EU ACHO …

TOMEI A VACINA!

A emoção de ser imunizado contra a Covid-19 – e sem furar a fila

Finalmente chegou minha vez! Graças a uma antecipação de idade em São Paulo, tomei minha primeira dose de vacina anti- Covid. Puxa vida, que espera! Aguardei a invenção das vacinas. Depois, a fabricação. E aí veio o momento de levar a picada. Minha família sempre valorizou as vacinas. Criança, tomei contra a poliomielite. Tive até um amigo de escola com paralisia infantil, portanto, o risco era bem presente. Também tomei (e isso prova que sou de época) contra a varíola. Altamente infecciosa, a doença matava cerca de 30% dos contaminados, principalmente bebês. Deixava sequelas, como cegueira e marcas por todo o corpo. O último caso relatado foi em 1977. Erradicada graças à vacinação. Só existe em algum laboratório de alta segurança, atrás de portas blindadas, para estudo, nos Estados Unidos e talvez em outros países.

Sou muito grato por amar minha profissão, trabalhar em casa, e saber ficar sozinho. Confinamento não é difícil para nenhum autor de novelas ou série de televisão. A gente escreve dezenas de páginas por dia. Escritores de livros, teatro, poetas também amam ficar sozinhos. Ou vocês acham que Erico Veríssimo escreveu O Tempo e o Vento indo a churrasco com os amigos? Eu gosto de vida social, não nego. Mas não exaustivamente. Também para outras pessoas – não necessariamente escritores – ficar mais tempo com a família, concentrar-se em si mesmo, teve um efeito positivo. Claro, engordei. Mas agora estou começando um regime – provavelmente o centésimo da minha vida, enquanto minha barriga só aumenta.

Perdi amigos, que me acharam radical. Os sinceros entenderam minha rigidez. Se nos encontrávamos, faziam teste de Covid antes. Afinal, sou grupo de risco. Mas tenho de confessar uma coisa. Tive a enorme tentação de furar a fila. Em conversa com minha amiga Lucília, ela disse que jamais faria isso. Foi um alerta precioso. Em situações extremas se descobre quem a gente realmente é. Não sou esse cara capaz de furar fila e talvez enviar alguém diretamente para a UTI. Eu me inscrevi, sim, nos postos de saúde, no caso de sobrar vacina – em São Paulo é legalmente permitido. Muita gente tem sido chamada, e aproveitam material que ia ser descartado. Eu não fui. Mas há três ou quatro semanas um amigo me procurou. Tinha um esquema certeiro, através de uma tia que coordena um posto de saúde. Eu me recusei. Se sou contra os outros furarem, por que vou furar? É preciso ser coerente com o que se pensa.

Meu dia chegou no tempo certo. Acordei cedo. E, rapidamente, tinha tomado minha vacina. Viva o SUS! O tratamento é de Primeiro Mundo! A picada doeu, mas faz parte! No dia seguinte, eu me senti cansado. Tinha medo de reações adversas. Mas estou bem. Sentindo dor pelos que partiram, não conseguiram resistir. Cada dia alguém é hospitalizado, ou vai embora, muita gente que conheço!

Espero pela segunda dose. E por uma certa liberdade. Mas não muita. Há novas cepas do vírus por aí. O confinamento, maior ou menor, não sai mais da nossa vida.

*** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

ESCOLA COM PARTIDO

A Câmara dos Deputados se prepara para votar o projeto de lei que regulamenta o ensino em casa, bandeira bolsonarista apoiada pela bancada evangélica

No rol de 34 matérias que tramitam pelo Congresso Nacional e são consideradas prioritárias pelo governo, apenas uma diz respeito à educação – e seus desdobramentos preocupam. A Câmara dos Deputados se prepara para votar, em regime de urgência, um projeto de lei que regulamenta o ensino domiciliar, no qual os pais se encarregam da educação formal dos filhos. O homeschooling, como ficou conhecido, é compromisso de campanha de Jair Bolsonaro com sua base conservadora, sobretudo a poderosa ala ligada às igrejas evangélicas. Por se tratar de tema polêmico, permaneceu adormecido na gaveta das lideranças até ser resgatado agora pelo atual presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL). Ao negociar o apoio do Planalto na disputa pelo cargo, ele se propôs a pôr o projeto em pauta ainda no primeiro semestre. O debate em plenário promete emoções, já que o aprendizado em casa reverte a obrigação de que crianças de 4 a 17 anos frequentem a escola – o modo pelo qual, estabelecido por lei, se deu o avanço no grau de instrução da população brasileira nas últimas décadas.

Mundialmente, o conceito de homeschooling é bandeira de duas ideologias opostas: a ultra libertária, que não vê nem qualidade nem utilidade no ensino formal; e a ultra conservadora, para quem a sala de aula é um antro de bullying, uso de drogas e, no caso brasileiro, suposta doutrinação marxista por parte de professores e educadores. O projeto que tramita na Câmara tem a assinatura dessa segunda linha, tanto que dois ministros ideológicos disputam protagonismo no seu andamento: Damares Alves, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos – que articulou até a criação de uma frente parlamentar para defender a ideia -, e Milton Ribeiro, pastor presbiteriano à frente da pasta da Educação. “O homeschooling é o caminho de a gente livrar as famílias da forma agressiva pela qual a esquerda tomou conta da educação”, prega com todas as letras o deputado federal Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), representante da bancada evangélica.

Na tentativa de evitar um bate-boca virulento quando o assunto chegar ao plenário, Lira entregou a redação do projeto à deputada Luísa Canziani (PTB- PR), de 25 anos, a mais jovem da casa. Apesar da pouca experiência, a relatora circula bem entre as correntes políticas, interessa-se pelo ensino e preocupou-se em dar contornos mais técnicos do que ideológicos ao texto. “Esta modalidade de educação já é hoje abraçada por alguns brasileiros sem nenhum tipo de regra”, diz Luísa. A Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned) calcula que 17.000 famílias adotem o sistema no Brasil – menos de 1% do total. Só que os pais e mães das crianças envolvidas estão sujeitos a processo por abandono intelectual dos filhos. Em setembro de 2018, examinando um desses casos, o Supremo Tribunal Federal determinou que o ensino domiciliar em si não fere a Constituição, mas precisa ser regulamentado por lei específica. “Estamos em um limbo jurídico. Pelo menos 100 famílias foram processadas depois da decisão do STF”, lembra Rick Dias, presidente da Aned.

Tivemos acesso exclusivo ao texto do projeto de lei, que está praticamente pronto e deve ser apresentado até 15 de junho. Ele estabelece, em primeiro lugar, que o ensino doméstico tem de cumprir a Base Nacional Comum Curricular ensinada nas escolas. Também determina que os pais apresentem certidão de antecedentes criminais, que ao menos um deles tenha diploma universitário e que aceitem receber visitas do Conselho Tutelar. Outra condição para o ensino domiciliar é que a criança esteja matriculada em alguma escola e nela se submeta a avaliações periódicas em uma instituição credenciada pelo MEC. A ala radical dos defensores do homeschooling na Câmara, contudo, discorda da exigência. “Obrigar o aluno a fazer diversas provas dentro da escola é burocratizar demais o sistema, tornando a educação em casa inviável”, argumenta o deputado Marco Feliciano (Republicanos-SP), outro prócer da bancada evangélica.

Os opositores do projeto apontam na insistência dos evangélicos por sua aprovação um interesse não só ideológico, mas também financeiro. Uma ideia não incorporada ao texto, mas não descartada, é que os pais possam contratar um preceptor para assumir o ensino dos filhos, figura que as igrejas se dispõem a providenciar. Ofereceriam inclusive aulas em dependências religiosas, o que faria delas uma espécie de escola informal. Assumindo essa função, poderiam se sentir no direito de reivindicar uma fatia do Fundo de Educação Básica, o Fundeb, como fizeram em outras ocasiões – todas frustradas. Otimistas, instituições evangélicas já começaram até a vender na internet material didático voltado para o ensino doméstico e ainda cursos de treinamento para os pais.

Entre as críticas ao ensino em casa, a principal diz respeito ao isolamento da criança e sua exposição a um modo único de pensar. “A ideia de homeschooling é pautada pelo fim do convívio com o diferente e com a diversidade do ambiente escolar”, diz Priscila Cruz, diretora executiva da ONG Todos pela Educação. Outro temor é que a nova lei contribua para agravar a evasão escolar, um velho problema da educação brasileira. Preocupa ainda o fato de, longe dos olhos de mestres e colegas, as crianças ficarem mais sujeitas a violência doméstica, abusos sexuais e trabalho infantil.

Com certo atraso, o Brasil repete o dilema por que passou a maior parte dos 65 países onde o ensino domiciliar já é legalizado. Nos Estados Unidos, a prática está em vigor, de diferentes maneiras, em todos os cinquenta estados, abrangendo 2 milhões de crianças. Um estudo da Universidade Harvard mostrou que mais da metade das famílias adeptas do método é cristã fundamentalista, que questiona a ciência, promove a subserviência feminina e chega a defender a supremacia branca. “Crianças têm o direito de crescer expostas a ideias e valores diversos dos de seus pais, em nome de um futuro aberto, em que elas escolham o próprio caminho”, diz a americana Elizabeth Bartholet, coordenadora do Programa de Direito da Criança da Harvard Law School. O conhecimento, para ser libertador, não deve estar delimitado pelos muros da casa de cada um.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 30 DE MAIO

COLOCANDO ÁGUA NA FERVURA

A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira (Provérbios 15.1).

Nosso maior problema não é com nossas ações, mas com nossas reações. Podemos conviver em paz com uma pessoa a vida toda, desde que ela nos respeite. No entanto, quando essa pessoa nos provoca com uma pergunta insolente, perdemos o controle e a compostura e tendemos a dar uma resposta à altura. É por isso que o sábio nos mostra que não é a palavra branda que desvia o furor, mas a resposta branda. Isso é mais do que ação, é reação. Mesmo diante de uma ação provocante, a pessoa tem uma reação branda. É como colocar água na fervura e acalmar os ânimos. Em outras palavras, é ter uma reação transcendental. O oposto disso é a palavra dura e deselegante. Essa palavra, em vez de jogar água na fervura, coloca mais lenha na fogueira. Em vez de abrandar o coração, provoca ira. A escolha é nossa: podemos ser pacificadores ou provocadores de contendas. Podemos dominar nossas ações e reações, ou podemos ferir as pessoas com a nossa língua e com nossas atitudes. Nesse mundo em ebulição, o caminho mais sensato é jogar água na fervura. Em face das tensões da vida e diante da complexidade dos relacionamentos, o melhor caminho é ter palavras doces e respostas brandas.

GESTÃO E CARREIRA

TALENTOS EXTRAORDINÁRIOS

Companhias de diversas áreas de negócios descobrem as notáveis qualidades dos profissionais autistas. Não á toa, eles começam a ocupar mais terreno no mercado de trabalho

“Você é autista? Nem parece, é tão inteligente e comunicativo. “Frases como essa têm se tornado cada vez mais comuns em escritórios e reuniões virtuais de trabalho. Apesar de ofensivas e baseadas em velhos e equivocados estereótipos, trata-se de um ótimo sinal. No passado, os debates sobre o autismo se baseavam na esteira dos avanços da medicina, girando em torno da infância, das formas de identificá-lo e do papel dos pais para minimizar os danos de um transtorno incurável. Mas essas crianças crescem e precisam tocar sua vida como qualquer adulto, com os mesmos sentimentos e fragilidades, e eventualmente com muito mais habilidades. E essa é a grande mudança. Eis um fato inconteste, cientificamente comprovado, que o mercado de trabalho está assimilando rapidamente: autistas podem ser excelentes profissionais – e excelentes profissionais podem ser autistas.

O Brasil ainda é carente de dados confiáveis. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, um em cada cinco autistas já consegue emprego – uma taxa modesta de 20%, mas em franco crescimento, uma vez que a inserção no mercado de trabalho era quase inexistente no passado. Autistas de grau leve podem apresentar algumas dificuldades, como sensibilidade a luz e barulho ou falhas na compreensão de figuras de linguagem – nada que não seja contornável, sobretudo levando-se em conta as contrapartidas. “O cérebro dos autistas tem qualidades específicas que podem e devem ser aproveitadas. Em diversos aspectos, eles são mais eficientes”, diz Joana Portolese, neuropsicóloga da Faculdade de Medicina da USP. Com a propensão ao hiperfoco (estado de concentração intensa), os autistas têm sido especialmente aceitos nos ramos de tecnologia e programação, pois respondem muito bem quando lhes é dado um planejamento. São disciplinados e tendem a se especializar em assuntos de seu interesse. Há profissões não recomendadas, como cozinheiro ou guarda de trânsito, pois são atividades que geram situações de stress exagerado e imprevistos.

Estudos recentes mostram que há 2 milhões de autistas diagnosticados no Brasil, mas estima-se que o número real possa ultrapassar 3 milhões, devido a diagnósticos tardios e à imensa subnotificação. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o transtorno acomete uma a cada 160 crianças, mas estudos nos Estados Unidos apontam incidência bem maior, de uma a cada 59. Esmiuçada pela primeira vez em 1943 pelo psiquiatra infantil austríaco Leo Kanaer (1894-1981), a condição passa por constantes releituras. Em 2013, a Associação Americana de Psiquiatria decidiu abarcar diversos tipos de desordens neurológicas, incluindo a síndrome de Asperger – grau mais leve de autismo constantemente relacionado à genialidade -, dentro de uma única definição, o transtorno do espectro do autismo (TEA). No Brasil, um ano antes, a aprovação da lei 12.764, também conhecida como Lei Berenice Piana, tornou-se um marco ao incluir autistas entre os demais portadores de deficiência, garantindo a eles tratamento via Sistema Único de Saúde (SUS) e sua presença no mercado de trabalho pelo sistema de cotas.

Nenhum autista é igual a outro, mas há similaridades como a dificuldade de interação social e a presença de padrões restritos de comportamento, interesses ou atividades. Em suma, há três gradações: o autismo leve ou funcional, em que chamam atenção comportamentos excêntricos ou repetitivos; o moderado, o qual há déficit nas habilidades de comunicação verbal e não verbal; e o severo, quando a capacidade cognitiva é altamente prejudicada, exigindo suporte absoluto. O primeiro grupo é plenamente capaz de viver de forma autônoma, ter filhos e uma profissão. O americano Donald Triplett, hoje com 88 anos, primeira pessoa diagnosticada com TEA, aos 5 anos, demonstra excepcional memória e trabalhou na empresa da família.

Boas iniciativas vêm ganhando impulso nos últimos anos. A Specialisterne é uma das organizações que mais contribuem para a neurodiversidade no Brasil, trabalhando em parceria com empresas como Itaú e Danone. A ONG já propiciou a contratação de cerca de 120 autistas, com 90% de taxa de retenção nos cargos. O processo de capacitação e seleção dura quatro meses, e a chegada ao escritório do colega “atípico” (termo que autistas costumam usar para se definir) exige adaptação e suporte. “Um workshop esclarece aos funcionários tanto sobre o que é o autismo quanto acerca das particularidades da pessoa”, afirma Rute Rodrigues, gerente da Specialisterne. Há algumas recomendações simples de integração que fazem toda a diferença no ambiente de trabalho, como reservar ao autista um local silencioso, com iluminação controlada, e evitar conversas fora de hora e mudança abrupta de rotina.

A neurodiversidade não é um tipo de assistencialismo, mas, sim, parte de uma estratégia lucrativa das empresas. Pesquisa da consultoria McKinsey mostrou que companhias que promovem diversidade em seus quadros têm receitas até 33% maiores. Com a inclusão de minorias, elas conseguem ampliar seus horizontes e atingir suas metas. “Pessoas com visões diferentes trazem soluções mais robustas, o que é fundamental para uma empresa de inovação”, diz Ricardo Neves, CEO da Everis, multinacional de consultoria de Negócios e TI.

Transformação de tal magnitude, evidentemente, tem seus desafios. Uma reclamação recorrente entre os profissionais autistas é sobre a ausência de um plano de carreira. Assim como ocorre com a maioria dos deficientes físicos ou visuais, eles geralmente trabalham como colaboradores, não funcionários contratados, e têm salário mais baixo. Esse é um dos motivos que levam muitos a esconder sua condição e a priorizar processos seletivos tradicionais. Outra razão é o constrangimento provocado por colegas desinformados, que insistem em trata-los de maneira infantilizada. Esse comportamento tem nome: capacitismo, o preconceito contra deficientes, uma segregação muitas vezes velada. Filmes e séries de TV costumam influenciar as pessoas, fazendo-as olhar para os autistas como incapazes ou, no outro extremo, gênios excêntricos. Na maioria dos casos, porém, são indivíduos que têm fragilidades intensas tanto quanto talentos notáveis – como todo e qualquer ser humano.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A JUVENTUDE TRANCAFIADA

Pesquisa inédita revela sinais de mau humor, irritação e solidão entre os jovens. É fato: o isolamento tem sido duro, mas pode ser uma valiosa lição de vida para essa turma

“A proibição foi suspensa hoje. Não mais… máscaras. Tudo aberto também. O Romance de Tarzan está passando no Coliseu, como há cerca de seis semanas. Eu gostaria tanto de poder ir ao cinema assistir ao filme. A escola abre esta semana, na quinta-feira! Você sabia? Como se não pudessem esperar até segunda-feira!” Esse trecho do diário de Violet Harris, uma adolescente de 15 anos de Seattle, nos Estados Unidos, poderia ter sido escrito hoje, hoje mesmo, sem tirar nem pôr- mas tem mais de 100 anos, foi rabiscado em 15 de outubro de 1918, em um dos momentos de abre e fecha da quarentena imposta pela Gripe Espanhola. Ressalte-se que aquela pandemia, na comparação com o surto do novo coronavírus, tinha uma característica assustadora para quem namorava a idade adulta: atingia e matava mais os jovens, filhos de um período histórico em que houve duas tragédias simultâneas, a da saúde e a da I Guerra. Havia pouco respiro e escassa esperança, em um tempo evidentemente sem internet, em que as janelas fechadas isolavam as pessoas do mundo – até que as autoridades sanitárias autorizassem algum sorriso, alguma liberdade celebrada em letras miúdas nas cadernetas carcomidas pelo cotidiano.

Agora é diferente, as válvulas de escape brotam a um toque de dedo no smartphone, nas conversas por WhatsApp, nas reuniões por Zoom, nas reclamações diante de intermináveis aulas on-line, apesar do heroico esforço dos professores e diretores de escolas. Os adolescentes não são as vítimas prioritárias do vírus, do ponto de vista epidemiológico e de internações. E, no entanto, a juventude dos anos 20 do século XXI, o nosso tempo, será outra quando o contágio se aquietar, com vacinação em massa e respeito aos cuidados de isolamento.

Há uma geração na berlinda e convém estar atento às transformações pelas quais ela passa- e que, se já não brotam em diários, pululam nas redes sociais. Uma pesquisa conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) durante a pandemia revela o que vai nas mentes e corações de adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos. Há relatos de mau humor, irritação e solidão. Há tristeza. Há dificuldade em manter hábitos saudáveis, como a dieta balanceada. São nós que alcançam os jovens adultos. “Não é exagero dizer que, do ponto de vista psíquico, é o grupo mais afetado”, diz a responsável pelo estudo, Célia Szwarcwald, pesquisadora titular da Fiocruz.

Há uma dificuldade inerente à idade. A adolescência é como uma sinfonia hormonal sem tonalidade definida, de violinos brigando com tubas, sem partitura, irregular – e calhou desse rico e incontrolável período de qualquer vida coincidir com os freios determinados pelo vírus. Uma primeira e evidente má novidade: a distância do toque, do olho no olho, do dia a dia agora intermediado pelas câmeras.

Não se justifica o injustificável, mas as imagens dos últimos dias de festas clandestinas frequentadas por uma garotada sem máscara em ambientes com pouca ventilação representam um ato extremado (e perigosíssimo) de uma geração contida na marra. Apenas em São Paulo, ao longo do último fim de semana de março, por volta de 100 bares e aglomerações proibidas foram alvo de blitz e policiais. Cenas semelhantes foram vistas em Manaus, Rio e Florianópolis. “Há uma questão comportamental muito forte ligada a essa época da vida, que é sentir-se imortal”, diz o infectologista Marcos Boulos, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Tentamos explicar das mais diversas formas quanto é arriscado se expor a esse tipo de evento, mas eles acham que nunca acontecerá algo de ruim com eles.”

Mas pode acontecer, evidentemente, e por ora a única saída é a cautela, compulsória e, para muitos, exageradamente restritiva. As escolas correm para amenizar o desânimo generalizado. No colégio de alto padrão Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, ficou combinado que os estudantes que já concluíram o ensino médio poderão voltar à instituição quando houver queda relevante do número de casos em decorrência da Covid-19, que chegou a assustadoras 3.200 mortes na média móvel de sete dias, com mais de 500.000 vítimas. “Esse tipo de atividade tem um ganho inestimável ao construir memórias em uma época tão decisiva da vida”, diz o professor João Roberto de Souza Silva, diretor das classes de ensino médio na instituição. Nos Estados Unidos, a formatura do chamado high school, o último passo antes da formação universitária, não contou com os tradicionais bailes, mas foi comemorada por meio de fotos e faixas na porta das casas e jardins das famílias dos formandos. Talvez não baste, mas é um jeito de tocar o barco, porque viver é preciso.

Viver e viver, apesar dos sustos em torno do que se enxerga lá fora. O vírus ainda não se mostrou letal para os mais jovens, longe disso, mas há uma sombra incômoda, que se avizinha. Por motivos que vão do aumento da exposição ao microrganismo às características das novas cepas, mais agressivas, análise da Fiocruz constatou aumento de casos graves entre homens e mulheres com idades de 20 a 29 anos na ordem de 256% ao longo das quinze primeiras semanas de 2021 – e, como consequência, mais hospitalizações. Entre idosos de 80 a 89 anos, a título de comparação, a alta foi de 154,39% – com a vital diferença deque avós e avôs começam a ser vacinados e já desenvolvem os tão desejados anticorpos. Ao estender a lupa para outros países, como a França, é possível notar um crescimento até de contaminação entre crianças e adolescentes. Uma análise epidemiológica no país revelou que a faixa etária entre 10 e 19 anos teve cinco vezes mais casos da doença em março do que em janeiro deste ano. Atribui-se a escalada à manutenção do funcionamento das escolas e a algum relaxamento natural, depois de tantos meses, depois de tanto cansaço.

Em meio ao medo, as boas novas são celebradas com incontida euforia. Na quarta-feira 31, o consórcio formado pelas farmacêuticas Pfizer e BioNtech apresentou extraordinários resultados com testes de vacina entre crianças de 12 a 15 anos. Em ensaio clínico com 2.260 voluntários, em quem foram aplicadas duas doses em um intervalo de três semanas, não se verificou um único caso de contágio. O trabalho ainda não foi publicado em revista científica, mas as autoridades de saúde dos Estados Unidos já se organizam para ampliar a reabertura das escolas de ensino fundamental e médio assim que as agulhadas chegarem à turma que mal começou a vida, e, portanto, poderia retomá-la.

À espera do definitivo achatamento das curvas, na fila pela vacina, convém não perder o bom humor. A pandemia, reafirme-se, não durará para sempre e há como enxerga-la de outro modo. A atual situação abre caminho para que os jovens que se aventuram pela primeira vezno mercado de trabalho desenvolvam uma capacidade fundamental para os novos tempos: a adaptação. “O estágio de trabalho em home office é uma boa experiência para que eles sejam mais independentes e aprendam a controlar a própria produtividade”, diz Seme Arone Junior, presidente do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube). “Mas é preciso que as empresas ofereçam a contrapartida decisiva para esse momento da carreira, as orientações e retornos claros.” A resiliência é também outra palavra-chave usada pelos especialistas em intercâmbios estudantis – atividade que despencou 46% no ano passado em comparação com 2019. Muitos dos alunos que tinham interesse em viajar para fora do país adaptaram-se ao novo cenário por meio de aulas on-line em instituições estrangeiras. “As escolas internacionais decidiram flexibilizar diversas regras e incluíram aulas virtuais no currículo para que estudantes de outros países, como o Brasil, possam aprender com qualidade da própria casa e só precisem viajar quando for seguro”, diz Priscilla Gomes, diretora de eventos da Business Marketing Internacional (BMI), empresa responsável pelo Salão do Estudante, a maior feira do setor no país. “Ninguém precisa desistir do sonho, basta esperar um pouco ou adaptá-lo para a atual realidade.”

Sublinhe-se, então, depois de mais de um ano da eclosão do surto em Wuhan, na China, apesar das agruras, apesar da tristeza, que nem todos guardarão na memória apenas episódios traumáticos do período em que sair de casa representava um grande risco à saúde. Há meninas e meninos que aproveitaram positiva e calorosamente o inesperado período de convivência junto aos pais e sentiram algum alívio nas pressões por vezes impostas no convívio escolar, da sala de aula, do ir e vir diariamente. Esconder-se por trás de uma câmera pode funcionar como escudo. Um levantamento do Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde (NIHR), no Reino Unido, com 1.000 estudantes com idades de 13 a 14 anos em dezessete escolas da Inglaterra, mostrou que os níveis de ansiedade entre a garotada reduziram-se na casa dos 10% ao longo do período de lockdown. Houve, portanto, um aumento no bem-estar geral. Para os que não estão lidando tão bem com a situação – o que é absolutamente aceitável – é bom relembrar que esta não é a primeira nem será a última vez que a humanidade foi posta em situações-limite. “Os pais podem trazer referências históricas ao conversar com seus filhos”, diz Ilana Pinsky, psicóloga clínica e coautora do recém-lançado livro Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Editora Contexto). “Houve restrição de liberdade e muito receio sobre o futuro ao longo das guerras mundiais e em outras ocasiões de epidemias”, diz Ilana. “Pensando nisso, precisamos aprender que a vida nunca será absolutamente previsível e cabe a nós a adaptação para atravessar as tempestades. “E quando tudo passar, porque passará, com total segurança sanitária, de mãos dadas com a ciência, alguém voltará ao diário, abrirá o Instagram, para anotar, como se a adolescente Violet da Gripe Espanhola olhasse para 2021: “A proibição foi suspensa hoje. Não mais… máscaras. Tudo aberto também”.

UMA GERAÇÃO NA BERLINDA

O Impacto da pandemia nos Jovens de 12 a 17 anos•

A DUAS DOSES DA LIBERDADE

Em março do ano passado, tão logo a pandemia foi confirmada, criou-se uma atmosfera de blindagem de homens e mulheres acima de 60 anos, o grupo mais vulnerável à infecção pelo novo coronavírus. Os avós passaram, então, a aparecer em fotos e vídeos recebendo carinho a distância de netos, por meio da tela de smartphones ou por trás dos vidros da janela de casa. Um ano depois, uma fagulha de esperança começou a circular na internet, com imagens completamente diferentes – famosos e anônimos passaram a exibir nas redes sociais os braços oferecidos a profissionais de saúde. A profusão de posts criou expressões de grande sucesso na internet, como #vacinados e #vemvacina.

Os primeiros beneficiados foram aqueles com idade acima de 90 anos. Agora, dois meses depois do início da imunização no país, a faixa etária está em torno dos 60 anos. O resultado vai muito além de toda a comoção causada pelos cliques. A vacinação começa a apresentar sinais concretos de alento entre a geração mais antiga. De acordo com levantamento, pelo menos três capitais já apontam redução do impacto da Covid-19 entre os imunizados. No Rio de Janeiro, houve queda de 34% nas mortes e 30% das internações por Covid-19 entre os que estão acima de 90 anos. Na cidade de São Paulo, as médias de internações despencaram 57% e as mortes, 70%, na mesma faixa etária, após o início da campanha de vacinação. No Distrito Federal, as internações de idosos com 80 anos ou mais em UTIs da rede pública caíram 45%. Trata-se de uma decisiva indicação de que a celeridade na vacinação deve ser perseguida a todo custo pelo Ministério da Saúde. Só dessa maneira todos, e não só os avós devidamente protegidos com duas aplicações dos imunizantes, poderão voltar a abraçar seus amigos e familiares.

A DUAS DOSES DA LIBERDADE

Em março do ano passado, tão logo a pandemia foi confirmada, criou-se uma atmosfera de blindagem de homens e mulheres acima de 60 anos, o grupo mais vulnerável à infecção pelo novo coronavírus. Os avós passaram, então, a aparecer em fotos e vídeos recebendo carinho a distância de netos, por meio da tela de smartphones ou por trás dos vidros da janela de casa. Um ano depois, uma fagulha de esperança começou a circular na internet, com imagens completamente diferentes – famosos e anônimos passaram a exibir nas redes sociais os braços oferecidos a profissionais de saúde. A profusão de posts criou expressões de grande sucesso na internet, como #vacinados e #vemvacina.

Os primeiros beneficiados foram aqueles com idade acima de 90 anos. Agora, dois meses depois do início da imunização no país, a faixa etária está em torno dos 60 anos. O resultado vai muito além de toda a comoção causada pelos cliques. A vacinação começa a apresentar sinais concretos de alento entre a geração mais antiga. De acordo com levantamento, pelo menos três capitais já apontam redução do impacto da Covid-19 entre os imunizados. No Rio de Janeiro, houve queda de 34% nas mortes e 30% das internações por Covid-19 entre os que estão acima de 90 anos. Na cidade de São Paulo, as médias de internações despencaram 57% e as mortes, 70%, na mesma faixa etária, após o início da campanha de vacinação. No Distrito Federal, as internações de idosos com 80 anos ou mais em UTIs da rede pública caíram 45%. Trata-se de uma decisiva indicação de que a celeridade na vacinação deve ser perseguida a todo custo pelo Ministério da Saúde. Só dessa maneira todos, e não só os avós devidamente protegidos com duas aplicações dos imunizantes, poderão voltar a abraçar seus amigos e familiares.