EU ACHO …

ENVELHECIMENTO PRECOCE

Em vez de brigar para saber quem é mais jovem, deveríamos brigar pela implementação das políticas públicas do Estatuto do Idoso

Como se parece uma pessoa velha? Minha bisavó sempre repetiu que “velho é trapo”, ela era idosa. Quando eu nasci, dona Celeste tinha 60 anos, e quem foi criado por vó sabe a diferença que isso faz. Especialmente por uma avó tão da rua, com tanta energia, com tanta vontade de viver.

Ela me levava pra cima e pra baixo evira e mexe havia uma discussão com o motorista de ônibus que desconfiava de sua idade e consequentemente da gratuidade da passagem. Antes da invenção do Riocard, minha avó fazia questão de esfregar o RG na cara do motorista e de dizer que aquilo era um desrespeito e que “vocês agora são jovens e esquecem, mas um dia você vai envelhecer.” Era tipo uma praga e todos sabem que minha avó é feiticeira. Envelhecer pode ser uma praga.

Biologicamente envelhecer é um processo natural que, a não ser que você seja o Benjamin Button, começa à desde que você nasce. Todos os dias você morre com as suas células, renasce com elas e isso vai se repetindo até que a quantidade das que se renovam deixa de suprir as que morrem. Aí você morre.

Óbvio, o que você come, bebe, o quanto dorme, seus níveis de estresse, influenciam muito no processo. Se você nos últimos tempos tem se alimentado bem, feito exercícios regulares, dormido 8 horas diárias, não consumiu álcool e não sofreu de ansiedade ou tristeza, você não está no planeta Terra.

Não adianta, estamos todos envelhecendo mal e não teremos a energia da minha avó, hoje aos 92 anos. E sim, ainda que estejamos no mesmo oceano, não estamos no mesmo barco. Os mais pobres, e no Brasil sabemos todos a cor destas pessoas, comem pior, dormem pior, tem jornadas duplas ou triplas de trabalho, passam horas no transporte público abarrotado… Os que sobrevivem a tudo isso provavelmente não terão uma velhice tranquila. É curioso como o genocídio da população preta no Brasil tem tantas camadas.

Mesmo com toda essa tragédia anunciada, passamos as últimas semanas discutindo como envelhecer em frente às telas grandes, médias e pequenas. Aos 33, faz tempo que estou discutindo e reivindicando a vida adulta.  É engraçado como dizer “você não é mais jovem” é quase um xingamento, uma sentença de morte, uma praga. Tantos aprendizados e não aprendemos a viver sem procurar constantemente o futuro, desconsiderando a experiência.

Segundo dados da ONU de 2017, no continente africano, 77% da população está abaixo dos 35 anos e só em Angola são 47%. Apesar do contexto ser outro, eu nunca vi um lugar tão preocupado com a sua população mais velha, com seu bem-estar. De olhar e de ouvir minha percepção é de que por aqui as pessoas sabem que vão envelhecer e não estão preocupadas com isso, ao contrário, estão à espera da colheita. Já vi brigas no transporte em Luanda porque o cobrador desrespeitou uma mais velha. Para minha avó, os próprios passageiros reclamavam quando ela, com problemas no joelho, demorava para subir os degraus do ônibus.

Em vez de brigar pra saber quem é mais jovem, deveríamos estar brigando para garantir nosso direito de envelhecer com saúde pública de qualidade, aposentadoria digna, mobilidade, voz. Durante a pandemia, muitas são as míseras aposentadorias que têm garantido a comida na mesa de famílias inteiras. Deveríamos brigar pela implementação das políticas públicas previstas pelo Estatuto do Idoso, aprovada há 18 anos, mas com poucos avanços. Não vai adiantar beber o Instagram como se fosse fonte da juventude. Não é.

*** ANA PAULA LISBOA

OUTROS OLHARES

UNIVERSITÁRIOS: REFÉNS DA PANDEMIA

A retomada das universidades privadas, duplamente afetadas pela Covid, depende do ritmo da vacinação

O movimento em pinça – a união do polegar com o indicador – é a base do processo de escrita. Na estratégia militar, é a manobra em que um exército envolve outro pelos flancos. Para a educação privada, particularmente o ensino superior, a pandemia de Covid-19 foi um verdadeiro ataque pelos flancos: houve queda brutal no ingresso de alunos e aumento exponencial da inadimplência e da evasão. A dupla perda drenou as receitas de um setor no qual a inovação tecnológica estava ainda em fase de testes.

Pesquisa da Associação Brasileira das Entidades Mantenedoras do Ensino Superior divulgada recentemente mostra que essa batalha só terminará se e quando a vacinação progredir em velocidade superior àquela verificada até este momento. Segundo o levantamento realizado pela empresa de pesquisas educacionais Educa Insights, entre os jovens que ainda não foram vacinados e participaram da pesquisa, apenas 16% responderam ter a intenção de começar seus cursos em agosto, enquanto 43% vão aguardar o próximo ano letivo. Os não imunizados representam o público mais inseguro: 29% não se decidiram quando vão se matricular. Entre os vacinados, o porcentual é de 9%.

As perspectivas de início da graduação apresentam ligeira alta: os estudantes que decidiram se matricular imediatamente, ou seja, no próximo semestre, representam 19%, variação de 4% em comparação com o mesmo período do ano passado. Entre as razões para essa baixa adesão imediata figuram a conjuntura econômica desfavorável, o aumento no número de casos de contaminação do Coronavírus, com o início da terceira onda, e o anúncio do calendário de vacinação para a faixa etária mais jovem concentrado no segundo semestre na maior parte do País. Mesmo assim, a sondagem aponta redução do adiamento da decisão para quando houver normalização. Há um ano, 43% dos entrevistados iriam aguardar para definir sobre a matrícula e, agora, esse grupo corresponde a 26%. Aqueles que decidiram aguardar um pouco mais e só começar no início de 2022 são 43%, uma elevação em relação aos 38% registrados em março. Por fim, 12% têm a intenção de investir no ensino superior apenas daqui a 12 meses.

“Vimos esse resultado com leve otimismo”, avalia o diretor-presidente da Ames, Celso Niskier, pois, se a pesquisa sinaliza início de retomada, também indica que parte considerável dos alunos prefere aguardar o ano que vem, até o processo de vacinação se completar.”  Isso nos preocupa porque, quanto mais tempo levarmos para a retomada do acesso ao ensino superior, maior o risco de um futuro apagão da mão de obra, na medida em que o País vai precisar de profissionais de alta qualificação para a retomada do crescimento econômico, como vem sendo sentido em vários setores, entre eles o de Tecnologia da Informação”, pondera Niskier. As instituições de ensino superior particulares, afirma, fizeram alto investimento em transformação digital, adaptaram-se para o modelo de aulas remotas e ainda aguardam, “com muita expectativa”, a normalização pós-pandemia para voltar a crescer.

“Poucos setores sofreram tanto o impacto da pandemia como a educação”, assegura o analista Rafael Rehder, da Genial Investimentos. As medidas de isolamento e distanciamento social e a suspensão das atividades não essenciais obrigaram as entidades a fazer seus processos de admissão totalmente online, situação para a qual muitas não estavam preparadas, observa Rehder. O consultor Ricardo de Jesus, mestre em Administração de Empresas pela EAESP/FGV com tese sobre Gestão de Fluxo de Caixa em Escolas Particulares, reforça que os processos de back office, baseados na relação presencial de contratação e atendimento e sem plataformas digitais de contratação de serviços, tiveram impacto negativo nos índices de matrícula, rematrícula e provocaram o aumento da evasão nestes segmentos, dada a necessidade de mudança do formato presencial para online feito às pressas em 2020. O resultado foi um ponderável impacto na captação de novos estudantes, além dos números históricos de inadimplência e evasão, devido à crise, com efeito imediato sobre a receita das instituições.

“Podemos observar de perto esse impacto quando olhamos para a rentabilidade das empresas do setor de educação neste último ano. De janeiro do ano passado a abril de 2021, as empresas de educação tiveram a maior redução em seus lucros de todos os setores da Bolsa, com queda de 81,4%. A revisão também se refletiu na performance das ações, que obtiveram o pior desempenho no mesmo período, com desvalorização média de, aproximadamente, 50%”, detalha o analista da Genial.

O desempenho na Bolsa diz pouco, no entanto, a respeito da devastação causada pela pandemia no ensino privado, pois se circunscreve às empresas abertas com ações negociadas na BM&F Bovespa, justamente as capitalizadas, mais bem estruturadas, com gestão profissionalizada e abertas à inovação, elenca um investidor do setor que prefere não ser identificado. As instituições mais tradicionais em geral tiveram de se adaptar praticamente do nada – e isso apesar de, às vésperas da pandemia, em 2019, o Ministério da Educação e Cultura haver finalmente permitido dobrar a participação do EAD, o ensino a distância, nos cursos superiores, de 20% para 40%, exceto nas áreas da Saúde e Engenharia.

É consenso que a chave virou e tanto alunos quanto professores passaram a enfrentar a realidade de aulas 100% online. “A pandemia serviu como catalisador para o EAD, modalidade que vinha ganhando espaço no setor de educação há algum tempo”, diz Rehder, da Genial, lembrando que, entre 2014 e 2019, a adesão ao modelo de ensino a distância se acelerou, tato no número de ingressantes quanto na quantidade de cursos oferecidos: enquanto o total de novos alunos nas aulas presenciais apresentava redução de 14%, o EAD registrava crescimento de 119%, passando assim a representar 44% do total de novas matrículas, ante os 23% em 2014, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas. A pesquisa divulgada pela ABMES confirma que a preferência pelos cursos online só aumentou com a pandemia. “O EAD vem se confirmando como tendência e as empresas que se estagnarem ao segmento presencial terão dificuldades para se manter competitivas”, acrescenta o analista.

Francisco Scarfoni Filho, diretor-administrativo da Fundação FAT, testemunha: os programas passaram a ser mediados pela tecnologia, atendendo os alunos dos cursos técnicos pelas plataformas de conferência digital (Google Meet, Zoom, Teams), com horário marcado, e atividades corrigidas por WhatsApp. “Enviando mensagens para os alunos, mantendo o curso ativado, conseguimos controlar a evasão. Usamos todas as tecnologias e plataformas, assim fomos testando e não paramos de jeito nenhum. A participação tem sido muito boa e a desistência menor, inferior a 7%, contra a média de 30% do mercado.” Segundo Scarfoni, mesmo quando a vacinação estiver completa, os estudantes tendem a continuar a recusar aulas 100% presenciais e optar por cursos híbridos. Por isso, garante, “campi lotados, como no Mackenzie, na Anhembi Morumbi e outras, nunca mais”.

Ricardo Jesus ressalva que a educação superior ainda precisa trabalhar melhor os conteúdos no EAD, pois só a utilização das plataformas tecnológicas não é suficiente para proporcionar o crescimento no setor. “Os preços de mensalidades foram destruídos pela competição brutal pós-suspensão do Fies, como estratégia de alavancagem do ensino superior. O desafio das empresas é recriar o negócio educacional em bases mais sólidas que as atuais.”

O segredo, aponta Scarfoni, é a verticalização: captar o aluno a partir do ensino médio e mantê-lo fiel até a universidade. O executivo cita o caso recente da aquisição do Centro Universitário União das Américas, em Foz do Iguaçu, pelo Grupo Descomplica, que vai investir 1 bilhão de reais em três anos, e aumentar a sinergia com o curso preparatório para o Enem que tem 3 milhões de inscritos por ano. “Se montarem uma faculdade boa, acessível, e conquistar 5% desses 3 milhões, seriam 150 mil de alunos, número significativo”, diz. “Os grandes grupos de ensino superior vão se voltar para os cursos de educação básica. Os movimentos que as grandes instituições estão fazendo são esses: a Yduqs comprou um grupo do Enem porque sabe que o cara que está fazendo a prova almeja o ensino superior e é uma forma de captá-lo também para a faculdade.”

RETOMADA COM EAD

Estudantes consolidam a preferência pelo online

INTENÇÃO DE MATRÍCULA VS. ESTÁGIO DE IMUNIZAÇÃO/VACINAÇÃO

Aumento da vacinação incentiva estudantes a cursar faculdade

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 03 DE JULHO

DEUS JULGA NOSSAS INTENÇÕES

Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o Senhor pesa o espírito (Provérbios 16.2).

Nosso conhecimento é limitado. Julgamos segundo as aparências. A camada de verniz que cobre a covardia e esconde a coragem muitas vezes nos impressiona a ponto de pensarmos que os robustos Eliabes são os escolhidos de Deus. Deus não enxerga as coisas como nós enxergamos. Nós vemos o exterior, Deus vê o coração. Nós contemplamos a ação, Deus julga a motivação. Podemos pensar que tudo o que fazemos é certo, mas o Senhor julga nossas intenções. Somos a geração que aplaude a atuação, que premia o desempenho, que acende as luzes do palco para o glamour da aparência. Somos uma geração que idolatra o corpo e dá prioridade à beleza física. A Bíblia afirma, porém, que enganosa é a graça e vã a formosura. Mas a pessoa que teme ao Senhor, essa será louvada. O que conta para Deus não é o que aparentamos ser, mas quem somos. Às vezes as pessoas amam não quem somos, mas quem parecemos ser. Amam não nossa verdadeira identidade, mas nossa máscara. Não somos aquilo que somos em público, mas quem somos em secreto. O que tem valor aos olhos de Deus não é o que julgamos puro, mas o que Deus considera puro.

GESTÃO E CARREIRA

CRESCE FATIA DE HOMENS, NEGROS E MAIS VELHOS NO DESEMPREGO DE LONGA DURAÇÃO

Estudo sugere que mais chefes de família podem estar entre os que procuram trabalho há dois anos

A pandemia de coronavírus provocou mudanças no perfil dos desempregados de longa duração, que procuram trabalho há dois anos ou mais. Durante a crise sanitária, o Brasil registrou aumento na proporção de homens, negros e trabalhadores com 30 anos ou mais nessa situação, indica levantamento da consultoria IDados.

A análise foi produzida a partir de resultados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) trimestral, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O desemprego de longa duração descreve a realidade de profissionais que estão sem trabalho eprocuram novas vagas (formais ou informais) há pelo menos dois anos. No primeiro trimestre de 2021, quase 3,5 milhões de brasileiros enfrentavam esse quadro. Trata-se do maior número da série histórica da Pnad Continua, com dados desde 2012012.

Conforme a IDados, as mulheres ainda são maioria entre os desempregados de longo prazo, mas os homens aumentaram sua participação no grupo ao longo da pandemia. No primeiro trimestre deste ano, eles passaram a responder por 41,1% do total de pessoas nessa situação.

Um ano antes, no primeiro trimestre de 2020, a fatia masculina era de 37%. Ou seja, houve alta de 4,1 pontos percentuais no intervalo de um ano. Enquanto isso, a parcela feminina baixou de 63% para 58,9%.

Responsável pelo levantamento, o pesquisador da IDados Bruno Otoni lembra que as estatísticas oficiais costumam sinalizar maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho entre as mulheres. Entretanto, com a chegada da pandemia, a fatia masculina também passou a enfrentar obstáculos, o que se reflete nos dados de desemprego de longa duração, aponta economista.

No recorte por idade, a parcela de adultos com 30 anos ou mais foi aquela que elevou sua participação entre os desocupados há dois anos ou mais. Entre o primeiro trimestre de 2020 e igual período de 2021, subiu três pontos percentuais, de 50,2 para 53,2%. Assim, distanciou-se da fatia mais jovem, com19 anos ou menos, que recuou de 49,8% para 46.8%.

Ottoni ressalta que o grupo mais velho costuma reunir profissionais com experiência no mercado. mas isso não foi suficiente em muitos casos para garantir recolocação. Segundo ele, o quadro preocupa porque pode indicar que mais chefes de famílias tenham entrado na fila do desemprego de longa duração.

“Os resultados trazem preocupações. Grupos que antes não sofriam tanto no mercado de trabalho também passaram a sofrer. Em geral, a parcela com 30 anos ou mais não teria tantas dificuldades para se inserir, mas sofreu. Homens teriam maior facilidade, mas aí vem a pandemia, e eles não conseguem emprego”.

O levantamento traz ainda recorte por cor. No primeiro trimestre, profissionais negros passaram a responder por 64, 4% do total de desempregados havia dois anos ou mais.

A marca representa aumento de 1,3 ponto percentual em relação ao começo de 2020 (63,1%). Trabalhadores negros, frisa Ottoni, já amargavam mais dificuldades no mercado de trabalho antes da crise, registrando um aumento menor se comparado a homens e adultos de 30 anos ou mais.

Os profissionais brancos que estavam no desemprego de longa duração passaram de 36,9% para 35,6%, durante a pandemia. “Houve aumento entre os trabalhadores negros, mas não tão grande. A situação já era preocupante”, afirma o pesquisador.

Na visão de Ottoni, a volta dos desocupados de longa duração ao trabalho depende, principalmente, da retomada do setor de serviços. É que esse segmento é o maior empregador do país e, na pandemia, foi atingido em cheio por restrições.

A destruição de vagas ocorreu porque serviços diversos dependem da circulação de consumidores. Hotéis, bares e restaurantes fazem parte das atividades do setor.

Se a vacinação contra a Covid-19 acelerar, haverá uma perspectiva de melhora dos negócios – e do   mercado de trabalho – a partir do segundo semestre deste ano, conclui Ottoni.

“O que vai acontecer com esse grupo (desempregados com mais de dois anos) vai depender muito de serviços. Se houver recuperação, podemos ter recontratações primeiro de quem está há menos tempo desempregado e, depois, de quem está afastado no longo prazo. Esse pessoal é o que fica mais para o final da fila, porque, na hora de contratar, o empregador costuma buscar antes alguém desempregado há menos tempo”, afirma.

Com o impacto da pandemia no mercado de trabalho, a taxa de desemprego ficou em 14.7% no trimestre encerrado em abril. Assim, permanece no nível recorde da série histórica no país, iniciada em 2012. O IBGE divulgou o resultado nesta quarta (30).

Entre fevereiro e abril o número de desempregos totalizou 14,8 milhões. Os dados integram a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) com divulgação mensal.  

A taxa de 14,7% havia sido alcançada no primeiro trimestre. Entre fevereiro e abril do ano passado, período inicial da pandemia, estava em 12,6%.

Pelas estatísticas oficiais, um profissional está desempregado quando não tem ocupação e segue em busca de oportunidades. O levantamento do IBGE considera tanto trabalhadores formais quanto informais.

Na largada de 2021, o aumento de casos de coronavírus provocou novas restrições a atividades econômicas, o que dificultou a operação de empresas e a reação do mercado de trabalho.

Além disso, o auxílio emergencial foi interrompido na virada do ano e retomado apenas em abril, com redução nos valores pagos e no número de beneficiários. Conforme analistas, a paralisação pode ter levado mais gente de volta à procura por vagas, pressionando o índice de desemprego.

Segundo o IBGE, a população desocupada (14,8 milhões de pessoas) cresceu 3,4% (mais 489 mil pessoas) ante o trimestre móvel de novembro de 2020 a janeiro de 2021l.Também subiu 15,2 % (mais 1,9 milhão) em relação ao período de fevereiro a abril de 2020.

Adriana Beringuy, gerente da pesquisa do IBGE, sinalizou que o mercado de trabalho enfrenta dificuldades que se acentuaram com a pandemia.

“A gente vai ver ao longo do ano como vai ser a resposta da demanda por trabalho. A oferta está ocorrendo. As pessoas estão ofertando mão de obra. O recrutamento ou não vai depender de fatores que envolvem a economia como um todo. O mercado de trabalho responde a estímulos econômicos, como o consumo das famílias, a possibilidade de acesso a credito.”

A população ocupada (85,9 milhões de pessoas) ficou estável em relação ao trimestre móvel anterior (novembro a janeiro) e caiu 3.7% (menos 3,3 milhões de pessoas) ante o mesmo trimestre de 2020.

PERFIL DO DESEMPREGO DE LONGA DURAÇÃO

Divisão dos desocupados há 2 anos ou mais no país em %.

TAXA DE DESEMPREGO

No trimestre de fevereiro a abril, em %

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UMA EM CADA 4 CRIANÇAS TEVE REGRESSÃO DE COMPORTAMENTO DURANTE QUARENTENA

Pesquisa com grupo de O a 3 anos mostra que elas voltaram a ter práticas de quando eram mais novas: chorar mais, falar menos, fazer xixi na roupa. Para especialistas, situação normalmente é transitória e uma forma de a criança, sob estresse, solicitar acolhimento

De repente, o mundo de Benício, de 2 anos e meio, mudou. As visitas às casas de parentes e de outros bebês deram lugar a um só passeio: ir com a mãe ao supermercado, de carro. O menino parou de falar e voltou a usar mamadeira, enquanto os pais, com medo do vírus e do desemprego, tentavam lidar com um mundo assustador. Como Benício, não foi pequeno o número de crianças que, na pandemia, voltaram a ter comportamentos de quando eram mais novas: chorar mais, falar menos, fazer xixi na roupa.

Regressões no comportamento são sinais de que a criança está sob estresse e é uma forma que encontram de pedir aconchego. Estudo da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) indicou que 27% das crianças de 0 a 3 anos voltaram a ter comportamentos de quando eram mais novas. A pesquisa, divulgada este mês, indica que regressões geralmente são transitórias, mas devem ser observadas com cuidado pelas famílias. ”Notei que ele deixou de tentar falar. Começou a só apontar”, conta a mãe de Benício, a arte educadora Heloisa Trigo, de 41 anos. Com a regressão na fala, o menino também “voltou algumas casas” na alimentação: se recusou a comer alimentos sólidos e reativou a mamadeira.

A pesquisa da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal ouviu 1.036 famílias de todas as classes sociais. Embora a ciência já saiba que as crianças pequenas são menos atingidas de forma grave pela covid-19, pesquisadores em todo o mundo ainda tentam estimar os impactos emocionais e cognitivos do longo tempo de isolamento decorrente da pandemia e do estresse dentro das famílias. “Parte das regressões está relacionada a não conseguir manter o ambiente dentro de casa em função de variáveis externas que transbordam”, explica Mariana Luz, CEO da FMCSV. Em meio a uma situação sem precedentes, todas as famílias enfrentaram dificuldades, mas, segundo o estudo, pais da classe D se veem mais sobrecarregados e tristes.

“Foram muitos lutos, a ameaça do desemprego, de não conseguir prover o sustento. Depois a falta de esperança, sem ver uma luz no fim do túnel”, lembra Heloisa. O marido perdeu parentes e o emprego. Trabalhando de casa, Heloisa se sobrecarregou com rituais de limpeza que não acabavam mais para tentar se defender do vírus.  “Benício também sinalizou que estava difícil para ele”. De volta à escola, o espaço ekoa, na zona oeste de São Paulo, o menino voltou a comer, começa a se arriscar mais na fala e a mãe vê avanços.

Na casa de Tatiane Zanholo, de 36 anos, o vírus assustou o casal de dentistas, que teve medo de voltar ao consultório. Com duas crianças pequenas e sem ajuda de parentes ou babá, as tarefas se avolumavam. Murilo, hoje com 4 anos, respondeu com uma gagueira que nunca havia manifestado, piora na dermatite e um “choro interminável”, nas palavras da mãe. “No começo não sentia tanto, mas fomos ficando cansados.”

ALIVIO

Embora aflijam os pais, as regressões não devem ser vistas com desespero nem são sinais de que a criança terá defasagens no desenvolvimento. Muito mais do que adultos, crianças novas têm maior plasticidade cerebral – ou seja, se recuperam rapidamente quando são estimuladas e se sentem seguras.

As mães dos “bebês da pandemia” comprovam que as mudanças não demoram. ”Em uma semana virou outra criança”, diz a dentista Vanessa Junqueira, de 41 anos, sobre a ida do filho Rhian, de 1 ano e 4 meses, à escola após o isolamento.

O menino passou os 11 primeiros meses de vida sem contato externo. Qualquer um que não fosse mãe ou pai parecia um monstro para ele e Rhian não parava de chorar. “Só queria ficar comigo o tempo todo, muito apegado. Agora, está bem mais sociável”, lembra a mãe. De volta ao Colégio Rio Branco, em Cotia, Murilo também melhorou o choro e o sono.

Para Lino de Macedo, psicólogo e integrante do Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância, regressões ou atrasos no desenvolvimento devem ser observados pela família. O acolhimento com afeto e estímulos positivos, como as brincadeiras, cria segurança e favorece o desenvolvimento. “Em boa parte dos casos, um pai mais próximo, amoroso, paciente e receptivo ajuda.” Se as regressões são duradouras ou há atrasos na fala, as famílias devem procurar um especialista, que pode ser o pediatra da criança.

CHUPETA

Nas escolas, crianças pequenas retornam com questões que antes não surgiam. Diretora pedagógica do espaço ekoa de educação infantil na zona oeste de São Paulo, Ana Paula Yazbek percebe que as crianças chegam agora falando frases menos complexas. A situação não é encarada como algo preocupante, mas que demanda atenção e observação.

Com as chupetas por baixo das máscaras, as crianças retornaram ao Colégio Rio Branco, em Cotia. “As que tinham tirado a fralda voltaram a usar. Tinham deixado a chupeta e voltaram muito apegadas a ela”, conta Rosemary Vercezi Sertório, orientadora educacional da educação infantil. Há também, segundo Rosemary, um grupo de alunos que desenvolveu menos a fala do que poderia.

VOLTA À ESCOLA NÃO DEVE FOCAR TAREFAS

• O retorno ao colégio é outra estratégia que ajuda a reconstruir a rotina. “É um sinal concreto de recuperação de uma vida interrompida por mais de um ano”, diz Lino de Macedo, psicólogo do Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância. Mas, para fazer frente a questões como regressões ou atrasos no desenvolvimento, a volta não deve focar em tarefas a cumprir ou matérias. “Deve ser com acolhimento afetivo, social. O cognitivo aguenta esperar”, diz o assessor científico do Instituto Pensi.

PROBLEMA PODE ESTAR LIGADO À FALTA DE ESTÍMULO ADEQUADO

Preocupados com atrasos na linguagem após a quarentena, pais de crianças pequenas procuram consultórios de pediatras e psicólogos. Também pedem ajuda às escolas. A situação confunde as famílias e até os médicos, que ainda não sabem medir o impacto do isolamento no desenvolvimento dos pequenos. “Vemos no consultório crianças com atraso na linguagem. Os pais chegam apavorados achando que é autismo e não é. São consequências da pandemia”, diz Magda Lahorgue, presidente do Departamento Científico de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Diante da demanda das famílias, os pediatras agora precisam entender se as questões relacionadas à linguagem ou outros comportamentos regressivos nas crianças são transitórios. Em muitos casos, eles têm origem na forma como pais e filhos se organizaram na pandemia. “Quando vamos avaliar, são crianças que apenas ficaram sem estímulo adequado.” Mesmo que os pais tenham trabalhado em casa, nem sempre há interação e é comum o uso excessivo de equipamentos eletrônicos”, diz Magda.

Parte do trabalho dos profissionais é sugerir que as famílias tentem promover os estímulos para depois avaliar se ocorrem avanços. Johny Santos, psicólogo e supervisor da Clínica Accogliere, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, diz que houve um boom de procura de atendimento para crianças, incluindo as mais novas, de até 3 anos, a partir de fevereiro.

DICAS PARA LIDAR COM A SITUAÇÃO

1. ACOLHER. Regressões no comportamento são comuns em situações de estresse e uma forma de expressão das crianças. Os pais devem observar e acolher a criança. Também devem entender que a regressão tem a ver com o contexto.

2. ESTAR JUNTO. O contato dos adultos com as crianças deve ser aprofundado. Embora os pais estejam mais tempo em casa, nem sempre isso significa proximidade e acolhimento.

3. BRINCAR. As brincadeiras podem começar desde o primeiro ano de vida, com atividades como cantar.

4. BATER PAPO. A conversa com a criança deve ser estimulada, mesmo que ela ainda não entenda tudo ou saiba falar.