EU ACHO …

DEZ ANOS

– Amanhã faço dez anos. Vou aproveitar bem este meu último dia de nove anos.

Pausa, tristeza.

– Mamãe, minha alma não tem dez anos.

– Quanto tem?

– Acho que só uns oito.

– Não faz mal, é assim mesmo.

– Mas eu acho que se deviam contar os anos pela alma. A gente dizia: aquele cara morreu com 20 anos de alma. E o cara tinha morrido mas era com 70 anos de corpo.

Mais tarde começou a cantar, interrompeu-se e disse:

– Estou cantando em minha homenagem. Mas, mamãe, eu não aproveitei bem os meus dez anos de vida.

– Aproveitou muito bem.

– Não, não quero dizer aproveitar fazendo coisas, fazendo isso e fazendo aquilo. Quero dizer que não fui contente o suficiente. O que é? Você ficou triste?

– Não. Vem cá para eu te beijar.

– Viu? eu não disse que você ficou triste?! viu quantas vezes me beijou?! quando uma pessoa beija tanto outra é porque está triste.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O MEDO DA QUIMERA

Seres híbridos, como os criados agora em laboratório, fascinam e assustam a humanidade

Quando orei Minos de Creta recebeu um magnífico touro do deus do mar, Poseidon, para fazer um sacrifício, ele não conseguiu matá-lo. Enraivecido, Poseidon encantou a mulher de Minas, Pasífae, para que sentisse um grande desejo pela criatura. O resultado de sua cópula transespécie foi um monstro com cabeça de touro, o Minotauro. Híbridos de humanos e animais são comuns nos mitos e nas lendas: centauros, sereias, Pan com seus pés de bode. Somos ao mesmo tempo fascinados e incomodados pelo limite que nos separa dos outros animais – e se ele é permeável. Por isso, a recente notícia dada por uma equipe nos Estados Unidos e na China sobre embriões que contêm a mistura de células humanas e de macacos toca uma antiga linha de ansiedade: que estranhos seres híbridos estamos criando, e porquê?

Entidades vivas com células ou tecidos de mais de uma espécie são tecnicamente chamadas de quimeras, nome de um monstro lendário que Homero descreveu na Ilíada como “fronte de leão e traseiro de serpente, um bode no meio”. Há muito tempo sabemos que esses animais de partes encaixadas são possíveis. Uma quimera com uma mistura de tecidos de cabra e carneiro, chamada geep, com cabeça de cabra, mas corpo lanoso de carneiro, foi relatada em 1984. As quimeras geralmente são feitas com a transferência de células-tronco, capazes de se transformar em vários tipos de tecidos, de uma espécie para o embrião de outra. Em algumas circunstâncias, as células estrangeiras podem continuar a crescer e prosperar em seu novo hospedeiro.

O incômodo provocado por tais combinações biológicas é consideravelmente maior quando as quimeras contêm células humanas. Mas estas também são conhecidas há anos. Células-tronco embrionárias humanas foram inseridas em fetos de carneiros e embriões de ratos, coelhos e porcos. Algumas conseguem sobreviver durante dias. Tais experimentos poderiam evocar ecos grotescos do cientista louco de H.G. Wells, o Doutor Moreau, que “humanizava” animais por meio de cirurgia. Mas há bons motivos para eles. Em particular, a escassez de órgãos humanos para transplante, como rins, o que leva a muitas mortes potencialmente evitáveis por falência de órgãos, poderia ser solucionada pelo cultivo de órgãos “humanos” em animais.

Vários anos atrás, os biólogos japoneses Hiromitsu Nakauchi e Toshihiro Kobayashi criaram um truque para que células de outra espécie injetadas em um embrião se desenvolvessem exatamente no órgão desejado. Eles criaram um “nicho” para as células estrangeiras ao modificar geneticamente os embriões dos animais para que eles pudessem produzir por conta própria o órgão-alvo, por exemplo, um fígado. Então, o embrião usará as células-tronco do hospedeiro para fazê-lo. A técnica mostrou-se funcional para cultivar órgãos de ratos, como pâncreas, em camundongos, e vice-versa. Mas os roedores, obviamente, não podem ser hospedeiros de órgãos humanos completos. Para isso há necessidade de um animal maior. Em 2017, uma equipe liderada por Juan Carlos Izpisua Belmonte, no Instituto Salk em La Jolla, na Califórnia, mostrou que células-tronco humanas adicionadas a embriões de porcos podiam sobreviver por até quatro semanas.

Em contraste com as quimeras de rato-camundongo, as células humanas cresciam, no entanto, apenas em proporções pequenas e cada vez menores, insuficientes para gerar tecidos e órgãos humanos. “Foi um resultado decepcionante”, disse Jun Wu, que era pesquisador de pós-doutorado na equipe de Salk e hoje está no Centro Médico Southwestern da Universidade do Texas, em Dallas. “Por que é tão difícil as células humanas sobreviverem?”

lzpisua Belmonte desconfia que é porque somos parentes muito distantes dos porcos: nosso ramo da árvore evolucionária divergiu do deles há 90 milhões de anos. Por isso ele e seus colegas, colaborando como grupo de Weizhi Ji na Universidade de Ciência e Tecnologia Kunming em Yunnan, na China, agora fizeram quimeras de humanos com macacos. Como nossa relação evolutiva com os macacos (os pesquisadores usaram animais do gênero Macaca) é mais próxima – nós divergimos há cerca de 20 a 30 milhões de anos -, os pesquisadores imaginaram que os dois tipos de células poderiam se dar melhor e esperavam descobrir mais sobre o que promove sua compatibilidade. “Se conseguirmos aprender sobre a comunicação entre as células, poderemos melhorar o trabalho com porcos”, disse Wu.

Dos 132 embriões quiméricos feitos pelos pesquisadores e cultivados numa placa, a maioria morreu antes do 17º dia após a fertilização. Apenas três continuavam vivos no 19°dia. Mas os pesquisadores dizem que, em geral, as células humanas pareciam se integrar melhor com aquelas de macacos do que com as de embriões de porcos. Vários embriões ainda continham de 4% a 7% das células humanas no 15º dia.

Isto significa que as quimeras de humanos e macacos podiam suportar misturas mais íntimas e extensas dos dois tipos de células, com menos previsibilidade sobre onde elas acabariam crescendo. Nakauchi, hoje na Universidade Stanford, na Califórnia, diz que a ética desses experimentos é mais perturbadora se eles gerarem “animais ambíguos, como um porco com rosto ou cérebro humano”. Isso poderia ser impossível até em princípio, dada a distância evolucionária entre porcos e humanos, mas para os macacos é menos claro. Por isso devemos evitar fazer quimeras de humanos e animais com um grande componente humano, diz ele – e talvez usar células-tronco humanas geneticamente modificadas que não possam fazer células cerebrais. Wu concorda, mas salienta que eles nunca pretenderam implantar qualquer um de seus embriões quiméricos para crescimento mais longo. O objetivo não é cultivar órgãos humanos em macacos. Ele não pensa que isso deva ser contemplado se não sabemos onde as células humanas poderão acabar. “O que importa para mim é aonde as células humanas vão e quantas existem”, diz a bióloga Marta Shahbazi, que trabalha em desenvolvimento de embriões na Universidade de Cambridge. “Se os limitarmos exclusivamente a um órgão de interesse, como o pâncreas, tudo bem: um camundongo com um pâncreas feito de células humanas não é ‘humano’ em um sentido importante. Mas para um camundongo com células-tronco humanas espalhadas por todos os tecidos a resposta não está clara. E para um macaco as coisas ficam ainda mais imprecisas.”

Alfonso Martinez Arias, biólogo desenvolvimentista na Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, pensa que as afirmações de Izpisua Belmonte e colegas são completamente exageradas, de qualquer modo. Ele acredita que tudo o que eles realmente mostraram é que, quando algumas células humanas são acrescentadas a embriões de macacos, elas se tornam moribundas. “Se acrescentar algumas células estranhas que tornem mais difícil para o embrião sobreviver, o que você aprendeu dessa entidade biológica doente? “, pergunta. “As quimeras de humanos e macacos não virão logo, e muitas talvez nunca cheguem. Em todo caso, não precisamos delas nem para responder a perguntas biológicas, nem para solucionar problemas associados a doadores de órgãos.”

Mesmo assim, outras quimeras de humanos com animais certamente surgirão, mas elas são proibidas em muitos países. Nakauchi mudou-se do Japão para os Estados Unidos para escapar de tais restrições, ironicamente para encontrar uma moratória das verbas federais a esse tipo de pesquisa em 2015. A proibição no Japão foi cancelada em 2019, mas mesmo assim Nakauchi diz que as novas diretrizes tornam “praticamente muito difícil conseguir a aprovação”. Essa hesitação o frustra: “Órgãos cultivados em animais poderiam transformar a vida de milhares de seres humanos que enfrentam a falência de órgãos. Eu simplesmente não entendo porque continua a haver resistência”. lzpisua Belmonte insiste que seu trabalho em quimeras de humanos com macacos prestou “total atenção às considerações éticas”.

Até recentemente, as quimeras de humanos com animais eram material para lendas e folclore, dificilmente uma boa base para se fazerem avaliações éticas. Mas a história das deliberações em concepção assistida mostra que tais histórias têm uma tendência perigosa a mudar nossa percepção quando não se oferece algo melhor. As questões precisam de ampla discussão pela sociedade, mas estas poderão acompanhar o ritmo da ciência?

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 27 DE MAIO

CORAÇÃO, A MOLDURA DO CARÁTER

No coração do prudente, repousa a sabedoria, mas o que há no interior dos insensatos vem a lume (Provérbios 14.33).

Do coração procedem as fontes da vida. James Hunter, o autor do livro O monge e o executivo, tem razão quando diz que não somos o que falamos, mas o que fazemos. Na verdade, não somos aquilo que proclamamos em público, mas o que agasalhamos no coração em secreto. O que guardamos no coração, ainda que nos arquivos mais secretos, trancados pelos cadeados do sigilo, acaba vindo a lume e tornando-se público, pois a boca fala do que está cheio o coração. O coração é a moldura do caráter. Dele transbordam torrentes que se esparramam pelos nossos poros. É do coração que procedem os maus desígnios. É desse poço profundo que brotam tanto o bem quanto o mal. A maldade escondida e maquiada dos insensatos acaba vindo à tona. Mas no coração do prudente repousa a sabedoria. Sabedoria é olhar para a vida com os olhos de Deus. É ser regido não pela cartilha da maioria, mas pelos valores morais que procedem da lei de Deus. Sabedoria é amar o que Deus ama e repudiar o que Deus odeia. Sabedoria é buscar as coisas lá do alto mais do que os tesouros da terra. Sabedoria é adorar a Deus, amar as pessoas e usar as coisas, em vez de amar as coisas, usar as pessoas e esquecer de Deus. Os prudentes saboreiam as finas iguarias no banquete da sabedoria nesta vida e depois alcançam as bem-aventuranças eternas, cujas glórias sublimes jamais se contaram aos mortais.

GESTÃO E CARREIRA

DE OLHO NA SEGURANÇA DO SEU CLIENTE

Lei que regulamenta o tratamento de dados pessoais envolve empresas de todos os portes e segmentos. Saiba como adaptar o seu negócio para evitar multas

Ter um banco de dados de clientes é imprescindível se a sua empresa lida com o público. Afinal, conhecê-los é importante para direcionar produtos e campanhas que realmente sejam do seu interesse. No entanto, com tanta onda de vazamentos de dados pessoais de clientes até por grandes empresas como Facebook, tornou-se cada vez mais essencial ter regras que digam até onde se pode usar as informações pessoais dos clientes com fins de vendas e poder.

Por isso, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) 13.709, sancionada em 2018, sofreu diversas alterações e entrou em vigor em agosto de 2020. E não pense que o tamanho da companhia não é parâmetro de exclusão para a aplicabilidade das novas regras. Seja você micro, pequeno, médio ou grande, de qualquer segmento de atuação, se coleta e armazena dados pessoais, terá que atender às exigências da nova legislação. O Brasil passou a fazer parte dos países com esta legislação específica para proteger a privacidade dos cidadãos, assim como o General Data Protection Regulation, da União Europeia, e o California Consumer Privacy Act of 2018, dos Estados Unidos. Mesmo assim, uma pesquisa do Serasa Experian mostrou que cerca de 85% das empresas brasileiras ainda não estão preparadas para atender às exigências da LGPD.

Qualquer dado pessoal em território brasileiro que envolva o objeto das atividades empresariais estará sujeito a penalidades caso não seja realizado o tratamento correto. Será um momento de adaptação das empresas, cidadãos, órgãos públicos e autoridades regulatórias, como explica a sócia do L.O. Baptista Advogados, Esther Cunha. “A lei dispõe sobre o tratamento de dados pessoais com o objetivo de proteger os direitos fundamentais de liberdade e de privacidade e o livre desenvolvimento da personalidade da pessoa”, afirma.

Situações como venda de cadastros, uso dos dados coletados sem autorização do titular e vazamento de informações são exemplos de violações da LGPD, completa o diretor de Segurança Cibernética da Service IT e professor da Unisinos, Leonardo Lemes.

DE ACORDO COM A LEI

Mas, afinal, o que minha empresa precisa fazer para se adequar aos novos procedimentos?

Primeiro, Esther conta que a nova lei exige urna mudança da cultura interna das empresas, passando a incorporar algumas práticas específicas de privacidade e segurança. Isso porque a LGPD é aplicável a qualquer operação de tratamento (coleta, produção, utilização, reprodução, eliminação) de dados pessoais que preencha um dos seguintes requisitos: A – Seja realizada no Brasil; B – Tenha por objetivo a oferta de bens ou serviços ou ainda o tratamento de dados de indivíduos no Brasil; C – Seja referente a dados pessoais coletados no Brasil. ”A LGPD somente não é aplicável em situações excepcionais previstas no Art. 4° da mesma lei. Para adequação das empresas, é necessária a revisão, a adaptação e, possivelmente, a criação de novos procedimentos internos, além da conscientização de todos os colaboradores sobre a LGPD e seus impactos nas suas atividades, tanto por meio de políticas internas como através de treinamento dos colaboradores”, explica.

Alguns pontos também merecem maior atenção. Caso a empresa trate dados pessoais de crianças e adolescentes (Art. 14, LGPD) ou dados sensíveis (Arts. 5°, II e 11, 12 e 13, LGPD), por exemplo, deverá garantir o cumprimento de requisitos ligados a essas categorias. A LGPD prevê responsabilidade solidária entre controladores e operadores (Art. 42 e ss., LGPD), significando que empresas não diretamente ligadas a uma violação da lei podem ser responsabilizadas e obrigadas a reparar danos causados por outra empresa da cadeia, em lógica semelhante à do Código de Defesa do Consumidor. ”As legislações anteriores já tratavam do tema. Contudo, a LGPD é uma lei que zela pelo direito do titular dos dados, os cidadãos, independentemente do segmento de atuação da empresa e que não se restringe ao meio (digital ou impresso) em que esse dado esteja sendo tratado”, acrescenta Lemes.

O primeiro passo da mudança seria mapear os dados pessoais e entender contexto e práticas de cada organização, implicando nesse processo questões jurídicas, de tecnologia da informação e de segurança, além de uma revisão dos aspectos do negócio. As penalidades previstas podem chegar a multas no valor de R$50 milhões por infração, quando for devidamente apurada e confirmada. ”A Lei não impede que o dado seja utilizado para uma ou outra finalidade, ela apenas exige que o usuário seja informado dessa utilização e autorize. Acaba devolvendo para o usuário o controle de algo que sempre foi dele, possibilitando-lhe decidir se quer ou não fornecer o dado e, ainda, que saiba exatamente para que ele será utilizado”, explica o diretor executivo da IT2S, Leonardo Goldim.

Ele conta ainda que há a possibilidade de a Autoridade Nacional simplificar procedimentos para que microempresas e empresas de pequeno porte possam adequar-se. Mesmo assim, não conte com a sorte! Comece desde já sua reorganização para evitar problemas futuros. Os maiores riscos envolvem incidentes como ransonware – um tipo de ameaça que criptografa os arquivos e pede um resgate para que sejam liberados novamente; vazamento de dados; invasão de dispositivos e outros.

Ou seja, não se trata apenas do que sua empresa faz com as informações, mas também da segurança delas em relação a ameaças externas, tornando você o responsável. A disciplina jurídica dos dados pessoais está espalhada em diversas leis, como o Marco Civil da Internet e seu decreto regulador, o Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei do Cadastro Positivo, Lei do Sigilo Bancário, normas do CMN e do BACEN sobre Cibersegurança, a Lei de Acesso à Informação, entre outras. “A LGPD não afasta a aplicação das regras sobre proteção de dados pessoais já estabelecidas em outras leis, mas reúne os direitos dos titulares de dados pessoais e estabelece para as empresas a obrigação de garantir os direitos dos titulares e criar mecanismos para que isso ocorra de forma rápida e eficaz”, adverte Esther.

ATENÇÃO REDOBRADA

Empresas que já possuem outras obrigações relacionadas permanecem obrigadas, segundo Esther, a menos que a LGPD disponha em contrário. Além disso, a LGPD estabelece uma autoridade fiscalizadora e sancionadora para prevenção e repressão de práticas abusivas, relativamente a dados pessoais, sendo também atribuição dessa Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) educar a população sobre privacidade e proteção de dados pessoais.

Leonardo Lemes conta que uma coleta de dados realizada para uma finalidade específica não poderá ser usada para outra sem o devido consentimento. “Além disso, é preciso oferecer ferramentas que permitam ao usuário revogar esse consentimento quando quiser. A compra de base de dados de terceiros para envio de publicidade, por exemplo, pode ser um tiro no pé quando a empresa não documentar o ciclo de vida dos dados pessoais dentro da organização e indicar a finalidade deles”, afirma.

Um dos pilares da LGPD é a autodeterminação informativa, isto é, o titular dos dados pessoais deve ter controle sobre o fluxo. “A comercialização indeterminada de dados pessoais sem o conhecimento dos titulares vai em direção completamente oposta à autodeterminação informativa e com as exigências da LGPD”, completa Esther.

PROTEJA-SE!

Um bom design de PKI (Public Key Infrastructure ou chaves de segurança), usando certificados digitais, pode proteger organizações bem-sucedidas, com foco em uma abordagem de segurança por design. Isso é especialmente importante para os fabricantes de dispositivos de IoT (Internet of Things Internet das Coisas) e as empresas que os utilizam, além de empresas com forte presença digital para lidar com comércio eletrônico, transações financeiras e informações privadas, como data de nascimento, endereço, ID do governo.

O uso de PKI reforça os princípios básicos de segurança – autenticação, criptografia, dados e integridade do sistema -, pode ajudar a proteger sites e aplicativos conectados à internet, bem como dispositivos de IoT na rede e à medida que são fabricados. “Os certificados digitais e PKI podem fornecer uma camada importante de defesa e prova de que você leva a sério a segurança de seus clientes e mantém os dados privados”, alerta o representante principal do DigiCert, Timothy Hollebeck. O profissional tem mais de 15 anos de experiência em segurança de computadores, incluindo oito anos trabalhando em pesquisas inovadoras sobre segurança financiadas pela Agência de Projetos de Pesquisa Avança da de Defesa.

Ele ressalta também que uma boa higiene de segurança exige o uso de certificados digitais em todos os pontos de conexão – páginas da web, interna e externamente, para proteção de e-mail, acesso remoto, autenticação de dispositivos IoT e proteção dos dados compartilhados com criptografia e assinatura de código no firmware do dispositivo. “É aqui que entra o TLS – Transport Layer Security, conhecido como SSL para Secure Socket Layer, que foi substituído pelo TLS. Uma tecnologia de segurança padrão criada para proteger o tráfego na internet usando criptografia, também”, acrescenta.

Além disso, todos os servidores web na internet precisam de certificados de segurança. Antes, eram projetados para comércio eletrônico e transações financeiras, para sites em que outras informações confidenciais eram inseridas, como informações de identidade pessoal ou logins. Atualmente, a necessidade de criptografar a web por padrão é motivada pela proteção da livre troca de ideias e pela privacidade dos usuários contra o governo, agências de espionagem ou pessoas com intenções criminais. “O Google deu aos sites HTTPS um valor extra em seus algoritmos de pesquisa há alguns anos. Todos os principais navegadores agora marcam sites HTTP que não usam certificados TLS como Não Seguro. As empresas não podem mais ignorar o uso de certificados TLS, não apenas em sites que realizam transações com informações valiosas, mas em todos os sites da internet”, conclui.

BÊ-Á-BÁ DA LGPD

O QUE MUDA: as leis existentes hoje garantem o direito à intimidade e ao sigilo de comunicações, porém foram criadas e implementadas em um cenário que não contemplava soluções tecnológicas. A LGPD é uma legislação que disciplina como as empresas e os setores públicos podem coletar e tratar dados de pessoas, determinando direitos, exigências e procedimentos a serem seguidos.

A TRANSIÇÃO: o ideal é contar com um parceiro com expertise para ajudar na transição e com serviços que possam ser facilmente implementados.

A adequação começou a valer em agosto de 2020, o que significa que as empresas precisam estar em conformidade.

PASSO A PASSO: desde o mapeamento de todos os dados que são coletados do usuário, onde esses dados estão sendo armazenados. quais dados o usuário consentiu que fossem coletados e qual o uso de cada dado, até processos de remoção completa dos dados por solicitação do usuário e a definição de um responsável pela proteção e privacidade de dados na empresa.

APLICABILIDADE DA LEI: atualmente, qualquer empresa, órgão ou pessoa física que não cumprir as orientações ditadas pela lei poderá pagar multas que variam entre R$50 milhões e 2% do faturamento total da empresa. Mas as penalizações ainda estão em avaliação pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), responsável pelas diretrizes.

EXEMPLOS: diversas atividades comuns que vemos atualmente podem ser consideradas ilegais, desde atividades como a venda de dados até a simples coleta de dados sem consentimento do usuário (como dados coletados para marketing e outros).

SELO DE QUALIDADE

A Associação Brasileira de Fintechs – ABFintechs, em parceria com a empresa de tecnologia IT2S Group, acaba de lançar um selo de qualidade voltado à segurança de dados. O Programa Fintech Segura é uma iniciativa para trazer mais transparência sobre a maturidade das startups do setor nos temas de proteção e privacidade de dados, além de fomentar as boas práticas de segurança da informação e proteção de dados pessoais, que é um dos requisitos da LGPD. As recomendações de segurança são práticas e objetivas, sendo aplicáveis a startups em qualquer fase operacional.

ERROS MAIS COMUNS

•  Imaginar que a LGPD se aplica apenas a dados no ambiente digital. A LGPD se aplica a dados pessoais em qualquer formato (Art.12, LGPD).

•  Assumir que uma empresa que tem como clientes pessoas jurídicas, e não pessoas naturais, não está abrangida pela LGPD.

•  Esquecer que no ambiente interno de toda empresa há, no mínimo, fluxo de dados pessoais dos colaboradores.

•  Acreditar que sempre é necessário obter consentimento dos titulares para tratar seus dados pessoais. A LGPD estabelece dez bases legais diferentes e deve ser feita uma análise caso a caso para identificar qual a base legal mais adequada para cada finalidade de tratamento (Art. 72, LGPD).

•  Pensar que bastará incluir nos contratos, documentos e plataformas da empresa um parágrafo genérico dizendo que o titular consente com o tratamento de seus dados pela empresa para fins indeterminados. A LGPD estabelece requisitos de validade para o consentimento (deve ser livre, o controlador deve ser capaz de demonstrar a manifestação de vontade do titular, deve se referir a finalidades determinadas, deve ser revogável – Art. 82, LGPD).

•  Não lembrar que a lei determina que o controlador deve assegurar a segurança dos dados pessoais, e deixar de implementar políticas e sistemas próprios.

•  Criar ferramentas e produtos que sejam ótimos sob perspectiva de vendas, mas que não necessariamente atendam às exigências da LGPD. É importante que os produtos e ferramentas das empresas sejam concebidos de forma a garantir a privacidade e segurança (“privacy by design”).

•  Esquecer que a empresa deve criar canais e mecanismos para que os titulares de dados pessoais possam exercer de forma efetiva os seus direitos quanto a dados pessoais.

•  Atribuir a uma única área ou departamento a função de deixar a empresa em conformidade com a LGPD. O ideal é que se estabeleça um comitê composto por profissionais de diferentes áreas (jurídico, TI, RH, comercial, compliance e outros).

DICAS DE SEGURANÇA

1. CRIE MODELOS DE AMEAÇAS: avalie o caso de uso dos sites, aplicativos e serviços conectados à internet durante sua fase de design. Avalie os vários riscos e crie planos de mitigação no design geral de seus aplicativos voltados para a web, incluindo servidores de preparação e produção.

2. ELABORE CASOS DE SEGURANÇA E ABUSO: certifique- se de colocar sua equipe para trabalhar testando para validar seu modelo de ameaça. Implemente uma avaliação contínua para garantir que o modelo de ameaça continue atendendo seus cenários de ameaça.

3. GERENCIE CHAVES COM SEGURANÇA: integre seus processos gerando e armazenando suas chaves privadas com segurança, usando os módulos de segurança de hardware (HSM) ou uma das principais plataformas de loT baseadas na nuvem.

4.  COLOQUE CERTIFICADOS EM USO: saiba onde sua organização pode usar certificados em vez de senhas para autenticação com integração ao Active Directory. Os certificados de infraestrutura de chave pública (PKI) desempenham um papel fundamental em sua solução, pois validam a identidade para que apenas usuários e servidores autorizados possam acessar um dispositivo ou aplicativo especifico.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENTRE PALITOS DE NICOTINA E CONEXÕES VIRTUAIS

O cigarro já foi ferramenta de dependência e preenchimento do vazio existencial. Hoje, o celular ocupa esse lugar, mas vive o germe da decadência

Se antes passávamos pela avenida Paulista e víamos pessoas sentadas fumando os seus cigarros, hoje nos deparamos com cidadãos absolutamente vidrados checando seus iPhones.

A função social é semelhante: estar parado sem fazer nada é insuportável para muitos e assim o cigarro caía como uma luva, ou seja, preenchimento do vazio existencial com o palito de nicotina, tal qual hoje, em seu lugar, o uso dos novos aplicativos dos telefones móveis faz o tempo fluir.

O homem mediano tem necessidade de ocupar o seu interior, desejo instintivo de realizar algo quando não tem o que fazer, assim como a fome, que também é uma expressão de necessidade.

O celular veio suprir essa lacuna e, por meio desse pequeno objeto, o seu portador fica, em tempo real, conectado a outros usuários. Não está mais isolado, pois compartilha as suas vivências, tira selfies, posta as fotos, checa o Facebook, confere o WhatsApp (as ondas do momento) e, às vezes, até usa o telefone para falar.

Essa tecnologia se disseminou de tal maneira pela sociedade que o número de celulares no Brasil é maior do que o da população. Em outras palavras, milhões de pessoas têm mais de um aparelho.

A bem ver, já não se pode, no mundo contemporâneo, viver sem um desses instrumentos. Porém, no bojo de todos os progressos, existe o germe da decadência e, nesse aspecto da telefonia móvel, não poderia ser diferente.

Então, vem a pergunta: qual o ônus do celular? Em primeiro lugar, se tornou o objeto mais roubado do Brasil; além disso, por causa dele ocorreram tragédias, desde separação de casais enciumados que surpreenderam o parceiro ou a parceira em determinada circunstância constrangedora, graças aos aplicativos que localizam as pessoas, até crimes de morte, sequestro e extorsão foram praticados mediante o uso desses aparelhos, lembrando que, nas cadeias de todo o Brasil, estes são facilmente introduzidos e abundam nas mãos dos presidiários.

Ainda mais, prestam-se para a prática de bullying, muito comum entre jovens estudantes, que postam fotos de colegas em situações vexatórias ou, outro acontecimento comum, atribuem notas para o desempenho sexual da pessoa, para o odor, para o hálito, para o tamanho do pênis etc.

Assim, o que faz mais mal, o cigarro de outrora ou o celular hodierno? A bem ver, são dois objetos absolutamente distintos, que causam semelhante dependência e dão prazer, mas, de outra perspectiva, podem ser bem nocivos à saúde: o primeiro, para a física; o segundo, para a mental.

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo