EU ACHO …

CONVERSA PUXA CONVERSA À TOA

Eu estava na copa tomando um café e ouvi a cozinheira na área de serviço cantando uma melodia linda, sem palavras, uma espécie de cantilena extremamente harmoniosa. Perguntei-lhe de quem era a canção. Respondeu: é bobagem minha mesmo.

Ela não sabia que era criativa. E o mundo não sabe que é criativo. Parei de tomar o café, meditei: o mundo ainda será muito mais criativo. O mundo não se conhece a si próprio. Estamos tão atrasados em relação a nós mesmos. Inclusive a palavra criativa não será usada como palavra, nem mesmo vai se falar nela: apenas tudo se criará. Não é culpa nossa – continuei com meu café – se estamos atrasados de milhares de anos. Ao pensar em “milhares de anos à nossa frente”, deu-me quase uma vertigem pois não consigo contar sequer com a cor que a terra terá. A posteridade existe e esmagará o nosso presente. E se o mundo se cria por ciclos, digamos, é possível que voltemos às cavernas e que tudo se repita de novo? Dói-me até o corpo ao pensar que não saberei jamais como o mundo será daqui a milhares de anos. Por outro lado, continuei, nós estamos engatinhando até depressa. E a toada que a moça cantava vai dominar esse mundo novo: vai-se criar sem saber. Mas por enquanto estamos secos como um figo seco onde ainda há um pouco de umidade.

Enquanto isso a empregada estende roupa na corda e continua sua melopeia sem palavras. Banho-me nela. A empregada é magra e morena, e nela se aloja um “eu”. Um corpo separado dos outros, e a isso se chama de “eu”? É estranho ter um corpo onde se alojar, um corpo onde sangue molhado corre sem parar, onde a boca sabe cantar, e os olhos tantas vezes devem ter chorado. Ela é um “eu”.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O BIG BROTHER DOS CRIMES

O aplicativo Citizen estimula usuários a filmar e transmitir ao vivo ocorrências policiais com a promessa de contribuir para a segurança pública

Em 2014, o filme O Abutre provocou certa polêmica ao fazer uma sátira sombria do telejornalismo policial. Desesperado para encontrar trabalho, o protagonista decide reportar crimes em Los Angeles. Ao longo da narrativa, ele se torna insensível às mortes que relata, passando a causar acidentes para ter histórias terríveis para contar. Devido a um aplicativo lançado nos Estados Unidos, o cenário está mais próximo do que nunca (sem a parte da criação de crimes, claro). Trata-se do Citizen, que permite que usuários transmitam ao vivo, via smartphone, ocorrências policiais como roubos, ataques, incêndios, vazamentos de gás e todo tipo de tragédia. Os donos do app dizem que o objetivo é informar os assinantes do serviço sobre as regiões que oferecem perigo, permitindo que desviem do caminho ou compareçam ao local para ajudar possíveis vítimas. Na prática, porém, o Citizen vai muito além disso.

O aplicativo conta com 5 milhões de usuários espalhados por duas dezenas de cidades dos Estados Unidos. Apesar do grande número de inscritos, nem todos são ativos na plataforma – a maioria fica apenas à espreita. Desde maio, o serviço ganhou nova função: ajudar as pessoas a rastrear a presença do coronavírus. Com a mesma promessa de fornecer um senso de comunidade e segurança aos participantes, o Citizen agora mostra em seu mapa estatísticas sobre a disseminação da Covid-19 pela cidade e fornece informações sobre as regulamentações impostas pelas autoridades para conter a pandemia.

À primeira vista, parece ser algo bastante positivo. Quem, afinal, não gostaria de saber os lugares em que há encrencas e manter distância segura deles? No mundo real, não é assim que as coisas funcionam. A polícia de Nova York, por exemplo, teme que o Citizen estimule a ação de justiceiros, o que seria uma óbvia violação das regras civilizatórias. Além disso, é preciso considerar o risco real de um cidadão despreparado interferir em uma ocorrência, o que seria perigoso para ele próprio e para os outros envolvidos.

Outro ponto negativo diz respeito à privacidade dos usuários. Para que o Citizen funcione adequadamente, a função de localização do celular deve estar sempre ligada. Ou seja: o aplicativo saberá o tempo todo o lugar exato em que o inscrito está. “Isso é preocupante, pois pode oferecer à empresa um mapeamento de hábitos de locomoção, endereço da residência e local de trabalho da pessoa”, diz Bruno Bioni, mestre em direito pela Universidade de São Paulo e consultor especializado em proteção de dados. O especialista diz que há limites jurídicos para o aplicativo. Vítimas dos acidentes que tenham sido eventualmente filmadas e ou fotografadas podem processar o app pelo uso indevido de suas imagens. “Como a finalidade do aplicativo é o relato de crimes, indivíduos podem ser erroneamente identificados e sofrer danos decorrentes disso”, afirma.

De fato, há inúmeros relatos de equívocos. Em Manhattan, um usuário relatou ter visto um tigre, mas descobriu-se depois que o animal em questão era um guaxinim. Episódios prosaicos como esse não causam maiores problemas, mas há o risco evidente de alguém confundir um criminoso com um cidadão comum. Existe a preocupação inclusive com a possibilidade de o aplicativo incentivar práticas racistas, imputando a negros crimes que eles não cometeram.

A empresa spOn, dona do Citizen, diz que trabalha para corrigir eventuais erros de rota, mas destaca os alegados benefícios oferecidos pela tecnologia. Entre eles está, evidentemente, o aspecto da segurança. O discurso parece ter convencido o mercado financeiro. Recentemente, o Citizen levantou 60 milhões de dólares com fundos de investimentos, até mesmo de executivos graúdos. É o caso de Peter Thiel, cofundador do PayPal e um dos principais investidores da plataforma.

O Citizen não é o único aplicativo desse tipo disponível no mercado. Nos EUA, há pelo menos outras três plataformas parecidas. No Brasil, o B.O. Coletivo oferece aos inscritos a possibilidade de identificar as regiões mais violentas de uma determinada cidade e informar outros usuários sobre as ocorrências. Ele, porém, não conta com o principal atributo do Citizen: a transmissão de vídeos em tempo real. No fundo, é isso que atrai a curiosidade – e, provavelmente em alguns casos, o espírito mórbido – dos usuários.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 25 DE MAIO

QUEM CUIDA DO POBRE HONRA A DEUS

O que oprime ao pobre insulta aquele que o criou, mas a este honra o que se compadece do necessitado (Provérbios 14.31).

Um dos atributos de Deus é a justiça. Ele é justo em todas as suas obras. Deus abomina toda forma de injustiça. Ele julga a causa dos pobres e oprimidos. Quem oprime ao pobre, por ser ele fraco, sem vez e sem voz, insulta a Deus. Quem torce a lei para levar vantagem sobre o pobre conspira contra o Criador. Quem corrompe os tribunais, subornando juízes e testemunhas para prevalecer sobre o pobre em juízo, entra numa batalha contra o próprio Deus onipotente. Insultar a Deus, porém, é uma insanidade consumada, pois ninguém pode lutar contra o Senhor e prevalecer. Por outro lado, quem socorre o necessitado agrada o coração de Deus. Aquilo que fazemos para os pobres, fazemos para o próprio Senhor. Quem dá aos pobres empresta a Deus. A alma generosa prosperará. Deus multiplica a sementeira daqueles que semeiam a bondade na vida do próximo. Tanto o pobre como o rico foram criados por Deus. Ele ama a ambos. Os ricos devem manifestar a generosidade de Deus aos pobres, e estes devem agradecer a bondade dos ricos a Deus. Aqueles que oprimem ao pobre, mesmo que acumulem riquezas, não desfrutarão de seus tesouros. Aqueles, porém, que socorrem o necessitado, mesmo que desprovidos dos tesouros da terra, possuirão as riquezas do céu.

GESTÃO E CARREIRA

TESTE – PRONTO PARA TRABALHAR DOBRADO?

Ter um trabalho ou um negócio e decidir começar uma segunda jornada em outro empreendimento não é para muitos. É apenas para quem tem fibra, gosta de desafios e possui a ambição admirável dos empresários de sucesso.

Porém, tarefa fácil não é e nunca será! Especialmente no início, a agenda é apertada, os problemas aparecem aos milhares e você vai sentir que tudo demandará mais tempo do que você dispõe. Está realmente preparado para encarar esse desafio?

1. ALÉM DO INVESTIMENTO, UM EMPREENDIMENTO PART TIME DEMANDARÁ TEMPO. COMO VOCÊ AVALIA ESSA QUESTÃO?

a) Já ponderei, mas acredito que só o dinheiro é suficiente para iniciar a nova operação por ela ser simples e apenas para complementação da minha atual renda.

b) Já ponderei, porém, nesse momento, só a análise do dinheiro é suficiente para iniciar a nova operação. No dia a dia avaliarei a questão do tempo a ser dedicado.

c) Tenho dinheiro e disponibilidade, mas não sei como isso ocorrerá na prática. Contudo, já estou desenhando alguns cenários possíveis, como acordar mais cedo ou jogar algumas tarefas para o fim de semana.

d) Tenho o dinheiro, o tempo e já comecei, na prática, a me organizar com as atividades cotidianas para conseguir dedicar tempo ao novo negócio.

2. VOCÊ JÁ REALIZOU UM PLANEJAMENTO FINANCEIRO DE MÉDIO A LONGO PRAZO?

a) Não exatamente. Tenho o aporte inicial, mas esperarei os primeiros resultados para investir.

b) Em partes. Tenho o aporte inicial e uma pequena reserva para os primeiros meses.

c) Sim. Fiz um business plan que apontou a possibilidade de ainda manter o meu emprego atual pelos próximos 12 meses.

d) Sim. Inclusive já há perspectiva de lucro após os primeiros meses de operação, sem a necessidade de aportar mais investimento oriundo do meu emprego fixo atual.

3. VOCÊ PODERÁ CONTAR COM UM SUPOR­ TE PRESENCIAL (PESSOAS DE CONFIANÇA) PARA RECORRER EM CERTOS MOMENTOS DECISIVOS?

a) Não. Contarei somente com meu esforço pessoal e buscarei me dividir nas tarefas.

b) Não. Por ser um pequeno negócio, acredito que conseguirei tocar as duas carreiras, simultaneamente, de forma tranquila.

c) Sim. Consultei um colega que se prontificou a me ajudar.

d) Sim. Tenho alguém de confiança e com experiência que se prontificou a mergulhar comigo neste empreendimento. Ele me substituirá nos momentos em que não for possível a minha presença nas tomadas de decisão.

4. VOCÊ SE SENTE PREPARADO PARA SE DEDICAR DE FORMA INTENSIVA A UMA GRADE DE HORÁRIOS APERTADA?

a) Não. O meu emprego ainda me consome muito. Preciso achar uma solução.

b) Em partes, pois, além de ter outro emprego, minha família ainda depende muito da minha presença.

c) Sim. Ficarei bastante desgastado, mas acredito que conseguirei tocar as atividades tranquilamente.

d) Sim. Estou motivado para abrir meu negócio e isso me incentiva a dividir meus períodos entre a

carreira profissional e meu novo empreendimento, mesmo que tenha que avançar em horários além do previsto para começá-lo. Sou multitarefas.

5. VOCÊ CONHECE, DE FATO, O SEGMENTO EM QUE VAI ATUAR?

a) Conheço um pouco, pois sempre me interessei pelo tema.

b) Ainda não conheço, mas buscarei informações que me auxiliem a tocar o negócio.

c) Sim. Tenho um amigo que possui uma empresa do mesmo ramo e me auxiliará com dicas para que o negócio cresça.

d) Sim. Estudei cautelosamente o segmento e estou a par das necessidades do meu público e como atuarei para satisfazê-lo.

6. COMO VOCÊ COSTUMA ORGANIZAR SUAS TAREFAS DIÁRIAS?

a) Tenho tudo anotado mentalmente.

b) Procuro listar as coisas que tenho a fazer em um papel e, de acordo com o andamento do dia, vou eliminando, deixando o que não consigo para o dia seguinte.

c) Pontuo os afazeres por ordem de prioridade, colocando-os na minha agenda para não esquecer nada.

d) Trago tudo anotado e só finalizo o dia com tudo feito e já organizado para o dia seguinte.

7. JÁ FOI IDENTIFICADA A NECESSIDADE DOS SEUS CLIENTES QUE A SUA EMPRESA ATENDERÁ OU QUAL PROBLEMA DELES ELA RESOLVERÁ? VOCÊ JÁ VALIDOU ESSAS PREMISSAS?

a) Tenho uma boa intuição para negócios e acho que consegui elaborar uma solução interessante para os problemas dos meus clientes.

b) Conversei sobre a minha ideia com alguns amigos e familiares. Todos eles a consideraram muito boa.

e) Entendo perfeitamente do que os meus clientes necessitam e pretendo fazer uma pesquisa para validar isso, mas ainda não sei como fazer.

d) Já mapeei todas as necessidades dos meus potenciais clientes e validei essas premissas através de uma pesquisa com perguntas objetivas para uma amostra bem significativa de pessoas.

8. VOCÊ JÁ ORGANIZOU UMA CONTA PARA A SUA NOVA EMPRESA? OU USARÁ SUA CONTA DE FINANÇAS PESSOAIS?

a) Não. Usarei, inicialmente, minha conta pessoal para movimentar as despesas da minha empresa.

b) Não, mas saberei separar um do outro utilizando extratos bancários e aplicativos de internet banking.

c) Sim. Já abri uma nova conta bancária para gerir o novo negócio.

d) Sim. Conversei com o gerente que me auxiliou na abertura de uma conta exclusiva para a nova empresa. Ainda negociei taxas de serviços mais vantajosas.

9. QUANTO AOS FORNECEDORES, VOCÊ JÁ OS MAPEOU?

a) Não. Farei conforme a necessidade.

b) Em partes. A princípio só necessito do meu próprio serviço.

c) Sim, mapeei, porém ainda estou analisando os prós e os contras de cada fornecedor.

d) Sim e já fechei a lista inicial, prevendo, inclusive, outras opções para sanar eventuais gaps na operação.

10. VOCÊ ESTÁ PREPARADO PARA TRABALHAR SOB PRESSÃO? E SOB DUAS PRESSÕES?

a) Acredito que sim, mas não vou me preocupar com isso agora.

b) Atualmente no meu emprego sim. Preciso começar a entender como enfrentar esses desafios, pois serão pressões diferentes a partir de agora, e a nova ainda é desconhecida para mim.

c) Sim, afinal sou multitarefas e sei a hora de acelerar e desacelerar.

d) Sim e vou me policiar para não acumular e transferir a pressão de uma atividade para a outra.

CONFIRA O RESULTADO DO SEU TESTE!

Para cada alternativa A, adicione 1 ponto. Para cada letra B, 2 pontos. Às respostas para a letra C, confira 3 pontos. E para cada letra D, 4 pontos. Depois, some o resultado e verifique em qual resposta você se enquadra:

DE 10 A 20 PONTOS

Querer nem sempre é poder. Empreender nas horas livres eganhar uma renda extra é o sonho de muitas pessoas, mas nem sempre é possível. Saber equilibrar é a grande chave para que o segundo trabalho ou renda não seja uma dor de cabeça e não prejudique o seu atual emprego. É preciso planejar muito bem a médio e longo prazo tanto a questão financeira quanto em relação ao tempo. A sugestão, portanto, é estudar etrabalhar mais a ideia eo projeto como um todo.

DE 21 A 30 PONTOS

Caminho certo. Você tem perfil empreendedor, mas precisa estudar maneiras de saber aproveitar e administrar seu tempo, dividindo-o entre suas tarefas principais para que os negócios não sejam prejudicados. Treinar uma pessoa de confiança e delegar algumas atividades são caminhos essenciais para o sucesso da nova empreitada, além disso, tente antecipar ao máximo os possíveis entraves, evitando ser pego desprevenido diante de uma agenda já apertada para execução das tarefas.

DE 31 A 40 PONTOS

Sim, você consegue! Além de conhecer seus pontos fracos e fortes, você consegue se organizar e estabelecer prioridades, estando presente nas decisões do seu negócio tanto quanto possível e necessário, apesar de só se dedicar a ele, teoricamente, por meio período, sem deixar de lado sua profissão e fonte de renda principal. Dividir-se entre duas jornadas não é fácil, mas você está conseguindo. O cuidado agora deve ser para continuar mantendo a balança equilibrada e fazendo a roda girar, dando lucro.

GUILHERME SIRIANI – é sócio-diretor da ba}STOCKLER, responsável pela gestão e crescimento de redes varejistas por meio de franquias. O executivo contabiliza onze anos de experiência na área comercial e vendas, com passagens por empresas de médio e grande porte, como Copias, Multicoisas, Mr. Cheney/Cookies e Portobello Shop.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

APRISIONADO PELOS PRÓPRIOS PENSAMENTOS

O transtorno obsessivo-compulsivo, conhecido como TOC, é mais comum do que se pode imaginar e, segundo estudos, acomete entre três e quatro milhões de pessoas somente no Brasil

Quando se ouve falar em TOC parece que se fala de algo bem distante. Porém, o transtorno obsessivo-compulsivo é bastante comum e encontrado na população em geral, hoje em dia. Esse distúrbio existe e se manifesta há muitos anos. No entanto, só passou a ser estudado e divulgado a partir da década de 80. Atualmente, é um problema que tem se mostrado comum, sendo estimado que, no Brasil, existam cerca de três a quatro milhões de indivíduos com o transtorno.

Uma pesquisa recente realizada pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH – National Institute of Mental Health), departamento oficial que financia pesquisas sobre cérebro, doenças mentais e saúde mental, em nível nacional naquele país, demonstra que esse transtorno afeta cerca de 2% da população. Através desse trabalho, pode-se dizer que o TOC é mais comum do que a esquizofrenia e outras doenças mentais graves. Trata-se do quarto diagnóstico psiquiátrico mais comum e décima maior causa de incapacidade por anos vividos.

Mesmo assim, apenas uma pequena quantidade de pessoas que sofrem da doença procura ajuda. Geralmente, porque elas sentem extrema vergonha de seus sintomas e acabam escondendo esses comportamentos. Não entendem que essas características fazem parte de um transtorno que pode ser tratado.

O QUE É

O TOC é um distúrbio psiquiátrico ou transtorno de ansiedade, caracterizado por pensamentos obsessivos e compulsivos, no qual o indivíduo é levado a realizar comportamentos que são considerados estranhos para a sociedade ou para ele mesmo.

Essas ideias invadem a mente do indivíduo de forma compulsiva e recorrente, produzindo alto nível de ansiedade. O indivíduo, então, é levado a realizar comportamentos específicos para tentar amenizar a ansiedade. Essas ações se tornam rituais incontroláveis e são elaboradas, também, de forma repetitiva.

Mas que ideias e pensamentos são esses? Geralmente, são ideias exageradas e irracionais relacionadas à saúde, higiene, organização, simetria e perfeição, que podem se tornar rituais e manias das mais diferentes formas.

Alguns exemplos com uns desses comportamentos podem ser lavar as mãos repetidamente; limpar a casa de maneira específica, usando objetos específicos que não podem ser trocados; organizar objetos por cor ou tamanho, não aceitando que eles fiquem fora de ordem; fechar o trinco da porta um determinado número de vezes, e muitos outros. Eis alguns casos:

Perturbada por pensamentos repetitivos de que pode ter se contaminado ao tocar maçanetas e outros objetos “sujos”, uma mulher de meia-idade passa horas todos os dias lavando as mãos. Suas mãos estão vermelhas e doloridas, descascando, e sobra pouco tempo para suas atividades sociais.

Um adolescente é atormentado pela ideia de que pode ferir outras pessoas por negligência. Não consegue sair de casa sem antes passar por um longo ritual de verificação, quando se certifica diversas vezes de que as torneiras e os bicos de gás do fogão estão fechados.

Mãe de dois filhos pequenos, uma mulher não consegue dormir antes de guardar e reposicionar milimetricamente os brinquedos dos filhos. Ela está cansada e irritada, porém, atormentada pela ideia de ser boa mãe, não consegue pegar no sono antes de organizar tudo.

Como descrito em exemplos acima, se o TOC se tornar grave, pode comprometer seriamente as atividades de uma pessoa em casa, no trabalho ou na escola.

CAUSAS

Apesar de ter sido descrito há mais de um século, e de haver vários estudos publicados a respeito, até o momento o transtorno obsessivo-compulsivo ainda é considerado um “enigma”. Não se sabe ao certo o que desencadeia o distúrbio.

O que se sabe é que ele é resultado da interação entre origem genética e fatores ambientais. Ou seja, pessoas com o histórico do transtorno na família têm maior tendência a desenvolvê-lo. Porém, isso não significa que a doença irá se manifestar.

Como muitos outros transtornos mentais, isso também vai depender do ambiente em que a pessoa está inserida e de fatores emocionais. É preciso identificar se o ambiente é mais hostil ou mais acolhedor, se possui regras e limites claros e com certa flexibilidade, ou se esses aspectos são rígidos demais. Que tipo de relacionamento prevalece com os pais ou responsáveis? Existe afeto ou é mais frio e distante? Como a pessoa lida com expectativas e frustrações? Esses são apenas alguns fatores que podem influenciar no desenvolvimento da doença. O fato de que alguns pacientes com TOC respondem bem a medicamentos específicos sugere que o transtorno tenha uma base neurobiológica. Por essa razão, não se atribui mais o TOC a comportamentos aprendidos na infância – por exemplo, ênfase excessiva em limpeza ou a crença de que certos pensamentos sejam perigosos ou inaceitáveis. Ao contrário, a pesquisa das causas atualmente se concentra primordialmente na interação entre fatores neurobiológicos e influências ambientais.

Acredita-se também que pessoas que desenvolvem TOC tenham uma predisposição biológica a reagir de forma acentuada ao estresse. Tal reação se manifesta sob a forma de pensamentos intrusivos e desagradáveis, que gerem mais ansiedade e estresse, criando, por fim, um círculo vicioso, do qual a pessoa não consegue sair sem ajuda.

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico é clínico, ou seja, de acordo com os sintomas apresentados, e deve ser feito por um médico.

PET – Positron Emission Tomography – Com o propósito de identificar fatores biológicos específicos, que possam ser importantes para o início ou a persistência do TOC, pesquisadores financiados pelo NIMH têm utilizado uma técnica denominada tomografia por emissão de pósitrons (PET – Positron Emission Tomography) para estudar o cérebro de pacientes com TOC.

Vários grupos de pesquisadores obtiveram informações, com o uso do PET, que sugerem que pacientes com TOC apresentam um padrão de atividade cerebral diferente do de outras pessoas sem doença mental ou com alguma outra doença mental.

Estudos com imagens cerebrais de pacientes com TOC demonstram atividade neuroquímica anormal em áreas do cérebro, com participação reconhecida em certos distúrbios neurológicos. Entre eles incluem-se a síndrome de Tourette, uma condição que se desenvolve em determinadas famílias, caracterizada por movimentos (tiques motores) e vocalizações (tiques vocais) abruptos, involuntários e repetitivos. Estudos genéticos de TOC e de outras condições relacionadas poderão algum dia possibilitar, aos especialistas, definir com precisão a base molecular desses transtornos.

SÍNDROME DE TOURETTE

O TOC também é encontrado em pelo menos 50% dos pacientes que têm a síndrome de Tourette (transtorno neurológico caracterizado por tiques motores e vocais ao mesmo tempo). Além disso, está relacionado ao mesmo gene responsável pela expressão dos tiques, tais como: movimentos motores ou vocalizações súbitas, rápidas, recorrentes, estereotipadas e não rítmicas, em resposta a sensações subjetivas de desconforto, segundo Rolak.

Estudos recentes mostraram que entre pacientes que apresentam TOC até 15% têm síndrome de Tourette, e entre pacientes que apresentam essa síndrome, de 20 % a 60 % têm sintomas obsessivos e compulsivos, sendo esta uma das comorbidades mais comuns em todas as faixas etárias.

As características clínicas mais frequentemente encontradas em pacientes com TOC, associado a tiques e/ ou síndrome de Tourette são: predominância do sexo masculino; início mais precoce dos sintomas obsessivo-compulsivos; maior frequência de fenômenos sensoriais; obsessões com temas sexuais e de agressão, colecionamento, rituais de contagem e simetria; maior frequência de compulsões do tipo tic-like; maior carga genética; maior número e variedade de sintomas obsessivo-compulsivos; maior comorbidade com tricotilomania, transtorno dismórfico corporal, transtorno bipolar, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, fobia social e abuso de substâncias.

PREVALÊNCIA

Os estudos de prevalência no Brasil ainda são insuficientes e pouco representativos. O sexo masculino estaria mais associado ao início mais precoce dos sintomas e à presença de tiques. E esse número aumenta no sexo feminino com a entrada da adolescência, chegando a uma proporção de 1:1 na idade adulta. Estima-se que cerca de 50% dos adultos com transtorno obsessivo-compulsivo tenha apresentado o início do TOC na infância.

Assim sendo, de acordo com esses dados, o transtorno obsessivo-compulsivo representa um distúrbio de extrema importância para a saúde pública. Além de bastante frequente, o TOC apresenta altas taxas de comorbidade com outros transtornos psiquiátricos.

COMO IDENTIFICAR

Considera-se que uma pessoa tenha TOC quando seus comportamentos obsessivos e compulsivos atingem gravidade suficiente para interferir em sua vida cotidiana. Na linguagem popular, muitas pessoas são chamadas de “compulsivas” por apresentarem um elevado padrão de desempenho em seu trabalho e, até mesmo, em alguma atividade de lazer. Essas pessoas não devem ser confundidas com pessoas que apresentam TOC.

Vulgarmente, algumas pessoas falam em “mania de perfeição”, “mania de limpeza”, “mania de organização”. Esse tipo de comportamento “compulsivo” ou “mania” geralmente funciona para a pessoa e contribui para a autoestima do indivíduo e seu sucesso no trabalho e na sua vida. Esse não traz nenhum sofrimento, não prejudica seu cotidiano e, assim, pode-se diferenciá-lo de obsessões e rituais.

SINTOMAS

Os principais são: pensamentos obsessivos – pensamentos repetitivos que interferem na vida do indivíduo; compulsões – comportamentos baseados nesses comportamentos, que se tornam rituais. É possível amenizar e controlar os sintomas. Porém, esses podem se intensificar ou não, dependendo da fase em que a pessoa está, podendo haver longos intervalos de sintomas.

O TOC aflige pessoas de todos os grupos étnicos. Tanto homens como mulheres são afetados e os prejuízos na relação com a sociedade e a família são muitos, principalmente de cunho social.

A família do portador sofre com as constantes alterações de rotina para se adaptar aos sintomas do portador. Os portadores do transtorno, normalmente, podem chegar a obrigar os demais membros da família a fazer o mesmo que eles, chegando a impedir o uso de sofás, camas, roupas, toalhas, louças e talheres, bem como o acesso a determinados locais da casa. Discussões e atritos são provocados por cuidados excessivos. Exigências e medos exagerados nem sempre são compreendidos ou tolerados pelos demais.

Prejuízos no trabalho, na carreira e no poder aquisitivo do portador e de sua família também são encontrados. Esses indivíduos acabam não conseguindo mais funcionar da forma esperada no trabalho, e demissões do emprego podem ocorrer.

Assim como separações conjugais, brigas e conflitos em família e até muita resistência em sair de casa. Dependendo da intensidade dos sintomas, algumas pessoas perdem a crítica sobre si mesmas e não buscam ajuda.

Como a doença é crônica, muitas vezes as famílias vão se adaptando a esses sintomas e exigências do portador para evitar conflitos no dia a dia. Porém, isso prejudica ainda mais a vida do portador e de sua família, pois os comportamentos são, assim, reforçados. A família ou pessoas de seu convívio devem tentar não reforçar os comportamentos compulsivos, não incentivando os mesmos. A busca de ajuda especializada é de extrema importância.

TRATAMENTO

Este pode ser medicamentoso, mas é principalmente terapêutico. A Psicoterapia Cognitivo-comportamental é a mais indicada.

TRATAMENTO COM MEDICAMENTOS – Não existe um medicamento específico para TOC. E essa parte será usada apenas para aliviar sintomas, visto que a doença não tem cura, e sim controle. Os antidepressivos se mostraram eficazes, pois aumentam a capacidade de o cérebro utilizar a serotonina.

TERAPIA COMPORTAMENTAL – Uma terapia tradicional, na maioria das vezes, não dá conta dos sintomas apresentados. Uma abordagem terapêutica comportamental, em que o paciente é deliberadamente exposto ao objeto ou à ideia temidos, tanto diretamente quanto pela imaginação, mostra-se bastante eficaz.

Por exemplo, uma pessoa que lave as mãos compulsivamente pode ser estimulada a tocar um objeto supostamente contaminado e, depois, evitar que lave as mãos durante horas. Essa técnica faz com que o paciente, gradualmente, diminua os pensamentos obsessivos, conseguindo permanecer sem atitudes compulsivas por períodos cada vez mais prolongados.

COMORBIDADES

É comum encontrarmos outros transtornos associados, como os transtornos do humor (depressão), o abuso e dependência de substâncias e os transtornos alimentares, como a anorexia e a bulimia. As comorbidades prejudicam o curso e a qualidade de vida de quem tem o transtorno. Além disso, interferem na evolução, no prognóstico e também na procura por atendimento especializado.

Transtornos de ansiedade e fobias também podem aparecer em indivíduos que apresentam TOC. Entretanto, geralmente o TOC é desencadeado após esses distúrbios. Em casos de transtorno de humor, esses podem ocorrer simultaneamente ao TOC, e a dependência química também relacionada pode ocorrer após o TOC.

PRIMEIRO RELATO SURGIU EM 1838

Apesar de muito frequente nos dias de hoje, o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) é um distúrbio que teve suas ocorrências iniciais em 1838.

Os primeiros relatos da doença foram desenvolvidos pelo médico psiquiatra francês Jean Étienne Dominique Esquirol (1772-1840). Ele detectou o caso de um jovem que se sentia extremamente aflito quando tinha de visitar sua tia. A senhora demonstrava angústia, porque pensava o tempo todo que o sobrinho queria roubá-la. Portanto, esse comportamento compulsivo da tia do jovem teve seu primeiro registro, mostrando que ela havia se transformado em refém do próprio pensamento. O psiquiatra francês estudou e foi discípulo de Philippe Pinel. Ao lado de seus colaboradores, entre os quais J. P. Falret, trabalhou na preparação da lei de 30 de junho de 1838. considerada modelo para muitos países, que previa a criação de instituições públicas para tratar de pessoas insanas. Ainda em 1838, publicou o estudo “Des maladies mentales considerées sous les rapponts medical, hygienique et medico-legal”. No tratado, definiu inúmeros fenômenos psicopatológicos, tais como a idiotia, demência, alucinações, termos usados até hoje.

TIC-LIKE

São muitas as reações tisicas provenientes de transtornos do tipo TOC ou de Tourette. As chamadas compulsões tic-like são semelhantes a tiques. porém realizadas com o objetivo principal de minimizar a ansiedade, o desconforto, o medo ou a preocupação, que são causados geralmente por uma obsessão. Alguns exemplos de compulsões tic-like são: tocar, esfregar, dar pancadinhas, piscar os olhos ou olhar fixamente.

CELEBRIDADES

Embora a síndrome de Tourette possa causar inúmeras dificuldades no que se refere ao convívio social, várias pessoas famosas e talentosas foram diagnosticadas com o distúrbio. Entre elas os escritores Hans Christian Andersen e André Maulraux. Napoleão Bonaparte, na imagem acima (líder político), Howard Hughes (industrial), Amadeus Mozart {músico), além dos Jogadores de futebol Tim Howard {goleiro da seleção dos EUA) e David Beckham (inglês).