EU ACHO …

AS CRIANÇAS E O SOFRIMENTO

A criança pequena tem algo como uma antena que capta o sofrimento dos adultos

“Por que criança sofre se cuidamos dela, protegemos, alimentamos e damos tudo o que ela precisa?” Foi essa pergunta, curta e direta, que recebi na mensagem de uma mãe preocupada com o estado emocional da filha de pouco mais de 3 anos. O pediatra disse que a menina apresenta sinais de sério sofrimento psíquico.

Bem, essa pergunta é um convite para conversamos sobre esse tema já que é grande o número de adultos que convive com crianças. Primeiramente, o bebê, após o nascimento, sofre. Mesmo sendo muito bem cuidado. É que, em uma geração regular, ele estava em um ambiente superprotegido, com a temperatura adequada e luminosidade e ruídos que só promoviam o seu bem-estar – a batida do coração da mãe, por exemplo. Após o nascimento, ele perde esse ambiente seguro e entra em outro com luzes, barulhos, sente fome, calor, frio, tem cólicas etc.

É por isso que o bebê chora, aparentemente sem motivo. Ele sente falta daquela segurança. Mas é bom saber que esse sofrimento passa com a adaptação e não deixa marcas que prejudicam o seu desenvolvimento.

Vamos pensar agora em alguns motivos que fazem uma criança pequena sofrer. Uma das sustentações da vida infantil é o vínculo afetivo que tem com os pais e/ou outros adultos que convivem amorosamente com ela e cuidam dela. Esse vínculo é tão intenso que leva a criança a facilmente perceber se há algo que preocupa essas pessoas.

Pois as preocupações, receios, dores e sofrimentos, decepções, tristezas, por exemplo, que acometem esses adultos, fazem a criança sofrer. Nem é preciso haver grandes demonstrações por parte do adulto desse sofrimento. A criança pequena tem como se fosse uma antena que capta os sinais mais sutis de mudanças e isso a faz sentir o sofrimento que ela nem entende.

Na atualidade, com a pandemia e o grande número de mortos, quase a totalidade dos adultos está em luto ou preocupada. E isso afeta até a criança: ela sente o estado de insegurança e tristeza por identificação com os adultos que a cercam.

Até os 3 anos, mais ou menos, quase todos os cuidados com a criança se concentram na saúde física, pediatra, as vacinas, a amamentação, o sono, o desenvolvimento corporal etc. Quando acontece de a criança adoecer, os tratamentos são focados na doença física. Poucos profissionais têm preparo e cuidado em observar sinais da saúde mental da criança nessa idade. Mas seria preciso e precioso que houvesse esse tipo de atenção porque, desse modo, muitos quadros sérios poderiam ser evitados mais tarde.

Que sinais podem apontar sofrimento psíquico na criança? A organização corporal, o tipo de aconchego físico e de comunicação que a criança tem com o adulto, o choro e as vocalizações eo olhar são alguns exemplos.

No contexto atual, tristezas, choro sem motivo aparente, perturbação do sono e da alimentação, irritação frequente e inibição fazem parte do quadro de estresse pela falta da escola e pela pandemia. Mesmo assim, merecem atenção dos responsáveis.

Por último, preciso lembrar do que é chamado de medicalização da infância e da vida. Trata-se de usar o raciocínio médico para avaliar tudo. É muito grande, hoje, o número de crianças que tomam remédios. Isso acontece porque o intenso desenvolvimento das ciências médicas, da indústria farmacêutica, da tecnologia e a concentração no corpo nos faz pensar sempre na biologia como estruturação da saúde e da doença. Mas a saúde mental nem sempre precisa ser medicada para ser restabelecida e seu cuidado nem sempre é simples e rápido.

Sim, viver supõe sofrer, mas nem todo sofrimento é inútil e desastroso ao extremo. Assim é para todos nós: adultos e crianças.

*** ROSELY SAIÃO – é psicóloga, consultora educacional e autora do livro “Educação sem blá-blá-blá”.

OUTROS OLHARES

OS PECADOS DE QUEM ESCOLHE VACINA

Os ‘sommeliers’ fazem urna leitura equivocada da eficácia dos imunizantes, não levam em conta a taxa de efetividade e – pior de tudo – colocam a vida deles e a dos outros em risco

Quando Jorge, de 86 anos, morreu de Covid-19, em abril, os familiares lamentaram que o pai tenha seguido o mesmo caminho do filho, João, morto em 2018. O filho, de 38, também foi vítima de um vírus, mas em seu caso, o da febre amarela. Moradores de Teresópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, pai e filho compartilhavam a aversão por vacinas (os nomes foram inventados a pedido da família).

O filho se recusava a tomar porque achava uma “bobagem”. O pai, porque não confiava na Coronavac, a “vacina chinesa”, a única disponível no Brasil, quando a faixa etária dele foi vacinada, em fevereiro. Preferia esperar outro imunizante. O coronavírus chegou primeiro.

Histórias como essa se repetem todos os dias no Brasil. Elas assombram os leitos de UTI ocupados pelos não vacinados por opção. E se multiplicam nos que postergam a vacinação para escolher um imunizante. São os “sommeliers” de vacina. Chegam na frente dos postos, perguntam quais são as disponíveis e saem ao não ouvir o nome do que buscam.

“Não se vacinar por opção quando chegou a sua hora é brincar com a morte. Não vejo vacina matando, mas o coronavírus já tirou a vida de meio milhão de brasileiros”, afirma Amilcar Tanuri, coordenador do Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Tanuri liderou um estudo que evidenciou a força da CoronaVac, vacina que alguns dos “sommeliers” consideram “fraca”. Em Maricá (RJ), onde 40% dos habitantes foram vacinados, 25% dos quais com duas doses, a vacinação reduziu à metade a incidência geral do coronavírus entre maio e junho. Lá, a CoronaVac responde por dois terços dos vacinados, e a AstraZeneca, pelo restante.

Os detratores da CoronaVac, em geral, preferem a vacina da Pfizer/BioNTech, atraídos pelo mau entendimento sobre índices de eficácia. Já outros fogem da mesma Pfizer, com medo injustificado de manipulações genéticas, na linha do “vai virar jacaré”, proferido pelo presidente Jair Bolsonaro.

Há os que temem efeitos adversos da Oxford/AstraZeneca eda recém-chegada Janssen /J&J, que precisa de uma só dose. Mas os cientistas têm certeza de que o Brasil conta hoje com quatro diferentes vacinas e o mesmo resultado: todas se mostram seguras (efeitos adversos raros) e eficientes (redução das taxas de doença grave e morte nos vacinados). Igualmente importante: todas também têm se provado eficazes contra as variantes do vírus.

A ORIGEM DA CONFUSÃO

A principal confusão dos “sommeliers” diz respeito às taxas de eficácia em estudos clínicos de fase 3, a última antes da autorização para uso na população. Esses testes mostraram eficácia de 95% para a Pfizer; 72% a 90% para a Janssen; 76% a 82% AstraZeneca; 51%, CoronaVac.

Mas as taxas não são comparáveis porque os estudos de fase 3 foram realizados em momentos diferentes da pandemia (alguns quando já havia novas variantes do coronavírus em circulação. outros, não), com metodologias distintas (duração, escolha do tipo de placebo e dos grupos vacinados e de controle, por exemplo) e em países com diferentes taxas de contágio. Podem parecer detalhes, mas não são. Mal comparando, quando se contrapõe o desempenho de carros, é preciso testá-los em condições idênticas. Se um anda numa estrada de asfalto sem trânsito, outro numa de terra esburacada e um terceiro numa metrópole engarrafada, não há como provar que o primeiro é o mais econômico.

“Todas as vacinas em uso no Brasil são semelhantes em segurança e proteção para casos moderados a graves de Covid-19. E isso é o que importa”, frisa Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBim).

Mas a eficácia de 95% da Pfizer na fase de testes impressiona, e puxava a fila de pessoas acima de 80 anos formada na Clínica de Família Santa Marta, em 22 de junho, data em que homens de 49 anos deveriam se vacinar. Naquele dia, havia Pfizer. Nenhum dos idosos ali morava na comunidade, mas todos tinham decidido não se vacinar com CoronaVac e AstraZeneca para esperar pela Pfizer e rondavam postos há semanas. Uma decisão, no mínimo, temerária.

“Atrasar a vacinação para escolher uma vacina vai custar a vida de muita gente devido à alta circulação de vírus no Brasil”, alerta a pneumologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Margareth Dalcolmo.

PARECE, MAS NÃO É

Eficácia e efetividade se parecem, mas não são a mesma coisa. A eficácia é medida nos estudos clínicos de fase 3 e diz respeito à estimativa de proteção individual. Assim, uma vacina com 95% de eficácia confere 95% menos risco de contrair Covid-19 em relação a um não vacinado. Mas não significa que 95 de cada 100 vacinados ficarão livres da doença. O que mede isso são as análises de efetividade, quando as vacinas já estão em uso maciço.

Todas as divulgadas até o momento apresentam saldo altamente positivo para os imunizantes. A mais sólida vem do Reino Unido, o primeiro país do mundo a começar a vacinar e que tem 65% da população com ao menos uma dose.

Na Nature Medicine, cientistas britânicos disseram que “a vacinação contra a Covid-19 reduziu o número de novas infecções por Sars-CoV-2, com os maiores benefícios obtidos após duas doses contra infecções sintomáticas. Não houve diferença entre a BNT162b2 (Pfizer) e ChAdóxl (AstraZeneca/Oxford)”.  A CoronaVac e a Janssen não são usadas lá e, portanto, não foram comparadas. Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBim), observa que o Reino Unido nos mostrou que o imunizante da AstraZeneca oferece de 85% a 90%de proteção com duas doses, a mesma da Pfizer.

“Chile e Uruguai nos provam que a CoronaVac reduziu óbitos e mortes em 90%. Também o mesmo patamar da Pfizer”, afirma.

TOMOU VACINA E MORREU

Ballalai observa que nenhuma vacina oferecerá na vida real 100% de proteção porque a imunidade depende não apenas do imunizante, mas também do imunizado. A resposta do sistema imunológico varia de um indivíduo para outro. Existem pessoas com duas doses de qualquer um desses imunizantes que morreram de Covid-19. Esses casos chamam a atenção justamente porque são muito raros.

“O Brasil está com baixíssima cobertura vacinal para duas doses e tem uma quantidade enorme de jovens sem perspectiva de receber vacinas. Isso é dramático”, diz Ballalai, que chama a atenção para o caso do Chile. Lá, a maciça aplicação de uma dose da CoronaVac não teve efeito expressivo, mas a situação mudou depois da segunda dose.

Por ser a primeira a ser desenvolvida, a Pfizer foi testada nos EUA num momento em que a pandemia não havia explodido lá, e variantes mais contagiosas, como beta, delta e gama (a PI brasileira), ainda não haviam emergido.

A boa notícia é que o imunizante se manteve eficaz em análises de efetividade divulgadas em meados de junho. Estas indicaram que a Pfizer e a Moderna, feitas com a mesma tecnologia, oferecem imunidade persistente, por pelo menos um ano, inclusive para as variantes.

“Até agora, não temos visto perda de eficácia das vacinas contra as formas moderadas e graves de Covid-19 devido às variantes. Há estudos em curso no Brasil e no mundo, isso tem sido monitorado”, acrescenta Kfouri.

Um levantamento feito recentemente em Serrana (SP), onde 75% da população recebeu duas doses da CoronaVac, mostra que houve redução de 95% das mortes por Covid-19. O resultado sugere que ela pode proteger contra a variante PI, dominante no Brasil e considerada até mais de duas vezes mais contagiosa do que as linhagens originais.

Os resultados da AstraZeneca chamam a atenção. A Agência de Saúde da Inglaterra (PHE, na sigla em inglês) informou em maio que as duas doses da AstraZeneca conferem 90%de proteção contra   a Covid-19. Em estudo na Lancet, a Universidade Oxford, parceira da AstraZeneca, mostrou que sua vacina pode proteger por ao menos um ano pessoas que tomaram duas doses com um intervalo maior (45 semanas) ou receberam um reforço depois de duas doses com intervalo menor. Em estudo na New England Journal of Medicine, a vacina da Janssen se mostrou capaz de, 28 dias após uma só dose, oferecer 100% de proteção contra hospitalização e morte por Covid-19. Quando se incluem casos graves, o percentual é de 84,5%, e moderados, de 66%. A média de proteção nos EUA foi de 72%. A vacina perde parte da eficiência para a variante sul-africana beta. Mas permanece, segundo a OMS, eficaz contra a delta. Como as demais, não foi testada contra a PI.

EFEITOS ADVERSOS

Existe vacina grátis, mas não há nenhuma que garanta risco zero de provocar efeitos adversos, quase a totalidade deles leves. À medida que mais pessoas se vacinam, aumentam, como seria esperado, relatos de gente que passou mal.

“Os efeitos são insignificantes frente aos benefícios”, assegura Dalcolmo. Ricardo Gazinelli, professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia, diz que a vacinada Pfizer, por exemplo, parece promover uma resposta mais potente na primeira dose, mas pode causar em algumas pessoas mais efeitos adversos leves na segunda dose.

A vacina da Pfizer pode provocar em casos extremamente raros miocardite e pericardite em jovens, informou em junho o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos EUA. Ainda assim, nada que justifique qualquer medida, além de atenção.

Já as vacinas da AstraZeneca e a da Janssen podem provocar efeitos adversos leves (febre e mal-estar, por exemplo) com mais frequência. Dalcolmo explica que os casos de trombose associados a essas vacinas nada têm a ver com a trombose comum e são extremamente raros. A estimativa é de um caso para cada 400 mil aplicações de AstraZeneca.

Em grávidas, o risco existe, mas é baixo: 776 casos de trombose em 360 milhões de aplicações no mundo.

Não há motivo para pessoas com trombose deixarem de tomar essas vacinas porque os mecanismos que causam os efeitos adversos raros são outros”, afirma ela.

A CoronaVac está associada a menos efeitos adversos. Segundo Gazinelli, poderia ser especialmente adequada para gestantes e pessoas com alguma imunodeficiência.

VACINA NÃO É TUDO

A vacina não é o único determinante no sucesso contra a pandemia. Além da eficiência, contam fatores como cobertura com uma e duas doses, ritmo da vacinação, distanciamento social e cuidados com higiene.

“Israel abriu antes do tempo e voltou a ver o número de casos subir. O Chile também. Algumas pessoas pensam na vacina individualmente, mas a proteção depende do coletivo. Numa circulação de vírus elevadíssima como a do Brasil, todos estão em risco. Pensar no coletivo também é pensar na segurança individual”, adverte Kfouri.

O geneticista Renato Santana, professor da UFMG que estuda variantes do coronavírus, diz

que, mês a mês, se observa uma queda na mortalidade de idosos, vacinados primeiro, e o crescimento da mesma taxa em grupos não vacinados.

“Observamos uma queda na severidade dos casos, mesmo com a variante P1 totalmente dominante no Brasil. Isso significa que as vacinas funcionam”, pondera.

FOCO NO QUE IMPORTA

Margareth Dalcolmo se preocupa com o tempo perdido com discussões sobre taxas de eficácia incomparáveis e efeitos adversos raríssimos enquanto a pandemia continua sem controle.

“Internei há dias dois jovens, um de 26 e outro de 28 anos. Como outros tantos, eles se achavam a salvo da Covid-19. Isso não existe, a não ser para os vacinados. Temos que correr para vacinar os jovens, eles se expõem mais e estão adoecendo como nunca vimos na pandemia. Temos que vacinar a todos, gente sem documentos, não importa. O importante é proteger a população”, ressalta ela.

O FUTURO

Gazinelli acalenta a expectativa de que até o fim do ano o Brasil tenha 70% de sua população vacinada. Depois teremos outros desafios. Um é descobrir quanto tempo a imunidade conferida pelas vacinas durará. Para essa questão, não há resposta conclusiva. Outro é saber se serão necessárias doses de reforço, seja devido à diminuição de proteção ou pelo surgimento de variantes do coronavírus capazes de escapar da proteção adquirida. Estudos sugerem que o reforço será inevitável. Mas quando, em que frequência e por quanto tempo permanecem em aberto.

Os próximos meses e anos dirão se serão necessárias doses extras, se será melhor combinar vacinas diferentes, se novos imunizantes oferecerão mais opções e se haverá vacinas mais adequadas a determinados grupos.

“Todas as vacinas têm vantagens e desvantagens, mas o que importa é o resultado final, e esse tem sido bom para todas. As vacinas diminuem a carga de vírus numa pessoa, com isso, menos vírus estarão em circulação e isso é crucial para contermos a pandemia”, resume Gazinelli, cujo grupo desenvolve uma vacina que tem se mostrado promissora em testes com animais.

CIÊNCIA MOSTRA O ERRO DE ESCOLHER

O QUE MOTIVA OS ‘SOMMELIERS’

Quem quer escolher uma vacina costuma argumentar que a da Pfizer/BioNTech protege mais que a Oxford/AstraZeneca, Janssen e CoronaVac. Dizem com base nas taxas de eficácia publicadas em testes clínicos. A da Pfizer/BioNTech é de 95%, a da Janssen, 72%, a da Oxford/AstraZeneca, 76%, e a da CoronaVac, 51%.

O EQUÍVOCO DA COMPARAÇÃO

 O problema é que as taxas de eficácia não podem ser comparadas porque os estudos clínicos de fase 3 em que elas se baseiam foram realizados em lugares diferentes, com metodologias distintas (grupos de vacinados e de controle, tipo de placebo, duração dos agentes etc.) e em momentos distintos da pandemia. Por isso, são incomparáveis. A Pfizer foi testada quando a pandemia estava no início e ainda não haviam surgido variantes. A CoronaVac usou como voluntários profissionais de saúde, pessoas mais expostas do que a maioria. E a AstraZeneca e a Janssen foram testadas após a emergência de variantes. Tudo isso impede qualquer comparação.

O QUE IMPORTA

As análises de efetividade, que avaliam o efeito de uma vacina na população, são o guia mais apropriado. As realizadas até o momento indicam que todas as vacinas são seguras, protegem contra a Covid-19 grave e evitam mortes.

E AS VARIANTES

Em tese, elas ameaçam reduzir o impacto dos imunizantes porque podem escapar dos anticorpos e são mais contagiosas. Mas, até agora, todas as vacinas continuam sendo eficazes.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 08 DE JULHO

COMO RECONCILIAR-SE COM OS INIMIGOS

Sendo o caminho dos homens agradável ao Senhor, este reconcilia com eles os seus inimigos (Provérbios 16.7).

Décimo sexto presidente norte-americano, o estadista Abraão Lincoln dizia que a única maneira sensata de lidar com um inimigo é fazer dele um amigo. Mas como essa façanha poderia acontecer? Salomão responde: Se a nossa maneira de viver agrada a Deus, ele transforma os nossos inimigos em amigos. Foi assim com o patriarca Isaque. Quando ele habitou na terra de Gerar, ali semeou e colheu a cento por um. Ficou riquíssimo e prosperou abundantemente. Reabriu poços antigos e cavou novos poços. Os filisteus, por inveja, entulharam seus poços. Isaque, porém, em vez de brigar com os inimigos, continuou cavando novos poços. Os pastores de Gerar contenderam com ele por causa desses poços, mas Isaque não ficou agarrado nessas contendas. Caminhou para frente e, por onde ia, cavava novos poços. Foi expulso da terra de Gerar, mas não deixou que a amargura dominasse seu coração. Ao contrário, continuou buscando novas fontes. Deus apareceu a Isaque e prometeu abençoá-lo e multiplicar sua descendência. Sabendo que Isaque era abençoado por Deus, seus inimigos o procuraram e se reconciliaram com ele. É assim que Deus faz ainda hoje. Quando nossos caminhos agradam ao Senhor, ele nos reconcilia com nossos inimigos.

GESTÃO E CARREIRA

O FIM DO DINHEIRO COMO O CONHECEMOS

Não se trata de bitcoin, mas de algo bem mais relevante: as moedas digitais emitidas por países. Elas têm a capacidade de mudar a economia global, conferir poderes orwellianos ao Estado e abrir um novo capítulo na história da humanidade. Entenda

O dinheiro de papel é como orelhão. Volta e meia você tropeça em algum e se pergunta por que isso ainda existe. Faz um tempo que é possível pagar tudo no cartão. Mesmo o termo “pagar com cartão” começa a virar força de expressão, já que um celular melhorzinho hoje faz as vezes daquele chip envolto em um retângulo plástico. O que ainda dependia de cédulas e troco, tipo dividir uma pizza, virou um Pix – instantâneo e de graça. Dependendo da cidade, um ser humano normal consegue passar o resto da vida sem chegar perto de um caixa eletrônico.

Nisso, estamos falando de duas formas de dinheiro: o “físico”, de papel, e o eletrônico, feito de bits. Mas isso está prestes a mudar. Está chegando uma nova classe de dinheiro – também eletrônico, mas diferente daquele que está no saldo do seu internet banking e alimenta seu cartão. Bancos Centrais mundo afora querem emitir “moedas digitais”. No lugar de real, e-real; dólar, e- dólar; euro, e- euro; yuan, e-yuan. O que é uma moeda digital? Bom, primeiro que não tem a ver com bitcoin e cia. Segundo, trata-se de algo que tem o potencial de acabar com o dinheiro comum e com os bancos, ao menos do jeito que a gente conhece hoje.

A base do dinheiro é a confiança da sociedade. Só é possível pagar a compra com alguns pedaços de papel porque o dono do mercadinho confia que poderá fazer a mesma coisa quando ele precisar fazer uma compra. Não só isso: além de ser um meio de troca, dinheiro é unidade de conta (para todo mundo saber quanto cada coisa vale) e reserva de valor (para que você consiga economizar). Tudo isso é convenção, um acordo tácito que só funciona porque existe um Banco Central controlando a quantidade dessas notas em circulação por aí e garantindo que elas valem alguma coisa (se eles produzissem em quantidade ilimitada, não valeriam nada, como aconteceu com as notas de cruzeiro que sobraram naquela gaveta da sua avó).

Por isso, fabricar e colocar dinheiro em circulação são tarefas exclusivas do BC. O Banco Central empresta aos bancos comuns cobrando juros, os bancos, esse mesmo dinheiro a pessoas e empresas cobrando um juro um pouco maior. Conforme esses empréstimos se transformam em consumo e em empregos para quem produz bens de consumo, as rodas da economia vão girando. É assim que o dinheiro como a gente conhece, seja na versão impressa, seja na digital, entra em circulação. A mágica de verdade, porém, vem depois. Ela acontece quando a grana pinga no saldo do banco.

ISSO É UM BANCO

O primeiro instinto de quase todo mundo é pensar em banco como nos desenhos animados. O Pica-Pau levava sacos de dinheiro à boca do caixa para deixá-lo guardado num cofre. Simpático, mas isso só acontece em desenho animado mesmo. Seu dinheiro não fica parado no banco. Ele sai dali na forma de empréstimo para outra pessoa que precise de uma grana extra para qualquer coisa. Reformar a cozinha, por exemplo. Digamos que você tenha depositado RS 10 mil. O banco pega esse dinheiro e empresta para o cara que precisa fazer a tal reforma. O financiamento dele não é um problema seu, você só quer o dinheiro em um lugar seguro para poder pagar as contas do mês – ponto. E você terá. A mágica do banco consiste em manter os RS10 mil no seu extrato, mas lançar o mesmo valor na conta de quem pediu o empréstimo, quando deposita o crédito. Nisso, os R$10 mil ficam depositados em duas contas diferentes. Transformam-se em RS20mil. Quando o sujeito paga o pedreiro da reforma, os RS 10 mil são transferidos de novo, mas seguem existindo na vida dele, na forma de dívida. Assim, RS10 mil se transformaram em RS 30 mil. Criou- se dinheiro novo do nada. Por isso mesmo existem tantas contas remuneradas. Conforme esses empréstimos todos vão sendo pagos, pinga um cascalho para você.

Pausa: esse sistema nunca dependeu de altas tecnologias para funcionar. Desde quando a família Medici inventou os bancos, no século 14, essas instituições já criavam dinheiro com papel e caneta, anotando ativos e passivos num livro de balanço. Antes e depois dos computadores e internet, uma coisa continua valendo: tudo começa com o primeiro depósito. A partir desse instante, o banco vira uma máquina de xerox de moeda. Essa copiadora de dinheiro só não vai ao infinito porque existe uma trava: o “depósito compulsório”. Funciona assim: dos R$ 10 mil iniciais, o banco só pode, por lei, emprestar RS 7,9 mil. O resto, 21%, fica depositado numa conta travada do Banco Central.

Quando o banco reempresta esses RS 7,9 mil, outros 21% vão para o compulsório. Sobram só RS 6,2 mil livres para emprestar. Após algumas dezenas de operações, não sobra mais nada. A criação de dinheiro a partir do seu depósito deixa de existir. Ainda bem. Se a quantidade de dinheiro em circulação tendesse ao infinito, como dissemos, o valor do dinheiro seria zero.

Em suma: vale avisar o Pica-Pau que o banco não é um grande cofre. O banco é uma chocadeira de dinheiro.

Só que existe uma diferença crucial entre a moeda fabricada por banco e a do BC. A que urna instituição financeira criou é um replicante. Quando você vai ao caixa eletrônico, troca dinheiro eletrônico por dinheiro físico. Mas é isso, uma troca. Se todo mundo resolver sacar dinheiro de papel ao mesmo tempo, não haverá para todo mundo. Para ficar mais claro: no nosso exemplo lá atrás, o único dinheiro “de verdade”, criado pelo BC, que entrou em circulação foram os R$ 10 mil iniciais.

É por isso que ter dinheiro no banco também exige confiança. Muita confiança. Se o banco falir, o problema é seu, não do BC. Essa não é uma pergunta que a gente se faça com frequência porque os grandes bancos brasileiros são elefantes como ltaú Bradesco, Banco do Brasil e Caixa – “grandes demais para falir”, no jargão financeiro. Além disso, o Fundo Garantidor de Crédito que reembolsa até RS 250 mil por conta- corrente ou investimento. Seja como for, o lance é o seguinte: se você não tem uma nota de dinheiro na mão, está por sua conta e risco. O Estado não te deve nada* – ou não devia. É isso que o tal do e-real vai mudar.

MOEDA DIGITAL

Há 12 anos, um grupo de programadores lançou o bitcoin. Desde então, uma torcida fanática prega o fim do dólar, do real, do euro de qualquer moeda estatal. Essa turma defende que um dinheiro universal resolveria problemas burocráticos (como o câmbio) acabaria com qualquer ameaça de inflação, já que o bitcoin é limitado a 21 milhões de unidades – jamais haverá um suprimento que tenda ao infinito e possa destruir o valor da moeda. O bitcoin, e todos os seus milhares de clones do mundo das criptomoedas, são um atestado de rebeldia contra “o sistema” – ainda que a grande maioria das pessoas nem ache que exista um sistema malévolo a ser combatido.

Enquanto os rebeldes das criptomoedas pregavam a anarquia via bitcoin, o capitalismo corria por fora. Cartões se consolidaram como meio de pagamento, empresas de varejo criaram suas carteiras virtuais (caso do Mercado Pago) e Mark Zuckerberg pensou “Hum, criptomoeda, e se eu fizer a minha?”. Era a “libra”, depois renomeada para “diem”. Isso ligou um alerta vermelho nos Bancos Centrais. Enquanto o dinheiro digital estava só nas contas bancárias, os BCs tinham controle e podiam limitar a multiplicação dele para manter a economia funcional. Tranquilo. Um Facebook e seus 2,7 bilhões de usuários já não dá para controlar (tanto que a pressão dos governos colocou o projeto de Mark em stand-by). Esse combo de inovações fez o mundo entender que era preciso um meio de pagamento oficial mais eficiente que o velho dinheiro de papel (lembre-se, só ele é garantido pelo Estado), antes que as pessoas encontrassem algo mais conveniente. No limite, se todo mundo abandona o dinheiro do BC em troca de um bitcoin da vida (seja aquele criado há 12 anos, seja uma criptomoeda emitida por um multibilionário como Mark), a economia como a conhecemos deixa de existir. Por exemplo: o BC baixa os juros ao criar dinheiro e emprestá-lo aos bancos cobrando juros pequenos – isso estimula a economia. E sobe os juros pegando dinheiro emprestado dos bancos a juros elevados. Aí o banco prefere emprestar ao BC do que para você. Isso tira dinheiro de circulação: uma arma efetiva contra a inflação.

Numa realidade em que o dinheiro do BC caia em desuso, danou-se. O Estado perde o poder que tem para estimular a economia e para combater a inflação. Para evitar tal tragédia, Bancos Centrais do mundo todo (incluindo o nosso) começam a estudar uma alternativa: a troca das cédulas por e- cédulas. Em outras palavras, a “moeda digital de Banco Centra!” – CBDC na sigla em inglês.

E, não, a CBDC não é uma criptomoeda e não se compara com bitcoin. A grande diferença é que o Banco Central é responsável pelo dinheiro, o que muda tudo: um e­ real valerá um real. Ponto. Você vai poder usar na padaria.

Ok, mas então como a CBDC funciona? Não existe um jeito único e, dado o estágio incipiente dos estudos, mesmo alguns desses primeiros parâmetros ainda podem mudar. A ideia principal é a seguinte: em vez de mandar a Casa da Moeda imprimir cédulas, o Banco Central criará códigos de computador que representem uma unidade da moeda. Esse código transitará pelo sistema financeiro por uma rede tipo blockchain (uma invenção dos criadores do bitcoin). E cada país terá a sua.

Blockchain, sempre vale lembrar, é uma espécie de livro-caixa imutável – e que, sim, consiste numa tecnologia inovadora e complexa. Cada nova transação com cada unidade da moeda eletrônica fica registrada nesse caderno virtual. Do nascimento no Banco Central, da ida para o banco, da viagem para a conta do seu empregador, da escala que ela faz na sua conta quando você recebe o seu salário.

Quando você quitar o aluguel do mês e o dinheiro cair na conta do Seu Barriga, isso também ficará registrado no “livro-caixa” do blockchain. E quando Seu Barriga pagar um ingresso de cinema, esse passo também ficará registrado.

É como os cartórios já funcionam. No cartório onde seus pais registraram você, existe um livro que vai incorporando informações da sua vida. Começa quando você nasceu. Casou? Uma segunda informação fica registrada. Separou? Mais uma linha. Casou de novo? Idem. Vai assim até que você morra, quando anotam ali o seu óbito (sorry). Com o e-dinheiro será igual.

Essa característica do blockchain é linda. Fica muito difícil pagar propina, por exemplo. Para isso, e todos os outros crimes, o dinheiro de papel é uma benção – Pablo Escobar gastava US$ 2,5 mil por mês em elásticos para organizar suas torres de dinheiro.

Mas ela traz um problema. Não dá mais para o banco pegar R$ 10 mil e sair multiplicando, da mesma forma que não tem como clonar você. Seu outro eu precisaria de uma certidão de nascimento própria.

Por isso, se todo o dinheiro emitido pelo país for na forma de CBDC, os bancos ficam sem matéria-prima para criar crédito. Isso é o que o mercado financeiro chama de “desintermediação” (o banco é o intermediário do dinheiro entre o BC e as pessoas). Você pode até achar que é “bem feito”, que bancos precisam se lascar mesmo. Mas desculpa aí: a economia como a conhecemos desde o século 14 só gira com a grana deles. A humanidade não conhece outra fórmula.

A quantidade de dinheiro de papel na economia brasileira neste momento é de R$ 339,9 bilhões. Só que existem outros R$ 300 bilhões em depósitos em conta- corrente, na forma de bits; na poupança, que é quase uma conta do dia a dia para boa parte dos brasileiros, outroRS1,02trilhão virtual. Essa grana toda, mais alguns bilhões depositados em CBDs e outras aplicações, é o que vira matéria-prima para crédito. São R$ 4,1 trilhões de dinheiro emprestado por aí. Os dados são do Banco Central. Se tudo isso fizer “ploft” da noite para o dia, voltamos à caça e coleta.

Enquanto não existe um outro jeito de fabricar crédito, então, melhor não brincar. Por isso, Bancos Centrais do globo todo dizem que o dinheiro “normal”, que alimenta esse sistema de multiplicação de moeda, não vai mudar com a eventual criação do e- real, do e- euro, do e- dólar. As versões eletrônicas, eles dizem, serão complementares ao dinheiro que existe hoje. Não dá para saber nem em qual proporção, se 50% e- real e 50% real antigo já levaria a um colapso. Em resumo, o que eles estão dizendo é que não têm a menor ideia.

Tudo bem, não é trivial. Tanto que os estudos estão no começo. Segundo o BIS (uma espécie de ONU dos Bancos Centrais), 86% das nações estão pesquisando o potencial das CBDC e 14% adotaram algum tipo de projeto-piloto.

A pioneira mais notória é a China, que fez agora em junho um sorteio de e- yuans entre a população, para que as pessoas experimentassem o novo dinheiro. Por lá, as pessoas mal usam cartão. Pagam tudo com carteiras digitais tipo WeChat e Alipay, criados por empresas gigantescas.

O Partido Comunista Chinês não gostou da ideia de entregar o controle do sistema financeiro para big techs, lógico. E isso fez acelerar os testes do yuan digital. Ele passa a ser um concorrente para tirar ao menos uma parte do dinheiro da alçada de empresas. Não só: o BC chinês lançou um app próprio, uma espécie de PicPay do Banco Central. Como o e- yuan não passa pelo sistema bancário, esse é o único jeito de colocar a coisa em circulação.

Outro país com CBDC operante é Bahamas. Lá a moeda digital se chama sand dollar, e um dos objetivos era ampliar a inclusão financeira da população de baixa renda, que não tem conta em banco. Por lá, o dinheiro digital transita em carteiras virtuais que já existiam (de novo, tipo PicPay). Os desdobramentos da moeda têm sido acompanhados pelo mundo como se o conjunto de ilhas fosse um laboratório. Fica mais fácil implementar um projeto desses quando se tem 390 mil habitantes e não uma população de 1,4 bilhão, caso da China.

No Brasil, o Banco Central anunciou que o dinheiro transitará por todas as instituições financeiras autorizadas. Quer dizer que valem os PicPays e Mercados Pagos da vida, mas também os bancões. A ideia é que o sistema financeiro já tem os mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro, e seria mais eficiente que um app autônomo, como o da China. O lançamento de uma “fase 1” de testes por aqui sequer está perto. É coisa para pelo menos dois anos. Isso não faz do Brasil um país atrasado. Estados Unidos e Europa estão em estágio ainda mais preliminar.

SUPERPODER

Que os bancões não nos ouçam, mas existe uma vantagem na desintermediação. Quando o BC tira bancos da jogada, ele ganha um superpoder para cumprir com suas duas missões: manter a inflação sob controle e estimular a economia.

Na Europa e no Japão, a sanha estimulante é tamanha que eles praticam juros negativos (desde antes da pandemia). Juro negativo existe para que as pessoas se sintam forçadas a gastar, em vez de poupar. Se você deixar o dinheiro na conta, seu saldo tende a diminuir. Os BCs cobram uma taxa dos bancos pelo dinheiro que fica parado, e eles eventualmente repassam aos clientes, ainda que seja incomum. Europeus e japoneses, porém, conseguem escapar dessa possibilidade sacando dinheiro de papel para guardar em casa.

Numa realidade sem dinheiro de papel, só com e- moedas, essa possibilidade não existiria. Os BCs poderiam, simplesmente deletar centavos de e-dinheiro de quem deixou de consumir. Uma propriedade de fazer o dinheiro sumir, ainda que isso seja assustador.

ELE DÁ, ELE TIRA

Cada nota de papel é única, com número de série. Ainda assim, é impossível saber o caminho que ela percorreu até chegar à sua carteira. Só que, de novo, a gente quase não paga mais nada com dinheiro. Quando alguém faz uma transação (hum) suspeita com cartão, confia100 % no sigilo bancário para não terminar na cadeia. Dá certo na maioria das vezes.

Hoje bancos e empresas de cartão de crédito, como Mastercard e Visa, já sabem mais da sua vida do que você mesmo. É tão verdade que a Mastercard chegou a registrar a patente de uma tecnologia que calculava a altura, o peso e o número do sapato de pessoas com base nas compras feitas com cartões. Não só. Ela conseguiria saber quantas pessoas moram na mesma casa e a idade dos filhos. A ideia era vender esses dados a companhias aéreas, para elas definirem os assentos dos passageiros (e talvez o preço da passagem). O pedido de patente veio lá em 2015, antes das leis de proteção de dados se espalharem pelo mundo. Hoje a empresa não poderia vender tal serviço – não sem o seu consentimento.

Isso dá a dimensão de como podemos ter nossos gastos rastreados quando usamos pagamento eletrônico, seja ele qual for.

O Banco Central até disse que serão aplicadas as mesmas regras de hoje: sigilo bancário e a lei geral de proteção de dados. A exceção, claro, é em caso de investigações contra lavagem de dinheiro e outros tipos de fraude, o que já acontece.

Só que isso é o Brasil de 2021, um país no qual, problemas à parte, há instituições democráticas. Na China, uma autocracia que persegue dissidentes políticos, a história é outra. Esse dinheiro que está sendo distribuído como teste do e-yuan, por exemplo, tem data de validade. Precisa ser gasto logo ou desaparece sem maiores explicações. A ideia é que as pessoas efetivamente gastem os valores e testem a tecnologia, em vez de fazer uma poupança com o dinheiro que pingou de graça, mas dá uma ideia cristalina do poder que o governo passa a ter com uma e- moeda.

Governos totalitários também ganhariam o poder de bloquear compras que desagradassem ao regime, como a de certos livros. George Orwell ri no túmulo.

O alto nível de vigilância do e­ dinheiro já levanta desconfianças. O presidente do Fed (Banco Central dos EUA), Jerome Powell, atacou o modelo chinês em uma declaração recente. “A moeda que está sendo usada na China não vai funcionar aqui. Ela permite que o governo veja cada pagamento feito em tempo real.” Um ex-diretor do instituto que desenvolveu a moeda chinesa afirmou que a vigilância não é o foco do governo, mas a oferta de uma moeda inovadora.

E essa não é a única disputa entre as duas maiores economias do mundo no que toca ao e-dinheiro. A eventual ascensão das moedas digitais pode mudar a lógica do comércio internacional, e conferir à China um poder que hoje pertence aos EUA.

COMO IMPRIMIR OURO

É que moedas também são produtos. Produtos cujo preço sobe e desce de acordo com a demanda do mercado. A única diferença é que os supermercados de moedas estrangeiras são os bancos. Eles vendem dinheiro de fora a quem se interessar da mesma forma que o Pão de Açúcar vende papel higiênico a quem se interessar. Se todo mundo começar a comprar papel higiênico como se não houvesse amanhã (vide março de 2020), o preço do rolo aumenta. Se todo mundo começar a comprar dólar como se não houvesse amanhã, idem (vide o ano todo de 2020).

Exemplo prático: a Vale vende seu minério de ferro em troca de dólares. Mas ela paga os salários de seus funcionários e os bônus dos executivos em reais. A mineradora, então, vai aos bancos com seus dólares para comprar reais. Se ela está vendendo muito minério, tende a adquirir mais reais nos bancos. Como os bancos não são bobos, vão perceber essa alta na demanda por moeda brasileira e aumentar o preço dela em dólar. Nisso, a cotação do real sobe.

E quando o real sobe, o dólar cai. Note: a Vale aqui do nosso exemplo está colocando mais dólares no mercado, ao vendê-los para os bancos. Passa a haver mais moeda americana à disposição. E ela entra em liquidação. Se um dólar valia R$5,00, vai caindo para R$ 4,90, R$ 4,80… Nos anos 00, quando a entrada de dólares aqui estava especialmente forte por conta dos altos preços do minério de ferro, do petróleo e da soja, nossos maiores itens de exportação, ele caiu abaixo de RS 2. Só tem um detalhe: esses momentos de baixa são raros porque a demanda por dólares não depende só do que eles produzem. Os EUA respondem por 8% das exportações globais. A China por 12%. Mesmo assim, o dólar é mais valorizado que o yuan, a moeda chinesa.

Motivo: quase toda transação internacional envolve dólares. A Vale e as siderúrgicas chinesas não trocam reais por yuans e vice-versa. A siderúrgica pega seus yuans, compra dólares no banco, e manda para a mineradora brasileira.

Isso cria uma demanda fora de série para a moeda americana, e sem que os EUA tenham de mover uma palha. Foi a produção de minério de ferro no Brasil que gerou essa demanda por dólares. Mais: como o dólar é especialmente útil no comércio exterior, empresas como a Vale tendem a guardar pelo menos uma parte das verdinhas que ganham.

É natural. Empresas não americanas mantêm US$ 16 trilhões em depósitos pelo mundo. Bancos Centrais, US$ 8 trilhões – in­cluindo o nosso, que mantém US$ 325 bilhões em reservas.

Por essas, o tempo passa, o tempo voa, e o dólar segue numa boa. Essa realidade dá ao país de Biden um poder inédito na história da humanidade: o de imprimir ouro. Qualquer país que imprimisse a quantidade trilionária de dinheiros que os EUA têm produzido para combater a crise da pandemia entraria numa espiral inflacionária. Os EUA, na verdade, estão até experimentando uma ameaça de inflação. Mas o próprio Fed acredita que essa ameaça é passageira. Eles sabem, afinal, que a demanda pela moeda deles tende ao infinito. Logo, o perigo de hiperinflação é mínimo.

Assim até nós… Mas essa realidade pode estar com os dias contados.

A China não é pioneira na ideia de introduzir uma CBDC só por conta da briga do Partido Comunista contra AliPay e WeChat e cia. Tem outro motivo. Como maior exportadora do mundo, entre outros predicados econômicos, ela é a grande candidata a se tornar os novos EUA: os donos da banca. Os caras com a máquina de produzir ouro.

Não é de hoje que a China almeja hegemonia. Mas há uma pedra no meio desse caminho: o sistema financeiro global, que usa os dólares como moeda franca.

O e- yuan é o caminho no meio da pedra. Porque uma CBDC é mais do que uma moeda. É todo um sistema, com o poder de dar um chapéu no dólar. Assim: sabe aquilo de a siderúrgica chinesa ter de comprar dólares para adquirir minério de ferro no Brasil? Então. Isso acontece porque o mercado de troca direta entre yuans e reais não é forte o bastante. É sempre mais ágil usar o dólar como intermediário. Igual no mercado de câmbio para pessoa física. A casa de câmbio do shopping dificilmente vai ter yuans. Se viajar para a China, vai ter de comprar dólar aqui e depois trocar lá por moeda chinesa. No comércio global é a mesma coisa. Bom, com o sistema do e-yuan, eles pretendem dar um by pass nessa etapa. Querem criar uma espécie de casa de câmbio automática, capaz de converter e-yuans em e- reais (ou e- pesos ou e- qualquer outra coisa) instantaneamente, sem passar pelo sistema bancário internacional.

Quando uma siderúrgica de Qingdao quiser comprar minério de Carajás, poderá só depositar e-yuans que ela tem na conta do BC chinês para o BC brasileiro. Nosso BC faz a conversão para e- reais e manda para a conta da Vale. Negócio fechado, sem dólar no meio.

Dado o poder exportador e importador da China, é de se esperar que algo assim baixe bem a demanda por dólares. E, caso o país de bandeira vermelha siga crescendo a taxas maiores que as dos EUA, é possível que empresas e governos passem a fazer reservas em e- yuan, o que garantiria tanta demanda para a moeda chinesa quanto o dólar tem hoje. E conferiria à China uma pedra filosofal. Exato: um poder equivalente ao de imprimir ouro.

Isso vai virar realidade? Ninguém sabe. A economia, de qualquer forma, não é um corpo estático, e a balança global de poder muda com o tempo. No século 14, o banco dos Medicis criou o Renascimento e tornou Florença o centro do mundo. No século 19, o ouro britânico deu à luz um império global. No pós-guerra, a dolarização do planeta criou a maior potência de todos os tempos. Agora, a moeda digital pode virar o jogo a favor da China. Aconteça o que acontecer, uma coisa é fato: o e- dinheiro está abrindo um novo capítulo da história da humanidade. Diante dos nossos olhos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

O fenômeno pode assumir diversos tipos, como abusos físicos, verbais, emocionais, econômicos, religiosos, reprodutivos e sexuais, que vão desde formas sutis até a violação conjugal e trazem impactos emocionais na personalidade

Violência doméstica é um padrão de comportamento que envolve agressão ou outro tipo de abuso por parte de uma pessoa contra outra, num contexto familiar, como no caso de um casamento ou união de fato, ou contra crianças ou idosos. Quando é cometida por um cônjuge numa relação íntima contra o outro parceiro denomina-se violência conjugal, podendo ocorrer tanto entre relações heterossexuais como homoafetivas, ou ainda entre antigos parceiros ou cônjuges. A violência doméstica pode assumir diversos tipos, incluindo abusos físicos, verbais, emocionais, econômicos, religiosos, reprodutivos e sexuais. Esses abusos podem ir desde as formas sutis, coercivas, até a violação conjugal e os abusos físicos violentos, femininos/ masculinos.

O conceito de violência doméstica e familiar surge da conjugação dos artigos da Lei Maria da Penha, que é considerada quando o agressor ofende a integridade física, psicológica, sexual, moral ou patrimonial de um outro indivíduo no convívio familiar.

A violência se manifesta cotidianamente e por repetidas vezes nos mais diferentes contextos e ambientes em que o indivíduo vive e frequenta, como, por exemplo, dentro de casa, nas escolas, nas ruas, no trabalho, nas redes sociais, enfim, em qualquer lugar e a qualquer tempo, materializando-se de variadas formas.

No começo tudo parece uma maravilha, um relacionamento novo com muito amor, no qual o casal só quer estar junto. Aos poucos, de forma sutil, a relação vai se modificando com o controle total da vida e do corpo do outro. Sabe aquele(a) companheiro(a) superprotetor(a), que quer estar sempre junto, não gosta de repartir atenção com ninguém e que adora dar conselhos para o “seu bem”? Talvez possa ser difícil admitir que você esteja vivendo em um relacionamento abusivo. Mesmo sem violência física, a dominação é confundida como proteção, ciúme é confundido com muito amor, o controle psicológico parece uma conversa de quem só quer ajudar, as manipulações surgem e quase não são percebidas pela vítima. A violência doméstica ocorre em todo o mundo, nas mais diversas culturas, e afeta pessoas de todas as classes econômicas.

VARIAÇÕES

A VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA é qualquer conduta que cause dano emocional e diminuição da autoestima, em público ou a sós, como piadas, humilhações, insultos, isolamentos, perseguições e ameaças.

VIOLÊNCIA MORAL é a atitude que coloca a pessoa em situação de constrangimento, como acusações sem motivos, ofensas à dignidade, fotos íntimas, calúnia, injúria e difamação e comentários depreciativos sobre corpo, aparência, vida amorosa e orientação sexual.

VIOLÊNCIA PATRIMONIAL é o dano causado pela destruição de um objeto ou retenção de documentos pessoais, bens, valores.

VIOLÊNCIA ECONÔMICA é a prática que interfere na vida financeira da pessoa, como proibir de trabalhar, controlar o dinheiro, decidir ou impedir de comprar.

VIOLÊNCIA SEXUAL significa forçar a outra pessoa a ter o corpo tocado sem consentimento, ser forçada ou persuadida e manter relação sexual em contexto indesejável.

A VIOLÊNCIA FÍSICA é a mais evidente, sendo considerado, por exemplo, empurrar, amarrar, apertar, sufocar até chegar em níveis extremos, como bater, chutar, dar socos.

O abuso acontece de maneira inicialmente invisível, silenciosa e que acaba permitindo gradativamente a repetição por semanas, meses, anos. A relação parece que vai bem, até que surge um momento em que a violência emocional, na qual há acusações, agressões e desrespeito, torna-se “normal”, e a vítima passa a viver acuada, com medo e medindo tudo que fala para a outra pessoa. A violência começa na mente. Brincadeiras saudáveis ocorrem de forma natural e espontânea entre as pessoas, promovendo muitas risadas, apelidos, aparentemente sem problemas. No entanto, quando as “brincadeiras” são realizadas de forma agressiva, repetitiva e intencional contra um ou mais indivíduos, promovendo um sentimento de humilhação, essa situação é denominada de violência, em que apenas alguns se divertem à custa de outros que sofrem.

Existem diversas formas de violência: verbal, física, psicológica, moral, sexual, virtual (cyberbullying). Um cérebro diferente. Assim é considerado o indivíduo que pratica as agressões. As hipóteses são muitas, mas uma coisa é certa: a agressividade é um instinto inato ao ser humano e tem uma relação bastante estreita com o amor, ou seja, está impressa no DNA das células dos animais para defesa e delimitação de territórios.

Importante reconhecer como a irritação pode desencadear a raiva e a ira no cérebro do agressor, a ponto de ele praticar uma violência doméstica.

BAIXA AUTOESTIMA

Fato é que, independentemente da modalidade de violência doméstica (psicológica, física, sexual, patrimonial, moral), todas refletem a baixa autoestima, e a violência é apenas a sua exteriorização. Existe ainda um fenômeno que acomete 15% da população, chamado transtorno de personalidade, que se reflete nas relações afetivas. O transtorno antissocial é mais comum nos homens, já os distúrbios histriônico, borderline e dependente afetam predominantemente as mulheres. Muitas pessoas são abandonadas, esquecidas, ignoradas e até mesmo excluídas dos laços de afeto e sangue, e sem ter apoio e aconchego se sentem obrigadas a aceitar os atos de violência, pois sofreram na própria família.

Existem, ainda, filhos que são sujeitos ativos da violência doméstica contra seus ascendentes, comum em alguns casos pela idade, velhice ou vulnerabilidade.

O cérebro com comportamento agressivo apresenta alterações neurobiológicas importantes que, necessariamente, precisam ser identificadas. Por exemplo, irritação e raiva como emoções bastante intensa, vinculadas a fortes reações corporais. Quando se expressam em “ódio visceral” se manifestam, sobretudo, em três planos, todos sujeitos a controle direto do cérebro: alterações somáticas típicas (aumento da pressão arterial e tensionamento dos músculos, entre outras); reações motoras (na mímica dos gestos); experiência e valoração subjetiva na mente.

Pesquisas recentes demonstram que a própria conexão neuronal entre as células cerebrais pode se modificar quando fortes impressões emocionais se repetem de forma constante. Exames por imagem podem mostrar modificações em vítimas que vivem em contextos de eventos traumáticos. Pode-se considerar o sistema límbico como centro das emoções, e uma série de hormônios e neurotransmissores está relacionada a essa reação, tais como a adrenalina, a noradrenalina, a dopamina e a testosterona.

Reconhecer como fica o cérebro da vítima que sofre a agressão torna-se fundamental para evitar sequelas maiores na saúde mental do indivíduo. Pesquisadores da Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos, descobriram que a ação persistente da violência pode ter efeitos não apenas na autoestima, mas também na composição química do cérebro de quem sofre a agressão.

O estresse social crônico afeta o sistema neuroendócrino, importante nos comportamentos sociais. Uma vez sofridas mudanças nos componentes desse sistema podem surgir fobias, depressão e esquizofrenia a longo prazo. O que não se sabe ainda é quanto tempo duram esses efeitos da violência no cérebro.

SINAL

Durante um relacionamento agressivo, o cérebro envia um sinal as glândulas suprarrenais, determinando a liberação de adrenalina na corrente sanguínea. Tal como acontece na reação de alarme da síndrome geral da adaptação. Há, rapidamente, um aumento da excitação fisiológica e do nível de vigilância do organismo. Simultaneamente, também procedente das suprarrenais, os níveis sanguíneos de cortisol livre aumentam numa clara demonstração da interação entre os estímulos externos e a fisiologia interna.

Organicamente, o comportamento agressivo e violento pode ser determinado tanto por fatoresquímicos quanto anatômicos,ou seja, tanto microscópicos, incluindo os elementos atrelados à eletrofisiologia cerebral, quanto macroscópicos, atrelados à integridade anatómica do órgão.

O sistema límbico inteiro pode ser considerado substrato neural para o comportamento relacionado à motivação e à emoção. Incluem-se estruturas como o tálamo, o epitálamo, o hipocampo, o hipotálamo, as amígdalas cerebrais, o giro do cíngulo e a região do septo. Todas essas áreas têm sido aplicadas na regulação do comportamento agressivo, juntamente com os lobos temporais.

O indivíduo violento pode se autorregular diante do estímulo no momento da raiva. Para Richard Davidson, uma das confirmações se refere ao inter-relacionamento de áreas distintas da região cerebral, tais como o córtex frontal orbital, o córtex cingulado anterior e a tonsila cerebelar. O córtex frontal orbital, por exemplo, tem um papel crucial na regulação da explosão impulsiva, enquanto que o córtex cingulado anterior ativa outras regiões para responder ao conflito. A amígdala cerebral, pequena mas importante porção do cérebro, estaria envolvida na produção de uma resposta ao medo e outras emoções negativas. O indivíduo que possui reações violentas tem sérios transtornos comportamentais mentais e emocionais. Por isso precisa de ajuda médica, psicológica, terapêutica para conviver socialmente.

Uma outra questão importante: quando uma pessoa estiver vivendo uma situação de violência) ela precisa saber e sentir que não está sozinha. O agressor, geralmente, tenta afastar a vítima da família, dos amigos, dos estudos e, em muitos casos, do trabalho, para que possa manter o controle, a fim de gerar dependência emocional e financeira, tornando-a mais vulnerável a permanecer no relacionamento abusivo.

Existem vários motivos para que uma pessoa continue sofrendo violência doméstica. Muitas vezes, não enxerga que está em uma situação de vulnerabilidade ou tem medo de buscar informações. Acredita que a atitude de procurar ajuda possa prejudicar ainda mais a situação dentro de casa. Então, é interessante que uma terceira pessoa faça essa abordagem. Não dá para pagar o preço, porque o preço é alto: a própria vida. Pessoas devem agir ao presenciar casos de violência doméstica, e a vítima deve buscar auxílio e proteção.

Se você sofre violência doméstica procure ajuda especializada, denuncie quando se sentir em situação de ameaça, junte provas, faça boletim de ocorrência, procure o serviço de saúde para realização de exame de corpo de delito.

E, ainda, incentive grupos de conversas a fim de proporcionar espaços de diálogo para identificar situações de violência doméstica, para garantir as informações, reconhecendo sinais de agressão, para saber o que fazer diante de um(a) agressor(a). Afinal, a violência doméstica não é só física e ela pode acontecer de várias formas.

ESTUDOS APONTAM CARÊNCIA DE SEROTONINA EM INDIVÍDUOS IRRITÁVEIS

Estudos da neurobiologia comportamental da agressão apontam que é possível que alguns indivíduos facilmente irritáveis e programados pela ira possuam uma carência do neurotransmissor denominado serotonina. Em baixa, provoca no indivíduo uma instabilidade emocional, insatisfação geral e um comportamento agressivo e/ou impulsivo. Violência doméstica pode causar depressão e fobias. O sofrimento das vítimas traz graves consequências à saúde física e mental. Os sintomas psicológicos frequentemente encontrados em vítimas de violência doméstica são: insônia. Pesadelos, falta de concentração, irritabilidade, falta de apetite e até o aparecimento de sérios problemas mentais, corno depressão, ansiedade, síndrome do pânico e transtorno de estresse pós-traumático.

O CÉREBRO É COMPOSTO POR TRÊS PARTES:

1. O tronco cerebral e porções do diencéfalo, área cerebral dos reflexos e instintos. Essa parte do cérebro é a base instintiva sobre a qual se assentam nossos sentimentos. É nessa estrutura que ocorre o nosso estado geral de excitação.

2. No sistema límbico vivemos emoções como a raiva sob a forma de estados inconscientes, que exercem forte influência sobre o comportamento humano de especial importância, tendo o cérebro uma estrutura chamada amígdala cerebral, responsável pelo desencadeamento dessa reação. O sistema límbico envia sinais ao cérebro reptiliano, em especial à porção chamada hipotálamo. Essa estrutura cerebral possui íntima vinculação com a hipófise – nossa glândula hormonal que controla o nível dos hormônios. Desse modo. ao experimentar a emoção da raiva, o corpo é de imediato acionado para o ataque. Ele libera hormônios do estresse. como a adrenalina, os pelos se eriçam, aumentam a pressão arterial e os batimentos cardíacos, melhorando a irrigação dos órgãos. Com isso, nosso metabolismo se adapta à situação causadora da irritação. Paralelamente. o sistema límbico cuida ainda para que o modo de expressão se conduza de acordo com a emoção vivida: o sentimento se manifesta tanto no tom de voz como na mímica e nos gestos. O sistema límbico governa a expressão facial, capaz de denunciar involuntariamente o estado emocional do indivíduo. Os gestos e a postura do corpo emitem outros sinais de nossa irritação, como, por exemplo, as mãos fechadas ou um tensionamento visível da musculatura. O tom da voz também se altera e ela pode passar a soar estridente ou abafada.

3. Na área superior do cérebro está o córtex cerebral. Em termos gerais, essa parte coordena os movimentos voluntários, processa conscientemente os estímulos sensoriais e é a responsável por processos cognitivos complexos, tais como o pensamento ou a fala. O humano vive as emoções conscientes sobretudo por meio do lobo frontal, a porção anterior do córtex. Assim, em vez de relegá-las à periferia da consciência como sensações indistintas. pode-se voltar a atenção para elas, analisá-las e nomeá-las. É isso que, de acordo com o contexto, transforma a irritação em inveja, vingança ou decepção. Graças ao córtex, o indivíduo pode moderar e governar as reações emocionais. Ao reagir a uma ofensa com irritação ou raiva, este dá início à resposta do sistema límbico. Depois, com o auxílio do córtex cerebral, analisa e define como irá lidar com a raiva.