A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AUTISMO E INCLUSÃO SOCIAL

Incluir uma criança ou jovem com autismo na sociedade exige conhecer com profundidade suas características, sua forma de aprender, de existir, de se relacionar e tudo que faz dele um ser com suas singularidades

A partir da publicação do DSM- 5 em 2013, tivemos mudança na nomenclatura. No lugar de autismo, transtorno do espectro autista (TEA). Por que a mudança? A palavra espectro nos remete à dimensão da diversidade que existe dentro do quadro. Um pode ser verbal e outro não, um pode ter problemas de sono, hiperfoco com um determinado assunto e outros não. O fato é que temos níveis diferentes de TEA, podendo ser levem moderado ou severo, e obviamente que a gravidade interferirá no desenvolvimento, tal qual a fase em que descobrimos o diagnóstico. Quanto mais cedo melhores e maiores os progressos. Essa frase já é um consenso entre todos os especialistas que atuam na área. Mas muito mais do que isso, há uma importante alteração que precisa ser compreendida e direcionará nossos trabalhos: no DSM-4, era diagnosticado autista quando o sujeito apresentava prejuízos na linguagem, na interação social e interesses restritos, comportamentos repetitivos, como por exemplo apresentar movimentos corporais, denominados estereotipias, tais como balançar as mãos e o tronco ou gostar de utilizar somente um tipo de objeto.

Já no DSM-5, os aspectos que envolvem a linguagem e a interação social se interligam formando a comunicação social. Os interesses restritos e repetitivos permanecem. Surge uma dúvida especialmente entre familiares e educadores: então a interação social deixa de ser um critério diagnóstico? Não, a linguagem agora não basta ser ecolálica, repetitiva, mas deve estar a serviço da comunicação, da interação, especialmente do diálogo. Para ser considerado um sujeito com TEA verbal não bastam palavras ou sílabas, mas esse sujeito deve iniciar, manter e encerrar uma conversa.

Quando falamos de inclusão, é preciso delimitar de qual inclusão estamos falando, pois existe a inclusão na escola regular, no trabalho, nas atividades esportivas, e a inclusão social abrange todas essas e mais todos os setores que representarem o exercício dos direitos da pessoa com TEA.

Como incluir? Na escola, vale lembrar que, de acordo com a nota técnica nº 4 do MEC, é proibido exigir da família o laudo técnico, pois no passado essa exigência era motivo de discriminação e negação dos direitos básicos.

No trabalho, procurando saber quais são suas áreas de expertise e áreas deficitárias para pensar na atividade ocupacional, os esportes, além das características semelhantes com a atividade laboral, considerar a presença de hiper ou hiposensibilidade.

Pode ser que a pessoa com TEA necessite de um acompanhante para colaborar com o desenvolvimento de sua autonomia e essa necessidade pode ocorrer desde a infância até a fase adulta.

Em 2015 foi promulgada a Lei Brasileira de Inclusão, nº 13.146/2015, que assegura vários direitos da pessoa com autismo, desde a educação até a vida adulta. Embora ainda haja muito o que refletir sobre essa lei e várias críticas de especialistas sobre ela, não podemos deixar de reconhecer que foi um avanço para todos aqueles sujeitos que precisam viver com suas necessidades especiais em um ambiente que não foi preparado para eles nem do ponto de vista arquitetônico e muito menos atitudinal.

Para garantir a independência desse sujeito na inclusão social e a possibilidade de ter uma vida plena, é preciso fazer boas escolhas desde o início do diagnóstico até as terapias escolhidas. A família também precisa ser acompanhada, uma vez que só cuida bem quem está bem, e há fragilidade nas políticas públicas de inclusão que acabam por expor todas as pessoas com TEA,a viver à margem dos direitos que todo cidadão deve usufruir.

O impacto na vida dessas pessoas e de seus familiares é intenso, pois na dimensão prática e afetiva os pais relatam nas entrevistas, como uma de suas principais preocupações, como será o futuro, como será quando nós não estivermos mais aqui? Essas perguntas feitas nas relações parentais, nos ambientes pedagógicos e clínicos servem para trazer à tona uma outra discussão. A maioria dos artigos científicos que tratam do TEA se refere ao transtorno como “autismo infantil”, dando   a impressão de que ao crescer tudo será resolvido quase que naturalmente. Por isso, da mesma forma que nos impacta a proporção atual de nascimentos de crianças com TEA, um caso para 38 nascimentos, nos perguntamos o porquê de quase não encontrarmos adultos com essa condição nos ambientes públicos.

A morte precoce é mito, pois as comorbidades que acompanham o autismo, com raríssimas exceções, expõem essas pessoas ao risco de morte, mas em movimento contrário ao que desejamos, na adolescência e na vida adulta, uma boa parte retorna ao confinamento pela ausência de políticas e práticas que garantam a sua participação social e vida autônoma. Há, certamente, muito trabalho a fazer.

DAYSE SERRA – é doutora em Psicologia pela PUC-Rio, mestre em Educação Inclusiva pela UERJ, professora da Universidade Federal Fluminense. Escritora, terapeuta de família e casal pela Logos Psi, membro da Comissão Científica da Abenepi, membro do Conselho Editorial do Colégio Pedro II.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.