EU ACHO …

POBREZA MENSTRUAL

Meninas deixam de ir à escola quando estilo menstruadas por falta de absorventes

Não é mimimi, são direitos humanos. O combate à pobreza menstrual, algo que vem crescendo no mundo e felizmente no Brasil também, precisa ser um grito de todos que se importam com educação. Meninas deixam de ir à escola e até acabam por abandoná-la porque não têm absorventes quando estão menstruadas. Sim, é algo básico. Mas um problema real e triste em um país com milhões de famílias vulneráveis – empobrecidas mais ainda com a pandemia.

A situação chamou a atenção quando, em 2019, o filme Absorvendo o Tabu, da diretora iraniana Rayka Zehabchi, ganhou o Oscar por melhor documentário em curta metragem. Ele mostra meninas em uma vila rural da Índia que deixam de sair de casa quando estão menstruadas e sequer sabem o que é um absorvente. A vida delas muda quando é trazida para a cidade uma máquina de fazer absorventes e elas mesmas passam a produzi-los. O nome que dão ao produto é “Fly” porque perceberam que, a partir daí, podiam voar.

Isso não acontece só na índia rural. Uma em dez meninas no mundo perde aulas quando está menstruada, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). As estimativas são de que elas ficam sem ir à escola 45 dias por ano. Outro estudo do Unicef e do UNFPA sobre pobreza menstrual, divulgado mês passado, indica que no Brasil há 4 milhões de meninas que não têm itens

básicos de higiene nas escolas para quando estão menstruadas. E 713 mil que vivem sem acesso a banheiro ou chuveiro. Adolescentes negras têm três vezes mais chances de estarem nessa situação.

Pode parecer bobagem, mas um pacote de um bom absorvente custa pelo menos R$10, e um só às vezes não é suficiente para o período menstrual. O valor é alto para famílias pobres. Há relatos de meninas que usam jornal e miolo de pão como absorvente, algo trágico e que pode claramente levar a infecções.

Fora a questão prática, de simplesmente não conseguir sair de casa para a escola quando não tem algo decente para absorver o sangue que sai de dentro delas, as meninas precisam lidar com o tabu da menstruação. Muita gente até hoje acha que não se pode falar do assunto em público ou que é algo sujo. E pior, machistas usam a menstruação para justificar comportamentos mais assertivos das mulheres. Há alguns anos, sequer o nome menstruação era mencionado por mulheres e meninas.

As escolas são espaços ideais para resolver os dois problemas, o prático e o social/emocional. Professores, formados para isso, precisam conversar com as meninas e os meninos sobre o que é o ciclo menstrual, o significado desse período, a possibilidade de gravidez. Falar do assunto com clareza e sem preconceitos ajuda a tirar o estigma. É a educação menstrual, que precisa fazer parte de aulas de educação sexual, condenada pelo presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores. Pesquisas mostram como a educação sexual ajuda a evitar gravidez na adolescência e abusos.

E a escola precisa ter absorventes. Em países como Escócia, Austrália, Canadá, os produtos estão nos banheiros, garantidos por lei. Mais uma vez, básico, mas aqui não tem. A deputada federal Tábata Amaral apresentou projeto na Câmara há cerca de um mês para que as escolas possam comprar absorventes no Brasil. Em São Paulo, o governo lançou um programa que destina R$ 30 milhões para o mesmo fim. São 1,3 milhão de alunas na rede estadual paulista em idade menstrual e 500 mil em situação de vulnerabilidade.

Uma adolescente que deixa de ir à escola por estar menstruada tem acesso desigual a direitos e oportunidades. Deixa a nossa sociedade menos justa e a educação menos igualitária. Olhar para a pobreza menstrual é dar dignidade às meninas e asas para que possam voar para onde e como quiserem.

*RENATA CAFARDO – é repórter especial do Estado e fundadora da Associação de Jornalistas de Educação (JEDUCA)

OUTROS OLHARES

NOS EUA E NO BRASIL, MULHERES SE VACINAM MAIS DO QUE HOMENS

Em busca de ideal de masculinidade, eles podem tender a rejeitar medidas de proteção, afirmam especialistas

Em países das Américas, como Estados Unidos, Brasil e Argentina, as mulheres estão se vacinando mais contra a Covid. Já em algumas partes da África e na Índia, a situação é inversa: mais homens têm sido imunizados.

O papel de cada um nas diferentes sociedades e a valorização de uma figura masculina tradicional em algumas nações ajudam a explicar o dado, que pode atrasar a imunização geral e o fim da pandemia.

As estatísticas de vacinação por sexo foram compiladas pelo projeto The Covid-19 Sex Disaggregated Data Tracker, organizado pela Global Health 50/50, que busca a igualdade de gênero na saúde, em parceria com outras duas ONGs.

A iniciativa buscou números em 198 países, mas só 39 deles detalham a aplicação de vacinas por gênero. De modo geral, a população das nações quase sempre se divide em 50% de homens e 50% de mulheres. Assim, as mulheres estão imunizando mais nos EUA (elas tomaram 53% das doses já aplicadas), no Brasil (58,5%), na França (53,8%) e na Nova Zelândia (60,6%).

Para especialistas no Brasil, essa disparidade não é novidade, pois as mulheres tendem a cuidar mais da saúde.

“Esse comportamento tem relação com o acesso das mulheres à educação em cada país e a forma como a sociedade as valoriza”, avalia Eliseu Waldman, professor do Departamento de Infectologia da USP. Em lugares como Gabão e Índia, onde há poucas doses e as mulheres tem menos espaço na sociedade, os homens passaram na frente.

“Elas buscam mais informações sobre prevenção. Há uma cultura de que elas são as gestoras de saúde da família, pois cuidam das crianças, dos avós e dos maridos. Pode parecer machista, mas é uma evidência”, diz Isabella Ballalai, vice-presidente da SBim (Sociedade Brasileira de Imunização). Outra razão para a maior taxa de vacinação é que elas geralmente vivem mais. Nos EUA, a expectativa de vida das mulheres é de 81,1 anos, contra 76,2 dos homens. No Brasil, essa cifra é de 8o,1 anos para elas, e de 73,1 para eles. E, nos dois países e em boa parte do Ocidente, os mais velhos foram imunizados antes. Nos EUA, porém, a imunização está liberada para todos os maiores de 16 anos desde abril, e ainda assim a diferença é grande: cerca de 8 milhões de mulheres se vacinaram a mais do que os homens.

A resistência masculina ajuda a explicar a redução no ritmo da campanha de vacinação americana. Apesar da abundância de doses, o país imunizou por completo, até aqui, 46,4% de sua população.

 Especialistas apontam que o conceito de masculinidade tradicional pode explicar a menor procura deles pela proteção. Homens são mais propensos a questionar indicações de especialistas e a rejeitar medidas de prevenção como o uso de protetor solar. Ou seja, preferem decidir por si mesmos quais ações tomar. As tendências se repetiram na pandemia: levantamentos feitos nos EUA revelam que os homes estavam menos propensos do que as mulheres a usar máscaras e álcool em gel e a respeitar o distanciamento social. Alguns consideram que seguir essas regras pode passar um sinal de fraqueza.

“A conformidade com as normas masculinas tradicionais está relacionada às atitudes negativas sobre o uso de máscaras”, aponta um dos estudos, publicado no Journal of Health Psychology e produzido por James Mahalik, Michael Di Bianca e Michael Harris, que entrevistaram cerca de 600 pessoas em agosto.

Há também um fator positivo. Nos EUA, movimentos conservadores ligados ao Partido Republicano atraem seguidores que admiram o modelo de um homem destemido e autossuficiente. E essa legenda politizou a pandemia: sua principal figura, Donald Trump, recusa-se a usar máscaras e fez eventos com aglomerações em 2020, quando ainda era presidente. Sua mensagem, de que não era preciso temer o vírus e de que era válido ignorar a ciência, encontrava eco em homens que gostam de se afirmar.

“Muitas vezes, o discurso da extrema direita é contra atitudes saudáveis, como se imunizar, usar cinto de segurança e controlar a velocidade nas estradas”, diz Waldman, da USP.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro age de forma semelhante a Trump e continua promovendo aglomerações e desprezando as máscaras, enquanto busca se associar a símbolos de virilidade, como sair de moto ou cavalgar. Pesquisa Datafolha feita em março apontou maior resistência entre homens: 82% deles disseram ter planos de tomar a vacina. Entre mulheres, a intenção chegava a86%. No país, as mulheres tomaram 57,4% das doses, e os homens, 42,6%. Há maior igualdade na distribuição em estados do Norte, como Roraima e Amazonas, onde elas receberam cerca de 53% dos imunizantes aplicados (primeira dose), segundo o Ministério da Saúde. No Sudeste, a discrepância é maior; no Rio de Janeiro e em São Paulo, elas tomaram quase 60% das vacinas·

Nos últimos meses, a diferença vem caindo. Em janeiro, brasileiras tomaram quase 7 de cada 10 doses de vacina contra a Covid-19 aplicadas. Em junho, 5,7 de cada 10.

Os especialistas apontam que uma saída para aumentar a participação masculina é mudar as campanhas. “A comunicação costuma ser muito voltada para mulheres e crianças, e o homem não se vê ali. Precisamos incluir a figura masculina”, aponta Ballalai.

Símbolo da vacinação brasileira, o Zé Gotinha segue a lógica do apelo infantil. Para a campanha contra a Covid-19, foi criada uma família completa para o personagem.

De modo paralelo, em março, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, divulgou uma imagem que mostrava o mascote empunhando um fuzil com formato de seringa. Muito criticado à época, o desenho não foi mais divulgado.

Embora alguns vejam a recusa de vacinas como prova de valentia, o gesto pode ser sinal de medo, diz Ballalai.

“Quem trabalha com imunização brinca que o homem é o que mais tem medo de injeção. Já vi muitos desmaiarem”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 04 DE JULHO

PLANOS BEM-SUCEDIDOS

Confia ao Senhor as tuas obras, e os teus desígnios serão estabelecidos (Provérbio 16.3).

Somos seres contingentes e limitados. Não enxergamos o que se esconde nas fímbrias do futuro. Não sabemos nem mesmo o que é melhor para nós. Não sabemos orar como convém. Muitas vezes pedimos a Deus uma pedra pensando que estamos pedindo um pão. Por essa razão, precisamos submeter a Deus nossos sonhos, planos e desígnios. Não administramos os acontecimentos, nem mesmo podemos ter a garantia de que estaremos vivos daqui a cinco minutos. Dependemos totalmente de Deus. Não podemos ficar de pé escorados no bordão da autoconfiança. Precisamos rogar a direção divina para tudo o que fazemos, a fim de sermos bem-sucedidos. Precisamos confiar ao Senhor as nossas obras, para que nossos desejos sejam estabelecidos. Não é a nossa vontade que deve prevalecer no céu, mas a vontade de Deus que deve ser realizada na terra. Não é sensato fazer por conta própria uma série de planos para depois pedir que Deus os aprove; precisamos orar para que os planos de Deus sejam os nossos planos. Os caminhos de Deus são melhores do que os nossos caminhos, e os desígnios de Deus são mais elevados do que os nossos. Os planos bem-sucedidos são aqueles que descem do céu para a terra, e não aqueles que sobem da terra ao céu.

GESTÃO E CARREIRA

USO DE DRONES SE DIVERSIFICA E INCLUI ATÉ TRANSPORTE DE SÊMEN NA GRANJA

Startups desenvolvem serviços de entrega, mapeamento de área e conferência de estoque

Startups estão investindo no desenvolvimento e na cerificação de novos drones para ampliar o uso desses veículos no agronegócio, na inspeção de grandes ativos e na entrega de mercadorias.

 Em maio, a BRF fez um voo experimental em Toledo (PR) para testar o transporte de sêmen de suínos do centro de produção até o espaço em que ficam as fêmeas que servem como matrizes para a produção de animais.

Guilherme Brandt, diretor de agropecuária da BRF, diz que a tecnologia tem o papel de evitar a entrada de pessoas na granja e, com isso, diminuir os riscos de contaminação. Também podem tornar a distribuição de insumos agropecuários mais rápida e sustentável, por evitar o uso de caminhonete, afirma.

Segundo ele, foram realizados voos em distância de cinco quilômetros, com o equipamento seguindo automaticamente uma rota predefinida.

Após confirmada a viabilidade da operação, a companhia analisa qual a capacidade de carga e autonomia de voo que precisaria ser usada para ampliar a adoção de tecnologia. Ainda não há previsão de quando pode ocorrer a adoção regular dos equipamentos.

O projeto é realizado em parceria com a startup de Franca (SP) Speedbird Aero, que também tem planos para acelerar a entrega de comida pedida através do aplicativo, distribuir medicamentos e exames laboratoriais e produtos da indústria para o varejo.

No formato que foi testado pela startup, o produto ainda não vai do restaurante à casa do cliente.  A companhia usou o Shopping Iguatemi de Campinas (SP) para realizar voos de 400 metros de distância levando os pedidos de uma ponta do empreendimento até um centro de distribuição montado pelo iFood.

Com isso, o tempo para percorrer o trajeto do restaurante até o centro em que os entregadores retiram os pedidos das lojas do shopping para levar até o cliente caiu de 12 minutos, a pé, para 4 minutos, com drone, segundo o iFood.

Apesar de ter atingido suas metas, a operação, iniciada em 2020, foi suspensa por causa da pandemia, diz a startup.

De acordo com Samuel Salomão, fundador da Speedbird, o modelo desenvolvido pela startup e testado com o app de delivery pode levar dois quilos de carga por até oito quilômetros.

A companhia tem autorização experimental da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) para o equipamento e espera com seus testes conseguir certificação da agência para produzir em maior escala até o fim do ano. A companhia também desenvolve drones para distâncias e pesos maiores,

A startup Xmcbots testa um drone de carga para entregas em cidades do interior, que ganhou o nome de Drargo.

Giovanni Amianti, sócio da companhia, diz que o objetivo é que o veículo, com capacidade para voar até mil quilômetros e carregar até 41 quilos, leve encomendas até um centro logístico. A partir daí drones menores podem pegar as encomendas e leva-las até a casa do cliente.

A meta é que, com os drones, grandes varejistas consigam oferecer entregas no mesmo dia da compra em cidades muito distantes de suas lojas e centros de distribuição, diz o empresário.

A startup, criada em 2007 e atuante em mercados como reflorestamento e mapeamento de plantações captou R$ 30 milhões em investimentos em 2019 e busca mais recursos.

Fabrício Hertz, presidente da Horus Aeronaves, diz que, nos últimos dois anos, aumentou a quantidade de empresas de setores variados que perceberam a possibilidade de adotar drones nos negócios.

A companhia, que iniciou suas atividades no agronegócio, passou a oferecer nesse período serviços para que empresas monitorassem grandes ativos, como linhas de transmissão, torres de telefonia e parques em que estão estocados minérios.

Para conseguir ampliar a abrangência, geográfica de seu serviço de monitoramento, a startup tem parceria com mil operadores de drones que prestam serviço para ela em diferentes regiões do Brasil.

Na Panorama Id, a ideia é que empresas donas de grandes centros de distribuição usem os drones para fazer o inventário de seus estoques. Os equipamentos podem voar e registrar os códigos de barras dos produtos que estão guardados nas prateleiras mais altas, evitando quo funcionários tenham de subir em plataformas erguidas por empilhadeiras para fazer a conferência dos produtos, diz Antônio Carlos Matos, sócio da Panorama Id.

O empresário afirma que o serviço é usado por três clientes e outros dois estão em fase de implantação.

Além das aplicações em desenvolvimento, usos mais conhecidos também seguem ganhando espaço no mercado. Eduardo Goerl, da gaúcha Arpac, diz que seu serviço de pulverização de defensivos agrícolas químicos e biológicos (organismos vivos que combatem pragas) em plantações de cana a partir do ar cobriu 110 mil hectares em 2020. No ano anterior, o volume de terra sobrevoado pelos equipamentos foi de 25 mil hectares.

No serviço, antes do voo para pulverização, drones menores fazem um mapeamento da área para identificar as pragas, e, com isso, o insumo é lançado apenas ao redor da área infectada, evitando desperdício, diz Goerl.

A companhia atende usinas de cana na região Sul, em São Paulo, em Goiás, em Minas Gerais e em Rondônia. Cada estado possui equipe própria. Um desafio da companhia, de 50 funcionários, é ampliar as contratações para atuar em mais locais, por isso busca investidores.

TAREFAS EM TESTE PARA DRONES

• Transporte de sêmen de suínos do centro de produção até o espaço em que ficam as fêmeas que servem como matrizes para a produção de animais.

• Inventário de estoques – equipamento registra os códigos de barras dos produtos que estão nas guardados nas prateleiras mais altas, evitando que funcionários tenham de subir em plataformas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MACHISMO NOSSO DE CADA DIA

Inacreditável ganhou seu espaço de debate pela própria força da produção. É denso, intenso, desconfortável, mas altamente necessário nos dias de hoje

“Mesmo com boas pessoas, mesmo com pessoas que você pode confiar, se a verdade é inconveniente, se a verdade não faz sentido, elas não acreditam” (Marie Adler)

A rede de streaming Netflix tem se consolidado não somente na reprodução de filmes e seriados, mas também como uma forte concorrente na produção de conteúdo. A cada mês tem lançado títulos próprios e surpreendido seus consumidores. Inclusive depois de levantar muita discussão, suas produções têm sido aceitas como concorrentes em grandes festivais de cinema. O caso mais notável fica pelo Oscar 2019 dado a Roma, de Allonso Cuarón, como Melhor Filme Estrangeiro; concorreu pelo México, mas também havia sido indicado na categoria de Melhor Filme, e ganhou também o Oscar de Melhor Direção e Melhor Fotografia. Também tem a streaming honrosas passagens por festivais como Veneza e em mostra paralela em Cannes 2019, o que incensou a discussão existente por lá quanto às produções da plataforma no festival, que passou a exigir que tenham sido exibidas em salas de cinema na França, o que a Netflix se recusa a acatar.

Inacreditável chegou bem devagar, sem muito alarde. Causou um desconforto muito grande por onde passava e aos poucos os internautas começaram a falar mais e mais sobre ele. Depois de levar os primeiros socos no estômago, o espectador começa a ser apresentado a uma teia de sofrimento psíquico inimaginável e que, infelizmente, não está muito longe do real quanto à denúncia da mulher em relação a abusos sofridos. Seu primeiro episódio é tensão máxima e o espectador desavisado é lançado com intensidade na vivência absurda de uma pessoa estuprada, todo o calvário que muitas ainda têm que enfrentar quando resolvem denunciar.

O REAL E A FICÇÃO

A obra se baseia em um artigo investigativo que ganhou o prêmio Pulitzer de Jornalismo, “An unbelievable story about rape”, de Ken Armstrong e T. Christian Miller. Isso a torna mais desconfortável, não somente por ter acontecido, mas por sabermos o quão comum ainda é hoje, especialmente se pensarmos em um país machista, misógino e violento com as mulheres, como o   nosso Brasil atual tem se revelado em sua face mais sombria. Embora haja dureza no que a série mostra, Ken Armstrong conta que o que mais chamou sua atenção foi como a jovem repetia incansavelmente que faria tudo novamente, a denúncia quanto aos abusos sofridos por parte dos primeiros investigadores que cuidaram de seu caso.

Nosso seriado é centrado inicialmente em Marie Adler (Kaitlyn Dever), jovem adulta, negligenciada de afeto desde sua pequena infância e uma de tantas crianças que rodaram pelo sistema americano de foster parentes. Desde que se lembra, sua infância fora marcada por mudanças de lar, alguns com afetos, outros nem tanto. Resgatada aos 11 anos de uma casa onde sua mãe fabricava drogas com seu novo parceiro, jogada de casa em casa, a adolescente desenvolve toda uma estratégia para sobreviver psiquicamente a um afeto faltante e às constantes mudanças de ambiente em sua vida. Conhecemos a personagem quando ela está com 18 anos, fazendo sua transição para a maioridade.

A série começa em 2008, com Marie fazendo parte de um programa de transição no qual, ao completar a maioridade, e legalmente saindo do sistema de cuidados do governo, os jovens adultos passam a morar sozinhos, mas ainda orientados e supervisionados dentro da comunidade residencial. São mantidos sob supervisão para que possam transitar e ser adaptados a uma vida autônoma. Marie ainda tem contato com duas famílias que a acolheram recentemente, e são essas poucas pessoas que farão parte de seu drama, juntamente com seu amigo e ex-namorado.

A série é composta por oito episódios que causam muito desconforto em um círculo sufocante, especialmente os primeiros capítulos. Acompanhar o sofrimento de Marie não é para todos. Fica aqui o alerta de gatilhos emocionais, pois foram vários os relatos virtuais de pessoas que não aguentaram o peso emocional que a série desperta, em muitos momentos ela se torna extremamente aversiva, porque joga no sofá do espectador algo muito real e inacreditável em sua existência, coisas que, via de regra, prefere-se não pensar sobre. Para quem sofreu alguma espécie de trauma relativo à questão, ver a série pode ser ainda mais difícil ou mesmo insuportável, embora ela premie o esforço com um final redentor.

OCEANO DE NEGLIGÊNCIAS

O drama de Marie começa quando seu apartamento é invadido e ela sofre violência sexual; a característica do ataque é formulada para ser mesmo inacreditável, uma vez que o estuprador não deixa qualquer sinal de seu crime. Isso por si só já seria uma dose de sofrimento psíquico inimaginável, mas o que se segue coloca nossa personagem em um oceano de negligências e abusos. Os policiais despreparados que perguntam por diversas vezes a mesma coisa, algumas delas com ironia e agressividade, fazendo a pobre menina reviver seu abuso dezenas de vezes.  Não há qualquer empatia ou acolhimento a ela, nem mesmo pela enfermeira que faz a coleta de material para análise. É possível ver um mecanicismo totalmente despreparado e sem humanização no atendimento. Sua única rede de apoio é composta por suas duas mães ex-foster e os poucos amigos do condomínio onde mora. Começam aqui as negligências policiais, com as entrevistas e interrogatórios que deixam qualquer espectador tonto e irritado. A cada entrevista e interrogatório, um novo reviver de seu trauma, sem qualquer tato ou amparo emocional.

Vale ressaltar aqui que pessoas lidam de maneira diferente com situações de conflitos e abusos, indo desde o processo de negação até somatização ou apatia e depressão. Marie, já acostumada com negligências emocionais e com ausência de afeto, lida de maneira singular com o abuso, e isso desperta desconforto naquelas duas únicas fontes de afeto que tem até então: suas mães. Sua aparente indiferença traz a dúvida a quem não quer mesmo pensar em suas possíveis omissões.  Ao avisar a polícia sobre suas suspeitas, suas mães desencadeiam uma série de situações que levarão nossa personagem a sofrimentos inimagináveis. Todos ao seu redor, até mesmo por comodismo, preferem pôr em dúvida sua denúncia.

Nos episódios sucessivos, o trauma será ainda mais cruel e Marie será desacreditada pelos policiais envolvidos, por seus amigos e até pelos seus orientadores no programa de casa de que participa, e do qual acaba sendo expulsa por conta da punição que sofre por fazer a denúncia. Seu sofrimento aumenta e, sem ter mais qualquer suporte ou apoio, ela se verá desacreditada e absolutamente só. Não tem família e os poucos amigos começam a se virar contra ela.

Aqui começamos a trama paralela em um corte temporal e três anos depois em que a policial Karen Duvall (Merritt Wever) começa a investigar denúncias de casos semelhantes e, conversando    com seu marido, ele sugere que ela fale com outra investigadora, Grace Rasmussem (Toni Collette). Aqui temos um novo olhar, de uma policial empática, cuidadosa e que foca sempre nas vítimas. Tem-se a impressão de que estamos lidando com universos distintos, uma vez que as maneiras de lidar são tão distintas. Karen é um exemplo de policial e dá todo o suporte à nova vítima. Entretanto Karen investiga no futuro, Marie é massacrada no passado. É um ponto ainda maior para alavancar a série a presença de Toni Collette, que faz sempre ser uma delícia ver uma personagem interpretada por ela, mas diga-se que Merritt Wever marca com maestria sua personagem que faz par com Collette. Elas que farão toda a diferença ao investigarem um crime dessa natureza.

Para contrapor com a doçura da policial Karen, aqui conheceremos a policial Grace, mais durona, com maior experiência e mais séria na luta pela verdade das vítimas. Mais experiente e já um   pouco enrijecida pelo sistema e pela experiência, mas sem perder seu lado humano. Grace e Karen começam uma relação de trabalho meio complexa, de parceria e amizade, que será crucial para o desenvolvimento da série. Duvall guarda em si uma antiga admiração em relação a Grace. Enquanto isso, no passado, Marie encontra, a princípio, acalento e amparo no ex-namorado, diferentemente do que acontece com a vítima atual que Karen Duvall investiga com todo cuidado, a jovem Amber Stenvenson (Danielle Mcdonald), que será peça fundamental em toda investigação pelas informações precisas que fornecerá quanto ao ocorrido.

FUNÇÃO SOCIAL

Esse tipo de produção é fundamental para o que chamamos de cinematerapia acadêmica, pois tem uma função social muito importante. Esse seriado deveria ser visto e trabalhado no processo de formação de profissionais que irão lidar com vítimas de violência, abusos, tentativas de feminicídio, tendo em foco e guardadas as peculiaridades e indicações legais de cada recanto. Seja nas delegacias, seja nos fóruns ou nos locais de atendimento médico, psicológico e social, todos precisam saber como é esse sofrimento e como jamais devem agir nesses casos, duvidando ou culpabilizando a vítima. Colocar em dúvida ou relativizar uma vivência tão traumática significa com certeza, aumentar em muito, sua malignidade, é se pôr ao lado do abusador. Se há algo que Karen e Grace sublinham com seu impecável trabalho é essa questão do cuidado. É bastante emocionante quando ao fim das investigações Karen recebe um telefonema de Marie, agradecendo por se sentir cuidada mesmo sem nunca tê-las conhecido. Com certeza isso é um impulso para um profissional em formação querer se espelhar nesse tipo de seriedade e empatia.

Outro momento que a nós muito interessa se passa no sétimo episódio, quando Marie é obrigada a ir a uma terapeuta para não ser processada por “falsa denúncia” (sic), fato que como uma de suas mães dirá e Marie reconhecerá posteriormente, leva a pensar, com ironia, que em tudo se pode salvar algo de bom. Nessa sequência veremos um momento carinho para quem aprecia a Psicanálise (e psicoterapias com modelo próximo). Uma condição técnica delicada e empática, realmente interessada, uma “escuta” para além do que se pensa estar sendo dito (escuta analítica), realizada pela psicoterapeuta Dara Kaplan (Brooke Smith). Claro que na realidade quase nunca as coisas se darão tão cadenciadas como vemos naquela sessão, mas é didático o momento, marca a diferença entre realmente acolher ou intervir por demais. Sublinha, inclusive, o que tratamos aqui do quanto um filme pode ter em seu relato agregado conteúdos do narrador, sequência então especial para os estudiosos da utilização na modalidade cinematerapia e apreciadores da Psicanálise bem conduzida.

Quantas e quantas Maries não existem aqui no Brasil, onde a sociedade está cada vez mais machista, com aumento de mais de 70% nos casos de feminicídio nos primeiros meses de 2019. Um país que contabiliza 180 Maries POR DIA necessita com urgência desse tabefe que essa série (e fato real) traz à tela. O momento no último episódio, quando Grace Rasmussem liga para o primeiro investigador do caso, detetive Robert Parker (Eric Lange), libera um grito da garganta do espectador. Sua expressão de espanto e desolação é sem palavras para descrever, como ele mesmo vai reconhecer, teve que se ver na face de tudo aquilo que sempre criticou, o policial negligente.

Ao final, o criminoso quer falar e tem que ser com investigador homem, não quer falar com Karen ou Grace. Como uma ironia, ele diz que fica “desconfortável frente às mulheres”, ponto que parece sutil, mas que deve ser sublinhado como mote de todo ataque ao feminino, como esse ser incomoda a ponto de precisar ser agredido e apagado, essa mulher que remete às próprias armaduras que a masculinidade quis erguer para si e que hoje, desesperadamente, luta para manter isso quando a transformação já se encontra em curso, inevitável. A veremos se impor, mas não sem antes disso ter que lidar com a intensificação dos ataques, como por aqui em nosso país temos sido alertados neste ano de 2019, triste ano em que esse machismo de forma totalmente violenta tenta consagrar seu fake.

PROF. DR. EDUARDO J. S. HONORATO é psicólogo e psicanalista, doutor em Saúde da Criança e da Mulher.

DENISE DESCHAMPS é psicóloga e psicanalista. Autores do livro Cinematerapia: Entendendo Conflitos. Participam de palestras, cursos e workshops em empresas e universidades. Coordenam o site: www.cinematerapia.psc.br