EU ACHO …

UM PREÇO ALTO PARA ISRAEL

Ter a superioridade bélica faz perder a simpatia da opinião pública

Toda vez é a mesma coisa: imagens de civis feridos chegando a hospitais, famílias arrastando suas poucas posses diante de casas e prédios completamente destruídos, pais arrasados pela perda de filhos. Como não se solidarizar com a dor dessas pessoas? É impossível, obviamente. Por causa dessas cenas, Israel entra em qualquer conflito em Gaza já perdendo a batalha da opinião pública, por mais proezas bélicas que alcance num campo de combate quase insustentável: cidades de alta densidade populacional. As disparidades no número de vítimas também são invocadas para acusar Israel de reação desproporcional. Algumas considerações ajudam a entender os fatos:

■ Israel move céus e terra para defender sua população. Tem abrigos antiaéreos que atendem boa parte dos habitantes e desenvolveu o Domo de Ferro, o sistema de mísseis, originalmente considerado impossível, que consegue interceptar até 90% dos foguetes lançados a partir de Gaza pelas duas organizações que operam no território, o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina.

■ Os dois grupos fazem exatamente o contrário. Construíram extensos sistemas de túneis por toda a Faixa de Gaza, chamados pelos militares israelenses de “metrô”, mas nenhum civil tem acesso a eles. A rede subterrânea é usada apenas pelos militantes armados para se proteger e desfechar ataques em caso de invasão por terra. Boa parte dela foi destruída nas últimas semanas.

■ Comandos operacionais, depósitos de armas e baterias de foguetes, que entram em Gaza procedentes do Irã através dos túneis na fronteira com o Egito, são instalados deliberadamente ao lado, debaixo ou até dentro de casas, prédios, escolas, mesquitas e hospitais.

■ Como atingir um inimigo protegido por várias camadas de escudos humanos? O método desenvolvido por Israel consiste em avisar antes que vai bombardear um determinado prédio. Avisar literalmente: desde o conflito anterior, em 2014, a inteligência militar de Israel levantou 650.000 números de telefone de moradores de Gaza, com as respectivas localizações. Um telefonema em árabe dá o ultimato. Um método complementar é disparar um míssil de baixo poder explosivo no topo dos prédios, como uma espécie de precursor do que está por vir.

■ É horrível? Sem dúvida. E nem sempre é dado o aviso. “Guerra é crueldade; não tem como mudar isso. Quanto mais cruel, mais cedo acaba”, resumiu notoriamente o general William Tecumseh Sherman, que massacrou o sul americano durante a Guerra Civil.

■ A legitimidade dos alvos tem de ser aprovada pelos advogados das Forças Armadas israelenses. Isso, evidentemente, não impede erros, mas minimiza o número de vítimas civis.

■ Nada disso aconteceria se Hamas e Jihad não tomassem a iniciativa de jogar foguetes dirigidos deliberadamente contra alvos civis. Gaza, uma pequena e estreita faixa de terra de 40 quilômetros de comprimento, conquistada por Israel na guerra defensiva de 1967, foi entregue aos palestinos em 2005. Tornou-se o pior exemplo, para os israelenses, do que acontece quando abrem mão do controle de territórios que deveriam constituir um futuro Estado palestino, tão justo e necessário. E, infelizmente, tão longe da realidade.

***VILMA GRYZINSKI

OUTROS OLHARES

COMEÇAR DE NOVO

Depois de tantos meses sem pegação, parte dos solteiros, mesmo vislumbrando o futuro pós-vacinas, ente medo de buscar parceiros em um mundo cheio de protocolos

Solteiros à procura deum par – seja com intenções sérias, seja para uma ficada rápida – seguiam uma cartilha básica: ir a um bar ou a uma festa, engatar uma conversa ao pé do ouvido, compartilhar uma cerveja e, em algum ponto da noite, trocar beijos. Pois tudo, rigorosamente tudo o que configurava a arte da paquera foi por água abaixo na pandemia. Se antes já estava difícil encontrar um match decente, com o advento da Covid-19 muitas pessoas sem par fixo abandonaram a nau dos esperançosos, deletando a chance de encontros ao vivo e se desencantando com a falta de espontaneidade dos flertes via Zoom. Agora que a vacina começa a abrir a janela para a vida mais ou menos normal, esses refratários, em vez de soltar foguetes, se debatem em dúvidas. Ele usa máscara? Ela evitou ao máximo sair de casa? Encontro de dia, no parque, tem algum futuro? Existe bate-papo sem os assuntos contágio, mortes, home office e delivery? “Depois de meses de quarentena, é normal a pessoa se sentir um peixe fora d’água na paisagem da paquera e achar que não tem lugar nele”, diz Logan Ury, diretora do aplicativo de relacionamentos britânico Hinge.

De tão frequente, o pé atrás na seara dos encontros ganhou nome em inglês, inventado pelo próprio Hinge: Fear Of Dating Again (medo de voltar a paquerar), resumido no acrónimo – totalmente inofensivo no idioma original – F.O.D.A. A criadora de conteúdo Helena Morani, 25 anos, identifica-se com o transtorno pandêmico. ” Encontros são tão difíceis, com todos os protocolos e cuidados, que a gente fica com receio de se relacionar.

Estou aproveitando o momento para aprender a ficar sozinha e curtir a minha própria companhia”, conta ela, que em seu perfil no Instagram publicou uma divertida vídeoparódia de uma fala antiga da jornalista Marília Gabriela – “Eu virei um animal solitário. Eu leio, vejo série, fico em silêncio. Meu celular não toca mais” -, com mais de 50.000 visualizações.

No fim do ano passado, em urna pesquisa realizada por outro aplicativo de namoro, o Bumble, duas a cada três pessoas disseram estar se sentindo muito solitárias em todos os aspectos da vida, sobretudo o amoroso, e 90% declararam que sua vida mudou radicalmente com a pandemia. Cerca de 60% afirmaram estar mais preocupados em se preservar do que em buscar encontros casuais e mais da metade revelou que, em um eventual encontro pessoal, gostaria que ambos estivessem de máscara. No aplicativo OkCupid, 40% dos candidatos a namoro na faixa de idade dos millennials frisaram que cancelariam o encontro se a pessoa dissesse que não pretendia se vacinar. No Tinder, a presença da frase “Uso máscara” nas biografias dos usuários duplicou ao longo da pandemia. “Antes, ficaria horrorizada se um cara passasse álcool em gel nas mãos durante um encontro. Agora, fico excitada”, brincou uma adepta do aplicativo.

Nos perfis publicados em sites de relacionamento, o tipo alto, forte e bonitão deu lugar ao rapaz de máscara e praticante do isolamento social na escala de atração. Nos Estados Unidos, Reino Unido e onde quer que a imunização esteja avançada, o carimbo de “vacinado” sempre acompanha as fotos dos usuários. Mesmo assim, muitos solitários não se sentem seguros para voltar à pegação a que estavam habituados – o que, segundo especialistas, não deve ser motivo de maiores preocupações. “O medo é um fenômeno absolutamente normal e compatível com o momento atual. Foi ele que fez a gente chegar até 2021. O comportamento cauteloso só se torna um problema quando paralisa, vira uma fobia social”, avalia Pablo Vinicius, neurocientista da Universidade de Brasília.

Embora a tendência seja de os solteiros retomarem o ritual da conquista, há quem veja na retração de agora uma mudança definitiva. “Ficamos mais arredios. Acho que, futuramente, vamos ser mais seletivos nos relacionamentos e parar de marcar encontro com pessoas em quem a gente sabe que não está interessada de verdade”, reflete a estudante Kethlyn Verona, 20 anos, há meses distante de bares e festas. O psicanalista Christian Dunker, professor da Universidade de São Paulo, confirma: “A crise do novo coronavírus vai ter um impacto permanente na moral sexual. Os que se cuidam vão seguir roteiros de precaução no campo amoroso, dando preferência a pessoas que já conhecem e monitorando suas atitudes nas redes”, prevê Dunker. Para quem acha que F.O.D.A. é isso mesmo que o acrônimo indica, fica a esperança: a paquera, quando ela voltar a acontecer, deve ser mais criteriosa e produtiva.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 31 DE MAIO

A LÍNGUA É O PINCEL DOS SÁBIOS

A língua dos sábios adorna o conhecimento, mas a boca dos insensatos derrama a estultícia (Provérbios 15.2).

A língua dos sábios não apenas revela conhecimento, mas também adorna o conhecimento. O conhecimento não é somente útil, mas também belo. É não apenas necessário, mas também atraente. Uma pessoa sábia torna o conhecimento apetitoso. O aprendizado deixa de ser um processo doloroso para tornar-se algo prazeroso. O conhecimento na língua dos sábios recebe contornos de beleza invulgar. A língua dos sábios é como um pincel nas mãos de um artista. Transforma as coisas comuns da vida em raras obras de arte. O oposto disso é a boca dos insensatos. Quando uma pessoa tola abre a boca, deixa sair uma torrente de estultícia. A boca do insensato é a picareta que abre sua própria cova. O homem tolo destrava a boca apenas para falar o que não convém e o que corrompe os bons costumes. Vangloria-se de suas palavras chulas e rasga a cara em gargalhadas espalhafatosas para contar suas piadas indecentes.  A boca do homem insensato é como o romper de uma barragem. Provoca inundação e muita destruição. Da boca do insensato saem enxurradas pestilentas que arrastam para a vala da podridão a reputação das pessoas. Que Deus nos livre da boca dos insensatos. Que Deus nos ajude a adornarmos o conhecimento com nossa língua.

GESTÃO E CARREIRA

ELES PAGAM PARA VOCÊ COMPRAR

Empresas que trabalham com sistema de cashback têm conquistado consumidores antenados e que buscam vantagens para comprar. A devolução de parte do dinheiro tem ganhado espaço não só nas compras virtuais como também nas realizadas em lojas físicas. Conheça quem anda fazendo isso aqui no Brasil

O nome já diz muito sobre o tema dessa reportagem: cashback, que em português significa “dinheiro de volta”. É assim: você paga por um produto ou serviço e parte do valor volta para você. Sem rodeios. Às claras. Esse tipo de recompensa para o consumidor tem sido a aposta de grandes varejistas, que optam por programas próprios ou players do mercado que criam parcerias com lojas para permitir a operação com os clientes.

A gigante de cartões de crédito Visa é um grande exemplo de empresa que tem investido em várias ações de cashback. Uma das mais recentes é em parceria com a Amazon. Nela, o participante cadastrado no Vai de Visa, plataforma de ofertas da empresa, recebe R$70 de volta na fatura ao acumular R$200 ou mais em compras na Amazon Brasil. “Não houve alteração no sistema da Amazon ou do banco – basta utilizar o cartão e tê-lo cadastrado em nossa plataforma”, explica a diretora de Soluções para o Comércio da Visa do Brasil, Lucia Chaves.

Outro exemplo de aposta em cashback aos clientes foi a ação de estímulo de transações fora do Brasil, em que o participante cadastrado ganha 10% de volta na fatura com qualquer transação realizada em restaurantes nos EUA. Não há nenhuma sinalização nos estabelecimentos ou ação adicional requerida do consumidor final. “Desse modo, conseguimos trazer o diferencial e entregar uma experiência simples, positiva e relevante para os nossos clientes e parceiros”, destaca a executiva.

Lucia Chaves acredita que uma boa experiência é parte fundamental de uma estratégia de fidelização, para qualquer produto ou serviço. Não basta ter apenas preço, mas a experiência de compra, de uso, de pós-venda e de atendimento compõem a satisfação do consumidor em relação a uma marca, de modo que todos os itens devem ser consistentemente acompanhados e revisitados.

Há quatro anos, a Visa trouxe para o Brasil uma plataforma com soluções de fidelização que, baseadas na capacidade da empresa de ver transações de portadores dos cartões na rede, permite buscar comportamentos de compra dos clientes. Ou seja, a Visa consegue operacionalizar, por exemplo, uma ação com um grande varejista ou emissor, sem que o consumidor tenha que se identificar no momento da compra ou que haja qualquer treinamento/preparo da força de vendas do estabelecimento comercial para o atendimento. Basta utilizar o cartão Visa que o sistema consegue confirmar, em tempo real, se aquela é uma transação elegível e, caso seja, enviar automaticamente a premiação via crédito em fatura.

NOVIDADE NO MERCADO

É 100% nacional e o nome não poderia ser mais brasileiro: Meu Dim Dim. A plataforma de cashback é uma startup que sabe bem o que quer: permitir que lojas de pequeno, médio ou grande porte possam oferecer cashback como benefício para os clientes. De maneira geral, só os grandes e-commerces oferecem parte do dinheiro de volta.

Para começar a operar, a startup investiu cerca de R$150 mil. O tempo desde a concepção da ideia, incluindo estudo de mercado, desenvolvimento do sistema até o lançamento foi de aproximadamente um ano. “Posso afirmar que o brasileiro vem comprando cada vez mais essa ideia [de cashback], porém ainda há um espaço imenso para crescimento e para ser explorado”, analisa o head do Meu Dim Dim, Dyego Joia, que acrescenta: “experimente perguntar para alguém da sua família ou amigos se eles utilizam cashback em suas compras, pouquíssimas pessoas já conhecem ou experimentaram”.

Atualmente, o Meu Dim Dim conta com 5 mil usuários ativos e 250 lojas prontas para oferecer cashback como benefício. Algumas das marcas participantes são Ponto Frio, Submarino e Lojas Renner. Mas os planos são grandiosos e ousados: a ideia é atingir a marca de 800mil usuários cadastrados até o fim de 2021. Além disso, a startup quer contar com um catálogo de três mil lojas virtuais parceiras.

Para ter acesso aos benefícios que o Meu Dim Dim propõe, o consumidor precisa se cadastrar gratuitamente na plataforma e realizar todas as compras a partir dela. No entanto, caso um usuário acesse qualquer uma das lojas participantes do programa de recompensa sem passar pela plataforma, seja por falta de hábito ou por esquecimento, verá um lembrete na página da loja on-line e poderá acessar o Meu Dim Dim por ele. Os resgates dos valores em dinheiro acumulados pelos participantes poderão ser realizados a partir do valor mínimo de R$20,00.

Do lado das lojas on-line, a startup quer contribuir com uma questão antiga e um dos maiores desafios do setor: ampliar a taxa de conversão que, na média, é de 1,6% aqui no Brasil. “Quando se oferece um benefício ao consumidor, as chances de ele, de fato, realizar a compra, aumentam de maneira significativa”, avalia Joia.

SÓ NA LOJA FÍSICA

Se por um lado o Meu Dim Dim tem como foco o cashback no comércio eletrônico, o Beblue atende o consumidor que compra em lojas físicas. Trata-se de uma plataforma de pagamentos (as maquininhas de cartão) atrelada à recompensa por meio do dinheiro de volta. O cliente que opta pelo pagamento nas máquinas do Beblue recebe parte do valor pago de volta. Esse saldo pode ser acompanhado por meio de um aplicativo para smartphone e usado em estabelecimentos parceiros.

Desde sua fundação, em maio de 2016, o Beblue já devolveu mais de R$130 milhões de reais em cashback para 2.703.821 usuários cadastrados, que consumiram em 16.853 estabelecimentos credenciados durante todo o período. “O Beblue se sustenta por meio de uma comissão sobre as vendas realizadas nos estabelecimentos comerciais cadastrados”, revela o CMO do Beblue, Daniel Abbud. O executivo da empresa defende que o Beblue é mais do que um programa de fidelidade: “por meio da parceria com a plataforma, as empresas credenciadas têm outros benefícios, como o aumento do ticket médio devido à oferta de cashback, aumento na frequência de consumo de seus clientes, acesso a um rico sistema de CRM, redução dos investimentos em publicidade tradicional e atração de novos clientes através de campanhas de cashback especial”.

FORTALECENDO A REDE PARCEIRA

Mas nem sempre o cashback está atrelado ao consumo de produtos. Na Ozonean Group, quem paga por serviços também recebe dinheiro de volta. O grupo de empresas de consultorias optou por criar um formato que é válido para ambos os lados: contratante e contratado.

Quando uma empresa do ecossistema da Ozonean adquire um serviço da própria Ozonean ou de uma das empresas do grupo, o cashback pode variar de 4% a 6% (dependendo do serviço). Já quando o serviço é adquirido de outra empresa, não pertencente ao grupo, mas cadastrada no sistema, o retorno fica entre 1% e 2%.

Até aí tudo semelhante a outras empresas, mas vem uma diferença decisiva: esse valor pode ser movimentado pela empresa contratante sempre a partir do primeiro dia do quarto mês a contar do dia do pagamento da fatura. ”A Ozonean tem usado mecanismos de investimento variados para fazer com que as verbas retidas de cashback rendam durante esses três meses de retenção, o que representou ao grupo uma receita variável interessante. Esta ação também tem nos proporcionado um melhor relacionamento com as instituições financeiras”, revela o fundador e CEO da Ozonean Group, André Castilho.

A estratégia passou a ser usada pelo grupo em novembro de 2018, mas começou a ser desenvolvida seis meses antes. O aumento das receitas do grupo e da aquisição de serviços no sistema de novembro de 2018 até maio de 2019 superaram todas as vendas do grupo no ano de 2018 (até o mês de setembro). A taxa de cancelamento teve também uma redução de quase 30% para o período.

4 PONTOS QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE CASHBACK

1º – A PERCENTUAL DE RETORNO É VARIÁVEL: Os programas ou ações de cashbacks variam de empresa para empresa. Normalmente partem de 1% e, depois disso, crescem conforme o valor do produto ou serviço.

2º – RETORNOS COM MAIS DE DOIS DÍGITOS SÃO PONTUAIS: Não se assuste se o programa ou a loja oferecerem cashback acima de 10%. Casos como esses são menos comuns, mas não impossíveis. Grande parte das vezes, trata-se de campanhas pontuais e de curta duração.

3º – NEM SEMPRE VOCÊ PODERÁ SACAR O SALDO: Com o aumento do número de plataformas, os formatos de retorno têm variado. Alguns permitem que o consumidor faça transferência para uma conta bancária após determinado valor. Outros, que o uso seja restrito a um grupo de empresas cadastradas.

4º – ALGUNS PROGRAMAS DE CASHBACK EXIGEM ASSINATURA MENSAL: A maioria das empresas que trabalham com cashback não cobra nada do cliente para a adesão ao programa de recompensas. No entanto, com o crescimento do modelo no Brasil, algumas empresas já oferecem assinaturas ou compras de pacote que garantem benefícios a mais, entre eles, percentuais de devolução maiores do que para os demais clientes.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DORMINDO COM O INIMIGO

O Brasil registra mais de 240.000 denúncias de abuso psicológico feitas por mulheres que decidiram reagir à rotina de humilhações masculinas

No princípio são só flores, demonstrações de afeto e juras de amor eterno. Com o tempo, entra o ciúme travestido de cuidado, que por sua vez dá lugar às ofensas, humilhações e tentativas de controlar cada passo. Àbriga, inevitável, seguem o pedido de desculpas e a promessa de que não vai acontecer de novo. Aí começa tudo outra vez. Eis o ciclo do relacionamento abusivo, um foco de sofrimento que permaneceu escondido sob a fachada de que vida a dois é assim mesmo, até que o problema passou a emergir dentro e fora das redes sociais, impulsionado por depoimentos de celebridades que experimentaram o calvário, como a cantora Anitta, a atriz Cleo Pires, a apresentadora Adriane Galisteu e a modelo Yasmin Brunet. “Sofri toda sorte de agressão e até hoje faço terapia para lidar com os traumas que os namorados tóxicos me causaram. Cheguei a ouvir de um deles que merecia um prêmio por me aturar. Achava que amor era isso”, desabafa Yasmin, 32 anos, que diz ter sido vítima de uma série de relações do tipo e demorado anos para distinguir amor de abuso.

Por se tratar de uma violência antes de tudo psicológica, calcada em expressões e atitudes vistas como “normais”, a mulher – de longe a parte mais afetada por abusos dessa natureza – em geral custa a reagir. O agressor insiste em que faz o que faz porque gosta dela, criando uma armadilha na qual os dois ficam presos – ele, maltratando e desdenhando, ela sofrendo e esperando passar. “As mulheres precisam ter consciência de que o primeiro indício de um relacionamento abusivo é o xingamento, não o tapa na cara”, afirma Jamila Jorge Ferrari, coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher de São Paulo. “Ligar o tempo todo para o trabalho, aparecer na porta da faculdade sem avisar e se queixar da maquiagem não são crimes, mas formas de minar a segurança e manipular a parceira.”

Tivemos acesso a um levantamento feito pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que aponta 246.240 registros de violência psicológica no Brasil no ano passado – em 2019, quando a métrica era menos precisa, foram 3.887 violações. Entram nesse rol impressionante as denúncias de ameaça, assédio moral, constrangimento, exposição e tortura psíquica feitas nos canais oficiais da pasta que indicam o algoz, seja namorado, marido ou companheiro. O total deve ser bem maior, levando-se em conta a vasta subnotificação e os relatos registrados no ministério que não revelam o autor da agressão. Mesmo assim, o fato de tantas terem criado coragem de se manifestar sinaliza que elas estão, cada vez mais, abrindo os olhos para uma situação em que a mistura de sentimentos dificulta a identificação dos sinais. “Nesse tipo de relação, o agressor manifesta afeto, demonstra fragilidade, e a vítima sente culpa quando pensa em terminar ou denunciar”, alerta a psicanalista Vera Iaconelli.

Indício numérico de que violências como essas saem das sombras é o aumento das buscas da expressão “relacionamento abusivo” no Google: 1.000% nos últimos cinco anos, 300% só em 2020, com picos de 500% cada vez que uma mulher famosa fala publicamente sobre o tema. Os testemunhos são consequência direta da explosão, em 2015, de movimentos como Meu Primeiro Assédio e MeToo, que abriram a comporta dos segredos represados e promoveram, nas redes sociais, em documentários, reportagens e programas de TV, uma enxurrada de denúncias de assédio sexual e violência física contra mulheres, tanto conhecidas quanto anônimas.

Daí para a exposição de casos de abuso psicológico foi um pulo. Só nos últimos quatro meses, três cantoras, Anitta, Billie Eilish e Demi Lovato, revelaram em documentários autobiográficos terem vivido relacionamentos abusivos. Em um caso de grande repercussão, a influenciadora digital Duda Reis, 19 anos, anunciou em janeiro o término do noivado com o funkeiro Nego do Borel, 28 anos, e foi à polícia prestar queixa por lesão corporal psicológica e física, injúria, ameaça e estupro de vulnerável. “Vivia em um ciclo vicioso. Já até esperava as brigas, porque sabia que depois ele voltaria a me tratar bem, mesmo que por poucos dias”, conta Duda. Segundo ela, as pessoas em volta não se davam conta dos abusos. “Quando ele me humilhava, elas viam aquilo como brincadeira e ignoravam a minha dor”, afirma.

Ainda que categorizar esse tipo de relação abusiva não seja simples, especialistas apontam padrões de comportamento que se repetem em todas elas. A violência está sempre presente, seja psicológica, física, financeira (o controle do caixa conjugal é dele) ou tecnológica – a insistência em ter a senha dos aplicativos e bisbilhotar curtidas em fotos alheias são algumas das formas de o agressor exercer dominação no ambiente virtual. Outros fatores a se estar atento são aqueles que o passar do tempo agrava: a frequência dos abusos, o escalonamento das agressões e o nível de sofrimento causado. Casada durante sete anos e divorciada há dois, a empresária gaúcha Bárbara Dalpont, 36 anos, mesmo depois de separada precisou ir à Justiça para se desvencilhar do ex­ marido: em março do ano passado, ela ganhou uma medida protetiva de urgência após ser perseguida intensivamente por ele na internet. “Achei que com a separação teria a paz de volta, mas minha vida virou um verdadeiro inferno. Se durante nosso relacionamento ele me desmoralizava, com a separação passou a me perturbar por telefone e a entrar em contato com todos os homens que comentavam as minhas fotos”, relata Bárbara, que teve de mudar de cidade três vezes e hoje processa o ex por ameaça, perseguição, calúnia e difamação.

O Brasil é o país que mais pesquisa no Google sobreo assunto, seguido de Portugal, Jamaica, África do Sul e Estados Unidos. Segundo a fundação americana One Love, que oferece cursos on-line para ensinar as pessoas a reconhecer problemas e diferenciar as relações saudáveis das doentias – mais de 100 milhões de alunos já se matricularam neles -, as mulheres entre 16 e 24 anos são as que mais sofrem violência psicológica por parte dos parceiros. Outro estudo mostra que, entre as vítimas, muitas nem sequer enxergam os maus-tratos como comportamento abusivo, e, além de sentirem vergonha e medo de denunciar, precisam encarar a desconfiança geral que costuma acompanhar suas queixas. “Para esse grupo de mulheres, a violência psicológica é uma forma de lesão corporal, em razão do dano à saúde psíquica”, dispara Izabella Borges, advogada de Duda e Bárbara, que contratou uma equipe de psicólogos para acompanhar os casos e comprovar que as alterações psíquicas sofridas pelas clientes foram causadas pelos agressores.

Durante séculos as mulheres foram acostumadas a depender do marido e a ser controladas por ele, um comportamento que, como mostra a atual exposição de relações abusivas, deixou raízes mesmo após a primeira, a segunda e a terceira onda de feminismo no planeta. “Na minha cabeça não era abuso, era desentendimento de casal. Tinha certeza que a culpa de ele me tratar feito lixo era minha”, relata a atriz Julia Konrad, 30 anos, que terminou um relacionamento abusivo depois de três anos e meio, resumindo o sentimento da imensa maioria. “É preciso superar a questão cultural”, alerta a antropóloga Mirian Goldenberg. “No Brasil, ter um relacionamento é considerado um valor, mesmo que ele seja problemático e seja fonte de sofrimento.” Os testemunhos e as denúncias dos últimos tempos são a prova de que, ao contrário do que prega o ditado, ruim com ele, melhor sem ele.