roupas usadas eram sinônimo de produtos velhos e com cheiro de naftalina. Os brechós estão em pleno crescimento – e devem ultrapassar o varejo tradicional de moda ainda em 2024.

No início do século 19, um alfaiate português de nome Belchior abriu uma loja no Rio de Janeiro para comprar e vender produtos usados. Deu certo – e outros negócios do tipo foram surgindo com o nome de “loja do belchior”. O termo aparece inclusive no conto Ideias de Cenário, publicado por Machado de Assis em 1889.

Como a língua evolui por linhas tortas, “belchior” logo se transformou no que conhecemos hoje como “brechó”. Lá fora, o modelo tinha se consolidado nos tais “mercados de pulgas” que se espalharam pela Europa devastada por guerras e pobreza nos séculos 19 e 20, onde se vendiam roupas com qualidade questionável. Mas a verdade é que fazer a revenda de itens usados existe desde que gente é gente.

Apesar da idade milenar desse tipo de comércio, foi só recentemente que os brechós começaram a quebrar a imagem ligada a produtos velhos, mofados e cheios de pulgas. Nos últimos anos, o mercado de segunda mão tem aumentado exponencialmente, no Brasil e no mundo: em 2019, as vendas de usados pelo globo cresceram 25 vezes mais rápido do que o setor varejista como um todo, segundo relatório da ThredUp, uma empresa de capital aberto americana com foco em vendas de usados.

Usando dados da GlobalData, a ThredUp estima que o dinheiro movimentado pelo setor saltará de USS 28 bilhões (em 2019) para US$ 64 bilhões em 2028. No mesmo período, o aumento do montante dos setores da fast fashion – o varejo tradicional de vestuário, com venda de peças novas que rapidamente perdem seu uso – terá um crescimento muito menor: de US$ 36 bilhões para USS 43 bilhões.

Em 2019, entre todos os itens usados comprados pelos brasileiros, roupas e calçados ficaram em segundo lugar, de acordo com uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, atrás apenas de celulares e eletrônicos. Mais de 90% dos consumidores afirmaram ter ficado satisfeitos com a compra. No mesmo ano, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) estimou que havia 13 mil pequenos negócios no país focados na venda de produtos usados.

A tendência de crescimento em 2019 era clara, como os dados mostram; e aí veio a pandemia. O baque até foi sentido pelos brechós, principalmente os pequenos. Mas o setor em geral viu na crise uma oportunidade de crescer, especialmente no meio digital, por dois motivos: com grande parte do mundo entrando em quarentena, as pessoas tiveram tempo para fazer uma boa limpeza no guarda-roupa e aproveitar para ganhar alguns trocados vendendo as peças antigas; ao mesmo tempo, com a crise, o consumidor buscou reduzir gastos – e recorreu à compra de peças seminovas.

Tanto que a compra e venda on­line de usados cresceu 27% em 2020, contra uma queda de 23% no varejo como um todo. A expectativa da GlobalData é a de que a tendência de alta nos brechós online se intensifique, mesmo com o eventual arrefecimento da pandemia. Eles preveem uma alta de mais de 33% na venda de roupas usadas até o final de 2021, contra um modesto repique de 8% no varejo tradicional. Mais: apostam também que o brechó de rua deve pegar uma carona na tendência e subir 40%.

O NOVO “COOL”

A pandemia pode até ter acelerado a ascensão dos brechós, mas o fenômeno começou antes – e tem a ver com uma transformação no mundo da moda. Acontece que as novas gerações estão cada vez mais conscientes do impacto ambiental e social da indústria de vestuário. Buscam um consumo mais sustentável. Os millennials (nascidos entre 1980 e 1996) e a geração Z (pós-1997) já correspondem a 46% da população global – o mercado não pode ignorar as tendências dessa fatia de consumidores.

E elas são bem claras: 90% dos jovens da geração Z acreditam que as empresas precisam lidar com problemas ambientais e sociais, e não teriam problemas em deixar de comprar de uma marca que não se comprometesse com essas ideias, segundo dados da consultoria McKinsey. A preocupação com o social é uma adição especialmente recente que os diferencia dos millennials, ainda focados nas questões ambientais. Nada disso é à toa: a indústria da moda é responsável por cerca de 10% das emissões globais de carbono, e quase 20% do consumo de água. A moda consome mais energia do que a aviação e o transporte marítimo juntos. Na questão social, não faltam histórias de grandes empresas da moda envolvidas em escândalos relacionados a condições precárias para trabalhadores da manufatura. Em certos casos, análogas à escravidão.

Por isso, não só comprar peças usadas deixou de ser algo malvisto corno se tornou cool, descolado. Jogar roupas conservadas no lixo é quase que um atestado de culpa. O perfil médio do consumidor de peças de roupas usadas, diga-se, é formado por mulheres jovens, entre 18 e 45 anos, de classe média e antenadas nas discussões socioambientais.

NEGÓCIOS DE SUCESSO

Quem está no ramo há tempos percebe a mudança de perto. É o caso de Denise Pini, fundadora do brechó Capricho à Toa, na capital paulista. O negócio começou com um bazar, em 1978, no porão da casa da empreendedora – para complementar a renda enquanto ela fazia faculdade. No início, as vendas eram feitas com toda discrição possível – já que, na época, vários clientes temiam ser vistos por conhecidos comprando produtos de segunda mão. “Muita gente tinha nojo até de tocar nas peças”, relembra Denise. Em 1991, a marca surgiu formalmente como uma loja e hoje conta com um estabelecimento de três andares e reposição diária de 1.300 peças únicas no varejo físico e 300 no e-commerce, que começou na pandemia.

Foi também apostando nas vendas online que o Brechó Fashion Carioca, no Rio de Janeiro, conseguiu passar pela crise. Apesar de ter um ponto físico em um shopping, a aposta para as vendas hoje é o on­line, segundo Manu Farias, à frente do negócio há oito anos. Nesse tempo, ela percebeu o preconceito diminuir gradualmente. “É um negócio muito democrático. Tenho tanto cliente que entra na loja para comprar blusinha de RS 39,90 como quem procura bolsa de RS 6 mil”, diz.

Com o crescimento recente, a empreendedora espera expandir seu negócio e, eventualmente, cobrir o setor de moda masculina também – um desafio, porque “quando um homem compra uma camisa, usa até estragar”, brinca Manu.

Se os homens ainda são um segmento difícil de ser conquistado pelos brechós, outro grupo se destaca como cliente ideal para esse tipo de negócio: as crianças (bem, os pais delas). Quem tem um pequeno sabe: eles crescem rápido, e perdem roupas a uma velocidade quase que financeiramente insustentável – o consumo de usados ajuda nesse sentido.

O brechó Giralook, funda do em Belo Horizonte em 2015 por Daniela Repoles Carvalho e seu marido, atua no ramo infantil. “Frequentávamos muito os EUA e percebemos que eles já tinham os brechós enraizados na cultura. Decidimos apostar nessas ideias inovadoras”, conta Daniela. O negócio cresceu 100% durante a pandemia e hoje conta com uma média de 130 mil vendas mensais. Com o crescimento, a marca virou franquia e pretende abrir mais lojas na região Sudeste.

Também se deu bem nos últimos anos quem percebeu o potencial de crescimento dos brechós com antecedência. Foi assim com Bira Rodrigues Rosa e Aline Rodrigues Rosa, um casal de empreendedores que já atuava no varejo de moda – primeiro como vendedores, depois como supervisor comercial e gerente. Ao constatar o potencial das roupas usadas, o casal decidiu apostar na abertura de um brechó, que nasceu em 2016, com 20 peças, na sala do próprio apartamento da família em Campinas (SP).

Deu certo: hoje, o único Brechó é um dos maiores do interior paulista e conta com uma loja física de 800 m2. O negócio foi tão bem que o casal também abriu um projeto chamado “Seu brechó, Seu sucesso”, em que presta consultoria gratuita para outros pequenos empreendedores que querem entrar no ramo.

DOS PEQUENOS AOS GRANDES

Mas engana-se quem pensa que o fenômeno dos brechós está apenas nos pequenos e médios negócios. Recentemente, a bolsa de valores brasileira ganhou um brechó para chamar de seu – ou mais ou menos isso. É o Enjoei, marketplace que surgiu em 2012 como um blog e, hoje, permite que qualquer um compre ou venda seus produtos que enjoaram de usar. A empresa fez sua estreia na B3 em novembro de 2020, e, até o fim de maio deste ano, as ações valorizaram cerca de 9%. Do primeiro trimestre do ano passado para o primeiro deste, o número de novos vendedores na plataforma cresceu 118% e o de compradores, 107%.

Nos seus primeiros passos, a empresa ainda patina para tentar conquistar os investidores. O prejuízo líquido do Enjoei em 2020 foi de RS 31,13 milhões, déficit 50% maior que o de 2019. A empresa argumenta que o resultado é devido ao aumento das despesas para ampliar a equipe e captar novos usuários. Em tempo: nada mais natural para uma empresa jovem e com ambições de crescimento severo.

Enquanto isso, outras gigantes do varejo de moda já se tocaram do potencial dos brechós – e não estão se deixando passar para trás. A Gucci firmou acordo em outubro de 2020 com a The Real Real, maior plataforma de revenda de artigos de luxo do mundo, para criar um mini marketplace de itens usados da marca italiana lá dentro (um sapato da Gucci passa a aparecer não só na seção de calça dos, mas também numa página exclusiva da marca). Além disso, a grife se comprometeu a plantar uma árvore para cada venda concretizada da sua marca na The Real Real – uma jogada de marketing para reforçar o discurso pró-sustentabilidade. Por aqui, na mesma época, a Arezzo comprou 75% do capital da Troe, o maior brechó online de luxo do país. Na plataforma, pessoas podem anunciar a venda de itens usados de marcas predeterminadas e, caso a transação se concretize, a Troe fica com parte do valor. A companhia, que surgiu em 2017, faturou RS 10 milhões em menos de três anos, até que foi comprada pela marca de sapatos e bolsas.

Outra plataforma semelhante, mas que aceita itens mais simples, é a Repassa; nela, você primeiro paga para receber a chamada “Sacola do Bem” em casa. Elas são usadas para o envio dos produtos para a empresa, que então fotografa, precifica e anuncia tudo – você fica com 60% do valor da venda deles. Em 2020, a empresa vendeu 250 mil peças – e, no segundo semestre, recebeu um aporte de RS 7,5 milhões da Redpoint Ventures, uma companhia de investimentos americana.

Em março deste ano, a marca de lingerie Intimissimi firmou uma parceria com a Repassa para distribuir gratuitamente 2 mil Sacolas do Bem a seus clientes, e divulgar o brechó online. Outras marcas, como C&A, Renner e Malwee, também firmaram parcerias parecidas. Em alguns casos, os clientes ganham crédito e desconto nas lojas caso vendam no marketplace.

COMO EMPREENDER NA ÁREA

Ficou animado com o crescimento do setor e decidiu abrir um brechó? Calma lá: não é um negócio tão simples quanto parece. Primeiro, é preciso de muito planejamento – e, principalmente, estudo sobre como está o mercado, porque concorrentes não faltam.

“A maior dificuldade dos brechós está na compra de produtos, não na venda”, diz Hugo Hoch, consultor do Sebrae. Afinal, o negócio só funciona se há pessoas querendo vender suas roupas usadas. Nesse caso, é preciso criar métricas para precificar os produtos de forma justa, determinar uma lista de marcas ou tipos de itens que serão aceitos e estabelecer critérios para selecionar apenas aqueles realmente de boa qualidade, segundo Hugo. Quando se trata de vender, é importante apostar em um atendimento personalizado e humanizado. “O consumidor dos brechós é, essencialmente, garimpeiro: gosta de procurar peças únicas e especiais”, diz Denise, do Capricho à Toa. Trata-se de um diferencial importante em relação às grandes varejistas, que trabalham com produção em massa.

E, se a pandemia obrigou todos os negócios a se digitalizarem, as vendas online ainda são um desafio para brechós, especialmente aqueles que também têm ponto físico e uma alta demanda. Como são sempre peças únicas, pode haver disputa pelo item ao mesmo tempo entre consumidores em suas casas e na loja, por exemplo – a cliente que sair de mãos abanando vai ficar insatisfeita, e pode não voltar mais.

O Único Brechó, de Campinas, apostou numa alternativa: o chat-commerce. Em vez de expor seus produtos em um site, é possível marcar um horário para ser atendido por WhatsApp por um funcionário que expõe ao consumidor as opções como se estivesse na loja física. (Veja mais dicas no box abaixo.)

Seja como empreendedor, seja como consumidor, uma coisa é certa: todos estamos vivendo o momento de virada de um negócio milenar. É a hora de olhar para o guarda-roupa.

TRÊS DICAS PARA EMPREENDER**

1. FOCO NAS COMPRAS

Um brechó pode correr o risco de ficar sem produtos rapidamente caso não encontre pessoas querendo vender. Por isso, é bom criar uma carteira de fornecedores mais ou menos fixa, e constantemente atualizada.

2. ESTUDE O MERCADO

Precificar os produtos é um grande desafio para brechós: precisa ser barato para o consumidor, justo para o fornecedor e lucrativo para o empreendedor. Não há fórmula mágica, mas estudar o mercado para estabelecer métricas pode ajudar.

3. CUIDADO COM O E-COMMERCE

Como se trata de peças únicas, não há estoque: o que significa que um item pode ser disputado por mais de um consumidor entre a loja física e a online. É preciso pensar em alternativas, como dividir os itens entre as duas opções de venda ou apostar no chat-commerce.

EU ACHO …

CRUJ, CRINGE, CRUJ

Vários cringes se assumiram, incluindo a que vos fala; entendo que o tempo de ser chamada de super novinha já passou. Minha ficha já tinha caído

Você sabe o que é Cruj? Na minha adolescência era um programa que passava no SBT chamado “Comitê Revolucionário Ultra Jovem”, cuja abreviação era Cruj, comandado por Diego Ramiro, Leonardo Monteiro, Caique Benigno, Jussara Marques, Danielle Lima e Murilo Troccolli.

Eu adorava. Todos os apresentadores do Cruj eram jovens brancos. Lembro-me de que, nessa época, eu começava a me questionar por que não existiam pessoas como eu na TV? Indagava o mesmo quando via Friends. Uma série que me marcou foi “Um maluco no pedaço”, estrelada por Will Smith.

Sentia-me representada, mas ainda soava estranho não termos uma família negra brasileira ali. Até hoje, mesmo com a passagem do tempo, temos poucos programas de TV nacionais estrelados ou apresentados por crianças e jovens negros ou indígenas. E sobre isso a TV pouco mudou. Espero que um dia a falta de representatividade seja lida como algo ultrapassado.

Dessa fase, lembro-me de papos que já rolavam quando era adolescente, sobre outras gerações. Como um tio que gostava de ouvir músicas dos anos 1970 e 1980. E o quanto isso gerava risadas entre os jovens. Já os mais velhos, sabiamente, ficavam com uma cara de “um dia você vai estar no meu lugar”.

Como alguém que cresceu nos anos 1990, eu era a referência em casa para ajudar as pessoas mais velhas a mexerem no celular ou a digitarem mais rapidamente no computador. Hoje essas habilidades já não impressionam.

Entendo que estou chegando do outro lado. O momento em que as pessoas da minha geração começam a ter hábitos do passado, como ter assistido ao programa da Xuxa ou do Chaves na infância ou ter usado Orkut ou Flogão na adolescência. Ouvir Já Rule, É o Tchan!, Mamonas Asassinas já não é mais uma piada que a geração mais nova domine ou ache graça. E esse assunto ficou entre os mais destacados recentemente com a ascensão do termo cringe.

O termo tem origem inglesa e é utilizado como uma gíria para se referir a situações constrangedoras. E também viralizou para marcar situações de vergonha alheia, consideradas, hoje, cafonas. Até o uso de expressões como “pagar mico” pode determinar o quão cringe você é.

Esse debate intergeracional marca a diferença de comportamentos entre gerações. Instagram e emoticons são coisas de millenials (nascidos entre 1981 e 1995) e TikTok e dancinhas seriam da Geração Z (nascidos a partir de 1996). É óbvio que existem diversos tipos de cringes e não cringes, e seus diversos hábitos que marcaram época. Não dá pra generalizar.

E tudo bem se você nasceu antes de 1996 e se identifica com as dancinhas do TikTok. Faz parte a troca e os gostos serem fluidos.

Vários cringes se assumiram, incluindo a que vos fala; entendo que o tempo de ser chamada de super novinha já passou. Minha ficha já tinha caído (alerta de expressão ultrapassada).

Na verdade, minha percepção cringe já tinha chegado quando os amiguinhos da minha filha, Alice, começaram a me chamar de “tia”. A internet só ratificou.

O fato é que o tempo passa e cada época carrega consigo piadas internas, hábitos e gostos que marcam gerações.

Cruj Cruj, Cruj tchau. Quem é cringe deve ter entendido a “piada”.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderaciaLcom.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ABUSO INFANTIL

País tem 282 denúncias ao dia de violações a crianças e adolescentes

O Brasil registrou, nos primeiros seis meses de 2021, uma média de 282 denúncias de crimes contra crianças e adolescentes por dia, segundo dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH). A maior parte delas (121) é de maus-tratos, e 52 são de abuso sexual, como estupro ou assédio. E o cenário pode ser ainda pior: para especialistas, os dados oficiais são subnotificados.

Desde que a pandemia começou, em março de 2020, o número de denúncias caiu de 29 mil no primeiro trimestre para 20 mil nos últimos três meses do ano. Em 2021, voltaram a subir e atingiram 25 mil entre abril e junho.

“Isso não significa que o número de violações caiu em 2020. Os registros é que diminuíram, por causa do isolamento social. Em 2021, mais serviços voltaram a funcionar presencialmente, e isso reflete o novo aumento”, afirma Marta Volpi, assessora de políticas públicas da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente.

ESCOLAS FECHADAS

Durante a pandemia, o isolamento social – cientificamente reconhecido como indispensável para impedir a transmissão de Covid-19 – dificultou muito as denúncias de violações contra crianças e adolescentes. Isso porque 80% dos casos acontecem dentro da casa da vítima, e 65% dos suspeitos são os próprios pais, mães, padrastos ou madrastas – o que deixou as violações escondidas no âmbito familiar dos agressores e suas vítimas. Para piorar, em 2020, diferentes instituições públicas que funcionam na rede de proteção das crianças ficaram fechadas funcionando remotamente. A principal delas, segundo a psicóloga e ex-presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) Iolete Ribeiro, foi a escola.

“Em 2021, já há algum retorno de muitas escolas e serviços que passaram ao presencial em alguns períodos. Isso dá maior acessibilidade aos casos. A criança fala com o professor ou os educadores detectam uma mudança de comportamento e ficam alertas para acionar a rede de proteção e descobrir o que está acontecendo.

Levantamento feito nos cem primeiros dias letivos deste ano (de 8 de fevereiro a 28 de junho), mostra que 18 redes estaduais de ensino ficaram 100% do tempo em ensino remoto. Duas delas estiveram 11% do tempo abertas, cinco ficaram entre 20% e 50% abertas e duas (São Paulo e Santa Catarina) abriram desde o começo do ano e não voltaram ao remoto em nenhum momento.

Pouco antes da pandemia, uma menina de 12 anos entendeu que vinha sendo estuprada por seu pai nos últimos dois anos a partir de uma palestra sobre o assunto.

“A criança não percebia que era vítima de abuso sexual. Não sabia que aquilo que acontecia com ela era estupro. Só soube quando viu uma profissional falando sobre isso na escola”, diz Clayse Moreira, coordenadora técnica do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente no Rio de janeiro.

No dia da palestra, após chegar em casa, a menina apresentou muito medo de ficar sozinha com o pai. A mãe percebeu algo estranho, e a criança contou que ela e a irmã, de 10 anos, eram abusadas.

“Esse caso só veio à tona porque havia a escola. E violações como essa continuam ocorrendo, mas ninguém está sabendo. A rede pública precisa encontrar estratégias para garantir a proteção dos alunos”, afirma Moreira.

No entanto, de acordo com Denise Campos, coordenadora do Cedeca Rondônia eautora do artigo “Exploração sexual de crianças e adolescentes: reflexão sobre o papel da escola”, a visão do atual comando do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos desestimula atividades como a que abriu os olhos da criança de 12 anos.

“A posição do ministério é a de que não é para falar disso, que é questão de família.

Mas na medida que a escola não trabalha isso, acaba colocando a criança em mais risco ainda”, afirma Campos.

RISCO NO AMBIENTE VIRTUAL

Na avaliação de Marta Volpi, um professor conseguir identificar e denunciar situações de violência por meio das aulas remotas, levando em consideração a desigualdade de acesso à internet, é quase impossível.

Pesquisa divulgada em março pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) mostra que o ensino remoto no Brasil foi, majoritariamente, a combinação de aulas por WhatsApp com materiais impressos, nos quais os professores tinham pouco ou nenhum contato com seus estudantes.

“Quando a pandemia acabar e as pessoas voltarem às suas atividades normais, a gente precisa de muita campanha para reforçara importância das denúncias e a atenção nas crianças e adolescentes que podem ter vivido violações nesse período”, diz Volpi.

Os dados da ONDH mostram ainda que o número de violações no ambiente virtual cresceu 80% durante a pandemia. E, das 1.277 denúncias relacionadas à internet em 2021, 623 envolvem crimes sexuais, e outros 382, exposição erótica de crianças.

Enquanto as violações em via pública caíram 45%, e aquelas realizadas em instituições de ensino, 63%. Considerando apenas os casos de crimes sexuais (estupro, abuso sexual, exploração sexual, abuso sexual psíquico e assédio sexual), caíram de 89 entre janeiro e março de 2020 para 7 nos últimos três meses do ano.