EU ACHO …

PEDAÇOS DE VIDA JAMAIS DESVENDADOS

O ritual da paquera, na época chamado flerte, era longo, exigia paciência

No final dos anos 1950, em Araraquara, Mister Pimenta, professor de inglês, teve um gesto generoso. Toda terça-feira à noite, ele dava uma aula gratuita de reforço de inglês. Classe lotada. Por semanas, lá estive, por interesse na língua e em uma loirinha, a Gilda. O ritual da paquera, na época chamado flerte, era longo, exigia paciência. Em geral, começava no footing, com as mulheres caminhando na calçada entre os dois cinemas; e os homens parados no meio-fio. Olha que olha, olha que olha, até que o olhar era correspondido. O footing acontecia aos sábados e domingos. Primeira semana, segunda, terceira, um encontro era marcado e aí dependia de você. As aulas de terça-feira acabavam funcionando como um dia a mais para nos favorecer. Uma noite, consegui descer a escada ao lado de Gilda. Emocionado, sabia que aquela era a chance. Conversamos um pouco, elas tinham horário para regressar à casa, 10 da noite. A certa altura, consegui encaixar a frase, “gostaria de namorar contigo, parece que a gente vem se entendendo”. Ela pareceu constrangida: “Tem um problema, meu pai acha que é cedo para eu ter namorado. Também acho. Além disso, meu irmão disse que só vou namorar quem ele aprovar. Não me leve a mal”. Insisti – só eu sei o quanto me custou – e ela ficou firme: “Não”.

Na quinta-feira, fui ao cinema, já tinha começado a fazer crítica no jornal. Sentei-me atrás de três amigas de Gilda. Elas conversavam e então uma delas chamada Elide disse uma coisa tenebrosa. Nunca mais esqueci esse nome, Elide. Ela se virou para as amigas: “Sabem que o Ignácio quis namorar a Gilda? E ela disse ‘não, você é muito feio’. Disse na cara dele. E ela tem razão: quem vai namorá-lo?”.  Não ouvi mais nada. Ser feio era estigma. Tempos difíceis, moralismo, severidade, pegava-se na mão depois de dois meses de namoro. Aliás, para terem ideia de como este país era, na década de 1970, quando fui à Primeira Feira Literária de Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, fiquei surpreso com o número de garotas que circulavam à noite. Um sucesso. Os livros eram atraentes?  “Não”, me disse uma delas, “é que, com a Feira, nossos pais e irmãos nos deixam sair durante a semana”.

Voltando à Gilda, traumatizado, por que aos 16 anos tudo é drama, me recolhi, nunca mais me aproximei de nenhuma jovem. Amei várias, jamais souberam. Enfiei-me nos livros, no jornal, no cinema, queria ir embora, não ficar mais ali. Vim, fiz minha vida, esqueci. Contei rapidamente este episódio na Aula Magna que dei em minha cidade há duas semanas. A imagem de Gilda tinha voltado num repente. Indaguei da plateia (online):  e se ela tivesse dito sim, eu estaria aqui, como estou, a dar esta aula como Doutor Honoris Causa pela Unesp, ou estaria a assistir à aula de um outro? O ‘se’ não existe, mas a fantasia sim, afinal sou ficcionista. A esta Gilda que me disse não, dediquei um livro, Dentes ao Sol. Não sei se ela viu, ficou sabendo. Teria ela dito este ‘não’ arrasador? Nem sei se está viva, sabe quem sou, o que faço. Será que se lembra do ‘não’?

Por que há de se lembrar? O assunto nada significava para ela. Doce e instigante mistério. Fui mais longe: e se ela estiver aqui neste auditório, viva, ou em casa me assistindo digamos, ao lado da filha? E esta se vira para a mãe e pergunta: “Veja só! Quem terá sido essa mulher que o rejeitou? E se tivesse sido você, mãe? Teria dito sim? ‘Tivesse dito, ele hoje seria meu pai?”. Fascinantes estes rápidos recortes da vida jamais desvendados. Literatura funciona assim. Ou imaginei este ‘não’ e o incluí como realidade? A memória tem sua ironia, uma certa dose de crueldade, diz meu primo José Castelli, filósofo certeiro em tardes invernais.

*** IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO – é jornalista e escritor, autor de  “Zero’ e  ‘Não Verás País Nenhum’

OUTROS OLHARES

PASSADO É RESTAURADO E REVIVIDO NA QUARENTENA

Com mais tempo livre, muitas pessoas aproveitaram para revirar gavetas e baús atrás de antigas memórias afetivas

Quando se viu de quarentena, em plena pandemia do novo coronavírus, Deni Perissé, de 71 anos, concluiu que era o momento de colocar em prática um projeto antigo: revirar seu baú de memórias em busca de imagens antigas, algumas amareladas e bem desgastadas, de seus familiares, alguns já falecidos.

Animada com as descobertas, incentivou outros parentes a fazerem o mesmo. O resultado desse esforço coletivo está exposto na parede da sala do apartamento da contadora aposentada, na Barra da Tijuca, onde um grande painel ajuda a contar parte substancial de sua história, através de imagens de quatro gerações da família.

“Foi importante para mim, porque muitas dessas pessoas eu não conheci ou não fazia ideia de como eram.  Foi um resgate das minhas raízes, uma verdadeira viagem a um tempo que não vivi. Penso, quando terminar a pandemia, fazer um lanche para reunir as pessoas que me ajudaram a encontrar essas memórias”, planeja Deni, que incluiu as netas de 5 e 7 anos no painel aberto com fotos dos bisavós delas, feitas no início do século passado.

Pelo menos três fotografias – do avô materno, da avó paterna e da sogra – estavam bastante manchadas ou desgastadas pelo tempo. Foi aí que entrou em campo Ana Maria Silva Ferreira, dona de um escritório de restauração de fotografias em Copacabana, na Zona Sul, o Ninha Design, a restauradora percebeu uma mudança no comportamento da clientela durante a pandemia: “Antes as pessoas recorriam à restauração por razões práticas, querendo melhorar foto de documento ou para usar em alguma publicação, como um livro que conta a história de uma família, por exemplo. Com a pandemia passou a ser mais por questão afetiva. E tem um pouco de tudo: da recuperação de uma foto da família para presentear um parente idoso e deprimido por não poder ver os familiares, por causa da quarentena, ao casal que se reconciliou e quer recuperar aquelas fotos do casamento que foram rasgadas no momento da separação. Tem também os que perderam parentes para a Covid, e aquela foto antiga era a única lembrança”, conta Ana, que restaurou fotos de amigas que não se viam há 40 anos e se reencontraram na fila da vacina da Covid.

RECOMEÇO NO BRASIL

Para o professor universitário Carlos Alberto da Silva, de 60 anos, morador de Campinas, a recuperação de uma fotografia desgastada da primeira comunhão da mãe dele, Idalina Martins da Silva, que morreu em 2016, aos 83 anos, foi mais do que um resgate do passado. A foto antiga representa o marco inicial da história de sua família em terras brasileiras.

“A foto representa o recomeço da vida no Brasil de uma família que vem de Portugal e que se estabeleceu aqui como agricultores e apicultores. Minha mãe foi a primeira integrante da família nascida aqui”, explicou o professor que, numa busca feita na internet, encontrou os serviços de Ana Maria.

Já Alva Pedrinha, de 68 anos, moradora do Jardim Botânico, recorreu à ajuda de um primo fotógrafo profissional para restaurar as fotos de quando os filhos ainda eram pequenos. Ela chegou a essas imagens ao revirar gavetas atrás de lembranças de um irmão levado pela Covid-19, no começo da pandemia, em 2020.

“Deu uma nostalgia. Comecei a buscar fotos dele e acabei encontrando também as dos meus filhos, quando eles ainda eram pequenos, que precisavam ser recuperadas. Acho que é natural esse resgate de memória em tempos de pandemia, mas vai muito do perfil da pessoa e não tem relação com a idade. Minha busca despertou a curiosidade de meu neto de 6 anos, por outros parentes que ele não conhecia”, afirmou.

O fotógrafo José Bruno Filho, que tem um laboratório de revelação e restauração de fotografias no Centro de São Gonçalo, também constatou esse aspecto afetivo no interesse das pessoas por restaurar lembranças passadas e de parentes que já se foram: “A gente não costuma perguntar o que levou o cliente a procurar nossos serviços, mas dá para perceber que a maioria busca a restauração de fotos de pessoas que já faleceram, inclusive vítimas da Covid. Pouquíssimos casos são de recuperação de fotos de pessoas vivas e, nesses, incluo o de casais que se separaram, rasgaram a foto de casamento e nos procuram para reconstruí-la”.

O aposentado Franklin Falácio, de 74 anos, foi além da simples restauração. Ele quis reunir numa mesma imagem os avós Alexandre e Alzira, já falecidos, mas teve de recorrer a duas fotografias diferentes e bem desgastadas porque não encontrou nenhuma deles juntos. Para atender o desejo do cliente, a arte finalista Ana Alegria, uma das pioneiras em computação gráfica que durante muitos anos trabalhou na TV Globo, contou com a ajuda do photoshop. A restauradora também mudou a coloração da roupa usada pela avó do cliente, deixando-a mais clara e ao gosto do neto. Além disso, encurtou a saia deixando as pernas dela à amostra. Para isso teve de recorrer a uma terceira fotografia.

“O resultado ficou muito bom. A Ana conseguiu reunir o casal numa foto só, numa pose carinhosa”, aprova o morador de Copacabana que, satisfeito com o resultado, encomendou cópias para as três filhas dele e emoldurou uma outra que colocou no seu escritório.

O processo de restauração de fotos varia de um profissional para outro. No geral, eles partem da imagem impressa e fazem a recuperação com a ajuda da tecnologia digital. O tempo para conclusão do serviço e o preço variam conforme a dificuldade e o tamanho da ampliação, indo de R$80 a R$600.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 07 DE JULHO

A CONFISSÃO DO PECADO É A PORTA DO PERDÃO

Pela misericórdia e pela verdade, se expia a culpa; e pelo temor do Senhor os homens evitam o mal (Provérbios 16.6).

São dois os fatores que levam uma pessoa a receber perdão. O primeiro deles é a misericórdia daquele que julga; o segundo é a sinceridade daquele que é julgado. Quando o indivíduo admite seu erro, humildemente o confessa e o abandona, recebe perdão e a remissão da culpa. A Bíblia diz: O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia (Provérbios 28.13). Enquanto escondemos nossos pecados, pesa sobre nós a culpa; mas, quando buscamos a verdade no íntimo e confessamos nossas transgressões, recebemos o perdão. A Palavra de Deus diz: Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça (1João 1.9). Da mesma forma que pela misericórdia e pela verdade se expia a culpa, pelo temor do Senhor os homens evitam o mal. É o temor do Senhor que nos livra da queda. É o temor do Senhor que afasta nossos pés da armadilha e os coloca numa vereda reta. Sem o temor do Senhor, andaremos pela estrada larga das liberdades sem limites, dos prazeres sem santidade, das alegrias sem pureza, da culpa sem perdão.

GESTÃO E CARREIRA

PROFISSÃO: GERENTE DE E-COMMERCE

Assim como em uma loja física, as virtuais também precisam de gerentes para botar ordem na casa. Conheça esse profissional que precisa entender toda a operação e garantir que as áreas trabalhem em sintonia para que as compras cheguem.

Mais de 79 milhões de brasileiros fizeram compras pela internet no ano passado – é quase 38% da população. E desses, 13,2 milhões estavam realizando a sua primeira compra online. É fato que o isolamento social alavancou o e-commerce no país. Só em 2020, as vendas online somaram RS 87,4 bilhões; isso é 41% a mais do que o faturamento registrado em 2019, de acordo com um levantamento da consultoria Ebit/Nielsen.

Segundo Maurício Salvador, presidente da ABComm (Associação Brasileira de Comércio Eletrônico), a previsão é que o setor continue crescendo. “Normalmente, por ano, são abertas 30 mil lojas online no Brasil. Em 2020, foram 180 mil novos e-commerces – é seis vezes mais do que a média normal.” Pela contabilidade da ABComm, o volume de vendas cresceu mais do que o auferido pela Nielsen: 68%. “E esse é um movimento que vai se manter neste ano, tanto que as vendas devem subir mais 38%.”

O aumento das operações exige que as empresas tenham profissionais dedicados ao controle das lojas virtuais, pensando não apenas na parte técnica, mas também em estratégias de crescimento. Afinal, ter um e-commerce vai além de criar um site e colocar coisas para vender. É preciso conhecer os clientes, entender do negócio da empresa e garantir que ela não se perca na mudança do offline para o online. Ai que entra a figura do gerente de e-commerce.

É como se fosse em uma loja física: lá, o gerente é responsável por organizar as equipes, controlar o estoque, o recebimento de mercadoria, o fechamento de caixa e o faturamento da unidade. No e-commerce a ideia é a mesma. A diferença está no tamanho da operação. Enquanto uma loja de bairro precisa lidar com um número limitado de clientes e compras, um comércio online tem alcance ilimitado.

Por outro lado, é fácil sumir em meio ao mar de e-commerces que temos hoje. A missão-chave de um gerente da área, então, é garantir a conversão do cliente. Ele precisa fazer com que a pessoa encontre o site, se interesse pelos produtos que estão ali e finalize a compra.

TODAS AS ÁREAS EM UMA

Gerenciar um e-commerce é como reger uma orquestra. Você precisa saber tocar todos os instrumentos, para exigir o melhor dos músicos sob seu comando. Na profissão, isso significa dominar em algum grau áreas díspares: logística, marketing digital, TI, matemática financeira, atendimento ao cliente, gestão empresarial. Também não podem faltar conhecimento de estratégias para aumento de vendas, precificação e técnicas de SEO (as ferramentas para colocar o site no topo dos resultados do Google). Se a empresa for multinacional ou vender para fora do país, precisa ter inglês avançado.

Em suma, sem aquilo que o mercado chama de visão 360° do negócio, não tem jeito. “Uma empresa com uma logística cara ou que demore para entregar não vende, por exemplo. Por isso, o profissional não pode olhar só para os produtos que ele comercializa no site. Ele tem que saber o que acontece na logística para oferecer soluções mais rápidas, como a busca da compra em uma loja física”, diz Ulysses Reis, coordenador do MBA de Varejo da FGV.

O mesmo vale para a parte de tecnologia. O gerente de e-commerce não precisa saber programar, claro, mas deve conhecer as certificações de segurança necessárias para proteger o site e evitar fraudes.

E, claro, ainda é preciso mandar bem nas habilidades comportamentais: saber lidar com pessoas e trabalhar em equipe é essencial para manter a orquestra afinada.

Também é importante saber trabalhar sob pressão e tomar decisões rápidas. No mundo online, tudo muda rápido. Um ajuste no algoritmo do Google basta para destruir as estratégias de SEO do site. Ou seja: quem se apega a processos que deram certo no passado fica para trás.

VIVÊNCIA NA ÁREA

Não existe urna graduação específica para atuar em lojas online – os principais cursos são os de Administração, Marketing e TI. Se você quiser se especializar para valer na área, vale fazer uma pós-graduação em varejo, e-commerce ou negócios digitais.

A questão é que não se torna gerente de e-commerce da noite para o dia. Ter uma certa experiência direta no varejo ou na área de vendas é indispensável para assumir o cargo, independentemente da formação. É o caso de Theo Vieira, 40 anos.

Ele se formou em Relações Internacionais. Em 2002, teve a oportunidade de mudar para a área de trade marketing da Unilever. O setor é responsável pela comunicação e pelo estudo de posicionamento de produtos nos pontos de venda – sabe quando você vai ao supermercado e consegue achar o que buscava com uma certa facilidade? Então. Esse é o resultado de um trabalho bem feito de trade marketing.

Theo passou oito anos na Unilever e, nesse período, foi atuar na unidade da companhia na China, onde morou quatro anos. “Minha inserção no mundo do e-commerce começou ali. Eu sempre me interessei por tecnologia e a China já era um mercado muito digitalizado.”

No final de 2010, ele decidiu voltar para o Brasil. Dessa vez, foi trabalhar na área de marketing da Mondelez – dona de marcas como a Lacta, Oreo, Club Social, Trident e Halls. “Comecei em uma marca menor e depois fui cuidar da [linha de sucos em pó] Tang. Mas sentia que faltava passar pelo setor de vendas; então fui trabalhar na área em 2015.” Theo foi responsável por estruturar o Cash & Carry – canal pelo qual a empresa se relaciona com os atacarejos. Ele também atendia à conta de varejo do Grupo Pão de Açúcar e ajudou na criação de um canal exclusivo dentro do site da rede de supermercados para o e-commerce dos produtos Lacta para a Páscoa.

Em 2016, ele foi trabalhar como gerente de marketing da Duratex. “Lá, eu liderava três squads: um de internet das coisas, outro de estratégias de e-commerce e o de criação de conteúdo do site. Foi uma época em que eu desenvolvi muito o conhecimento de digital.” Em julho de 2019, veio o convite para voltar para a Mondelez e assumir como gerente de e-commerce da companhia. “Você tem que ter uma visão holística do negócio para liderar a loja online. É preciso entender muito bem como cada área precisa atuar. Também tem que ser uma pessoa que tenha análise de dados na veia, porque, quando a gente está falando de e-commerce, não é de um ou dois clientes, e sim de milhares.” Hoje, Theo é o diretor de e-commerce da companhia.

UM DIA NA VIDA

ATIVIDADES-CHAVE

Aumentar a taxa de conversão da loja virtual, monitorar a concorrência, supervisionar outras áreas da companhia relacionadas ao e-commerce (logística, marketing, atendimento ao cliente, Til, evitar fraudes e selecionar ferramentas online que melhorem a experiência de compra.

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Conhecimento de varejo, tecnologia, logística, marketing, finanças e gestão de negócios. Na parte comportamental, o destaque é para capacidades de liderança, trabalho em equipe e pensamento estratégico.

PONTOS POSITIVOS

uma profissão nova e de destaque dentro das companhias. Os profissionais capacitados têm multas oportunidades de emprego.

PONTOS NEGATIVOS

Se você quer um trabalho calmo e previsível, gerente de e-commerce não é para você. No mundo online, a atualização é constante. O profissional deve sempre acompanhar as mudanças de mercado e saber adaptá-las continuamente loja virtual.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Não existe uma graduação específica, mas os cursos de Administração, Marketing e TI são os mais comuns entre os profissionais. Também é possível fazer uma pós-graduação em Varejo, Negócios Digitais ou E-Commerce.

QUEM CONTRATA

Médias e grandes empresas que possuam um e-commerce, tanto para consumidores finais (B2C) quanto para clientes corporativos (B2B).

SALÁRIO*

R$ 6.700 (Médio) a R$ 17.000 (Alto)

Fonte: Glassdoor

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UM PODER OPRIMIDO

Joana I é conhecida como a ”rainha louca”, um estado que lhe foi provocado para que se tornasse uma espécie de figura representativa na monarquia

Joana nasceu em 1479 e foi batizada com o nome da avó paterna e também em homenagem ao santo padroeiro de sua família, São João. Filha de Isabel I e Fernando V, os reis católicos da Espanha que tiveram quatro filhos, Joana foi certamente a mais controversa em vários aspectos, inclusive devido às sucessivas mortes dos irmãos herdeiros do trono. Sendo a quarta filha, foi quem sucedeu sua mãe (a herdeira legítima do trono, e não seu pai no reino de Castela.

Sua mãe envolveu-se pessoalmente na educação dos filhos, preocupada de que recebessem um ensino superior ao que recebeu quando criança, pois se ressentia do pouco preparo que tivera dos pais.

A rainha Isabel possuía paixão pelo conhecimento e sensibilidade pela cultura e criou espaço para   o desenvolvimento do humanismo renascentista em sua corte, sendo proprietária de uma das coleções de arte mais importantes de seu tempo, além de dispor de uma excelente biblioteca. Foi nesse ambiente que Joana cresceu, cercada de artistas e pensadores patrocinados por sua mãe.

Joana não pensava no amor ou em casar-se, muito religiosa e devota ao catolicismo tinha vontade de se tornar freira, porém sua insistência não foi o suficiente para convencer os pais, que já tinham um futuro reservado para ela desde bebê, que era casá-la com um príncipe europeu, com a intenção de conseguir um herdeiro que aliaria vários países ao reino espanhol. Era um jogo de interesse político, e ela não teve voz.

Joana era atraente e considerada uma excelente dançarina, tocava o clavicórdio muito bem. Entretanto, o que diferenciava Joana era o seu temperamento, pois possuía uma não submissão generalizada, depois de seu desejo de ser freira ter sido frustrado.

Embora a rainha Isabel recomendasse a suas filhas paciência e moderação, o exemplo oferecido por ela – mulher de fibra, rígida e governante implacável – certamente teve mais impacto na filha do que as orientações que pregava.

Esse comportamento rebelde de Joana contrariava o ideal cristão de retidão feminina exigido na época e seria a origem de muitos dos seus problemas com o marido que lhe foi escolhido.

A política matrimonial entre as casas reinantes da Europa levaria os reis católicos a organizar o casamento do filho mais velho, Juan com a arquiduquesa Margarida, filha do imperador Maximiliano I (do Sacro Império Romano-Germânico), mas Juan morre e consequentemente os planos mudam e como essa aliança era importante para os dois reinos, só restava Joana para realizar a união.

Quando seus outros irmãos mais velhos, Isabel e Miguel da Paz, também morrem, Joana se torna a presuntiva herdeira de seus pais.

O direito dela ao trono certamente foi um grande incentivo para que o imperador acordasse com aquele casamento. E de forma repentina, Joana, com 16 anos, se casa com um desconhecido, o arquiduque da Áustria, Felipe de Habsburgo, conhecido como “o Belo”, herdeiro do trono de Maximiliano I, um homem tão ou mais ambicioso e sem escrúpulos quanto seu pai. Foram viver em Flandres (na Bélgica).

O casamento não era nada além de uma aliança política, como centenas de outros das casas reinantes, e isso não causava estranheza, pois era o que os fazia permanecer nos tronos, oscasamentos políticos que geravam fortalecimento frente aos inimigos. Eles somente buscavam aumentar o prestigio de suas dinastias e exercer sua influência sobre as outras cortes estrangeiras.   Portanto, muito do poder era mantido e acrescentado, também, graças a uma hábil política familiar de uniões estratégicas. Mas, contrariando a natureza do casamento dinástico, Joana se apaixonou por seu marido, um homem indigno do sentimento que ela nutria por ele, que por sua vez não entendia o sentimento dela, pois era quase um absurdo na sua concepção, não só porque não nutria afeição de espécie alguma por ela, como também por ter uma vida livre e libertina, além de não comungar com o modo de vida católico dela. Na realidade, ele a desrespeitava em todos os aspectos, mas começaram a ter filhos, também por uma necessidade política.

Com o tempo, Joana vai se tornando obcecada pelo marido, enquanto ele ficava cada vez mais indiferente a ela, mantendo relações declaradas com várias amantes, uma das quais ela agrediu cortando o rosto em uma crise de fúria.

Felipe aproveitou a oportunidade e começou a afirmar que a esposa era louca e precisava ser isolada, com isso se livraria dela e pleitearia assumir o futuro trono da esposa.

Joana apresentava um ciúme patológico (zelotipia), obsessão em saber onde o marido estava, com quem e o que estava fazendo. Era impulsiva e protagonizava escândalos, brigas e gritarias (histrionismo) quando suspeitava de alguma traição (e eram muitas). Rumores de que a princesa estava começando a enlouquecer circulavam pela Europa; esses boatos foram divulgados pelo próprio Felipe, que não hesitou em confirmar a insanidade de sua esposa.

Sua mãe, a rainha Isabel, percebeu o plano de Felipe, tentou conscientizá-la, mas ela não lhe deu ouvidos. Só pensava em ter controle sobre o marido, sua vida girava em torno dele.

Isabel, como prevenção, determinou em testamento que, após sua morte, no caso de sua filha ser considerada inapta para governar, seu marido, Fernando assumiria o governo de Castela na qualidade de regente, e não o marido de Joana.

Também procurou influenciá-la como pôde para que ela se inteirasse dos muitos problemas da coroa espanhola, mas o fato é que Joana não tinha o menor interesse pelos assuntos de Estado.

Felipe, por sua vez, foi ao tribunal para tentar declará-la legalmente louca e assumir seu lugar no trono espanhol. Vendo- se traída de todas as formas por ele, seu ódio chegou a ser tão intenso como havia sido seu amor. Tornou-se violenta fisicamente contra o marido. Passou a seguir suas amantes nos lugares públicos.

Com o declínio da epidemia da peste negra que dizimou a Europa, o tema da loucura passou a ganhar maior atenção por parte das pessoas e autoridades públicas. Acusar alguém de louco era sem dúvida estar fazendo uma crítica a essa pessoa e aos seus costumes e ideias. Por não se comportar como se esperava de uma mulher cristã, Joana então se tornou um alvo. Ela deveria ser recatada e submissa ao marido e não contestá-lo em público e fazer escândalos.

No meio desse conflito ocorre a repentina e prematura morte do seu marido Felipe (1506), aos 28 anos. Sentindo-se culpada pela morte dele, pelas brigas frequentes que ocasionava, se descontrola totalmente e proíbe que qualquer mulher se aproxime dos restos mortais, aos quais ela ficou abraçada. Joana, que o idolatrava e depois o odiou, estava viúva, aos 26 anos, com cinco filhos pequenos (grávida do sexto), e era a futura rainha de três reinos (Aragão, Castela e Leão).

De luto, confusa, solitária e muito pressionada, perde o equilíbrio psicológico e tem crises de ausência, lapsos de memória e perda de identidade temporária (transtornos dissociativos). No imaginário de muitos, Joana havia herdado a mesma insanidade de sua avó, a rainha de Portugal. Esses fatos ajudaram a confirmar a “loucura” que atribuíam a ela. Atualmente há quem diga que possuía algum tipo de psicose, outros, que sofria de transtorno de personalidade histriônica (o mais provável). Foi afastada dos filhos a mando do seu pai (o que a deixou desolada e revoltada), e, para que ninguém estivesse apto a contestar sua insanidade foi trancada na fortaleza de Tordesilhas, longe de todos.

A mãe morre e o pai assume o trono da filha, alegando que ela estava louca, e a mantém isolada de tudo. Fernando governou por mais de dez anos sem se preocupar com a filha (a verdadeira rainha). Com sua morte; em 1516, foi sucedido no trono pelo filho mais velho de Joana, Carlos, que nunca quis verificar o estado de saúde da mãe. Tomou para si o trono sem hesitar e reforçou a necessidade de reclusão total da mãe, “tudo para o bem dela”.

Joana foi transformada numa espécie de rainha fictícia, uma figura representativa na monarquia ibérica, mas sem rosto e sem voz.

Podemos dizer que assim que se tornou a única herdeira do trono ela foi uma vítima do poder, um joguete nas mãos de homens ambiciosos e sem escrúpulos, como seu marido, Felipe, seu pai, Fernando e mesmo seu filho, Carlos (que continuou mantendo a mãe confinada e com isso se tornou o imperador Carlos I da Espanha). O equilíbrio mental de Joana foi testemunhado por inúmeras outras pessoas que conviveram com ela por muitos anos em Tordesilhas e que tiveram a oportunidade de comprovar que a rainha de Castela era uma mulher de posse de suas faculdades mentais. Era descrita como uma pessoa triste, porém muito cordial, gentil e totalmente lúcida.

Joana deu à luz seis filhos, numa época em que a mortalidade infantil era muito alta. Todos eles atingiram a maioridade e foram coroados: Carlos I, da Espanha; Ferdinando I, imperador do Sacro Império, suas quatro filhas se tornaram rainhas: Eleonor, rainha da França; Isabel, rainha da Dinamarca; Maria, rainha da Hungria; e Catarina, nascida depois da morte de seu pai, rainha de Portugal.

Em virtude dos diversos casamentos dinásticos que ocorreram nos anos seguintes, 12 reis da cristandade descendem de Dona Joana I, a Louca, como ficou conhecida na historiografia, sendo descrita como alguém incapaz de governar um grande reino.

Joana permaneceu quase toda sua vida reclusa na fortaleza de Tordesilhas, onde faleceu em 1555, aos 75 anos. Viveu uma história que possui elementos de uma autêntica tragédia e morreu solitária, injustiçada e traída por todos que usufruíram de sua coroa.

ANDERSON ZERIDARCI – é mestre em Psicologia pela PUC-SP, e palestrante, coordenador e professor do curso de especialização em Transtornos e Patologias Psíquicas pela Facis, professor de pós-graduação no curso de Psicologia de Saúde Hospitalar na PUC-SP. Atua há mais de 30 anos em atendimento clínico em diversos segmentos da Psicologia, com especial dedicação à psicossomática, transtornos e patologias psíquicas.