EU ACHO …

MODERNIDADE DE OCASIÃO

Na dificuldade de serem menos mordazes, os jovens renovam o vocabulário, reforçam sua superioridade sobre os caquéticos e mantêm a classificação de certo e errado

Eu devia ter uns 14 anos e estava numa festa em que meus pais também estavam. Até que tocou uma música.

Percebi que era da banda preferida deles. Então olhei para o meio do salão e, ato contínuo, tapei os olhos, abrindo uma fresta entre os dedos para ter certeza> eles estavam dançando. Meu pai, minha mãe. Dois matusaléns beirando os 40 anos, parecendo um casal de Travoltas. Que mico. Aliás, naquela época não se dizia “que mico”. Não lembro a expressão que se usava para a sensação de querer cavar um buraco e sumir. Será que minhas amigas estavam percebendo o “tio” e a “tia” jogando a cabeça para trás e os braços para o alto? Acho que não, elas deviam estar chocadas com os próprios pais, que também combatiam a morte ao som dos Bee Gees. Hoje esse constrangimento adolescente tem nome: cringe.

É uma gíria americana que está sendo utilizada para determinar algo que nos faz sentir vergonha alheia. Crítica sumária aos mais velhos, tipo ver a prima de 26 anos postando uma dancinha do TikTok ou sua mãe escrevendo ‘tipo” em vez de “como”.

Mais essa para o museu de grandes novidades. Se avexar com o comportamento de quem nos antecedeu é um costume clássico. O tribunal do mundo seu júri impiedoso: olha a coitada que ainda mantém um perfil no Face, olha a calça skinny daquela bunduda, olha essa gente que ainda é fã do Harry Potter, olha a millenium viciada em café. Cringe.

Minha filha considera vergonhoso à beça usar palavras em inglês que possuem alternativas em português. E a outra filha desmaia cada vez que retiro um “à beça” do baú. As duas ficaram um tanto preocupadas quando comentei que estava pensando em escrever sobre este assunto.

Ninguém escapa. Você também será cringe por usar a roupa errada, assistir à série errada, defender a causa errada, nascer no ano errado. Refleti cinco minutos sobre a questão e cheguei a conclusão óbvia: na dificuldade de serem menos mordazes, os jovens renovam o vocabulário, reforçam sua superioridade sobre os caquéticos e mantêm a classificação de certo e errado sob seu domínio. Quem for diferente da sua tribo lhes parecerá sem noção e os envergonhará, e suas próprias manias e esquisitices envergonharão os que vierem logo depois. E assim caminha a Humanidade, com as gerações indefinidamente ruborizando umas às outras.

Nós, os maduros de 50 e tantos, os coroas de 60+, observamos a uma distância segura, esses recursos linguísticos pretensamente modernos, porém fadados ao desgaste e à substituição, e às vezes até adotamos a mesma linguagem, pegando uma carona no frescor juvenil. Mas nada como a atemporal liberdade de expressão em suas variadas formas: se a música é boa e o amanhã não existe, é nós na pista, jogando a cabeça para trás e os braços para o alto, pensem o que quiserem.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

OUTROS OLHARES

A PANDEMIA NA GARRAFA

Impulsionado por mulheres, consumo de álcool salta, eleva procura pelo AA e alarma profissionais da saúde

Atire a primeira pedra – de gelo, de preferência – quem não tem um parente, namorado, cônjuge, amigo, vizinho ou conhecido que tenha aumentado o consumo de álcool desde o começo da pandemia. A tendência não é visível nas ruas, com os bares e restaurantes fechados ou vazios. Acontece entre quatro paredes, mas, sim, é perceptível.

Quem atesta é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dados divulgados no começo deste mês dão conta de que a fabricação de bebidas alcoólicas cresceu 17,6%nos primeiros quatro meses deste ano na comparação com o mesmo período do ano passado. O ano de 2020 já tinha apresentado uma leve alta em relação a 2019.

Para comprar não é preciso nem sair de casa. Levantamento da Neotrust, empresa de Inteligência de mercado, mostra que, em março deste ano, os pedidos on-line de bebidas alcoólicas em todo o Brasil cresceram 184%, comparados aos de março de 2020.

Um brinde? Talvez não seja o caso. Por motivos óbvios, o clima não tem sido o de comemoração. A busca pelo álcool é uma válvula de escape para o estresse, a ansiedade, a incerteza e a insônia. Também é uma forma de lidar com a restrição social. Quem dá essa explicação é a psiquiatra Alessandra Diehl, vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD).

É comum, muitas pessoas afirmarem que estão bebendo mais e, na sequência, rirem, como quem dizem: “é o jeito”.  Nem sempre. Na ausência de pesquisas recentes e amplas sobre o assunto, é difícil saber ao certo o quanto essa tendência está causando de problemas de saúde. Mas existem alguns bons indícios.

Dados do Alcoólicos Anônimos (AA) mostram que, de maio de 2020 a maio deste ano, a busca por ajuda em todo o país triplicou pelos canais digitais e telefônicos. A organização recebe por volta de cem pedidos diariamente.

“Ficar em casa sem ter tanto contato com amigos e familiares, sem ir ao trabalho e sem saber quando tudo isso vai passar gera gatilhos para o aumento do consumo de bebidas alcoólicas e, por consequência, de mais pessoas pedindo ajuda”, explica Fábio, coordenador do Comitê Trabalhando com os Outros (CTO), do AA. Devido à tradição do anonimato da organização, ele prefere não revelar o sobrenome.

FENÔMENO FEMININO

O número de mulheres presentes nas reuniões virtuais diárias do AA subiu de 5% do total de participantes em maio de 2020 para 41%. Elas eram uma minoria quando o número era mais baixo e são quase a metade agora que triplicou.

Ainda antes do aparecimento do coronavírus, as mulheres vinham bebendo mais. A proporção das que consumiam bebida alcoólica uma vez ou mais por semana cresceu 4,1 pontos percentuais entre 2013 e 2019, enquanto a dos homens se manteve estável, de acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, feita pelo IBGE.

O Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), uma ONG com sede em São Paulo, lança, no início de julho, uma publicação que volta a 2010 e confirma o fenômeno.

Mesmo com esse histórico, o tamanho do aumento registrado pelo AA deve ser interpretado com cuidado. Alguns vieses podem estar inflando a elevação.

Um deles seria o AA estar mais aberto a reuniões exclusivas para mulheres, o que incentivaria a chegada de novos pedidos de ajuda. A popularização dos encontros on-line talvez tenha facilitado os contatos ao reduzir o risco de exposição. Socialmente, o preconceito da bebida com as mulheres tende a ser maior. Ainda que haja fatores puxando o número do AA para cima, é inegável que a pandemia acelerou o problema do alcoolismo feminino. O tamanho do salto registrado é muito grande.

Nos Estados Unidos, pesquisas apontam um comportamento semelhante da população em geral e das mulheres em particular.

CAUSAS

A biomédica Erica Siu, vice-presidente executiva do Cisa, ONG de São Paulo, acredita que as mulheres estão mais sobrecarregadas do que os homens desde março do ano passado, o que tem agravado questões de saúde mental.

“O consumo de bebida com a motivação de lidar com dificuldades está associado à maior probabilidade de problemas futuros com o álcool. A epidemia pode passar, mas o consumo corre o risco de ficar como herança”, salienta Siu.

A merendeira Eliete de Abreu Tavares, 39 anos, de Resende (RJ), descobriu o alcoolismo em 2020. Ela, que sempre bebeu aos finais de semana, passou a consumir a bebida quase que diariamente.

“Perdi o controle. Foi uma coisa horrível. Bebia ao ponto de brigar, quebrar as coisas, ter amnésia alcoólica. As escolas estavam fechadas e eu não tinha mais a rotina de levantar e trabalhar. A bebida dava uma falsa alegria”, ressalta.

Muitas das que já tinham um histórico de abuso com álcool sofreram recaídas. A professora Adriana Rasori, 55 anos, do Rio, conta que a pandemia foi o momento em que mais bebeu.

“O problema piorou porque parei de trabalhar. Tinha muito tempo para beber e, no dia seguinte, não precisava me preocupar com tantos compromissos”, lembra Adriana. Ela buscou ajuda e hoje se reaproximou dos dois filhos, de 29 e 26 anos, que haviam se afastado devido à sua doença.

AJUDA DIFERENCIADA

Solange Guerreiro, de Ilha Comprida (SP), a cerca de 700 quilômetros da capital paulista, frequenta, desde dezembro, as reuniões virtuais do coletivo Alcoolismo Feminino (AF), com sede em Belo Horizonte e presença no Rio. Criado em fevereiro de 2020, em um mês atraiu cerca de 20 mulheres pelos seus canais nas redes sociais. Com a pandemia, o número não parou de subir. Hoje são mais de mil.

O AF criou grupos de apoio para comunidades específicas, como  LGBTQIA+ e bariátricas, e está organizando outros para afrodescendentes e mães alcoolistas.

Além do trabalho de organizações como o AA, coletivas e ONGs, a situação atual exige uma ação mais efetiva dos três níveis de governo e dos fabricantes de bebidas alcoólicas preocupados com o impacto social.

“Precisaríamos, nesse momento, que o Brasil se dedicasse a políticas públicas para fazer prevenção em saúde mental, uma das esferas mais afetadas por essa pandemia”, diz a psiquiatra Alessandra Diehl.

Campanhas publicitárias incentivando a moderação e indicando onde buscar ajuda quando necessário seria um dos caminhos. O mantra diário poderia ser: só por hoje o país vai se preocupar com essa questão. Só por hoje.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 09 DE JULHO

O LUCRO DESONESTO NÃO VALE A PENA

Melhor é o pouco, havendo justiça, do que grandes rendimentos com injustiça (Provérbios 16.8).

A riqueza é uma bênção de Deus se granjeada com honestidade. É Deus quem fortalece nossas mãos para adquirirmos riquezas. A prosperidade proporcionada por Deus não carrega em sua bagagem o desgosto. É um terrível engano, porém, negociar princípios e vender a consciência para acumular bens. O dinheiro adquirido com injustiça não traz conforto nem descanso para a alma. Mentir e corromper para obter vantagens financeiras é uma tolice. Roubar e gananciosamente surrupiar o alheio para acumular suas riquezas é uma consumada loucura. Torcer as leis e atentar contra a vida do próximo para abastecer sua ganância insaciável é entrar por um caminho de morte. Melhor é ser um pobre íntegro do que um rico desonesto. O bom nome vale mais do que as riquezas. De nada vale morar num apartamento de cobertura, mas viver inquieto. De nada adianta morar numa casa de luxo, mas não ter paz na consciência. É totalmente desprezível ostentar uma riqueza cuja origem está escondida nos porões da corrupção. A felicidade não está nas coisas, mas em Deus. A segurança não está no dinheiro, mas em Cristo. A paz interior não está em quanto dinheiro você tem, mas na habitação do Espírito Santo em seu coração.

GESTÃO E CARREIRA

CARRO: COMPRAR OU ASSINAR?

Impulsionadas pela pandemia, montadoras entraram em bando no mercado de assinatura de veículos – uma espécie de locação de longuíssimo prazo. Mas para quem vale a pena assinar um carro? Veja o que considerar na hora de fazer as contas.

O preço do característico cheirinho de carro novo tem pesado mais no bolso dos brasileiros. Se há alguns anos era comum encontrar versões de entrada na casa dos RS 20 mil, hoje os modelos mais acessíveis, com motor 1.0 e sem acessórios, não saem da concessionária por menos de RS 40 mil. E a lista das opções em conta vem ficando mais restrita. Em 2020, a Volkswagen tirou o Up! de linha e a Toyota fez um movimento parecido, aposentando o Etios. Com a saída da Ford do Brasil, o consumidor perdeu também o Ka. Os cortes revelam uma tendência: o carro popular como conhecemos está com os dias contados.

Dados da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) indicam que o segmento de “carros de entrada” respondeu por meros 12,7% da frota brasileira em 2019. Em 2003, veículos do tipo representavam mais de 49% das vendas. Ou seja, quem deseja comprar carro hoje, via de regra, busca algo a mais. O problema é que o momento não está lá muito propício para os negócios envolvendo automóveis novinhos em folha.

O baque que o setor automotivo tomou em 2020, com a pandemia de Covid-19, apareceu nas vendas. A compra de veículos saídos direto da fábrica foi 26% menor que no ano anterior. E, com a falta de peças limitando a produção e impulsionando as vendas de usados, as montadoras foram obrigadas a agir rápido para dar um gás no mercado dos zero-quilômetro. A principal aposta para atender novos tipos de consumidor – que ligam cada vez menos para carro e, além disso, evitam cair de cabeça nas dívidas de um financiamento – foi investir no modelo de assinatura.

A assinatura funciona basicamente como um aluguel, com a diferença que o consumidor firma contratos mais longos – de seis meses a quatro anos. O cliente escolhe uma franquia de quilometragem – as opções partem dos 500 km/mês até 3.000 km mensais – e paga uma parcela fixa todo mês, de acordo com a marca e o modelo. Tem para todos os bolsos: é possível encontrar contratos mais em conta, de 500 km, por menos de RS 1.000 ao mês.

“É como se você estivesse andando por aí de jaqueta alugada. Você está tirando uma onda, mas a jaqueta não é sua”, diz Samuel Barros, especialista em finanças e reitor da pós-graduação do lbmec-RJ. “Essa mudança de perfil do consumo é uma tendência. O consumidor está deixando de ser alguém que quer ter para ser alguém que quer usar, ter a experiência. Ainda vai demorar um pouco para o mercado se adaptar. Nós, brasileiros, gostamos de ser donos das coisas. Mas a gente já percebe essa mudança.”

Os atrativos da assinatura são muitos. Você pode usufruir de um carro zero-quilômetro sem se preocupar com IPVA, licenciamento e manutenção, além das salgadas parcelas do seguro – já embutidas no valor da mensalidade. Carros novos costumam dar pouca manutenção, mas, ao sinal de qualquer problema com o carro assinado, é só acionar o veículo reserva. Ao motorista cabe apenas o trabalho de abastecer o veículo e quitar eventuais multas. No fim do contrato, você, opta por devolver o carro ou renovar a assinatura, seja com o mesmo modelo ou com um diferente. Alguns planos ainda permitem que você compre o veículo que assinou.

Quem escolhe assinar também se livra da tarefa de buscar pelo melhor preço de revenda. Em média, um carro perde entre 15% e 20% do seu valor no primeiro ano – a chamada depreciação de largada. Para modelos de alto padrão, a perda de preço inicial pode ser ainda maior.

Donos de carro têm algumas formas de calcular essa baixa: sites de empresas especializadas, como a KBB, contam com tabelas próprias – e, normalmente, são um retrato mais fiel dos preços praticados no mercado que os cálculos da tabela Fipe, principal índice para a negociação de carros no país. O valor de um usado cai 5% ao ano no início, e a taxa vai desacelerando após 4 ou 5 anos. Seja como for, é preciso disposição para ir atrás do melhor preço de venda, já que isso que toma tempo e requer uma boa dose de paciência.

QUEM ASSINA?

“Normalmente, estamos falando de um público mais jovem, dos 18 aos 30 e poucos anos. Ele assina ou porque já tinha deixado de usar o carro, ou porque vai começar a dirigir agora e não quer comprar um”, diz Ana Renata Navas, diretora geral da Cox Automotive, controladora da KBB. “Existe também o público que não tinha carro e decidiu andar de aplicativo, mas, por causa da Covid-19, voltou a ter automóvel próprio. Quem abriu mão desse bem no passado e agora está pensando em possuir de novo tem maior tendência a assinar.”

O modelo de assinatura existe no Brasil há um bom tempo – a Porto Seguro oferece o serviço desde 2016, e nomes do mercado de aluguéis como Unidas e Movida estrearam seus planos ainda em 2017. Até o ano passado, no entanto, a modalidade ficava quase que exclusiva às locadoras. Foi só a partir do segundo semestre de 2020 que as montadoras começaram a entrar no negócio.

Audi, Fiat, Renault, Jeep, Mitsubishi, Volkswagen e Toyota, entre outras, contam com seus próprios planos de assinatura. Para elas, encontrar quem tope assinar é um baita negócio. Em vez de ganhar só uma vez com a venda, montadoras recebem pela assinatura e, ao fim do contrato, caso o próprio locatário não aceite comprar, podem colocar o carro no mercado de seminovos.

O modelo de assinatura de carros não é só para quem não liga para carro, claro. Quem gosta para valer da coisa pode ficar tentado a assinar um modelo de alto padrão, para ter a experiência de usar um por um tempo sem ter de hipotecar a casa. Mas não é porque você está livre de um financiamento ou de uma entrada polpuda que o preço de um desses deixa de ser salgado. Estamos falando em algo na faixa de R$15 mil mensais.

Um Audi Q8, o modelo mais caro a contar com um plano de assinatura no Brasil, custa RS 612.990 à vista. Considerando também custos com seguro, manutenção e IPVA um proprietário gastaria RS716.204 com o veículo ao final de dois anos. Um apartamento de três dormitórios em São Paulo.

Fazendo estimativas da depreciação do veículo e do quanto o dono receberia se o vendesse ao fim do período (cerca de R$ 465 mil, se tiver alguma paciência), o débito fica na casa dos R$ 250 mil. Para assinar pelo mesmo período, pagando R$14.900 ao mês, o custo gira em torno dos R$ 357.600 – um gasto 42,85% maior no fim das contas. A procura pela assinatura desse tipo de veículo exclusivo ainda é muito pontual. Em seu site, o programa Audi Luxury Signature destaca que a oferta vale “até terminar o estoque de quatro unidades”.

NA PONTA DO LÁPIS

Outros contratos, porém, podem oferecer uma relação custo-benefício Melhor. Assinando um Volkswagen T-Cross Comfortline por 12 meses, com parcelas de R$ 2.199, um proprietário gastaria RS 39.582 ao ano (como você pode ver na tabela abaixo). Quem opta pelo plano paga, em teoria, 15% a mais se comparado a quem comprou à vista e vendeu ao fim de um ano – uma perda já mais dentro do aceitável para quem não quer ter dor de cabeça com manutenção e revenda.

Já para uma assinatura de dois anos do Fiat Mobi Trekking (RS 55.590) pelo Flua!, o programa de assinaturas da Fiat, o déficit chega aos 38,6% em comparação com os custos à vista. Quanto maior o contrato, mais baratas costumam ser as parcelas.

A regra mais importante na hora de ver se a assinatura vale a pena é a seguinte: caso você tenha bala pra pagar à vista, comprar tende a ser o melhor negócio. Ponto. Se você vai financiar, aí tudo muda de figura. E claro: quanto maior a parcela financiada, maior tende a ser a vantagem de alugar. Quando comparada ao combo financiamento+ venda logo após o pagamento total, a opção da assinatura quase sempre fica na frente. Sendo dados da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças), as taxas que bancos cobram para o financiamento de automóveis eram de 1,46% ao mês em abril – ou 19% ao ano.

Então vamos lá. Se você der 50% de entrada num carro de R$ 120 mil, o financiamento dos RS 60 mil restantes vai custar, ao longo de quatro anos (48 meses), RS120 mil. Some isso aos RS 60 mil que você já pagou, e temos um gasto efetivo total de RS180 mil – 50% acima do valor do carro à vista.

Um T-Cross Comfortline custa RS120 mil. Logo, aquela perda de 15% da assinatura some diante do prejuízo de 50% que você teria ao financiar metade do SUV da Volkswagen. Quanto maior a parte financiada, maior o rombo no seu bolso, lógico. Se você cair na tentação de dar só 20% de entrada, o gasto total com esse carro será de R$ 216 mil. Quase o dobro do preço à vista. Aí a assinatura ganha de lavada.

PERFIL DE ASSINANTE

Seja financiando, seja assinando, o consenso entre especialistas em finanças é que os custos com carro não devem comprometer mais que 20% do orçamento mensal. Porém, de nada adianta estar ciente aos gastos se a sua rotina também não for condizente com o modelo de assinatura.

O maior limitante, na visão de Samuel Barros, é a quilometragem. “Quem roda mais de 3 mil quilômetros por mês não vai encontrar contrato de assinatura que o atenda”, diz Barros.  “Vamos fazer uma associação a partir do contexto do Rio de Janeiro. Se você mora em Niterói e trabalha em Campo Grande, a 62 quilômetros dali, não funciona.” Motivo: caso a cota de quilometragem seja ultrapassada, planos de assinatura cobram uma taxa que costuma ficar entre RS 0,30 e RS 0,80 por quilômetro extra.

Para quem anda pouco, também não vale. As comparações que fizemos aqui envolvem usar um carro por até quatro anos, revendendo-o depois ou devolvendo para a montadora ao fim de uma assinatura. Se o seu carro não sai muito da garagem, você terá gasto dezenas de milhares de reais, e não terá o que revender ao fim do período. Aí o melhor mesmo é usar aplicativo, e alugar um carro quando tiver de fazer uma viagem.

Contratos de assinatura ainda contam com cláusulas específicas que estabelecem multas ou custos por conta de quem contrata. Entram nessa lista gastos para reparar pintura danificada, amassados na lataria, vidros trincados ou rodas avariadas. A assinatura do T-Cross Comfortline, por exemplo, prevê pagamento de RS 4 mil em caso de “colisões de perda parcial”. Ou seja, aquela esbarradinha também pode virar despesa – vale mais consertar por conta própria do que pagar a franquia. Ponto negativo para quem vive visitando a funilaria.

Segundo Henrique Lian, diretor da Proteste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor), as reclamações mais comuns envolvendo acordos de assinatura são sobre o valor da franquia mesmo. O cliente segue precisando arcar com ela após um roubo, por exemplo. E se quiser cancelar o contrato antes do prazo, tem multa.

O FUTURO DO ZERO-QUILÔMETRO?

Especialistas concordam: a tendência é que carros mais acessíveis dominem os serviços por assinatura. Carros de alto padrão, mais equipados, porém, continuarão sendo comprados das concessionárias. E é isso, de fato, que o mercado já começa a desenhar. Para o programa de assinaturas da Porto Seguro, o Carro Fácil, a maioria dos contratos ativos envolvem carros compactos (71%). SUVs somam 28% do total.

As montadoras, no geral, ainda não divulgam dados sobre o total de assinaturas de seus planos. Mas os números preliminares da Renault On Demand, que estreou em janeiro de 2021 e oferece quatro modelos de veículos, indicam um padrão interessante. Segundo disse à imprensa em abril Ricardo Gondo, presidente da Renault do Brasil, o programa fechou 1.500 contratos em pouco mais de dois meses. O sucesso foi tanto que, no mês de lançamento, a previsão para entrega dos carros era de 180 dias. Do grupo inicial de 1.500 clientes, 50% optaram pelo Kwid Outsider (RS 55.490) e 30% pelo Duster Iconic (RS106.490).

“Esses dois carros são exatamente o retrato do Brasil hoje”, diz Ana Renata Navas, da Cox Automotive. “O Kwid é um modelo pequeno, para quem ‘desistiu’ do carro [como bem de consumo] e só quer usá-lo para pequenas distâncias, ou para quem é muito jovem e não tem como comprar. Já o Duster é um carro familiar. Ambos são de baixo custo [mesmo com o Duster sendo um SUV], têm pouca manutenção e contam com um seguro mais barato”.

Se os planos de assinatura irão vingar mesmo, ainda é cedo para cravar. Mas uma coisa é certa: a forma de consumir carro no Brasil já mudou.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UM PESADELO IDEAL

A obra SONO mostra como mergulhamos na inconsciência enquanto dormimos, para trazer, a cada dia, a matéria com a qual tecemos o fio da vida até chegar ao seu limite

Ao acordar para a vida, notamos que estávamos dormindo e sonhando com uma existência ideal enquanto presos em uma matriz que nos faz experimentar o castigo de ver os dias se sucederem como se fossem todos iguais.

Sono é uma obra do escritor japonês Haruki Murakami, que traz o relato de uma mulher de 30 anos que, após um pesadelo, ficou 17 dias sem dormir. Contrariando o que acontece nas insônias habituais, ela não sentia cansaço ou fadiga e se percebia mais “acordada” do que antes. Sentiu-se livre, via o mundo sob outra perspectiva e agora conseguia ser ela mesma.

Nas palavras do autor, “ela era uma mulher com uma vida normal. Tinha um marido normal. Um filho normal. Ela até podia detectar algumas fissuras nessa vida aparentemente perfeita, mas nunca chegou a pensar seriamente nelas. Até o dia em que deixou de dormir”. Seu marido dormia   de forma profunda. Era difícil para ele acordar para a vida e perceber o amor não correspondido.

Essa mulher, enquanto acordada, apreciava o marido dormindo e se detinha na feiura. Chegou a desenhar aquele rosto como quem quer provar a si mesma que aquela fealdade era uma realidade palpável. Às vezes, nos apegamos a fantasias infrutíferas, como a de ter um parceiro para evitar a solidão, e apostamos que o amor irá brotar. Mas somente bem acordados seremos capazes de compreender que o amor nunca existiu. Aquela mulher vivia um modelo ideal de casamento e experimentava o sacrifício de uma vida em que tudo se repetia, como se fosse conduzida por uma matriz que a delimitava a fazer tudo dentro do previsível. Entender a linguagem veiculada pelos sonhos é saber escolher as cores que vão compor a existência; essa é a verdadeira arte de viver.

Hypnos, o deus do sono na mitologia grega, algumas vezes é retratado como um rapaz dotado de asas, com uma flauta nos lábios, tocando doces melodias que trazem o sono aos homens. Morfeu, um de seus filhos, é o deus dos sonhos, que zela pelo sono do pai. Sua única filha chama-se Fantasia, a imagem das quimeras e dos desvarios.

Para dormir bem, precisamos desse embalo de uma música suave e doce, enquanto nossos sonhos resolvem nossos conflitos e processam nossas necessidades. No entanto, a protagonista acordou com um pesadelo em que um velho magro, envolvido em um agasalho preto, ia se destacando em sua visão. Este a fitava em silêncio com seus olhos penetrantes e ruborizados por vasos salientes que davam uma visão demoníaca. O idoso tinha nas mãos um regador. Ele jorrava água nos pés dela. Parecia que a água nunca iria parar de jorrar e os pés apodreceriam como plantas afogadas em excessos. Ela não sentia a água, mas ouvia seu barulho.

Quando acordou, algo morreu dentro dela. Nesse estado insone, quando o contato entre o consciente e inconsciente foi perturbado, começou a ler Anna Karenina, de Tolstói. Já tinha lido no passado e só lembrava do seu começo, que dizia “todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, e do seu final, quando o protagonista se suicida na linha do trem. É um romance em que a mulher revela sua infidelidade ao marido.

Nossa psique procura compensar o que estamos experimentando na vida tomando como referência o ótimo vital, que é o caminho que devemos seguir. Essas imagens do sonho traduzem nessa metáfora, talvez, a experiência da sonhadora com o marido projetado em um futuro. Daí a imagem de um velho que acentua a feiura e isso a apavora.

O homem regava seus pés além do necessário, para vicejar vida. Eram como plantas que         apodreceriam por ter ultrapassada a justa medida. Embora ela escutasse, não sentia a destruição de sua base de apoio. Na estrada da vida, precisamos dos pés para caminhar com equilíbrio e assim obter autonomia.

É gratificante acariciar os pés da pessoa amada, dizendo palavras de carinho, mas apenas ouvir sem sentir compromete a sensualidade. Depois do sonho, a protagonista foi tomar banho. A seguir, desfruta de um conhaque Brandy – bebida francesa feita da destilação do vinho -, come chocolates e assim faz seu gozo com tudo o que o marido detesta: bebidas e chocolates. Ela pensava a lição que tivera com a mãe, uma mulher linda e esbelta que o envelhecer dissolveu tudo que era belo.

Seu marido era dentista e seguia a rotina de um trabalho que fazia toda a família viver os dias de forma igual. Ela tornara-se, mesmo sendo formada em letras na universidade, uma dona de casa.  Sua vida era feita de obrigações e não devemos esperar que o serviço que prestamos aos outros nos traga amor, pois a obrigação e o amor são incompatíveis. Além disso, colocar o valor do outro em primeiro lugar, sem pensar nas consequências para nós mesmos, mostra que tudo aquilo que   se passava por amor era um vínculo enraizado na necessidade de mútua dependência e no medo da separação. Sua individualidade não era validada.

Essa história é uma narrativa que não poderia ter um ponto final.  A sensação de incompletude deverá continuar em cada um que lê esse conto. Todos nós precisamos alimentar a vida com as histórias, assim como quando éramos crianças e precisávamos dessas fabulações para ter uma visão melhor de mundo. Nascemos com a capacidade de amar e ser amados, mas esse potencial muitas vezes só se realiza por meio do sofrimento que brota do autoconhecimento. Quando o amor pelo marido e interesse de um pelo outro e pelo filho é legítimo, aí sustentamos os momentos difíceis por onde caminhamos na vida.

CARLOS SÃO PAULO – é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. carlos@ijba.com.br/www.ijba.com.br