EU ACHO …

A NOVA LINHA DE CHEGADA

“Todas as vezes que temos a chance de avançar, eles mudam a linha de chegada”. Lembro desta frase dita por Mary Jackson, interpretada por Janaelle Monáe, no filme “Estrelas além do tempo”. A tradução literal do título original (“Hidden figures” poderia ser “Figuras escondidas”, penso eu para se referir ao papel de mulheres negras que trabalhavam, sem nenhum reconhecimento, na Nasa, quando as leis de segregação ainda estavam vigentes nos Estados Unidos. Cabe lembrar que desdobramentos dessas leis ainda influenciam as práticas até hoje e não só lá fora, mas aqui no Brasil também.

No filme, Jackson, uma das três personagens centrais desejava ser engenheira auxiliar numa missão espacial, mas foi impedida pois precisaria de um certificado que somente poderia ser obtido em uma escola onde apenas pessoas brancas estudavam na época. Mary, então, pleiteou em juízo uma autorização para estudar no local e finalmente conseguiu.

A figura da linha de chegada movida adiante era a de que não bastava estar na Nasa e ser uma profissional supercompetente e dedicada. Quando Jackson achou que já tinha conseguido algo muito importante por trabalhar na agência espacial, viu-se diante do desafio de conseguir a tal certificação para poder avançar na carreira. E assim tem sido no mundo profissional ainda nos dias de hoje.

Essas linhas de chegada que são movidas constantemente lembram muitas situações e diálogos que tenho tido com pessoas que trabalham com diversidade e inclusão nas empresas.

Logo após o assassinato de George Floyd, muitas manifestaram interesse na construção de um pilar antirracista e canalizaram esforços, pelo amor ou pela dor, para tratar a temática racial. Começaram a abrir áreas voltadas para a diversidade e a inclusão.

Quando o termo do momento passou a ser ESG (sigla para environmental, social e governance), muitas que estavam montando essas áreas de diversidade e inclusão dissolveram o foco para tratar das três temáticas: ambiental, social e governança. E você pode se perguntar: “Ué, tudo não coopera para a construção de uma sociedade mais igualitária? Olhar questões socioambientais de modo mais amplo não seria melhor? “.

Idealmente sim, mas muitas empresas estão apenas surfando na onda do momento e criando novas linhas de chegada de acordo com as tendências. Isso explica a falta de avanços concretos e de um olhar de longo prazo.

Quando vejo empresas trocando diversidade por ESG e falando sobre ESG sem nem saber ao certo o que significa, sem definir metas para cada eixo, enxergo um erro crasso. Olhar o todo e criar eixos com metas para conseguir mensurar os avanços em cada área é essencial. O que frustra é querer fazer tudo e não dar nenhum passo adiante.

Tenho a sorte de transitar entre várias empresas e receber mensagens em meu LinkedIn de figuras que só estão escondidas por conta de um racismo, machismo, capacitismo e LGBTfobia estruturais que as impedem de avançar nas carreiras e exercer seu pleno potencial.

A atualização das siglas dissolve prioridades. Várias empresas adiam avanços que deveriam ser primordiais em eixos temáticos específicos, onde estão super atrasadas.

Acredito que precisamos dar nome às nossas prioridades até para podermos mensurá-las. Se quisermos ser antirracistas precisamos investir na temática a longo prazo, independentemente de siglas e da tendência do momento.

*** LUANA JANOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

OUTROS OLHARES

UMA MENTE BRILHANTE

A cientista brasileira Angela Olinto entra para a história ao receber duas honrarias científicas que apenas gênios da humanidade conquistaram

Reconhecimento histórico, merecido e necessário. Infelizmente, o Brasil não é um País que incentiva a educação e a ciência, um erro que cobra um valor alto, principalmente quando nossos talentos são recrutados por grandes potências. É o caso da física brasileira Angela Villela Olinto, que entrou para a história na última semana ao ingressar em duas prestigiadas instituições científicas dos Estados Unidos no mesmo momento: a Academia Americana de Artes e Ciências e a Academia Nacional de Ciências. Feito incomum, para não dizer quase impossível.

Mesmo em um País que desampara seus cientistas, Angela, de 59 anos, sempre se dedicou às pesquisas. Formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), mergulhou no estudo das astropartículas e tornou-se referência mundial. Tamanho brilhantismo chamou atenção de instituições de renome, como a Universidade de Chicago, nos EUA, da qual é reitora da Divisão de Ciências Físicas e Matemáticas, e da NASA, que financia suas pesquisas. Em entrevista à ISTOÉ, ela revela que o amor pela profissão fez total diferença na carreira e, claro, nas homenagens que recebeu. “É o ápice do reconhecimento, foi super especial, mágico”, diz. “Espero que tenha inspirado outras pessoas”. Angela agora integra um time seleto de mentes brilhantes, como Albert Einstein e Charles Darwin, que também foram membros da Academia Americana de Artes e Ciências. Mas, nem mesmo eles entraram simultaneamente na Academia Nacional de Ciências, como aconteceu com a cientista brasileira. Angela, contudo, não se sente pressionada pela façanha conquistada. Ela encara a situação com naturalidade, demonstrando que nasceu para ser uma referência e quebrar paradigmas.

MULHERES NA CIÊNCIA

Os membros selecionados para a Academia Americana de Artes e Ciências precisam atender a um requisito comum: serem líderes em suas áreas, seja nas artes, no conhecimento científico, nas relações públicas, entre outras. De 120 vagas na academia em 2021, 59 foram ocupadas por mulheres, o maior número já eleito. Ou seja, num mundo machista e sedento por igualdade de gênero, Angela participa de uma revolução feminina e não está sozinha. “As mulheres mostraram que não há diferença na capacidade com os homens, algo que não acontecia há 100 anos”, destaca a cientista. Atualmente, Angela concentra seu trabalho na NASA, especificamente no programa Poemma (Sonda dos multi-mensageiros astrofísicos extremos, em português), projeto que pretende estudar astropartículas energéticas e raios cósmicos. Ela confessa que a pesquisa pode virar uma missão espacial até 2030. “A NASA é muito especial pra mim, financia minhas pesquisas, me dá estrutura de trabalho e isso me ajuda muito”, conta. Questionada se poderia dar uma dica para as mulheres que sonham em ser cientistas, sobretudo as brasileiras, ela é enfática: “Sonhe os maiores sonhos. Escolha um caminho e foque, isso fará a diferença”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 30 DE JUNHO

NÃO DESPREZE SUA ALMA

O que rejeita a disciplina menospreza a sua alma, porém o que atende à repreensão adquire entendimento (Provérbios 15.32).

A palavra “disciplina” tem uma conotação negativa na língua portuguesa. Traz a ideia de castigo. No entanto, o seu significado original não é esse. Ao contrário, disciplina significa ter alguém ao nosso lado como nosso encorajador. A disciplina tem o propósito de corrigir nossas atitudes e nossa rota e colocar-nos de volta no caminho da verdade. A disciplina pode até ser motivo de tristeza no momento em que está sendo aplicada. Nem sempre queremos mudar de atitude ou de direção. Mas quem rejeita a disciplina menospreza a sua alma e faz pouco caso de si mesmo. Quem não escuta conselho sofre as consequências de suas escolhas apressadas. Mas o fruto da disciplina traz paz e amadurecimento espiritual. Quem atende à repreensão adquire entendimento. Quem escuta a advertência investe em sua própria alma. Quem aceita a correção fica mais sábio. O propósito da disciplina não é nos destruir, mas nos purificar. O fogo da disciplina só queima as escórias e as amarras que nos prendem. A disciplina não nos enfraquece, mas tonifica nossa musculatura espiritual. Ela nos torna mais fortes, mais santos, mais sábios, mais prontos a viver a vida para a glória de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

SUCESSO DA AMAZON ESCONDE UM AMBIENTE DE TRABALHO HOSTIL

Sistema automatizado de gestão de funcionários entrou em colapso na pandemia. Doentes foram demitidos ou tiveram benefícios cortados

Em setembro passado, a fisioterapeuta Ana Castillo viu um e-mail da Amazon que não fazia sentido. Seu marido havia trabalhado para a empresa por cinco anos. “Notificamos seu gerente e o RH sobre seu retorno ao trabalho em 1 de outubro de 2020”, dizia a mensagem.

Ano não acreditou no que leu. Seu marido de 42 anos, Alberto, estava na primeira leva de funcionários a testar positivo para o coronavírus. Afetado por febres e infecções, ele sofreu danos cerebrais.

Durante meses, ela alertara a empresa que seu marido estava gravemente doente. As respostas foram desconexas e confusas. E-mails e ligações para os sistemas automatizados da Amazon acabavam num beco sem saída.

Os benefícios da empresa eram generosos, mas Ana entrou em pânico quando os pagamentos por invalidez foram misteriosamente interrompidos. Ela conseguiu falar com vários funcionários de RH, um dos quais restabeleceu os pagamentos. Mas, depois disso, o diálogo passou a ser feito apenas por respostas automáticas e mensagens de voz no telefone de seu marido perguntando se ele voltaria.

– Eles não acompanharam o que aconteceu com ele? – ela se perguntou.  -Seus funcionários são descartáveis?

O local de trabalho de Alberto Castillo, o armazém gigante em Staten Island, que é o único centro de fornecimento da Amazon para Nova York, vinha fazendo o impossível na pandemia. Com as empresas de Nova York sofrendo um colapso, o armazém, chamado JFK8, absorveu funcionários de hotéis, atores, bartenderse dançarinos, pagando quase US$18 por hora. O JFK8 ajudou a Amazon a quebrar recordes de remessas, atingir vendas estratosféricas e obter o equivalente aos lucros dos três anos anteriores em um só.

CONTATO HUMANO REDUZIDO

Esse sucesso, velocidade e agilidade foram possíveis porque a Amazon e seu fundador; Jeff Bezos, foram os pioneiros em novas formas de gerenciamento em massa de pessoas por meio da tecnologia, contando com um labirinto de sistemas que minimiza o contato humano para crescer.

Mas a empresa falhava com seus funcionários de forma que as pessoas de fora não podiam ver; de acordo com investigação do New York Times, noarmazém JFK8 no ano passado. Em contraste com seu processamento preciso e sofisticado de pacotes e produtos, o modelo da Amazon para gerenciar pessoas – altamente dependente de métricas, aplicativos e chatbots – era desigual e tenso mesmo antes da chegada do coronavírus. Muitas vezes, os trabalhadores tinham que se virar sozinhos para explicar seus problemas.

Em meio à pandemia, o sistema da Amazon resultou em demissões inadvertidas e benefícios paralisados e impedia a comunicação. Quando a Amazon ofereceu aos funcionários licenças flexíveis, o sistema que cuidava delas travou, emitindo uma enxurrada de avisos de abandono de emprego. A equipe responsável teve que correr para preservar as pessoas, de acordo com empregados do RH.

A Amazon continuou a monitorar cada minuto dos turnos da maioria dos trabalhadores do armazém, desde a rapidez com que embalavam a mercadoria até o tempo que durava uma pausa. Se a produtividade caía, os computadores da Amazon presumiam que a culpa era do trabalhador. No início da pandemia, a varejista on-line interrompeu a demissão de funcionários por baixa produção, mas essa mudança não foi anunciada claramente no JFK8, então, alguns empregados temiam que trabalhar devagar custaria seus empregos.

“É muito importante que os gerentes de área entendam que os trabalhadores são mais do que apenas números”, escreveu um funcionário no quadro de feedback interno do JFK8 no fim do ano passado. “Somos seres humanos. Não somos ferramentas usadas para fazer suas metas diárias/ semanais”, acrescentou.

A empresa divulgou números impressionantes de criação de empregos: somente de julho a outubro de 2020, ela contratou 350 mil trabalhadores, mais do que a população da cidade americana de Saint Louis. Muitos dos novos recrutados – contratados por meio de triagem de computador, com pouca conversa ou verificação – duraram apenas dias ou semanas.

Mesmo antes da pandemia, mostram dados, a Amazon perdia cerca de 3% de seus funcionários horistas a cada semana, o que significa que a rotatividade entre sua força de trabalho era de cerca de 150% ao ano.

BEZOS ADMITE FALHAS

A Amazon reconheceu alguns problemas com demissões inadvertidas, perda de benefícios, avisos de abandono de emprego e licenças, mas se recusou a revelar quantas pessoas foram afetadas.

Mas vários ex – executivos que ajudaram a projetar os sistemas da Amazon disseram que a alta rotatividade, a pressão sobre a produtividade e as consequências da ampliação acelerada do número de funcionários se tornaram graves demais para serem ignoradas.

Até mesmo Bezos, em seu último período como CEO da empresa que criou, agora está, surpreendentemente, admitindo algumas falhas. Em uma carta recente aos acionistas, disse que o esforço sindical mostrou que “precisamos de uma visão melhor de como criamos valor para os funcionários”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TESTES VOCACIONAIS – DIFERENÇAS ENTRE OS PROCESSOS

Ainda existe confusão no que se refere aos testes vocacionais, testes psicológicos e orientação profissional, pois enquanto um está disponível na internet, outro é de uso restrito a psicólogos, e a terceira ferramenta é um processo mais longo

Existe uma pequena confusão no que diz respeito aos testes vocacionais ou psicológicos com a orientação profissional, mas são coisas diferentes.

Um teste vocacional simples pode ser encontrado disponível na internet de forma rápida e muitas vezes gratuita, prometendo fornecer orientações sobre as inclinações profissionais de quem o fizer, mas sem embasamento teórico ou científico.

Já os testes psicológicos são ferramentas de uso restrito a psicólogos, regulamentados pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) e resultado de extensa pesquisa científica. Há uma grande variedade de testes psicológicos, dentre os quais aqueles que avaliam características específicas pertinentes à orientação profissional. Tais testes podem ser utilizados na orientação profissional e, dentre outras etapas, desempenham um papel fundamental nesse processo.

Finalmente, quanto à orientação profissional, ela compreende um processo realizado por um profissional capacitado que compreende diversas etapas, visando autoconhecimento e desenvolvimento de ferramentas para a tomada de decisão para inserção no mercado de trabalho. É, então, dentro desse processo que os testes psicológicos específicos poderão ser utilizados (testes psicológicos só podem ser aplicados exclusivamente por psicólogos).

FERRAMENTAS

Diferentemente de um exame clínico, por exemplo, que permite obter um resultado “positivo” ou “negativo” para determinada patologia, os testes psicológicos aplicados no processo de orientação profissional não oferecem um resultado definitivo e taxativo que determine a profissão a seguir. Nesse contexto, os testes desempenham um papel específico no fornecimento de subsídios para melhor orientar o processo como um todo, podendo ser utilizados como uma das ferramentas para avaliar os interesses profissionais, autoeficácia para escolha profissional, inteligência, personalidade, atenção, para onde estão direcionados os interesses da vida, entre outros. De forma geral, tanto no Brasil quanto no exterior, os instrumentos psicométricos (testes psicológicos) são ferramentas comumente utilizadas para avaliar percepção de barreiras, competências de proatividade, exploração vocacional, dificuldades de tomada de decisão, autoeficácia, atribuição de causalidade, satisfação de vida, indecisão vocacional e maturidade para escolha profissional – sendo este último o mais comumente usado. Abordagens mais atuais de orientação profissional propõem o emprego de instrumentos capazes de avaliar o processo de aprendizagem e desenvolvimento em detrimento dos focados no resultado da escolha, O uso exclusivo desses instrumentos psicométricos pode apresentar, como limitação, a perda de informações acerca de outras variáveis que influem no processo de escolha e construção de carreira, tais como as influências familiares, sociais e culturais, que não necessariamente são abordadas nos instrumentos e que tendem a contribuir significativamente no processo de escolha profissional.

HABILIDADES

A orientação profissional é um processo que visa contribuir para a formação integral dos indivíduos, oportunizando o autoconhecimento, descoberta e uso das habilidades, de forma a viver pleno com um máximo de proveito individual e social.

É também o resultado de um processo de inúmeros movimentos, estudos e pesquisas, por meio dos quais é possível coletar e organizar dados. A partir disso, são explorados inventários e testes psicológicos que servem como recursos adicionais, tornando a orientação profissional mais eficiente e complexa, instrumentalizando o processo de tomada de decisão na construção de seus projetos profissionais e de vida, articulando o conhecimento dos aspectos implicados no mercado de trabalho e o universo subjetivo de cada um.

Uma vez que a escolha profissional envolve uma multiplicidade de variáveis (familiares, sociais, políticas, econômicas, psicológicas etc.) que influenciam em menor ou maior medida na escolha e no vínculo desenvolvido em relação ao objeto de trabalho, as mesmas deverão ser avaliadas e ter seu peso mensurado, a fim de melhor orientar o processo. Assim, a orientação profissional precisa considerar todos esses aspectos, colocando o jovem como autor da sua própria trajetória profissional.

Como ferramenta a fornecer embasamento e significativo apoio no processo de autoconhecimento e tomada de decisão, a orientação profissional não se trata de um método passivo, ou seja, não se resume a submeter o avaliado a um teste, mas, sim, ele é convocado a participar dessa etapa de autoconhecimento, no qual o orientando é convidado a refletir sobre as suas próprias características e a fazer um paralelo frente ao mercado de trabalho. O orientador irá apresentar ao orientando as especificações do mercado de trabalho, as dificuldades e facilidades de cada área de atuação, bem como auxiliará a identificar, no meio do adolescente, as variáveis que possam influenciar nessa escolha.

A avaliação psicológica de inclinações motivacionais e interesses, ou o processo de orientação profissional é, portanto, um trabalho no qual diversos aspectos do sujeito são avaliados por um psicólogo capacitado, através de várias etapas.

AUTOCONHECIMENTO E PROJETO DE VIDA: identificação de expectativas em relação ao trabalho; autoestima, interesses, habilidades, valores, modelos de identificação; passado (quem foi), presente (quem é) e perspectivas futuras (quem será);

IDENTIFICAÇÃO DAS INFLUÊNCIAS NAS ESCOLHAS: identificação de fatores que influenciam nas decisões e escolhas profissionais (família, amigos, sociedade, cultura etc.);

CONHECIMENTO DAS PROFISSÕES E DO MERCADO DE TRABALHO: conhecimento das demandas do mercado de trabalho, com foco nas áreas de interesse; estratégias para inserção profissional, com desenvolvimento de competências profissionais (competências mais desenvolvidas e estratégias para desenvolvimento de competências menos desenvolvidas); critérios utilizados para a realização de escolhas;

AVALIAÇÃO DO PROCESSO: resgate dos objetivos do processo; retrospectiva e feedback.

Dessa forma, a abordagem geral da orientação profissional permite um processo centrado no usuário, liderado pelos jovens e suas necessidades. O papel do orientador profissional é o de apoiar o jovem no direcionamento rumo a aspirações realistas, informando-o a fim de garantir que ele esteja plenamente ciente do leque de opções que lhe são oferecidas, bem como garantir que os pontos fortes sejam reconhecidos e que sejam preenchidas as lacunas nas competências, para que siga um caminho motivado de aprendizagem e trabalho.

DESAFIOS

Pensar em orientação profissional é pensar em um processo dinâmico, segmentado, mas ao mesmo tempo individualizado, o que aumenta os desafios para o profissional orientador. Precisa ser dinâmico porque a relação entre conquistas e requisitos educacionais, no ambiente de trabalho, está mudando rapidamente, à medida que esses requisitos se modificam em resposta a mudanças na tecnologia e nas áreas de especialização das economias nacionais e vínculos com o sistema global; a proporção de mulheres jovens para homens na população economicamente ativa está mudando; porque as reformas que estão sendo feitas para aumentar a flexibilidade da mão de obra estão aumentando a vulnerabilidade dos trabalhadores, especialmente daqueles que estão ingressando nessa nova estrutura institucional. As expectativas dos jovens são muito dinâmicas e facilmente influenciadas pelas transformações culturais; para os jovens que agora ingressam na população economicamente ativa, os novos padrões de produção se afastaram do conceito de estabilidade e emprego de longo prazo.

Dessa forma, pode-se compreender a orientação profissional como algo complexo, que requer métodos de atuação flexíveis, devendo ser pensada como um processo a ser adequado às necessidades dos jovens.

EU ACHO …

CRINGE

Nada pode ser menos empático do que se sentar num trono e julgar quem é ou não cringe

A famosa vergonha alheia. O mico. O ultrapassado. Em priscas eras, o démodé. No mundo digital da etiquetagem e da discromatopsia, mais um rótulo inventado para engavetar os outros. O verbo cringe foi importado do inglês e virou adjetivo nas redes sociais brasileiras.

Algumas considerações que vi ao longo das últimas semanas: Fulano “seria” cringe quando posta fotos em homenagem aos amigos aniversariantes, quando coloca acentos nas hashtags, quando diz ter saudades de uma loja em meio às facilidades dos e-commerces, quando gosta de música sertaneja, quando telefona para algum amigo ao invés de mandar uma DM ou um WhatsApp, quando comenta uma novela ao invés de falar de séries, e por aí vai. Se você se identificou com qualquer um desses “micos”, será fatalmente chamado de cringe.

Os antropólogos virtuais enxergam aí mais um conflito de gerações, potencializado pela pandemia: a Z (pessoas nascidas entre 1997 e 2010, cerca de 30% da população mundial hoje) detonando e questionando os hábitos da millennial (1981-1996), aquela que ainda trafega entre os mundos real e digital. As agências de análise de comportamento dizem que, para esses aproximadamente 2,47 bilhões de jovens ultraconectados que passam em média três horas por dia ao celular, a transparência, a consciência coletiva e a empatia são palavras-chave para as relações sociais e de consumo. Mas, epa, empatia? Nada pode ser menos empático do que se sentar num trono e julgar quem é ou não cringe, não é mesmo?

Antes do coronavírus, essas eram consideradas as gerações que liderariam um futuro próspero e inusitado: muitas viagens de experiência carimbando o passaporte (hoje juntando poeira na gaveta); casas, carros e objetos compartilhados (e agora? cadê meu álcool em gel?); apartamentos minúsculos que não acumulam nada (quem é mesmo que anda sonhando com uma casa no campo, longe das aglomerações da cidade?); maior nível de educação em 50 anos (por aqui as crianças ficaram um ano e meio fora da sala de aula); escolha de trabalhos que deem mais prazer do que estabilidade (só no Brasil, o desemprego atinge quase 30% dos jovens). Com as tantas mudanças provocadas pela pandemia, já se fala num novo rótulo: a geração pandemia! ou C, de Covid. Aquela que, por muitos anos, vai pagar a conta do retrocesso econômico e social provocado pelo vírus – e para a qual as promessas de progresso hedonista e individualista não vão se concretizar tão cedo.

Existem algumas vantagens, claro. Os “Cs” estão mais adaptados às formas híbridas de trabalho, entre o home office e o presencial. Como não separam antigos virtuais de reais, são mais ágeis em participar de grupos com objetivos comuns.

Isolados pela falta de interação presencial, buscam reafirmar múltiplas identidades e derrubar velhos tabus. A truculência do vírus os deixou mais alerta sobre as questões urgentes: desequilíbrio ecológico, desigualdade social, desinformação e vazamento de dados pessoais com fins espúrios por governos e empresas. E cada vez mais eles têm ido às ruas para gritar contra um sistema precário de educação e trabalho no qual a pandemia colocou uma gigantesca lupa. É o caso dos jovens egressos de mais de 20 milhões de lares brasileiros que não têm acesso à internet ou a aulas virtuais. Se a tecnologia vai se impor cada vez mais, que espaço eles ocuparão?

Nas mãos da tal geração “C” está uma valiosa oportunidade de construir um real mundo novo, livre de preconceitos, discriminações ou delírios saudosistas de regimes ditatoriais. Pena seria se perdessem o fio dessa meada para cometer os mesmos erros de seus antepassados, esperando resultados diferentes. É isso mesmo? Mico vai ser, como lido no Twitter na semana passada, usar calça jeans apertada ou sapatilha de bico redondo, enquanto um presidente manda uma jornalista calar a boca? Vocês podem – e devem – fazer melhor.

Não há nada mais cringe do que chamar alguém de cringe.

*** BRUNO ASTUTO

brunoastuto1@gmail.com

OUTROS OLHARES

DE VOLTA PARA O FUTURO

Sucesso dos anos 1990, o bichinho virtual Tamagotchi renasce com sofisticados mecanismos de interação. Vai colar ou é apenas um passeio nostálgico?

Há muito tempo, numa galáxia nem tão distante assim, nos idos dos anos1990, sem smartphones, sem redes sociais, em que os videogames só rodavam em aparelhos de televisão, um bichinho eletrônico japonês teve o dom de mexer com corações e mentes de crianças e pais. O Tamagotchi, criado em 1996 pelo fabricante Bandai, em formato de chaveiro, era sedento de doses regulares de alimentos, higiene e carinho – tudo oferecido eletronicamente, é claro. O dono da brincadeira sofria com o novo amiguinho. Não podia deixá-lo faminto, tampouco exagerar na dieta. Uns sobreviviam, outros não, e era um drama familiar quando o aparelhinho apagava e fiu… Formavam-se filas para comprá-los, de Tóquio a São Paulo. Foram mais de 80 milhões de unidades vendidas, dos quais 20 milhões apenas no primeiro ano. Havia mais interesse pela pequena invenção doque por jogos clássicos de mesa, como o Banco Imobiliário, sucesso perene, sem fronteiras.

Mas o Tamagotchi, ah, o Tamagotchi, ninguém podia com ele. O tempo, contudo, atrelado a extraordinários avanços tecnológicos que culminariam com a explosão da internet, tratou de tirá-lo de cena, e o que era inovador adormeceu. A novidade, agora: o Tamagotchi está de volta, com pompa e circunstância, adaptado ao mundo moderno. A seu nome foram atreladas três letras – Pix. É o Tamagotchi Pix, com lançamento mundial previsto para este mês nos Estados Unidos (no Brasil deverá chegar em 2022) e preço a partir de 60 dólares.

Não há, ao contrário do que se poderia imaginar, conexão com a web (decisão tomada para proteger os usuários ainda muito pequenos). A grande diferença está nos mecanismos de convivência, exponencialmente mais elaborados. O aparelho permite, por exemplo, tirar fotos do mundo real e apresenta-las ao bichinho, oferece mais de 100 variedades de animais para chamar de seu (no original eram quatro) e pode ser conectado com outros modelos por um tipo de QR code, fazendo com que as mascotes interajam entre si. Eles ainda têm atributos inéditos, como seguir uma outra profissão. Antes, quando diziam adeus, era o fim.

Nos modelos contemporâneos, um algoritmo minucioso fará com que a peça renasça espetacularmente, de acordo com os gostos e ações anteriores do feliz proprietário. O Tamagotchi restaurado anda de mãos dadas com outros lançamentos colados a saltos de sofisticação industrial. Os bonequinhos Roybi são afeitos a fazer reconhecimento facial e detectar a emoção das pessoas. O Moxie, se bem tratado, devolve suas emoções em igual medida, com risos e carinho, fidelíssimo amigo de humanos que adoram uma traquitana.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 29 DE JUNHO

MORANDO ENTRE OS SÁBIOS

Os ouvidos que atendem à repreensão salutar no meio dos sábios têm a sua morada (Provérbios 15.31).

Há repreensões que nos chegam aos ouvidos como um forte ruído. Fazem apenas barulho, mas não trazem nenhuma mensagem clara nem relevante. Outras repreensões partem de pessoas insensatas, baseadas em motivações maldosas, cujo propósito é apenas humilhar e ferir. A essas repreensões não devemos dar ouvidos. Escutar esses críticos de plantão é perder a paz, o sono e o apetite. Mais ainda: é perder o foco. No entanto, há repreensão que procede de gente sábia, com motivação santa, cujo resultado é benéfico e salutar. Aqueles que atendem a essa repreensão construtiva alcançam a sabedoria e têm sua morada permanente entre os sábios. Só os tolos, que são arrogantes, rejeitam a repreensão. Só aqueles que se julgam acima do bem e do mal tapam os ouvidos aos conselhos. Uma pessoa sábia está sempre aberta a aprender. Uma pessoa humilde está sempre disposta a ser corrigida, se essa correção está calcada na verdade e procede de alguém regido por uma motivação santa. Quando somos repreendidos, tiramos os pés do caminho escorregadio do pecado e fixamos nossa morada no meio dos sábios. É melhor viver entre os sábios do que na mais alta torre da soberba. É melhor habitar onde reina a sabedoria do que estabelecer nossa casa entre os tolos.

GESTÃO E CARREIRA

EM TI, HÁ VAGAS E PAGA-SE BEM

Pandemia acelerou a automação dos serviços no Brasil, com reflexos positivos para o mercado de trabalho dos profissionais de Tecnologia da Informação (TI). Apenas entre 2019 e 2020, foram criadas 270 fintechs

O setor de tecnologia da informação (TI) vive desde 2020 um novo “boom” de investimentos, acelerado pela pandemia. No Brasil, enquanto o PIB caiu 4,1% no ano passado, o setor cresceu 4% e deve ter novo avanço de 7% em 2021, quase o dobro do projetado para a economia. Com a expansão, o Brasil precisará de 400 mil novos trabalhadores até 2025, mas isso será um problema para esse setor. Todas as faculdades do País serão capazes de formar 80 mil pessoas até lá, o que mostra o déficit por profissionais especializados.

A disputa por profissionais, como programadores de software, é intensa. “Está muito difícil encontrar gente bem qualificada. Quando começou a pandemia, tínhamos um programador que cuidava do banco de dados. Ele foi para o Canadá, recebeu uma oferta alta. Agora, as empresas estrangeiras contratam o pessoal aqui mesmo, remotamente”, diz Vinicius Melo, executivo-chefe do app Papa Recall, especializado em recalls de veículos. Além da digitalização de serviços como entregas de alimentos e mercadorias, com o comércio eletrônico, houve a expansão das fintechs e das startups.

“As necessidades das pessoas não pararam com a pandemia. O que aconteceu é que a Covid-19 antecipou em dez anos a digitalização no Brasil”, diz Felipe Santos, diretor de tecnologia da plataforma digital de serviços imobiliários aMORA, uma startup criada em 2021 na capital paulista. Santos diz que ele e dois colegas viram uma oportunidade em criar uma empresa que opere no ramo imobiliário e seja uma alternativa ao aluguel ou venda de apartamentos. Pelo sistema Rent to Own (alugue para ter), que já existe há anos nos Estados Unidos, a pessoa que aluga o apartamento dá uma entrada de 5% e fecha um contrato de três anos de aluguel. Após esse período, ocorre ou não a compra definitiva.

BOOM DE FINTECHS

Apenas entre 2019 e 2020, foram criadas no Brasil 270 fintechs, empresas de tecnologia que prestam algum serviço financeiro. “Novas oportunidades surgiram com o open banking, isto levou a uma expansão forte na criação das fintechs. Outro fenômeno foi a migração dos serviços para a internet, como ocorreu nas entregas de alimentos dos restaurantes”, diz Renan Schaefer, diretor-executivo da Associação Brasileira de Fintechs. Ele diz que hoje existem 240 milhões de smartphones em operação no País, para uma população de 212 milhões de pessoas. O número de fintechs é superior a 700, estima-se; em 2018, existiam 377.

“Muitas escolas tiveram que contratar serviços de banda larga e comprar hardware para prestar aulas à distância.”, diz Vivaldo José Breternitz, professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie. A projeção da consultoria IDC Brasil é que o mercado brasileiro movimente US$ 64 bilhões, ainda asssim uma parcela pequena em comparação ao que o mundo deve movimentar, cerca de US$ 4,1 trilhões, diz Bretenitz.

Uma pesquisa feita pela consultoria KPMG em mais de 83 países durante a pandemia mostrou que 55% das empresas entrevistadas aumentaram seus investimentos em TI. Marcos Fujita, sócio-líder em tecnologia e mercados da KPMG, diz que a empresa teve que buscar profissionais fora do eixo Rio-Sâo Paulo: “Só assim conseguimos atender à demanda.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PRECONCEITO ARTIFICIAL

Problemas como racismo e machismo vão muito além dos comentários em redes sociais: estão integrados ao código e reproduzem o pensamento de seus criadores

Para as minorias, não basta enfrentar o preconceito na vida real: o avanço da tecnologia exige que se lute também contra o racismo virtual. Isso não diz respeito apenas aos comentários feitos pelos usuários de redes sociais — a própria inteligência artificial pode reproduzir na internet a desigualdade racial existente na sociedade.

O tema já é conhecido, mas muitas empresas do Vale do Silício se recusam a torná-lo público. O Twitter, de maneira corajosa, conduziu um estudo interno e concluiu nessa semana o que os usuários já diziam desde 2020: o algoritmo privilegiava pessoas brancas quando as fotos postadas eram recortadas. O algoritmo alimentado pelo sistema de inteligência artificial destacava imagens que, “na opinião dele”, mostrariam um conteúdo mais atraente para os usuários. Não era só racista, mas machista: além de mostrar mais pessoas brancas, exibia também mais mulheres. O Twitter informou que o algoritmo foi desativado.

Esse problema, no entanto, não é apenas do Twitter. Ele atinge a essência dos sistemas de inteligência artificial. Em 2016, a Microsoft criou o robô Fay, que aprenderia com os hábitos dos usuários das redes sociais. Foi um fracasso: o projeto foi cancelado menos de 24 horas depois, após o robô postar comentários racistas, machistas e negar o holocausto. O maior desafio é que o próprio conceito da inteligência artificial, por ser um sistema de aprendizado complexo e dinâmico, tende a incorporar a visão de mundo das pessoas que estão por trás de seu código. Basta lembrar que CEOs como Bill Gates, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e tantos outros correspondem a um estereótipo bem limitado e semelhante entre si – há pouca diversidade nas empresas de tecnologia e menos ainda entre suas lideranças.

A porcentagem de funcionários negros no Vale do Silício é baixíssima: 3,8% no Facebook, 4,5% na Microsoft e 3,7% no Google. No Facebook, apenas 3,1% da liderança é negra; no Google é ainda menor: 2,6%. As mulheres também estão em minoria – apesar de corresponderem à metade da força de trabalho, são apenas 25% das funcionárias do setor. O problema é estrutural, como mostram dados em duas pontas cruciais para esse ecossistema: em 2018, só 8,6% dos graduados em computação eram negros — os latinos foram 10% (Dados do National Center for Education Statistics). O financiamento também é escasso: entre os fundadores de startups que receberam investimentos de fundos de capital, menos de 1% eram negros. O número de investidores já é pequeno, o que reforça esse desequilíbrio: em 2018, havia apenas 713 pessoas com poder de decisão à frente de fundos com acesso a mais de US$ 250 milhões — do total, 11 eram latinos e apenas 7, negros.

O conceito de Inteligência Artificial nasceu em uma conferência na universidade de Dartmouth, nos EUA, em 1956. Ali, 20 homens (brancos) decidiram o que seria definida como a “inteligência”. No início, era a habilidade para vencer jogos – xadrez, especificamente. Ela evoluiu: sem ser alimentado por humanos, no entanto, o conceito torna-se estritamente matemático. O problema, abordado brilhantemente no documentário “Coded Bias”, da Netflix, é que a inteligência não pode ser definida por um pequeno grupo homogêneo. Como todo indivíduo possui um viés inconsciente, esses conceitos foram implementados também nos códigos que hoje fazem parte da vida de todos nós.

EU ACHO …

HOMESCHOOLING: ISSO SIM É DOUTRINAÇÃO

Trata-se de um projeto para tirar da sociedade o poder da produção e disseminação do conhecimento, da cultura e da ciência

O ensino domiciliar, ora em discussão no País, é uma forma de educação que ocorre sob a responsabilidade dos pais ou responsáveis pela criança ou pelo adolescente. Essa modalidade surgiu, na forma atual, na parte final do século XX, especialmente nos EUA. Atualmente, nos vários países, sua situação vai da simples proibição, como na Alemanha, nos Países Baixos, na Suécia ou nas duas Coreias, a uma ampla aceitação, como ocorre nos EUA. Em um grande conjunto de países, é legal, mas restrito a casos específicos, como o de crianças doentes e impossibilitadas de frequentar escolas. Com frequência, não atinge mais do que um milésimo da população escolar.

Os EUA são, talvez, o país em que a taxa de matrículas dessa modalidade é a mais alta, de cerca de 3,5% da população estudantil. Esse porcentual é muitas vezes superior ao australiano, que atinge apenas cerca de 0,5% das matrículas, apesar de ser essa uma nação onde o ensino domiciliar é legal e a distância é uma barreira real para a população.

Um dos fatores que levam à opção por esse tipo de ensino nos EUA é a qualidade das escolas. De fato, em comparação com os demais países industrializados os estudantes dos EUA não apresentam alto desempenho. Ao contrário, ele está abaixo daquele que seria esperado levando em conta suas possibilidades econômicas. Considerando aquela motivação, concluímos que uma melhora do sistema escolar faria com que menos famílias optassem pelo ensino domiciliar. Assim, ele não é alguma coisa que contribua para melhorar a educação, sendo, de fato, a fuga de um problema que tem solução. Outra das principais motivações para a opção pelo ensino domiciliar nos Estados Unidos é a preocupação com a violência. A solução para esse problema seria melhorar o ambiente escolar e enfrentar os aspectos sociais que levam a ela. Afastar as crianças e jovens da escola não ajudará a resolver ou reduzir o problema. O resultado pode ser mesmo o oposto, pois têm surgido evidências de que o ensino domiciliar, nos EUA, vem servindo para ocultar o abuso de crianças e adolescentes. Em um sistema social muito mais frágil como o nosso, a situação poderá ser bem pior.

Um fator a motivar a opção pelo ensino domiciliar é o religioso. Mas este não deveria ser preocupação das escolas, devendo ser deixado para as instituições religiosas, fora dos horários e dos espaços escolares. Vale observar que o ambiente escolar é, em todo o mundo, o melhor a se oferecer a uma criança ou jovem. Em qualquer país, qualquer que seja a realidade social ou econômica da população, as escolas tendem a ser o espaço mais adequado ao convívio com outros e ao desenvolvimento pessoal. Privar crianças e jovens da rica vida social e das possibilidades de desenvolvimento oferecidas pelas escolas é uma violência a ser combatida. As propostas de ensino domiciliar ora em tramitação no Poder Legislativo não são fruto de estudos bem embasados. Ao contrário, na justificativa que acompanha o Projeto de Lei apresentado pelo Poder Executivo, o PL 2401 de 2019, aparecem como consultadas três instituições privadas, uma delas dos EUA, e todas envolvidas com a defesa do ensino domiciliar. Não foram consultadas entidades especializadas em educação ou pesquisadores neutros quanto ao apoio ou não àquela modalidade de ensino. Foram consultados apenas entidades e indivíduos que dariam a resposta desejada. Um dos grandes problemas educacionais do Brasil é a escassez de recursos financeiros. Mesmo após o aumento ocorrido nas últimas décadas, a atual situação impede as escolas públicas de atenderem adequadamente seus estudantes, sobrecarrega os professores, quer pelo tamanho das turmas, quer pelas cargas horárias que precisam assumir para compensar uma remuneração muito abaixo

daquela recebida por profissionais que, com o mesmo nível educacional, atuam em outras áreas. Esse e outros problemas fazem com que o Brasil seja um dos países da América do Sul com os piores indicadores educacionais. Dados divulgados pela Unesco mostram que somos o segundo pior em analfabetismo adulto, melhor apenas do que a Guiana. Embora o analfabetismo adulto reflita o sistema educacional de algumas décadas atrás, época em que grande parte dos hoje adultos analfabetos deveria ter sido alfabetizada, os indicadores dependentes do sistema escolar mais recente nos colocam apenas em posição intermediária nesse conjunto de países, mas ainda na metade dos países em pior situação. O ensino domiciliar não é uma solução para esses problemas, ao contrário, será um problema a mais.

A leitura dos Projetos de Lei apresentados pelo Poder Executivo ou por integrantes de sua base parlamentar para viabilizar o ensino domiciliar revela o que se pretende. Um desses, o PL 3262, de 2019, recentemente aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, altera o Código Penal e faz com que pais ou responsáveis que ofereçam ensino domiciliar não sejam mais obrigados a matricular suas crianças em escolas. Como não foi definido o que seria esse ensino domiciliar, ele pode ser, enquanto continuar essa omissão, qualquer coisa. O citado Projeto de Lei deixa claro que o ensino domiciliar não precisa ser feito no domicílio e pode ser ofertado por instituições não necessariamente escolares. Isso significa, na prática, que qualquer tipo de entidade poderá virar instituição educacional e qualquer um, por consequência, ser professor ou professora, independentemente da formação.

O ensino domiciliar é parte de amplo projeto do governo Bolsonaro na direção de tirar da sociedade o poder da produção e disseminação do conhecimento, da cultura, da ciência. Entre as consequências disso estarão o rebaixamento do Brasil diante dos demais países, inclusive dos nossos vizinhos, e o acirramento da tão enorme desigualdade do nosso sistema educacional. Continuando neste passo, em pouco tempo não restará espaço para o desenvolvimento do conhecimento, do pensamento crítico e para a criação de uma escola emancipadora voltada para a promoção da cidadania e do desenvolvimento social e cultural do País.

*** OTAVIANO HELENE – é professor no Instituto de Física da USP, ex-presidente da Associação dos Docentes da USP, ex-presidente do Inep/MEC.

OUTROS OLHARES

VIVER COM VÍRUS

Os quarenta anos do primeiro diagnóstico da aids e a atual pandemia são um atalho para a compreensão mais clara de como os microrganismos afetam o corpo humano – e o modo de atacá-lo

O Brasil não tem prêmio Nobel. Mas um laureado nascido em Petrópolis, filho de mãe inglesa e pai libanês dono de uma óptica no Rio, que deixaria o país com apenas 13 anos para estudar em Wiltshire, na Inglaterra, é o autor de uma das mais memoráveis frases a respeito do modo como adoecemos. “Um vírus é uma má notícia embrulhada numa proteína”, disse o biólogo Peter Medawar (1915-1987), diplomado pela Academia Sueca em 1960, por suas pesquisas em torno do sistema imunológico. A má notícia, sabemos hoje, pede cautela – das centenas de milhares de vírus que se supõe existirem, apenas 586 grupos são infecciosos para os mamíferos e somente 263 afetam os humanos. Nas palavras do escritor americano Bill Bryson, autor do best-seller Breve História de Quase Tudo,” fora das células vivas não passam de matéria inerte, não se alimentam, não respiram, não fazem quase nada; não têm meios de locomoção, não têm impulsão, pegam carona”. E, no entanto, “uma vez que estão numa célula viva explodem numa existência fecunda, reproduzindo-se tão furiosamente quanto qualquer outra criatura”.

Os vírus e a maneira como os combatemos, evitando sua circulação, ajudam a contar a história da civilização – e por isso a frase de Medawar é permanentemente lembrada, sobretudo em períodos de pandemia, como agora, e há exatos quarenta anos. Em 3 de julho de 1981, uma pequena reportagem escrita por Lawrence K. Altman no The New York Times tratava de um “câncer raro visto em 41 homossexuais”. Homens gays, segundo o jornalista, estavam morrendo de uma doença incomum. Apresentavam manchas roxas na pele e seus gânglios linfáticos inchavam antes de morrerem. Os médicos mal compreendiam o que estava ocorrendo.

Os oncologistas descobriram, mais tarde, que aquele tipo específico de câncer, o sarcoma de Kaposi, é uma “condição definidora da aids”, indício dos estágios finais da enfermidade. Um mês antes de o jornal nova-iorquino dar a informação, os Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos haviam relatado, em 4 de junho de 1981, outro conjunto de sintomas estranhos – a pneumonia por Pneumocystis carinii, que, como o câncer, ocorria em pessoas aparentemente saudáveis. Foi a primeira publicação científica do que, quinze meses depois, seria definido como a síndrome da imunodeficiência adquirida, a aids, provocada por um vírus, o HIV – uma má notícia, enfim, embrulhada numa proteína. “Em retrospecto, claro, esses anúncios foram os primeiros arautos da aids”, diria Altman, em 2011. “Mas naquela época não sabíamos exatamente com o que lidávamos.” Entender a trajetória de quarenta anos do HIV, para o qual não há vacina, é atalho para compreender um pouco mais sobre o microrganismo que provoca a Covid-19, dadas as cabais diferenças, mas também as semelhanças.

As doenças e seus vetores são bem distintos entre si: o HIV, sem tratamento, mata todos os pacientes; o novo coronavírus mata entre 1% e 3% dos infectados. O vírus respiratório é bem menos letal, porém muito mais contagioso. Em comparação com o número de pessoas que contraíram HIV, a quantidade de indivíduos com o novo coronavírus é uma explosão. A Covid-19 é uma doença mais transmissível e provocada quase imediatamente após a infecção, enquanto o HIV pode levar quase dez anos para adoecer o paciente. Durante esse período, a pessoa pode transmitir o vírus, no entanto só por contato sexual ou sanguíneo, não por meio de respiração, superfícies ou fluidos. “A principal diferença entre a forma como enfrentávamos as epidemias quarenta anos atrás e o modo como as enfrentamos agora é que, no fim dos anos 1980, a tecnologia era muito inferior à atual”, definiu o oncologista americano Paul Volberding, um dos líderes das investigações iniciais da aids, na década de 80, em artigo exclusivo. “Levamos de três a quatro anos apenas para encontrar o vírus causador da aids. O sequenciamento genético do HIV levou aproximadamente duas décadas. Já na pandemia da Covid-19, o vírus foi encontrado em uma ou duas semanas e sequenciado em pouquíssimo tempo.” Na ponta do lápis, de 1981 até hoje, a aids matou 35 milhões de pessoas em todo o mundo, das quais 350.000 no Brasil. A Covid-19 tirou a vida de 3,7 milhões de pessoas – quase 500.000 brasileiros.

Mesmo com impactos e tratamentos diversos, o HIV e o SARS-CoV-2 têm semelhanças na estratégia de infecção. Estudo conduzido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostrou que o agente da Covid-19 é capaz de entrar e de se replicar no interior de linfócitos do tipo TCD4, as mesmas células de defesa do organismo atacadas pelo HIV. “Em humanos, esse mecanismo havia sido visto até hoje apenas com o vírus da aids”, diz o geneticista Salmo Raskin, membro da Sociedade Brasileira de Genética Médica.

Não há dúvida, na lida contra o atual virus, que a vacinação é obrigatória para a redução dos casos graves. Uma das comprovações de efetividade da imunização contra a Covid-19 é o que aconteceu recentemente em um experimento inédito no município de Serrana, a 300 quilômetros de São Paulo. Entre 17 de fevereiro e 11 de abril, 95% da população adulta da cidade recebeu as duas doses da Corona­Vac. Os primeiros resultados consolidados, divulgados há menos de um mês, mostraram que a medida levou à queda de 80% nos casos e de 95% nas mortes pela doença. Para citar um exemplo global, Israel, país com a mais avançada campanha de vacinação do mundo, com 60% da população totalmente imunizada, registrou queda de 99% no número de mortes diárias desde o pico de óbitos e já vislumbra, realmente, o fim da pandemia.

É inegociável o distanciamento social e o uso de máscaras, de modo a desacelerar a engrenagem de contágio, especialmente com a revelação de novas mutações, todas mais transmissíveis do que a versão original. Mas, ressalte-se, as vacinas são comprovadamente eficazes contra elas. Das quatro variantes em circulação atualmente, a originada no Reino Unido, no Brasil, na Índia e na África do Sul, apenas esta última não respondeu adequadamente à vacina da AstraZeneca. Todos os vírus mudam seu material genético, e na maioria das vezes as mutações não conferem vantagens nem desvantagens, são meras consequências aleatórias e naturais. O agente da gripe, por exemplo, tem uma taxa de mutação que é o dobro em relação às identificadas no novo coronavírus. A do HIV, quatro vezes maior. Estima-se que as vacinas para Covid-19 tenham de ser reformuladas a partir de 2022. Não há aí nenhum grande susto. Todo ano os antígenos para gripe têm de ser modificados.

Mas e se um dia as vacinas não forem eficazes contra as mutações? Não seria uma tragédia, e convém aqui um outro passeio pelo quarentão HIV. Não há, reafirme-se, vacina contra o vírus da aids. O que ajudou a frear os casos foi a introdução da terapia antirretroviral. Deu-se melhor qualidade de vida e diminuição da transmissão. Em relação ao pico da pandemia, em 2004, as mortes caíram em mais de 60%. Hoje há cerca de 40 milhões de homens e mulheres portadores do HIV, e levam vida razoavelmente normal. Os coquetéis antiaids, compostos por medicamentos antirretrovirais surgiram na década de 80 e evitam que o vírus se reproduza desordenadamente, impedindo que o sistema imunológico do paciente fique gravemente prejudicado. Eles ainda reduzem o risco de infectar outra pessoa em 92%. Os coquetéis não matam o vírus, mas garantem maior tempo de vida – e com qualidade. O exemplo do astro do basquete Magic Johnson, que comoveu o mundo em 1991 ao anunciar que era HIV positivo aos 32 anos, no auge da carreira brilhante, é emblemático. Naquele tempo, muitos ainda consideravam a infecção quase uma sentença de morte. A longevidade de Magic é atribuída não só ao rigor na condução do tratamento, como também ao fato de que os doentes passaram a viver mais tempo e com mais saúde justamente no início dos anos 1990, graças à evolução dos remédios. “Fiquei devastado ao saber o diagnóstico”, disse o astro da NBA em palestra, no ano passado. “Mas, depois de um tempo, fui ao médico e perguntei como poderia ter uma vida longa. Ele medisse três coisas: me conformar com a doença, tomar a medicação corretamente e cuidar do meu corpo. Fiz tudo isso e deu certo.” Em março, ele recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19, em Los Angeles, como símbolo de dois períodos históricos.

A efeméride da descoberta do HIV, há quatro décadas, e o atual susto da humanidade com a pandemia impõem uma constatação: por trás de todo vírus há também a condenação do doente, ou pelo menos a suspeita de que tenha feito algo errado ou sido negligente. “Irmãos, vocês merecem a desgraça”, repetia o padre Paneloux, personagem de A Peste, clássico de Albert Camus. Nos primórdios da aids, apontava-se o dedo, prenhe de inaceitável preconceito, aos homossexuais, como se fazia aos portadores de sífilis em passado ainda mais remoto. Hoje, há insistente postura xenófoba contra o “vírus chinês”, na tola definição de Donald Trump, depois mimetizada pela trupe de Jair Bolsonaro. Contra esse tipo de vírus, de ódio à diferença, há um único e universal remédio: conhecimento.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 28 DE JUNHO

O PODER CURADOR DAS BOAS NOTÍCIAS

O olhar de amigo alegra ao coração; as boas-novas fortalecem até os ossos (Provérbios 15.30).

A companhia de um amigo sincero e verdadeiro é um tônico para nossas emoções. Seu olhar cheio de bondade e compreensão alegra o coração. Os olhos são a lâmpada do corpo. Comunicam mais do que palavras. Podemos censurar uma pessoa com um olhar. Podemos rejeitá-la com desdém pela maneira como a olhamos. No entanto, se o olhar do inimigo, do crítico e do invejoso perturba a alma, o olhar do amigo alegra o coração. O olhar que censura envia uma mensagem negativa. Essa mensagem transtorna as emoções e adoece o corpo. Mas as boas-novas fortalecem até os ossos. Uma palavra boa e animadora tem forte poder de levantar e motivar uma pessoa abatida. As palavras boas são como remédio. Agem como uma terapia para as emoções, tonificam a mente e fortalecem os ossos. Não podemos subestimar o poder das palavras. Adoecem o espírito ou encorajam o coração. Derrubam ou edificam. Arrastam para o abismo ou conduzem às alturas. Geram sentimento de fracasso ou conduzem à vitória. Ser um embaixador de boas-novas é um ministério extraordinário. Deus nos chamou para sermos arautos da verdade, atalaias do bem, agentes da misericórdia, portadores de boas-novas e terapeutas da alma.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A RELEVÂNCIA DO TESTE VOCACIONAL

Uma das questões cruciais na vida de uma pessoa é quando ela ouve, em sua fase adolescente, a seguinte pergunta decisiva, que vem com uma carga de ansiedade: “O que você quer ser quando crescer?”

A frase que quase toda criança ou adolescente ouviu ou vai ouvir: – “O que você quer ser quando crescer?” – traz consigo o peso da dúvida e da cobrança de, desde cedo, ser demandado a definir o direcionamento de uma vida inteira.

A escolha do seu plano de vida, uma decisão que se apresenta como delimitadora, definitiva e definidora para toda uma existência, quando ainda se têm escassas ferramentas para tomada de decisão (pouca diversidade de experiências, período de transições 6sicas e psíquicas, além de um escasso autoconhecimento), vem contribuir para a criação de vários sentimentos, entre eles a ansiedade, que sem dúvida é a que mais interfere. Assim, a ansiedade da escolha profissional acaba sendo um sentimento que acompanha os jovens e suas famílias ao longo do ensino médio, mas muitas vezes havendo já iniciado na infância.

Quando falamos da escolha profissional podemos pensar em algo que pode ser feito a qualquer momento da vida, pois não é incomum pessoas mais maduras, já com uma formação, se questionarem sobre a troca da profissão, mas, muitas vezes, sem saber qual nova profissão escolher. Nesse caso é recomendada a realização de uma orientação profissional ou um aconselhamento de carreira, os quais serão fundamentais nessa decisão.

OS PROCESSOS

A testagem psicológica faz parte do processo de orientação profissional. Já o teste vocacional, que vestibulandos costumam encontrar disponível na internet, fornece informações vagas e semembasamento teórico. Os estudantes acham que irão sanar todas suas dúvidas, medos, incertezas e angústias. O grande erro está no pensamento “mágico” de que um simples teste irá dar indicações de profissões exatas. A ansiedade é uma experiência comum a qualquer ser humano, um sentimento normal e transitório, emocionalmente desagradável, que apresenta uma funcionalidade adaptativa: assinala antecipadamente uma ameaça e nos leva à ação necessária. Dessa forma, é um sentimento normal no crescimento, nas mudanças, nas experiências novas e inéditas, no encontro da própria identidade e do sentido da vida.

O indesejável é que o nível de ansiedade se eleve em demasia, pois isso sim provoca prejuízo, se transformando em ansiedade patológica, a qual diversos sintomas acompanham, como: tensão, inquietação, com a sensação de estar sempre ”no limite’ à beira de um colapso; perda de concentração e insônia, o que irá comprometer a criação de novas memórias, interferindo diretamente nos estudos e humor; distorção cognitiva de catastrofização, quando se imagina um futuro no qual tudo dará errado ou o pior acontecerá; bem como sintomas físicos de dor de cabeça, tontura, tensão muscular (principalmente nas costas e no pescoço); formigamento, dor no peito, palpitações, sensação de o coração estar acelerado ou descompassado; náuseas, alterações gastrointestinais; falta de ar, boca seca, entre outros.

ANSIEDADE E DEPRESSÃO

A preocupação excessiva e prolongada – que pode tornar-se obsessiva -, uma das características da inabilidade em lidar e manter sob controle a ansiedade e sua intensidade, pode fazer parte do processo da escolha profissional e da preparação para o vestibular. Tal sofrimento, a longo prazo, poderá levar à depressão, em que os pensamentos ficam distorcidos da realidade. A “previsão” e a “iminência” de que “tudo pode dar errado” ou “ter resultados catastróficos, irreparáveis” vão debilitando a autoestima e, na percepção da pessoa, apagando do seu horizonte as possibilidades de um futuro melhor, no qual um resultado positivo e satisfatório, fruto das atitudes e escolhas, é, sim, viável e que, mesmo em caso de um resultado negativo ou diferente ao esperado, terá capacidade de lidar com os sentimentos decorrentes, como frustração e angústia.

Outro transtorno com alta incidência no Brasil é a depressão, 5,8% dos brasileiros sofrem com essa desordem. É a maior taxa do continente latino-americano. A depressão atinge sujeitos de todas as idades, tornando-se um risco maior na presença de fatores externos. Nos últimos dez anos, o número de pessoas com depressão aumentou 18% (o que corresponde a 322 milhões de pessoas), ou 4,4% da população da Terra. Vale ressaltar que a ansiedade patológica e a depressão podem coexistir, assim como uma das patologias fornecer as bases para o surgimento da outra.

RITUAL DE PASSAGEM

A adolescência hoje é considerada um dos estágios do ciclo vital, marcada não somente pelas mudanças fisiológicas da puberdade – no qual o corpo infantil fica para trás -, mas como um momento de transformações psíquicas, em que a relação consigo, com os pais, com o mundo está em transformação.

Esse processo culminará com a inserção social, profissional e econômica do jovem na sociedade adulta. Mas até esse momento chegar uma série de batalhas precisa ser travada, uma delas sendo a escolha profissional,

Como um grande marco na vida do sujeito, a escolha profissional ocorre, normalmente, em um momento em que as mudanças típicas da adolescência têm lugar e trazem consigo, por si só, uma gama de desafios e incertezas com os quais o adolescente precisará lidar. Nessa etapa, o adolescente é demandado a fazer escolhas e tomar decisões que terão impacto significativo e duradouro em sua vida. O vestibular, nesse contexto, passa a ser visto como ritual de passagem, a partir do qual o adolescente se prepara para o mundo adulto e do trabalho, mediante a sua capacitação profissional.

Se durante a vida são desempenhados diversos papéis (de filho, estudante, profissional etc.), a orientação profissional precisará levar em conta de que forma o adolescente tem desempenhado   os diversos papéis ao longo da vida, pois isso sinalizará o peso de cada aspecto e sua influência no processo da escolha profissional.

CONTROLE EMOCIONAL

O vestibular é uma prova concorrida, classificatória, difícil e exigente, na qual será necessário manter o controle emocional. Dessa forma, devido às suas demandas, o vestibular se tornou um grande fator de comprometimento da saúde mental dos jovens.

Muitas vezes essas provas contribuem para o surgimento de estresse e psicopatologias, já que exercem grande pressão no estudante e são acompanhadas pelo medo do fracasso e das escolhas malsucedidas, pela disputa de vagas, pelo pouco tempo de preparo, pela sensação de que se falharem terão perdido todo o ano, e até anos de estudos, pela pressão e expectativas da família, de amigos e da sociedade.

Essas provas, que incluem o vestibular e o Enem, tornam-se mais uma fonte de comprometimento, já que elas são a maneira de alcançar o futuro profissional, gerando ansiedade e um estado de tensão e estresse emocional. Esses eventos estressores podem ser dependentes ou independentes.  Nesse sentido o vestibular/ Enem seria um evento independente, já que o adolescente não tem controle sobre ele. Já os eventos dependentes estão relacionados à maneira como o indivíduo irá agir diante de uma situação potencialmente estressora. Não apenas a vivência dos eventos estressores afeta os vestibulandos, mas também a forma como os enfrentam, interferindo no aumento ou diminuição das suas consequências. O estado emocional e psicológico no momento da prova, como o sentimento de obrigação prestá-la e o fato de ela ser considerada decisiva, afeta muito a ansiedade do vestibulando, que muitas vezes, em decorrências desses fatores, acaba não sendo aprovado.

A questão da escolha profissional também parece interferir no bem-estar dos jovens nessa etapa da vida.

O vestibular) inevitavelmente) remete à mesma, que é multifatorial, envolvendo aspectos políticos, econômicos, sociais) educacionais, familiares e psicológicos. A escolha pode motivar o adolescente a estudar e seguir um planejamento, ou pode se tomar um fator de grande ansiedade devido à necessidade de conhecimento da área de atuação, mercado de trabalho, rotina, salário e todos os acompanhantes da vida profissional. Dessa forma, o auxílio ao jovem nas decisões de carreira promove melhora no desempenho acadêmico, na motivação e na sensação de bem-estar, contribuindo para melhor qualidade de vida.

A fim de investigar os efeitos que o vestibular gera na vida dos adolescentes, Guhur et al. (2010) realizaram uma pesquisa qualitativa, através da análise das respostas a um questionário por 37 participantes de ambos os sexos e de escolas públicas e particulares. Os resultados mostraram que a preferência foi por graduação em universidades públicas, pois as consideram de melhor qualidade e de maior acesso ao mercado de trabalho, ou por questões financeiras. As escolhas pelos cursos foram moldadas por afinidade (25 alunos), pelo curso “dos sonhos” (15 alunos), pela possibilidade de retorno financeiro da profissão (6 alunos) e por influência da família (3 alunos). A maioria dos pais apoiava a escolha do curso dos filhos. Entretanto, 65% dos participantes (principalmente as meninas e os alunos de escola particular) relataram se sentir pressionados    pelos pais, indiretamente, através de comparações com irmãos que já haviam sido aprovados, por    exemplo. Dentre os participantes, 76% afirmaram se sentir nervosos, angustiados e ansiosos por não saberem como é o vestibular, pela primeira vez, ou por acharem que o tempo para preparação é muito curto. Outras preocupações relacionaram-se ao medo de esquecer da matéria no dia. Quase todos afirmaram temer o resultado da prova, por questões familiares, pela prova ser decisiva para o futuro, por não aguentarem estudar mais e por demorarem a achar um emprego. Sobre o que fariam caso não passassem no vestibular, todos os participantes das escolas particulares disseram que fariam cursinho; enquanto alguns da escola  pública fariam cursinho, outros começariam a trabalhar ou prestariam concurso.

EU ACHO …

A QUEM INTERESSA O HOMESCHOOLING?

A regulamentação do ensino domiciliar, hoje restrita a 0,03% dos alunos da educação básica, abre as portas para empresas explorarem o “mercado cristão”

O Brasil possui 47 milhões de alunos na Educação Básica, segundo o último Censo do Ministério da Educação. A pasta foi a que mais teve recursos bloqueados pelo governo federal neste ano, 2,7 bilhões de reais. Com a pandemia, o abismo social entre os estudantes brasileiros cresceu: ao menos 4,3 milhões de estudantes não possuem acesso à internet e, portanto, não puderam acompanhar as aulas remotamente. Em meio a esse apagão educacional, Jair Bolsonaro e sua base no Congresso têm aplicado energia em outra pauta, absolutamente lateral nas discussões da área, o chamado homeschooling. Segundo dados da Associação Nacional do Ensino Domiciliar, apenas 15 mil alunos são educados em casa. O número representa 0,03%do universo da educação pública e privada, mas o ex-capitão trata o tema como essencial.

Cumprindo promessa de campanha firmada com igrejas e “cristãos conservadores”, ele entregou ao Congresso uma lista com 34 projetos prioritários. Da lista, apenas um versava sobre educação, a regulamentação do homeschooling. Missão dada, missão cumprida. A tropa de choque bolsonarista acatou o pedido do ex-capitão. O primeiro passo foi dado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que deu aval ao Projeto de Lei 3262/2019, para descriminalizar a educação domiciliar, fora da rede oficial de ensino. Hoje, a prática pode ser enquadrada como crime de “abandono intelectual”, previsto no artigo 246 do Código Penal.

A proposta é de autoria das deputadas bolsonaristas Bia Kicis, Chris Tonietto e Caroline de Toni. Depois, a turma pretende aprovar a regulamentação do homeschooling, prevista no PL 3179/2012, de autoria do deputado Lincoln Portela, do PR. O projeto é relatado por Luísa Canziani, do PTB, que deve apresentar nos próximos dias um substitutivo. Caso seja aprovado, a prerrogativa de educar as crianças será dos pais, que poderão optar por matriculá-las em escolas ou não. Diferentemente do ensino a distância, nessa modalidade não há salas virtuais com interações com professores ou colegas de turma. Os próprios pais ensinam seus filhos.

Como a interação será única e exclusivamente familiar, as mães devem assumir essa função, abrindo mão de atuar no mercado de trabalho e obter a sua própria renda. É o modelo dos sonhos do patriarcado. Além disso, a proposta subverte completamente a lógica do sistema, explica Marcele Frossard, doutora em Ciências Sociais e assessora de políticas sociais da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. “Se a educação é direito da criança e do adolescente, esse direito passará a ser dos seus pais ou tutores.”

O ensino domiciliar é autorizado em ao menos 63 países. O maior exportador da prática são os EUA, onde se estima que 3%de famílias optam pelo homeschooling, das quais três em cada quatro são evangélicas. Por outro lado, Alemanha e Suécia proibiram a modalidade. As famílias alemãs e suecas que não cumprem com a obrigatoriedade de matricular as crianças na rede oficial de ensino estão sujeitas a perder a guarda dos filhos. A despeito dos devaneios bolsonaristas, a enxergar nas escolas um polo de “doutrinação marxista”, a legislação brasileira é uma das mais avançadas do mundo na proteção aos direitos das crianças e adolescentes. “Fala-se muito dos EUA, mas eles têm um sistema jurídico muito distinto. Eles não ratificaram, por exemplo, a Convenção Internacional dos Direitos da Criança nem o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais”, observa Salomão Ximenes, professor de Políticas Públicas da UFABC. Mesmo nos países em que há alguma regulamentação sobre a educação domiciliar, não se trata de uma autorização geral, “como um direito de livre escolha dos pais”, acrescenta o especialista.

Enquanto o governo desperdiça tempo e energia com o tema, o sucateamento no Brasil segue à toda. Em 2020, o governo nem sequer gastou em educação o que estava previsto no orçamento. Foram destinados 43 bilhões de reais ao Ministério da Educação, mas apenas 81%foram de fato aplicados, ou 116,5 bilhões. É o menor investimento desde 2011. Enquanto isso, as portas do MEC estão abertas para os interesses do “mercado cristão” de homeschooling nacional e internacional. “É claro que a escola oferece a possibilidade de socialização, mas existem outras formas de socializar, na família, nos clubes, nas bibliotecas e até mesmo nas igrejas”, declarou recentemente o ministro Milton Ribeiro, também pastor da Igreja Presbiteriana. Um mês depois, a pasta lançou a cartilha Educação Domiciliar: Um Direito Humano, documento de 20 páginas que orienta as famílias sobre a prática.

O MEC conta ainda com quadros de segundo escalão que são conhecidos pela defesa da pauta. No caso de Carlos Nadalim, secretário de Alfabetização da pasta, ele desenvolveu seu próprio conteúdo para homeschooling, chamado Como Educar Seus Filhos. Movimentos internacionais como o Classical Conversations Brasil também tém livre acesso ao gabinete. Em fevereiro deste ano, um coral de crianças homeschoolers cantou para o ministro da Educação, que “pediu bis”. A Classical Conversations classifica-se como um grupo de “Educação Clássica Domiciliar Cristã” e foi criada nos EUA em 1997. Posteriormente, abriu filiais em outros países, entrando no Brasil em 2017.

De acordo com a descrição de sua página oficial, eles oferecem grade curricular compatível com as diretrizes sugeridas pelo MEC, “garantindo ensino domiciliar com qualidade”. “Oramos para que a próxima geração seja profundamente impactada por esses materiais, que são bíblicos e academicamente rigorosos.”

Outra entidade que tem força no Planalto é a Associação Nacional de Educação Domiciliar. Em sua página, ela critica os governos que “por razões ideológicas” nunca lhe abriram diálogo. A entidade viu as portas do MEC se abrirem na gestão de Mendonça Filho, ministro de Michel Temer. Com a eleição de Bolsonaro, a Aned tem realizado sucessivas audiências com Ribeiro e com a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves.

O presidente da Aned é Rick Dias, que possui um site chamado Simedu, uma das maiores plataformas de homeschooling do Brasil. A página mantém uma loja virtual que comercializa bíblias, material didático e traduções de autores, como o norte-americano Ben Shapiro, que assina títulos como Brainwashed: How Universities lndoctrinate America’s Youth (Lavagem Cerebral: Como as Universidades Doutrinam os Jovens da América).

Em fevereiro, a Aned lançou o Programa de Apoio à Educação Domiciliar em parceria com a Associação Nacional de Juristas Evangélicos, conhecida pela sigla Anajure. O projeto prevê, dentre outros serviços, dar assistência às famílias homeschoolers que necessitem de apoio jurídico no Brasil e auxílio aos parlamentares na elaboração de projetos de lei em todos os estados.

A Anajure tem como uma das fundadoras a ministra Damares e foi criada para ser o braço legal do “conservadorismo”, atuando do STF às Câmaras Municipais e Assembleias Legislativas, sempre com o mesmo objetivo: destravar as pautas conservadoras.

Outro empreendimento que sonha em lucrar com a pauta é a IPTV, responsável por criar o aplicativo Mano, desenvolvido para a campanha de Bolsonaro e que tem como objetivo driblar os vetos de redes sociais às fake News, como revelou o site The Intercept Brasil. Com a pandemia, a empresa, localizada no Rio de Janeiro e que possui capital social de apenas 250 mil reais, abocanhou contratos em cinco estados para criar aplicativos de EAD. Alguns deles difundem mensagens ideológicas e teorias da conspiração bolsonaristas aos alunos. Ainda segundo a reportagem, um deles teve acesso a dados pessoais de alunos menores de idade e professores. Se tem um mercado pronto para lucrar, isso só é possível devido à atuação de parlamentar4esbolsonaristase da Bancada da Bíblia. Autor do principal projeto que regulamenta o ensino doméstico, Lincoln Portela também é pastor da Igreja Batista Getsêmani e tem um filho que exerce a mesma função, Leonardo Portela, eleito deputado estadual por Minas Gerais com a bandeira do movimento “Escola Sem Partido”. Nas eleições de 2018, os três usaram o bordão: “Uma família em defesa das famílias. Se você é Bolsonaro, você é Portela”. Uma das autoras do projeto que descriminaliza o abando no intelectual, Chris Tonietto causou polêmica ao associar o abuso de menores às escolas. “A pedofilia está relacionada mais especificamente com a chamada “ teoria de gênero” e a sua aplicação nos ambientes escolares”, afirmou.

Fora desse mercado e dos interesses políticos, famílias brasileiras praticam o homeschooling, mesmo que proibido por lei. Dados da Aned apontam que ao menos 15 mil crianças entre 7 e 17 anos são educadas nesse formato. Famílias chegam a dar cursos para outros pais, além de montarem e venderem seus próprios materiais pedagógicos. Ainda segundo dados da associação, um quarto dos adeptos da educação domiciliar no Brasil diz ter optado pela prática por “princípios da fé familiar”. Outros 9%falam em “doutrinação” como razão e 23%discordavam do “ambiente escolar”. Um terço diz que queria “oferecer uma educação personalizada, motivo que pode englobar todos os outros. “Não dá para generalizar os motivos que levam os pais a fazerem essa escolha. Mas, nesses casos citados, dá para perceber que a educação perpassa por uma cosmovisão religiosa muito específica, muito fechada, e que exclui qualquer chance de antagonismo a essa estrutura”, alerta Andréa Silveira de Souza, pesquisadora do Grupo de Pesquisas em Religião, Educação e Gênero do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da UFJF.

Se, por um lado, pais defendem o direito de escolher como educar seus filhos, especialistas apontam problemas que vão além da socialização: o risco de insegurança alimentar para famílias pobres, novas demandas não dimensionadas para conselhos tutelares e escolas, aumento de gastos púbicos com serviços de fiscalização e violência doméstica. Cerca de 70%dos agressores de crianças e adolescentes são integrantes da própria família. Em 2020, durante o isolamento social e o fechamento de escolas, acarretados pela pandemia, o Brasil atingiu o maior número de denúncias de violência contra crianças: foram 95.247, média de 260 novos casos a cada dia.

A relatora do substitutivo adicionou novidades no texto, que passa a incluir a exigência de matrícula anual do estudante em instituição de ensino credenciada pelo Poder Público e acompanhamento por docente tutor da instituição em que estiver matriculado mediante encontros semestrais. Por estarem matriculados, os alunos passariam a fazer as provas nacionais de avaliação. Dessa forma, a judicialização do acesso à universidade fica equacionada, uma vez que o aluno teria um diploma. Apesar dos avanços em relação ao PL de 2012, especialistas ainda apontam brechas, como critérios mais específicos de quais instituições serão credenciadas e como vai se dar a fiscalização.

OUTROS OLHARES

PALAVRA DE ORDEM

O termo “cringe” usado no lugar de ‘vergonha alheia’ ou mico’pelos mais jovens, ganha as redes sociais e vira símbolo de um curioso conflito geracional sobre os verdadeiros nativos digitais

De uma hora para outra, tudo virou “cringe”. Há algum tempo, o termo em inglês vem sendo usado no Brasil para se referir a hábitos, atitudes e gostos embaraçosos de outras pessoas (em outras palavras, seria usada no lugar de “vergonha alheia” ou “mico”, numa tradução mais do que livre). Desde o fim da semana passada, porém, ela está no centro de um conflito geracional.

Para a geração Z, nascida entre a segunda metade dos anos 1990 e os anos 2000, é uma forma de designar o que os millennials, nascidos entre 1981 e 1996, têm de ultrapassado. Produtos culturais, roupas, gírias e costumes viraram motivo de vergonha alheia para os mais jovens deixando os “mais velhos” perplexos. Sim, os millennials descobriram que envelheceram.

A responsável por apresentar a palavra “cringe” para muita gente foi a podcaster Carol Rocha. No último dia 17, ela fez um tuite pedindo que os zennials apontassem o que consideram mico no comportamento dos millenials. Até o fechamento desta edição, a mensagem tinha sido curtida 36 mil vezes e compartilhada outras 11 mil. Em mais de três mil comentários, a lista do que é considerado “cringe” tem coisas como: usar calça jeans, skinny e sapatilha de bico redondo, rir em mensagens de celular ou na internet usando kkk, rsrsrs ou hahaha: assistir a séries de TV como “Friends” e até recorrer a certos emojis. Sim, os emojis também envelheceram (Confira outros exemplos do que é “cringe” e o que faz a cabeça da geração Z no quadro abaixo).

“O que mais me chamou a atenção, no entanto, é eles acharem “cringe” o café da manhã.   Falaram que ele caiu em desuso, quando para nós, principalmente na pandemia, é um ritual”, diz a podcaster, de 33 anos.

Carol trabalha com publicidade e produção de conteúdo há mais de dez anos e é quase uma infiltrada na geração Z. Deparou com a palavra “cringe” pela primeira vez no Tik Tok e, como tem muitos seguidores, zennials no Twitter, resolveu começar a discussão: “Não pensamos igual aos boomers (nascidos entre 1945 e 1964), mas não nascemos na internet. A geração Z é nativa. Estamos disputando um espaço com eles. Então, pela primeira vez temos duas grandes gerações muito presentes no ambiente on-line, onde estamos assistindo a esse embate”.

VERBO OU ADJETIVO?

Nos últimos dias, os memes se multiplicaram, com direito a testes e quizz no estilo “você é cringe?”. Mas, antes mesmo da explosão do termo no Twitter brasileiro, o youtuber Ciro Hamen vinha usando a palavra em todos os vídeos do canal “O Brasil que deu certo” para descrever a programa “Casa Kalimann”, que estreou em abril. Ele acredita que o termo define perfeitamente o que sente com a performance da ex BBB como apresentadora.

“É um programa “cringe” porque se baseia na ideia e nos memes do Tik Tok, mas é feito por pessoas mais velhas”, diz Ciro, que considera muita coisa que faz no YouTube “cringe” também.

“A minha vida é ficar passando vergonha alheia na internet. É um autodepreciativo com consciência”.

Ciro acha, no entanto, que o termo será vítima de seu próprio sucesso.

“Gostei que a palavra tenha se popularizado com a turma mais velha, mas acho que os mais novos vão parar de usar. Vai ser “cringe” falar “cringe”

Até representantes de outras gerações, como o boomer Ritchie, entraram na polêmica. Nascido na Inglaterra em 1952, o cantor de “Menina Veneno” usou seu perfil no Twitter para contestar o uso brasileiro da palavra gringa, que no inglês é um verbo, não um adjetivo. Mas agora, até ele parece já ter aceitado a apropriação.

“Nada a se fazer, a língua é viva afinal”, diz. “Confesso que a pronúncia local ainda fere um pouco os ouvidos deste velho expatriado, amante da língua inglesa e de sua etimologia. Para mim, “Cringe” é … cringe! Ou melhor dizendo, cringe makes me cringe!

Quando Ritchie tinha a idade dos zennials, também via outros artistas como ultrapassados.

“Naquela época, talvez “cringe” fosse o Freddie and the Dreamers”, lembra. Mas eu gostava deles por isso mesmo!

Professor de Filosofia e Língua Portuguesa no departamento de Leituras Clássicas e Vernáculas da USP, Marcelo Módolo ainda não conhecia o termo ao ser apresentado pela reportagem. Mas sua filha, de 13 anoslhe explicou. E deu um exemplo: para ela,”cringe” é “vídeo de bom dia no WhatsApp”.

“Tem palavras que, quando entram no português, ganham uma semântica e um sentido próprios”, explica Módolo. “Cringe” é apenas mais um exemplo, assim como “deletar” e point”. Jamais veremos um americano ou um inglês usar o verbo deletar para dizer, por exemplo, que está apagando algo da sua vida.

LEGITIMAÇÃO E UNIÃO

Acostumada a trabalhar com grupos de pesquisas sobre culturas e representações midiáticas dasjuventudes, a pesquisadora e publicitária Elena Cristina Pinto Cruz acredita que os zennials e os millennials estejam disputando o lugar de “donos da internet”. Os mais velhos estão incomodados com o surgimento de novos concorrentes nesse espaço, após terem sido os primeiros a se apropriar dele no passado. Os mais jovens se ressentem de ver os millennials ainda serem tratados como a “geração digital”.

“Os zennials usam a internet para se reafirmar, legitimar e se unir”, diz ela. “O termo cria uma identificação entre os membros do mesmo grupo (geracianal) e aponta para os millennials uma vergonha de quem ainda quer pertencer a um grupo que não é mais convidado. No fundo, os Z querem assumir de vez o seu espaço enquanto nativos digitais”.

UNIVERSO Z

“CRINGE” É …

> Usar calça skinny e sapatilha de bico redondo (juntas ou separadas, é vergonha na certa);

> Gostar de “Friends”;

> Rir nas mensagens de texto com kkkk, hahaha ou com emojis;

> falar que paga boletos;

> Dar importância para o café da manhã;

> Ser saudosista;

> Pesquisar o que é “cringe”, porque jovem mesmo não precisa dar Google em gíria.

Z DE RAÍZ É …

> fazer dancinha no Tik Tok, e não ficar de blablablá como millenials nos Stories do Instagram;

> Rir nas mensagens de texto com letras maiúsculas e de forma desconexas: KAHSTAVEBY;

> Usar emojis somente em casos de ironia;

> Usar o cabelo repartido no meio;

> Usar também o termo “cheugy”; neste caso para designar algo que consideram cafona.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 27 DE JUNHO

DEUS OUVE AS NOSSAS ORAÇÕES

O Senhor está longe dos perversos, mas atende à oração dos justos (Provérbios 15.29).

Uma das verdades mais extraordinárias da vida cristã é que Deus ouve as nossas orações. Orar é falar com aquele que está assentado na sala de comando do universo. Orar é unir-se àquele que tem poder para mudar as circunstâncias. Nunca somos tão fortes como quando nos colocamos de joelhos diante do Pai. Um crente piedoso de joelhos enxerga mais longe do que um filósofo na ponta dos pés. Um crente de joelhos é mais forte do que um exército. A rainha Maria Stuart, da Escócia, dizia que temia mais as orações de John Knox do que os exércitos da Inglaterra. Quando o rei Ezequias foi afrontado por Senaqueribe, rei da Assíria, ele clamou ao Senhor, e Deus enviou um anjo que matou 185 mil soldados assírios num só dia. A vitória sobre o inimigo não resultou de um combate por meio de armas, mas foi fruto de oração. O soberano Deus escolheu agir na história em resposta às orações do seu povo. O altar está conectado ao trono. As orações que sobem do altar para o trono descem à terra em forma de intervenções soberanas de Deus. O mesmo Deus, porém, que atende à oração dos justos está longe dos perversos. Deus se afasta daqueles que se afastam dele. Os que desprezam a Deus são desmerecidos.

GESTÃO E CARREIRA

PAGUE & RECEBA JÁ

Prática do cashback, comum nos EUA, começa a se popularizar no Brasil. A atração direta de consumidores é mais barata para o varejo e o sistema financeiro, que ampliam as parcerias

Receber de volta uma parte do dinheiro pago na compra de um produto ou serviço é algo atrativo para o consumidor. O conceito, chamado em inglês de cashback — literalmente, dinheiro de volta – começa a se popularizar no Brasil, aproveitando a expansão dos bancos digitais e do comércio eletrônico. A prática é antiga nos EUA, anterior mesmo à Internet. As estimativas são de que o cashback represente 1,75% do volume do comércio eletrônico no Brasil, enquanto nos EUA é de 6%. Isso indica muito espaço para crescer.

E é o que os novos players do mercado estão fazendo. Entre os bancos digitais que já oferecem cashback aos clientes estão Inter, Mercado Pago, PagBank, Next, C6 Bank, BMG e Original. A XP, uma corretora, oferece o chamado “investback” no seu cartão de crédito, que consiste em um retorno do dinheiro em uma conta de investimentos. Os grandes bancos se rendem à tendência. O Bradesco oferece até 5% nas compras feitas em lojas conveniadas, enquanto o Santander dá até 2%. “O dinheiro do cashback vem de uma conta de marketing dos parceiros. Por isso, o serviço é gratuito para o consumidor, não é um desconto”, explica Daniela Fagundes, chefe de marketing de produto da Méliuz, empresa que atua no setor.

A rápida diversificação para os serviços financeiros, com a oferta de cartões, empréstimos, pagamentos de boletos e outras finalidades, é comum a empresas do segmento, que cresceram junto com os bancos digitais. Especialistas do mercado observam que o cashback nasceu no Brasil no meio digital. “Esse meio permite que repassemos alguma soma de volta para os nossos clientes. É muito interessante para o consumidor. Quem usa tem uma fidelização maior à marca”, diz Maurício Guerra, gerente de desenvolvimento de negócios no Sicredi, uma cooperativa financeira de crédito digital que atua no Paraná e em São Paulo. O Sicredi existe há décadas, é muito anterior ao uso do computador. A cooperativa lançou seu sistema em 2019. O cliente de um cartão de crédito da marca acumula pontos e pode receber mais tarde uma soma em dinheiro. A taxa média de retorno é de 3%.

CUSTO DO CLIENTE

O cashback está diretamente ligado ao custo de aquisição dos clientes, diz Thiago Alvarez, fundador do Guia Bolso, site de serviços financeiros. “É uma ferramenta muito eficaz para atrair e reter clientes. A lógica dele é o custo de aquisição do usuário, algo que não existia no Brasil até 2014, 2015”, comenta. Alvarez diz que o dinheiro que as empresas gastavam em mídia, principalmente a digital, agora vai diretamente para o bolso do consumidor. “Ao invés de pagar o Google ou o Facebook pelo marketing, com o cashback a empresa paga para o cliente. E isto permite que ela saiba quanto custa a aquisição de cada um. Até poucos anos atrás, nem os grandes bancos sabiam quanto custava”, diz Alvarez.

Ele calcula que o custo de aquisição de um cliente por uma empresa do varejo esteja, em média, ao redor de R$ 50.  ”Hoje existe a tecnologia que permite à empresa saber quanto custa exatamente cada cliente”, observa. Nenhum especialista considera o uso do cashback negativo para o consumidor, mas existem ponderações. “O cliente precisa ficar atento ao que vai comprar e onde. Se ele compra na mesma loja com frequência, o valor do cashback pode ser bom”, diz João Alouche, sócio de meios de pagamentos da consultoria KPMG.

Para ser eficaz em um serviço financeiro, o cashback precisa estar vinculado a um produto que seja cobrado, diz Erick Scott Hood, executivo da Guide Investimentos. “O cliente precisa entender que prestamos um serviço a ele. No serviço Conta-Guia, o cashback volta como um abatimento na taxa de serviço”, explica. Na disputa pelo consumidor, o cashback virou uma ferramenta para o varejo e para as finanças. Vencerá quem conseguir maior fidelização.

GESTÃO E CARREIRA

DAQUI NINGUÉM ME TIRA

Com o avanço da vacinação, empresas dos EUA e da Europa planejam a volta ao escritório, mas enfrentam um dilema inesperado: a resistência dos funcionários

Voltar ou não voltar a trabalhar no escritório? Eis uma questão que movimenta o mundo empresarial agora que as infecções por Covid-19 têm diminuído e o índice de vacinação cresce na maior parte dos países. Nos Estados Unidos, o Google anunciou que até setembro vai desmobilizar o sistema de teletrabalho e adotar um modelo considerado híbrido. O que parecia ser um retorno ao velho normal – ou seja, à sede da empresa – ganhou ares de resistência, com alguns funcionários se recusando a encarar a antiga rotina. Em casos extremos, há quem prefira a demissão. O movimento é observado em diversos países e põe em xeque a intransigência de empresas que exigem dos profissionais que trabalhem como antes.

A Alphabet, controladora do Google, encerrou o primeiro trimestre com 140.000 funcionários diretos. O CEO Sundar Pichai explicou em comunicado interno como pretende conduzir a transição para um modelo híbrido. Ele espera que cerca de 60¾ da equipe trabalhe no escritório “alguns dias por semana”. Outros 20% poderão se mudar para instalações da empresa mais perto de suas casas. A quinta parte restante poderá se candidatar a trabalhar em casa em tempo integral.

Uma pesquisa realizada recentemente pela consultoria Morning Consult confirma a tendência entre os americanos: 87% dos entrevistados que adotaram o teletrabalho durante a pandemia desejam continuar no regime pelo menos uma vez por semana. Alguns executivos, no entanto, não querem nem ouvir falar em propostas desse tipo e permanecem fiéis aos velhos modelos. David Solomon, CEO da Goldman Sachs, chamou o home office de “aberração que vamos corrigir o mais rápido possível”, embora o banco tenha registrado 7 bilhões de dólares em lucros no primeiro trimestre de 2021.

No Brasil, uma pesquisa feita em março pela Fundação Dom Cabral (FDC) em parceria com a EM Lyon Business School e a consultoria Grant Thornton mostra que o modelo híbrido adotado por um número de empresas tem se revelado como a melhor solução. A percepção geral é de que a produtividade no home office aumentou, embora as preocupações com a carga de trabalho, a deterioração das relações pessoais e a perda do convívio ainda tenham peso grande.

Diversas razões explicam o desejo dos profissionais de continuar em casa. A primeira delas é o maior convívio familiar. Quem, afinal, não gosta de almoçar com os filhos em pleno dia útil? Outro motivo destacado nas pesquisas é a possibilidade de ficar livre do trânsito infernal das grandes cidades. Para as empresas, o que interessa mesmo é outro aspecto: no lar, por mais surpreendente que possa parecer, as pessoas são mais produtivas.

O estudo da Dom Cabral indica isso: 58% dos pesquisados acreditam que sua produtividade aumentou e encaram o trabalho remoto como uma vantagem. Na edição anterior da pesquisa, em 2020, o índice ficou em 44%. “Os funcionários que podem trabalhar de casa descobriram novos princípios e valores para a vida deles”, diz Fabian Salum, um dos autores da pesquisa. “Como consequência, muitos deles estão ansiosos – e aflitos e curiosos para saber se essa condição se manterá depois que a taxa de vacinação no país atingir o patamar de 70%, quando será possível flexibilizar as regras de distanciamento social.”

A pesquisa da FDC mostra ainda que a maior parte dos funcionários concordou com a conversão para o teletrabalho durante a pandemia. Por experiência própria, em conselhos de empresas ou em sala de aula, Salum diz que há organizações que são contrárias ao home office e empresas que são favoráveis ao regime. Quando houver uma flexibilização das regras sanitárias, como ocorre nos EUA e na Europa, será necessário abrir um diálogo. “A minha aposta é que vingarão os modelos híbridos, mais flexíveis e adequados tanto às empresas quanto aos profissionais”, conclui ele. Seja como for, ao que tudo indica o mundo do trabalho mudou para sempre.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A SONECA LIBERADA

Novos estudos ratificam a importância de alguns minutos de sono à tarde para a memória, o bem-estar e a produtividade no trabalho

Mesmo em tempos de guerra, com bombas caindo sobre sua cabeça, Winston Churchill não abria mão de tirar uma soneca no meio da tarde. Às 17 horas em ponto, hora do chá (que ele não apreciava muito), o primeiro-ministro do Reino Unido parava tudo para dormir um pouquinho. Acordava, tomava banho, comia alguma coisa, bebia também, e voltava a trabalhar incessantemente até a 1 da manhã. “Quem adere ao hábito ganha dois dias em vez de um”, costumava dizer. No Brasil, um dos grandes propagadores do sono vespertino é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele cochilava por quinze a vinte minutos em um dos sofás do Palácio da Alvorada, em Brasília. “Faz um bem danado”, disse em 1998. Por acaso ou não, Churchill viveu até os 90 anos. FHC está firme, forte e lúcido aos 89.

A ciência acaba de ratificar o papel essencial da sesta para o metabolismo. O mais recente trabalho sobre o assunto, publicado na revista científica americana General Psychiatry, mostrou que deitar um pouquinho que seja durante o dia melhora a capacidade cognitiva (percepção, memória, juízo e raciocínio). Os pesquisadores avaliaram os padrões de sono de 2.214 pessoas saudáveis com 60 anos ou mais. Destas, 1.534 tinham o hábito de tirar uma soneca vespertina regular, enquanto 680 não. Todas foram submetidas a testes para rastreamento de demências e funções cerebrais. O grupo do cochilo apresentou pontuações mais altas na consciência, fluência verbal e memória, em comparação com os demais. O benefício se estende para os mais jovens. Estudo anterior, conduzido pela agência espacial americana, a Nasa, demonstrou que homens e mulheres de diversas faixas etárias que repousavam por aproximadamente vinte minutos depois do almoço têm a capacidade de raciocínio e memória aumentada em 34%, além da habilidade para tomar decisões estimulada em 54%. A explicação é simples. “O sono curto dá um rápido combustível para ficarmos ativos”, diz a biomédica Monica Andersen, diretora do Instituto do Sono: “É como se ele restaurasse as funções cerebrais que foram utilizadas até então”. Para fazer bem, no entanto, um cochilo tem de ser um cochilo mesmo, breve. Ou seja, não pode durar muito. Diz a bióloga Claudia Moreno, vice-presidente da Associação Brasileira do Sono: “O tempo ideal é de até trinta minutos”. Mais do que isso, pode roubar o sono da noite, esse, sim, com a função de restabelecer o organismo por completo.

A soneca é tão antiga quanto os romanos, que amavam a chamada “sexta hora” – um rápido sono na sexta hora do dia, depois do amanhecer, por volta do meio-dia. Foi daí que surgiu a expressão “sesta”. Até a invenção da lâmpada elétrica, no século XIX, os adultos costumavam dormir em duas etapas, uma durante o dia, outra à noite. A luz artificial permitiu às fábricas manter os funcionários no trabalho por mais horas e eles passaram a voltar para casa só à noite para dormir. Os novos conhecimentos agora deflagraram um movimento inverso. Tem se tornado cada vez mais comum grandes corporações estimularem a soneca entre seus funcionários em pleno expediente de trabalho. Empresas como Uber, Google, Facebook, Nike e Mercedes-Benz instalaram espaços dedicados para rápidos descansos em suas sedes, visando aumentar a produtividade e a criatividade dos funcionários. ” Nenhum local de trabalho está completo sem um cochilo”, disse David Radcliffe, vice-presidente de serviços imobiliários e locais de trabalho do Google. De fato, ninguém mais dorme no ponto.

EU ACHO …

ESTUDO DE UM GUARDA-ROUPA

Parece penetrável porque tem uma porta. Ao abri-la, vê-se que se adiou o penetrar: pois por dentro é também uma superfície de madeira, como uma porta fechada. Função: conservar no escuro os travestis. Natureza: a da inviolabilidade das coisas. Relação com pessoas: a gente se olha ao seu espelho sempre em luz inconveniente porque o guarda-roupa nunca está em lugar adequado: gauche, fica de pé onde couber, sempre descomunal, corcunda, tímido, sem saber como ser mais discreto. Guarda-roupa é enorme, intruso, triste, bondoso. Cerra-se, porém, a porta-espelho – e eis que, ao movimento, na nova composição do quarto em sombra, entram frascos e frascos de vidro de claridade fugitiva. (Rápida esperteza do guarda-roupa, contribuição ao quarto, indício de vida dupla, influência no mundo, eminência parda, o verdadeiro poder nos bastidores).

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O STREAMING VAI PARA O JOGO

Reed Hastings, o homem que revolucionou a forma de ver filmes e séries de TV, pode estar a um passo de desafiar a indústria de games, uma das mais competitivas do mundo

É preciso ter visão e coragem para fazer o que Reed Hastings fez. Primeiro, ele revolucionou a locação de DVDs, introduzindo o sistema de assinatura, com entrega em domicílio e sem multa por atraso, acabando assim com as locadoras tradicionais. Depois, reinventou o próprio negócio, deixando de lado a mídia física e investindo na transmissão de filmes por fluxo contínuo de dados (o chamado streaming), criando a Netflix que o mundo conhece hoje. Na sequência, a fim de diminuir a dependência que tinha dos estúdios de Hollywood, Hastings deixou de ser apenas distribuidor para se tornar produtor de filmes e séries, estratégia que lhe garantiu milhares de horas de conteúdo e prêmios máximos, como o Emmy e o Oscar. Agora, o empresário americano está sinalizando que pretende entrar no mundo dos games – o que pode vir a ser sua ruína ou seu maior triunfo.

Abocanhar uma fatia do mercado de jogos representa aumentar o faturamento em bilhões de dólares, uma vez que ele é maior que a indústria do cinema. Já há algum tempo a Sony tem se dedicado menos a fabricar televisores e mais em garantir a liderança de seu console PlayStation, bem como da loja para baixar games via internet. Já o cloud gaming, que permite jogar on-line por streaming, é uma modalidade diferente, que começou a ser explorada em 2019 pelo Google, com seu serviço Stadia, e pela Amazon, no ano passado, com a plataforma Luna. As duas big techs, apesar de terem injetado centenas de milhões de dólares, não conseguiram nem mesmo se aproximar do pelotão de frente, que tem a Sony como campeã, seguida por Tencent, Nintendo, Microsoft e Activision Blizzard.

A Netflix, que lidera com folga seu segmento, com mais de 200 milhões de assinantes no mundo, seria a candidata natural a dominar o cloud gaming e, por esse motivo, estaria disposta a investir nele tanto ou mais que Google e Amazon, incluindo aí a contratação de um executivo especializado. Sua capilaridade global e seu acervo de marcas próprias – como a série de sucesso Stranger Things, licenciada em 2017 para a desenvolvedora Bonus XP – dariam à empresa vantagem competitiva sobre as concorrentes. Essa vantagem, no entanto, não é tão cristalina quanto parece: a Disney, gigante da mídia que passou anos tentando montar seu próprio negócio de jogos, só alcançou sucesso quando desistiu de sua game house e ficou somente no modelo de licenciamento de conteúdo, recebendo parte dos lucros da venda.

Além de superar a dificuldade técnica de velocidade de reação aos comandos, qual papel a Netflix teria na era dos games por streaming? Seria distribuidora, desenvolvedora, licenciadora ou teria as três funções combinadas? As respostas talvez sejam oferecidas em 2022, quando Hastings, ao lado de seu novo super executivo, ainda não anunciado, começar a pôr na mesa as cartas de sua estratégia. Contudo, conhecendo seu histórico de vitórias transformadoras, não é impossível imaginar que, em breve, o público estará jogando de uma forma diferente na frente da televisão.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 26 DE JUNHO

EM BOCA FECHADA NÃO ENTRA MOSQUITO

O coração do justo medita o que há de responder, mas a boca dos perversos transborda maldades (Provérbios 15.28).

Há um ditado popular que diz: “Em boca fechada não entra mosquito”. Falar sem pensar é consumada tolice. Responder antes de ouvir é estultícia. Proferir palavras torpes e desandar a boca para espalhar impropérios e maldades é perversidade sem tamanho. Esse não pode ser o caminho do justo. Uma pessoa que teme a Deus reflete antes de falar, sabe o que falar e como falar. Sua língua não é fonte de maldades, mas canal de bênção para as pessoas. Suas palavras não são espadas que ferem, mas bálsamo que consola e restaura. Uma pessoa íntegra gasta tempo pensando no que falar e em como falar. Suas palavras são verdadeiras, boas e oportunas. Transmitem graça aos que ouvem. Trazem edificação. Jesus nos deu o seu exemplo. Suas palavras eram espírito e vida. Sempre que Jesus abria a boca, as pessoas eram edificadas, consoladas e restauradas. As palavras têm um enorme poder, tanto para edificar como para destruir, tanto para levantar como para derrubar. Precisamos, por isso, ser mordomos responsáveis de nossas palavras. Nossa língua precisa ser remédio para os enfermos, tônico para os fracos, refrigério para os cansados e alívio para os oprimidos.

GESTÃO E CARREIRA

O FUTURO DO TRABALHO DEPOIS DO HOME OFFICE

Rabiscar o amanhã nunca foi tão difícil para líderes e empresas. O maior desafio é encontrar o lugar certo para a inovação

O processo criativo numa grande empresa não é – ou não deveria ser – uma empreitada solitária. Steve Jobs, o célebre criador da Apple, uma das companhias mais valiosas e inovadoras do mundo, não apenas acreditava nisso como criou rotinas e ambientes de trabalho em torno dessa visão. Um símbolo do mundo digital, Jobs acreditava no poder dos encontros cara a cara. Ele juntava diferentes times todas as semanas numa mesma sala para falar sem uma agenda formal. “Há uma tentação em nossa era conectada em rede de acreditar que as ideias podem ser desenvolvidas por e-mail ou “Chat”, disse em uma de suas últimas entrevistas ao biógrafo Walter Isaacson, para a obra que leva o nome do empresário, publicada no mesmo ano de sua morte, em 2011 “É loucura. Criatividade vem de encontros espontâneos, discussões aleatórias. Você vê alguém, pergunta o que ela tem feito, diz ‘uau’, e logo começa a mirabolar todo o tipo de ideias.”

A atual sede da Apple, inaugurada há três anos a um custo de USS 5 bilhões, representa a concretização desse ideal. Diversos detalhes foram pensados pelo próprio Jobs – a começar pela forma circular – para promover interações e conexões casuais entre os 12 mil funcionários que ali trabalham. Ou melhor, trabalhavam, até março de 2020. Após mais de 14 meses sem o burburinho habitual, o prédio deve começar a receber os funcionários de volta, com o avanço da vacinação no país. Por enquanto, a companhia ainda não deu detalhes sobre o esquema de trabalho híbrido que está por vir. Mas o presidente mundial, Tim Cook, declarou recentemente que não vê a hora de ver os escritórios cheios novamente. “Ainda é importante que estejamos fisicamente próximos, porque a colaboração nem sempre é uma atividade planejada”, disse numa entrevista recente.

À medida que o fim do isolamento social se aproxima em países como os Estados Unidos, a dúvida sobre como será o modelo de trabalho e a colaboração no pós-pandemia também começa a se dissipar. No Olimpo das empresas mais inovadoras do mundo, as mais conservadoras nesse quesito têm sido Apple e Amazon. Na empresa fundada por Jeff Bezos, não há sinal de que haverá um modelo híbrido, como foram batizados os novos arranjos entre trabalho remoto e presencial. Num comunicado aos funcionários, a empresa afirmou que deve voltar à sua “cultura centrada no escritório como base”. Trabalhar presencialmente, de acordo com a mesma mensagem, ajuda a empresa a “inovar, colaborar e aprender conjuntamente de modo mais eficiente”. Os funcionários deverão voltar para a sede em Seattle no início do outono.

No Google, um esquema híbrido mais complexo foi anunciado. Segundo a companhia, 20% dos funcionários da sede vão trabalhar de qualquer lugar, e 20 % terão a chance de mudar o local de trabalho. Os demais 60% poderão passar cerca de dois dias da semana fora do escritório, de acordo com um anúncio assinado pelo presidente mundial, Sundar Pichai, no começo de maio. Cada funcionário terá de negociar, no entanto, com seus chefes, a possibilidade de permanecer longe dos escritórios. Boa parte deles ocupam posições que exigem mais trabalho colaborativo – e aí estão incluídos os times mais intimamente ligados à inovação. Na Microsoft, o trabalho híbrido está sendo desenhado pela matriz – mas promete trazer a possibilidade de passar apenas alguns dias da semana no escritório. No grupo das chamadas big techs, o Facebook tem sido um dos mais flexíveis, ao anunciar que até metade dos funcionários poderá trabalhar de qualquer lugar – mas num compasso escalonado nos próximos dez anos, quase uma eternidade num mundo de tantas mudanças instantâneas. O fundador, Mark Zuckerberg, falou recentemente ao The Wall Street Journal que “a cultura é construída dia a dia ao longo de décadas e, por isso, é preciso ter uma abordagem de longo prazo” quando se pensa numa transição desse tamanho.

A mensagem principal é que, nos dias em que estiverem no escritório, as pessoas  usem o tempo para atividades que envolvam interação e não simplesmente para conectar o computador e fazer o que poderia ser realizado de qualquer lugar. Para a volta ao trabalho, o Google, por exemplo, já anunciou que a sede no Vale do Silício deverá aumentar o distanciamento de mesas, terá salas de reunião ao ar livre e mais espaços para realizar video­conferências que simulem, da melhor maneira possível, a sensação de proximidade entre os interlocutores. Algumas empresas começam a ir além e inauguram sedes totalmente diferentes. A empresa de streaming americana Spotify anunciou em fevereiro a decisão de permitir que todos os funcionários trabalhem de qualquer lugar. Um prédio central, porém, continuará existindo. Mas dentro de um conceito inovador: a ideia é replicar o conforto que se tem em casa, do estilo dos móveis e de itens de decoração como cortinas, ao conforto acústico. Em Cingapura, o Citibank inaugurou um novo escritório, em março, no qual as salas de reunião possuem um jardim interno que reproduz uma floresta tropical.

O legado do mais gigantesco e inimaginável experimento (forçado) de trabalho remoto de todos os tempos começa a ficar mais claro. É fato que empresas e funcionários parecem ter relativizado as mesmas convicções, mas em intensidades diferentes. A verdade absoluta de que as pessoas precisam estar juntas no mesmo espaço o tempo todo para produzir e colaborar de maneira eficaz passou a ser questionada. Para empresas que se esmeraram em construir sedes semelhantes a clubes, cheias de atrativos desenhados para manter as pessoas confinadas ali dentro o máximo de tempo possível, acenar com modelos híbridos é uma mudança e tanto. Ainda assim parece haver um descompasso entre o que as pessoas querem e o que as empresas estão dispostas a oferecer neste momento. A pesquisa Work Trend lndex, realizada pela Microsoft com 31 mil profissionais de 31 países e divulgada globalmente em março, mostra que 73% dos trabalhadores querem que o trabalho remoto continue. E 46% dos funcionários se dizem dispostos a mudar de emprego para manter essa condição.

O principal argumento a favor do trabalho remoto é reforçado pelas estatísticas. Os dados existentes sobre a produtividade das equipes durante a pandemia levam à conclusão de que, pelo menos por enquanto, a experiência de manter as equipes trabalhando em casa ou em qualquer outro lugar longe dos escritórios, situação conhecida pela sigla WFA (Work From Anywhere), deu certo. Uma pesquisa recente divulgada pela Conference Board, uma associação empresarial americana sem fins lucrativos, revela que, quando se trata de trabalho nos escritórios, 47% dos executivos acreditam que a produtividade permaneceu a mesma. E 21% notou um aumento nesses indicadores. Os brasileiros parecem ter notado maior diferença. Segundo uma pesquisa da Fundação Dom Cabral (FDC) com 11.075 profissionais, 25,4% acham que sua produtividade não se alterou muito, enquanto 59% apontam uma melhora. “É interessante notar na pesquisa, também, que essa percepção de aumento de produtividade vem acompanhada de comentários sobre o sentimento de exaustão, especialmente na média gerência. Para continuar nesse modelo, empresas e profissionais precisam encontrar o equilíbrio”, diz Fabian Salum, professor de estratégias competitivas da FDC.

Um exemplo da capacidade de adaptação de modelos físicos para o mundo virtual é a transformação do Cubo, que se consolidou como um dos mais ativos ecossistemas de inovação para grandes empresas e startups do país. “Deixamos de ser um prédio que tem uma comunidade para virar uma comunidade que tem um prédio”, afirma Pedro Prates, diretor de produtos digitais do Cubo. Embora a sede em São Paulo ainda esteja totalmente vazia, a instituição registrou resultados recordes ao se tornar, da noite para o dia, uma comunidade virtual. A primeira medida foi acabar com a distinção entre startups residentes, que tinham uma sala fixa e podiam usar o Cubo como endereço fiscal, e as demais, que só ganhavam acesso aos eventos online. Agora, todas as 280 em­ presas participantes da rede são associadas. Passam pelo mesmo processo seletivo e podem escolher entre três pacotes de benefícios – por exemplo, ter cadeira fixa, ter sala fixa ou reservar cadeiras avulsas, sujeitas à disponibilidade no dia da visita – pagando mensalidades de R$ 950 a R$ 1.050 por membro da equipe. Deu certo: o número de matches entre companhias tradicionais e startups chegou ao recorde de 390 em 2020, e o aporte total nas associadas superou R$ 1 bilhão, outra marca inédita nos seis anos de existência do espaço. Hoje os pitches acontecem por meio de videoconferência, em interações totalmente virtuais, sem que as startups precisem se deslocar para São Paulo. “O que pode se perder no remoto é a inovação espontânea. Em qualquer organização, o relacionamento se fortalece com interações sociais”, diz Prates. “Talvez o melhor modelo seja ficar alguns dias em casa, para fazer coisas que só dependem daquele funcionário, e outros no escritório, para encontrar o time, participar de debates de ideias. A vocação do espaço físico vai mudar, vai ser muito mais voltado à colaboração.”

Com incontáveis possibilidades tecnológicas de manter o time conectado, as empresas parecem ter conseguido manter um nível eficiente de colaboração entre as pessoas. Não à toa criou-se o termo “fadiga de Zoom”, em referência a um dos mais adotados aplicativos de videoconferência. Basta mencionar que até mesmo Eric Yuan, CEO do Zoom, uma das mais bem-sucedidas tecnologias de conexão virtual durante a pandemia, reconheceu que também sente os efeitos extenuantes de intensas séries de conversas em vídeo.

Além dos aplicativos de videoconferência, houve a disseminação de ferramentas que transpõem para o digital quadros brancos usados em reuniões para desenhar o que se quer explicar e os murais de Kanban, que organizam os fluxos de trabalho com post-its coloridos. As versões virtuais podem ser acessadas simultaneamente por todos os membros de uma equipe que trabalha remotamente. Para quem não teve tempo de planejar nada nessa súbita necessidade de conectar as equipes à distância, essas ferramentas passaram a ser a única alternativa. Foi o caso da fabricante de alimentos BRF, que há mais de um ano correu para mandar cerca de 10 mil funcionários para casa. Enquanto isso, outros 90 mil se mantiveram na linha de frente, dentro das fábricas e dos laboratórios. Com o uso de ferramentas virtuais, eles afirmam ter descoberto que o modelo pode ser mais ágil do que o previsto. “Para organizar a rotina de interações, mantivemos as reuniões todas as manhãs e no final do expediente, para discutir o que deu certo, o que não deu, e como seguir. No início, tem um check-in, para todos dizerem como estão se sentindo”, diz Sérgio Pinto, diretor de inovação da BRF, que ainda não definiu como será o modelo de trabalho no fim da pandemia. Em 2020, a companhia lançou 280 novos produtos, 20% a mais do que no ano anterior.

A discussão fica mais complexa quando envolve fatores intangíveis capazes de fortalecer o potencial de inovação de uma equipe, como a qualidade das relações estabelecidas pessoalmente. Na locadora de carros Movida, a maior parte dos funcionários continua trabalhando remotamente por força da pandemia. Mas Renato Franklin, presidente da companhia, não vê a hora que os 3 mil funcionários de escritório voltem ao trabalho. “A produtividade aumentou nesse período, e a digitalização foi adiantada em cinco anos”, afirma. Houve até espaço para colocar para rodar um projeto que estava na prancheta; um app de comercialização de carros com lojistas que vão revender. Antes,não era financeiramente viável para o dono de uma pequena revenda de automóveis no interior ir até um grande centro a fim de comprar apenas um ou dois veículos. Com o app, é possível ver os carros e fechar negócio. Reuniões que eram mensais passaram a ser semanais, e foi formado um time ágil de gestores para acompanhar diariamente o andamento dos projetos. A distância entre a alta liderança e a execução, um grande gargalo na gestão a qualquer tempo, se reduziu.” No online, o foco aumenta, conseguimos acelerar algumas entregas”, afirma. “Entretanto, certas reuniões são mais produtivas se presenciais. E o desenvolvimento das pessoas, o aprendizado, precisa do contato humano, das trocas com outras áreas.” A Movida também deve adotar o modelo flexível – cujos contornos ainda estão sendo avaliados.

Uma medida mais científica da química invisível que parece se criar está num amplo estudo realizado pelo Google, no Vale do Silício. O projeto, cujos primeiros resultados começaram a se tornar públicos em 2014, foi realizado por um grupo de matemáticos e psicólogos com a missão de estudar estatisticamente diferentes características de 180 grupos de trabalho dentro da organização, e tentar relacioná-los à capacidade que eles tinham de inovar. A primeira premissa era de que talento individual é importante, claro, mas não explica tudo. Por isso o projeto foi batizado de Aristóteles, em alusão à máxima do filósofo grego de que “o todo é maior do que a soma de suas partes”. A conclusão pode ser resumida num termo que virou onipresente entre especialistas de comportamento organizacional nos últimos tempos: segurança psicológica. Em outras palavras, integrantes de times mais colaborativos e eficientes se sentem livres para falar sem medo de críticas, sabem exatamente o que se espera deles e ficam confortáveis em pedir ajuda. No dia a dia, detalhes tão simples como manter o contato visual e o tipo de expressão facial durante uma conversa fazem a diferença na construção ou na destruição dessa percepção. A distância das equipes no longo prazo desperta a preocupação do Google de tal forma que, no seu mais recente relatório de desempenho, a companhia sinalizou a possibilidade de que os resultados poderiam ser prejudicados no caso de uma extensão do afastamento das equipes por muito tempo. “No ambiente digital, as trocas são mais transacionais. Mas a inovação não nasce sem que haja uma espécie de fricção”, afirma Fábio Coelho, presidente da operação do Google no Brasil, que não pisa no escritório desde o início do isolamento social. Por enquanto, não há uma diretriz clara de volta no país, mas ele espera poder trabalhar pelo menos dois dias de sua casa, onde mora com a mulher e a filha mais nova, de 15 anos.

Manter os ativos intangíveis que constroem um ambiente favorável à inovação e à colaboração também vem ganhando força em empresas como a Microsoft. O presidente mundial, Satya Nadella, busca declaradamente, com base em achados mais recentes da neurociência, criar um ambiente de empatia. Para isso, incentiva que as pessoas possam ouvir o outro e falar abertamente sobre suas vulnerabilidades. E criar essa proximidade de maneira digital tem sido um desafio. Para Tânia Cosentino, presidente da Microsoft no Brasil, o esforço nesse sentido incluiu reproduzir virtualmente tudo o que era feito de maneira presencial, de hackathons a cafés da manhã com 20 funcionários todo mês. “Agora cada um recebe em casa uma cesta de café da manhã para participar desse encontro virtual”, diz. “Não podemos deixar que o distanciamento atrapalhe a integração das equipes.”

Uma pesquisa realizada pela consultoria McKinsey mostra justamente que os times que mantiveram maior nível de produtividade durante o isolamento social são aqueles que realizaram mais encontros informais, mesmo que virtuais, e mantiveram reuniões sem uma pauta estruturada. É o que os autores do estudo, realizado com 2 mil profissionais de 12 países, chamaram de “pequenos momentos de engajamento”.

A proximidade, nessas ocasiões, ajuda a combater outro obstáculo à produtividade dos funcionários: a ansiedade. Especialistas e executivos são unânimes em enfatizar que não estamos vivendo um home office. E sim um trabalho remoto num contexto de pandemia. A ansiedade de não poder sair de casa como antes, levar as crianças à escola ou mesmo encontrar os amigos já eleva os índices de ansiedade a níveis nocivos para a saúde do profissional e, por consequência, da própria empresa. Para medir essa intensidade, Coelho diz que a companhia faz todo o início de semana um questionário de dois minutos para saber como cada colaborador se sente. O resultado é uma nuvem de palavras com o humor de todos. “Percebemos que, quando a pressão era muito grande, a nuvem de palavras mostrava: estou assoberbado, cansado, preocupado. Quando se tirava o pé, as pessoas começavam a dizer: estou animado, energizado”, diz. Como resposta, a companhia decidiu dar três sextas-feiras livres para os funcionários, como dias de folga globais.

Para as empresas, optar por mais funcionários trabalhando em modelo remoto amplia enormemente o espectro de profissionais disponíveis. Justamente por essa razão, para certas posições essa já tem sido uma realidade. Na própria Microsoft, entre os 900 funcionários localizados no Brasil, metade faz parte de times de outros países e viajavam esporadicamente para a sede, sobretudo em áreas mais técnicas, com uma dose maior de trabalho individual, como a de tecnologia.

Parte dos problemas apontados como obstáculos ao trabalho remoto na pandemia – como a sensação de isolamento – já vinha atrapalhando indivíduos e empresas há mais tempo. O tema tem sido extensivamente estudado por Mark Mortensen, professor de comportamento organizacional da escola de negócios Insead, na França. Segundo uma pesquisa recentemente realizada por ele, as metodologias ágeis e seus times globais, multifuncionais e efêmeros causam uma sensação de isolamento capaz de acabar com a chance de formar times inovadores.

A tentativa de trazer mais profundidade – e naturalidade – para as relações virtuais, no entanto, começa a se sofisticar para atender à demanda de quem acredita que é possível manter a equipe indefinidamente dispersa. Os mesmos aplicativos de redes sociais corporativas que colocam todas as informações sobre processos administrativos na palma da mão dos colaboradores também possibilitam a formação de grupos de afinidade, para falar de animais de estimação ou viagens. A startup Enjoei, que funciona como um brechó online, foi mais longe. Passou a utilizar um aplicativo que funciona como um jogo de computador. Num ambiente virtual de escritório, com baias, salas de reunião e espaço do cafezinho, cada colaborador cria o seu avatar. Quando entra em uma sala, pode conversar por vídeo automaticamente com os colegas que já estavam ali. Está dando tão certo que a Enjoei decidiu devolver o escritório que ocupava na Zona Sul de São Paulo e colocar seus 300 funcionários em home office permanente. Eles passarão a contar com uma sede menor para servir como ponto de apoio e receber os clientes. A adaptação ao novo modelo foi fácil porque o trabalho remoto já era bastante usado por algumas equipes e estimulado pela liderança. O maior exemplo vinha do diretor de tecnologia e cofundador, Carlos Brando. Quando se juntou a Tiê Lima e Ana Luiza McLaren para ajudar na criação do brechó online, Brando morava em Franca, no interior paulista. Levou um ano até que conhecesse suas sócias pessoalmente, e ainda passou outro ano trabalhando na Nova Zelândia, para aprimorar o seu inglês antes de se mudar definitivamente para São Paulo, no começo de 2019. “Para manter a cultura e o engajamento em uma empresa que está crescendo, criamos rituais nas equipes”, conta o executivo. “Todo dia, cada time se encontra por vídeo de manhã, com as câmeras abertas, para se ver um pouco. Às sextas, na engenharia, temos uma reunião de pauta livre. Fazemos jogos – na semana passada, dois colegas tocaram violão. Aí vamos nos conhecendo.”

Não é o que alguns empreendedores mais radicais, como o cofundador e presidente da gigante Salesforce, Marc Bernioff, pretende fazer. Apesar de anunciar recentemente que quer acabar com os escritórios da matriz, ele tem a ideia de comprar um espaço de convivência, provavelmente uma fazenda, capaz de abrigar os funcionários de tempos em tempos com o objetivo de trocar ideias e estabelecer um contato pessoal. O professor de Harvard Prithwiraj Choudhury diz que não prestar atenção a rituais como esse é uma “receita para o desastre”. Mas ele acredita que, com o tempo, maneiras \rituais de se relacionar no trabalho ganhem relevância e se tornem até mais eficientes na integração dos funcionários do que as presenciais. Ele citou a possibilidade de um trader compartilhar a própria tela com funcionários mais novos, para possibilitar o aprendizado pela observação – tão importante, sobretudo no caso de quem está começando a carreira.

Por enquanto é quase impossível dizer se casos como esses vão se tornar regra – e se boa parte das empresas esteja bem longe de tomar essa decisão. A maioria ainda concorda que o legado de Jobs não perdeu a validade. Ninguém descobriu nada melhor do que as conexões humanas – e analógicas – na hora de inovar.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

INFÂNCIA ROUBADA

A criança necessita de um ambiente estável e seguro para amadurecer, por isso os conflitos advindos de disputa judicial maculam seu processo de desenvolvimento emocional

Quando se trata de subtração ou sequestro internacional de menor, como antes era denominado, observa-se que as crianças envolvidas são ainda muito pequenas e dependentes das figuras de apoio emocional representadas pelas figuras parentais. A criança necessita de um ambiente estável e seguro para amadurecer emocionalmente. O conflito gerado de disputa judicial faz uma     ruptura em seu mundo interno, ruptura essa que, além de a criança não conseguir digerir emocionalmente por incapacidade egóica, também fica imobilizada e sem ter como escapar, restando a ela aceitar e acreditar somente em um de seus genitores. Se a disputa pela guarda já é algo devastador, cabe aqui pensar o que pode significar para uma criança o desespero de   abandonar com um de seus genitores sua vida em um determinado país e se mudar para outro país, sem que haja retorno para sua rotina anterior, o que é sentido como um corte brusco no seu psiquismo.

Uma das questões mais relevantes que se deve ter em mente quando se trata de uma criança que foi retirada de seu país habitual é a noção de tempo da infância, e por isso a justiça precisa ser célere; uma criança não pode esperar, porque a infância é um período relativamente curto, mas   como essa infância foi vivida ficará para sempre no psiquismo. Pensando sobre isso, é necessário que haja uma análise minuciosa a respeito das denúncias e ainda saber como está emocionalmente essa criança, ou seja, é preciso investigar os motivos não só objetivos, mas os subjetivos que levaram um de seus genitores a fugir, isto é, como se deu a base do conflito da relação parental. Esse tipo de avaliação deve ser feito por psicólogos e psicanalistas que possuem   as ferramentas necessárias para o entendimento da personalidade e dos conflitos humanos.

Quando se fala em tempo, sublinha-se que a noção de tempo na vida de uma criança é muito diferente do tempo de um adulto. O processo de transformação de um bebê para uma criança e de uma criança para um adolescente ocorre em uma velocidade muito grande. Além disso, os primeiros cinco anos na vida de uma criança são fundamentalmente o alicerce emocional para a vida adulta. Pensando mais profundamente, um ano na vida de uma criança representa um conjunto complexo de desenvolvimento físico e emocional, do qual teremos notícias durante a adolescência e na observação de como esse adulto vivencia suas experiências afetivas. Por isso é tão importante dar atenção ao período da infância.

O tempo vivido ou desperdiçado não volta mais; e como ficam as crianças que por algum motivo a respeito da vida de seus pais deixam de conviver com um de seus genitores?

Um dos papéis dos pais é garantir ao outro o lugar de sua função paterna ou materna, separando assim conjugalidade de parentalidade. Isso quer dizer que quando a relação acaba se trata do fim de um casal conjugal, o que não é o caso do casal parental, que é para sempre. A criança é o retrato vivo do vínculo passado do casal que não pode ser apagado. Lidar com o fato de que a criança é uma pessoa e não lhe pertence como objeto de posse tem sido um grande desafio para   muitos pais que acreditam que após a separação o filho passou a ser sua propriedade particular.  Os pais constituem a base fundamental para o desenvolvimento emocional de seus filhos. A função dos pais é através do amor educar e tornar seu filho autônomo, ou seja, ajudá-lo a se tornar adulto o suficiente para cuidar de si próprio e administrar a própria vida.

É importante acompanhar a criança no processo de elaboração daquilo que não foi possível digerir emocionalmente devido ao trauma, talvez assim ela possa pintar seu futuro mais colorido e ter a oportunidade de (res)significar sua história.

O que torna uma experiência traumática é a incapacidade do aparelho psíquico em recuar segundo   o princípio de constância causado pelo excesso de excitação. Quando as estratégias defensivas não são suficientes, ele será compulsivamente obrigado a ligar a excitação “além do princípio do prazer” para trazer progressivamente de volta seu psiquismo a um estado suportável. Imagina isso numa criança que tem um aparelho psíquico incipiente! É um desastre emocional.

Hoje existe uma série de provas que usam o testemunho da criança, às vezes com uma só escuta do menor se decide um processo judicial. Pontuo que como psicanalista e perita em Vara de Família isso é absolutamente uma temeridade. Se os adultos não conseguem resolver seus problemas, imagine uma criança nesse papel!

Em processo judicial no qual existe conflito familiar não é possível abordar apenas o “conteúdo manifesto”, isto é, aquilo que está sendo mostrado, é preciso ter outro olhar e outra escuta. É no conteúdo latente que aquilo que não é observado por um leigo por ser inconsciente, que poderá ser encontrado como pistas para esclarecimentos do caso, e desse modo contribuir para o melhor desfecho do processo, respeitando o tempo da infância.

Os casos de subtração do menor apontam não só para uma questão de acordo entre países, mas sobre a necessidade de se pensar a respeito dos conflitos existentes em casos como esses, com a ajuda competente de profissionais de saúde mental na construção de estratégias que favoreçam o desenvolvimento emocional positivo da criança envolvida.

RENATA BENTO – é psicóloga, especialista em criança, adulto, adolescente e família. Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada à IPA – International Psychonalytical Association, à Fepal – Federacion Psicoanalítica de América Latina e à Febrapsi – Federação Brasileira de Psicanálise. renatabento.psi@gmail.com

EU ACHO …

SOU UMA PERGUNTA

Quem fez a primeira pergunta?

Quem fez o mundo?

Se foi Deus, quem fez Deus?

Por que dois e dois são quatro?

Quem disse a primeira palavra?

Quem chorou pela primeira vez?

Por que o Sol é quente?

Por que a Lua é fria?

Por que o pulmão respira?

Por que se morre?

Por que se ama?

Por que se odeia?

Quem fez a primeira cadeira?

Por que se lava roupa?

Por que se tem seios?

Por que se tem leite?

Por que há o som?

Por que há o silêncio?

Por que há o tempo?

Por que há o espaço?

Por que há o infinito?

Por que eu existo?

Por que você existe?

Por que há o esperma?

Por que há o óvulo?

Por que a pantera tem olhos?

Por que há o erro?

Por que se lê?

Por que há a raiz quadrada?

Por que há flores?

Por que há o elemento terra?

 Por que a gente quer dormir?

Por que acendi o cigarro?

Por que há o elemento fogo?

Por que há o rio?

Por que há gravidade?

Por que e quem inventou os óculos?

Por que há doenças?

Por que há saúde?

Por que faço perguntas?

Por que não há respostas?

Por que quem me lê está perplexo?

Por que é que a língua sueca é tão macia?

Por que fui a um coquetel na casa do Embaixador da Suécia?

Por que a adida cultural sueca tem como primeiro nome Si?

Por que estou viva?

Por que quem me lê está vivo?

Por que estou com sono?

Por que se dão prêmios aos homens?

Por que a mulher quer o homem?

Por que o homem tem força de querer a mulher?

Por que há o cálculo integral?

Por que escrevo?

Por que Cristo morreu na cruz?

Por que minto?

Por que digo a verdade?

Por que existe a galinha?

Por que existem editoras?

Por que há o dinheiro?

Por que pintei um jarro de vidro de preto opaco?

Por que há o ato sexual?

Por que procuro as coisas e não encontro?

Por que existe o anonimato?

Por que existem os santos?

Por que se reza?

Por que se envelhece?

Por que existe câncer?

Por que as pessoas se reúnem para jantar?

Por que a língua italiana é tão amorosa?

Por que a pessoa canta?

Por que existe a raça negra?

Por que é que eu não sou negra?

Por que um homem mata outro?

Por que neste mesmo instante está nascendo uma criança?

Por que o judeu é raça eleita?

Por que Cristo era judeu?

Por que meu segundo nome parece duro como um diamante?

Por que hoje é sábado?

Por que tenho dois filhos?

Por que eu poderia perguntar indefinidamente por quê?

Por que o fígado tem gosto de fígado?

Por que a minha empregada tem um namorado?

Por que Parapsicologia é ciência?

Por que vou estudar Matemática?

Por que há coisas moles e há coisas duras?

Por que tenho fome?

Por que no Nordeste há fome?

Por que uma palavra puxa outra?

Por que os políticos fazem discurso?

Por que a máquina está ficando tão importante?

Por que tenho de parar de fazer perguntas?

Por que existe a cor verde-escuro?

Por quê?

É porque.

Mas por que não me disseram antes?

Por que adeus?

Por que até o outro sábado?

Por quê?

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

OLHOS DE SUPERMAN

Novas tecnologias conferem a médicos, seguranças e soldados visão especial tanto para salvar quanto para tirar vidas – cabe à humanidade decidir como usá-las

Os raios X foram descobertos por acidente pelo alemão Wilhelm Roentgen em 1895, quando ele pesquisava os raios catódicos, que seriam aplicados mais tarde nos primeiros aparelhos de TV. A invenção rendeu a Roentgen o Prêmio Nobel de Física e se espalhou pelo mundo. Chapas com impressão radioativa passaram a revelar ossos quebrados, perfuração por bala e pneumonia. O raio X se tornou tão popular que chegou a ser usado em lojas de sapatos: os clientes adoravam ver os ossos dos próprios pés dentro do novo calçado. Superman, o primeiro super-herói dos gibis, criado em 1938, via através de tudo e todos nos anos 1940 e 1950, justamente quando os aparelhos nos hospitais começaram a ser questionados pelas autoridades médicas por expor as pessoas a quantidades nocivas de radiação. Porém tecnologias mais seguras e avançadas, seguindo a evolução já trazida pela ressonância magnética, a tomografia e o ultrassom, continuam a revolucionar a capacidade de ver através de objetos, no escuro e dentro de seres vivos. É o poder do Superman, cada vez mais próximo do homem comum, sendo usado na medicina, na segurança e, infelizmente, na guerra.

No Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), um dos principais centros de pesquisa dos Estados Unidos, está sendo desenvolvido o RF­ Pose, uma inovação capaz de detectar e traduzir a interferência que a frequência de ondas de rádio sofre quando encontra o corpo humano, ignorando a presença de obstáculos sólidos. Como resultado, o RF-Pose é capaz de captar a posição (pose) de um ser humano, independentemente de obstruções como paredes, na forma de um boneco de palito 2D, como aqueles usados em desenhos rudimentares. A primeira versão do aparelho tem alcance limitado a poucos metros, mas, se já estivesse disponível no mercado, poderia ser utilizada, por exemplo, em casas de repouso para monitorar a movimentação de idosos. Entre as ondas de rádio do RF-Pose, que em tese não oferecem risco à saúde, e a perigosa radiação infravermelha, na qual se encontram os raios X, existe uma outra frequência conhecida como terahertz, popularmente chamada de raios T. Escâneres com essa tecnologia poderiam ter inúmeras aplicações na medicina e na segurança de aeroportos, uma vez que emitem baixa radiação. O problema, segundo os pesquisadores, é gerar luz suficiente na banda T e, principalmente, ter uma superfície resistente e sensível o bastante para captá-la e formar uma imagem. Mas cientistas da Universidade de Maryland, também nos Estados Unidos, encontraram a solução no grafeno, película flexível e excelente condutora de eletricidade, já usada em alguns segmentos da indústria. O que segura o avanço mais rápido do raio T é a própria produção do grafeno, substrato de carbono do grafite, cujo custo de extração é altíssimo.

A capacidade de enxergar além do campo normal de visão, no entanto, não está restrita às ondas de rádio e aos múltiplos níveis de radiação. Conseguir ver no escuro, virando a esquina e o que está atrás das barricadas em um campo de batalha é uma capacidade que militares estão adquirindo com a utilização de alta tecnologia em recursos ópticos tradicionais. O Exército americano pretende investir mais de 1 bilhão de dólares na aquisição de 40.000 óculos especiais que podem dar aos soldados de infantaria vantagens praticamente insuperáveis sobre o inimigo. Os óculos – que na verdade são visores de realidade aumentada derivados dos videogames – têm nada menos que sete câmeras embutidas (cinco frontais e duas laterais), que permitem ao usuário enxergar tudo à sua volta, inclusive à noite. As câmeras gravam vídeo, conferem visão noturna e detectam calor. Ampliam e aproximam imagens, fazem mira para acertar alvos e ainda projetam mapas diretamente no visor quando reconhecem a área. Além disso, o acessório pode ser conectado a câmeras montadas em tanques de guerra, na ponta de fuzis e em drones que sobrevoam a região conflagrada. Assim, o usuário tem acesso não só às imagens geradas por seu dispositivo, mas também às que vêm de equipamentos de apoio no céu e na superfície.

Imagine a seguinte situação: um soldado desconfia que há uma emboscada virando a esquina. Sem tecnologia, o risco de ser alvejado só de pôr a cabeça à mostra, na tentativa de ver algo, é enorme. Na verdade, centenas de militares perdem a vida dessa forma todos os anos. Com a nova tecnologia, por meio de câmeras no veículo blindado despachado à frente – ou pela câmera no fuzil ou no drone -, o combatente pode detectar múltiplos atiradores, até mesmo na escuridão. Definitivamente, óculos com tantas funcionalidades têm o poder de transformar um cidadão comum em um super-homem ou, em caso de guerra, em um super soldado.

A história mostra que novas tecnologias, quando surgem, costumam tomar dois caminhos distintos: um para salvar vidas e o outro para tirá-las. É assim com aviões e energia nuclear ou com automóveis e agrotóxicos. Os poderes conferidos ao homem pela visão de raio X não são mais ou menos perigosos que a força bruta ou a capacidade de voar. Cabe à sociedade e a seus indivíduos decidir como aplicá-los.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 25 DE JUNHO

O LUCRO DESONESTO É UMA DESGRAÇA

O que é ávido por lucro desonesto transtorna a sua casa, mas o que odeia o suborno, esse viverá (Provérbios 15.27).

A avareza é um saco sem fundo. Quanto mais você tem, mais deseja ter. A avareza gera no coração do homem uma sede insaciável, uma busca desenfreada pelo lucro desonesto e uma insatisfação desmedida. Há pessoas que mentem, corrompem, matam e morrem por causa do lucro desonesto. Há indivíduos que vendem a alma para o diabo a fim de conquistar riquezas. Passam por cima das pessoas, oprimem os fracos e torcem o direito do justo para acumular mais tesouros em sua casa. Essa riqueza ilícita, porém, não lhes dá segurança nem paz. A casa do homem ávido por lucro desonesto vive sobressaltada. As pessoas têm conforto, mas não paz. Têm luxo, mas não descanso. Dormem em camas macias, mas são assaltadas por pesadelos. Participam de banquetes, mas não se fartam. Sorvem os mais doces licores da vida, mas não se saciam. Não é o rico desonesto que vive abundantemente, mas aquele que, embora pobre, odeia o suborno. É melhor viver uma vida modesta, mas com dignidade, do que ajuntar riquezas e ter o nome sujo na praça. É melhor ser pobre e íntegro do que ser rico e não ter paz de espírito. A maior riqueza que um homem pode ter é um coração transformado pelo evangelho, uma vida exemplar e um caráter irrepreensível.

GESTÃO E CARREIRA

COMO SEDUZIR CONSUMIDORES INFIEIS

A pandemia acelerou o digital, ampliou o leque de opções e erodiu a fidelidade dos consumidores. A barra subiu. No mundo pós-covid, o desafio das empresas é melhorar a experiência dos clientes e agregar valor ao que vendem

Sozinho, dentro do carro, um homem liga o som e fecha os vidros. A música é envolvente e fala de saudade. Ele suspira ao abrir o pacote e parece adivinhar o prazer que está prestes a desfrutar. Saca uma porção de batatas fritas e se delicia com os palitinhos. Depois, refestela-se com o hambúrguer, o refrigerante e o sundae. Ao terminar, desce do carro com as embalagens descartáveis vazias. Não conseguiu esperar chegar em casa para devorar o lanche. Ele está sozinho, isolado. Mas, aparentemente, satisfeito.

A campanha “Drive do Méqui. Seu carro, seu Méqui”, da rede de fast-food McDonald’s, que estreou em abril, dá o tom dos caminhos que o marketing vai trilhar no mundo pós-pandemia. A ação é uma sequência de outra iniciativa, o Méqui. Sem Fila, lançado em setembro do ano passado. Trata-se de uma funcionalidade adicionada ao aplicativo do McDonald’s para permitir o pagamento remoto: o cliente pode comprar pelo celular e retirar o pedido no balcão. O celular substitui os totens de atendimento disponíveis nas lojas para reduzir as filas – e filas são algo de que ninguém vai sentir saudade quando a pandemia for controlada.

Os consumidores, claro, estão ansiosos por retomar alguns hábitos que tiveram de deixar para trás por causa da covid -19. Uma pesquisa realizada pela consultoria Gartner nos Estados Unidos, no início deste ano, revelou que comer em ambiente fechado de um restaurante é a atividade de que as pessoas mais sentem falta – 41% dos entrevistados disseram que pretendem matar essa vontade após tomar a vacina contra a covid-19. Mas, depois de experimentar as conveniências propiciadas pelo avanço da digitalização durante a pandemia, o nível de exigência dos consumidores aumentou. Nada será como antes. “Cinco anos atrás, eu jamais imaginaria fazer isso com o McDonald’s: estar na praça de alimentação, pedir pelo celular e só me levantar para buscar a comida”, diz João Branco, diretor de Marketing da Arcos Dorados no Brasil. A empresa é a maior franquia do McDonald’s no mundo e tem o Brasil como seu principal mercado na América Latina.

O McDonald’s foi uma das milhares de empresas de serviços e bens de consumo no país que, após o baque inicial da quarentena, tiveram de adaptar suas operações, estratégia e comunicação para o momento inédito na história. “Depois que comunicamos, em 19 de março do ano passado, que todos os nossos mil restaurantes e 2 mil quiosques de sobremesa no país ficariam fechados, pegamos nosso planejamento de marketing para 2020 e o rasgamos, folha por folha”, diz Branco, que, três anos atrás, foi responsável por nomear a rede no país com o apelido carinhoso de Méqui. A estratégia adotada pelo McDonald’s para enfrentar a crise foi batizada de 3D: drive-thru, delivery e digital. “Foi o que nos permitiu continuar gerando caixa”, afirma Branco.

Os resultados têm sido promissores. O número de downloads do aplicativo da marca no país subiu 47%, para 25 milhões, no ano passado. A operação de drive-thru, que antes representava menos de 20% das vendas no Brasil, hoje responde por cerca de 40%. A participação do McDonald’s no mercado brasileiro avançou quatro pontos percentuais: a cada R$100 gastos em fast-food, R$ 39 vão para o Méqui. Em 2019, eram R$ 35, segundo pesquisa realizada pela empresa de inteligência de mercado Mosaiclab com as 13 maiores redes de fast-food no país. Isso tudo em um mercado que encolheu muito. Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasei), em 2020, cerca de um terço dos empreendimentos fechou as portas, e ao menos 1 milhão de pessoas ficaram sem emprego. Mas a vida não tem sido fácil para o McDonald’s. “Em 2020, depois de avançarmos por 160 trimestres seguidos em número de clientes e faturamento, foi a primeira vez que deixamos de crescer”, diz Branco. As receitas no Brasil caíram 120,3% no ano passado em relação a 2019. O lucro operacional no período encolheu 90,3%.

Para muitas empresas, uma das poucas vantagens da pandemia foi ter levado todo mundo para o online, um ambiente em que é possível monitorar as mudanças de comportamento do cliente. Nunca as companhias tiveram tanto acesso a dados sobre os hábitos e as preferências dos consumidores. Mas, para Luciana Faluba Damázio, professora e pesquisadora de estratégia e marketing da Fundação Dom Cabral (FDC), há um contraponto para essa abundância de informações: no ambiente digital, muitas práticas se tornaram commodity. “É preciso oferecer benefícios que façam o consumidor querer dividir seus dados com a marca”, afirma. “Nunca foi tão difícil captar a atenção do consumidor como hoje.”

CONSUMIDORES MENOS FIEIS

Outra consequência da pandemia foi o aumento do leque de opções de produtos e serviços disponíveis nos canais digitais. Em todos os setores, as empresas foram forçadas a ampliar sua presença online para manter os negócios funcionando. O mundo se tornou um grande marketplace. Uma decorrência desse fenômeno foi a erosão sem precedentes da fidelidade às marcas. Um estudo realizado pela consultoria McKinsey com cerca de 2 mil consumidores americanos, em junho do ano passado, apontou que 75% deles haviam adotado um novo hábito de compra em resposta as pressões econômicas, ao fechamento de lojas e às trocas de prioridades. Essa mudança de comportamento se refletiu em quebras de lealdade: 36% dos consumidores experimentaram uma nova marca de produto, e 25% incorporaram uma marca própria de varejistas em substituição às tradicionais. Dos consumidores que experimentaram marcas diferentes, 73% pretendem continuar a usá-las depois que a crise da covid-19 passar.

O atual momento, segundo Luciana, remete ao best­seller Rápido e Devagar, do psicólogo israelense Daniel Kahneman, teórico da economia comportamental e ganhador do Nobel de Economia em 2002. No livro, que resvala para a neurociência, o autor discute como a mente funciona e como as decisões são tomadas. São duas formas: uma é rápida, intuitiva e emocional; a outra, mais lenta, deliberativa e lógica. “Quando tudo vai bem, ninguém altera o comportamento e toma as decisões rapidamente. Mas, agora, o cérebro passa a trabalhar com uma realidade complexa, de crise, em que precisa rever as tomadas de decisão”, afirma Luciana. Dito de outra maneira: “As empresas precisam entender que o consumidor tem grande chance de sair desta pandemia de maneira muito diferente da que entrou. Com outros valores e prioridades”.

Uma forma de reforçar ou reconstruir a fidelidade desse consumidor é melhorar sua experiência com a marca. Algumas empresas estão explorando novas possibilidades trazidas pelo ambiente online, como o live commerce, uma estratégia de venda de produtos usando transmissões ao vivo. “Com essa técnica, as marcas se transformam em um veículo de comunicação e criam sua audiência, estabelecendo uma relação própria com o cliente”, diz Roberto Kanter, professor da Fundação Getúlio Vargas e especialista em varejo, comportamento do consumidor, tendências de mercado e marketing.

Quem tem usado esse recurso é o grupo de moda Soma, dono de marcas como Farm, Animale, Cris Barros e Maria Filó – e que comprou recentemente a Hering. Durante a pandemia, o Soma investiu em uma plataforma própria para transmitir seus desfiles, interagir com o público e vender produtos em tempo real. Durante as lives, apresentadores e influenciadores exibem, discutem e experimentam as peças das grifes. Nas 11 lives realizadas ao quarto trimestre do ano passado, o Soma faturou quase R$ 5,5 milhões. “A transmissão das lives foi a maneira que encontramos para manter os lançamentos e despertar o desejo de compra na quarentena”, diz Alisson Calgaroto, diretor de tecnologia e inovação do grupo.

O Soma aposta também no social selling – uso das redes sociais para aumentar as vendas. São cerca de 4 mil revendedoras em todo o país, que divulgam as marcas nas redes sociais e procuram redirecionar os clientes para a plataforma do grupo. Também adepta do social selling, a varejista de moda C&A incorporou uma novidade neste ano: as próprias consumidoras da rede passaram a ser treinadas para anunciar os produtos em suas respectivas redes sociais. A comissão para as compradoras-vendedoras chega a 10% sobre o preço dos itens. A fatia do digital dentro das vendas totais da varejista subiu de 2,5% em 2019 para 10% em 2020. Foi um bom motivo para a C&A reforçar o patrocínio ao Big Brother Brasil (BBB), cuja 21ª edição terminou em 4 de maio. “O programa é uma fonte de entretenimento que dialoga com as necessidades da nossa cliente, que busca um momento de descontração em meio à rotina diária”, diz Mariana Moraes, gerente sênior de marketing da C&A. Ela destaca que, na edição deste ano, ocorreu o primeiro desfile de hologramas da história do reality em uma festa C&A, com uma passarela usando realidade aumentada. Os resultados superaram as expectativas. O número de downloads do aplicativo da empresa cresceu 80% durante a atração na TV.

Mesmo sendo uma vitrine e tanto, o BBB também pode respingar negativamente. Foi o caso da rapper Karol Conká e da Avon. Patrocinadora do reality, a fabricante de cosméticos chegou a ter a cantora como estrela de campanhas entre 2017 e 2019. A participação de Karol no programa este ano, porém, foi desastrosa: ela desagradou a boa parte do público com seu comportamento e foi eliminada da casa com 99,17% dos votos. Nas redes sociais, sobrou para a Avon, que esclareceu não ter vínculo com a rapper e pediu compreensão para a eliminada, em um momento em que os “cancelamentos” de personalidades dispararam na internet.

PROMESSAS DE VALOR

Diante das incertezas em relação à duração e aos efeitos da pandemia, é crucial entender o que motiva os consumidores na decisão de compra. Uma pesquisa da consultoria EY, com 14 mil consumidores de 18 países, apontou que 30% deles consideram o preço acessível como o fator mais importante. Mas o estudo revelou que preço não é tudo: 26% dos entrevistados compram produtos e marcas em que confiam e que não representem riscos à sua saúde. Para 17%, o planeta vem em primeiro lugar – eles valorizam produtos de alta qualidade e sustentáveis. Outros 16% colocam a sociedade em primeiro lugar – preferem comprar de empresas éticas e transparentes. E 11% são os menos preocupados com a saúde e as finanças, valorizando antes de tudo a experiência de compra.

Os dados mostram que a forma como uma companhia se posiciona em relação à sociedade e ao planeta está se tornando cada vez mais importante. “A comunicação no pós-pandemia demanda marcas que ouvem e se importam com as pessoas”, diz Fabrício Saad, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Ele avalia que as empresas têm evoluído na tentativa de incorporar ao seu negócio os conceitos de governança ambiental, social e corporativa (ESG) – seja por vocação, seja por pressão dos investidores e da sociedade. “Na época em que estamos vivendo, o nome do jogo é empatia”, afirma Saad. “O Magazine Luiza, por exemplo, provou na pandemia ser uma marca que ouve e se importa com as pessoas.” O especialista cita a iniciativa da rede varejista de lançar um programa de trainees voltado a negros, para suprir a falta de diversidade no alto escalão da companhia.

Na análise de Saad, o posicionamento adotado por empresas como Madero e Havan – que criticaram o isolamento social e o fechamento do comércio ainda no começo da pandemia – destoam do conceito de solidariedade, que é o que o público espera das marcas em momentos de crise. “Ainda que os empresários tenham o direito de discordar das medidas adotadas, é preciso ter tato e, mais uma vez, empatia”, diz Saad. Luciana, da FDC, tem a mesma opinião. Para ela, é preciso tomar partido em questões que interessam a toda a sociedade, mas com o cuidado de não cair no jogo político. “A marca precisa tangibilizar promessas de valor, por meio da entrega de utilidades”, diz. “O novo momento exige uma estratégia de abordagem da marca bem mais elaborada, que vai muito além de promover soluções com produtos ou serviços.”

Um bom exemplo é a multinacional americana Nike. A gigante de materiais esportivos veio a público renegar o próprio slogan que se tornou célebre (Just do it, ou “Simplesmente faça”) com a campanha antirracista For once, don’t do it (“Desta vez, não faça”). A ação veio na esteira do movimento Black Lives Matter, que se espalhou pelo mundo inteiro no ano passado, depois que o negro George Floyd foi asfixiado e morto por um policial branco nos Estados Unidos. Ao longo do ano, a marca também procurou inspirar os consumidores sobre o grande poder do esporte e a importância de continuarem ativos, mesmo com a pandemia. A campanha You can’t stop us (“Nada pode parar a gente”) contou com uma série de três filmes, que já somaram 22 milhões de visualizações no Brasil e 200 milhões no mundo.

Os especialistas lembram que as empresas costumam fugir de conflitos, sobretudo em tempos de polarização: em geral, elas não querem ofender os clientes ou associar suas marcas a assuntos sensíveis. Mas, ao alinhar os valores corporativos com a preocupação dos consumidores, as empresas estão no caminho para criar um senso de lealdade e de conexão pessoal com as marcas. Isso é especialmente importante em um mundo onde o consumidor não é mais fiel à marca, mas às suas necessidades. “A sociedade vem exigindo verdade por parte das empresas”, diz Kanter, da FGV. Ele afirma que a maior transformação pata enfrentar o mundo pós-pandemia não é tecnológica, mas cultural. “CNPJs não tomam decisões, mas sim os CPFs que estão por trás deles. “É o marketing se adaptando aos novos tempos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANDO A CIÊNCIA CRUZA COM A ARTE

Muitos autores em Psicanálise têm se interessado pela obra de artistas, particularmente pintores como Marcel Duchamp. Também a prática psicanalítica é considerada uma atividade artística

“Caminante no hay camino, se hace camino al andar.” Antônio Machado, poeta espanhol

Anos 70 do século passado: sob a liderança do cientista Blisaldo Carlini é fundado o Departamento de Psicobiologia da então Escola Paulista de Medicina, atualmente Universidade Federal de São Paulo. Um dos primeiros orientandos, o psiquiatra Isac Germano Karniol, depois de quatro anos defende sua tese de doutoramento sobre os efeitos da cannabis sativa e seus constituintes em animais de laboratório e no homem. Isso depois de ter frequentado cursos teórico-práticos como Psicofarmacologia, Bioquímica, Psicologia experimental, com pioneiros brasileiros nessas diversas áreas. Já nessa época descortinava-se, na prática, o que seria nos anos 2000 denominada pesquisa translacional, a interligação entre ciências básicas como fonte e alvo de conhecimentos científicos, que redundariam em tratamentos clínicos para o homem. De fato, um dos constituintes dessa planta, o canabidiol, mostrou-se um recurso valioso para o uso terapêutico em Medicina. Um desses trabalhos nossos foi então considerado seminal work, aquele que tem um papel fundamental no desenvolvimento da ciência. Um outro foi um dos mais citados da produção científica do terceiro mundo entre os anos 70 e 80.

Os nossos estudos tanto em animais de laboratório como no homem, voluntários normais e pacientes, prosseguiram sempre pioneiros. Eticamente foram os primeiros no Brasil nos quais os participantes assinavam um termo de consentimento, em que lhes eram esclarecidas as características da pesquisa, bem como que eles concordavam com a publicação científica posterior.

Nesse trabalho, o artista plástico Egas Francisco autorizou o uso dos esboços que ele produzia nas sessões de terapia para a exposição artística e publicação de trabalhos científicos.

O desenvolvimento tecnológico no estudo do funcionamento cerebral e mental, principalmente nas últimas décadas, utilizando técnicas de imagens e estimulação cerebral possibilitou localizar tanto em animais como no homem muitas funções encefálicas responsáveis por fenômenos como agressividade e cognição. Escalas foram desenvolvidas e validadas para identificar diagnósticos psiquiátricos e a progressão da sintomatologia durante os períodos de doença. Esse progresso, contudo, não atingiu a descoberta de marcadores biológicos que diferenciariam as diversas doenças mentais e para distinguir o normal do patológico. Aventa-se, atualmente, a possibilidade que esta última diferenciação não seria qualitativa, mas dimensional, pela maior ou menor intensidade e frequência dos sintomas. Trabalhos de autores como Osório César e Nise da Silveira exteriorizavam numa linguagem estética seu mundo interno.

Temos, nas últimas décadas, em colaboração com a psicóloga e analista Patrícia Siqueira Lopes Karniol, desenvolvido um trabalho dual, em psicoterapia, aprofundando essa possibilidade em pessoas sem diagnósticos psiquiátricos, com diagnósticos menos graves e até com psicóticos (por desenhos, pinturas, esculturas, música etc.).

Muitos autores em Psicanálise têm se interessado pela obra de artistas, particularmente   pintores, como Marcel Duchamp. Também a prática psicanalítica é considerada uma atividade artística.

Nesse sentido foi iniciado por lsac um processo psicoterápico analítico com um consagrado artista plástico brasileiro contemporâneo, Egas Francisco. Ele, nas sessões, se comunicava não somente por palavras, mas por poesias e, principalmente, por esboços sofisticados de inegável qualidade estética, verdadeiros “documentos psicanalíticos”.

OS ESBOÇOS

Nos quase dois anos de trabalho inicial (que ainda tem continuidade), mais de 150 esboços foram produzidos por Egas, um a quatro por sessão. Estes são reproduzidos com comentários sobre o relacionamento terapêutico no livro Palimpsesto Mágico, recentemente publicado. Também uma exposição dos esboços ocorreu em São Paulo.

O término de uma tela para Egas, no seu ateliê, não constitui o fim de uma obra, mas um degrau que, posteriormente, permite novos desdobramentos. O absoluto nunca é atingido. A energia que ilumina todo o processo provém da não forma, do instintual.

No Antigo Egito, a pintura e a escrita eram feitas em papiros. As linguagens neles contidas muitas vezes eram raspadas e novas produções eram aí feitas, constituindo os chamados palimpsestos.  Imaginamos, para traduzir o que ocorria na produção dos esboços de Egas, a existência de um “palimpsesto mágico”, onde imagens raspadas eram rapidamente substituídas por outras; concomitantemente, as primeiras retornavam, sem que as últimas desaparecessem.       Aumentávamos para quase o infinito o número dessas imagens em constante movimento, substituindo-se e retornando, acrescentando a influência de outras variáveis tão dinâmicas quanto emoções, sentimentos, memórias, escolha de pincéis e seus movimentos, tintas e cores, além do espectro da consciência.

Embora seja difícil, mesmo com os avanços da ciência, comprovar a existência de um mecanismo como o “palimpsesto mágico”, causando, sendo consequência e influenciando o nosso funcionamento mental, a arte e, em particular, o contato que tivemos com Egas Francisco e outros pacientes, fornecem indícios, como metáfora, que algo parecido possa existir, inúmeras variáveis influenciariam umas às outras e raciocínios causais perderiam a sua importância.

SUBJETIVIDADE

Definitivamente, a ciência não consegue ainda abordar plenamente a subjetividade do ser humano e como ela é necessária para uma comunicação vital consigo próprio e com o outro. Somos, então, obrigados a recorrer à arte, no caso esboços de um artista consagrado produzidos durante sessões de psicoterapia.

Autores como António Damásio reverberam a necessidade de emoções e sentimentos que a ciência moderna atribui e localiza na parte primitiva de nosso cérebro, da nossa mente, para que um self desenvolvido se estabeleça.

(…) no esforço para entender o comportamento humano, muitos tentaram passar ao largo das emoções, mas não tiveram êxito. O comportamento e a mente consciente ou não, assim como o cérebro que o gera, recusam revelar os seus segredos, a menos que a emoção (e os muitos fenômenos que se escondem sob o seu nome) seja inserida na equação e toda a sua importância reconhecida (Damásio, 2011).

Portanto, como a ciência não atingiu este desenvolvimento nós recorremos à arte na tentativa de aprofundar o estudo do funcionamento cerebral e mental quando a subjetividade é considerada.

FONTE ÚNICA

O que chega à nossa consciência e é geralmente encarado, vivenciado, como fonte única e constante do que acontece conosco, através de pensamentos, sentimentos e emoções, é aqui substituído por experiências pontuais mais complexas, momentâneas. Não mais predominariam as lógicas duradouras ou quase continuas, como quer a razão. Elas seriam modificadas pela influência de outras variáveis. O importante é que cada momento e suas sucessões sejam carregados de suficiente energia para propiciar o aparecimento dos que se seguem.

Alguns exemplos dessas produções e os comentários, cujo objetivo é convidar o leitor a participar dessa experiência. são apresentados a seguir.

Início do processo: vazio, distanciamento afetivo, monotonia, emoções abafadas, somente a racionalidade, a lógica de uma comunicação formal (figura 1). A espontaneidade e a liberdade de criar ficam inicialmente bloqueadas pelo medo (figura 2). tentando forçar esperança onde não existia sugiro o título (mãe e filho) para a figura 3). Ele contesta: são dois monstros. Ele tinha razão. nossas subjetividades não estavam totalmente presentes e nem se comunicando.

A iluminação de fora é excessiva, estranhamente superficial, inacessível, mulheres lindas com corpos eroticamente delineados, roupas coloridas, elegantes, que acentuam sua beleza, ambiente social cheio de ruídos, fofocas: sem título “Tentativa” (figura 1). Um sol esmaecido, mas ainda brilhante, acentua branca de um lar distante inatingível. Um quase monge cabisbaixo, esvaziado de emoções, tenta absorver o discurso incompreensível de um peregrino mulato; a necessidade é outra.

Não há outra solução se não alucinar, pela arte dentro de si, sua revigorada sensibilidade, sentir-se iluminado pelos instintos, cheiros, ainda não palavras e ações de peregrinos bem-intencionados: outra vez (figura 5). O nosso contato permite que ele readquira a possibilidade do renascimento através da sua sensibilidade: “Mulher espectral amarela” (figura 6).

Não é incomum pessoas aparentemente bem, comunicativas, transmitindo emoções e afetividade, terem pesadelos: algo parecido ocorreu nessa sessão. O terror surpreendente não surgiu por sonhos, mas através do esboço: “Paredes” (figura 7). Nele, uma figura angustiada, desesperada, em prantos, reage ao contato com uma superfície fria azul-amarelada. O sofrimento não foi percebido no nosso contato, mas emerge na pintura algo que não chegou à consciência. Diversas associações na sessão somente serviram para fazer hipóteses sobre o que estava ocorrendo.

Contato por palavras, rostos com contornos nítidos permitindo apenas uma comunicação formal, vazio interior, “palavras” (figura 8). Para alguns, “plena normalidade”. O da direita manifesta uma certa estranheza, perplexidade, insatisfação; o da esquerda nem percebe, está olhando para o outro lado.

Algo primitivo, instintivo, carregado de cores-emoções parece encarcerada. “Homem vulcânico” (figura 9). Como um balão carregado de muita energia vitalizada, a figura serena expandida ocupa, com seus músculos poderosos, toda a tela. O infantil manifesta-se pelo rosto de uma criança no queixo da imagem. A contenção não mais é possível, ocorre uma “Explosão” (figura 10). Um “vulcão” (figura 11) acaba transbordando suas lavas coloridas, formando imagens, caminhos, reverberações.

***As imagens são esboços do artista Egas Francisco.

EU ACHO …

DIES IRAE

– Esta – se disse o homem como se fosse para uma guerra – esta é a minha prece do possesso. Estou conhecendo o inferno da paixão. Não sei que nome dar ao que me toma ou ao que estou com voracidade tomando senão o de paixão. O que é isso que é tão violento que me faz pedir clemência a mim mesmo? É a vontade de destruir como se para este momento de destruir eu tivesse nascido. Momento que virá ou não. A minha escolha depende de eu poder ou não me ouvir. Deus ouve, mas eu ouvirei? A força de destruição ainda se contém um instante em mim. Não posso destruir ninguém ou nada pois a piedade me é tão forte como a ira. Então quero destruir a mim – que sou a fonte da paixão. Não quero pedir a Deus que me aplaque, mas amo tanto a Deus que tenho medo de tocar nele com o meu pedido. Meu pedido queima. Minha própria prece é perigosa de tão ardente e poderia destruir em mim a imagem de Deus, que ainda quero salvar em mim. No entanto só a Ele eu poderia pedir que pusesse a mão sobre mim e arriscasse queimar a dele. Não me atendas porque meu pedido é tão violento que me atemoriza. Mas a quem pedir – neste rápido instante de trégua – se já afastei os homens? Afastei os homens. Fui fechando as doçuras de minha natureza a cada golpe que recebia e as doçuras negadas foram se enegrecendo como nuvens simples que vão se fechando em escuridão e eu abaixo a cabeça à tempestade. Como seria a ira divina se esta minha me deixa cega de força total? Se esta cólera só destruísse a mim. Mas tenho de proteger os outros – os outros têm sido a fonte de minha esperança. Que faço para não usar esta onipotência que me toma? O que me direi eu? Senão a verdade. Senão a verdade. Só outra coisa eu conheci tão total e cega e forte como esta minha vontade de me espojar na violência: a doçura da compaixão. Só isto ainda posso tentar pôr no outro prato da balança – pois no primeiro prato estão o sangue e o ódio ao sangue que dói. Que estou querendo? Quero que a cada uma de minhas dores corresponda hoje e agora um ato de cólera.

Mas eu sei o que foram as minhas dores. A cólera é fácil expô-la. Mas a dor – esta me envergonhava. Porque minha dor vem de que não saí feliz de meus outros pecados mortais. Minha violência – que é em carne viva e só quer como pasto a carne viva – esta violência vem de que outras violências vitais minhas foram esmagadas. Minhas outras violências pecadoras que se pareciam tanto com um direito meu. No começo elas se pareciam tanto com minhas maiores suavidades. Eu tinha nascido simplesmente e também simplesmente quis ir tomando para mim o que queria. E a cada vez que não podia e a cada vez que era proibido, a cada vez que me negavam eu sorria e pensava que era um manso sorriso de resignação. Mas era a dor que se mascarava em bondade. Eu sabia que era dor errada diante de Deus – e pior diante de mim – quem quer que eu seja. Cada vez que meus pecados não venciam, eu sofria mas sem me sentir com direito de sofrer e tinha de esconder não apenas a dor. O que estava sendo pisado em mim? na minha verdade de outrora o que estava sendo pisado em mim? Os pecados mortais.

Os pecados mortais clamavam em mim por mais vida. Clamavam com vergonha. Os pecados mortais em mim pediam o direito de viver. Minha gula pelo mundo: eu quis comer o mundo e a fome com que nasci pelo leite – esta fome quis se estender pelo mundo e o mundo não se queria comível. Ele se queria comível sim – mas para isso exigia que eu fosse comê-lo com a humildade com que ele se dava. Mas fome violenta é exigente e orgulhosa. E quando se vai com orgulho e exigência o mundo se transmuta em duro aos dentes e à alma. O mundo só se dá para os simples e eu fui comê-lo com o meu poder e já com esta cólera que hoje me resume. E quando o pão se virou em pedra e ouro aos meus dentes eu fingi por orgulho que não doía, eu pensava que fingir força era o caminho nobre de um homem e o caminho da própria força. Eu pensava que a força é o material de que o mundo é feito e era com o mesmo material que eu iria a ele. E depois foi quando o amor pelo mundo me tomou: e isso já não era a fome pequena, era a fome ampliada. Era a grande alegria de viver – e eu pensava que esta sim, é livre. Mas como foi que transformei sem nem sentir a alegria de viver na grande luxúria de estar vivo? No entanto no começo era apenas bom e não era pecado. Era um amor pelo mundo quando o céu e a terra são de madrugada, e os olhos ainda sabem ser tenros. Mas eis que minha natureza de repente me assassinava, e já não era uma doçura de amor pelo mundo: era uma avidez de luxúria pelo mundo. E o mundo de novo se retraiu e a isso chamei de traição. A luxúria de estar vivo me espantava na minha insônia sem eu entender que a noite do mundo e a noite do viver são tão doces que até se dorme. Que até se dorme, meu Deus. E a água – na minha luxúria de viver – a água se derramava pelos dedos antes de chegar à boca. E eu amava o outro ser com a luxúria de quem quer salvar e ser salvo pela alegria. Eu não sabia que só o meio-termo não é pecado mortal. Eu tinha vergonha do meio-termo. Os pecados são mortais não porque Deus mata, mas porque eu morro deles. Eu é que não pude arcar com os pecados mortais. O que não consegui com eles é isto o que hoje me violenta e a que respondo com violência. Os meus pobres meios canhestros não me conseguiram nem terra nem céu e a fúria me toma. Ah mas se por um instante eu entender que a fúria é contra os meus erros e não contra os dos outros – então esta cólera se transformará nas minhas mãos em flores. Em flores e em coisas leves e em amor. Eu ainda não sei controlar meu ódio mas já sei que meu ódio é um amor irrealizado e meu ódio é uma vida ainda nunca vivida. Pois vivi tudo – menos a vida. E é isto o que não perdoo em mim e como não suporto não me perdoar então não perdoo os outros. A este ponto cheguei: como não consegui a vida quero matá-la. A minha cólera – que é ela senão reivindicação? – a minha cólera – eu tenho que saber neste minuto raro de escolha – a minha cólera é o verso de meu amor. Se eu quiser escolher finalmente me entregar sem orgulho à doçura do mundo então chamarei minha ira de amor. Tanto temi jurar-me para sempre com esta primeira palavra que mal ouso pronunciar (amor) que fugi para a violência e para os olhos ensanguentados da paixão. Tudo, mas tudo por medo de me prostrar aos teus pés e aos pés anônimos do outro que sempre Te representou. Que rei sou eu que não se curva? Tenho de escolher entre a quebra do orgulho e o amor-correnteza da ignorância e da doçura. A minha verdade antiga ainda me serve? Deus proibiu os sete pecados não por exigência de perfeição, mas apenas por piedade de nós. De mim que como os outros também tento não ser dele e tento não ser dos outros. Eu sei que os outros são Ele. Neste instante tenho de escolher entre amar ou ter ódio. Sei que amar é mais lento e a urgência me consome. Cobre minha fúria com Teu amor já que também eu sei que minha ira é apenas não amar. Minha ira é arcar com a intolerável responsabilidade de não ser uma erva. Sou uma erva que se sente onipotente e se assusta. Tira de mim a falsa onipotência destruidora. Faz com que neste instante de escolha eu entenda que aquele que fere está no mesmo pecado que eu: no orgulho que leva à ira e portanto ele fere assim como estou querendo ferir só porque não acredita. Só porque não confia. Só porque se sente um rei espoliado. Ajuda aos que sofrem de ira porque eles estão apenas precisando se entregar a Ti. Mas como Tua grandeza me é incompreensível faz com que Tu te apresentes a mim sob uma forma que eu entenda: sob a forma do pai ou da mãe, do amigo, do irmão, da amante, do filho. Ira, transforma-te em mim em perdão já que és o sofrimento de não amar.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

DESCONECTADOS POR OPÇÃO

Cresce o número de pessoas que querem distância das mídias sociais por questões de privacidade, falta de paciência ou simplesmente para manter a saúde mental. Para os mais conscientes, o controle excessivo que as redes têm sobre as pessoas é um bom motivo para se afastar delas

Quando se pensa em viver sem internet, a sensação é que estamos perdendo algo importante, a última notícia, uma surpresa, um amigo. Como sobreviver sem as mídias sociais, suas novidades, contatos e mentiras? É difícil, mas algumas pessoas estão conseguindo superar essa dependência contemporânea, pelo menos parcialmente, para se voltarem mais para experiências reais e preservarem a intimidade e a segurança. Ainda que usar um ou outro serviço digital seja inevitável, cada vez mais gente vive sob a dúvida de que a exposição social das redes pode não compensar seu entretenimento ligeiro e sua felicidade superficial. Há um movimento forte, em particular entre profissionais de tecnologia e usuários mais conscientes, para se afastar do domínio de serviços como Facebook, Instagram, WhatsApp e, inclusive, do Google, por conta de questões como privacidade e paz de espírito. Cresce o sentimento de que os algoritmos nos levam para lugares que não gostamos ou nos trazem mais informações sobre nós do que queremos. E a única saída para alguns acaba sendo a ruptura.

“Os algoritmos são capazes de entender o que você deseja antes que você mesmo tenha certeza disso, o que é insuportável”, afirma o analista de sistemas Roberto Bezerra, de 63 anos, que acha as mídias sociais pura perda de tempo e quer distância delas. “Não sou um rebelde das redes, que rompeu de maneira apaixonada, mas meu engajamento sempre foi pequeno e tendeu a diminuir.” Ele conta que não sabe se relacionar rápido pela internet, gosta de discursos mais elaborados, que não cabem numa tela de celular e se sente cansado do conteúdo que vê. “Não curto essa coisa de “like” e não tenho tempo para isso”, diz. “E se for para me entreter, prefiro ler um livro ou ver um filme.” Para se comunicar ele reserva um tempo diário para responder e-mails e trocar mensagens profissionais pelo WhatsApp. A internet é menos importante nos seus momentos de lazer. E seu caso mostra que deixar uma determinada plataforma pode significar uma tranquila experiência de desaparecimento, sem qualquer efeito relevante em sua vida. “A gente imaginava uma internet libertária nos anos 90 e o que se tem hoje é justamente o inverso”, lamenta.

Um dos motivos que levam as pessoas a abandonar as mídias sociais é concluir que a experiência é inútil, que pouco acrescenta e faz mais mal do que bem. Insatisfeitos com sua intimidade devassada e com o controle de seu movimentos, só lhes resta a desconexão, mesmo que seletiva. “É impossível ficar isolado atualmente, mas isso pode ser relativizado”, afirma o desenvolvedor web Daniel Filho, de 39 anos. “Em 2014, eu percebi que tudo meu estava no Google, que controlava meu e-mail e sabia para eu ia e de onde eu vinha. Fiquei chocado ao me dar conta de que todas minhas informações estavam num único lugar”. Daniel, que, desde 2016, vive em Berlim, na Alemanha, declara verdadeira abominação pelo Facebook e pelo Instagram e conta só que tem uma conta no Twitter completamente restrita em que todas as suas postagens são apagadas. Em vez do WhatsApp usa o Telegram. Segundo ele, um dos grandes problemas das mídias sociais e do uso do Google é perder totalmente o controle da informação que se recebe, principalmente na forma de anúncios e propagandas. “Não tenho a mínima confiança no Google e muito menos no Facebook, principalmente depois do episódio da Cambridge Analytica. Sem transgredir as regras, eles conseguiram quebrar o acesso a qualquer dado e arruinar a democracia dos EUA”, completa.

Um velho ditado lembrado por Bezerra diz que quando você não paga por um produto é porque você é o produto. É o que acontece em todas as mídias sociais. A pessoa não paga, mas precisa engolir o que não quer, tem seus dados expostos e manipulados, entrega a alma e é feita de gato e sapato porque opta por escancarar suas informações. No livro “Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais”, o americano Jaron Lanier enumera vários bons motivos para se afastar delas. Entre eles estão a perda do livre-arbítrio, a resistência à insanidade e a destruição da capacidade de empatia. O caso do livre-arbítrio é notável. Para Lanier, somos um fantoche da rede que nos guia por onde quer e nos oferece como produto para anunciantes e para sistemas de inteligência artificial, que decidem quem somos. A psicóloga Sylvia Van Enck, colaboradora do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso, do Hospital de Psiquiatria da USP, diz que o bombardeio de informações da rede gera focos de tensão e pode levar ao medo e à fadiga. “O que devemos ter é um uso controlado e consciente”, afirma. Para alguns, esse uso envolve uma desconexão seletiva ou completa para driblar o rastreamento, a publicidade indesejada e a sensação de inutilidade. Pode ser uma decisão saudável de pessoas que não querem ser usadas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 24 DE JUNHO

PALAVRAS QUE ALEGRAM O CORAÇÃO DE DEUS

Abomináveis são para o Senhor os desígnios do mau, mas as palavras bondosas lhe são aprazíveis (Provérbios 15.26).

Deus enxerga o que passa no coração humano. Sonda os pensamentos, desejos e motivações que se instalam em nossa mente. Ele julga não apenas nossas palavras e ações, mas também nosso foro íntimo. O Senhor abomina não apenas as ações perversas, mas também os desígnios que as precedem e as alimentam. Deus repudia não somente o assassinato que tira a vida do próximo, mas também o ódio que gera esse assassinato. O Senhor condena não apenas o adultério, mas além disso o desejo lascivo que o precede. Se os desígnios do mau são abomináveis para Deus, as palavras bondosas são o seu prazer. Palavras bondosas procedem de um coração transformado por Deus. A boca fala daquilo que o coração está cheio. Palavras bondosas são aquelas que confrontam os que vivem em pecado, consolam os que estão aflitos, encorajam os que estão fracos e orientam os que estão confusos. A bondade é a capacidade de investir o seu melhor na vida do outro. Barnabé era um homem bom. Toda a dinâmica da sua vida foi investir em pessoas à sua volta. Ele investiu em Paulo e em João Marcos. Demonstrou essa bondade aos pobres de Jerusalém e aos crentes de Antioquia. Foi bênção em casa e fora dos portões.

GESTÃO E CARREIRA

LIBIDO EM ALTA

Comércio de produtos ligados ao bem-estar sexual cresce em ritmo acelerado e anima o Grupo Boticário

O comércio de produtos relacionados ao sexo – lubrificantes, lingeries provocantes, contraceptivos, vibradores e uma longa lista de outros brinquedos eróticos – usa cada vez mais a bandeira do bem-estar para atingir todos os gêneros de consumidores e se livrar do estigma que já rondou o segmento. Em 2020, impulsionado pelo confinamento, o mercado global desses produtos cresceu 4% e movimentou mais de US$ 78 bilhões, segundo a Allied Market Research. A consultoria norte-americana projeta que esse avanço vai acelerar para quase 5% ao ano pelo menos até 2027. Investidores de diferentes perfis, como a seguradora francesa AXA e a atriz britânica Cara Delevingne, vêm colocando dinheiro no segmento.

“As sextechs estão em plena ascensão”, observa Marina “Ratton, fundadora da Feel, especializada em produtos femininos, como gel lubrificante (aprovado pela Anvisa). A empreendedora associa essa tendência de mercado ao aumento da parcela de mulheres solteiras, no Brasil e no mundo. A Feel é uma das 13 sextechs com propostas de produtos e serviços inovadores e que foram selecionadas em um programa de aceleração do Grupo Boticário.

“Queremos ganhar velocidade e aprofundar nossa experiência como empresa de tecnologia”, revela Daniel Knopfholz, vice-presidente de tecnologia do Grupo Boticário” Ele compara a estrutura da empresa a um “parque de diversões” para as startups fazerem seus testes – com loja própria e franqueada, fábrica, distribuição e desenvolvimento. “Um eventual investimento poderá ser negociado, caso haja interesse de continuar a parceria com as empresas aceleradas”, revela o executivo. Marina Ratton lembra que a sexualidade feminina vai além do erótico: é sobre ciclos, libido, menstruação, gravidez, puerpério e menopausa. “Tem mercado abundante e recorrente”, diz.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O LIMITE DA VIDA

Cientistas calculam que a idade máxima do ser humano pode atingir 150 anos. Parece impossível, mas muitos idosos estão se preparando para chegar lá

Até quando um ser humano pode viver? Qual é o limite da existência? Esse é um mistério que os cientistas tentavam desvendar e que parece ter chegado ao fim. Um estudo publicado na última edição da revista Nature mostrou que essa idade limite é de 150 anos, que pode ser alcançada em condições normais e com o mínimo possível de eventos estressantes capazes de desequilibrar o organismo. A pesquisa foi realizada por um grupo de cientistas de Cingapura, Rússia e Estados Unidos e envolveu diversas medições dos marcadores sanguíneos nos mesmos indivíduos por quinze anos. Assim, foi possível compreender o padrão de desgaste imposto pelo envelhecimento e a perda progressiva de resiliência, a capacidade orgânica de responder a uma perturbação, resistir aos danos e se recuperar rapidamente.

“O estudo analisa o desgaste fisiológico, estritamente do ponto de vista biológico”, afirma Uiara Ribeiro, médica geriatra e professora da Escola de Medicina da PUC do Paraná. Ela explica que, por exemplo, ao passarmos por uma infecção bacteriana, o corpo demora certo tempo para voltar a funcionar como antes. Dessa forma, conforme as primaveras vão passando, a capacidade natural de nos restabelecer vai se reduzindo. “Ao ponto de ficarmos sem resiliência e qualquer evento estressor que vier poder causar a morte”, pontua a professora. Então, fazendo esse cálculo, os cientistas foram capazes de definir que a capacidade que o organismo tem de adoecer e retornar ao estado de equilíbrio fica em torno de 120 a 150 anos.

Apesar de ser algo impossível para os padrões de vida atuais – a pandemia do novo coronavírus diminuiu a longevidade mundial –, poder viver com qualidade até os 150 anos seria um sonho maravilhoso para qualquer pessoa. É isso que pensa Ouziles Miguel, engenheiro, 85 anos. “Se não for desse jeito, não quero”, afirma, jocosamente. Ele continua com a vida profissional ativa, sempre atrelada a construção civil. “Trabalho como representante comercial e vendedor de equipamentos para edificação”, conta. Com foco na manutenção do vigor físico, por mais de 40 anos Miguel praticou judô e caratê e chegou a ser professor de artes marciais para crianças carentes, “Só parei aos 70 anos por causa de um problema nos joelhos”, conta. Do ponto de vista do envelhecimento natural humano, ele se apresenta como uma pessoa independente. “Só a pandemia conseguiu me segurar em casa por um ano e meio”, afirma. O engenheiro conta que é muito feliz com a vida que tem e, aliada à alimentação balanceada, quer chegar, no mínimo, aos 110

O estudo da Nature focou em aspectos biológicos da vida humana, mas também serve para reforçar a cartilha médica: quanto antes pudermos adotar um ritmo de vida mais saudável, mais tempo vamos viver bem. Esse é o entendimento que o economista Ascenção Serapião Kouyomdjian, 91, tem na mente. “O ideal é levarmos a vida sem consumo de tabaco e álcool e sempre cultivar as amizades”, diz. Elegante, com 1,69m e 66 kg, Ascenção não atua mais profissionalmente, mas mantém as atividades esportivas. Ele foi jogador de tênis dos 35 aos 70 anos e hoje pratica caminhada e natação. A forma encontrada para garantir equilíbrio e força física, no caso de Ascenção e Miguel, foi a terapia fisioterápica especializada que os dois praticam com regularidade. “Chegamos à conclusão de que a criticidade que leva à morte é uma característica biológica intrínseca do organismo, que não depende dos fatores de estresse e significa o limite fundamental ou absoluto da duração da vida humana”, disse o cientista russo Pyotr Fedichev, que liderou o estudo. Em outras palavras, a nova pesquisa sugere que o ser humano pode viver muito mais anos do que se imaginava. Agora, o que falta, é adequar às necessidades biológicas às condições de vida da maioria da humanidade.

EU ACHO …

DE COMO EVITAR UM HOMEM NU

Trata-se de um filme que não escandalizaria ninguém. E, no entanto, foi proibida a sua exibição no Brasil. Embora, contraditoriamente, tenham permitido a sua venda para o mercado exterior. É um filme da Condor Filmes S/A – argumento, roteiro e direção de Nelson Pereira dos Santos.

Só não gosto do título – Como era gostoso o meu francês – que dá uma ideia jocosa de um filme nada jocoso.

Época: século XVI: França Antártica. Após escapar da morte a que fora condenado, Jean (Arduíno Colasanti) encontra um grupo de portugueses que naufragam em pleno território inimigo (Brasil). Os portugueses aprisionam o francês e entregam-lhe dois pequenos canhões para serem usados contra os índios. Estes atacam de surpresa e prendem Jean, tomando-o como um poderoso português, pois estava, durante o combate, manejando os canhões. Jean torna-se escravo de Cunhambebe (Eduardo Imbassaí), grande chefe dos índios tupinambás, e que pretende devorar Jean a fim de possuir os poderes do artilheiro e, assim, mais força na sua luta contra os portugueses.

Na aldeia tupinambá, o prisioneiro é guardado por uma viúva, Seboipep (Ana Maria Magalhães), que cumpre também o papel de esposa até o dia da execução de Jean. Com o passar das luas, Jean vai compreendendo a língua e os costumes dos índios e adota-lhes os hábitos. Obtém pólvora para os seus canhões e com eles participa de uma guerra contra os índios amigos dos portugueses (e portanto inimigos dos tupinambás). Quando espera ser libertado, vê que Cunhambebe apenas o estivera provando como guerreiro, a fim de devorá-lo em grande festa.

Este filme precisou de cinco anos de preparação e pesquisas. As fontes de pesquisas são sérias: Biblioteca Nacional, Museu do Índio, Serviço de Proteção ao Índio, Museu do Homem (Paris).

Os livros consultados: Civilização tupinambá (Metraux), Viagem ao Brasil (Hans Staden), Tupinambás (Jean de Léry), Civilização tupinambá (Florestan Fernandes) – além de outros cronistas da época (século XVI).

Os diálogos foram escritos em tupi-guarani por Humberto Mauro. O francês quinhentista (lindo), por especialistas franceses. Foram quatro meses de filmagem intensa. Os locais eram nas praias e matas entre Parati e Angra dos Reis.

Este filme – de muita beleza e de enorme interesse porque afinal se trata de origens do Brasil – custou Cr$ 760.000,00 (setecentos e sessenta mil cruzeiros) – cerca de 150 mil dólares.

Para garantir a autenticidade, houve não só construção de tabas e reconstituição de guarda-roupa dos personagens portugueses e do francês, mas também o uso de objetos e adornos indígenas para garantir a legitimidade. Mais de 500 figurantes aparecem no filme. Este foi realizado com a colaboração do Exército brasileiro, cidade de Parati, Funai, Museu da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Forte de São João.

Todo o elenco foi depilado completamente, de acordo com as características raciais dos índios. As pinturas de corpo são rigorosamente de acordo com as minuciosas pesquisas feitas.

Pois este filme foi interditado no território nacional e liberado para exportação (!!). Foi considerado atentatório ao pudor, aos costumes e à moral. Mas a Censura implicou verdadeiramente com o nu masculino. Depois de alguma discussão deixaram passar o nu masculino dos índios – mas disseram que o nu do homem branco (o francês que viveu entre os índios e adotou-lhes o modo de viver) não seria permitido em hipótese nenhuma…

Talvez seja inocência minha, mas por favor me respondam: qual é a diferença entre o corpo nu de um índio e o corpo nu de um homem branco?

Assisti ao filme em salinha de projeção particular. Havia outras pessoas assistindo também. Duas delas eram freiras de alto nível eclesiástico. A opinião delas: filme belíssimo, de uma grande pureza, de um valor histórico inestimável por causa de toda a reconstituição. Disseram que era um filme poético. A única cena realmente impura – disseram – seria aquela em que um mercador francês demonstrou sua cupidez diante do tesouro dos índios – aí é que se reconhece uma civilização de agora.

Espera-se – tem-se mesmo muita esperança – uma liberação também para território nacional: não é justo que os estrangeiros usufruam coisa nossa sem nós também participarmos dela. A esperança vem também de que no filme inteiro não há um só gesto ou intenção obscenos ou simples sugestão maliciosa. E garanto-vos que a nudez de Arduíno Colasanti é casta. Será que daqui a pouco nos escandalizaremos se virmos um menino branco nu? Por que em menino pode e em adulto não pode? Lembro-me de um verso que uma pessoa, José Augusto (S. Paulo), me mandou:

“Saí nu na rua e não me entenderam. Vou pôr terno e gravata.”

Melhor, por via das dúvidas, pôr terno e gravata nos tupinambás.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

BRINDE VIRTUAL

A degustação de vinhos deixa os encontros presenciais e, como ocorre com outros eventos na pandemia, entra na casa dos consumidores pelas plataformas on-line

Parafraseando o otimista, está na hora ver o copo meio cheio, na esperança de que a pandemia esteja arrefecendo e a vacinação, acelerando. Ou talvez seja mais apropriado dizer que “a taça está meio cheia”. Afinal, o vinho é a bebida do momento – a venda cresceu expressivos 31% em 2020, em comparação ao ano anterior, e continua em alta no primeiro trimestre de 2021. Com os restaurantes fechados ou funcionando com restrições até há pouco tempo, a onda enóloga foi para dentro de casa, deixando as prateleiras de supermercados algumas vezes desabastecidas dos melhores rótulos. No entanto, a solução, como parece ocorrer em todos os segmentos do comércio, veio do digital: prestigiados sommeliers aderiram à moda de apresentar os vinhos a distância, entregando a encomenda e guiando seus comensais por um mundo de sabores e aromas. Ou, em outras palavras, fazendo degustações virtuais.

A festa começa quando os clientes recebem um kit com as bebidas e petiscos para serem desfrutados no conforto do sofá, enquanto o mestre conduz a sessão de degustação, transmitida ao vivo, em horário pré-informado, por plataformas de videoconferência, pelo YouTube ou Instagram. Com grupos reduzidos, é possível interagir bastante com o sommelier. Quase sempre a proposta é entregar garrafas pequenas, pois o que vale é a experimentação de diversos rótulos. Mas o que houve com aquela regra de que os bons vinhos devem ser servidos em garrafas grandes de 750 mililitros? O diretor da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS), José Marcos Medeiros Júnior, explica que o preconceito de tomar vinho em casa, em garrafinhas, simplesmente acabou. “Creio que seja um fenômeno positivo e sem volta”, afirma. Antes da pandemia, Medeiros Júnior ministrava degustações presenciais, que agora são feitas on-line. Em um recente encontro, ele entregou cinco minigarrafas de estilos diferentes, incluindo um importado de Israel, a 57 participantes, além de salame, queijos, torradas e uma geleia para acompanhar, ao custo de 200 reais por pessoa.

O maior desafio é a questão logística. O conteúdo, que é enviado de São Paulo a outros estados geralmente via Sedex, deve ser manipulado e vedado da forma correta, por profissionais especializados, para evitar problemas como a oxidação – ou, em bom português, para que o vinho não azede. A italiana Anna Rita Zanier, que em duas décadas vivendo em São Paulo formou mais de 230.000 pessoas em seus cursos de enogastronomia, também aderiu à moda. Ela realiza cerca de duas lives por semana e aponta como principal vantagem o fim das fronteiras. “Dá para levar conhecimento a pessoas de todo o Brasil, em qualquer dia e horário”, diz a criadora do projeto Vinum Este que foi a sommeliere responsável por servir o papa Bento XVI em sua visita ao Brasil, em 2007. Anna reforça que, hoje em dia, graças à comunicação digital, é possível até mesmo degustar um vinho importado na presença virtual do próprio produtor.

Além do crescimento das vendas já apontado, que ultrapassou 500 milhões de litros no ano passado, outra tendência nesse segmento, que já vinha sendo notada antes da pandemia, é o aumento do interesse das mulheres. O público feminino já se faz presente nos cursos oferecidos pela ABS quase na mesma proporção do masculino. A executiva de tecnologia da informação e enófila Fernanda Sabino é uma das protagonistas desse movimento. Fundadora da Women e Wine, confraria de vinhos voltada para mulheres criada em 2015, ela também expandiu o projeto com a ajuda da tecnologia e com o propósito de levar a cultura do vinho para perto das mulheres. “Não é simplesmente reunir amigas para beber e talar mal dos maridos depois da segunda taça”, diz Fernanda, brincando com o machismo que cerca a degustação de vinhos. Como o elegante Brunello di Montalcino, sua bebida favorita, produzida na região italiana da Toscana, as aulas precisam ser equilibradas. “As pessoas ficaram um pouco cansadas de tantas lives. Portanto, a abordagem precisa ser mais leve, em tom descontraído, mas sem deixar de lado a parte técnica”.

Não há regras sobre o número de participantes: há quem prefira degustações com até setenta pessoas (devidamente silenciadas nos momentos oportunos) ou reuniões com até dez integrantes, um ambiente mais próximo ao de um jantar em família, no qual a interação é bem mais tranquila, com sessões de perguntas e respostas. As degustações de vinhos tintos europeus ainda são as mais procuradas, mas, segundo Paulo Brammer, fundador da plataforma de educação etílica Eno Cultura, com quase 45.000 seguidores, os cursos sobre vinhos brasileiros têm se destacado de forma surpreendente. ” Nosso público originalmente tem entre 35 e 50 anos. Porém, com investimento em novas ferramentas, temos conseguido nos comunicar com um pessoal mais jovem”, ressalta. Seja branco, seja tinto, importado ou nacional, sozinho no sofá ou à mesa com amigos, a onda de degustações on-line oferece prazeres antes inimagináveis.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 23 DE JUNHO

A CASA DO SOBERBO CAIRÁ

O Senhor deita por terra a casa dos soberbos; contudo, mantém a herança da viúva (Provérbios 15.25).

A soberba é a sala de espera do fracasso, a porta de entrada da ruína. Deus não tolera o soberbo. Ele declara guerra ao orgulhoso, derruba a casa dos soberbos e humilha os de coração altivo. A Bíblia fala de Nabucodonosor, o megalomaníaco rei da Babilônia. Esse homem se encheu de orgulho. Aplaudia a si mesmo diante do espelho. Quis ser adorado como Deus. Construiu e embelezou a magnificente Babilônia, com seus monumentos de mármore e seus jardins suspensos, para sua própria glória. Deus, porém, quebrou o orgulho desse rei soberbo e o mandou para os campos, a fim de que pastasse junto com os animais. O Senhor deita por terra a casa dos soberbos, derruba sobre a cabeça deles aquilo que parecia ser sua proteção mais segura. No entanto, a viúva pobre e necessitada é sustentada por Deus. O Senhor mantém a sua herança. Deus dá graça aos humildes. Exalta aqueles que se humilham. Abate os fortes e fortalece os fracos. Derruba dos tronos os poderosos, ao passo que levanta o pobre e necessitado e o faz assentar-se entre os príncipes. Deus derruba do alto da pirâmide os soberbos e coloca os humildes no topo da montanha. A casa do soberbo sofrerá um terremoto, mas a casa do justo permanecerá firme para sempre.

GESTÃO E CARREIRA

CANSADO DAS VIDEOCHAMADAS?

Reuniões virtuais agilizam o trabalho, mas também podem ser estressantes.Veja como sobreviver a elas

A pandemia consagrou o trabalho remoto e fez com que reuniões, aulas e palestras migrassem das salas de conferência para as videochamadas. Foi preciso aprender a trabalhar de forma colaborativa, discutir projetos em grupo e enfrentar horas de exposição em plataformas digitais como Zoom, Meet e Teams. Isso cansa e provoca efeitos colaterais, como dores de cabeça ou nos olhos, sensação de esgotamento após as reuniões online e, em alguns casos, depressão e crises de ansiedade. O assunto exige atenção de coordenadores de equipes em geral e de responsáveis por gestão de pessoas e saúde na organização.

As mulheres são as que mais sofrem com essa superexposição, segundo um estudo qualitativo com mais de 10 mil pessoas, realizado por especialistas das universidades Stanford, nos Estados Unidos, e de Gotemburgo, na Suécia, que classificou a “fadiga do Zoom” nas dimensões física, social, emocional, visual e motivacional. Uma entre sete mulheres consultadas relatou se sentir “muito” ou “extremamente” cansada após as videochamadas, enquanto a proporção de homens que se declararam afetados foi de um para 20. Olhar para o próprio rosto leva as mulheres a refletirem mais sobre sua aparência e associá-la a emoções e pensamentos negativos, mostra o estudo.

Para o fundador do Laboratório Virtual de Interação Humana da Universidade Stanford (VHIL), Jeremy Bailenson, a experiência perceptiva de ter constantemente os olhos das pessoas em seu campo de visão traz um estado prolongado de hiperexcitação e ansiedade. O especialista observa que a permanência ao campo de visão da câmera por muito tempo inibe os gestos espontâneos do corpo, o que compromete tanto a postura física quanto o desempenho intelectual.

Empresas dispostas a evitar esses problemas devem difundir as recomendações de Bailenson. São iniciativas simples, como intercalar essas reuniões virtuais com telefonemas e mensagens por e-mail e estimular a execução de tarefas em documentos compartilhados. É importante incluir pausas regulares entre as videochamadas e dar descanso aos olhos. Para avaliar o seu nível de “fadiga Zoom”, faça o teste desenvolvido pelos pesquisadores de Stanford, disponível no link https://comm. stanford.edu/ ZEF.

O QUE FAZER QUANDO…

… O CONTATO VISUAL É EXCESSIVO

Nas videochamadas, todos olham para todos o tempo todo, e os ouvintes se tornam oradores, mesmo que calados. A sensação é de que todos estão encarando seu rosto, o que o cérebro interpreta como uma situação de conflito.

SOLUÇÃO: Reduza a imagem dos interlocutores e da tela.

… VOCÊ SE CANSA DE VER A PRÓPRIA IMAGEM

As plataformas de videochamada são como um espelho. Enxergar o próprio reflexo eleva o nível de autocrítica, o que é um problema.

SOLUÇÃO: Oculte a própria imagem e evite o modo galeria. Deixe na tela apenas a imagem de quem estiver com a palavra e desligue a câmera periodicamente.

… ESTÁ HÁ TEMPO DEMAIS NA MESMA POSIÇÃO

Na videoconferência, a pessoa fica no mesmo lugar para manter a cabeça emoldurada no centro do vídeo, o que é cansativo.

SOLUÇÃO: Use câmera externa para ter maior flexibilidade. E faça intervalos para alongar o corpo e descansar os olhos.

… TIVER DE GESTICULAR PARA ALGUÉM À SUA VOLTA

Como os movimentos não são naturais nas videochamadas, gestos como um olhar de soslaio para o filho ou para evitar que o gato suba no teclado podem ser mal interpretados.

SOLUÇÃO: Desligue a câmera e mantenha só o áudio quando precisar fazer algum aceno que possa causar confusão.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AUTISMO E INCLUSÃO SOCIAL

Incluir uma criança ou jovem com autismo na sociedade exige conhecer com profundidade suas características, sua forma de aprender, de existir, de se relacionar e tudo que faz dele um ser com suas singularidades

A partir da publicação do DSM- 5 em 2013, tivemos mudança na nomenclatura. No lugar de autismo, transtorno do espectro autista (TEA). Por que a mudança? A palavra espectro nos remete à dimensão da diversidade que existe dentro do quadro. Um pode ser verbal e outro não, um pode ter problemas de sono, hiperfoco com um determinado assunto e outros não. O fato é que temos níveis diferentes de TEA, podendo ser levem moderado ou severo, e obviamente que a gravidade interferirá no desenvolvimento, tal qual a fase em que descobrimos o diagnóstico. Quanto mais cedo melhores e maiores os progressos. Essa frase já é um consenso entre todos os especialistas que atuam na área. Mas muito mais do que isso, há uma importante alteração que precisa ser compreendida e direcionará nossos trabalhos: no DSM-4, era diagnosticado autista quando o sujeito apresentava prejuízos na linguagem, na interação social e interesses restritos, comportamentos repetitivos, como por exemplo apresentar movimentos corporais, denominados estereotipias, tais como balançar as mãos e o tronco ou gostar de utilizar somente um tipo de objeto.

Já no DSM-5, os aspectos que envolvem a linguagem e a interação social se interligam formando a comunicação social. Os interesses restritos e repetitivos permanecem. Surge uma dúvida especialmente entre familiares e educadores: então a interação social deixa de ser um critério diagnóstico? Não, a linguagem agora não basta ser ecolálica, repetitiva, mas deve estar a serviço da comunicação, da interação, especialmente do diálogo. Para ser considerado um sujeito com TEA verbal não bastam palavras ou sílabas, mas esse sujeito deve iniciar, manter e encerrar uma conversa.

Quando falamos de inclusão, é preciso delimitar de qual inclusão estamos falando, pois existe a inclusão na escola regular, no trabalho, nas atividades esportivas, e a inclusão social abrange todas essas e mais todos os setores que representarem o exercício dos direitos da pessoa com TEA.

Como incluir? Na escola, vale lembrar que, de acordo com a nota técnica nº 4 do MEC, é proibido exigir da família o laudo técnico, pois no passado essa exigência era motivo de discriminação e negação dos direitos básicos.

No trabalho, procurando saber quais são suas áreas de expertise e áreas deficitárias para pensar na atividade ocupacional, os esportes, além das características semelhantes com a atividade laboral, considerar a presença de hiper ou hiposensibilidade.

Pode ser que a pessoa com TEA necessite de um acompanhante para colaborar com o desenvolvimento de sua autonomia e essa necessidade pode ocorrer desde a infância até a fase adulta.

Em 2015 foi promulgada a Lei Brasileira de Inclusão, nº 13.146/2015, que assegura vários direitos da pessoa com autismo, desde a educação até a vida adulta. Embora ainda haja muito o que refletir sobre essa lei e várias críticas de especialistas sobre ela, não podemos deixar de reconhecer que foi um avanço para todos aqueles sujeitos que precisam viver com suas necessidades especiais em um ambiente que não foi preparado para eles nem do ponto de vista arquitetônico e muito menos atitudinal.

Para garantir a independência desse sujeito na inclusão social e a possibilidade de ter uma vida plena, é preciso fazer boas escolhas desde o início do diagnóstico até as terapias escolhidas. A família também precisa ser acompanhada, uma vez que só cuida bem quem está bem, e há fragilidade nas políticas públicas de inclusão que acabam por expor todas as pessoas com TEA,a viver à margem dos direitos que todo cidadão deve usufruir.

O impacto na vida dessas pessoas e de seus familiares é intenso, pois na dimensão prática e afetiva os pais relatam nas entrevistas, como uma de suas principais preocupações, como será o futuro, como será quando nós não estivermos mais aqui? Essas perguntas feitas nas relações parentais, nos ambientes pedagógicos e clínicos servem para trazer à tona uma outra discussão. A maioria dos artigos científicos que tratam do TEA se refere ao transtorno como “autismo infantil”, dando   a impressão de que ao crescer tudo será resolvido quase que naturalmente. Por isso, da mesma forma que nos impacta a proporção atual de nascimentos de crianças com TEA, um caso para 38 nascimentos, nos perguntamos o porquê de quase não encontrarmos adultos com essa condição nos ambientes públicos.

A morte precoce é mito, pois as comorbidades que acompanham o autismo, com raríssimas exceções, expõem essas pessoas ao risco de morte, mas em movimento contrário ao que desejamos, na adolescência e na vida adulta, uma boa parte retorna ao confinamento pela ausência de políticas e práticas que garantam a sua participação social e vida autônoma. Há, certamente, muito trabalho a fazer.

DAYSE SERRA – é doutora em Psicologia pela PUC-Rio, mestre em Educação Inclusiva pela UERJ, professora da Universidade Federal Fluminense. Escritora, terapeuta de família e casal pela Logos Psi, membro da Comissão Científica da Abenepi, membro do Conselho Editorial do Colégio Pedro II.

EU ACHO …

VOCÊ É UM NÚMERO

Se você não tomar cuidado vira número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista, tem carteira com número, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento – tudo é número.

Se é dos que abrem crediário, para eles você é um número. Se tem propriedade, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras tem o número da cadeira.

É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber das coisas. Ou aulas de Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral.

Se você é comerciante, seu alvará de localização o classifica também.

Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número no recenseamento. Se é católico recebe número de batismo. No registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando a gente morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também.

Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número.

Uma amiga minha contou que no Alto Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pôde ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.

Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica.

Nós vamos lutar contra isso. Cada um é um, sem número. O simesmo é apenas o si- mesmo.

E Deus não é número.

Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número seco, como um osso branco seco exposto ao sol. Meu número íntimo é 9. Só. 8. Só. 7. Só. Sem somá-los nem transformá-los em novecentos e oitenta e sete. Estou me classificando com um número? Não, a intimidade não deixa. Vejam, tentei várias vezes na vida não ter número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que amor não tem número. Ou tem?

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

GARRAS AFIADAS

Unhas postiças com até 3 centímetros de comprimento com aplicação de pedrarias ganham adeptas e se tornam símbolo de luxo – mas também de poder feminino

Com a eclosão da pandemia, e o compulsório isolamento social, associado aos cuidados sanitários, não foram poucos os que decretaram o fim de um hábito universal: fazer as unhas, ir à manicure. Contudo, tal qual na irônica frase do escritor Mark Twain (1835 -1910) ao saber que escreviam seu obituário antecipadamente – “as notícias sobre minha morte têm sido exageradas” -, cabe dizer que o anúncio foi prematuro. As garras femininas continuam afiadíssimas, e em tempo de home office, com chamadas de vídeo em profusão, ter as mãos bonitas, vistosas, é instrumento de poder. Vive-se o renascimento das chamadas nail arts (artes de unha, do inglês.)

O impulso veio de celebridades internacionais que aderiram com força ao recurso estético para complementar as roupas e acessórios das apresentações e aparições on-line. Unia das pioneiras do uso de unhas exuberantes foi a cantora Rihanna, aclamada por fãs de faixas etárias mais jovens. A partir de então, a moda ganhou tração, com versões cada vez mais exageradas. O acessório cresceu a ponto de se tornar protagonista. Algumas unhas têm dimensões impressionantes (chegam a ter 3 centímetros) e impõem uma questão: é possível, com elas, realizar tarefas básicas como segurar talheres, abrir latinhas de refrigerante ou digitar no teclado do smartphone? Sim, esta parece ser a resposta. Tem feito sucesso no YouTube uma coleção de vídeos em que as pessoas tentam – e conseguem – passar dias ou semanas com unhas imensas, tal qual a rapper Cardi B e a cantora pop Rosalia.

Compara-se a profusão de unhas desenhadas, e as tentativas de domá-las, ao uso de um outro adereço feminino que também requer destreza para não passar vergonha: o salto alto. No caso das unhas, a sensação de empoderamento é semelhante. “Uma cliente disse que se sente tão poderosa como se usasse um stiletto,” diz Cláudia Simões, conhecida como Negra Bá, uma das mais cobiçadas manicures do Brasil, que já cuidou das mãos de artistas como a atriz Cleo e a cantora Luísa Sonza, ambas adeptas do estilo. Em seu badalado estúdio nos Jardins, em São Paulo, saem modelos que chegam a demandar nove horas de trabalho. O uso de pedrarias, cores e até pedaços de vestidos de noiva – para copiara estampa – complementam os matizes de esmalte para lá de chamativos.

A onda contemporânea bebe das femme fatales que brilhavam nas telas do cinema americano nos idos de 1930. “Na época o visual era ligado à emancipação que as mulheres experimentaram com o fim da I Guerra Mundial”, diz João Braga, professor de história da moda na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap,) de São Paulo. O caráter Iibertário que está presente em boa parte das tendências de estilo aparece igualmente nas unhas, sobretudo para as mulheres de pele negra, que por décadas ostentaram a extensão na ponta dos dedos, mas sem a ruidosa louvação de agora. Hoje, ostentá-las é um manifesto de poder, como quem diz “estou aqui e quero aparecer”.  Pode ser movimento passageiro, desses que desbrotam e somem, especialmente em tempos efêmeros de redes sociais, mas é interessante demais para ser negligenciado. As mulheres têm falado com as mãos – e é preciso prestar atenção.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 22 DE JUNHO

EVITE O CAMINHO DO INFERNO

Para o sábio há o caminho da vida que o leva para cima, a fim de evitar o inferno, embaixo (Provérbios 15.24).

Só há dois caminhos: o estreito e o largo. Um nos leva para cima; o outro nos arrasta para baixo. O primeiro é o caminho da vida; o segundo é o caminho da morte. O caminho estreito nos leva ao céu; o caminho largo desemboca no inferno. O tolo prefere o caminho largo, no qual há muitas aventuras e nenhuma exigência. Tudo é permitido, e nada é proibido. É o caminho da licenciosidade e de nenhuma responsabilidade. Vive congestionado por uma imensa multidão. O sábio, porém, escolhe o caminho da vida. Este é estreito, e nele há muitos perigos. É o caminho da renúncia e do arrependimento, do novo nascimento e da santidade. Esse caminho não é popular, mas é seguro, pois conduz à salvação. Quem sobe por ele evita o inferno embaixo. Esse caminho não é um conceito filosófico nem mesmo um dogma religioso. É uma pessoa divina, é Jesus. Ele mesmo disse: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim (João 14.6). A única maneira de você não descer ao inferno é andar pelo caminho da vida, que é Jesus!

GESTÃO E CARREIRA

PALAVRAS QUE MATAM

SAP, AWS e outras empresas unem esforços no uso de algoritmo para prevenir suicídios

Recente estudo sobre saúde mental durante a pandemia, feito pelo Instituto Ipsos para o Fórum Econômico Mundial, mostrou que 53% dos brasileiros sofreram algum tipo de abalo emocional nesse período, como ansiedade, estresse e depressão. Dados do Ministério do Trabalho corroboram esse grande impacto: nada menos de 576 mil pedidos de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez foram registrados em 2020, um recorde.

O fato é que nossa saúde mental é muito sujeita a desequilíbrios, e não é de hoje. Uma medida de caráter preventivo, muito interessante, surgiu em 2018 por iniciativa da agência de publicidade África e da empresa de tecnologia Bizsys, que desenvolveram uma ferramenta de inteligência artificial (IA) para analisar mensagens públicas do Twitter em busca de expressões que identificassem pessoas com quadro de depressão.

O Algoritmo da Vida, como é chamado esse recurso digital, tem como base a “gramática da depressão”, desenvolvida pela Universidade Harvard, dos Estados Unidos, a partir da análise de palavras-chave usadas por pessoas atingidas por quadros agudos de depressão, muitas vezes levando ao suicídio.

Com sua expertise em soluções digitais, a SAP Brasil assumiu a melhoria contínua na base de dados do Algoritmo da Vida, abrigada no ambiente de nuvem da Amazon Web Services (AWS). O algoritmo classifica os casos conforme os tuítes filtrados e sinaliza quando uma ação imediata é necessária. Mais de 2,3 milhões de tuítes foram analisados até hoje.

Após a identificação das palavras de alerta, uma equipe treinada realiza uma checagem para avaliar contexto, ironias e recorrência de termos e periodicidade.

No caso de alerta, entram em cena o CVV (Centro de Valorização da Vida) e a produtora de conteúdo Soul.Me, que envia mensagens e vídeos de apoio e conforto. Nos casos mais graves, os psicólogos da plataforma Virtude oferecem até seis consultas de terapia online, sem custo. “Muitas vezes, as pessoas só precisam pedir ajuda”, diz Luciana Coen, diretora de responsabilidade social da SAP Brasil, cujo filho adolescente cometeu suicídio.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A ANATOMIA DA APRENDIZAGEM

A neurociência investiga como as ações das metodologias pedagógicas provocam alteração na taxa de conexão sináptica

Atualmente, torna-se fundamental ressignificar o processo da aprendizagem e do ensino, pois muito se tem estudado sobre como as ações das metodologias pedagógicas provocam alteração na taxa de conexão sináptica, afetando a função cerebral. Com essa perspectiva é importante considerar a que se refere a natureza do currículo escolar, o professor, o método de ensino, o contexto da sala de aula e da família. Todos esses fatores interferem com as características do cérebro dos indivíduos, importante ressaltar também a função nutricional.

A neurociência também estabelece relações relevantes à educação, investigando e contribuindo para um reconhecimento precoce de transtornos de aprendizagem, permitindo, então, métodos especiais de identificação de estilos individuais da aprendizagem e a descoberta da melhor maneira de fundamentar novos conceitos e informações no contexto escolar. Investigações focalizadas no cérebro observam os aspectos da atenção, memória, linguagem, leitura, matemática, sono, emoção e cognição, trazendo valiosas contribuições para a educação.

Desvendar a anatomia da aprendizagem e poder reconhecer como o sujeito aprende e guarda saberes podem provocar um novo olhar diante da escola do século XXI.

Quando uma área cortical é ativada por um estímulo, provoca alterações também em outras áreas, pois o cérebro não funciona com regiões isoladas. Isso ocorre devido ao grande número de vias e fibras nervosas de projeções e associações, organizadas em duas direções, podendo ser muito curtas, ligando áreas vizinhas que trafegam de um lado para outro, sem sair da substância cinzenta, e outras podem constituir feixes longos que trafegam pela substância branca para conectar um giro a outro, ou um lobo a outro, dentro do mesmo hemisfério cerebral, conhecidas como conexões intra-hemisféricas. Por último, existem feixes comissurais que conduzem a atividade de um hemisfério para outro, sendo corpo caloso o mais importante deles.

As associações recíprocas entre as diversas áreas corticais asseguram a coordenação entre a chegada de impulsos sensitivos, sua decodificação e associação e a atividade motora de resposta.  A isso chamamos de funções nervosas superiores, desempenhadas pelo córtex cerebral. Portanto, pode-se repensar nos contextos das informações que chegam até o cérebro, que não são a quantidade de estímulos, mas sim a qualidade.

A aprendizagem acontece, com particularidades, durante toda a vida da pessoa, o aprender rompe com a ideia passiva de assimilação de conteúdos. A ação ativa do aprender necessita de uma complexa rede de operações neurofisiológicas e neuropsicológicas que ainda interagem com o meio ambiente.

MARTA RELVAS – é membro da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento. Docente da Universidade Cândido Mendes/AVM Educacional e da Universidade Estácio de Sá. Docente convidada da UFRJ/pub. Docente convidada do Instituto de Neurociências Aplicadas (NA). Livros publicados pela Wak e Editora Qualconsoante de Portugal

EU ACHO …

O FUTURO PERTENCE AOS CURIOSOS

A busca do desconhecido nos faz evoluir

Gente bem-sucedida na vida e no trabalho costuma ser curiosa. Qualquer assunto lhe desperta o maior interesse. Pode reparar. Conte a uma dessas pessoas o que você faz e se prepare para uma enxurrada de perguntas. Diga que trabalha num banco, por exemplo, e ouça questões sobre o mercado financeiro: “Como é a composição da sua taxa de juros?”. Ou, se seu métier for a marcenaria: “Que cinzel você usaria para recuperar um móvel antigo de pau-brasil?”. Nem prestadores de serviço escapam. Quando alguém curioso manda consertar um eletrodoméstico, aproveita para indagar sobre seu funcionamento. “Como é mesmo que o micro-ondas esquenta a comida?” Diante de um curioso nato, todo mundo está sujeito a sabatinas.

Einstein, com aquela modéstia que só não era maior do que seu gênio, disse certa vez não ter nenhum talento especial, a não ser sua imensa curiosidade. Na realidade, não há limite para o tanto de conhecimento que podemos acumular. Todo assunto pode ser fascinante. Toda experiência é potencialmente preciosa. Afinal, nunca se sabe quando uma informação aparentemente aleatória ou irrelevante se mostrará decisiva em nossa trajetória.

Daí a importância de cultivarmos nossa curiosidade. Esse desejo intenso de conhecer e experimentar o novo é um dos principais ingredientes de qualquer história de sucesso. Ser curioso não ajuda somente a trazer realizações profissionais e financeiras. Mais importante é o efeito que a curiosidade tem sobreo desenvolvimento da nossa personalidade, o que só descobrimos quando nos dispomos a mergulhar em experiências diferentes, intimidadoras à primeira vista, mas incrivelmente recompensadoras. Sem um pouco de ousadia, corremos o risco de passar a vida inteira sem saber do que realmente gostamos.

Falo por mim mesma: foi a curiosidade que me levou a aprender mais sobre alimentação e saúde. Por interesse próprio, fui entendendo como desconstruir receitas, como encontrar substitutos saudáveis para meus pratos favoritos, como montar dietas equilibradas. Minha curiosidade me presenteou com uma paixão e uma nova carreira. Permitiu também que eu acumulasse conhecimentos, os quais compartilho neste espaço. Estar aberta a novas experiências me ajudou a conhecer quem realmente sou.

Ser curioso também é fundamental para que possamos desenvolver nossa capacidade de enxergar e entender o outro. Quando nos deixamos guiar pelo cheiro do desconhecido, encontramos pessoas diversas, com culturas, histórias e filosofias de vida diferentes das nossas. Essas vivências são fundamentais, pois ninguém amadurece convivendo apenas com seus semelhantes. O contato com perspectivas variadas pode ser um encontro prazeroso ou um choque que provoca incômodo. Em ambos os casos, saímos maiores e melhores dessas experiências, amadurecidos e com o senso crítico mais apurado. Afinal, se não tivéssemos interesse em conhecer o que se passa na mente do outro, estaríamos eternamente condenados a repetir os hábitos de nossos antepassa dos. Sem curiosidade, não há evolução.

Preserve o brilho nos olhos diante do desconhecido. O futuro pertence aos curiosos.

*** LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

A FÁBULA DA CIGARRA

Trilhões de insetos emergem do solo após um ciclo de desenvolvimento de 17 anos e ocupam o campo e as cidades da Costa Leste dos Estados Unidos

Elas não formam nuvens no ar como os gafanhotos, nem atacam, como as vespas. Mas, em compensação, camufladas entre as folhagens das árvores, fazem um barulho ensurdecedor capaz de ser ouvido num raio de centenas de quilômetros. Em uníssono, trilhões de cigarras do gênero Magicicada emergiram da terra na Costa Leste dos Estados Unidos, numa área onde vivem cerca de 100 milhões de pessoas, e viraram as grandes protagonistas da natureza num fenômeno chamado de Brood X, que se repete a cada 17 anos. Durante esse período, os insetos se desenvolvem no subsolo na forma de ninfas e se alimentam da seiva de raízes de plantas. Quando estão maduros e prontos para vir à luz, começa uma grande festa nupcial. Os machos cantam para atrair as fêmeas, cruzam e morrem. Já as fêmeas depositam seus ovos em pequenos galhos e vivem poucas semanas. Embora tenham conseguido atrasar um voo do presidente Joe Biden na última quarta-feira, tratam-se de insetos inofensivos que não afetam as lavouras e nem oferecem risco às pessoas. O único efeito notável de sua presença é o canto, que passa de 90 decibéis.

O Brood X começou em abril e deve se prolongar até meados de junho. Segundo os cientistas, a diferença dessa vez é que três espécies apareceram simultaneamente: a Magicicada Septendecim, a Magicicada Cassini e a Magicicada Septendecula. Além disso, a quantidade de insetos foi muito maior do que em anos passados, assim como a abrangência geográfica do fenômeno, que está sendo percebido desde o estado da Geórgia, no sul, até Nova York, no nordeste. As espécies do gênero Magicicada costumam ter os olhos vermelhos e são chamadas de “periódicas” por causa de seu ciclo de vida particular e por emergirem simultaneamente em grandes áreas – e não em pequenos grupos. Nos Estados Unidos, existem 15 ninhadas desses insetos, doze com ciclo de vida de 17 anos e três com ciclo de 13 anos. Dessa forma, sempre há, em alguma parte do país, um grupo de cigarras emergindo.

SUCESSO NA COZINHA

Diante de tanta abundância das cigarras, surgiu a iniciativa de aproveitá-las em receitas culinárias. Vários chefs de cozinha americanos estão incluindo a iguaria em seus cardápios. Em restaurantes da região afetada pelo fenômeno podem ser encontrados pratos como omelete ou sushi de cigarras fritas. O alimento só é contra- indicado para comensais com alergia a frutos do mar. Insetos, como as cigarras, e crustáceos, como os camarões, são artrópodes e têm várias características em comum, inclusive o sabor de suas carnes. Mas quem quiser ter essa nova experiência gastronômica precisará ser rápido, já que em breve o espetáculo das cigarras vai acabar. Será necessário esperar até 2038, quando elas voltarão a repetir seu incrível ciclo

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 21 DE JUNHO

A TERAPIA DA PALAVRA

O homem se alegra em dar resposta adequada, e a palavra, a seu tempo, quão boa é! (Provérbios 15.23).

Responder antes de ouvir é falta de sabedoria; só os tolos fazem isso. Por outro lado, dar uma resposta abalizada, consistente e adequada traz benefício a quem ouve e alegria a quem fala. Alguém já disse, e com razão, que não existe pergunta insensata, mas sim resposta inadequada. Aquele que é interrogado não pode cair na armadilha do interrogador. Quando alguém se aproximava de Jesus para testá-lo, fazendo-lhe uma pergunta de algibeira com o propósito velado de armar-lhe um laço para os pés, Jesus devolvia a pergunta, e o interlocutor caía na própria armadilha. Porém, sempre que alguém aflito ou desnorteado se aproximava dele, com inquietações na alma, fazendo-lhe perguntas ou rogando-lhe ajuda, Jesus levava a esse coração ferido uma palavra de esperança e uma ação de misericórdia. A palavra boa é remédio que cura. É bálsamo que consola. É alimento que fortalece. Precisamos ter respostas sábias para as grandes tensões da vida e usar a terapia da palavra para abençoar nossa casa, nossos amigos e aqueles que nos cercam. Precisamos ser a boca de Deus, embaixadores de boas-novas, arautos da verdade, mensageiros da paz, terapeutas da alma.

GESTÃO E CARREIRA

O CANCELAMENTO DOS COACHES

Coaching quântico, reprogramação de DNA e outras fraudes estigmatizaram o ofício dos coaches. Mas não falta gente séria no mercado. Aprenda a separar o joio do trigo na hora de procurar por esse tipo de ajuda. E saiba qual é o caminho das pedras caso você queira abraçar a profissão.

“Esse Raul, ele é seu coach? O interrogatório de uma mãe vem em tom de preocupação e suspeita. O filho desconversa, mas a mãe insiste: “É que ultimamente você anda colocando meta para tudo”. Acuado, o rapaz diz que Raul seria seu namorado. Mas não é isso que preocupa a família. Quando o pai resolve abrir sua mochila à força, como quem procura por drogas, o que acha é Ritalina, medicamento para foco e produtividade. Aí não tem como disfarçar: o filho tem passado por sessões de coaching com o tal Raul e – vergonha! – quer ser coach também. A mãe se desespera: “A gente não gastou uma fortuna na sua educação para você cair na lábia de um coach”. Mas o filho bate o pé: “Não tem nenhum problema nisso. Aliás, vocês precisam mudar o mindset de vocês”. Mindset… Ao ouvir o termo em inglês para mentalidade – um dos jargões usados e abusados no mundo corporativo -, o pai perde a paciência, e o couro come. Esse falso drama familiar, claro, é um esquete do grupo Porta dos Fundos satirizando os estereótipos criados em cima da figura do coach, esse profissional que o cidadão médio não sabe muito bem o que faz – e decidiu cancelar, num tsunami de memes. Não foi só comédia. Em janeiro deste ano, o Fantástico apresentou um quadro com ênfase na banalização dos coaches, repleto de imagens de um auditório lotado para um evento motivacional e menções a “especialidades” bizarras, como “coach de reprogramação de DNA para abundância”. Ou “coach quântico”. Poderia ainda ter falado em “coach de animais” (não no sentido de adestramento), “coach de gratidão financeira”, “coach de constelação familiar”.       Tem até homem se dizendo “coach de empoderamento feminino”. Na maioria das vezes, claro, é a mais pura picaretagem. Na reportagem, um entrevistado disse ter largado a faculdade para virar coach de técnicas infalíveis para conquistar mulheres. Algo que lembra o papel de Will Smith no filme Hitch, Conselheiro Amoroso.

Nesse dia, o filho de 5 anos da coach Eva Bomfim, de Salvador, graduada em Letras e com formação em coaching pelo instituto Appana Território de Aprendizagem, estava vendo o programa também. O menino ficou intrigado: “Mamãe, é isso que você faz?”. A profissional, que atende de executivos a pessoas com dificuldades de comunicação e de relacionamento, precisou explicar que não era nada daquilo. Mas Eva tem consciência de que o programa da Globo, apesar de escolher focar nos maus exemplos, tinha suas razões: há de fato muito embusteiro à solta, o que tem sido determinante para uma visão negativa (e desinformada) da profissão. “Confesso que já passei por algumas crises, de repensar se me apresento como coach”, diz Eva. “Normalmente começo falando que trabalho com processos de transformação, preparando pessoas para mudanças, atendendo quem está passando por momentos desafiadores, falo dos benefícios. Até que, no fim da conversa, me sinto segura para dizer: ‘então… isso é coaching’. É quando a pessoa se surpreende positivamente.”

Formado em Engenharia e pós-graduado em Psicologia Positiva, Gustavo Castro, do Recife, tem uma estratégia semelhante. Ele deixou um emprego na Unilever há cinco anos, após migrar de uma área técnica para o setor de desenvolvimento de pessoas. Foi quando conheceu o coaching, buscou formação na área e decidiu trabalhar exclusivamente com isso.

“Acho que o termo coach está comprometido no nosso país”, ele acredita. “Comecei a ter bastante cuidado na hora de me apresentar, para que a pessoa possa me conhecer e entender minha formação, minha carreira, antes de ter contato com um termo que, na cabeça dela, pode estar deturpado.”

Gustavo atende pessoas físicas e empresas de pequeno e médio porte, meios nos quais a onda recente contra a profissão criou mais estigma e preconceito. Situação que é bastante diferente da dos profissionais cuja clientela é formada, predominantemente, por grandes companhias. Esses coaches costumam ser procurados por gestores de Recursos Humanos, interessados em desenvolver competências nos líderes da organização ou acelerar uma maturidade de liderança em alguém recém-promovido a chefe, entre outros objetivos.

São contratantes já habituados à cultura do coaching como alternativa de aprendizagem, que têm um histórico de casos positivos na empresa e sabem diferenciar o joio do trigo. Gente que busca profissionais como Luciana Rovegno, de São Paulo, especialista em coaching executivo, com 12 anos de experiência nessa área, e que concentra quase todos seus atendimentos em líderes de grandes organizações – de gerentes a CEOs. Ela não percebe rejeição ao trabalho por parte de seus clientes, mas também não se vê blindada. “Quando ganhei minha nova credencial de coach um avanço entre os meus reconhecimentos profissionais nessa atividade, divulguei nas minhas redes sociais e, entre os parabéns que recebi, uma prima comentou que se orgulha muito de mim, porque eu seria ‘uma das únicas profissionais sérias na área’. Me senti nivelada por baixo.”

A situação se tornou tão preocupante que, num estudo da PwC divulgado ano passado sobre a atividade de coaching no Brasil e no mundo, 63% dos coaches brasileiros apontam a má fama de indivíduos sem formação que se intitulam coaches como o principal obstáculo para o avanço da profissão (no mundo, 49% pensam assim).

O caso mais emblemático de picaretagem são mesmo os coaches quânticos. O mundo quântico de verdade, o das partículas subatômicas, tem mesmo elementos que parecem mágicos. O maior deles é o fato de a realidade subatômica depender da figura do observador. Uma partícula pode se comportar como um elemento sólido quando há alguém observando (via detectores, em laboratório). Essa mesma partícula muda de realidade quando certos detectores são desligados, e passa a se comportar como algo abstrato – uma onda.

Lindo. O problema é: não falta gente despreparada dizendo que, se o mundo subatômico é assim, o nosso também seria. Sua vida dependeria do seu ponto de vista. E você poderia mudar realidade “com a força do pensamento”, assim como a observação em laboratório altera a natureza de uma partícula. Desnecessário dizer que isso não é ciência. É esoterismo, que busca se passar por ciência para ser levado a sério. Vale o mesmo para a “reprogramação de DNA”. Perdão. Não rola. Quem “reprograma DNA” é vírus. Eles contêm instruções que alteram o código genético das nossas células para torná-las produtoras de mais vírus – e o resultado, você sabe, não é dos mais animadores. Qualquer outro uso do termo “reprogramação de DNA” é puro embuste.

Também não existe coaching para grandes auditórios. Isso é palestra motivacional. E só.

MAS, AFINAL, O QUE O COACH FAZ.?

Vale começar pelo que ele não faz. Nenhum coach sério, com uma vasta formação, sai por aí dizendo que tem uma técnica infalível – seja para ganhar uma promoção na carreira, para perder peso ou para falar melhor em público. Primeiro porque, se existisse técnica infalível, todo mundo seria perfeito. Bastaria pagar o preço de mercado para atingir esse estado. Por outro lado, o conceito de que pode haver coach para qualquer coisa – de ficar rico a fazer amigos e influenciar pessoas – não é exatamente errado. Porque coaching é uma técnica que pavimenta o caminho para a busca de soluções. São 10 a 20 sessões – geralmente de uma hora cada, mas pode variar – baseadas na escuta atenta por parte do coach, que faz perguntas ao seu cliente (o coachee). As questões são direcionadas para que ele se conheça melhor e reflita sobre os obstáculos que estão impedindo-o de atingir algum objetivo. E essa meta pode ser, por exemplo, libertar-se de uma mentalidade de funcionário mão na massa para se sentir confortável como chefe daquelas pessoas que antes eram suas colegas. “Você pergunta o que o cliente quer trabalhar nas sessões. Ajuda esse indivíduo a descobrir o que essa questão significa na vida dele. Vai fazendo perguntas para o coachee entender melhor como se sente em cada situação que descreve”, diz Luciana. “Então, a partir dessas perguntas, ele próprio vai pensando em alternativas. E aí testa isso na prática do trabalho. Depois, volta à sessão e reflete sobre o que fez. Você o ajuda a perceber o que deu certo ou não. E contribui para que ele construa novas estratégias, sempre a partir das próprias conclusões. Isso é coaching.”

Se dá certo? As grandes empresas reconhecem o coaching como uma importante ferramenta de aprendizagem, principalmente para suas lideranças: 61% dos que procuram esse atendimento são gestores do mundo corporativo, segundo a pesquisa da PwC. Para se ter uma ideia da dimensão do negócio, o coaching já movimenta USS 2,8 bilhões por ano no mundo e tem uma mão de obra de 71 mil profissionais espalhados pelo planeta. Aliás, é um nicho onde as mulheres são maioria: no Brasil, elas dominam 66% do mercado.

Você pode ter uma visualização melhor do processo assistindo a uma sessão no YouTube. A americana Marcia Reynolds, reconhecida como uma das cinco principais coaches do mundo, faz demonstrações na internet como forma de divulgar o coaching como processo de aprendizagem. Num vídeo de 2018, ela apresenta uma sessão com uma cliente, Aurora Martinez, vice-presidente de uma empresa de tecnologia para educação. A sessão começa com Aurora, uma mulher na casa dos 40 anos, relatando ter dificuldades em cobrar com firmeza seus colaboradores millennials, sendo que sua empresa tem um ambiente informal (é tech), onde a hierarquia é mais fluida. A coach então pergunta: “Quando você os cobra, o que você gostaria que acontecesse, mas não está acontecendo?”. Basicamente, trabalho duro. Aurora diz que tem receio de pressioná-los com o risco de que eles saiam da empresa – lembrando que os mais jovens não são exatamente apegados à ideia de passar a vida toda no mesmo emprego. A executiva acha que essa geração quer subir na carreira sem fazer esforço, enquanto ela mesma pensa que é por meio de muito suor e amor à camisa. Daí Marcia faz outra pergunta que já leva a uma reflexão: “O que é mais importante para você: a dificuldade em cobrá-los ou o fato de que as coisas que importam para eles são diferentes das que importam para você?”.

Ao longo da conversa, a coach vai fazendo a executiva compreender que se trata mais de um choque de gerações do que uma falha dela como gestora. Aurora lamenta que os millennials não tenham a mesma paixão pelo negócio que ela, e Marcia a faz refletir sobre o quanto desse amor um jovem precisa demonstrar para que ela se sinta satisfeita. A coachee então sai da sessão mais consciente sobre que tipo de pessoa ela quer ter ao seu lado na equipe. E talvez busque desenvolver, em novas sessões, uma maior empatia com esse grupo, já que a diversidade de gerações no ambiente de trabalho é algo positivo. Em suma: não houve uma resposta pronta. Mas uma evolução no autoconhecimento. Isso é coaching.

NEM MENTORIA, NEM TERAPIA

Repare: essa sessão de Marcia não teve nada de mentoria. Mentor é um indivíduo de grande experiência em determinado assunto, que pode transmitir seu conhecimento para alguém. Geralmente, diante de uma situação complexa mencionada pelo mentorado, o mentor fala de situações semelhantes que ele próprio viveu e como lidou com elas na época – dando exemplos que podem ser aproveitados pelo profissional que precisa de direcionamento.

Também não se pode confundir com consultoria. Por uma diferença básica: o consultor, com base nas informações levantadas junto ao cliente, diz a ele o que fazer para atingir seus objetivos. O coach nunca diz o que alguém deve fazer: ele gera reflexões para que o cliente chegue às próprias respostas.

Já no processo em si, o coaching se assemelha com a psicoterapia. Estão lá o profissional ouvinte, as perguntas que geram autoconhecimento, o mergulho na personalidade, nas vontades e nas repulsas do analisado. Mas há diferenças importantes. A terapia, na maioria das vezes, se concentra em lembranças do passado para fazer com que o paciente descubra as razões de traumas, bloqueios, desejos escondidos no fundo da mente. O coach não está interessado no seu passado. O que lhe interessa é a situação presente e o que vai ser feito para lidar com ela no futuro. De preferência um futuro próximo: empresas não podem esperar anos – como uma terapia costuma exigir – para que um líder adquira determinada competência. Há um foco em resultado que raramente se vê num divã.

PARA VENCER O ESTIGMA

Livrar-se de um estigma é sempre mais difícil do que construir uma imagem positiva. Mas todos os profissionais sérios concordam numa coisa: é preciso que as pessoas tenham mais exposição a informações corretas sobre coaching. Até para poder diferenciar o que é um trabalho altamente reconhecido pelos RHs das grandes companhias e o que é gente que apenas se apresenta como coach, sem ter condições de exercer esse trabalho – pois não existe ainda uma regulamentação que impeça qualquer um de se vender como tal.

“Entre os maus profissionais, há pessoas mal-intencionadas, que oferecem um serviço que elas sabem que não têm como proporcionar. Mas há outro grupo, talvez maior, de pessoas que, mesmo querendo fazer o certo, colocam o carro na frente dos bois e começam a atender como coach sem ter preparo para isso”, explica Gustavo Castro. “É gente que faz um cursinho on-line, de final de semana, e acha que já é coach.”

Uma formação sólida em coaching não é algo trivial. O aspirante a coach deve procurar instituições de ensino acreditadas por entidades como a Internacional Coaching Federation (ICF), a mais reconhecida do mundo e que está presente no Brasil. É o caso do Appana, cujo curso de formação em coaching leva sete meses, e da Escola de Coaches, com seu curso de 18 meses. Conforme vai se especializando, o profissional passa a conquistar credenciais da ICF, que indicam o grau de maturidade na profissão – um bom argumento de venda do seu serviço.

O nível mais alto é o MCC (Master Certified Coach), e chegar lá demanda muito trabalho. Além de passar em um exame que avalia seus conhecimentos sobre a metodologia e sobre a ética da profissão, o coach precisa comprovar ter exercido 2.500 horas de atendimento. Se a gente considerar uma média de dez sessões de uma hora por cliente, ele precisa ter atendido 250 clientes. E não para por aí. Para ser um MCC (como Marcia Reynolds), é preciso enviar gravações de atendimentos para a base da ICF nos EUA, que serão avaliadas por um membro certificador – eles têm quem fale português para isso. Esse avaliador vai conferir se o atendimento respeitou as competências do bom coaching: escuta qualificada do cliente; perguntas precisas, capazes de evocar conscientização; se o coach convida o cliente a refletir sobre como usará o novo aprendizado na prática.

Há, no Congresso Nacional, um debate sobre a necessidade de regulamentação da profissão, o que afastaria do mercado os aproveitadores esotéricos e os profissionais sem formação. A ICF, no entanto, acha que o melhor caminho é a autorregulamentação: “Um dos pilares do coaching é a responsabilização, que é o profissional entender que precisa assumir a responsabilidade por aquilo que faz”, pontua Marcus Baptista, vice-presidente da ICF. “Então, por uma questão de coerência, achamos que não faria sentido alguém de fora vir dizer como devem ser os regulamentos. Os mercados mais desenvolvidos de coaching no mundo são autorregulados.”

A questão da regulamentação é mais importante do que pode parecer. Porque há maus profissionais na medicina, na psicologia, na engenharia… Mas mesmo esses passaram por uma formação – ou poderiam ser processados por exercício ilegal da profissão. No coaching, por enquanto, não existe essa obrigatoriedade. Não é crime, por exemplo, um nutricionista colocar no cartão de visitas que é “coach de wellness”, mesmo que não faça a mais vaga ideia das técnicas de coaching. Por enquanto, cabe ao cliente ter o discernimento de que um profissional com mais formação, certificações e uma bagagem de anos de prática tende a ser mais capacitado para ajudá-lo a chegar ao que realmente importa – melhorar no trabalho, nos relacionamentos, na autoestima. Tudo, claro, passando pela indispensável revisão de seu mindset.

PARA ENTENDER DE UMA VEZ

Estes são os pontos principais que você precisa saber antes de buscar os serviços de um coach.

O QUE É COACHING

Voltado para a aprendizagem e a aquisição de competências, é um processo baseado em sessões nas quais um profissional (o coach) exerce escuta qualificada de alguma dificuldade de seu cliente (chamado de coachee) e então lhe faz perguntas direcionadas para que ele se conheça melhor e reflita sobre os obstáculos que estão o impedindo-o de atingir algum objetivo. Até traçar um plano de ação baseado nas próprias descobertas.

O QUE NÃO ÉCOACHING

Técnicas padronizadas e”infalíveis”. O coaching é voltado para as questões individuais de um cliente, e precisa dar resultado a partir das conclusões dele. Assim, não há fórmula mágica. O coaching também não funciona com auditórios cheios de gente – pelo mesmo motivo. Mas existe, sim, o coaching de times. É quando o coach atende equipes pequenas cujos membros têm uma mesma dificuldade.

POR QUE NÃO É MENTORIA?

No processo de coaching, o cliente é que gera o conhecimento a ser explorado. O contrário do que acontece na mentoria. Mentor é um indivíduo de grande experiência em determinado assunto, e que pode transmiti-la. É comum que profissionais prestes a se aposentar se tornem mentores de novos líderes da empresa, para não deixar seu conhecimento ir embora com eles.

POR QUE NÃO É TERAPIA?

A psicoterapia se concentra em lembranças do passado para fazer com que o paciente descubra as razões de traumas, bloqueios, desejos escondidos no fundo da mente. O coach não está interessado no seu passado nem no seu inconsciente. O que importa para ele é a situação presente e o que vai ser feito para você lidar com ela no futuro.

COMO IDENTIFICAR UM BOM COACH

Algumas dicas para você se certificar de que vai fazer coaching com um profissional sério e não com um enganador bom de conversa.

O PROFISSIONAL É MEMBRO DE UMA ASSOCIAÇÃO?

Se ela ou ele já é membro de uma entidade séria, como a ICF (International Coaching Federation), já é sinal de que tem contato com um código de ética, pode participar de fóruns, palestras, e conhece as competências de um bom coach. No mínimo, é um profissional interessado em se aprofundar no que a atividade tem de melhor a oferecer.

ONDE SE FORMOU?

É básico: informe-se sobre a formação do coach. A ICF não promove cursos, mas ela certifica aqueles que são bem estruturados, com disciplinas consistentes e que seguem as boas práticas recomendadas pela instituição internacional. Falsos coaches não costumam frequentar essas escolas.

ELE CONTINUA ESTUDANDO?

Não adianta o coach ter feito uma formação 20 anos atrás e nunca mais ter estudado o assunto. O bom coach precisa de atualização constante. Por isso, a ICF oferece meios para que o coach apresente ao potencial cliente sua jornada de formações ao longo dos anos e suas especializações. Peça essa informação.

ELE TEM SUPERVISÃO?

“Coach sério tem de estar sempre afinando o instrumento”, aponta Luciana Rovegno. “Faz sua supervisão, leva seus casos complicados para discutir com alguém com mais horas de voo que ele, com mais formações que ele, para atender melhor cada cliente.” Assim como terapeutas também fazem análise, é altamente recomendável que o coach também tenha sido coachee de alguém.

QUAL O STATUS DO COACH?

Há níveis de certificação que apontam a evolução do grau de maturidade e excelência do profissional. Pela ordem: ACC (Associated Certified Coach), que exige a formação em algum curso de coaching reconhecido pela ICF, como o da Escola de Coaches e o do Appana, mais um exame; PCC (Professional Certified Coach, que, além disso, requer comprovação de 500 horas de atendimento com a metodologia da ICF; e o MCC (Master Certified Coach), que pede 2.500 horas comprovadas.

PROCURE REFERÊNCIAS

Assim como você faz com um médico ou um personal trainer, busque referências sobre o profissional. Peça indicações, descubra a linha de atuação, explore o LinkedIn e outras redes sociais da pessoa. De acordo com os conteúdos das postagens, já dá para ter uma boa noção sobre o grau de seriedade do coach, e se o que ele oferece é mesmo coaching.

FUJA DO NEDESOTERISMO

Coach quântico, coach de reprogramação de DNA… Nada disso tem sentido do ponto de vista científico. Logo, não faz sentido do ponto de vista profissional. Mas tem o outro lado também: um nome tão simples como “coach de vida” pode levar tanto a um profissional sério (lembremos que o coaching é uma técnica que pode ser aplicada em diversos contextos) quanto a um charlatão que ostenta riqueza em redes sociais para vender o caminho da fortuna. Para evitar isso, vide a regra anterior!

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IDENTIFICAR PARA CUIDAR

Quanto mais cedo for feito o diagnóstico e as intervenções multidisciplinares, menores serão os déficits no funcionamento pessoal, social, acadêmico e, posteriormente, profissional da criança

Os transtornos do neurodesenvolvimento constituem um grupo de condições que surgem no início do desenvolvimento humano e que se manifestam bem cedo, geralmente na época pré-escolar, acarretando consequências crônicas e algumas vezes muito sérias na aprendizagem, nas habilidades sociais, na capacidade de alcançar uma vida autônoma, produtiva e plena.

Entre todos os transtornos do neurodesenvolvimento (DSM-5), a deficiência intelectual (DI) constitui um dos mais estudados no meio acadêmico e dos mais conhecidos no meio social. É um entre os diversos transtornos de neurodesenvolvimento, que se manifesta por déficits funcionais, tanto intelectuais quanto adaptativos, nos domínios conceitual, social e prático.

A pessoa com deficiência intelectual foi, ao longo dos séculos, tratada de maneira que hoje nos revela como era considerada no meio familiar e social: na busca de causas para os comportamentos e inabilidades apresentados por essas crianças, atribuíam-se origens místicas, que só pioravam as condições dessas pessoas, levando-as à situação de abandono, rejeição e até extermínio.

Aliás, até o século XVIII, a deficiência intelectual era confundida com doença mental, e fosse a título de proteção, de tratamento ou sob pretexto educacional, as pessoas em tal condição eram geralmente separadas da família e muitas até esquecidas por ela, em locais isolados.

Foi apenas no século XX que estudos científicos, educativos, sociológicos, enfim a nova percepção frente ao “diferente”, levaram a sociedade a gradativamente tirar essas pessoas da margem dos grupos de convívio.

Desde 2010, desenvolveu-se um importante posicionamento entre os estudiosos da DI: o teste de inteligência, usado para medir o funcionamento intelectual da pessoa, passou a ter um significado complementar, pois o comportamento adaptativo também se tornou relevante nessa classificação.  Dentro desse aspecto adaptativo estão as habilidades sociais, conceituais e práticas.

Sabemos atualmente que a DI tem origem multifatorial. Ainda que a presença do aspecto genético seja muito frequente, complicações gestacionais, peri e pós-natais, e uma série de outros fatores são importantes para esse diagnóstico. Exemplo disso diz respeito aos cuidados gestacionais em relação à mãe: orientações de estudiosos importantes alertam que devem evitar o contato e a ingestão de mercúrio, o uso de álcool e o tabagismo.

Embora seja uma conjunção de fatores que comprovadamente leva ao nascimento de uma criança com DI, a prevenção deve ser levada a sério.

Hoje, serviços de aconselhamento genético são acessíveis a grande parte da população e devem ser feitos antes da gravidez, especialmente em casos de haver outros membros na família com DI, casamentos consanguíneos ou idade materna avançada.

O pré-natal é um acompanhamento de grande importância para qualquer gestação, pois nesse período podem ser identificados e tratados problemas da mãe que podem prejudicar o bebê. O médico pode também indicar a melhor dieta alimentar, os remédios mais seguros e adequados para cada caso, assim como as restrições ao uso de substâncias, álcool e tabaco.

Após o nascimento, todos os bebês brasileiros são submetidos ao teste do pezinho, para detectar condições que se não tratadas podem levar à deficiência intelectual. Além disso, temos as vacinas que podem garantir que o bebê não será vítima de doenças que prejudicam seu neurodesenvolvimento.

Um pediatra deve ser regularmente consultado: só esse profissional pode detectar problemas que às vezes parecem sem importância, mas são predisposições para problemas graves, evitáveis, até com alimentação e cuidados médico-familiares. Como existem níveis diferentes de gravidade na DI, considerando tanto os prejuízos cognitivos quanto o grau de adaptabilidade, nem sempre os familiares conseguem perceber o que ocorre com a criança.

Pais devem estar atentos a sinalizadores importantes, como atraso na aquisição da fala, do andar, dificuldades de compreensão maior que a esperada para a idade, lentidão na aquisição de hábitos de cuidados diários e habilidades de brincar com crianças da mesma idade.

Na pré-escola, professores notam que não é apenas mais uma criança agitada ou demasiadamente quieta, mas que não interage convenientemente, é mais imatura do que seus pares, o convívio social é depauperado, a fala empobrecida, demonstra falta de interesse pelo novo, lentidão na   aquisição do aprendizado de habilidades de aprendizagem escolar, dificuldade na coordenação motora etc. Em casos assim, as famílias devem ser alertadas, pois é a identificação precoce que favorece a busca por profissionais especialistas, tanto para o diagnóstico quanto para tratamentos (reabilitações) necessários, os únicos meios de minimizar os prejuízos no desenvolvimento intelectual da criança e garantir qualidade de vida futura, pois vão determinar maior adaptabilidade social e maior autonomia pessoal e profissional.

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.irenemaluf@uol.com.br

EU ACHO …

O COMER E O PODER

Da política ao ambiente familiar, refeições são momentos de troca

Nos tempos em que era possível reunir pessoas, eu gostava de oferecer jantares em casa. Quando por lá aparecia alguém que frequentava o noticiário, era comum que jornalistas me perguntassem sobre o cardápio. É um interesse legítimo. As pessoas querem saber o que comem e bebem políticos e empresários. Para uma anfitriã atenta, a comida servida tem algo a dizer aos convivas e à situação que os colocou ao redor da mesma mesa. Lembrei dessas ocasiões ao ler sobre o menu degustado pelos principais líderes mundiais na recente cúpula do G7, na Grã-Bretanha. Tinha bucho de ovelha recheado com mousse de vísceras, cebola e farinha de aveia. Um brasileiro talvez torcesse o nariz para tanto exotismo, mas o haggis – o nomedo prato – é uma receita tradicional escocesa, em geral servida em grandes festas e banquetes. Há sempre alguma simbologia no alimento que se serve. Buchadas são um clássico. Por aqui, a de bode é quase uma cerimônia de iniciação política para candidatos que querem demonstrar proximidade com o povo, algo tão essencial quanto o pastel de feira. No caso do G7, uma mensagem possível bem que poderia ser uma simpática saudação à diversidade cultural – sim, porque culinária é cultura.

A civilização evoluiu em torno da mesa. Na Antiguidade, as festas mundanas, onde mais se bebia do que se comia, eram chamadas de simpósios, que, aliás, seria uma tradução mais literal para o famoso O Banquete, de Platão. Somente bem mais tarde, na Idade Média, se consolidou o hábito de sentar à mesa para comer, transformando salas de jantar em locais privilegiados onde, entre uma garfada e outra, os poderosos fechavam negócios e selavam alianças. Cada detalhe conta. O respeito à etiqueta pode ser a diferença entre a guerra e a paz. A escolha dos pratos pode ofender ou bajular os convidados. Nos Estados Unidos dos anos 50, por exemplo, era uma honra ser convidado para comer churrasco de hambúrguer nos jardins da Casa Branca. Diz a lenda que a sofisticação só teria chegado à sede do governo americano com a primeira-dama Jacqueline Kennedy, que nos anos 60 levou a Washington o gosto adquirido em suas estadas na Europa.

Banquetes são também eventos que criam laços de sociabilidade. Lembro-me, a propósito, de um filme dos anos 80, A Festa de Babette. A protagonista foge da França revolucionária do século XIX e se refugia na casa de um pastor dinamarquês. Anos mais tarde, ao descobrir que ganhou na loteria, oferece uma ceia na casa da família que a acolheu. Pratos exuberantes são servidos a dezenas de convidados. A comida é tão boa que alimenta até o espírito dos presentes: inimigos fazem as pazes, antigos amantes abrem seu coração, mágoas são esquecidas. Ao final, descobrimos que Babette, que era chef de um conceituado restaurante em Paris, gastou todo o dinheiro do prêmio no banquete. Loucura? Não. Ela preferiu empregar a fortuna exercendo sua paixão. Da política ao ambiente familiar, refeições são momentos de troca. Essa, aliás, é uma das lições deixadas pelo mais famoso banquete da história, retratado na Bíblia: a mesa é local de partilha – de pão, ideias e afeto.

*** LUCÍLIA DINIZ                    

OUTROS OLHARES

UMA DOSE A MAIS

O consumo de bebidas alcoólicas cresce entre as mulheres, colocando-as em pé de igualdade com os homens – com enormes ganhos sociais e os mesmos eventuais problemas

Quando a indústria tabagista, no fim dos anos 1930, entrou pela porta dos fundos de Hollywood, pagando a atores para fumarem em cena, ela não fez distinção de gênero: se Gary Cooper recebia para fumar, Joan Crawford não ficava atrás. Já a indústria de bebidas alcoólicas pegou mais leve – os Estados Unidos mal tinham saído da Lei Seca (1920-1933) e, por isso, não era de bom-tom ver mulheres entornando o caneco nas telas – a não ser que fossem vinhos e espumantes. Assim, de Homer Simpson a Don Draper (o atormentado publicitário da série Mad Men), a sociedade foi doutrinada a ver homens de copo na mão enquanto as mulheres ficavam na retaguarda, consumindo menos e em menor grau – no caso, menor grau etílico. Relacionar mulheres ao álcool virou uma espécie de tabu, acompanhado de chavões como “são fracas para beber”, como se não houvesse homenzarrões soltando o verbo e perdendo o rumo de casa depois da terceira dose. Novas pesquisas, no entanto, mostram que o sexo feminino, para o bem e para o mal, derrubou paradigmas sem quebrar a garrafa: as mulheres estão se igualando aos homens no consumo de álcool e, em alguns casos, bebendo até mais.

O mais recente levantamento do IBGE revela que o consumo de álcool no Brasil está cada vez maior: entre 2013 e 2019 (portanto, antes da pandemia), a parcela de pessoas que relataram ingerir bebidas alcoólicas ao menos uma vez por semana cresceu todos os anos, chegando a mais de 26% do total de entrevistados. Em outras palavras, tomando por base a amostra, um em cada quatro brasileiros bebe com frequência. E esse contingente engrossou, sobretudo, com a participação do sexo feminino. No período fechado de sete anos, a quantidade de consumidoras aumentou em 31,8%, contra 2,1% de consumidores. Alessandra Diehl, vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Outras Drogas (Abead), afirma que são vários os fatores que explicam por que as mulheres estão bebendo mais, mas destaca um em especial: a mudança do papel delas nas últimas décadas, o que as inseriu nos espaços antes dominados por homens. Ao que tudo indica, os millennials (nascidos entre 1981 e 1996) são os principais responsáveis por equiparar o consumo entre os dois sexos, fazendo do hábito de beber não apenas um fenômeno masculino. Mulheres entre 18 e 30 anos têm mais vida social do que suas mães costumavam ter e, no processo, acabam consumindo mais álcool.

Outro estudo, desta vez do periódico científico BMJ Open, demonstrou que, no começo do século XX, a frequência de consumo e o risco de uma pessoa se tornar alcoólica variavam muito de acordo com o gênero, sendo a incidência quatro ou cinco vezes maior entre homens. Cem anos depois, entretanto, a diferença havia caído para apenas 10 pontos porcentuais. Hoje, talvez pela primeira vez na história recente, as mulheres – mais especificamente as nascidas entre 1991 e 2000 – admitem beber tanto quanto os homens (ou até mais, em algumas situações), com probabilidade de ultrapassá-los de vez muito em breve. Os números – não exatamente positivos do ponto de vista da saúde – são dos Estados Unidos, onde os últimos dados coletados revelam que adolescentes e jovens adultas dizem bebere ficar embriagadas com mais frequência do que homens da mesma faixa etária.

Acompanhamentos feitos pelos americanos evidenciam, ainda, que o consumo tem, em muitos casos, motivações diferentes entre gêneros. As mulheres se sentiriam mais motivadas a beber para lidar com alguns aspectos da vida, como ansiedade e stress. Alessandra Diehl concorda com a tese: “É comum vermos mulheres consumindo álcool como forma de escape para conseguir administrar a atribulada vida profissional e familiar”. Os homens, que não estão livres de dificuldades semelhantes, beberiam mais por prazer. O fato objetivo, porém, é que o abuso pode ter consequências severas para ambos os sexos. Nos Estados Unidos, o número de mulheres atendidas no pronto-socorro devido a intoxicação alcoólica cresceu 70% em um período de oito anos. A morte por cirrose aumentou 57% entre mulheres, contra 21% entre homens, considerando o espaço de tempo de quinze anos. Já na faixa dos 25 aos 44 anos, a incidência retrocedeu 10% entre pacientes do sexo masculino, crescendo 18% no sexo oposto. Outro dado alarmante mostra que as mulheres apresentam problemas com alcoolismo mais cedo do que os homens, além de precisarem de quantidades menores para desenvolver algum tipo de complicação.

Isso traz à tona o velho dilema: as mulheres seriam mais fracas do que os homens para beber? Fraco ou forte são conceitos relativos, mas, devido às diferenças entre os organismos, as mulheres têm uma resposta fisiológica menos satisfatória à bebida. Do ponto de vista científico, o corpo feminino apresenta quantidade menor de água e de enzimas responsáveis pela quebra das moléculas de álcool e, em contrapartida, um volume maior de gordura – o que dificultaria a capacidade em processar o álcool. Portanto, mulheres que bebem demais estariam mais sujeitas a se viciar e a ter problemas de saúde mais cedo do que os homens. “Antes víamos dois grupos de mulheres com problemas de alcoolismo: as que começam a beber após a menopausa, como forma de automedicação, e as mais novas, que bebem em baladas”, diz Patrícia Hochgraf, psiquiatra do Programa da Mulher Dependente Química do Hospital das Clínicas. Ela explica que, hoje, o consumo entre as jovens supera o das mulheres maduras e que o HC tem recebido pacientes com alterações hepáticas que revelam que elas vêm bebendo demais e há muito tempo. Patrícia diz que o programa continua aberto a quem precisar de ajuda.

Ana Canas fez parte desse grupo de jovens mulheres que tiveram problemas com o álcool. A cantora, agora com 40 anos, teve coragem de admitir que, com a morte do pai, que era alcoólatra, passou a beber demais, inclusive antes de suas apresentações. Ela precisou, com muito esforço, dar um basta no consumo para vencer o vício que estava tomando conta de sua vida. Este caso, como tantos outros relatados por especialistas, coloca o álcool na berlinda: como continuar consumindo algo com tamanho poder de causar dependência? Pode parecer lugar-comum, mas a resposta – e a história prova isso – está na moderação. A já mencionada Lei Seca americana não trouxe benefício algum à sociedade, abrindo espaço para o contrabando e aumentando o poder do crime organizado.

Uma pesquisa da Universidade de Oxford mostra que há benefícios comprovados em beber socialmente e que os ingleses que têm um “pub de estimação”, frequentado regularmente, afirmam se sentir mais engajados e satisfeitos com a vida, além de se relacionar melhor com os membros de sua comunidade. Assim, o álcool pode servir como eficaz aglutinador de pessoas, desde que seja consumido moderadamente. Homens e mulheres bebem para se divertir, para se conhecer, para fazer amigos e descontrair. A presença ou ausência de álcool pode ser a diferença entre uma festa animada e um evento para ser esquecido. Mas aconselha-se sempre estar no controle da situação. Ou, como diria o escritor britânico G.K. Chesterton em sua definitiva recomendação: “Beba porque está feliz, nunca porque está triste”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 20 DE JUNHO

O VALOR INESTIMÁVEL DE UM BOM CONSELHEIRO

Onde não há conselho fracassam os projetos, mas com os muitos conselheiros há bom êxito (Provérbios 15.22).

Todos nós conhecemos os efeitos devastadores de um mau conselho. Amnom, o filho de Davi, violentou sua irmã Tamar e foi assassinado por seu irmão Absalão porque seguiu à risca o perverso conselho do seu primo Jonadabe. O rei Roboão viu seu reino dividir-se porque seguiu o conselho insensato dos jovens de sua nação. Caim matou seu irmão Abel porque se recusou a obedecer ao conselho de Deus. Um conselho sábio vale mais do que muitos tesouros. Onde não há conselho fracassam os projetos. Por outro lado, com os muitos conselheiros há grande possibilidade de sucesso. Na multidão dos conselhos há sabedoria. Nem sempre conseguimos enxergar com clareza todos os ângulos da vida. Nem sempre conseguimos discernir todos os detalhes. O conselheiro é aquele que lança luz em nossa escuridão, que mostra uma saída onde só víamos muralhas, que nos faz perceber que uma crise na caminhada da vida pode ser transformada numa grande oportunidade. Nós precisamos uns dos outros. Não somos autossuficientes. Precisamos cercar-nos de bons conselheiros, de gente madura na fé, que tem caráter provado e coração generoso. Você tem amigos com quem compartilha sua vida? Eles são conselheiros que lhe apontam o caminho da vida?

GESTÃO E CARREIRA

AS ARMADILHAS DA INOVAÇÃO

A confusão entre erro e falha, a troca ruim da experiência pela metodologia e outras trapalhadas na empresa “ágil”

Toda criança ouve em algum momento de sua vida a frase: é errando que se aprende. O tema não poderia ser mais atual, num momento em que as metodologias ágeis estão tão disseminadas em empresas de diferentes tamanhos e setores. Isso porque, no método ágil de desenvolvimento, os erros (ou falhas) são uma parte natural do processo; é deles que vem o aprendizado para as novas implementações.

Nos métodos ágeis, há uma interação constante entre o desenvolvedor e o usuário. Os ciclos de entrega são curtos, e as novas implementações são testadas o tempo todo, em iteração. Algumas funcionam, outras não. Assim é o processo. As que não funcionam se transformam num aprendizado, que alimenta um novo desenvolvimento.

O método ágil substituiu, em muitos casos, uma mentalidade antiga de desenvolvimento, em que um analista especificava como um sistema ou processo iria funcionar, entregava os diagramas ao desenvolvedor, que levava meses até entregar o produto pronto, já testado em seus requisitos funcionais. O problema é que, na hora da entrega, muitas vezes se constatava que não era exatamente aquilo que o usuário esperava, e aí o tempo e o custo para fazer as mudanças necessárias eram muito altos. Além disso, num mundo em que tudo muda o tempo todo, e numa velocidade exponencial, realmente este método não tem sentido. Ao final de meses (ou anos) de desenvolvimento, já entraram novos concorrentes no mercado, mudaram as exigências do consumidor ou mesmo novas regulamentações apareceram. Para amplificar o efeito dessas mudanças, nos últimos anos houve uma explosão na quantidade de startups que, desprovidas de recursos, colocaram o usuário no papel do antigo analista, que especificava o sistema. Nada melhor do que testar com quem de fato vai usar o produto quando ele estiver pronto. Com isso, a expansão da utilização dos métodos ágeis ganhou um impulso extra bem relevante.

Como toda mudança de processos, a utilização dos métodos ágeis tem os seus efeitos colaterais. E um deles é a confusão entre Erro e Falha. Não há uma unanimidade na definição destes conceitos, então vou deixar clara aqui a minha classificação. Considero Erro uma incorreção decorrente de unia falha operacional, que pode ter origem na ausência de uma capacidade especifica, no acúmulo de tarefas, na negligência, num processo mal desenhado, num planejamento malfeito ou em causas similares. Exemplos de erro: um sistema que sai do ar inesperadamente; um produto entregue errado; um relatório com números desatualizados. São erros que acontecem na operação do negócio.

Já as Falhas são decorrentes da experimentação. Por exemplo: uma nova funcionalidade sendo testada num sistema, um teste de um produto junto a um novo público, um novo processo para algo que antes era feito de outra forma. Os casos acima representam situações em que a empresa está testando algo novo, e aqui falhar é uma parte importante do processo, porque não havia forma mais eficaz de se testar a hipótese. Este tipo de teste e a tolerância a este tipo de falha é um dos fatores que capacitam a empresa a ser inovadora. É um pré-requisito importante nessa jornada. Mas não pode ser confundido com o erro operacional. Enquanto a falha deve ser tolerada e até celebrada, pois ela representa evolução, o erro deve ter um tratamento completamente diferente, pois não deveria ocorrer.

Outro efeito colateral para o qual chamo a atenção é a sensação disseminada de que tudo pode ser testado e, assim, conhecimento e experiências prévias não são essenciais. Há que se ter clareza entre o que é passível de teste e o que não é. Usar um determinado canal para lançar uma determinada campanha pode ser algo a se testar – ou não. Se a experiência passada naquela área deixar claro que o teste é desnecessário, e se há consenso entre especialistas sobre o resultado esperado, isso não deveria ser testado. Mas como muitas organizações estão abrindo mão de profissionais mais experientes e empoderando outros com pouca vivência, acaba-se testando o que deveria ser conhecido. Este culto aos métodos ágeis tem feito muitas organizações abrirem mão da experiência em detrimento da metodologia. Mas se nem a inteligência é capaz de substituir a experiência, muito menos a metodologia o será. Os ritos da metodologia ágil estão transformando muitas empresas em laboratórios de testes. Isso representa ineficiência e desperdício de recursos.

Como tudo na vida, o equilíbrio é sempre importante, e nestes casos não é diferente. Saber distinguir Erro de Falta é o primeiro passo. Estimular a experimentação vem em seguida. Depois, valorizar a falta como aprendizado e saber o que fazer com ele. E, por último, mesclar profissionais experientes – que tenham expertise específica – com a capacidade criativa e o talento digital dos mais jovens. Assim, a empresa estará dando um importante passo para mitigar os riscos dos efeitos colaterais dos métodos ágeis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PSICOSSOMÁTICA – INTERPRETAÇÃO SIMBÓLICA

O corpo somatiza as realidades em que se vive, abrindo campo para a revelação de patologias; ao introduzir essa realidade, fixa-se como uma verdade e, dessa forma, o órgão vai receber a mensagem simbólica de morte

A psicossomática sempre existiu e aparece no corpo através de sintomas, sendo objeto de estudo e pesquisa referente à sua linguagem autodestrutiva. Grandes esboços lhe são dedicados, no sentido de entender e compreender a sua manifestação sobre o corpo da pessoa. Ao internalizar o desejo de morte, a pulsão vai aparecer, como sintoma, sobre algum órgão do organismo, possibilitando, com isso, o surgimento de uma doença.

O presente artigo tem como objetivo realizar um estudo sobre a linguagem psicossomática e a sua manifestação inconsciente sobre o corpo da pessoa. A proposta é levar ao entendimento de que o corpo somatiza a realidade em que se vive, abrindo campo para a revelação de patologias. Ao introduzir essa realidade, fixa-se como uma verdade. Dessa forma, o órgão vai receber a mensagem simbólica de morte.

Muitas pesquisas nesse campo e a literatura abrem espaço para discussões. A pergunta: como se constitui a pessoa psicossomática? O fenômeno psicossomático e sua ação autodestruidora possibilitam a necrose de algum órgão do organismo. O ponto de partida é mostrar que é possível interferir na origem desse sintoma através da linguagem simbólica. Quanto mais consciência, maior a possibilidade de cura desses sintomas. Parte aqui a escuta analítica para, dessa maneira, buscar a causa da demanda.

VÍNCULO COM A DOENÇA

Ao expressar o termo psicossomática vem à tona um amplo estudo dos seus conteúdos inconscientes, a respeito da manifestação dessa realidade sobre o corpo humano. Desde os primórdios da Psicanálise têm se analisado e pesquisado muito diante da somatização desse sintoma sobre o organismo. Quem realmente seria a pessoa psicossomática?

Qual a melhor palavra para defini-la, como uma realidade atual e eficiente para entender o sentido e o significado dessa linguagem autodestrutiva? Desejo. Fantasia. Impulsos. O conceito dessa abordagem se manifesta como uma nova nominação, uma linguagem, que se inscreve e demonstra sobre o corpo humano. “Nossa assinatura é, de fato, um hieróglifo personalizado, com efeitos sonoros distintivos, entregando o nome próprio. Incidentemente, essa marca do sujeito poderá, na análise, ser objeto de um relance transferencial.

Ao se inscrever sobre algum órgão do organismo, está manifestando um desejo autodestrutivo. A chave dessa etiologia se expressa entre o somático e o psíquico. Aquilo que de maneira externa é transferido e somado sobre o psíquico da pessoa. Dessa maneira, instalando-se sobre algum órgão, introjetando o desejo de morte. Ao receber a mensagem, este vai aderir como uma verdade, trazendo-a para si.

A psicossomática sempre se manifestou e se refugiou como um elemento autodestrutivo, possibilitando à pessoa anexar sobre o organismo um desejo de morte e não de vida. Esse fenômeno abre um grande campo de investigação diante da atuação agressiva sobre o corpo. Na verdade, está expressa uma grande demanda que necessita ser investigada. Nesse sentido, ao ser analisada, se consegue ler a mensagem, levando o paciente a entender que são manifestações de emoções recalcadas e reprimidas.

Um dos desafios da análise é conduzir o paciente a buscar uma resposta díspar. Ao mergulhar nessa demanda, este vai entendendo e compreendendo que não precisa mais estar vinculado à doença. Assim, busca um modo diferente, um novo método, uma mudança de atitude e comportamento, para, com isso, dar uma resposta contraditória e consciente. Ao entrar no simbólico dessa patologia, percebe que existem conteúdos latentes que necessitam ser analisados e trabalhados.

O estudo amplo da Psicanálise, ao entrar fundo nessa realidade, tem realmente contribuído muito para entender e compreender esses conteúdos simbólicos inconscientes. Muitos desses sintomas são, na verdade, manifestações do inconsciente, que insistem em perpetuar em algum órgão do organismo. Jaques Lacan, nos seus estudos sobre a introdução da psicossomática, vem mostrar uma realidade ligada realmente à criação de um vínculo com a doença. O autor insiste sobre a permanência de uma linguagem inscrita no corpo do paciente com essa demanda. Cabe, então, ao analista saber ler a dinâmica dessa manifestação psíquica.

Partindo da pergunta: qual é o ganho secundário do vincular-se com um sintoma? O corpo humano somatiza a realidade existencial em que vivencia seus dilemas. Quanto mais investir nesse processo, mais este vai se fixar sobre o organismo. Assim, a pessoa acredita que a melhor maneira de viver é realmente estar vinculada à patologia. Designa todas as condições para anexar para si o desejo e a vontade dessa realidade sintomática. Toda doença precisa de um método e um investimento de energia, de tempo para se manifestar. O mesmo acontece com a realidade da psicossomática, que inconscientemente investe energia para alimentá-la e oferecer existência na sua manifestação naquele órgão.

Ao entrar nessa realidade se compreende todo um investimento de energia, para que a patologia possa se proliferar. Na verdade, esse complexo torna-se um parasita, tendo como meta sugar e destruir tudo o que gera vida. Com o tempo, a pessoa realmente começa a criar um vínculo afetivo com o sintoma; pois não consegue encontrar saídas para se desligar deste, fortalecendo o estado de sofrimento.

O sujeito psicossomático é aquele tipo que sempre procura justificar a sua doença, isto é, necessita estar ligado e conectado com a mesma. Tudo em sua volta se estrutura para viver segundo a demanda dessa situação. Ao somar sobre o organismo a sua insatisfação, infelicidade e frustração anexa em algum órgão os dilemas de sua existência. Na verdade, usa a doença como um laço afetivo para obter atenção, amor e amparo. Ao eternizá-la, cria todas as condições para permanecer nessa pulsão de morte. Acredita-que é a única maneira de viver e ser na existência.

Como resultado se atribui todo um investimento nessa linguagem psicossomática, tendo como meta a fixação de uma doença. Por isso, a pessoa psicossomática usa todos os recursos para, sucessivamente, alimentar a sua patologia. Lacan atribuí esse sintoma como “cartucho revelando o nome próprio”, isto é, que a função deste é ter uma assinatura inscrita sobre o organismo da pessoa. Quanto mais dar existência para essa realidade, mais ela vai se fortalecer e ter consciência sobre qualquer órgão do corpo.

AMOR NA DOR

Freud não falou especificamente sobre o conceito de psicossomática. Ele atribuiu mais à histerial isto é, parte do nascimento no corpo de um sintoma histérico. O autor não fez nenhuma investigação específica para ocasionar de que maneira este se manifesta. Na verdade, podemos atribuir que a estrutura psíquica é afetada e, assim, lança para o organismo um desejo de morte.

A pessoa usa o sofrimento para obter amor, um amor na dor, um prazer voltado para a produção de patologias. Ao ter consciência, se permite sair desse estado doentio para um estado de saúde, realização e felicidade, sem, contudo, estar unido à patologia.

INTRODUÇÃO DO FANTASMA

Todo sintoma tem como meta se somatizar sobre algum órgão do organismo. Com o tempo, começa a necrosar essa área, levando ao nascimento de alguma doença. O corpo humano somatiza praticamente todas as realidades. Somatizamos o ambiente em que vivemos, onde trabalhamos, as pessoas com quem temos vínculos, nossos parceiros e parceiras, as escolhas que realizamos, enfim, tudo o que nos cerca é, realmente, anexado sobre nosso organismo. Este, então, vai ler a mensagem que lhe é atribuída, fortalecendo o processo psicossomático. Na verdade, há uma identificação com todas essas situações. Dessa maneira, a metamorfose existencial e afetiva se transforma em emoções.

Em cada parte do organismo há uma inteligência e uma consciência, que têm a capacidade de agir de forma livre, consciente, e determinada sobre qualquer órgão do corpo, dependendo da mensagem que é enviada. Ao ler a mensagem, esta vai, então, se fixar em algum órgão, necrosando-o.

No processo psicossomático, Lacan afirma que “o corpo é levado a escrever alguma coisa em ordem do número” (conferência sobre o sintoma proferida em Genebra em 1975). Ao introduzir o sintoma sobre o corpo, vai introjetar a manifestação de um processo de adoecimento. Ao atribuirmos a introdução do fantasma, se fala de uma realidade desconhecida pela pessoa. É uma pulsão, que tem como premissa necrosar algum órgão, pois ”a pulsão trabalha como uma perfuração, o movimento pulsional é um movimento em voltas”. Na realidade, sua finalidade é sempre fazer a pessoa experimentar o sentimento de abatimento, desprezo e fracasso.

Não tendo consciência dessa realidade, este, com o tempo, vai anexando em alguma parte do organismo, levando à manifestação de uma patologia. Ao introduzir o desejo de morte, a pessoa cria um ciclo de repetições, não tendo, com isso, consciência da demanda. A introdução desse fantasma, na verdade, age silenciosamente, manifestando sua ação autodestrutiva, induzindo, com isso, a morte de algum órgão.

Ao se instalar nesse meio, cria um campo de energia capaz de necrosar e aniquilar com o mesmo. Na verdade, o próprio corpo se deixa levar pelo desejo de morte, inscreve uma realidade de somatização e destruição. Dessa maneira, “o fenômeno psicossomático deve ser lido como um hieróglifo especial inscrito no corpo”.

Ao se inscrever sobre o corpo, o processo de somatização aciona, levando a pessoa a aderir a essa realidade, pois “o fenômeno psicossomático é uma nova nominação, uma inscrita, um traço, uma marca aplicada sobre esse objeto que é o corpo próprio”. Dessa maneira, este se instala sobre alguma parte do organismo, levando uma mensagem de morte e autodestruição.

Na introdução do fantasma, que aos poucos vai sugando a existência, se instituem todas as condições para mergulhar cada vez mais nessa realidade. O ser psicossomático não tem outra função senão viver para a sua doença. O método é todo um investimento de energia, tempo e projetos para amparar esse processo somático. Ao recalcar a patologia em alguma parte do corpo, esta começa a necrosar e dar essência a alguma doença.

Há uma complacência somática diante do órgão lesado. Este vai, então, trazer para si a mensagem autodestrutiva, paralisando a área afetada. Assim, ao paralisar o órgão, este começa, aos poucos, adentrar em processo de falência e morte.

PROCESSO DE CURA

O estudo do fenômeno psicossomático tem aberto muitos caminhos para o entendimento do processo de adoecimento. O foco a ser pesquisado seria de que maneira e quais motivos possibilitam a pessoa a atrair para si o sintoma. Ao anexar a patologia, se instala em alguma parte do organismo uma pulsão autodestrutiva, permitindo a formação de lesões no corpo. Ao adentrar nessa linguagem, se percebe todo um investimento para alimentar esse artifício de morte. O processo de cura nasce na tomada de consciência, que induz o paciente a se questionar frente às condições em que se encontra.

A pessoa psicossomática tem como meta se identificar com o sintoma, investindo tempo e energia na patologia. O ponto de partida seria se realmente há a possibilidade de cura para ela? A etiologia da doença psicossomática esconde a presença invisível de uma neurose necrófila, que tem capacidade para aniquilar com qualquer órgão do organismo. A lesão psicossomática se expressa como uma marcação no corpo ou pode ser entendida como uma linguagem, que necessita ser decifrada, diagnosticada e interpretada.

A pessoa psicossomática parte da identificação com o sintoma, criando um vínculo afetivo de apego. Quando se identificar com este, o processo de somatização é introduzido sobre o organismo. Cada órgão do corpo vai receber a mensagem e anexar. Ao receber a mensagem de morte, aos poucos começa todo um processo de adoecimento e extermínio do órgão afetado. A válvula de escape é o corpo, que recebe todas as informações autodestrutivas. Usa esse recurso para projetar as próprias insatisfações, introduzindo uma linguagem somática. Em cada parte do corpo há uma comunicação com todo o organismo. Ao manter emoções recalcadas, essa energia é, então, liberada, acarretando lesões sobre algum órgão.

O único modo de sair dessa conjuntura é conhecer a origem da patologia. Agir com consciência, entender os pactos inconscientes que são manifestados. No momento em que o paciente, em processo de análise, identificar a origem de sua doença, se inicia todo um processo de cura e transformação. Ao se permitir sair dessa situação, a pessoa encontra as condições para se livrar de suas amarras.

Desse modo, partimos da pergunta: é possível a cura da pessoa psicossomática? Para haver cura é necessária uma tomada de consciência, transformação e atitude. Investir no potencial criativo, sair de um estado doentio para um estado de saúde. O processo de cura acontece somente nas análises nas quais a pessoa vai falar da sua dor, para, dessa maneira, ingressar propriamente na origem do sintoma. Toda dor tende a se fortalecer, possibilitando a lesão de alguma parte do corpo. Assim, “a dor se manifesta como uma memória inconsciente, que é introduzida no corpo da pessoa. O órgão lesado começa, então, a manifestar a devida dor que foi anexada”. No momento em que falar da doença, esta passa a perder força. Ao ingressar na sua etiologia, se inicia todo um processo de mudança e tomada de consciência.

Nesse sentido, em processo de análise, se começa a olhar para a vida diferente, passa a entender que não necessita mais da doença para ter afeto e amor. Todo processo de cura exige uma atitude. consciente e criativa para sair de um estado de morte, para se consentir viver com saúde, sem necessitar da doença. Ao se desligar do sintoma, a pessoa psicossomática começa a se desvincular da doença, permitindo viver com saúde.

A análise leva o paciente a se perceber criativo, inteligente, consciente e com saúde, que tem todas as condições para crescer na existência sem a necessidade de estar perpetuado no processo psicossomático. Ao exigir o melhor da existência, se designam as condições para viver com saúde, alegria e amor, sem estar ligado a qualquer tipo de patologia.

Ao se permitir sair da situação de morte, o paciente encontra sentido na vida, alegria em existir, com prazer na ausência de doenças. Para sair do estado de inconsciência é preciso esforço e determinação, para fazer uma escolha consciente, que priorize um estado de graça e saúde na existência. No momento em que a pessoa começa a refletir e pensar sobre sua condição, abanca todo um processo de mudança de atitude e tomada de consciência.

Dessa forma, entende que a saúde e a felicidade advêm da transformação pessoal, da sua inteligência cognitiva e emocional, no investimento do seu potencial criativo. Através disso vai encontrar todas as condições para se superar na existência.

CORPO INTELIGENTE

As pulsões e emoções se manifestam sobre todas as ações do ser humano. Ao entrar na demanda das patologias se percebe um campo de investimento diante dessa realidade. Somos, na verdade, um corpo inteligente e consciente, que compreende a maneira como se está vivendo. A psicossomática tem sua atuação autodestruidora, levando para algum órgão do corpo a mensagem de morte. Na introdução desse fantasma começa a necrosar, possibilitando a manifestação de uma patologia.

O corpo humano sente e percebe todas as realidades nas quais a pessoa vive. Estas, então, são fixadas sobre o mesmo, manifestando uma mensagem de vida ou morte. A psicossomática, na sua essência, inclui a capacidade e a força de destruir com qualquer órgão do organismo. Ao receber essa demanda, vai aderir como uma verdade, possibilitando a introdução da patologia.

O processo de cura começa na tomada de consciência, na qual o paciente vai, aos poucos, se desvinculando da doença.

EU ACHO …

AMOR

Uma vez há muito tempo encontrei numa fila qualquer um amigo e estávamos conversando quando ele se espantou e me disse: olhe que coisa esquisita. Olhei para trás e vi – da esquina para a gente – um homem vindo com o seu tranquilo cachorro puxado pela correia.

Só que não era cachorro. A atitude toda era de cachorro e a do homem era a de um homem com o seu cão. Este é que não era. Tinha focinho acompridado de quem pode beber em copo fundo, rabo longo, mas duro – é verdade que poderia ser apenas uma variação individual da raça. Pouco provável, no entanto. Meu amigo levantou a hipótese de quati. Mas achei o bicho com muito mais andar de cachorro para ser quati. Ou seria o quati mais resignado e enganado que já vi. Enquanto isso o homem calmamente se aproximando. Calmamente não. Havia certa tensão nele. Era uma calma de quem aceitou a luta: seu ar era de um natural desafiador. Não se tratava de um pitoresco: era por coragem que andava em público com o seu estranho bicho. Meu amigo sugeriu a hipótese de outro animal de que na hora não se lembrou o nome. Mas nada me convencia. Só depois entendi que minha atrapalhação não era propriamente minha: vinha de que aquele bicho ele próprio já não sabia o que era, e não podia, portanto me transmitir uma imagem nítida.

Até que o homem passou perto. Sem um sorriso, costas duras, altivamente se expondo; não, nunca foi fácil ser julgado pela fila humana que exige mais e mais. Fingia prescindir de admiração ou piedade. Mas cada um de nós reconhece o martírio de quem está protegendo um sonho.

– Que bicho é esse? – perguntei-lhe e intuitivamente meu tom foi suave para não feri-lo com uma curiosidade. Perguntei que bicho era aquele, mas na pergunta o tom talvez incluísse: por que você faz isso? Que carência é essa que faz você inventar um cachorro? E por que não um cachorro mesmo então? Pois se os cachorros existem! Ou você não teve outro modo de possuir a graça desse bicho senão com uma coleira? Mas você esmaga uma rosa se apertá-la com carinho demais. Sei que o tom é uma unidade indivisível por palavras. Mas estilhaçar o silêncio em palavras é um dos meus modos desajeitados de amar o silêncio. E é quebrando o silêncio que muitas vezes tenho matado o que compreendo. Se bem que – glória a Deus – sei mais silêncio que palavras.

O homem sem parar respondeu curto embora sem aspereza.

E era quati mesmo. Ficamos olhando. Nem meu amigo nem eu sorrimos. Este era o tom e esta era a intuição. Ficamos olhando.

Era um quati que se pensava cachorro. Às vezes com seus gestos de cachorro retinha o passo para cheirar coisas – o que retesava a correia e retinha um pouco o dono na usual sincronização de homem e cachorro. Fiquei olhando aquele quati que não sabia quem era. Imagino: se o homem o leva para brincar na praça, tem uma hora que o quati se constrange todo: “Mas santo Deus, por que é que os cachorros me olham tanto e latem feroz para mim?” Imagino também que depois de um perfeito dia de cachorro o quati se diga melancólico olhando as estrelas: “Que tenho afinal? Que me falta? Sou tão feliz como qualquer cachorro, por que então este vazio e esta nostalgia? Que ânsia é esta, como se eu só amasse o que não conheço?” E o homem – o único a poder delivrá-lo da pergunta – este homem nunca lhe dirá quem ele é para não perdê-lo para sempre.

Penso também na iminência de ódio que há no quati. Ele sente amor e gratidão pelo homem. Mas por dentro não há como a verdade deixar de existir: e o quati só não percebe que o odeia porque está vitalmente confuso.

Mas se ao quati fosse de súbito revelado o mistério de sua verdadeira natureza? Estremeço ao pensar no fatal acaso que fizesse esse quati se deparar com outro quati, e neste reconhecer-se, ao pensar nesse instante em que ele ia sentir o mais feliz pudor que nos é dado: eu… nós… Bem sei que ele teria direito quando soubesse de massacrar o homem com o ódio pelo que de pior um ser pode fazer a outro ser: adulterar-lhe a essência a fim de usá-lo. Eu sou pelo bicho e tomo o partido das vítimas do amor ruim. Mas imploro ao quati que perdoe o homem e que o perdoe com muito amor. Antes de abandoná-lo.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A CANNABIS QUE SALVA

Aprovação na Câmara da plantação local de maconha medicinal dá novas esperanças para milhares de brasileiros que sofrem de doenças crônicas e carecem do produto

Se a medicina começou com a mistura de ervas e plantas, por que a aprovação de medicamentos derivados da maconha (a cannabis sativa) gera tanta disputa? Primeiro pela desinformação. Os remédios derivados da planta não possuem altos índices de THC, um dos mais de 140 compostos da planta já identificados, responsável pelos efeitos alucinógenos e indesejáveis da maconha. Já os medicamentos contendo o canabidiol (CBD) são amplamente usados para o tratamento de pacientes em diversos países do mundo, como nos Estados Unidos, México e até Israel.

O Projeto de Lei 399/2015, autoriza a fabricação e a comercialização de medicamentos e produtos à base de cannabis no País, sem a necessidade de importação do CBD. O projeto permite o cultivo local para fins medicinais e industriais, com uma série de regulamentações para as empresas interessadas. O texto indica ainda que produtos de uso humano e veterinário serão disponibilizados em embalagens invioláveis, prescritos por profissionais capacitados. Além de serem incorporados pelo SUS. Há dezenas de estudos científicos que indicam a substância para uma infinidade de diagnósticos, como esclerose múltipla, câncer, autismo e epilepsia.

A verdade é que o uso medicinal já existe no Brasil, mas apenas para os poucos que conseguem pagar pelos medicamentos importados e de alto custo nas farmácias brasileiras. Isso acontece porque a própria Anvisa tomou diversas medidas para tornar a medicação mais acessível. Em 2015, tirou o canabidiol da lista de substâncias proibidas para uso pessoal e passou a permitir a importação de medicamentos contendo canabinóides.

Em 2017, a agência aprovou o primeiro registro de medicação importada no País, o Sativex. Dois anos depois, a agência aprovou a venda de medicamentos nas farmácias mediante prescrição médica. E há até um medicamento produzido no Brasil, mas produzido com CBD importado, o que faz os preços atingirem a casa de até R$ 2 mil, dependendo da concentração do princípio ativo. O projeto que passou na Câmara está longe de legalizar a maconha ou permitir o consumo recreativo, mas abre uma possibilidade de negócios para o País e permitirá que associações de pacientes sem fins lucrativos possam produzir remédios à base de cannabis.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 19 DE JUNHO

NEM TODA ALEGRIA DEVE SER CELEBRADA

A estultícia é alegria para o que carece de entendimento, mas o homem sábio anda retamente (Provérbios 15.21).

Os tolos folgam e se refestelam ao redor de uma mesa, contando piadas picantes e jogando conversa fora. Encontram graça nas desgraças da vida e dão gargalhada daquilo que deveria levá-los às lágrimas. A alegria dos insensatos está grávida da estultícia e, quando dá à luz, nasce o filho bastardo da vergonha. Nenhum proveito há na alegria daqueles que carecem de entendimento. Estes riem quando deveriam chorar, celebram quando deveriam gemer, cantam quando deveriam cobrir-se de pano de saco e cinza. O ignorante não é apenas aquele que não sabe, mas sobretudo aquele que rejeita o conhecimento e que, mesmo tendo a oportunidade de subir os degraus do saber, desce ao fundo do poço da cegueira intelectual e moral. A vida do justo é o oposto disso. Ele anda na luz e busca o conhecimento. Procura a sabedoria e empenha-se por alcançá-la. O homem sábio não tem apenas conhecimento, mas aplica o conhecimento que recebe no seu viver diário. Ele anda retamente. Sua doutrina governa sua ética, seu conhecimento molda seu caráter, sua sabedoria revela seus valores. A alegria dos tolos não merece ser celebrada, mas a vida do sábio que anda retamente deve ser proclamada como exemplo digno de ser imitado.

GESTÃO E CARREIRA

UM CAFÉ PARA CHAMAR DE SEU

A tendência de personalização de produtos e serviços acaba de transpor uma nova fronteira: produzir o café que mais agrade ao paladar de cada consumidor, entre tantas possibilidades à disposição no mercado.

A ideia é da startup canadense Roasted Bean Box, que promete chegar à infusão perfeita por meio de dados coletados dos próprios clientes, num processo de experiências e ajustes que pode durar de três a quatro meses. A partir das amostras iniciais, com a variedade de café e o tipo de torrefação indicados pelo consumidor; a degustação avança de acordo com os relatos de sensações da experiência anterior. Reunidos em um aplicativo, esses dados geram sugestões que vão se aproximando, passo a passo, da fórmula ideal. A startup, que trabalha com um serviço por assinatura, oferece grãos provenientes de dezenas de países e faz as entregas em dias fixos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DEPRESSÃO – MUITO ALÉM DA BIOLOGIA

O pesquisador britânico Johann Hari investigou as principais causas por trás da depressão e garante: ela tem muito a nos dizer sobre como vivemos

A coluna da edição passada abordou algumas táticas utilizadas por Elizabeth Gilbert para manter a mente em equilíbrio, mesmo nos períodos mais difíceis. Não é tarefa fácil – ou não seria considerada pela escritora a sua principal ocupação. Mas o fato de estarem ao seu – e ao nosso – alcance nos entrega uma certa urgência sobre a própria saúde mental.

Não se trata de ter ou não responsabilidade sobre como respondemos às situações: apenas a consequência de que nossa biologia, sobre a qual não temos controle algum, não escreve nosso destino, já que os transtornos da mente são sempre multifatoriais – mesmo que essa ainda não seja a história que costumamos ouvir.

Contrariando a explicação do desequilíbrio químico no cérebro, a conclusão a que o britânico Johann Hari, autor de Lost Conections (Conexões perdidas), chegou com os anos dedicados a investigações sobre a questão foi de que a maior parte dos fatores relacionados à depressão não deriva da biologia e sim da forma como vivemos e nos relacionamos. Esse conhecimento abre-se a   uma série de soluções que podem ser oferecidas, ora como complemento ora como alternativa aos tratamentos baseados em fármacos.

A biologia indica o caminho – e é uma indicação forte e inegável. Mas as experiências trazidas pelo    meio, hábitos e relações interpessoais compõem o conjunto de fatores psicológicos e sociais que contribuem para os estados depressivos. Não significa que temos muito controle sobre eles, mas são agentes que oferecem um pequeno espaço para grandes transformações.

Em uma entrevista ao curador do ciclo de palestras TED, Chris Anderson, do programa TED lnterview, Hari exemplifica: “Se para você é muito fácil ganhar peso, para outros pode ser difícil. O que não quer dizer que você está destinado a ganhar muito peso”. Ou seja, a biologia aumenta a probabilidade de respondermos de uma ou de outra forma aos estímulos, mas jamais é suficiente para determinar os resultados.

É comum, por exemplo, que o corpo e a mente respondam de forma negativa a um ambiente que inconscientemente interpretamos como hostil ou que não atenda necessidades que nem mesmo aprendemos a reconhecer: de vínculo, de sol, de sono, de natureza e de propósito.

O cérebro humano evoluiu como resultado da convivência em grupo e foi moldado para depender de conexões profundas, sob o risco de sofrer dores psicológicas muito semelhantes, no aspecto neurológico, às dores físicas. É previsível que os índices de depressão e ansiedade acompanhem o crescimento da quantidade de pessoas que se declaram solitárias. Isolados em meio a milhares de rostos desconhecidos e indiferentes, afastados do mundo natural onde evoluímos, construímos uma sociedade que se organiza na direção da autossuficiência e do individualismo. A falta de um propósito na vida, de um trabalho significativo, também exerce forte efeito sobre a saúde mental.  Quando nossos esforços estão movidos não por um “o quê”, mas por um “porquê”, é mais fácil manter afastada a sombra da desesperança, que pode escurecer todos os cantos da mente.

Nem todas as soluções estão facilmente acessíveis, mas alguns hábitos sobre os quais podemos ter mais controle exercem grande impacto no bem-estar mental, no movimento e na qualidade do sono. O fator “dormir bem”, é um dos mais representativos na escala Hamilton (que fornece um número entre O e 52, de acordo com a severidade do estado depressivo), contribuindo para um resultado positivo de forma mais acentuada que o uso de fármacos, conforme alguns estudos.

“Seus genes e seu cérebro interagem com o ambiente”, destaca Johann Hari. “Se você diz às pessoas uma versão biológica simplista, o que está dizendo é que a dor delas não significa nada. É como um código errado em um computador. Mas uma das coisas que destaco é que deveríamos dizer o contrário: ‘seu sofrimento faz sentido, existem razões por trás que são compreensíveis e, juntos, como sociedade, podemos resolver alguns desses problemas’.”

MICHELE MÜLLER – é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências, Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site www.michelemuller.com.br

EU ACHO …

POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam mais bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que já eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

PRAZERES FRACIONADOS

Modelo de compartilhamento de bens de luxo, como aeronaves, barcos e mansões, ganha impulso no Brasil, abrindo caminho para novos Investimentos

Compartilhar é bacana e, acima de tudo, inteligente. O comportamento do consumidor de alto padrão vem se transformando nos últimos anos e valoriza cada vez mais a relação custo-benefício. Por que pagar tanto para usar tão pouco? Hoje é possível adquirir uma parte de uma mansão de frente para o mar, de um iate, de um helicóptero ou jato, contanto que o dono esteja disposto a dividir a propriedade com desconhecidos. O compartilhamento de bens é um serviço que existe no Brasil há mais de dez anos, mas que ganhou força na era da diversificação de investimentos.

Nesse modelo, os proprietários são, na verdade, cotistas com fatias igualitárias, o bem é deles, de fato e de direito, enquanto a empresa que intermedeia a transação fica responsável por organizar o revezamento dos usuários e pela manutenção do veículo ou imóvel. Detalhes como a decoração ou o cardápio mudam de acordo com quem chega. “A compra é compartilhada, mas o uso é exclusivo. É tudo personalizado, para que o cotista se sinta efetivamente o dono”, explica Marcus Mana, CEO da Prime You, pioneira do setor no país, com mais de vinte ativos entre helicópteros, aeronaves, embarcações, carros esportivos e imóveis, cujo valor total é avaliado em 380 milhões de reais.

Há normas que podem variar de uma empresa para outra, mas todas seguem um padrão. Cada bem tem de três a quatro cotistas – um jato Phenom 300 foi oferecido recentemente em três cotas e uma lancha Phantom 500, em quatro. Se um deles quiser vender sua parte, a empresa envolvida atuará como uma corretora. O agendamento para uso dos bens deve ser feito via aplicativo ou pela central de atendimento, e há taxas mensais fixas e variáveis, de acordo com a utilização. Na Prime You, caso um avião esteja em manutenção ou a serviço de um cotista, a empresa consegue remanejar o voo para outro de seus ativos, o que deixa os clientes tranquilos quanto à disponibilidade.

Marcus Machado, empresário do ramo de reciclagem, já tem duas cotas de barco e está pensando em adquirir uma de avião. Ele costuma levar a esposa e os filhos de Curitiba, no Paraná, onde residem, para relaxar na marina do Balneário Camboriú, em Santa Catarina. “No início, tive certa insegurança. Em nossa cultura, ainda há uma necessidade de ter a posse do bem”, ele admite. Apesar disso, Machado, que é cliente da Prime Share, empresa catarinense de compartilhamento, diz que tudo funciona bem e ele não precisa se preocupar com manutenção. Uma vez que as empresas do setor cresceram de 30% a 40% de 2019 para 2020, o negócio tem potencial interessante para os próximos anos, com mais pessoas compartilhando bens. Detalhe: como os números do quadro abaixo mostram, o preço ainda é bastante salgado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 18 DE JUNHO

OS FILHOS SÃO A ALEGRIA DOS PAIS

O filho sábio alegra a seu pai, mas o homem insensato despreza a sua mãe (Provérbios 15.20).

O lar é o palco das grandes alegrias ou tristezas da vida. É nessa arena que travamos nossas maiores batalhas. É nesse campo que fazemos nossas mais importantes semeaduras e nossas mais abundantes colheitas. Os filhos são a lavoura dos pais. Há filhos que produzem bons frutos e são a alegria dos pais. Há filhos, porém, que crescem e, depois de homens feitos, desprezam os pais, abandonando-os à sua desdita. Assim, convertem-se em tristeza para a família. Um filho sábio alegra a seu pai, pois reflete na vida os valores aprendidos no lar. Um filho sábio honra a seu pai, pois transmite para as gerações pósteras o legado que recebeu dos antepassados. Um filho sábio é fonte de alegria para seu pai, porque seu caráter impoluto, sua vida irrepreensível e seu testemunho ilibado são a melhor recompensa de seu investimento. No entanto, é extremamente doloroso um filho chegar à idade adulta e, quando sua mãe já está velha, cansada e sem forças para o trabalho, desprezá-la, desampará-la e deixá-la sem sustento digno, sem proteção e sem apoio emocional. Não há desumanidade mais gritante do que desprezar pai e mãe. Não há agressão mais violenta do que colocar os pais, já idosos, no escanteio da vida, sem cuidado e amor. Os filhos devem ser a alegria dos pais, e não o seu pesadelo.

GESTÃO E CARREIRA

A MENTALIDADE CERTA COMO VANTAGEM COMPETITIVA

Logo, I.A. se tornará uma commodity – e a cabeça do empreendedor-usuário é que vai fazer a diferença

Em última instância, todas as empresas de saúde existem para gerar engajamento. Entre médicos e pacientes, entre pacientes e programas de cuidados de saúde, entre pacientes e medicação. Por meio de engajamentos bem-sucedidos, podemos evitar que as pessoas adoeçam, podemos curar, reduzir custos sem sacrificar qualidade e podemos controlar doenças crônicas para uma vida melhor e mais feliz.

Acredito que o que irá diferenciar as organizações de saúde modernas não é apenas a capacidade de adotar tecnologia, que já virou uma commodity, mas a capacidade de superar seus pares em como facilitar a construção de conexões pessoais e de alto valor para usuários e médicos. Isso é o que realmente importa.

Como reduzir custos com saúde, como ser assertivo, como fornecer respostas mais rápidas e, no final das contas, como construir conexões pessoais e verdadeiras de forma sustentável. Imagino que essas sejam as questões que os melhores líderes de saúde discutem com suas equipes todos os dias.

E quando penso nisso, e em como entregar resultados superiores, acho que inteligência artificial (AI, na sigla em inglês) terá um papel central.

E o que é inteligência artificial? Para Costas Boussios, um cientista de dados baseado nos Estados Unidos, AI é uma dimensão da ciência de dados, um conjunto de métodos usados por cientistas de dados para criar novas ferramentas e soluções. O que precede AI, ele aponta, é a análise de dados, ou a utilização de modelos matemáticos para estudar conjuntos de dados, a fim de se formarem novas ideias. A conexão entre a análise de dados e a ciência de dados são os códigos ou algoritmos que viabilizam uma ideia em solução, em uma ferramenta que produzirá resultados para o negócio. Tenho a impressão que a maioria dos líderes das empresas ainda vê AI como uma caixa-preta. Como um domínio exclusivo de alguns engenheiros ou matemáticos especializados, que trabalham, independentemente, em produtos secretos. Pode ser o caso para a maioria das empresas.

Os melhores líderes serão aqueles capazes de abrir a caixa-preta. E conseguirão oferecer AI como um serviço rotineiro e em escala para todas as pessoas de todas as áreas de uma empresa, para que possam resolver problemas de forma mais eficiente e eficaz em seus setores específicos.

E as empresas que conseguirem fazer isso serão aquelas que superarão seus concorrentes, oferecendo mais valor a seus usuários. E vencerão.

AI como serviço é igual ao Excel, por exemplo. Ainda me lembro de quando trabalhava em banco, e os analistas mais bem avaliados eram aqueles que dominavam o uso do Excel e traziam insights valiosos para auxiliar seus times na tomada de decisões.

Hoje, algumas grandes empresas de tecnologia já oferecem AI como serviço. Dependendo do perfil de uma determinada base de dados, um algoritmo recomenda qual a melhor técnica matemática para processar esse conjunto de dados. É tudo automático, sem interferência humana.

E se AI for uma commodity necessária e disponível para todos como um serviço automático, qual será a verdadeira vantagem competitiva? Acredito que será a mentalidade do usuário. A mente curiosa que está sempre em busca de uma forma diferente de melhorar as coisas, de fazer mais com menos. Pessoas que operam em modo de aprendizado continuo. Justamente o modelo mental do cientista que está sempre em busca de uma nova descoberta. Ou do empreendedor que enxerga seu trabalho como um experimento científico sem fim. No método científico, o pesquisador desenvolve uma hipótese, testa-a por vários meios e, em seguida, modifica a hipótese com base nos resultados dos testes.

Organizações entenderão que o fracasso e o sucesso são igualmente importantes para o aprendizado. Não se trata de “run fast and break things”. Trata-se de evoluir rapidamente em direção a uma solução por meio de erros produtivos e controlados. Afinal, alguém já disse que quanto mais erramos mais próximos de uma solução estamos.

Essa mentalidade valoriza transparência radical que gera agilidade. Vê valor na integração para haver o compartilhamento de dados e inteligência. Toma decisões com base em fatos e dados. Fomenta o trabalho multidisciplinar entre equipes, fundamental na área da saúde, com múltiplas perspectivas: do paciente, dos colaboradores, dos médicos e da companhia.

Na área da saúde, acredito que as empresas vencedoras oferecerão soluções de engajamento personalizadas, em escala, para médicos e pacientes. Utilizarão AI em escala, de forma difundida. Tudo viabilizado por um modelo mental de aprendizado constante. AI não deve ser vista apenas como uma ferramenta, mas como uma mentalidade que pode salvar muitas vidas.

*** THOMAZ SOUGI – fundador e executive chairman do dr. consulta, mestre em Políticas Públicas pela University of Chicago Harris School of Public Policy e Kauffman Fellow. Tem MBA pelo University of Chicago Booth School of Business, concluiu o GMP da Harvard Business School

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MENTE SAUDÁVEL E EM FORMA

Todos nós lidamos diariamente com algum nível de estresse, independentemente de questões como idade, gênero ou classe social. O Mindfulness pode ajudar a reduzir a ansiedade e aumentar o bem-estar psicológico

Com o estresse, surge uma série de sintomas desconfortáveis e perturbadores – ele não é apenas um sentimento ou um estado mental. Se não tratado, o estresse pode se infiltrar em todos os aspectos da sua vida. O esgotamento profissional, por exemplo, conhecido como síndrome de burnout, é um dos desdobramentos mais alarmantes do estresse crônico, tendo sido incluído na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Diante desse cenário, diversas pesquisas têm apontado que uma das formas mais eficazes de lidar com o estresse são as técnicas de mindfulness.

Mindfullness, cuja tradução possível seria “a tenção plena”, é uma palavra muito utilizada atualmente no contexto da Psicologia Positiva. O fundador da Clínica de Redução de Stress do Massachusetts Medical Center, Jon Kabat-Zinn, define mindfulness como a atenção voltada para o momento presente. De acordo com Kabat-Zinn, a técnica do mindfulness também está relacionada a: 1. ser você mesmo; 2. aceitar e valorizar o que o momento oferece; 3. não julgar a si mesmo; 4. ser paciente consigo e com os outros; 5. confiar em si e em seus sentimentos; 6. permitir que as coisas sejam como são e não ficar à mercê de expectativas, desejos e experiências.

Pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, nos Estados Unidos, examinaram aproximadamente 19 mil estudos de meditação e, entre as descobertas, publicadas na JAMA Internal  Medinice, a meditação de atenção plena foi apontada como capaz de aliviar diversos estresses psicológicos, tais como depressão, dores e ansiedade.

De forma correlata, Elizabeth Hoge, psiquiatra do Centro de Transtornos de Ansiedade e Estresse Traumático do Hospital Geral de Massachusetts e professora assistente de psiquiatria da Harvard   Medical School, afirma que o mindfulness faz todo o sentido para o tratamento da ansiedade e do estresse. Segundo a pesquisadora, pessoas com ansiedade têm problemas para lidar com pensamentos perturbadores fora de controle. Essas pessoas não conseguem distinguir entre um pensamento voltado à solução de problemas e uma preocupação persistente incapaz de produzir qualquer benefício.

Mas como, então, o mindfulness pode aliviar o estresse? Simples: a atenção plena nos dá espaço para entender quais demandas de energia, atenção e emoções são válidas e quais não são. Com essa capacidade de distinção, nossa experiência de estresse e ansiedade torna-se muito diferente.  A pressão surge quando não temos esse espaço em nossa mente e em nossa vida. Sentimos alívio quando a meditação nos dá o espaço e a clareza de que precisamos para organizar nossas prioridades.

O outro elemento-chave está relacionado ao aumento dos recursos psicológicos. A ciência mostra que a plasticidade do cérebro – a capacidade desse órgão de mudar e se adaptar ao longo da vida – é extraordinária. Usando técnicas de mindfulness para treinar nossa mente, por exemplo, aumentam os nossos recursos mentais e nos tornamos mais capazes de lidar com elementos e cenários estressores.

Uma explicação para esses efeitos benéficos à saúde está relacionada aos níveis do cortisol, o hormônio do estresse. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Hospital Israelita Albert Einstein, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Instituto Appana Mind, uma hora e 15 minutos de prática de ioga e meditação três vezes por semana, por dois meses, cortou pela metade a concentração de cortisol de um grupo de cuidadores de pacientes com Alzheimer cujos níveis de estresse e ansiedade atingiam índices alarmantes.

Como sociedade, as pessoas costumam partilhar uma consciência sobre a importância de ter um corpo saudável e em forma – não à toa, as academias estão cheias e o interesse pelo bem-estar físico é evidente. No entanto, é igualmente crítico ter uma mente saudável e em forma.

Por meio da prática do mindfulness, nossa mente pode se tornar mais capaz, focada e clara, permitindo-nos lidar melhor com situações estressantes e exigentes.

Nesse sentido, existem muitas técnicas de meditação de atenção plena que podem ser eficazes para aliviar o estresse e promover o relaxamento físico e psicológico. Na verdade, qualquer atividade que você realiza em que permaneça totalmente presente, completamente enraizada no presente e sem julgamento pode representar uma técnica de mindfulness que, quando praticada regularmente, pode trazer os benefícios da meditação para sua vida.

COMO PRATICAR O MINDFULNESS

Embora seja geralmente associado à meditação, existem várias outras formas de desenvolver a atenção plena.

ATIVIDADES – Qualquer atividade que você realiza pode se transformar em uma prática de mindfulness. Basta que você fique totalmente focado no que está fazendo.

SONS – Ouça conscientemente os sons de seu ambiente.

SENSAÇÕES – Atente às suas sensações. tanto físicas quanto emocionais.

PALADAR – Experimente saborear os alimentos prestando total atenção no gosto, na textura e no aroma.

PENSAMENTOS – Realize alguma atividade cotidiana e traga foco às ações que você realiza – e não ao que se passa em sua mente.

RESPIRAÇÃO – Inspire e expire devagar, sentindo cada movimento.

FLORA VICTORIA – é presidente da SBCoaching Traning, mestre em Psicologia Positiva Aplicada pela Universidade da Pensilvânia, especialista em Psicologia Positiva aplicada ao coaching. Autora de obras acadêmicas de referência, ganhou o título de embaixadora oficial da Felicidade no Brasil por Martin Seligman. É fundacbra da SBCoaching Social

EU ACHO …

OS HOMENS NÃO SÃO TODOS IGUAIS

É errado criminalizar a masculinidade como um problema em si

“Homem é tudo igual.” Provavelmente não existem mulheres que não tenham dito ou pensado isso diante do amplo arco de malfeitos masculinos que começa na toalha molhada jogada na cama e vai subindo até chegar à imposição da própria vontade pela força física ou financeira, à importunação sexual em vários graus ou ao abandono dos filhos. O caso de Andrew Cuomo, o governador de Nova York que colocou a si mesmo sob o risco de impeachment ou renúncia forçada, certamente está provocando esse tipo de reação. Poucas mulheres não terão passado por algumas das cretinices inconvenientes ou até delituosas agora associadas a Cuomo: as piadinhas que só têm graça porque contadas pelo chefe, a mão “esquecida” na cintura, as insinuações de natureza sexual e até o beijo roubado em pleno ambiente de trabalho – e em plena segunda década do segundo milênio nos Estados Unidos, um sinal, entre tantos outros plantados ao longo da história, de como o poder inebria, cega e, em casos que nem precisam ser extremos, emburrece. É dos Estados Unidos que veio, como tudo mais nesse terreno, a expressão “masculinidade tóxica”, que parece ter sido criada para definir o governador Cuomo depois da queda – antes, ele era tão venerado nos círculos progressistas que ganhou um Emmy por suas entrevistas coletivas no auge da Covid-19 em Nova York e deu ensejo ao autoexplicativo neologismo “cuomossexual”, usado por várias celebridades deslumbradas. O problema com o conceito de masculinidade tóxica é que ele não é aplicado apenas aos desvios e abusos, mas à própria essência masculina, como se ser homem implicasse automaticamente em comportamentos condenáveis que só podem ser corrigidos pela desprogramação – e é claro que já existem nos Estados Unidos cursos ministrados em universidades e empresas com esse objetivo.

Enquadrar todos os homens na categoria “tóxica” pode levar a absurdos como o que aconteceu na Inglaterra, onde o assassinato de uma jovem mulher que caminhava para casa à noite provocou grande comoção. Aproveitando o ambiente de consternação, Jenny Jones, integrante do Partido Verde que ascendeu à Câmara dos Lordes com o título de baronesa, propôs um toque de recolher, válido para todos os homens, a partir das 18 horas, como forma de garantir a segurança da circulação de mulheres à noite. Depois, ela disse que só tinha sugerido uma medida insensata para que os homens sentissem o gosto da punição coletiva experimenta da pelas mulheres quando a polícia recomendou que evitassem andar sozinhas à noite na área. (A recomendação deixou de ter valor depois que o assassino foi preso: um policial que trabalhava no serviço de proteção a diplomatas, o que torna a história ainda mais dramática.)

As mudanças sociais aceleradas e os exageros do antimasculinismo já estão ajudando a criar homens assustados, revoltados, comprometidos a não se casar nem ter filhos para não ser “explorados” por futuras ex-esposas. Tudo o que o mundo não precisa é de criaturas psiquicamente frágeis, chorando suas mágoas em redes sociais e trancadas em quartos onde se embriagam com um dos maiores combustíveis da masculinidade tóxica: pensar besteiras.

*** VILMA GRYZINSKI

OUTROS OLHARES

VIOLÊNCIA SEXUAL NA PANDEMIA

Grupo luta pelo direito ao aborto legal à distância

Quando viu os leitos do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia tomados por pacientes da Covid-19, em meados de 2020, a ginecologista Helena Paro temeu pelo atendimento às mulheres vítimas de violência sexual. O Núcleo de Atenção Integral às Vítimas de Agressão Sexual, o Nuavidas, criado por ela em 2017, é um dos poucos serviços no Brasil que realizam o procedimento do aborto legal.

Depois da lei que autorizou o uso da telemedicina no país durante a pandemia, Paro foi até a direção do hospital. Seu pleito era para que o Nuavidas pudesse realizar o aborto legal de forma remota, valendo-se do recurso da telemedicina. Depois da análise da comissão de ética do hospital e do Ministério Público Federal, ela obteve a autorização. Desde então, entre agosto de 2020 e junho de 2021, 17 meninas e mulheres vítimas de estupro puderam ter garantido o direito ao procedimento de forma remota pelo Nuavidas. A legislação brasileira autoriza o aborto em caso de estupro, risco de vida à mulher – e anencefalia fetal (fetos que não desenvolvem o cérebro), mas o serviço no país é escasso.

Assinado por Débora Diniz e Alberto Pereira Madeiro, um estudo feito entre julho de 2013 e março de 2015 mostrou que, dos 68 serviços do tipo cadastrados no Ministério da Saúde, apenas 37 relatavam fazer o procedimento.

‘Mas dizer apenas que realizamos aborto legal à distância é simplório”, alerta a ginecologista. “Não estamos ensinando ninguém a fazer aborto ilegal, ou apenas dando comprimidos e mandando pacientes para casa. Eu estou 24 horas por dia com o telefone do Nuavidas. O outro telefone fica com a psicóloga. O trabalho é maior do que o aborto legal, que, vale repetir, é um direito previsto em lei”.

Em 2019, o Nuavidas realizou 19 interrupções de gravidez em decorrência de violência sexual. Em2020, foram 33 (nove delas via telemedicina). “O número total quase dobrou, o que é um indicador do aumento da violência sexual no país durante a pandemia”, afirma Paro. Na maioria das vezes, lembra a ginecologista, as vítimas são meninas de até 12 anos de idade. Ao todo, em 2020, o núcleo atendeu 244 meninas e 138 mulheres.

ACOMPANHAMENTO

Com o apoio de outras 20 profissionais – médicas, psicólogas, assistentes sociais e advogadas, entre outras -, Paro recebe as vítimas no Nuavidas, que fica dentro do Hospital de Clínicas da UFU, o terceiro maior hospital universitário do país. Na primeira consulta (presencial), a paciente ouve sobre suas opções de manter ou não a gravidez.

O aborto à distância só é aplicável para interromper gestações de até 63 dias e quando é possível a indução por medicamentos, sem a necessidade de cirurgia. Se essa for a opção da mulher, ela leva para casa os comprimidos e as orientações sobre o uso, além do contato da equipe, para chamara qualquer momento.

Vinte e quatro horas depois do procedimento em casa, a ginecologista faz uma consulta por telefone com a paciente. O acompanhamento médico e psicológico segue por, no mínimo, seis meses, “no mínimo”, enfatiza Helena Paro, porque “as implicações emocionais da violência sexual são muitas, e os vínculos criados com os profissionais são muito especiais”.

Segundo a ginecologista, o aborto legal até nove semanas feito com medicamentos é considerado seguro e recomendado pela Organização Mundial da Saúde, (OMS) e pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) desde 2018.

Um estudo publicado pelo Royal College of Obstetrics & Gynaecology, em fevereiro deste ano analisou 52 mil casos de aborto no Reino Unido com medicamento em gestações de até 69 dias, parte da forma remota (via telemedicina), parte da forma tradicional (em hospitais).

A taxa de sucesso nos procedimentos em ambos os modelos foi praticamente a mesma: cerca de 98%. O índice de hemorragias também foi próximo; oito casos entre as pacientes que fizeram o procedimento em hospital, e sete entre as que fizeram em casa. Nos casos acompanhados pelo Nuavidas até agora, segundo a fundadora do núcleo, houve 95% de eficácia.

O serviço de vanguarda chamou a atenção da Defensoria Pública da União (DPU) – e causou um racha na instituição. No mês passado, duas cartas em sentidos opostos partiram da DPU para o Ministério da Saúde e para o Conselho Federal de Medicina (CFM).

Uma delas é assinada pelo defensor nacional dos direitos humanos, André Ribeiro Porciúncula, e pede a contraindicação do procedimento, alegando que apenas a prescrição do medicamento abortivo fora do ambiente hospitalar é “algo extremamente temerário”.

Do outro lado, um grupo de 41 defensoras e defensores de todo o país assinou uma nota pedindo ao Ministério da Saúde e ao CFM, a recomendação do aborto legal à distância, lembrando que o procedimento por telemedicina é reconhecido como seguro pela OMS e, também, é adotado por países como o Reino Unido e os Estados Unidos.

Procurada, a DPU respondeu que seus membros “têm independência funcional”. “Isso significa que podem agir livremente, sem a necessidade de aval. Nesse caso, trata-se de uma ação do defensor nacional de direitos humanos, André Porciúncula, que causou movimentação no sentido contrário de outro grupo de defensores. Isso já aconteceu várias vezes em outras matérias, não é incomum”, informou em nota.

O texto diz ainda que “é importante deixar claro que a Defensoria Pública Geral da União, que é comandada pelo defensor público geral federal, Daniel Macedo, não participou dessas ações e, portanto, não irá se manifestar sobre o tema.

‘SEM DIÁLOGO’

Já Alessandra Wolff, defensora pública e chefe do Grupo de Trabalho Mulheres da DPU, uma das signatárias da carta que endossa o procedimento adotado pelo Nuavidas, afirma que a carta de André Porciúncula “causou surpresa por ter sido feita sem nenhuma consulta ou diálogo com os demais defensores”.

“Não fomos ouvidas. Como órgão especializado no tema do direito das mulheres dentro da DPU, é natural e desejável que esse tipo de assunto seja debatido conosco”, afirma Wolff. “Criar recomendação em sentidos opostos gera insegurança jurídica e enfraquece a instituição”.

Em resposta às manifestações da DPU, o Ministério da Saúde lançou na semana passada, uma nota informativa sobre o tema em que “orienta os profissionais da saúde que o procedimento de aborto não pode ser feito por telemedicina”. A nota, assinada pela Secretaria de Atenção Primária à Saúde, no entanto não tem caráter de lei.

Depois do comunicado da pasta, o Ministério Público Federal de Uberlândia, por sua vez, publicou texto reiterando a “recomendação” para que o NuaVidas siga fazendo uso da telemedicina para a realização do aborto legal.

“O atendimento por telemedicina, tal como previsto no protocolo do Nuavidas, é uma opção que as vítimas possuem de, se assim desejarem, especialmente em um momento de grande fragilidade física e emocional, continuar o tratamento em casa, junto da família, longe dos riscos de contaminação do ambiente hospitalar”, diz a nota do MPF.

Citando dados do Fórum de Segurança Pública, o Ministério Público Federal lembrou ainda que “todos os anos são registrados no Brasil mais de 66 mil casos de estupro, o que equivale a mais de 180 estupros por dia, ou um estupro a cada 8 minutos; a maioria das vítimas (57.8%), são meninas de até 13 anos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 17 DE JUNHO

O PREGUIÇOSO SÓ VÊ DIFICULDADES

O caminho do preguiçoso é como que cercado de espinhos, mas a vereda dos retos é plana (Provérbios 15.19).

Um indivíduo preguiçoso vive fora da realidade. É dominado por fantasias. O preguiçoso enxerga as coisas de forma desfocada. Ele vê o que não existe e aumenta o que existe. O caminho do preguiçoso não é cercado de espinhos, mas é como se fosse. O problema não existe, mas por causa de sua preguiça ele age como se existisse. O preguiçoso vê dificuldade em tudo. Ele não procura trabalho porque parte do pressuposto de que todas as portas da oportunidade lhe estarão fechadas. Ele não se dedica aos estudos porque está convencido de que não vale a pena estudar tanto para depois não ter recompensa. Ele só enxerga espinhos na estrada da vida enquanto dorme o sono da indolência. É diferente a vereda dos retos. Mesmo que haja espinhos, o homem reto os enfrenta. Mesmo que a estrada seja sinuosa, ele a endireita. Mesmo que haja vales, ele os aterra. Mesmo que haja montes, ele os nivela. O homem reto é aquele que transforma dificuldades em oportunidades, obstáculos em trampolins, desertos em pomares e vales em mananciais. Ele não foca sua atenção nos problemas, mas investe toda a sua energia na busca de soluções.

GESTÃO E CARREIRA

HOME OFFICE EXIGE PROTEÇÃO A COLABORADORES

Empresas que oferecem benefícios como assistência para reparos em casa tendem a reter mais talentos com a consolidação do novo modelo de trabalho após a pandemia

O que vai acontecer com o home office? O trabalho a distância, que antes parecia uma tendência para um futuro ainda longe, foi adotado com urgência a partir do final do primeiro trimestre de 2020. Ao longo de poucos meses, esse novo modelo transformou as rotinas das empresas. Elas agora se posicionam para manter o formato, em algum nível, para ao menos parte de seus times.   

De acordo com um levantamento realizado pela plataforma Workana, 84,2% dos líderes no Brasil pretendem manter, de uma forma ou de outra, o trabalho remoto em suas organizações. Não se trata apenas de um novo local: na avaliação dos entrevistados, a mudança está levando as organizações a valorizarem o cumprimento de objetivos e metas, mais do que jornadas fixas com horários rígidos.

Os colaboradores concordam e, no geral, sentem-se mais ativos profissionalmente: 40,6% das pessoas que responderam à pesquisa indicam que sua produtividade está excelente, 39,3%, muito boa, e 14,8%, boa. Já para 63,2% dos gestores, a performance das equipes se manteve ou aumentou.

Em coerência com esse pensamento, 96,7% dos trabalhadores ouvidos paro o levantamento dizem que o benefício do home office será decisivo na hora de escolher um emprego. E 91% afirmam que podem desempenhar suas tarefas com qualidade sem passar necessariamente oito horas diárias em um escritório.

FUTURO HÍBRIDO

A consultoria McKinsey analisou duas mil tarefas, realizadas por 500 atividades profissionais diferentes, em nove países. Concluiu que, na média, mais de um quinto da força de trabalho pode, ao menos em teoria, trabalhar de três a cinco dias por semana à distância. É um percentual três a quatro vezes maior do que o identificado antes da pandemia: se antes; 5% a 7% dos trabalhadores de países desenvolvidos atuavam de casa, agora a tendência é de estabilização entre 15% e 20%.

O levantamento identificou que muitas atividades manuais, que demandaram o uso de equipamentos fixos ou o atendimento presencial a outras pessoas, precisam ser realizadas de forma inteiramente presencial – elas incluem desde o trabalho de um mecânico ao de uma médica que atende em pronto-socorro.

Outras tarefas, em especial as que envolvem a capacidade de reunir e processar dados, de contadores a professores de ensino superior, teoricamente podem ser realizadas inteiramente à distância. E existem dezenas de casos em que a solução estará no trabalho híbrido, em que ações remotas são combinadas com momentos em que o trabalho presencial é mandatório.

O trabalho híbrido, de fato, é uma tendência identificada por 38% dos 500 executivos entrevistados para uma outra pesquisa da McKinsey. Antes da pandemia, apenas 22% das lideranças pensavam dessa forma.

SEGURO SOB MEDIDA

Essa é uma mudança que veio para ficar e transforma radicalmente a forma como os profissionais atuam – e também suas demandas por segurança, que agora se estendem para novos ambientes, em especial suas casas.

Para que as organizações possam garantir a segurança de seus colaboradores neste novo momento, a Kovr Seguradora está lançando o Seguro Home Office.

“Trazemos um produto especifico para que as empresas possam proteger o novo local de trabalho, que agora pode estar em qualquer lugar”, afirma o CEO da Kovr, Thiago Moura.

Os diferentes planos podem incluir cobertura para incêndio, danos elétricos, roubo na residência, equipamentos eletrônicos e acidentes pessoais, além de assistência 24 horas para uma série de situações, incluindo serviços de chaveiro, eletricista, reparos hidráulicos, assistência PET, baby sitter, cuidados para idosos ou mesmo limpeza de sofás e de colchões.

“Na Kovr, primeiro identificamos as necessidades dos clientes. Depois desenvolvemos produtos voltados para cada demanda. O Seguro Home Office é prova desse foco nas pessoas”, explica o CEO da Kovr Seguradora, que é resultado da fusão de outras empresas e da união estratégica de executivos com atuação destacada em grandes empresas do mercado de seguros. A companhia já nasce com mais de 47 anos de história, R$ 1 bilhão em faturamento e três mil colaboradores.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O PODER DOS HORMÔNIOS

O estrogênio não influi apenas na sexualidade feminina. Tem efeitos também em diversas capacidades cognitivas ­ tanto no homem quanto na mulher

De forma quase imediata, a palavra estrogênio evoca sexo e provoca associações quase sempre direcionadas à mulher. Esse hormônio sexual deve sua grande notoriedade à participação decisiva na condução de todos os processos do corpo feminino necessários à reprodução. Controla o ciclo menstrual, exerce influência no amadurecimento do óvulo a ser fecundado, dispara a ovulação e prepara o útero para a implantação do embrião. Sem o estrogênio, produzido em grande parte nos ovários – e existente, aliás, em variações muito semelhantes, razão pela qual se fala também em “estrogênios”, no plural -, vida nenhuma se desenvolveria no ventre materno. Na puberdade, seus níveis crescentes arredondam as formas femininas, trazendo a maturidade sexual. Em suma: é ele que faz das mulheres “mulheres”.

Não por acaso, o estrogênio é tido como o hormônio tipicamente feminino, e isso fez com que especialistas acreditassem durante muito tempo que sua atuação se restringia aos órgãos fundamentais para a reprodução. Mas posteriormente se verificou a existência de um complicado circuito regulatório por trás do controle dos níveis de estrogênio. Por um lado, mensageiros químicos do hipotálamo e da hipófise influem na produção hormonal dos ovários; por outro, o próprio estrogênio atua também sobre essas duas estruturas cerebrais. Assim sendo, ficou claro que nosso órgão do pensamento – ou ao menos partes dele – é sensível ao hormônio sexual.

Hoje, porém, os pesquisadores sabem que os estrogênios exercem sobre o cérebro influência muito maior que o mero controle da produção do hormônio sexual. Eles contribuem em diversas capacidades cognitivas, tais como o aprendizado e a construção da memória; controlam quais estratégias de comportamento ou de resolução de problemas vamos adotar; e também regulam nossa vida emocional. Vários estudos indicam que as células nervosas de algumas regiões cerebrais precisam dos estrogênios para entrar e permanecer em funcionamento. De resto, isso vale também para os homens, em cujo cérebro o mais importante hormônio sexual masculino – a testosterona – é transformado em estrogênio.

As primeiras indicações de que o estrogênio auxilia o trabalho cerebral provêm do início da década de 70, quando pesquisadores descobriram em células nervosas do cérebro de ratos moléculas de proteína que só se ligam ao hormônio sexual feminino. Por intermédio desses receptores o mensageiro químico transmite informações para as células nervosas. Receptores de estrogênio, porém, possuem não apenas neurônios transmissores de sinais, mas também outras células cerebrais, como as micróglias, importantes para a defesa imunológica, e as macroglias, que atuam como células de apoio e nutrição. É provável que o estrogênio cumpra tarefas distintas nos diferentes tipos de células, mas essas funções ainda não foram explicadas. Experiências com animais comprovam que o hormônio reprime a reação natural de defesa das micróglias contra estímulos inflamatórios. Isso pode ser muito útil, por exemplo, nos casos de esclerose múltipla ou da doença de Alzheimer, já que nessas duas enfermidades proteínas anômalas se depositam nos neurônios provocando um estado inflamatório que danifica e, em última instância, destrói as células nervosas.

Nas macroglias, o hormônio sexual cumpre função claramente trófica. Isso significa que ele estimula o metabolismo dessas células. Sob influência do estrogênio, as macroglias multiplicam a produção dos hormônios do crescimento, que, por sua vez, põem à disposição dos neurônios todas as substâncias de que necessitam para um funcionamento otimizado. Não apenas experiências com animais, mas também a observação de seres humanos indica que os estrogênios oferecem proteção contra algumas doenças neurodegenerativas, ou ao menos retardam seu avanço. Muito provavelmente, eles exercem esse efeito protetor não nos neurônios em si, mas sobretudo por intermédio dos receptores nas células gliais.

Segundo descoberta recente, o estrogênio é capaz também de amenizar as consequências de um derrame cerebral. Sob o comando de Phyllis White, pesquisadores da Universidade da Califórnia removeram os ovários de camundongos, limitando a produção natural de estrogênio. A seguir, dividiram os roedores em dois grupos, um dos quais recebeu estrogênios em baixa dosagem. Uma semana depois, bloquearam brevemente o fluxo de sangue em determinada artéria do cérebro, desencadeando um derrame. Então, passados poucos dias, compararam os vestígios do experimento deixados no cérebro.

Nos camundongos submetidos à “terapia de reposição hormonal”, os danos foram visivelmente menores. Segundo Phyllis, o estrogênio torna mais lento o avanço das lesões nas células induzidas pelo derrame. “Mais neurônios sobrevivem, sobretudo no córtex cerebral.” Em especial durante a fase final de um derrame, muitas células cerebrais sucumbem à chamada morte celular programada, mediante a qual o corpo se livra até de células pouco danificadas. O estrogênio parece limitar esse processo, também conhecido como apoptose. E mais: exerce um efeito positivo sobre o crescimento de novos neurônios.

O hormônio sexual transformou-se em tema discutidíssimo nas neurociências não só graças a essa atuação neuroprotetora. Interesse científico semelhante desperta a observação de que o estrogênio influencia diversas esferas cognitivas, como aprendizado, memória e comportamento. Afinal, independentemente de estereótipos e clichês, não há como ignorar a “pequena diferença” entre os sexos no tocante à prevalência de certos talentos específicos em homens e mulheres. Hormônios sexuais dão aí sua contribuição, e disso existe comprovação bastante convincente: nas mulheres, determinadas capacidades cognitivas se alteram de acordo com o nível do hormônio.

Não faz muito tempo, Onor Güntürkün, biopsicólogo do Instituto de Neurobiologia Cognitiva da Universidade do Ruhr, Alemanha, começou a investigar como voluntárias se saíam nos chamados testes de rotação mental em momentos diversos de seu ciclo menstrual. A tarefa a cumprir nesse teste é girar na mente uma figura geométrica. Ele avalia, portanto, nossa capacidade de visualização espacial. E, vejam só: durante a menstruação, quando os hormônios sexuais se encontram nos níveis mais baixos, as mulheres se saíram tão bem quanto os voluntários do grupo de controle. Ao final do ciclo, porém, quando os níveis de estrogênio sobem, o desempenho delas caiu sensivelmente. Mas melhorou em outro teste realizado paralelamente, no qual o objetivo era encontrar palavras apropriadas. Os resultados comprovam que as habilidades espaciovisuais das mulheres não são, em essência, inferiores às dos homens: o que ocorre com elas é, antes, uma oscilação mais forte do nível de estrogênio no cérebro, deslocando a ênfase de um talento para outro.

Também os ratos exibem certos comportamentos específicos de cada sexo. Como nos humanos, o nível de estrogênio parece desempenhar aí algum papel. Nos ratos, salta aos olhos sobretudo que machos e fêmeas não demonstrem o mesmo grau de interesse por um novo ambiente. Postos em território desconhecido, e em companhia de três objetos diferentes – uma garrafa, um tubo e uma bola, por exemplo -, as fêmeas põem-se no primeiro dia a examinar seu entorno de forma muito mais intensa que os machos.

Com o tempo, seu ímpeto investigativo decresce, mas torna a despertar de imediato se há um rearranjo dos objetos na gaiola. Isso, porém, acontece apenas com as fêmeas prontas para conceber, com baixos níveis de estrogênio. Somente elas inspecionam o ambiente modificado com curiosidade contínua. Os companheiros revelam de fato algum breve interesse, mas seu ímpeto investigativo torna a ceder com rapidez. Contudo, se as fêmeas não estão em fase de concepção, apresentando níveis altos de estrogênio, o novo arranjo do ambiente lhes é totalmente indiferente. Essa espécie de “balizamento hormonal do comportamento” faz todo o sentido. Provavelmente, fêmeas prontas para conceber tendem, na época da ovulação, a proceder a uma extensa investigação de seu entorno porque assim aumentam suas chances de encontrar um macho disposto ao acasalamento. Mesmo depois do parto, os níveis de estrogênio permanecem baixos, mas o ímpeto investigativo da mãe prossegue, o que lhe facilita proteger o rebento de eventuais perigos e prover-lhe comida suficiente.

Estudos como esse não deixam dúvida quanto à conexão entre os níveis de estrogênio e de desempenho de determinadas funções cognitivas, uma relação capaz de explicar certas diferenças entre os sexos. Pesquisas realizadas com o auxílio da ressonância magnética funcional mostram ainda que, já de antemão, homens e mulheres não utilizam as mesmas regiões cerebrais no cumprimento de algumas tarefas. Conforme se verificou em experiências com voluntários de ambos os sexos, quando se trata, por exemplo, de encontrar a saída de um labirinto virtual, ativam-se nas mulheres regiões nos lobos parietal e frontal direitos do córtex, ao passo que, nos homens, são neurônios do hipocampo que se agitam. Apesar disso, tanto homens como mulheres muitas vezes encontram a solução com a mesma rapidez. Seus cérebros, portanto, têm igual desempenho, embora adotem caminhos diversos.

A fim de descobrir como os estrogênios influem nessa complexa interação, pesquisadores passaram a investigar que regiões cerebrais possuem, afinal, células nervosas com acoplamentos compatíveis. A concentração de receptores de estrogênio é particularmente alta no hipotálamo e na chamada área pré-óptica. Era de esperar, uma vez que o hipotálamo integra o circuito regulador da síntese de estrogênio e, por meio de mensageiros químicos próprios, estimula a produção de hormônios sexuais. Quanto à área pré-óptica, ela parece participar no balizamento do comportamento reprodutor, ao menos nos animais. A hipótese é admissível, já que se trata de um hormônio sexual. Mas ocorre que também no hipocampo, e no córtex pré-frontal se encontram receptores de estrogênio em abundância. E essas são regiões vinculadas a funções intelectuais mais elevadas, tais como o aprendizado, a memória e o pensamento abstrato.

Experiências com camundongos e com ratos que tiveram os ovários removidos visando a diminuição do nível natural de estrogênio demonstraram que, após a remoção, os animais passaram a se sair muito piorem diversas tarefas de aprendizado e em testes de memória. Doses do hormônio, porém, anularam esse efeito negativo. Portanto, deve haver alguma ligação entre o estrogênio e a atividade no hipocampo, um centro de aprendizado.

Com o intuito de esclarecer essa conexão, a neurobióloga Catherine Woolley, da Universidade Rockefeller, em Nova York, passou a pesquisar as sinapses das células nervosas. É nesses pontos de contato que acontece a transmissão da informação entre os neurônios, e eles se situam nos chamados espinhos dendríticos – pequenos apêndices dos dendrites. Quanto mais ligações sinápticas existirem numa rede neuronal, melhor a transmissão. E, na linguagem do cérebro, aprender alguma coisa nada mais é que estabelecer novas sinapses e intensificar as conexões já existentes.

No hipocampo, os neurônios cultivam um gosto particular pelo contato: uma única célula nervosa pode estar em contato sináptico com até 20 mil outras. Quando estamos em processo de aprendizado, esse número comprovadamente aumenta. Como descobriu há alguns anos o grupo comandado por Catherine, com o auxílio de seções do cérebro com coloração especial, o estrogênio estimula a formação de novos espinhos dendríticos em determinados neurônios do hipocampo. Em 2001, Catherine e seu colega Bruce McEwen demonstraram que os espinhos adicionais não apenas fortalecem as conexões já existentes como também estabelecem novos contatos com outras células nervosas. Estudos equivalentes foram efetuados com fêmeas adultas de rato. O resultado ressalta acima de tudo como o cérebro permanece maleável mesmo na idade adulta. É à enorme plasticidade desse órgão que devemos o fato de uma antiga crença felizmente não corresponder à realidade: a de não ser possível aprender na velhice. É possível sim.

Os resultados da pesquisa também despertaram a esperança de, com o estrogênio, podermos desenvolver um novo medicamento contra a doença de Alzheimer, por exemplo, que causa a morte dos espinhos dendríticos no hipocampo. Em consequência disso, vai desaparecendo o poder da memória, que já não aceita novos dados. E outras capacidades cognitivas sofrem perdas crescentes, como a de orientação e visualização espacial. Considerando-se que o estrogênio dá suporte à formação de novas conexões sinápticas, esse hormônio talvez detenha a demência, ou desacelere seu avanço.

Mas as ambições de alguns cientistas vão mais longe, alimentadas pela observação de que, em todos nós, o número de espinhos dendríticos no hipocampo diminui com o tempo, assim como nosso desempenho intelectual decresce com a idade. Daí a ideia de empregar o estrogênio como o chamado cognitive enhancer – ou seja, como remédio para a melhora direcionada da memória e da capacidade de aprendizado.

Bruce McEwen, neuroendocrinologista da Universidade Rockefeller, pesquisa os mecanismos por meio dos quais o hormônio sexual feminino estimula, no plano molecular, o crescimento dos espinhos dendríticos nos neurônios do hipocampo. Para ele, está claro que esse mensageiro químico fortalece as funções de aprendizado e memória normais. “Mesmo sem a presença do estrogênio, há ainda um sem-número de ligações sinápticas no hipocampo. Nossos trabalhos mostram, porém, que, sem o hormônio, essas redes não operam com seu melhor rendimento no armazenamento e na evocação de determinados conteúdos de memória.”

O pesquisador defende uma espécie de terapia de reposição hormonal para o cérebro, da qual se beneficiariam sobretudo mulheres de mais idade. A razão para tanto é que, com a menopausa, os ovários praticamente param de sintetizar estrogênio. Sintomas como as ondas de calor e também os problemas psíquicos de que tantas mulheres sofrem durante essa fase parecem ter vínculo causal com a relativa escassez do hormônio – isso porque, em geral, as queixas diminuem com a aplicação de estrogênio.

Nesse meio-tempo, também o desempenho cognitivo de mulheres na menopausa já foi objeto de diversos testes. Os resultados são contraditórios. Em muitos estudos, o estrogênio melhora a capacidade de aprendizado, mas somente em relação a tarefas que demandem a utilização da memória verbal.

É para essa atuação seletiva que nos chama a atenção a psicóloga Donna Korol, da Universidade de Illinois. Ela se dispôs a investigar se, em ratos jovens que tiveram os ovários removidos, doses de estrogênio exerciam influência sobre determinadas estratégias de resolução de problemas. Com esse objetivo, aplicou dois testes aparentemente semelhantes, cujas soluções, porém, demandam do cérebro a ativação de redes neuronais distintas. Em essência, os ratos tinham de aprender a encontrar comida num labirinto. No teste A, a comida fica sempre no mesmo lugar, mas altera-se o ponto a partir do qual os ratos dão início à busca. Os animais que receberam estrogênio apreenderam o princípio do teste com muito mais rapidez do que os companheiros privados do hormônio.

Mas esses últimos foram muito superiores no teste B, em que o ponto de partida também é alterado, mas o rato sempre encontra sua comida, bastando para tanto que ele vire à direita no primeiro corredor. De acordo com Donna, o fato de os animais com deficiência de estrogênio terem aprendido a cumprir a tarefa com mais rapidez contradiz a noção de que o hormônio prestaria ajuda generalizada ao órgão do pensamento. “Se o estrogênio melhora nossa capacidade geral de aprendizado, então os resultados dos dois testes teriam de ser iguais.” Na opinião da psicóloga, o nível do hormônio sexual determina, antes, a estratégia cognitiva com o auxílio da qual o cérebro se lança à solução deum problema. “O estrogênio de fato favorece algumas formas de aprendizado, mas inibe outras.” E, mais importante: “Sem esse mensageiro químico, o cérebro trabalha de modo diferente, mas continua trabalhando bem”.

Os estudos de Donna Korol lançam nova luz sobre o declínio da capacidade cognitiva que muitas mulheres sentem após a chegada da menopausa. Em seu livro Animal research and human health, Donna defende a tese de que o nível decrescente de estrogênio pura e simplesmente altera o modo como o cérebro trabalha – direcionando-o para pontos que são fortes sobretudo nos homens, como a capacidade de orientação espacial. “Depois da menopausa, as mulheres poderiam melhorar seu desempenho em muitas tarefas se encarassem a coisa toda de maneira diferente”, explica. “Mas percebem as alterações provocadas pelo declínio hormonal como piora.”

Descobrir e fazer uso de novas forças decerto não é fácil, e Donna Korol ainda não ofereceu comprovação definitiva de sua teoria. Ainda assim, seus resultados parciais ensejam algumas dúvidas quanto à ideia de que, depois da menopausa, o cérebro feminino se beneficiaria como um todo de uma espécie de terapia de reposição de estrogênio. Certo, porém, é que o estrogênio pode fazer muito mais que dar às mulheres aparência diferente da masculina. Por meio de receptores em regiões cerebrais como o hipocampo, o mais importante hormônio sexual feminino contribui para muitas ” pequenas diferenças” no modo de pensar e nos talentos específicos de homens e mulheres. Mas enquanto os efeitos do estrogênio sobre o cérebro não forem conhecidos com exatidão, é necessário conter a euforia. Ou não servem de advertência as acaloradas discussões da atualidade a respeito da ampliação do risco de câncer em decorrência de terapias de reposição hormonal?

A SINERGIA ENTRE CÉREBRO E OVÁRIOS

Os hormônios sexuais femininos são produzidos nos ovários, mas sua síntese está sujeita ao controle de um circuito regulatório no qual duas regiões cerebrais desempenham papel decisivo: o hipotálamo e a hipófise (glândula situada na parte inferior do cérebro). Na primeira fase do ciclo menstrual, chamada folicular, o nível de estrogênio no sangue é baixo. No hipotálamo, isso estimula a síntese dos hormônios liberadores de gonadotropina. Um desses mensageiros químicos, o FSH-RF (sigla em inglês de fator liberador do hormônio folículo-estimulante}, induz na hipófise a liberação do hormônio folículo-estimulante (FSH), que, então, via corrente sanguínea, chega aos ovários. Ali, o FSH intensifica a síntese de estrogênios, ao mesmo tempo que fomenta o amadurecimento de um óvulo.

Quando o nível de estrogênio atinge determinado patamar, o hipotálamo a um só tempo interrompe a produção do FSH-RF e intensifica a de LH-RF (sigla em inglês de fator liberador do hormônio luteinizante, ou lutropina). Esse segundo hormônio liberador de gonadotropina provoca a ovulação e, com o auxílio da progesterona produzida nos ovários, prepara a membrana mucosa do útero para a implantação de um embrião. Caso não ocorra a fecundação, a concentração de estrogênio no sangue diminui drasticamente e, em consequência disso, a membrana mucosa do útero é expelida. Um novo ciclo, então, tem início.

EM BUSCA DE ALIMENTO

Embora ambos os testes se assemelhem, eles solicitam áreas diferentes da memória Ratos com nível normal de estrogênio levam a melhor no teste A. Mas aqueles com deficiência de estrogênio compreendem a tarefa B com mais rapidez

EU ACHO …

NADA MAIS QUE UM INSETO

Custei um pouco a compreender o que estava vendo, de tão inesperado e sutil que era: estava vendo um inseto pousado, verde-claro, de pernas altas. Era uma esperança, o que sempre me disseram que é de bom augúrio. Depois a esperança começou a andar bem de leve sobre o colchão. Era verde transparente, com pernas que mantinham seu corpo em plano alto e por assim dizer solto, um plano tão frágil quanto as próprias pernas que eram feitas apenas da cor da casca. Dentro do fiapo das pernas não havia nada dentro: o lado de dentro de uma superfície tão rasa já é a outra própria superfície. Parecia com um raso desenho que tivesse saído do papel e, verde, andasse. Mas andava, sonâmbula, determinada. Sonâmbula: uma folha mínima de árvore que tivesse ganho a independência solitária dos que seguem o apagado traço de um destino. E andava com uma determinação de quem copiasse um traço que era invisível para mim. Sem tremor ela andava. Seu mecanismo interior não era trêmulo, mas tinha o estremecimento regular do mais frágil relógio. Como seria o amor entre duas esperanças? Verde e verde, e depois o mesmo verde que, de repente, por vibração de verdes, se torna verde. Amor predestinado pelo seu próprio mecanismo semiaéreo. Mas onde estariam nela as glândulas de seu destino, e as adrenalinas de seu seco e verde interior? Pois era um ser oco, um enxerto de gravetos, simples atração eletiva de linhas verdes. Como eu? Eu. Nós? Nós. Nessa magra esperança de pernas altas, que caminharia sobre um seio sem nem sequer acordar o resto do corpo, nessa esperança que não pode ser oca, nessa esperança a energia atômica sem tragédia se encaminha em silêncio. Nós? Nós.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

SOB O EFEITO DO BATOM

Além de artigo econômico respeitado mundialmente, o simples ato de pintar os lábios entrou em discussão durante a pandemia. Mesmo com o uso de máscaras, do isolamento e das lojas fechadas, as mulheres não pararam de usar o produto

Se os olhos são a janela da alma, é pela boca que muitas personalidades são formadas, seja através da fala mansa, seja pelo beijo amoroso ou pela simples escolha de uma cor de batom. “Esse produto é a construção do feminino. É o primeiro item que a criança vai pegar da mãe e passar de maneira instintiva”, afirma a maquiadora Vanessa Rozan. Apesar do isolamento social, que fez com que as mulheres ficassem mais em casa, e o uso de máscaras ter ofuscado a exposição dos lábios, o batom continuou a fazer parte do embelezamento feminino. Tamanha é a importância do cosmético que Leonard Lauder, herdeiro da Estée Lauder, criou um conceito econômico que vai muito além de um produto de beleza ou do poder econômico. Ele define como as pessoas se comportam diante de grandes crises. O quadro é simples: mesmo em períodos de extrema dificuldade econômica, o batom é um item de venda constante e certeira, não só por seu baixo custo, mas também pela autoestima que proporciona a quem o adquire. “Mesmo por baixo da máscara, eu uso um brilho labial ou uma cor clara para não sujar a máscara. E isso não é só vaidade. Ajuda a manter a saúde labial com o frio que faz aqui em São José dos Pinhais”, diz a professora Patrícia Oro. “Se dou uma aula em vídeo, carrego mais na cor. Estou sempre de batom”.

Preocupada com uma possível queda nas vendas, as empresas investiram em tecnologia. Batons à prova d’água e outros que duram até 24 horas. “Você pode comer, colocar a máscara, tirar e vai continuar com um efeito lindo”, diz Vanessa, que reúne mais de um milhão de seguidores no Instagram e raramente está sem batom.

EM TEMPOS DE HOME OFFICE

“Tenho o privilégio de poder fazer home office, então passo um batom cinco minutos antes de entrar em uma reunião e é o que muitas mulheres estão fazendo”, diz. Para ela a vaidade não acabou e o mercado da beleza só cresceu. “Antes, a mulher usava batom, pó, lápis preto e máscara para cílios. Hoje há uma infinidade de produtos”, explica. A consultoria McKinsey realizou uma pesquisa global com nove cenários esperados no setor de cosméticos para o período da pandemia e o resultado é otimista para o futuro, embora este ano, por causa da Covid, se espere uma queda de 20 a 30%. Mas a estimativa é que a recuperação será rápida. Já no segundo semestre de 2021, crescerá 35%.

Para a psicóloga e farmacêutica Ana Volpe, que produz uma linha de produtos de beleza, “o batom é identidade da mulher”. Embora ela revenda batons, Ana mostra que os cosméticos de um modo geral estão muito valorizados mesmo tem tempos de pandemia. A linha de seus produtos é voltada aos cuidados com a pele, o chamado Skincare, que foi lançada mesmo durante a crise do coronavírus. Diz mostrou ter lucrado 30% acima do esperado.

Winston Churchill, primeiro-ministro britânico conhecido por suas manobras militares estratégicas e bem sucedidas, teve um papel fundamental na questão do embelezamento da mulher, contribuindo para transformar o batom, principalmente o vermelho vivo, em algo que até hoje significa força, garra e coragem para o empoderamento feminino. Mesmo com o racionamento de diversos alimentos durante a Segunda Guerra Mundial, Churchill tornou obrigatória a distribuição de batons para as mulheres do Exército inglês por perceber o quanto isso afetava a moral das tropas femininas no front de guerra. Cunhou até o slogan “Agora, mais do que nunca, a beleza é seu dever”. Se a História tende a se repetir, na saúde ou na doença, na guerra ou na paz, o batom resistirá aos tempos bicudos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 16 DE JUNHO

NÃO PONHA LENHA NA FOGUEIRA

O homem iracundo suscita contendas, mas o longânimo apazigua a luta (Provérbios 15.18).

Um indivíduo raivoso, emocionalmente destemperado, que deixa vazar sua ira pelos poros da alma, é um incendiário. Está sempre colocando lenha na fogueira, atiçando as brasas da contenda e provocando o fogo das desavenças. Uma mente perturbada e um coração iracundo produzem uma língua solta. E uma pessoa que fala sem refletir suscita contendas, semeia intrigas e planta a inimizade no coração das pessoas. Não há pecado que Deus abomine mais do que esse espírito contencioso, de jogar uma pessoa contra as outras. O propósito de Deus para nós é o oposto desse caminho de guerra. Podemos ser pacificadores em vez de provocadores de contendas. Podemos apaziguar os ânimos em vez de acirrá-los. Podemos jogar água na fervura em vez de colocar lenha na fogueira. Podemos ser ministros da reconciliação em vez de agentes da guerra. Não fomos chamados por Deus para cavar abismos nos relacionamentos interpessoais, mas para construir pontes de contato. Nossa língua pode ser remédio que cura em vez de ser espada que fere. Nossos gestos devem caminhar na direção de reconciliar as pessoas em vez de jogá-las umas contra as outras. Somos agentes da paz, e não promotores da guerra; protagonistas do bem, e não feitores do mal; veículos do amor, e não canais do ódio.

GESTÃO E CARREIRA

UM IDIOMA UNIVERSAL

Com bilhões de usuários, os e-games estão substituindo as redes sociais como ferramenta de socialização

Jogos virtuais são hoje a linguagem mais poderosa para conectar pessoas com as mesmas paixões ou experiências. Em tempos de isolamento, as disputas em consoles de videogame, na tela do computador ou do celular ganharam ainda mais apelo, movimentando um mercado de US$ 175 bilhões no mundo todo, segundo recente relatório da Intel e da consultoria especializada Newzoo. A previsão é de que a comunidade global de adeptos de algum tipo de jogo virtual chegue a 2,7 bilhões de pessoas no final de 2021 – mais de um terço da população mundial.

Antigos estereótipos de que o mercado seria dominado por homens ou por jovens ficam cada vez mais distantes, diz Ronaldo Geraldine, responsável por games e e-sports na Campus Party Digital. O evento conquistou relevância no calendário global de inovação e entretenimento digital. Este ano acontece de forma online, em julho, com foco em games e inclusão. Geraldine destaca, na programação, o campeonato voltado ao público trans, a Liga dos Surdos e o Afrogame como modalidades que buscam atender todos os grupos. “Há muito tempo o mercado de games deixou de ser um nicho”, diz Rafael Montalvão, diretor de marketing da Netshoes, patrocinadora da Campus Party deste ano.

Os jogos tomam espaço das redes sociais como destinos para socialização online. Dez anos atrás, as gerações mais jovens deixavam formas tradicionais de interação em troca das mídias sociais. Hoje, trocam as mídias sociais por experiências interativas e com algum componente de “gamificação”.

GAMIFICAÇÃO

Dividido em três plataformas (console, computador pessoal e aparelhos móveis), o mercado global de jogos em 2021 deve chegar a US$17,58 bilhões

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS ORIGENS DO MEDO DE AMAR

Nós não sobrevivemos sem cuidados afetivos. Para amar verdadeiramente são necessárias algumas condições emocionais, mas muitas pessoas têm pelo outro paixão, atração ou dependência

O afeto é vital para a sobrevivência e felicidade e para a manutenção da vida e do bem-estar. Mas muitos dos relacionamentos que têm conflitos intensos fracassam pelo fato de a pessoa não conseguir considerar o outro em seus desejos e necessidades.

Podemos pensar nessa dificuldade empática sob a luz da teoria do psicanalista inglês Donald Winnicott. Ele afirma a importância do ambiente e da mãe suficientemente boa para o amadurecimento saudável do sujeito. Se não houve ambiente suficientemente bom desde o nascimento, é provável que o indivíduo terá dificuldades em tornar-se “inteiro”. A conquista da integração do indivíduo em um si mesmo, uma pessoa inteira não é simples. Muito pode acontecer antes de se conquistar o amadurecimento de forma integrada. A jornada é longa. Se o indivíduo não se integrou em uma unidade, não conseguirá saber sobre o outro e considerá-lo.

Um conceito muito importante em sua teoria é o estágio do concernimento. Suas raízes têm origem na posição depressiva de Melanie Klein. A posição depressiva é atingida quando o bebê integra a realidade de que o mundo não foi criado por ele, iniciando a quebra de sua onipotência. Aos poucos percebe que existe um mundo real. A agressividade do bebê é natural e está ligada inicialmente aos instintos. Ele suga o seio da mãe com força, agita os pés e as mãos, dá chutes mesmo antes de nascer. Percebe gradativamente nesse contato com a realidade após alguns meses que suas atitudes são dirigidas a um outro e que podem afetá-lo.

A partir dessa conscientização, surge a preocupação com suas atitudes e a possibilidade de reparação destas. A integração da agressividade instintual é uma conquista. Mas o que devemos considerar é se o indivíduo consegue atingir a fase do amadurecimento, em que é um indivíduo (integrado) e assim capaz de colocar-se no lugar do outro e “vestir seus sapatos”.  Se esse estágio do concernimento não for alcançado e consolidado, o sujeito provavelmente terá dificuldades nas relações de forma geral: profissional, amorosa e familiar.

Isso possibilita o estabelecimento de uma relação afetiva real, na qual podemos dizer que há amor, troca e empatia.

As pessoas querem ser felizes, e a felicidade em nossa sociedade está ligada a alguns fatores, como: saúde, boas condições financeiras e amar e ser amado. Muitos afirmam que podem ser felizes sozinhos, contrariando Tom Jobim, que diz em uma de suas canções mais famosas que “é impossível ser feliz sozinho”.

Ficar só pode ser uma escolha ou pode ser que o indivíduo não se dê conta de que é muito difícil para ele estar de fato com alguém. Podemos pensar na fábula atribuída a Esopo e reescrita por Jean de La Fontaine, A Raposa e as Uvas. Na fábula, a raposa tenta pegar as uvas, como vê que, é impossível alcançá-las as despreza, dizendo que estavam verdes e não as queria mesmo.

A solidão pode camuflar o medo e a dificuldade de viver novas experiências e também uma incapacidade de estabelecer vínculos mais profundos.

Há indivíduos fechados para o mundo que não estão vivendo plenamente. Traumas podem ter ocasionado uma parada em algum ponto do caminho do amadurecimento, levando a patologias mais graves se essa parada ocorreu em períodos muito precoces.

A solidão pode ser a saída mais segura ou a única. Quando embarcamos na aventura de conhecer alguém, correremos todos os riscos que isso implica. Afinal, amar e não ser correspondido é um grande sofrimento. É necessária alguma estrutura psíquica para suportar se não houver correspondência ou perda da pessoa amada. Os mecanismos de defesa inconscientes podem ser consolidados e impedir que o indivíduo se lance na vida, não só para o amor e sim de forma geral. A pessoa nesse processo pode colocar muitos defeitos e impedimentos, fazer uma autossabotagem para dificultar que uma relação se inicie.

Sempre existe possibilidade de retomada de tudo aquilo que não foi bem estabelecido no desenvolvimento emocional. Pode-se ter esperança na plasticidade da psique. Lançar mão de estudos, teorias e de muitos profissionais que se dedicam a auxiliar e acompanhar o desenvolvimento e a busca do outro torna a vida mais feliz e satisfatória.

Em Fragmentos de um discurso Amoroso, o filósofo e escritor francês Roland Barthes propõe uma inquietante reflexão sobre o tema: “(…) encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um (…) foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo. Esse? por que o desejo por tanto tempo, languidamente?”.

Essas reflexões sobre os mistérios do amor e da vida são temas a serem mais explorados e que nunca se esgotarão.

ELAINE CRISTINA SIERVO – é psicóloga. Pós-graduada na área Sistémica – Psicoterapia de Família e Casal pela PUC-SP. Participa do Núcleo de Psicodinâmica e Estudos Transdisciplinares da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica – SBPA. Atuou na área de dependência de álcool e drogas com indivíduos, grupos e famílias.

OUTROS OLHARES

MINHA CASA, MINHA FÁBRICA

Cresce no universo do design de interiores o interesse numa decoração com estilo industrial, inspirada nos galpões de artista americanos dos anos 1970

Ao entrar hoje em um apartamento de alto padrão em Nova York ou Berlim, mas também em São Paulo e no Rio de Janeiro, não será incomum deparar com uma parede de tijolos sem reboco, tubulações metálicas à mostra e móveis feitos com pranchas de madeiras de demolição. Não é desleixo – trata-se da mais forte tendência de design de interiores, que incorpora as imperfeições do ambiente para decorar a casa. O estilo, batizado de industrial, bebe dos balcões fabris para buscar suas referências.

O modismo chegou aos lares inspirado na atual geração de hamburguerias, barbearias e escritórios de startups, afeitos a exibir ares de novidade, mas nem sempre com orçamento suficiente para bancar grandes obras e acabamento de ponta. Daí a necessidade de adaptar a obra com o que estiver à mão. Em pouco tempo, irradiou-se para os fabricantes especializados em decoração. Há em São Paulo, por exemplo, a Prototyp&, e opções internacionais como a Steel Vintage, na Inglaterra, e a Go Home, nos Estados Unidos. As redes Tok&Stok e Leroy Merlin também surfam a onda. Um levantamento realizado pela rede social de compartilhamento de fotos Pinterest, traz uma visão do sucesso: a busca por referências para quartos com esse perfil cresceu 187%; para fachadas de casa, 345%; e iluminação, 800%, em comparação com doze meses atrás. “Em tempos de home office o estilo industrial ganhou ainda mais força por combinar com o aspecto de escritório”, diz Victor Noda, CEO da Mobly, loja de decoração com forte presença on-line.

Não é, ressalve-se, uma invenção dos nossos tempos. O formato é uma linha evolutiva das reformas de grandes galpões em Nova York, nos Estados Unidos, em meados dos anos 1970. Ali, onde anteriormente funcionavam depósitos e outros tipos de dependência industrial ferida pela crise econômica, brotaram inovações. Com o vazio e a iminente demolição de imóveis, grupos de artistas passaram a ocupar os espaços, com novas ideias. A mais célebre das empreitadas foi a do artista plástico Andy Warhol (1928-1987,) o gênio irrequieto da pop art, que inaugurou a The Factory. O ambiente fazia as vezes de lar, salão de festai e palco de encontros culturais que mexeram com corações e mentes de uma geração. “Desde então, locações com esse visual, aparentemente cru, carregam uma impressão de intelectualidade, por abrir espaço para experimentações”, diz a coordenadora do curso de design de interiores no Centro Universitário Belas Artes, em São Paulo, Sueli Garcia. Os especialistas alertam, no entanto, que, para funcionar, é fundamental pensar no estilo industrial como uma forma de adaptação do espaço, e não como um modelo pronto a ser copiado. “Uma parede estilizada ou um bom móvel de madeira rústica já dão a aparência fabril, sem deixar o ambiente datado”, diz o arquiteto Fernando Forte, do escritório FGMF, em São Paulo. Num momento em que muitas pessoas trabalham em casa, a tendência faz todo o sentido.

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA ARQUITETURA DE INTERIORES

As principais mudanças dos estilos ao longo das décadas

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 15 DE JUNHO

O AMOR SUPERA A POBREZA

Melhor é um prato de hortaliças onde há amor do que o boi cevado e, com ele, o ódio (Provérbios 15.17).

O que faz uma pessoa feliz não é um requintado cardápio sobre a mesa, mas o sentimento de amor no coração daqueles que se assentam ao redor dessa mesa. Há famílias que podem ter sobre a mesa as melhores carnes, as mais refinadas iguarias e os doces mais apetitosos, porém esses pratos saborosos se tornam intragáveis porque as pessoas que se reúnem à volta da mesa não se amam. O ódio tira a paz e também o paladar. O ódio rouba a alegria e também o apetite. Onde há ódio, não há comunhão; e onde não há comunhão, a carne da melhor qualidade não tem sabor algum. Nossa família não precisa de mais conforto tanto quanto precisa de mais amor. Não precisamos de casas mais belas, de roupas mais sofisticadas ou de carros mais luxuosos. Precisamos é de mais amizade, mais companheirismo e mais amor no lar. É melhor comer verduras na companhia daqueles a quem amamos do que comer a melhor carne onde existe ódio e indiferença. O amor supera a pobreza. As pessoas mais felizes não são aquelas que têm mais coisas, mas as que têm mais amor. O amor transforma o casebre num palacete. O amor transforma um prato de hortaliças num cardápio sofisticado. O amor faz florescer o deserto da pobreza, tornando-o um rico jardim de mimosas flores.

GESTÃO E CARREIRA

PROCURAM-SE PROFISSIONAIS DE TI

Na contramão do mercado de trabalho, o setor de Tecnologia da Informação luta para preencher vagas abertas, que devem superar 400 mil até 2024. Entenda melhor a questão da falta de mão de obra e as possibilidades que o segmento oferece para quem deseja mergulhar nela.

20 milhões de brasileiros não têm emprego. Destes, 14,1 milhões estão em busca de um trabalho para chamar de seu, de acordo com o IBGE, enquanto os outros 5,9 milhões já jogaram a toalha e desistiram de procurar. Em contraposição a essa realidade está a área de Tecnologia da Informação, com muitas vagas em aberto e poucos profissionais para preenchê-las. Até 2024, serão 421 mil postos de trabalho criados no setor, segundo estimativas da Brasscom (a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação). Dá mais de 100 mil novas vagas anuais. Isso seria lindo, não fosse um problema: nossos cursos superiores formam menos de 50 mil novos profissionais de TI por ano.

Responsável por 6,8% do PIB brasileiro, o setor de TI movimentou RS494,7 bilhões em 2019. No último relatório do LinkedIn sobre profissões em alta, 9 dos 15 cargos destacados estavam relacionados à Tecnologia da Informação. As profissões ligadas à área também encabeçamos rankings das consultorias de recrutamento PageGroup e Robert Half.

Não é novidade para ninguém que se trata de um segmento em ascensão. Em 2018, a estimativa de vagas anuais em TI já era de70 mil. E o crescimento acelerado vem desde 2014, segundo o presidente da Brasscom, Sergio Paulo Gallindo. A pandemia, porém, agilizou o processo.

De um dia para o outro, boa parte do trabalho passou a ser feita de casa, a educação foi para o modo remoto, o e-commerce tomou de vez o lugar dos shoppings; o Rappi, o do restaurante por quilo; o Zoom, o da sala de reunião e do bar, e do consultório médico. Quase nada escapou do novo regime virtual. E os responsáveis por viabilizar tudo isso são justamente os profissionais de TI: programadores, desenvolvedores, cientistas dedados, especialistas em ciber segurança, em infraestrutura de nuvem…

E não se trata apenas de uma demanda das empresas de tecnologia propriamente ditas (Totvs, Locaweb, Linx), mas também de companhias diversas que estão reforçando suas áreas de TI, como varejistas, bancos e aplicativos de entrega.

“Não que a pandemia seja algo a se celebrar, longe disso, mas não se pode negar que a situação foi um propulsor para as transformações digitais”, diz o presidente da Brasscom. “De outra forma, a adaptação das empresas nunca teria acontecido tão rapidamente. E o impacto disso no mercado de trabalho é gigantesco.”

ÁREAS MAIS CARENTES

Também dá para mensurar essa ebulição da área em termos financeiros. A expectativa da Brasscom é de que o investimento em Tecnologia da Informação fique em torno de RS 90 bilhões por ano daqui até 2024.

Algumas áreas do setor fervem mais que outras (veja quadro ao lado). Mais de um terço dos investimentos anuais (RS 36 bi) devem ir para a Internet das Coisas (loT). Natural. A Internet of Things é a tecnologia por trás de objetos que começam a entrar para o dia a dia. O nome vem do conceito de “empoderar” objetos dotando-os de conexão com a rede. Até pouco tempo atrás, isso não passava de uma conversa (um tanto chata) sobre o poder que um liquidificador ou uma geladeira com internet teria (se você souber de algum, nos conte). Mas isso já faz parte do passado.

A Internet das Coisas já chegou no nosso dia a dia. É ela que faz a Alexa te dar a previsão do tempo e contar piada. É a IoT que permite a um dono de Apple Watch sair para correr sem celular no bolso e atender ligações pelo relógio. É a IoT que acende a luz das lâmpadas inteligentes.

Mais: com a chegada do 5G a internet vai adiantar outras coisas. Carros, por exemplo. É possível que tenhamos veículos autônomos o bastante para fazer viagens com o motorista lendo um livro ao volante, muito antes de as leis de trânsito permitirem a leitura de livros ao volante.

Uma área da TI, vale lembrar, puxa a outra. A IoT dá mais trabalho para o armazenamento em nuvem – algo que também já foi novidade, e que agora nos parece tão vital quanto o ar. Sem nuvem, sem música na Alexa. Sem nuvem, sem Gmail.

A nuvem real não é algo tão fofo quanto o nome indica. São só galpões gigantes cheios de processadores e discos rígidos distribuídos em rincões mundo afora. O ponto é que eles não guardam só o seu Gmail, as músicas do seu Spotify e as piadas da Alexa. Há anos, a maior parte das empresas está deixando de ter datacenters próprios, e migrando seus sistemas para nuvens. Nuvens como AWS, da Amazon, e a Azure, da Microsoft. Não por acaso, esses são os serviços mais rentáveis dessas duas companhias trilionárias – e o valor de mercado de cada uma delas é comparável ao PIB do Brasil (US$1,8 trilhão).

Segundo a consultoria Gartner, até 2025, 80% das empresas brasileiras terão migrado seus data centers para alguma nuvem. Com isso, a expectativa é a de que os investimentos em cloud computing por aqui somem quase outro terço do total esperado para a TI (RS 28 bi). Ou seja: quase 70% daquelas 100 mil vagas/ano em TI estarão nessas áreas nos próximos anos. Se você é do ramo, fique de olho.

EDUCAÇÃO A FÔRCEPS

Legal. Mas como preencher tantas vagas se os cursos superiores mal dão conta de metade delas? Discutir a ampliação de vagas nas universidades é fundamental para o futuro do país. O problema é que na TI o futuro já chegou. A demanda está aí, e a falta de gente preparada também. Nesse cenário, coube às próprias empresas irem atrás de uma solução rápida. E foi o que aconteceu: cada vez mais companhias estão dando um jeito de formar novos profissionais por conta própria. Não se trata de cursos de graduação, mas de capacitação – geralmente voltados ao ensino de linguagens de programação. Saber Python, Java e cia., afinal, é o primeiro passo para quem deseja ingressar na TI. E não menos importante: já torna os formandos completamente empregáveis.

A Localiza, o Banco Inter e a MRV se juntaram para formar 100 mil pessoas ao longo de 2021. O projeto funciona por meio de uma startup de inovação da qual as empresas são fundadoras, a Órbi Conecta. E tem três frentes personalizadas para atender às necessidades de cada negócio. A frente do Inter planeja formar desenvolvedores Java. As da Localiza e da MRV, para capacitar desenvolvedores nas linguagens de programação do sistema.NET. Em fevereiro, foram liberadas as primeiras 30 mil bolsas de estudos – outras 70 mil serão abertas nos próximos meses. Com carga horária de 90 horas, os alunos têm 75 dias para finalizar o curso (on-line) e, ao final, recebem um certificado e concorrem a uma vaga na empresa de cuja frente participaram.

Também há o Instituto da Oportunidade Social, que desde 1998 capacita jovens de 14 a 29 anos na área de tecnologia. Eles têm parceiros pesos-pesados, como Totvs, Dell, Microsoft e Deloitte. E oferecem cursos de programação (160 horas) e suporte em TI (300 horas), entre outros. Dos 2.250 formandos de 2019, 1.400 já foram contratados pelas empresas patrocinadoras.

Outra instituição de destaque nessa linha é a École 42, que ensina engenharia de software. Os cursos também são gratuitos, e duram de dez meses a dois anos. Há a capacitação para programação e também especialização em áreas como inteligência artificial, ciber segurança, desenvolvimento de aplicativos, entre outras. Em 2020, a École fechou uma parceria com o Itaú por dois anos – os alunos do curso se candidatam automaticamente a vagas em aberto na TI do banco.

A startup de educação Trybe tem um modelo diferente. O curso não é de graça, mas você só paga depois que já estiver empregado. Os alunos têm 1.500 horas de formação ao longo de um ano. E a preparação é abrangente: passa pelas dez linguagens de programação mais buscadas pelo mercado, de acordo com Geek Hunter, uma plataforma de recrutamento de profissionais de TI – Java script, HTML, CSS, React, Node, Express. js, SQL, NoSQL, Git e Python.

DIVERSIDADOS

Também existem cursos voltados a minorias. Um a iniciativa que junta a fome com a vontade de comer. De um lado, temos grupos com muito mais dificuldade para conseguir empregos. Do outro, uma área com mais vagas do que profissionais capacitados. Mais do que isso. O segmento de tecnologia da informação é até mais masculino e branco que a média do mercado de trabalho.

Só 37% dos profissionais são mulheres, e apenas 30% se declaram pretos ou pardos, de acordo com um levantamento da Brasscom.

Uma iniciativa que busca melhorar essa estatística é a Afro ­ Python. Trata-se de uma ONG formada por profissionais de TI (e de outras áreas também), que oferece cursos gratuitos de programação para a comunidade negra. Recentemente, ela participou da criação do DiversiDados – um curso de desenvolvimento de software do Nubank. De acordo com o banco, as aulas são voltadas a qualquer pessoa que “faça parte de algum grupo sub- representado, seja de gênero, etnia, orientação sexual ou outro”.

O Grupo Fleury também tocou um programa nessa linha, só que mais específico. Uniu-se à Carambola, uma startup de capacitação tecnológica focada em diversidade, para criar um curso voltado à formação de desenvolvedores trans. A iniciativa resultou em três contratados para o laboratório.

Se você não é da área, então, fique de olho nas oportunidades que mostramos aqui. E o mais importante. A dica também vale para quem acha que “não leva jeito para a coisa”. Como lembra Sergio Paulo, da Brasscom: “Não é necessário ser nenhum gênio da matemática para estudar TI. O que você precisa é ter um mínimo de raciocínio lógico e dedicação”.

O LADO MEIO VAZIO DO COPO

Iniciativas relevantes à parte, o fato é que o mundo real da TI segue com problemas antigos. O salário médio de um desenvolvedor python no país é RS 4.500, o de um programador java, R$ 3.800 – de acordo com o Glassdoor, um site global de avaliação do mercado de trabalho.

São ganhos bem maiores do que o salário médio do brasileiro (RS 2.300). Mas, considerando a carência de profissionais na área, são ganhos baixos, sim. Mesmo os profissionais com curso superior têm remunerações relativamente modestas para uma área tão pujante. Um engenheiro de dados, por exemplo, tira em média R$ 8.500.

Sim, é compreensível que muita gente ache esses valores rechonchudos o bastante. Mas não é o que os profissionais de TI sentem. Uma pesquisa da FIA Business School, feita em 2020 com sete empresas referência em tecnologia mostrou que 41,7% deles não consideravam seus salários justos. A média de insatisfação dos outros setores corporativos foi de 25%.

A disputa por mais e melhor mão de obra sempre tende a aumentar os salários. Mas o fato é que isso ainda não aconteceu de forma significativa. Talvez a mão invisível do mercado esteja precisando de um curso de TI, para ver se aprende a programar a melhor solução.

EU ACHO …

O PASSEIO DA FAMÍLIA

Aos domingos a família ia ao cais do porto espiar os navios. Debruçavam numa murada, e se o pai vivesse talvez ainda tivesse diante dos olhos a água oleosa, de tal modo ele olhava fixamente as águas oleosas. As filhas se inquietavam obscuramente, chamavam-no para ver coisa melhor: olhe os navios, papai!, ensinavam-lhe elas, inquietas.

Quando escurecia, a cidade iluminada se tornava uma grande metrópole com banquinhos altos e giratórios em cada bar. A filha menor quis se sentar num dos bancos, o pai achou graça. E isso era alegre. Ela então fez mais graça para alegrá-lo e isso já não era tão alegre. Para beber, escolheu uma coisa que não fosse cara, se bem que o banco giratório encarecesse tudo. A família, de pé, assistia à cerimônia com prazer. A tímida e voraz curiosidade pela alegria. Foi quando conheceu Ovomaltine de bar, nunca antes tal grosso luxo em copo alteado pela espuma, nunca antes o banco alto e incerto, the top of the world. Todos assistindo. Lutou desde o princípio contra o enjoo de estômago, mas foi até o fim, a responsabilidade perplexa da escolha infeliz, forçando-se a gostar do que deve ser gostado, desde então misturando, à mínima excelência de seu caráter, uma indecisão de coelho. Também a desconfiança assustada de que o Ovomaltine é bom, “quem não presta sou eu”. Mentiu que era ótimo porque de pé eles presenciaram a experiência da felicidade cara: dela dependia que eles acreditassem ou não num mundo melhor?

Mas tudo isso era rodeado pelo pai, e ela estava bem dentro dessa pequena terra na qual caminhar de mão dada era a família. De volta o pai dizia: mesmo sem termos feito nada, gastamos tanto.

Antes de adormecer, na cama, no escuro. Pela janela, no muro branco: a sombra gigantesca e balouçante de ramos, como de uma árvore enorme, que na verdade não existia no pátio, só existia um arbusto magro; ou era sombra da Lua. Domingo ia ser sempre aquela noite imensa e meditativa que gerou todos os futuros domingos e gerou navios cargueiros e gerou água oleosa e gerou leite com espuma e gerou a Lua e gerou a sombra gigantesca de uma árvore apenas pequena e frágil. Como eu.

*** CLARICE LISPECTOR

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IMAGEM DISTORCIDA

A quarentena comprovou que as mulheres são as maiores vítimas da “síndrome do impostor” – a eterna sensação de não estarem à altura das funções que desempenham

Como se não bastasse a trabalheira imposta às mulheres na tripla jornada de trabalhar em home office, cuidar das tarefas domésticas e dar conta das crianças, a pandemia, sempre ela, vem contribuindo para aumentar os casos de um distúrbio insidioso, perturbador e, na maioria dos casos, escondido de todo mundo: a sensação de incompetência, de ser incapaz de fazer qualquer coisa direito – uma fenda na autoestima exacerbada pelo isolamento, que distancia a pessoa do mundo real e objetivo e a submerge mais ainda no ambiente filtrado e sem defeitos da internet.

Batizado de síndrome do impostor (embora não seja uma patologia), o conjunto de sintomas psicológicos associados ao sentimento de incapacidade, sobretudo nos ambientes acadêmico e profissional, é diagnosticado há décadas. No último ano, porém, ficou evidente que o comportamento, uma espécie de autossabotagem, afeta mais as mulheres do que os homens. “Sinto-me insuficiente como mãe e, principalmente, como profissional. As redes sociais agravaram o quadro, porque ficava me comparando com a vida perfeita que os outros parecem ter”, diz a paulista Camila Fremder, de 39 anos, que apresenta dois podcasts de sucesso, mas nunca escuta o próprio trabalho porque acha que não são bons o bastante.

Por terem entrado mais tarde no mercado de trabalho e lidarem até hoje com notórias desigualdades de tratamento, muitas mulheres encaram com preocupação e evidente insegurança os avanços na carreira. “Mesmo hoje, elas ainda são vistas como o sexo frágil, a quem cabe ser mãe e cuidar da casa porque são incapazes de cumprir obrigações profissionais”, observa a psicanalista Edoarda Paron. “Isso obviamente gera uma autopercepção bastante negativa.” O sentimento de não ser capacitada e estar enganando todo mundo espalha-se por diferentes profissões e classes sociais. Ele não impede que a mulher se desenvolva, é verdade, mas envolve o processo em doses exageradas de sofrimento e dúvidas.

A síndrome atinge, sim, muitas mulheres de prestígio reconhecido mundialmente: a ex-primeira dama americana e super influenciadora Michelle Obama, bem como as atrizes Emma Watson, Jodie Foster, Meryl Streep e Kate Winslet estão entre as que declararam sofrer esse tipo de insegurança. “Fico pensando: por que alguém vai querer me ver de novo em um filme? Além disso, não sei atuar, então por que continuo fazendo isso?”, abriu-se com franqueza, certa vez, Meryl Streep, a atriz multi­Oscar. ”A síndrome de impostor é dureza”, definiu Michelle em entrevista. “Duvidamos da nossa capacidade de julgamento, das nossas habilidades e dos motivos para estarmos naquela posição”, reforçou ela.

Um estudo realizado pela Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, mostrou que 70% das entrevistadas, todas executivas influentes, se sentem “uma fraude”, ou seja, não merecem os cargos que ocupam. A apresentadora e escritora brasileira Rafaella Brites, 34 anos, revela que sente o problema desde a faculdade e que foi piorando à medida que se via mais cobrada, ao ganhar visibilidade e reconhecimento profissional. Em 2020, Rafaella penou para lançar um livro – sucesso de vendas, diga-se de passagem – contando sua experiência com a síndrome. “Não entendia porque as pessoas comprariam meu livro, com tantas escritoras muito mais relevantes. Não me comparar com os outros e continuar escrevendo foi um exercício diário”, lembra.

Experiência semelhante relata a fotógrafa Hannah Lydia, 24 anos, sempre sobressaltada com a perspectiva de descobrirem que é “uma farsa” – mesmo tendo recebido prêmios por seu trabalho. Se não for tratado, em geral com terapia, avisam especialistas, o distúrbio pode desencadear ansiedade e depressão. “A pessoa se sente culpada diante do fracasso e, quando conquista algo, atribui à sorte ou ao destino”, diz a psicóloga Ciça Conte. Reconhecer a existência do problema é essencial, mas, ressalta a consultora de recursos humanos Sofia Esteves, as empresas também precisam fazer sua parte, valorizando a contribuição feminina, uma ação ainda lenta e tímida em vários locais de trabalho. “Cabe às corporações se esforçar para que as mulheres se sintam confortáveis e confiantes”, afirma. Da ultra bem-sucedida Michelle Obama vem a lição definitiva: “Encare os pensamentos negativos, sem deixar que eles a impeçam de ocupar espaços e fazer seu trabalho. A única maneira de crescer e superar os medos é aprender a confiar que sua voz e suas ideias têm valor”. Michelle sabe o que diz.

EU ACHO …

POR QUE ARTISTA DIZ BOBAGEM?

Antes de falar, eles devem refletir sobre o alcance das palavras

Pronto! Só em dizer que artista diz bobagem, também digo bobagem. Perdoem-me os antenados. Não quero me referir a artista nenhum, em particular. Atualmente, é até perigoso dar opinião. Uma frase fora de lugar e tentam cancelar a figura. Na real, o famoso vive sendo solicitado a falar sobre o que quer que seja. Acaba achando que sabe. Nos primórdios da carreira, quando nem era tão conhecido, em uma entrevista me perguntaram sobre a inteligência dos golfinhos. Hoje me calaria, até porque provavelmente são mais inteligentes que eu. Na época falei bobagens, já que não sabia nada sobre o tema. Ao longo do tempo, aprendi a silenciar. Até hoje, sempre vem a questão: “Qual a fórmula do sucesso? Gente, se eu soubesse estaria mais rico que o Elon Musk. Mais: se o sucesso tivesse uma fórmula específica, não existiriam tantos livros, cursos, gurus de autoajuda. Vou responder o quê?

Famosos são pressionados a dar opinião o tempo todo. Boa parte da imprensa e as redes sociais abdicaram de quem realmente sabe. Se descobrem um novo planeta, perguntam a um ator o que acha. Ele dirá uma bobagem, óbvio. Não é da área. Provavelmente vai dizer que há vida inteligente no espaço, já que falta na Terra.

Conversas que a pessoa teria em casa, com o companheiro(a), opiniões dadas sem muita precisão assolam as redes. Sai cada bobagem que não tem tamanho. Eu não critico meus colegas artistas. Artistas são pessoas comuns que ficaram famosas. Não necessariamente mais informadas ou mais cultas. Muitas pessoas têm, por exemplo, medo do comunismo. Essa é uma propaganda instilada em gerações, que vem da época em que se dizia que comunistas comiam criancinhas. Uma fake news repetida com insistência. Dizer o que é comunismo, propriamente, ninguém sabe. Nenhum de nós viveu ou teve contato com o comunismo. Há um medo de que o Brasil vire “uma ditadura comunista”, mais ou menos como se tem do bicho-papão. Frequentemente, surge uma gritaria, endossada também por famosos, de que os comunistas querem tomar o país. Eu, que nem conheço nenhum comunista, fico em silêncio. Aliás, sou um entrevistado chato. Dependendo da pergunta, digo “não sei”.

Elevados ao pedestal da fama, de onde podem falar de física quântica a mamadeiras em forma de pênis, alguns famosos passam a acreditar que sabem tudo. Muitos não são intelectuais. São grandes atores intuitivos. Ou cantores. Maravilhosos, mas enfiam o pé na jaca quando dão opiniões. Revistas, TVs, sites, plataformas e jornais sérios buscam quem sabe sobre o assunto. Mas na internet, principalmente, fala-se o que vem à cabeça.

Artistas devem refletir sobreo alcance de suas palavras. Muitos possuem milhões de seguidores. Emitir opiniões a torto e a direito só pode dar errado. Homofobia, política, questões de gênero e racismo são temas sérios. Não são questões emocionais, para chorar nos posts e angariar seguidores. Está na hora de o artista saber quando ficar quieto.

*** WALCYR CARRASCO            

OUTROS OLHARES

SEU DINHEIRO DE VOLTA

O cashback, mecanismo que devolve parte do valor de uma compra, ganhou impulso. Algumas instituições repassam até 10% da quantia gasta

Quem já passou pela experiência de encontrar um trocado esquecido, mesmo que se trate de uma peque na quantia, conhece bem a sensação. Recuperar parte de um dinheiro teoricamente gasto é um prazer que sempre vem a calhar, especialmente em tempos de crise. Atento a esse mecanismo, o mercado tem criado serviços de recompensa cada vez mais sedutores. No passado, fizeram sucesso os programas de milhagem e os cupons de desconto em restaurantes e lojas. Com a popularização do e-commerce o surgimento de moedas e boletos virtuais as alternativas se expandiram e uma palavrinha estrangeira tornou-se a nova febre do momento: cashback.

Trata-se deum sistema segundo o qual o consumidor, ao efetuar uma compra, recupera parte do valor em forma de saldo (em reais, e não pontos), que poderá ser reutilizado de diversas formas. O cashback foi desenvolvido nos Estados Unidos no fim do século passado e o que já era moda no exterior começou a ser amplamente adotado no Brasil durante a pandemia. Segundo levantamento da consultoria ClearSale, o setor de e-commerce cresceu 22% no país em 2020. No mundo, as transações com cashback movimentaram 108 bilhões de dólares e a expectativa é que continue avançando acima de dois dígitos por muito tempo. “O cashback é um benefício que atrai e fideliza o cliente”, afirma Pedro Guasti, cofundador da EbitlNielsen, plataforma que mede a reputação das lojas virtuais. “É uma alternativa bastante interessante, sobretudo para produtos de maior valor agregado.”

As buscas no Google pelo termo explodiram na última Black Friday e há cada vez mais iniciativas consolidadas. Na Méliuz, empresa pioneira em cashback no país, foram abertos 2,4 milhões de contas de janeiro a março, 73% a mais que no primeiro trimestre do ano passado. Uma das líderes do mercado é a Ame Digital, fintech da B2W, grupo que controla as Lojas Americanas, e soma 17 milhões de downloads de seu aplicativo. Presente em 1.700 lojas físicas e com cerca de 3 milhões de parceiros no país, a Ame movimentou 5,9 bilhões de reais no quarto trimestre de 2020, um crescimento de 200%, na comparação com um ano atrás. Recentemente, em parceria com a fintech Bcredi, a Ame ofereceu 2% de cashback em uma linha de empréstimo de 3 milhões de reais – o que renderia, portanto, a devolução de 60.000 reais. O abastece aí, que deixou de ser apenas um app de descontos nos postos Ipiranga e passou a ser uma plataforma de serviços que atrai 200.000 novos clientes por mês, e o PicPay são outros bons amigos dos caçadores de recompensas.

As inovações do setor muitas vezes esbarram na ausência de educação financeira adequada dos brasileiros. Estima-se que 80% dos investidores nacionais deixem seu dinheiro na poupança, um produto que, atualmente, rende apenas 70% da (baixa) taxa Selic. Além disso, o uso desenfreado do cartão de crédito pode levar a dívidas impagáveis. Recentemente, a plataforma tecnológica de investimentos XP anunciou uma novidade que almeja reduzir esses problemas, uma espécie de evolução do cashback, batizada de investback. Ao efetuar compras com o cartão de crédito, o cliente recebe de volta ao menos 1% em todas as compras e entre 2% e 10% naquelas efetuadas dentro do marketplace da empresa (Nike e Spicy estão entre as marcas parceiras com cashback máximo). O diferencial é que, ao ultrapassar a marca de 50 reais, o valor acumulado é encaminhado para um fundo de investimentos. Em vez de apenas recuperar o dinheiro, o cliente pode fazê-lo render. “Queremos que os cartões deixem de ser vilões do endividamento e passem a ser aliados de investimento”, afirma Guilherme Benchimol, fundador da XP.

Assim como qualquer tipo de promoção, o cashback pode trazer benefícios, mas convém tomar alguns cuidados. É primordial verificar a credibilidade da empresa e analisar suas regras, para não ficar exposto a golpes. Também é necessário comparar os preços – afinal, o que adiantaria um cashback de 5% sobre um produto 10% mais caro? Há ainda o risco comportamental exacerbado na pandemia. “Muitas pessoas estão abatidas em casa e têm preenchido esse vazio fazendo compras. Para economizar, é preciso se questionar: “Eu realmente preciso desse item?”, alerta Carol Dias, a mais influente educadora financeira do país, com 5,9 milhões de seguidores no Instagram. “As compras têm de ser racionais, e não emocionais.” Um descontinho, ou aquele dinheiro que você já não contava com ele, é sempre bem-vindo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 14 DE JUNHO

QUANDO A POBREZA É MELHOR DO QUE A RIQUEZA

Melhor é o pouco, havendo o temor do Senhor, do que grande tesouro onde há inquietação (Provérbios 15.16).

A riqueza é preciosa quando vem como fruto da bênção de Deus e do trabalho honesto. A bênção de Deus enriquece e com ela não tem desgosto. É Deus quem fortalece nossas mãos para adquirirmos riquezas, pois as riquezas e as glórias vêm de Deus. Entretanto, de nada vale ser muito rico e viver inquieto. Não há proveito algum em dormir numa cama de marfim, mas não ter paz de espírito. De nada se aproveita pôr a cabeça num travesseiro macio se a mente está sendo assolada pela inquietação. É melhor ser pobre e andar no temor do Senhor do que adquirir muitos bens, viver no fausto e no luxo, mas com a alma perturbada. É melhor ser pobre e temer a Deus do que ser rico e infeliz. É melhor ter pouco com o temor do Senhor do que ter muito dinheiro, mas viver sem paz. A riqueza mal adquirida pode dar-lhe conforto, mas não sossego para o coração. Pode proporcionar-lhe uma casa bonita, mas não um lar feliz. Pode garantir-lhe um funeral pomposo, mas não a vida eterna. Temer a Deus é melhor do que granjear fortunas. Temer a Deus é um tesouro mais precioso do que muito ouro depurado. Quem teme a Deus tem paz de espírito e, mesmo que sua riqueza aumente, não põe nela o coração.

GESTÃO E CARREIRA

EMPREENDEDORES DO DIVÃ

O crescimento das startups de saúde mental disparou na pandemia E as companhias brasileiras do ramo receberam 150% a mais em investimentos entre 2019 e 2020. Entenda o que elas fazem. E quais são as oportunidades de negócio nesse mercado.

Em 2016, o português Rui Brandão resolveu largar a carreira de médico e uma residência como cirurgião vascular nos Estados Unidos para empreender no ramo de saúde mental no Brasil. O gatilho para tomar a decisão rolou um ano antes: a mãe dele, que morava em Portugal, tinha recebido um diagnóstico de burnout, condição causada por excesso de trabalho, e que leva ao esgotamento físico e emocional.

Rui, que havia cursado uma parte da graduação no Brasil, entendia que o país era mais aberto a inovações na área da saúde do que a Europa. Com apenas 26 anos, fez as malas e voltou ao país disposto a criar uma startup que ajudasse pessoas como sua mãe. Nascia assim a Zenklub, uma plataforma de terapia on-line com preços acessíveis, a partir de RS80.

Para quem não conhece, funciona como um Uber de psicólogos. Você entra no site, escolhe um profissional (que publica seus preços, suas especialidades e seus horários disponíveis) e faz a consulta por vídeo, dentro da plataforma.

Nos cinco anos de vida da empresa, 1,5 milhão de pessoas passaram pelo divã virtual da Zenklub. Hoje, são mais de 800 profissionais de saúde cadastrados na plataforma e 50 mil consultas realizadas todos os meses.

De acordo com a Distrito, uma aceleradora de pequenas empresas, existem hoje pelo menos 30 startups voltadas para a saúde mental em atividade no Brasil – vamos ver algumas delas ao longo desta reportagem. “Os transtornos psicológicos por muito tempo foram estigmatizados. Mas, com o passar do tempo, as doenças mentais tomaram uma proporção gigantesca. É uma oportunidade para os empreendedores”, diz Rodrigo Demarch, diretor de Inovação do Hospital Albert Einstein.

Gigantesca mesmo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 300 milhões de pessoas sofrem com depressão ao redor do mundo. Outros 260 milhões, com ansiedade. Só no Brasil são 12 milhões de depressivos e outros 18,6 milhões de ansiosos. Isso dá, respectivamente, 7% e 11% da população adulta, com mais de 15anos.

DEZ ANOS EM UM

Em outubro de 2020, a OMS publicou um levantamento indicando que 93% dos serviços de saúde mental no mundo foram prejudicados ou interrompidos por conta da pandemia. Isso criou uma janela de oportunidade inédita para as terapias online.

A americana Talkspace, urna das primeiras empresas desse ramo, viu sua receita dobrar no ano passado, de US$27,2 milhões para US$ 50,5 milhões. O próximo passo da companhia, fundada em 2012, é se tornar a primeira empresa de saúde mental a vender ações na bolsa americana. O IPO, ou seja, a estreia na bolsa, deve acontecer neste ano, e o preço somado de todas as ações da companhia pode ficar em USS1,4 bilhão. O apetite dos fundos de investimento por essas empresas também nunca esteve tão alto.

Dados do PitchBook, um instituto de pesquisas, indicam que as startups de saúde mental americanas levantaram quase USS 1,6 bilhão em investimentos em 2020. O dobro de 2019.

As torneiras estão abertas no Brasil também. Segundo um levantamento da Distrito, no ano passado as startups do ramo amealharam USS 4,68 milhões em investimentos – 150% a mais do que em 2019, quando elas receberam USS 1,85 milhão. “Estudos já apontavam que o mercado de serviços para saúde mental e bem-estar iria despontar nas próximas décadas. O ponto é que a pandemia acelerou o que iria acontecer daqui a cinco, dez anos”, afirma Sheila Mittelstaedt, sócia da consultoria KPMG.

Prova disso é que boa parte da engorda da brasileira Zenklub aconteceu justamente no ano passado. Em 2020, o número de clientes da startup disparou 515%. Para acompanhar o ritmo de crescimento, o time de funcionários saltou de 28 para 80 pessoas. “A pandemia educou o mercado sobre a urgência de olhar para a saúde mental”, diz Rui Brandão.

O interesse de grandes investidores pela empresa do empreendedor também aumentou. Em maio de 2020, a Zenklub recebeu um aporte de RS16,5 milhões do Indico Capital Partners, maior fundo privado de venture capital de Portugal (um ano antes, a Indico já havia sido responsável pelo primeiro aporte da Zenklub, de RS2,5 milhões). E a cereja do bolo ainda estava por vir. Em fevereiro de 2021, a startup recebeu o maior investimento da sua história: RS 45 milhões, liderado pela gestora de investimentos brasileira SK Tarpon – ou seja, bem mais do que todo o setor recebeu em 2020.

HISTÓRIA RECENTE

O conceito de terapia on-line não é novo. Nos anos 1990, já se debatia o uso do telefone para atendimentos psicológicos. Entre 1995 e 1998, o psicólogo americano David Somrners ficou famoso por atender pacientes via chat.

Acontece que, até pouco tempo atrás, o atendimento remoto era proibido por lei no Brasil. Em 2005, o Conselho Federal de Psicologia (CFP), passou a permitir atendimentos psicológicos on-line apenas em caráter experimental, para fins de pesquisa – sem cobrança de honorários. Sete anos depois, em 2012, o CFP publicou outra portaria, autorizando o atendimento por psicólogos de forma virtual, porém com um limite máximo de 20 sessões e restrito apenas a “orientações” – não a consultas propriamente ditas.

Isso só foi mudar em 2018, quando o CFP liberou totalmente o atendimento on-line. “O crescimento de negócios inovadores sempre acaba sendo freado pela incerteza jurídica”, diz Rodrigo, do Einstein. De fato. Basta pensar que, em 2018, a americana Talkspace já operava havia seis anos. Agora, a história é bem diferente. “A regulamentação do CFP deu mais segurança para investidores e estimulou a criação de novos serviços na área”.

BENEFÍCIO CORPORATIVO

As doenças mentais são uma das maiores causas dos afastamentos e pedidos de aposentador ia por invalidez – junto com acidentes de trabalho e lesão por esforço repetitivo. Em 2020, segundo a secretaria Especial da Previdência Social e Trabalho, 576 mil pessoas se afastaram do trabalho ou se aposentaram definitivamente por conta de transtornos mentais, número 26% maior que o registrado em 2019.

Perder bons funcionários por conta de problemas que poderiam ter sido resolvidos é um tiro no pé para qualquer empresa. E todas sabem disso. Um dos nichos que mais foram explorados após a regulamentação, então, foi o serviço para o mercado corporativo – já que o atendimento online é relativamente barato.

Empresas passaram a oferecer os serviços dessas plataformas como um benefício, subsidiando sessões para seus funcionários. E a pandemia, como era de se esperar, gerou um boom nessas iniciativas. O número de empresas atendidas pela Zenklub, por exemplo, saltou de 12, em 2019, para 200 em 2020. Hoje, o braço corporativo já responde por 40% do faturamento da empresa.

De olho nesse potencial, algumas startups já nascem focadas apenas no público corporativo. É o caso da Hisnek. Fundada pela empreendedora Carolina Dassie, de 36 anos, a empresa começou como um clube de assinaturas de snacks saudáveis, em 2014. Após cinco anos em atividade, em 2019, Carolina deu uma pivotada no negócio. “Percebemos que muitas companhias tinham psicólogos disponíveis, mas não conseguiam detectar o tamanho do problema em relação à saúde mental dos funcionários. É um tabu falar do assunto no trabalho, afina, diz. Caroline, então, desenvolveu a Ivi, uma inteligência artificial. Ela auxilia no rastreamento daqueles profissionais com maior risco de desenvolver doenças mentais. A Ivi funciona por meio de um aplicativo que os funcionários instalam em seus celulares. A cada acesso, eles respondem a um questionário relativo às emoções que estão sentindo naquele dia, incluindo as causas e a intensidade dos sentimentos. Com o passar do tempo, a tecnologia consegue identificar padrões de comportamento dos usuários que podem indicara presença (ou não) de transtornos mentais – sempre de acordo com padrões científicos. A partir daí, a Ivi oferece orientações relacionadas ao bem-estar emocional e, nos casos mais graves, encaminha os funcionários para psicólogos ou psiquiatras.

No ano passado, além de receber um aporte de RS 1 milhão de investidores – anjos, a Hisnek teve um crescimento de 60%e passou a atender gigantes como Suzano, Ambev e Pearson Educacional.

Outra startup que cresceu oferecendo serviços apenas para empresas foi a Mindself, uma companhia que oferece programas de meditação para o ambiente corporativo. “Estruturamos o serviço para que a prática da meditação seja vista como uma forma de exercitar o cérebro, assim como fazemos com o resto do nosso corpo, e não esteja ligada à religiosidade”, diz Wagner Lima, um dos fundadores da Mindself. Fundada em 2019 por Wagner e Alexandre Ayres, dois ex- executivos do mercado financeiro e de tecnologia, a empresa viu seu faturamento sair de RS200 mil para RS1 milhão no ano passado. Entre os clientes da Mindself, hoje, estão empresas como Bayer, Enel e Itaú. “Também notamos um aumento na demanda por companhias menores, e de fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo”, diz Alexandre.

ANTI-INSÔNIA

A regulamentação mais flexível também favorece a criação de produtos inusitados. É o caso da startup Vigilantes do Sono. Fundada em 2020 pelo engenheiro de computação Lucas Baraças e pela psicóloga Laura Castro, a empresa oferece um chat bot para tratar pessoas com insônia. Batiza do de Sônia, o robozinho interage com os usuários duas vezes ao dia: de manhã, para avaliar como foi a noite do sono, e à noite, para explicar técnicas que auxiliam a dormir melhor.

O software usa conceitos consagrados da terapia cognitivo comportamental para insônia (TCC-1). A TCC é uma linha terapêutica bastante popular, que se concentra na identificação e na mudança de hábitos dos pacientes. “Existe muito material sobre insônia na internet, mas pouca coisa baseada em estudos científicos. Então, muita gente fica perdida. Fora isso, os problemas para dormir e outras doenças mentais, como ansiedade e depressão, estão intimamente relacionados”, diz Lucas.

O modelo de negócios da startup, de acordo com o empreendedor, é inspirado na americana Sleepio. A plataforma, funda da em 2010, também utiliza chat­ bots aliados à terapia cognitivo comportamental para tratar os problemas para dormir. Em 2020, inclusive, um estudo envolvendo 7.078 pacientes do NHS, o sus britânico, detectou que o sistema da Sleepio ajudou 56% dos usuários a se livrar da insônia. O potencial da empresa despertou o interesse dos investidores. E, em junho do ano passado, a Big Health, empresa dona do Sleepio recebeu um aporte de USS 39 milhões dos fundos Gilde Health e Morningside Ventures.

A Vigilantes do Sono também possui alguns números expressivos para o mercado brasileiro. Até agora, ela recebeu dois aportes que somam RS 1,1 milhão da Taqtile, empresa de softwares e ex­ empregadora de Lucas. Até agora, a startup atendeu 2 mil pessoas. E o próximo passo é entrar no ramo corporativo. “Temos assinaturas individuais e planos para médicos incluírem pacientes. Mas com o produto para empresas vamos conseguir mais escala”, diz Lucas. É isso. Do jeito que 2021 caminha, com o fim da pandemia ainda longe do horizonte, não faltarão clientes.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VALE MAIS DO QUE PESA

Estudo suíço revela que vinhos baratos recebem melhor avaliação quando alguém diz que seus preços são exorbitantes. E assim que a mente humana funciona

Eis uma verdade inconveniente: se você quiser impressionar os convidados para um jantar regado a vinhos – quando os encontros presenciais puderem voltar, é claro -, diga a eles que está oferecendo garrafas caras, mesmo sabendo terem custado pouco. Sirva no decanter, sem mostrar os rótulos. Segundo a ciência do comportamento, o anfitrião certamente impressionará os convivas, que rasgarão elogios à qualidade das bebidas. Parece exagero, mas um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Basileia, na Suíça, mostrou que o vinho barato bate mais agradavelmente no paladar quando é sugerido que seus valores são elevados. O experimento envolveu 140 mulheres e homens, que degustaram três tintos italianos, com preços e qualidade diferentes. Alguns dos degustadores puderam ver os preços reais, mas, para outros, a marcação foi propositalmente exorbitante. O vinho mais em conta, apresentado com um valor quatro vezes maior, teve um desempenho 20% mais alto no teste de degustação – e foi considerado o melhor de todos. A conclusão: existe um efeito psicológico evidente a depender do modo como o ser humano é submetido ao consumo.

“Durante muitos anos, valores altos eram indicativos de qualidade e durabilidade de um item, e instintivamente refletimos isso até hoje”, diz Paola Almeida, professora de psicologia comportamental da PUC de São Paulo. Um trabalho da Universidade de Bonn, na Alemanha, mostrou que inflacionar o preço de um produto tem impacto na fisiologia cerebral, aumentando de forma significativa a ativação da região associada a recompensa e motivação – a mesma área estimulada pelo uso de drogas. A reação vale para todo produto cobiçado, sejam vinhos, roupas, eletrônicos ou qualquer outro item considerado de luxo.

Nos últimos anos, com a crescente preocupação ambiental, a geração dos chamados millennials, formada por nascidos entre 1980 e 1994, começou a manifestar mais prazer em experiências pessoais do que na posse de produtos. Em vez de adquirir casa e carros, eles optam por alugar e aplicar o dinheiro em viagens e cursos de línguas, por exemplo. Um levantamento da empresa de consultoria americana Harris Group identificou que 72% dos americanos nessa faixa etária preferem gastar dinheiro em experiências individuais a comprar bens materiais. Acredita-se que isso esteja relacionado ao fato de tais vivências permanecerem na memória, e o quanto o valor percebido dos objetos enfraquece com o tempo. O curioso é que também nesse novo modo de consumir há estudos que identificam o mecanismo de recompensa, atrelado a etiquetas com preços salgados, o que reforça a submissão humana ao valor monetário de um produto. Por essa lógica, o item caro deve ser inevitavelmente bom.

No ano passado, a imprensa americana divulgou um episódio ocorrido em 2000, mas que vinha sendo guardado como segredo para evitar constrangimentos. Em um dos restaurantes mais badalados de Nova York, o Balthazar, quatro executivos de Wall Street pediram um Cháteau Mouton Rothschild 1989, o vinho mais caro da casa, listado a 2.000 dólares. Na mesa ao lado, um jovem casal escolheu um singelo pinot noir por 18 dólares. Por um erro de serviço, os vinhos acabaram trocados. O incrível da história é que os clientes nem sequer notaram a diferença. Convêm ressaltar, porém, que os degustadores experientes provavelmente identificariam o engano. Isso não invalida o resultado da pesquisa suíça. No fundo, o estudo mostra que o ser humano pode ser facilmente manipulado. Muitas vezes, basta cobrar caro.

EU ACHO …

EM BUSCA DA MEMÓRIA PERDIDA

Submeter a nossa mente a novidades a mantém em boa forma

Cerca de vinte anos atrás eu subi ao palco como integrante de um elenco de empresários que encenavam uma peça amadora para obter recursos para causas sociais. Ninguém era ator ou atriz profissional, mas estávamos todos compenetrados de nossos papéis. O teatro beneficente era um desafio que encarávamos com aplicação. Havia expectativa. Nos bastidores, aquele nervosismo natural de uma estreia, mas havíamos ensaiado e eu estava confiante. Entrei em cena, tão extravagante quanto a personagem exigia. Antes da minha fala, no entanto, ouvi uma frase que não estava no roteiro. “Filha, o que você está fazendo com esse laço na cabeça? Desce daí!” Era minha mãe, dona Floripes, que, perto dos seus 90 anos, fora levada ao teatro por irmão Alcides. Foi ne momento que a família teve certeza de que ela não estava bem. Nos dez anos seguintes, fomos perdendo-a aos poucos, com suas ausências cada vez mais prolongadas.

Tudo isso me veio à mente por causa do filme Meu Pai, com o magistral Anthony Hopkins, que retrata as provações da vida em família quando um de seus membros sofre algum tipo de demência. A lembrança me levou a perguntar se não há nada que se possa fazer para preservar a memória ameaçada pela idade. A resposta da neurociência é que há, sim – e não apenas para reverter perdas, como para melhorar a performance cerebral. O segredo do seu bom funcionamento é o exercício constante. Como uma barriga que desconhece flexões fica flácida, um cérebro sem desafios intelectuais tem sua elasticidade atrofiada.

O que fazer? Se você pensou em palavras cruzadas ou sudoku, acertou, mas só em parte. O psiquiatra americano Daniel Amen, craque em cuidar do cérebro, recomenda em obra recente uma série de exercícios para ativar as cinco principais partes em que esse órgão está dividido. Aqueles passatempos são recomendados para uma delas – o córtex pré-frontal, considerado o CEO do cérebro, que nos capacita a aprender com erros e fazer planos. Quem foca só o lado analítico, porém, não estimula corretamente o cérebro. É como querer cuidar do corpo todo fazendo apenas

abdominais. Da mesma maneira que criamos músculos, tonificando­ os, podemos criar neurônios, independentemente da idade, desde que submetamos nosso cérebro a novidades. Esse é um aspecto crucial, pois, quando passamos a dominar algum conhecimento, o cérebro se acomoda numa zona de conforto.

A lista de atividades recomendadas é extensa. Aprender uma língua ou começar a tocar um instrumento estão no topo do ranking. Jogos que envolvem estratégia, como o xadrez, são importantes, mas não menospreze a contribuição de games 3D. Memorizar um poema, além de aguçar sua sensibilidade, certamente provocará novas sinapses, aquelas conexões entre células nervosas que tornam possíveis pensamentos e emoções. Meditação também vale. Da mesma maneira que dançar, tentar se localizar sem GPS, jogar golfe ou caminhar com vigor para oxigenar o cérebro. O conjunto das iniciativas equivale a uma fornada de madeleines, aquele bolinho famoso por ter puxado o fio da memória em Proust.

*** LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

AS APARÊNCIAS ENGANAM

Geração de frutas e legumes geneticamente selecionados aposta em cores diferentes, sabores adocicados e máximo cuidado com o organismo

Na criação do premiado desenho Ratatouille, de 2007, Oscar de melhor animação, os produtores da Pixar entrevistaram biólogos, gastrônomos e chefs para construir a história e seus fascinantes personagens. Houve minucioso cuidado para que nenhuma informação soasse imprecisa. A certa altura, o mestre-cuca parisiense Auguste Gusteau resume a ópera à mesa: “A boa comida é como música que se saboreia, cor que se cheira”. A frase é o gatilho de inspiração para que o protagonista – um ratinho chamado Rémy – se aventure pelo mundo da gastronomia e comande um premiado restaurante francês. Nessa toada, em que a vida imita a arte, vive-se uma pequena revolução nas gôndolas dos supermercados e nas barracas das feiras: a profusão de produtos que seduzem os olhos com novas cores, bagunçando o arco-íris, e simultaneamente oferecem composições nutricionais cuidadosamente preparadas. Pode ser uma melancia amarela (sim, amarela!) com mais fibras, cebola que não provoque choro ao cortá-la e maracujá-roxo afeito a ser consumido in natura.

O carro-chefe, dado o sucesso imediato, é a melancia com poucos caroços, sabor doce e fibrosa – além, claro, do divertido espanto provocado pela tonalidade. Estima-se que até o fim do ano ela morda 15% do mercado de sua irmã original. Há uma vantagem competitiva: estabilidade no gosto e textura suculenta – independentemente da época do ano ou local em que for comprada. “Não há surpresas após a compra, ela será sempre doce”, diz Paulo Tomaseto, diretor comercial de sementes de frutas e hortaliças da Basf, empresa alemã responsável pela inovação. Convém não se assustar com a presença de uma companhia química, mais conhecida pela fabricação de corantes sintéticos e, no passado, fitas cassete, na lida com frutas e legumes. A inesperada aparência dos comestíveis esconde zelo rigoroso e atenção total à saúde. É aprimoramento que deve ser celebrado, e não confundido com loucuras de laboratório, sem sentido. Ao contrário: trata-se de um processo fundamental para a agricultura moderna, conhecido como melhoramento genético. Por meio dele, dá-se a mistura – hibridação, no linguajar técnico – de diversas linhagens de uma mesma espécie. “São processos que levam de dez a quinze anos em busca do cruzamento adequado entre espécies já existentes”, diz a professora Sandra Cabei, do curso de agronomia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). “Nesse caminho, centenas de combinações são estudadas e descartadas até que se chegue ao ideal esperado. “O método combina plantas de uma mesma família, mas que diferem na cor, no sabor e na acidez. No caso da melancia, por exemplo, o tom amarelado já existia em uma variação africana detectada há milhares de anos.

Se a variedade hoje faz rir, ao brincar com os cinco sentidos, é sempre bom entendê-la como uma homenagem ao progresso científico – o que não significa, muito ao contrário, a louvação de pesticidas que comprovadamente são perigosos. Não se trata, também, de apartar a qualidade dos produtos orgânicos, muito bem-vindos, embora caros. O controle de campos e estufas, pai e mãe do atual momento, representou nos anos 1960 um movimento que tirou dezenas de milhões de pessoas da fome. A chamada Revolução Verde, que premiou com um Nobel da Paz em 1970 seu mais ardente defensor, o engenheiro agrônomo Norman Borlaug (1914-2009), permitiu o aumento de 13% na produtividade agrícola em países em desenvolvimento, como o Brasil, entre 1960 e 1990. A atual e colorida reviravolta, embora não tão influente, pode representar relevante aliado na conquista de novos consumidores interessados em novidades. E há vasta janela de crescimento. Dados recentes do IBGE apontam que apenas 13% dos adultos consomem a quantidade ideal, 25 vezes por semana, de frutas e hortaliças. É pouco. “A produção hoje busca acompanhar o gosto do consumidor, cada vez mais preocupado com a qualidade e diferenciais do que consome”, diz Fábio Faleiro, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A instituição está na etapa final de estudos de um novo tipo de maracujá, raro no mercado brasileiro, mas já disponível no exterior. A polpa deve agradar a quem tem paladar mais adocicado e a cor arroxeada será um atrativo à parte. É para comer com os olhos também.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 13 DE JUNHO

É FESTA QUE NÃO ACABA MAIS

Todos os dias do aflito são maus, mas a alegria do coração é banquete contínuo (Provérbios 15.15).

Não há banquete melhor do que a alegria do coração. Não há festa mais empolgante do que ter paz de espírito. Não há prazer maior do que viver em paz com Deus, com o próximo e consigo mesmo. O sábio diz que o coração contente vive um banquete contínuo. O coração alegre está sempre em festa. A vida é sempre agradável para as pessoas que saboreiam as iguarias do banquete da alegria. Essa alegria não é apenas presença de coisas boas nem ausência de coisas ruins. Não é uma circunstância nem mesmo um sentimento. Essa alegria é uma pessoa. Essa alegria é Jesus. Ele é a nossa alegria. Com Jesus, nossa alma tem um banquete contínuo. Por outro lado, todos os dias do aflito são difíceis, maus e infelizes. Uma pessoa pode ter a casa cheia de bens, ter saúde e estar rodeada de amigos, mas, se não houver paz de espírito, se o coração estiver triste e oprimido, a alma murcha, o sorriso se apaga no rosto, e a infelicidade predomina. O sol pode estar brilhando, as circunstâncias podem parecer favoráveis, mas, se a pessoa está aflita, nada disso a satisfaz. Tudo se desvanece. A vida perde o sabor. O banquete cobre-se de cinzas, e as lágrimas passam a ser o seu alimento. A vida com Deus, mesmo timbrada agora de lágrimas e dor, é uma festa que nunca acaba. Haverá um dia em que Deus enxugará de nossos olhos toda lágrima. Então, nossa alegria será completa!

GESTÃO E CARREIRA

TUDO SOB CONTROLE

Conhecimento contábil, visão 360 graus e boa comunicação são algumas das atribuições de um controller – profissão em alta da área financeira. Veja como investir nessa carreira e a rotina de quem já está nela.

O controller é o head de contabilidade de uma empresa. Sua função primordial é coordenar a produção dos balanços da companhia. Isso o torna peça-chave principalmente em empresas de capital aberto, que devem satisfações a seus acionistas e a todo o mercado financeiro.

Para entender melhor a importância dessa figura, vamos a um exemplo prático. Em fevereiro de 2020, a gestora de fundos de investimentos Squadra verificou em uma análise de balanços que a resseguradora IRB Brasil estava superfaturando lucros em seus balanços. 85% do valor de mercado da companhia se perdeu nessa brincadeira. Mais tarde, a empresa colocaria a culpa em diretores que já tinham deixado a empresa.

Se os acionistas majoritários da resseguradora (Bradesco e Itaú) tivessem um bom controller – além de outro CEO e outro CFO, claro -, teria sido bem mais complicado para a diretoria da época ter perpetrado a maquiagem, que lhes conferia bônus vultosos. Pois está no escopo de atividades do controller ser os olhos e os ouvidos dos acionistas dentro da organização, de modo que a boa governança seja preservada.

Está aí o ponto- chave da profissão: garantir uma boa governança. Anos atrás, o controller era basicamente um profissional de contabilidade, com funções quase que exclusivamente burocráticas, como cuidar da documentação fiscal, regularizar a parte tributária, zelar pelos custos da empresa. Mas a profissão evoluiu. Depois de escândalos envolvendo a administração de grandes empresas – como da Lava Jato no Brasil e o da Enron, outra maquiadora de balanços, nos EUA -, boa parte das grandes empresas entendeu que precisava de um profissional que também fosse uma espécie de auditor exclusivo, um zelador da boa gestão e dos interesses dos donos. E essa honra coube ao cabeça da contabilidade, também conhecido como gerente ou diretor de controladoria: o nosso amigo controller.

Outra função importante do cargo está atrelada à visão estratégica do negócio. Para que esse papel fique mais claro, vamos imaginar uma situação concreta. Recentemente, o Estado de São Paulo aumentou o ICMS de vários produtos, o que acarreta em aumento nos custos para as empresas. Em momentos assim, qualquer companhia entra num dilema. Repassar todo o aumento para os consumidores? Engolir o prejuízo, para não perder clientes? Buscar novos fornecedores, mais baratos, para anular a alta tributária? São decisões que, no fim, cabem ao CEO e ao CFO. Mas a presença de um controller competente, com todos os números da empresa na ponta da língua, é fundamental para que a empresa tome a decisão mais correta, mais financeiramente sustentável.

CONTROLLERS E CONTADORES

Nem todo contador é um controller em potencial, e nem todo controller é contador. A nomenclatura, afinal, se refere a um cargo, não a uma formação acadêmica. “Contadores, em geral, são assistentes, analistas ou até mesmo gerentes, que respondem ao controller”, diz Lucas Papa, gerente da consultoria de recrutamento Michael Page. Já o controller pode ter vindo de outra área, não necessariamente da contabilidade. Dentro desse cenário, os contadores vão preparar relatórios e produzir os números do orçamento. O controller junta todos esses dados e os interpreta dentro da realidade do negócio.

VISÃO ESTRATÉGICA.

É muito comum que em empresas menores o controller e o CFO sejam a mesma pessoa; afinal, visão estratégica, liderança e cuidados com a boa governança são atribuições do líder executivo do financeiro. Porém, em companhias maiores, são postos separados, em que o controller responde diretamente ao CFO.

Um dos motivos para a profissão estar em alta nos últimos anos é justamente por conta dessa ligação. Lucas Papa explica que, em tempos de crise (como o de agora), muitas organizações trocam de CFO e de controller para passar uma mensagem ao mercado: “olhem, estamos em busca de profissionais mais qualificados para organizar nossas finanças”. E isso tem feito a demanda pelo cargo aumentar.

REQUISITOS DE GENTE GRANDE

A formação mais comum de um controller é em Ciências Contábeis. Mas, como dissemos, não se trata de um pré-requisito. Outros cursos, como Administração, Economia e Engenharia, também são bem aceitos pelo mercado.

Mas a formação acadêmica é o de menos. Por se tratar deum cargo sénior, o que importa mesmo é a trajetória profissional. “Você não termina a faculdade e é contratado como controller. É comum empresas olharem para profissionais que já passaram por consultorias, por exemplo, por estarem familiarizados com auditorias e balanços”, afirma Lucas Papa.

Não só isso. Se o domínio da parte técnica bastava no passado, hoje também exige-se um bom perfil comportamental. Habilidades de comunicação e de mediação entre diferentes áreas da empresa são fundamentais. Sem isso, não há como contribuir na parte estratégica. Logo, não dá para ser um controller na acepção moderna do cargo.

Outro ponto de destaque é a visão holística, ou seja, entender a cultura da empresa, a importância de cada área para construção do todo e de que forma movimentos da sociedade e do mercado podem influenciar no negócio.

CURIOSOS POR NATUREZA

Formado em Ciências Contábeis pela PUC-SP, com pós-graduação em Finanças, Fernando Henrique de Moraes, 35 anos, começou a carreira ainda na faculdade, lá em 2005. Seu primeiro emprego na área de contabilidade foi na consultoria Deloitte, como auditor. Por nove anos, Fernando trabalhou com revisões financeiras, fiscais e tributárias. Até que, no final de 2014, surgiu a primeira oportunidade como controlador financeiro na GLP, uma multinacional de fundos imobiliários sediada em Cingapura.

Foi a partir desse primeiro contato que nasceu a paixão pela atividade. Hoje, Fernando é controller na empresa de locação e venda de imóveis Quinto Andar. (‘Vejo muito a minha profissão como a de um guardião da empresa, que precisa fazer a parte chata de pôr o pé no freio e avisar o que não dá para fazer. Mas que também ajuda na hora de viabilizar um projeto novo e está por trás de toda a concretização”. O dia a dia de Fernando no Quinto Andar começa com a digestão do noticiário. “Leio os principais jornais pela manhã e, em seguida, repasso para as áreas responsáveis o que acho que pode influenciar nos negócios. Pode ser um novo projeto de lei, o IPO de uma companhia que pode nos impactar, novidades tributárias, tudo que pode afetar nossa realidade enquanto empresa”, diz. Pelo menos 20% do seu dia corresponde a esse olhar atento.

Os 80% restantes não podem ser classificados como “rotina” pois são bem dinâmicos: reuniões com o pessoal de áreas diversas, revisões de relatórios, análises de projetos, aprovação de novos produtos e o treinamento constante de sua equipe de controladoria.

O segredo da profissão, segundo Fernando, está na curiosidade. Só com altas doses dessa característica o profissional terá condições de entender o negócio de diferentes empresas, interpretar demonstrações financeiras, adquirir conhecimentos jurídicos…Enfim, o necessário para aliar um respaldo técnico acima de qualquer suspeita à capacidade de tecer estratégias de longo prazo – o combo ideal para o cargo.

O DIA A DIA DO PROFISSIONAL

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS:

Visão analítica apurada, habilidades de comunicação e mediação, conhecimento contábil e inglês na ponta da língua (é comum o controller ter contato direto com investidores estrangeiros).

ATIVIDADE-CHAVE:

Elaborar planejamentos estratégicos e relatórios a partir de análises financeiras, fiscais, tributárias e legais; realizar apresentações dos planos para gestores, executivos e acionistas; manter os indicadores de performance da empresa atualizados.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA:

Trata-se de um cargo sênior. Logo, é fundamental ter tido uma carreira ligada a finanças e contabilidade. Experiência prévia em grandes consultorias empresariais (McKinsey, EY, Deloitte, PwC) é desejável, já que confere aos profissionais um entendimento profundo sobre os negócios de companhias distintas.

PONTOS POSITIVOS:

A profissão é dinâmica e garante que o profissional esteja sempre atualizado sobre o que acontece no mercado financeiro, no legislativo e na sociedade.

PONTOS NEGATIVOS:

Demanda grande exposição por assinar as análises e balanços da companhia. Tem picos de trabalho excessivo nos períodos de fechamento de balanços.

QUEM CONTRATA:

Médias e grandes empresas, principalmente multinacionais.

SALÁRIO MÉDIO*

Entre R$15 Mil e R$ 30 Mil (Diretor)

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMIDA PARA A MENTE

Pesquisas internacionais ratificam a influência positiva de determinados alimentos sobre o controle dos sintomas de doenças psiquiátricas

Depois de um dia difícil, vem a deliciosa compensação com um bom prato de macarrão, o hambúrguer suculento ou o sorvete mergulhado em calda. Quem nunca fez isso? Tentar minimizar sentimentos e experiências ruins com comida recheada de gordura e açúcar é uma necessidade identificada desde sempre. Já na pré-história, os alimentos mais calóricos, que proporcionassem estoque de energia por mais tempo, eram escolhidos por homens e mulheres para se defender das agruras cotidianas.

Em fascinante processo de evolução, o cérebro então se condicionou a preferir pratos mais gordurosos ou açucarados diante de adversidades. A novidade: estudos recentes revelam que o tipo de comida que induz ao bem-estar, no avesso da tristeza, pode ser de outra família, bem menos apetitosa. Surtiram efeito positivo, em cuidadosas pesquisas, os frutos do mar, vegetais, feijão e leite fermentado. Funcionam porque são ricos em nutrientes, naturalmente mais balanceados.

A descoberta resulta de uma área emergente da medicina batizada de “psiquiatria nutricional”. Ela estuda fartamente o impacto dos alimentos em doenças tão complexas como as da mente. Uma das maiores pesquisas já feitas, conduzida com 12.000 homens e mulheres ao longo de dois anos e publicada no American Journal of Public Health, mostrou que as pessoas afeitas a aumentar as porções de frutas e vegetais consumidos relataram ser mais felizes e satisfeitas com a vida, em relação às que não interferiram na dieta original. A explicação está na presença abundante de compostos específicos nesses alimentos, como vitaminas e minerais. Eles agem, basicamente, protegendo as células do efeito da oxidação. Entre as doenças mais influenciadas estão a depressão, a ansiedade e o stress crônico. Eles também têm mostrado capacidade de reduzir os danos causados pelo encolhimento cerebral, um mecanismo natural do passar da idade que pode levar a perda de memória e Alzheimer.

Uma das descobertas mais fascinantes está no papel protetor dos lactobacilos, bactérias saudáveis contidas em leites fermentados e alguns iogurtes. Esses microrganismos ajudam a equilibrar a flora intestinal, onde ocorre uma farta produção de serotonina, a molécula que nos leva ao estado de bem-estar. Um estudo feito no Centro de Saúde Mental, em Xangai, na China, mostrou a ligação de doenças psiquiátricas com o desequilíbrio do trato digestivo – que pode ser regulado com lactobacilos. Em 21 trabalhos analisados, os pesquisadores verificaram que o composto impactou positivamente em sintomas de ansiedade. Os efeitos foram vistos depois de doze semanas de consumo.

“Muito em breve será comum o paciente sair do consultório com uma dieta específica para a mente, assim como hoje já se faz com regimes para a saúde do coração, ossos e o emagrecimento”, diz Antônio Carlos do Nascimento, doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e membro da Sociedade Americana de Endocrinologia. Houve um tempo em que a busca por se afastar dos prazeres da mesa, atrelada a dietas, impunha comer com os olhos. Agora, a ideia é comer com o cérebro.

EU ACHO …

BICHOS (CONCLUSÃO)

A mudez do coelho, seu modo de comer depressinha-depressinha as cenouras, sua desinibida relação sexual tão frequente quanto veloz – não sei por que acho as tais relações mútuas dos coelhos de uma grande futilidade, nem parecem ter raízes profundas. O coelho faz-me ficar de um meditativo vazio: é que simplesmente nada tenho a ver com ele, somos estranhos, minha raça não vai com a dele. O curioso é que pode ser aprisionado e parece até conformado, mas não é domesticável: apenas aparente é a sua resignação. Em verdade, fútil e assustado como é, ele é um livre, o que não combina com sua superficialidade.

Quanto a cavalos, já escrevi muito sobre cavalos soltos no morro do pasto (A cidade sitiada), onde de noite o cavalo branco, rei da natureza, lançava para o ar o seu longo relincho de glória. E já tive perfeitas relações com eles. Lembro-me de mim adolescente, de pé, com a mesma altivez do cavalo, passando a mão pelo seu pelo aveludado, pela sua crina agreste. Eu me sentia assim: “a moça e o cavalo.”

Os peixes no aquário não param nem um segundo de nadar. Isso me inquieta. Além do mais acho esse peixe de aquário um ser vazio e raso. Mas deve ser engano meu, pois não só eles devoram comida como procriam: e é preciso ser matéria viva para isso. O que me intriga é que, pelo menos nos peixes de aquário, o instinto falha: eles comem até estourar, não sabem parar, eis um peixe morto. São seres aterrorizados quando pequenos, perigosos quando grandes. Além de pertencerem a um reino que não me é familiar, o que de novo me inquieta.

Sei de uma história muito bonita. Um espanhol amigo meu, Jaime Vilaseca, contou-me que morou uns tempos com parte de sua família que vivia em pequena aldeia num vale dos altos e nevados Pireneus. No inverno os lobos esfaimados terminavam descendo das montanhas até a aldeia, farejando presa, e todos os habitantes se trancavam atentos em casa, abrigando na sala ovelhas, cavalos, cães, cabras, calor humano e calor animal, todos alertas ouvindo o arranhar das garras dos lobos nas portas cerradas, escutando, escutando…

Mas sei da história de uma rosa. Parece estranho falar nela quando estou me ocupando de bichos. Mas é que agiu de um modo tal que lembra os mistérios instintivos e intuitivos do animal. Um médico amigo meu, Dr. Azulay, psicanalista, autor de Um Deus esquecido, de dois em dois dias trazia para o consultório uma rosa que ele punha na água dentro de uma dessas jarras muito estreitas, feitas especialmente para abrigar o longo talo de uma só flor. De dois em dois dias a rosa murchava e meu amigo a trocava por outra. Mas houve uma determinada Rosa. Era cor-de-rosa, não por artifícios de corantes ou enxertos, porém do mais requintado rosa pela natureza mesmo. Sua beleza alargava o coração em amplidões. E parecia tão orgulhosa da turgidez de sua corola toda aberta, das próprias pétalas grossas e macias, que era com uma altivez linda que se mantinha quase ereta. Pois não ficava totalmente ereta: com infinita graciosidade inclinava-se bem levemente sobre o talo que era fino. E uma relação íntima estabeleceu-se entre o homem e a flor: ele a admirava e ela parecia sentir-se admirada. E tão gloriosa ficou, e com tanto amor era observada, que se passavam os dias e ela não murchava: continuava de corola toda aberta e túmida e fresca como flor nova. Durou em beleza e vida uma semana inteira. Só depois começou a dar mostras de algum cansaço. Depois morreu. Foi com relutância que meu amigo a trocou por outra. E nunca a esqueceu. O curioso é que uma paciente sua que frequentava o consultório perguntou-lhe sem mais nem menos: “E aquela rosa?” Ele nem perguntou qual, sabia da que a paciente falava. Essa rosa, que viveu mais longamente por amor, era lembrada porque a paciente, tendo visto o modo como o médico olhava a flor, transmitindo-lhe em ondas a própria energia vital, intuíra cegamente que algo se passava entre ele e a rosa. Esta – e deu-me vontade de chamá-la de “joia da vida” – tinha tanto instinto de natureza que o médico e ela haviam podido se viverem um ao outro profundamente, como só acontece entre bichos e homens.

E eis que de repente fiquei agora mesmo com saudade de Dilermando, meu cão, uma saudade aguda e dolorida e desconsolável, a mesma que tenho certeza ele sentiu quando foi obrigado a viver com outra família porque eu ia morar na Suíça e haviam me informado erradamente que lá os hotéis, onde teríamos que permanecer algum tempo, não permitiam a entrada de animais. Lembro-me, e a lembrança ainda me faz sorrir, de que uma vez, morando ainda na Itália, vim ao Brasil, deixando Dilermando com uma amiga. Quando voltei, fui à minha amiga para buscá-lo para casa. Mas acontece que nesse ínterim se tornara inverno e eu estava com um casaco de peles. O cão ficou parado me olhando, petrificado. Depois aventurou cautelosamente aproximar-se e sentiu o odor do casaco, talvez de algum animal ameaçador. E ao mesmo tempo, para a sua confusão, farejava meu cheiro. Tornou-se inquietíssimo, chegava a rodar em torno de si mesmo. E eu imóvel, esperando que ele viesse a mim, e me sentisse: se eu me precipitasse, ele se assustaria. Quando comecei a sentir calor na sala aquecida, tirei o casaco e da distância mesmo joguei-o longe num divã. Dilermando, ao me farejar puramente, atirou-se de repente num grande salto sobre mim, um pulo fantástico do chão ao meu peito, inteiramente alvoroçado, fora de si, me fazendo tanta festa doida que me deixou bem arranhada nos braços e no rosto, mas eu ria de prazer, e sorria às fingidas e rápidas mordidas leves que ele aloucadamente me dava, não doíam, eram mordidas de amor.

Não ter nascido bicho parece ser uma de minhas secretas nostalgias. Eles às vezes clamam do longe de muitas gerações e eu não posso responder senão ficando desassossegada. É o chamado.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

NÃO COMPRE ESTE JEANS

O consumo consciente ganha força com o apoio de grandes marcas que investem cada vez mais na compra e venda de produtos duráveis ou de segunda mão

Muitos anos atrás, era comum o irmão mais velho conservar um paletó para ser usado depois pelo mais novo. Mesmo nos países ricos e industrializados, pais e mães guardavam seus melhores ternos e vestidos para quando os herdeiros crescessem. A era da produção em escala, porém, baixou sensivelmente o custo das roupas e provocou profundas mudanças de hábito. Nas últimas décadas, alavancadas pelas exportações indianas e chinesas, as compras dispararam, com centenas de milhões de pessoas gastando bilhões de dólares em peças nem sempre necessárias, deixando pelo caminho um rastro de destruição – estima-se que a fabricação conjunta de uma única calça jeans e um par de tênis demande mais de 10.000 litros de água. Essa tendência ao desperdício, porém, está dando uma volta de 180 graus. O consumo consciente vai aos poucos tomando o lugar do desenfreado, inclusive com o apoio da indústria da moda e de marcas renomadas como as americanas Levi’s e Nike, além de muitas outras.

Na semana passada, a Levi’s lançou uma campanha mundial que é um chamamento à racionalidade e à sustentabilidade. Sob o slogan “Compre melhor, use por mais tempo”, seis celebridades – entre elas o ator americano Jaden Smith, filho de Will Smith, e o atacante inglês Marcus Rashford, do Manchester United – propõem aos clientes comprar jeans feitos de matéria-prima menos danosa à natureza e estender seu uso. A ação envolve também incentivar a aquisição de peças de segunda mão e procurar as oficinas de costura das lojas da marca para reformar itens gastos pelo tempo, mas ainda aproveitáveis. Paralelamente, a empresa tem optado por fibras como o cânhamo e o algodão orgânico nas suas confecções porque elas demandam menos água ao longo das diversas etapas de produção.

Nesse mesmo movimento, duas marcas de produtos esportivos lançaram programas de renovação e revenda. A Nike anunciou o Refurbished (Reformado) e a canadense Lululemon, o Like New (Como Novo).

Em ambos os casos, por enquanto restritos ao mercado americano, o princípio é o mesmo: o cliente devolve a peça à loja, que dá em troca um desconto ou um vale-compra, e a fábrica avalia se recondiciona o produto, levando-o de volta às prateleiras a preços mais em conta, ou o encaminha para empresas de reciclagem.

Esses são dois exemplos práticos da chamada economia circular, que se baseia na redução do desperdício, na diminuição de resíduos e na regeneração de sistemas naturais. Pesquisas realizadas antes da pandemia já mostravam que a indústria seguiria nessa direção, o que se consolidou agora. Números da consultoria americana McMillan Doolittle sugerem que o mercado mundial de segunda mão crescerá expressivos 60% nos próximos três anos – porcentual maior que o de roupas novas -, saltando de 32 bilhões de dólares em vendas em 2020 para 51 bilhões em 2023.

O modelo econômico linear – de extrair, produzir, desperdiçar – não funciona mais. Consumir roupas novas em ritmo vertiginoso, às vezes só para exibi-las na vitrine das redes sociais, não está ajudando. No caso do Brasil, onde se produzem 9 bilhões de peças anualmente, a questão ambiental anda de mãos dadas com a econômica. “Nós não temos um planeta B”, alerta a estilista Alessandra Ponce, autora do livro Alinhavos, que ensina princípios básicos de moda a crianças, referindo-se aos recursos finitos da Terra. Na outra ponta, a professora Verena de Lima, do curso de moda da Universidade Anhembi Morumbi, lembra que, diante do alto custo de vida, a roupa, se conservada, será um item a menos na despesa do mês. Por isso, pensar em formas de manter por mais tempo no armário aquele paletó – ou qualquer outra peça – tornou-se tanto uma necessidade quanto um dever de todos. Como nos tempos solidários de outrora.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 12 DE JUNHO

CAÇA AO TESOURO

O coração sábio procura o conhecimento, mas a boca dos insensatos se apascenta de estultícia (Provérbios 15.14).

O conhecimento é um tesouro mais precioso do que muito ouro depurado. Muitas pessoas buscam riquezas, prazeres e aventuras, mas por falta de conhecimento atormentam sua alma nessa busca. Quando Salomão iniciou o seu governo em Jerusalém, não pediu a Deus riquezas e poder, mas sabedoria e conhecimento. Com o conhecimento e a sabedoria, recebeu também riquezas, glórias e poder. Quem é sábio procura aprender. Quem é regido pela sede do aprendizado busca o conhecimento, mas os tolos estão satisfeitos com a própria ignorância. O tolo não investe em educação. Não se prepara para o futuro. É imediatista e não lavra seu campo nem faz semeadura no campo do aprendizado. O resultado dessa insensatez é a pobreza e o opróbrio. Enquanto o coração do sábio procura o conhecimento, a boca dos insensatos se apascenta de estultícia. O tolo fala do vazio da sua mente e do engano do seu coração. Sua língua é mestra de nulidades e instrumento da estultícia. O insensato não apenas é uma fonte poluída que contamina os outros, mas também apascenta a si mesmo de estultícia. Em vez de ser uma fonte de bênção, é um poço de vergonha e maldição para si e para os outros. Que tipo de investimento você está fazendo para crescer no conhecimento e na graça de Cristo?

GESTÃO E CARREIRA

COMO CASAIS PODEM TER SUCESSO TRABALHANDO JUNTOS

Hoje, 12 de junho, é comemorado o Dia dos Namorados. O amor não escolhe dia e local para se manifestar, mas e quando ele surge no ambiente profissional? Para falar do assunto, o professor de MBA da FGV, Luciano Salamacha, dá importantes dicas aos casais apaixonados que trabalham juntos e querem ter sucesso nessas duas relações importantes: no amor e na carreira. 

NÃO QUEIRA que as pessoas que trabalham ao seu redor tenham mesmo grau de interpretação sobre o profissionalismo entre você e seu parceiro/parceira. Há um preconceito sobre como as pessoas que têm relacionamentos no trabalho se tratam dentro da empresa. Por exemplo: agir com carinho com colega é cordialidade. Agir com carinho com a pessoa que se tem relacionamento é misturar ambiente profissional com relacionamento amoroso.

EVITE debates direto com seu parceiro ou parceira dentro da empresa. E, se isso, for inevitável procure sempre estabelecer e exercitar que, quem está falando para você não é seu namorado, namorada, mas seu, sua colega de trabalho.

REALIZE as reuniões na empresa de maneira pública, ou seja, sempre com a presença de outras pessoas. Toda vez que houver uma conversa particular, ainda que seja totalmente profissional, é plausível que alguém pense que se trata de assunto amoroso.

ESTABELEÇA um pacto com seu parceiro ou parceira que assuntos profissionais não serão debatidos fora da empresa, assim como assuntos pessoais não serão debatidos dentro da empresa. O relacionamento fora e dentro da empresa será mais saudável.

NÃO DÊ OUVIDOS a comentários maldosos de colegas sobre seu relacionamento dentro da empresa. Leve em consideração a opinião de gestores, chefes imediatos ou de pessoas que realmente você sinta que são amigas e reavalie se algo sinalizar que a carreira está em cheque.

CONVERSE com seu parceiro, sua parceira sobre a importância do desempenho profissional de cada um e quais metas individuais têm para se alcançar na empresa. Duas pessoas afinadas nesse propósito podem crescer muito e juntas.

SE ANTECIPE a certas situações. Combinar com o parceiro/parceira como deverão se comportar num momento de crise, pode ser útil para não cair na armadilha da pessoalidade.

INTERPRETE situações como o se seu parceiro ou sua parceira fossem apenas colegas. De que forma você agiria?

O professor Luciano Salamacha afirma que casais que trabalham juntos podem criar maior conexão porque dividem as mesmas angústias e as mesmas alegrias e, muitas vezes, têm dentro de casa menos disputa de autoridade ou hierarquia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BRINQUEDOS FORA DO ARMÁRIO

Ao vislumbrara maior aceitação dos pais millenials, empresas e canais infantis perdem o medo de apostar na diversidade – já tem até versão LGBTQIA+ do Lego

Como tantas pessoas durante a pandemia, o inglês Matthew Ashton, 45 anos, decidiu mudar os móveis de lugar e dar uma nova cara à sua casa vertida em home office. Vice-presidente de design da Lego, empresa dinamarquesa dos indefectíveis bonequinhos e blocos de montar que dispensam apresentação, Ashton fez uma escultura de 10 centímetros de altura com as peças coloridas, formando um arco-íris para decorar o ambiente. O objeto que aparece ao fundo de suas videoconferências chamou a atenção de amigos, especialmente dos que compartilham com ele uma experiência de vida similar: quando criança, ainda sem saber o que ser gay significava, Ashton era vítima de bullying na escola.

O que mais o machucava, porém, era a insistência dos adultos em obrigá-lo a “agir como um menino”. “Eu achava as meninas incríveis e não entendia por que não podia brincar com elas”, contou Ashton.

As imposições deixaram marcas emocionais, mas não o impediram de assumir sua orientação sexual na vida adulta: “Eu nasci gay, não é algo que se aprende”. Há 21 anos na Lego, onde criou coleções de sucesso, do selo Star Wars ao popular Ninjago, além de assinar a produção executiva de filmes que somam 1 bilhão de dólares em bilheteria, Ashton abraçou os elogios à sua colorida e despretensiosa nova criação e decidiu, finalmente, mimar a criança que ele foi com o brinquedo que nunca pôde ter. No próximo dia 1º de junho, no mês do orgulho LGBTQIA+, chega ao mercado a invenção de Ashton: o kit Everyone Is Awesome (Todo mundo é incrível), modelo com 346 peças e onze bonequinhos monocromáticos, representando as cores do arco-íris, símbolo do movimento gay.

O conjunto é mais que um brinquedo. Na esteira de ações de outras empresas voltadas ao público infantil, a Lego marca, assim, uma posição simbólica, que atende não só à correção política em prol da diversidade, mas também a um setor carente e em expansão. Em uma das iniciativas pioneiras, a Mattel, casa da Barbie, lançou em 2019 uma coleção de bonecos sem gênero – com perucas e roupas de diferentes estilos para a criança montar como quiser. Neste ano, a Hasbro anunciou que daria à tradicional família Senhor e Senhora Cabeça de Batata a possibilidade de mudança de gênero: a criança pode vislumbrar a família que reflete sua realidade – inclusive com dois pais ou duas mães.

A principal barreira – que já começou a ruir – é o velho estigma que dita o que é supostamente ideal para meninos ou meninas, seleção que pode influir no tipo de personalidade e de habilidades que a criança terá, mas de forma alguma altera sua orientação sexual. “Desenhos e brinquedos com diferentes identidades sexuais não ‘ensinam’ alguém a ser gay”, diz a especialista em psicologia infantil Lídia Weber, da Universidade Federal do Paraná.

Uma pesquisa de 2017 do Pew Research Center nos Estados Unidos mostrou que 76% das famílias incentivam meninas a participar de brincadeiras e atividades consideradas masculinas, enquanto 64% estimulam os garotos a brincar com itens femininos. A porcentagem cresce para 80% e 71%, respectivamente, quando isolados os pais millennials, com menos de 36 anos. “Se uma criança tiver a liberdade de brincar com o que quiser, seu potencial será mais bem explorado”, afirma Lídia Weber. Ela explica que brinquedos ditos de menino costumam encorajar riscos, competições e exploração científica, enquanto os de meninas são direcionados à afetividade e às habilidades domésticas – um conjunto de capacidades, enfim, que não devem se restringir só a um gênero.

Desbravar esse terreno tem sido um esforço notável. Na TV e no cinema, grandes estúdios enfrentaram críticas na mesma medida em que arrebanharam elogios ao apresentar personagens gays em filmes e desenhos animados. Em 2016, a Nickelodeon introduziu o primeiro casal homoafetivo (e inter-racial) do canal, no desenho The Loud House. Anotícia enfureceu algumas famílias americanas, que ameaçaram fazer um boicote. Em resposta, o canal aumentou a participação dos novos personagens.

Voltada a crianças de 2 a 11 anos, a Lego se sentiu confortável para homenagear o público LGBTQIA+, por saber que conta com um fiel séquito de consumidores adultos. A aposta nesse público, especialmente na pandemia, com pessoas ociosas e ansiosas em casa, levou a empresa a crescer 13% em 2020, alcançando receita de 7 bilhões de dólares. “A nova coleção não visa ao lucro, mas a passar a mensagem de que a criatividade para se expressar está ao alcance de todos, sem exclusão”, diz Ashton. O ouro no final do arco­ íris ficou mais colorido.

EU ACHO …

BICHOS (I)

Às vezes me arrepio toda ao entrar em contato físico com bichos ou com a simples visão deles. Pareço ter certo medo e horror daquele ser vivo que não é humano e que tem os nossos mesmos instintos, embora mais livres e mais indomáveis. Um animal jamais substitui uma coisa por outra, jamais sublima como nós somos forçados a fazer. E move-se, essa coisa viva! Move-se independente, por força mesmo dessa coisa sem nome que é a Vida.

Fiz notar a uma pessoa que os animais não riem, e ela me falou que Bergson tem uma anotação a respeito no seu ensaio sobre o riso. Embora às vezes o cão, tenho certeza, ri, o sorriso se transmite pelos olhos tornados mais brilhantes, pela boca entreaberta arfando, enquanto o rabo abana. Mas o gato não ri nunca. No entanto sabe brincar: tenho longa prática de gatos. Quando eu era pequena tinha uma gata de espécie vulgar, rajada de vários tons de cinza, sabida com aquele senso felino, desconfiado e agressivo que os gatos têm. Minha gata vivia parindo, e cada vez era a mesma tragédia: eu queria ficar com todos os gatinhos e ter uma verdadeira gataria em casa. Ocultando de mim, distribuíam os filhotes não sei para quem. Até que o problema se tornou mais agudo pois eu reclamava demais a ausência dos gatinhos. E então, um dia, enquanto eu estava na escola, deram minha gata. Meu choque foi tamanho que adoeci de cama com febre. Para me consolarem presentearam-me com um gato de pano, o que era para mim irrisório: como é que aquele objeto morto e mole e “coisa” poderia jamais substituir a elasticidade de uma gata viva?

Por falar em gata viva, um amigo meu não quer mais saber de gatos, encheu-se para sempre deles depois que teve uma gata em periódica danação: eram tão fortes os seus instintos, tão imperativos, que na época de cio, depois dos longos miados plangentes que ecoavam pelo quarteirão, ficava de repente meio histérica e se jogava de cima do telhado, machucando-se toda no chão. “Cruz-credo”, benzeu-se uma empregada a quem contei o fato.

Da lenta e empoeirada tartaruga carregando seu pétreo casco, não quero falar. Esse animal que nos vem da era terciária, dinossáurico, não me interessa: é por demais estúpido, não entra em relação com ninguém, nem consigo próprio. O ato de amor de duas tartarugas não deve ter calor nem vida. Sem ser cientista, aventuro-me a prognosticar que a espécie vai daqui a poucos milênios acabar.

Sobre galinhas e suas relações com elas próprias, com as pessoas e sobretudo com sua gravidez de ovo, escrevi a vida toda, e falar sobre macacos também já falei.

Mulher feita, tive um cachorro vira-lata que comprei de uma mulher do povo no meio do burburinho de uma rua de Nápoles porque senti que ele nascera para ser meu, o que ele também sentiu em alegria enorme, imediatamente me seguindo já sem saudade da ex-dona, sem sequer olhar para trás, abanando o rabo e me lambendo. Mas é uma história comprida, a de minha vida com esse cão que tinha cara de mulato-malandro brasileiro, apesar de ter nascido e vivido em Nápoles, e a quem dei o nome rebuscado de Dilermando pelo que nele havia de pernosticamente simpático e de bacharel do começo do século. Desse Dilermando eu teria muito a contar. Nossas relações eram tão estreitas, sua sensibilidade estava de tal modo ligada à minha que ele pressentia e sentia minhas dificuldades. Quando eu estava escrevendo à máquina, ele ficava meio deitado ao meu lado, exatamente como a figura da esfinge, dormitando. Se eu parava de bater por ter encontrado um obstáculo e ficava muito desanimada, ele imediatamente abria os olhos, levantava alto a cabeça, olhava-me, com uma das orelhas de pé, esperando. Quando eu resolvia o problema e continuava a escrever, ele se acomodava de novo na sua sonolência povoada de que sonhos – porque cachorro sonha, eu vi. Nenhum ser humano me deu jamais a sensação de ser tão totalmente amada como fui amada sem restrições por esse cão.

Quando meus filhos nasceram e cresceram um pouco, demos-lhes um cão enorme e belo, que pacientemente deixava o menino lhe montar o dorso e que, sem que ninguém o tivesse incumbido, vigiava por demais a casa e a rua, acordando de noite todos os vizinhos com seus latidos de advertência. Dei a meus filhos pintinhos amarelos que andavam rente atrás de nós, embaralhando- nos os passos, como se fôssemos a galinha-mãe, aquela coisa mínima carecia de mãe como os humanos. Dei também dois coelhos, dei patos, dei micos: é que as relações entre homem e bicho são singulares, não substituíveis por nenhuma outra. Ter bicho é uma experiência vital. E a quem não conviveu com um animal falta um certo tipo de intuição do mundo vivo. Quem se recusa à visão de um bicho está com medo de si próprio.

Mas às vezes me arrepio vendo um bicho. Sim, às vezes sinto o mudo grito ancestral dentro de mim quando estou com eles: parece que não sei mais quem é o animal, se eu ou o bicho, e me confundo toda, fico ao que parece com medo de encarar meus próprios instintos abafados que, diante do bicho, sou obrigada a assumir, exigentes como são, que se há de fazer, pobre de nós. Conheci uma mulher que humanizava os bichos, conversando com eles, emprestando-lhes suas próprias características. Mas eu não humanizo os bichos, acho que é uma ofensa – há de respeitar-lhes a natura – eu é que me animalizo. Não é difícil, vem simplesmente, é só não lutar contra, é só entregar-se.

Mas, indo bem mais fundo, chego muito pensativa à conclusão de que não existe nada mais difícil que entregar-se totalmente. Essa dificuldade é uma das dores humanas.

Segurar um passarinho na concha meio fechada da mão é terrível. Ele espavorido esbate desordenadamente e velozmente as asas, de repente se tem na mão semicerrada milhares de asas finas se debatendo esvoaçantes, e de repente se torna intolerável e abre-se depressa a mão libertando-o, ou entrega-se-o depressa ao dono para que este lhe dê a maior liberdade relativa de uma gaiola. Enfim, pássaros eu os quero nas árvores ou voando, mas longe de minhas mãos. Talvez algum dia, em contato mais continuado no Largo do Boticário com os pássaros de Augusto Rodrigues, eu venha a ficar íntima deles, e a gozar-lhes a levíssima presença. (“Gozar-lhes a levíssima presença” me dá a sensação de ter escrito frase completa por dizer exatamente o que é, é engraçada a sensação, não sei se estou ou não com razão, mas isso já é outro problema.)

Ter uma coruja nunca me ocorreria. Mas uma amiguinha minha achou por terra na mata de Santa Teresa um filhote de coruja, todo sozinho, à míngua de mãe. Levou-o para casa, aconchegou-o, alimentou-o, dava-lhe murmúrios, terminou descobrindo que ele gostava de carne crua. Quando ficou forte era de se esperar que fugisse imediatamente mas demorou a ir em busca do próprio destino, o de reunir-se aos de sua raça: é que se afeiçoara essa estranha ave à minha amiguinha. Relutou muito, via-se: afastava-se um pouco e logo voltava. Até que num arranco, como se estivesse em luta consigo mesmo, libertou-se voando para as profundezas do mundo.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A SILHUETA NA BERLINDA

A redescoberta nas redes sociais do espartilho, peça criada no Renascimento, leva a uma pergunta para além do tapete vermelho: as mulheres devem usá-lo hoje?

Nas cenas iniciais de Bridgerton, o onipresente seriado da Netflix passado na primeira década do século XIX, na antessala da era vitoriana, uma dama de companhia aperta até não mais poder o espartilho da jovem Prudence Featherington. “Ela não vai respirar, mãe?”, pergunta a irmã. “Na idade dela eu apertava a cintura até o tamanho de uma laranja e meia”, responde a matriarca. No TikTok, ali onde vicejam todas as ondas do mundo, inclusive as grandes bobagens, há um torneio, o corset challenge, cujo ridículo desafio é dar um apertão no acessório até que a silhueta fique finíssima, ao som de uma canção que diz o seguinte: “Você traz os corsets, nós fazemos os apertos; ninguém quer uma cintura com mais de 23 centímetros”.

Já não há, portanto, dúvida: ao passear vivamente pelo streaming e pelas redes sociais, o estilo anda nos corações e mentes. Beyoncé apareceu com uma cinta metálica da Burberry na festa depois da cerimônia do Grammy. A cantora Dua Lipa também surgiu espremida. A empresária-pop Kylie Jenner idem. E brotou, espetacularmente, uma pergunta: as mulheres devem usar espartilho, em plena era de briga intensa contra os estereótipos? Como moda é história, sempre que se tentou mexer na silhueta feminina houve ruído. Logo depois da Il Guerra Mundial, como resposta aos anos de restrições, de falta de pano e de postura compulsoriamente discreta, o estilista Christian Dior (1905-1957) lançou um movimento, em 1947, que seria chamado de New Look – embora ele mesmo nunca tenha usado a expressão. Era um aceno ao passado, explorando os perfis das mulheres, tornando-as mais sensuais. As saias tinham de ser amplas e rodadas, com comprimento invariavelmente de 40 escassos centímetros acima do chão. A cintura, sempre marcada, exageradamente afinada por cintas e espartilhos. Fez sucesso, entrou na moda, rodou o mundo, mas alimentou protestos. A crítica: podia ser bonito (e era), podia ser sexy (e era), mas talvez representasse um retrocesso comportamental, no avesso do vestuário prático, afeito ao trabalho e não à beleza.

Nos Estados Unidos, como resposta, despontou um pequeno mas ruidoso movimento contrarrevolucionário, digamos, o The Little Below the Knee Club (O Clube um Pouco Abaixo do Joelho), que defendia a retomada do estilo mais pé no chão, menos espalhafatoso, como imaginado por Coco Chanel entre 1920 e 1930. Mas, afinal de contas, Dior era um retrógrado? Não. Em suas memórias, ele revelou sempre ter desenhado para evocar a “infância feliz e burguesa, um passado cheio de esplendor”, que virou fumaça quando a fortuna familiar foi corroída pela crise.

A redescoberta da cintura fina, hoje, talvez represente uma resposta contra a dureza do cotidiano imposto pela pandemia. Pode não ser, portanto, uma simples marcha a ré. É mais complexo e, por isso mesmo, mais fascinante. Quem sabe não seja apenas vontade de viver – embora se entenda a grita de quem já não aceita a moda como mero instrumento estético. ”A cantora Madonna, na década de 80, usou o item como expressão de sensualidade”, diz Carla Cristina Garcia, professora da pós graduação em psicologia social da PUC de São Paulo.

Seria exagero, é claro, dizer que há uma volta ao Renascimento, quando os corpetes surgiram, assemelhando-se às proteções dos cavaleiros medievais. Só os usa quem quer, e recusar a beleza ancorada no desconforto é em suma postura de rebeldia. “Mas convém lembrar que o uso de peças que provocam mudanças no corpo é estratégia comum do vestuário desde sempre”, diz João Braga, professor de história da moda da Faap. Ressalte-se ainda, em nome de quem gosta da onda, que não há exatamente contra indicação médica entre mulheres adultas, como faz parecer o desmaio das personagens de Bridgerton, que chegam a perder o ar. “O espartilho só é nocivo às meninas abaixo dos 14 anos ou mulheres com problemas preexistentes na coluna”, diz Marcelo Kokis, ortopedista no Hospital Norte D’or, no Rio. Cabe usá­lo, sim, sem problema, mas com a devida moderação.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 11 DE JUNHO

CORAÇÃO ALEGRE, ROSTO FELIZ

O coração alegre aformoseia o rosto, mas com a tristeza do coração o espírito se abate (Provérbios 15.13).

A Organização Mundial de Saúde afirma que a maioria das doenças tem um pano de fundo emocional. As emoções se refletem na saúde física. Muitas doenças decorrem da ansiedade. Muitos males que afloram no corpo procedem de um coração triste. Um coração angustiado resulta num espírito abatido, pois a tristeza deixa a pessoa oprimida. Nenhum cosmético pode dar mais formosura ao rosto do que um coração alegre. Nenhuma cirurgia plástica pode corrigir melhor a forma do rosto do que a paz interior. Essa paz de espírito não se alcança com meditação transcendental. Essa alegria do coração não se compra em comprimidos de farmácia. Poderemos vestir roupas de grife, andar em carros importados e morar em verdadeiros palacetes e, ainda assim, ter um coração triste, um rosto abatido e um espírito oprimido. Essa alegria do coração não está em coisas, mas em Deus. Ele é a fonte da verdadeira alegria. É na presença de Deus que há plenitude de alegria e delícias perpetuamente. Jesus veio para nos dar vida e vida em abundância. Somente vivendo em Cristo é que poderemos ter um coração alegre e um rosto feliz.

GESTÃO E CARREIRA

CONFLITOS NO TRABALHO

Responsabilidade não é sinônimo de culpa!

Na vida profissional, temos de lidar com conflitos dos mais variados tipos. Quando isso ocorre, procurar culpados é a reação mais comum. Há uma busca desenfreada por alguém a quem atribuir o ônus pelo ocorrido, e respiramos aliviados quando não somos o nome em questão.

Saem na frente os profissionais que conseguem tomar para si a sua parte de responsabilidade pelo ocorrido e contribuir para sua solução. Porém, poucos se mostram capazes de agir assim, pois confundem responsabilidade com culpa. Não imaginam o tamanho do equívoco que cometem ao fazer isso.

Não é fácil definir com precisão o que exatamente significa a responsabilidade. Mas, em um contexto profissional, podemos entendê-la como a capacidade de arcar com as consequências de seus atos. Em um conflito, assume a dianteira quem consegue compreender e assumir qual papel desempenhou naquilo, lembrando que, nesses casos, não existe o famigerado “não tenho nada com isso”. A partir do momento em que uma pessoa se vê envolvida em um conflito, ela obrigatoriamente tem algo a ver com o assunto.

Chamar para si a responsabilidade pelo que lhe cabe não significa de forma alguma se assumir culpado pelo que ocorreu. Culpa denota erro, falta, omissão, depreciação. É perfeitamente possível ser responsável sem ser culpado.

Assumir a responsabilidade, aliás, ajuda a evitar o sentimento de culpa e a carga negativa que o acompanha, pois traz liberdade. Sim, liberdade para lidar com um conflito do qual se faz parte (querendo ou não, gostando ou não), encontrar formas de resolvê-lo, capacidade de agir ou responder criativamente a uma situação desfavorável, assumir as rédeas do próprio destino, ser autônomo. Afinal, não temos controle sobre os outros, apenas sobre nós mesmos.

Como já escrevi no livro A culpa não é minha, os conflitos normalmente decorrem das diferenças que existem entre as pessoas. Mas as diferenças, ao mesmo tempo em que provocam ruídos e divergências, nos fazem sair do lugar-comum e enxergar o mundo sob uma nova perspectiva, pelo olhar do outro. E quem não teme assumir responsabilidades tem muito mais chances de desfrutar de toda a riqueza que o convívio com o diferente traz.

ALLESSANDRA CANUTO – É especialista em gestão estratégica de conflitos, sócia da Alleaolado, empresa focada em consultoria e coaching para empresas, e coautora do livro ”A culpa não é minha”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MARCAS QUE NÃO SE APAGAM

Estudos revelam que uma criação muito rígida dos filhos afeta áreas do cérebro, com efeitos que podem atrapalhar o desenvolvimento emocional

Em tese, todo pai quer o melhor para seu filho. Os problemas começam quando esta saudabilíssima ambição se torna um instrumento descontrole ditatorial da vida das crianças, em que sua autonomia – sim, elas têm vontades próprias, que precisam ser ouvidas – acaba sendo sumariamente suprimida para dar espaço àquilo que os pais julgam ser o melhor caminho. Quando o autoritarismo extremado ocorre repetidamente e por muitos anos, as consequências podem ser graves. Uma pesquisa de médicos canadenses publicada agora pela Universidade de Cambridge mostra que adolescentes criados por pais rígidos – e rigidez, aí, não significa necessariamente abusos físicos – apresentam redução significativa em duas estruturas cerebrais fundamentais para a regulação das emoções, o córtex pré­ frontal e a amígdala cerebelosa, e esse efeito os deixa mais propensos a desenvolver transtornos da mente. “A longo prazo, a recorrência do chamado stress tóxico na fase mais vulnerável do crescimento pode levar ao aumento de problemas de relacionamento, baixa autoestima e, em situações extremas, até dependência química”, alerta a neuropediatra Liubiana Arantes de Araújo, presidente do departamento de desenvolvimento da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Na psicologia, educação autoritária é aquela caracterizada por comportamentos excessivamente controladores, à base de grito, diálogos agressivos e repressão das emoções. A locutora Ida Nufiez, 65 anos, recorre à terapia há quase quarenta anos para lidar com as marcas de sua infância e adolescência, quando a mãe, por quem foi criada, tinha a incontestável última palavra sobre tudo dentro de casa. Aos 19 anos, sem estrutura financeira e psicológica, Ida se casou para se libertar – e entrou em mais um relacionamento abusivo. “Estou divorciada, mas percebo que sempre me envolvi com pessoas parecidas com a minha mãe. Isso é reflexo da minha criação porque aprendi a associar amor e cuidado a controle”, explica. Famosos de personalidades tão dispares quanto o escritor Franz Kafka e o cantor Michael Jackson (veja o quadro abaixo) relataram seu sofrimento nas mãos de pais ultra exigentes e empenhados em desmerecê-los e puni-los. Esse tratamento não impediu que seu talento artístico viesse a se manifestar, mas os transformou em adultos mais infelizes e inseguros.

As pesquisas mostram que adolescentes criados sob regras rígidas e inflexíveis costumam ser introspectivos e ter mais dificuldade de se relacionar socialmente. Em muitos casos, adotam uma vida dupla: em casa, obedecem aos pais sem discutir, mas da porta para fora fazem tudo o que eles jamais permitiram. O carioca Nikholas Antunes, de 19 anos, conta que, revoltado com as leis paternas que o impediam de se encontrar com os amigos e de jogar videogame, entre outros vetos, começou a consumir bebidas alcoólicas aos 15 anos e chegou a adotar comportamentos de risco. “Ele queria impor o estilo de vida dele, não tinha conversa. Quando cheguei à adolescência, fazia tudo escondido. Foi uma válvula de escape na época, mas hoje vejo como me coloquei em     perigo”, diz Antunes, que não mora mais com os pais. A terapeuta familiar Ana Cristina Fróes explica que, se o filho não encontra nos pais um porto seguro, é natural que ele comece a mentir e omitir para evitar conflitos. “Querer mandar em escolhas de amizade, profissionais e amorosas configura abuso psicológico. É uma forma de negar os desejos dos filhos e maltratar suas decisões”, afirma.

Não são só os pais autoritários que marcam de forma negativa a vida adulta dos filhos – os permissivos, que dizem sim a tudo, e os negligentes, que não lhes dão a atenção devida, também não contribuem para que se ergam bons pilares emocionais. Na criação da prole, a psicologia recomenda o que chama de modelo democrático, também chamado de autoridade afetiva, o único que estimula um desenvolvimento positivo. O princípio é o estabelecimento de regras e limites aliado à comunicação e ao afeto. Para o psiquiatra Lino de Macedo, do comitê científico do Núcleo Ciência pela Infância, não se trata de fazer todas as vontades dos filhos, mas de estar disposto a explicar as negativas e praticar o diálogo. “Se a criança recebe estímulos neurológicos que suscitam o medo, a ameaça, a dor, ela tende a não ter um amadurecimento saudável”, adverte Macedo. A pedagoga Larissa Mendes, 25 anos, teve uma infância turbulenta, repleta de sermões e castigos sem nem sequer entender o motivo. “Meus pais queriam impor respeito pelo medo e eu acatava para evitar uma reação agressiva. Eles não me viam como um ser humano completo e diferente deles, que tinha opiniões próprias”, relembra. Hoje mãe de Raví, de 4 anos, ela faz tudo ao contrário: preza as manifestações de afeto e acha bom vê-lo questionar suas regras. Ter autoridade sem ser autoritário – esta é a linha fina a ser entendida e decorada no manual de criação de filhos.

FAMA MISTURADA COM ANGÚSTIA

Artistas e intelectuais criados por pais excessivamente autoritários, que depreciavam suas habilidades, falaram de seu sofrimento em cartas e entrevistas. Alguns deles: