EU ACHO …

DOAR A SI PRÓPRIO

Tendo lidado com problemas de enxerto de pele, fiquei sabendo que um banco de doação de pele não é viável, pois esta, sendo alheia, não adere por muito tempo à pele do enxertado. É necessário que a pele do paciente seja tirada de outra parte de seu corpo, e em seguida enxertada no lugar necessário. Isto quer dizer que no enxerto há uma doação de si para si mesmo.

Esse caso me fez devanear um pouco sobre o número de outros em que a própria pessoa tem que doar a si própria. O que traz solidão, e riqueza, e luta. Cheguei a pensar na bondade que é tipicamente o que se quer receber dos outros – e no entanto às vezes só a bondade que doamos a nós mesmos nos livra da culpa e nos perdoa. E é também, por exemplo, inútil receber a aceitação dos outros, enquanto nós mesmos não nos doarmos a autoaceitação do que somos. Quanto à nossa fraqueza, a parte mais forte nossa é que tem que nos doar ânimo e complacência. E há certas dores que só a nossa própria dor, se for aprofundada, paradoxalmente chega a amenizar.

No amor felizmente a riqueza está na doação mútua. O que não significa que não haja luta: é preciso se doar o direito de receber amor. Mas lutar é bom. Há dificuldades que só por serem dificuldades já esquentam o nosso sangue, que este felizmente pode ser doado.

Lembrei-me de outra doação a si mesmo: o da criação artística. Pois em primeiro lugar por assim dizer tenta-se tirar a própria pele para enxertá-la onde é necessário. Só depois de pegado o enxerto é que vem a doação aos outros. Ou é tudo já misturado, não sei bem, a criação artística é um mistério que me escapa, felizmente. Não quero saber muito.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

TODOS POR UM

Sem uma ação conjunta internacional, o planeta viverá uma crise humanitária sem precedentes

Os pedidos de ajuda e as previsões assustadoras de desastre iminente chegam rapidamente. O mundo está em alerta vermelho de uma forma que poucos seres humanos vivos experimentaram. Apesar do clamor urgente, a resposta internacional à catástrofe do coronavírus é, porém, nula, sem liderança e tardia.

Nula no sentido de que a escalado problema, especialmente nos países em desenvolvimento, é tão grande que é quase atordoante. A Oxfam diz que mais de 500 milhões podem ser levados à pobreza pelas consequências econômicas. A redução da pobreza global pode ser atrasada em 30 anos.

Empresas de alimentos, agricultores e grupos da sociedade civil indicam uma maré crescente de fome, a menos que as cadeias de suprimento de alimentos sejam mantidas e as fronteiras sejam abertas ao comércio. É necessária uma ação coordenada dos governos “para evitar que a pandemia de Covid-19 se transforme em uma crise alimentar e humanitária global”, dizem eles.

Os sistemas de saúde deficientes na África Subsaariana e no Sul da Ásia enfrentam um colapso. “O Covid-19 está prestes a destruir comunidades pobres, deslocadas e afetadas por conflitos em todo o mundo”, alertou Samantha Power, ex-embaixadora dos Estados Unidos que ajudou a construir uma coalizão para combater a epidemia de Ebola em 2014. “Três bilhões de seres humanos são incapazes de lavar as mãos em casa, o que torna impossível seguir os protocolos de higiene. Como as clínicas nessas comunidades têm poucas luvas, máscaras, testes de coronavírus, ventiladores ou capacidade de isolar pacientes, o contágio será exponencialmente mais letal do que nos países desenvolvidos.”

O Comitê Internacional de Resgate de David Miliband, ex-secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, diz que é uma dupla emergência. Primeiro, há o impacto direto “nos sistemas de saúde despreparados e nas populações com vulnerabilidades preexistentes”. Depois há o “caos secundário”, causado às economias e sistemas políticos dos Estados frágeis.

Preocupada com a deterioração da segurança, a ONU quer o fim de sanções unilaterais dos EUA a países como Irã, Cuba e Venezuela. Mas o governo Trump mostra pouca compreensão. António Guterres, secretário-geral da ONU, também busca um “cessar-fogo global” relacionado ao Covid.

Houve progresso em 12 países em conflito, informou o Grupo Internacional de Crises, “embora com níveis diferentes de entusiasmo e graus muito desiguais de seguimento”. Isso inclui o Iêmen, onde um cessar-fogo temporário da coalizão liderada pela Arábia Saudita começou. Os iemenitas têm, no entanto, outro problema, que a pandemia só vai agravar: uma redução iminente da ajuda do Programa Mundial de Alimentos para áreas controladas pelos rebeldes houthis. Ao menos 100 mil iemenitas morreram na guerra. Outros milhares poderão segui-los em breve, condenados por uma mistura letal de doenças, desnutrição e violência sem sentido.

No Iraque e na Síria, a disseminação do vírus instiga antigas inimizades, e não as atenua. Os EUA, a Grã-Bretanha e a França interromperam as missões de treinamento e assistência e aceleraram a retirada de tropas. Para os jihadistas do Estado Islâmico isso representa uma oportunidade. O EI tem pedido a seus seguidores que intensifiquem os ataques às “nações de cruzados” enquanto estão distraídas. “O medo desse contágio as afetou mais que o próprio contágio”, zombou o canal de propaganda do grupo, Al-Naba – conforme citado por Pesha Magid, um jornalista de Bagdá, na revista Foreign Policy. À medida que a pandemia avança, a ausência ou o fracasso da liderança internacional aumenta de forma crônica e escandalosa. Obstruído por discordâncias egoístas entre os EUA e a China, o Conselho de Segurança da ONU, reunido em sessão virtual, discutiu a pandemia pela primeira vez no início de abril, mais de três meses após a erupção. “A pandemia representa uma ameaça significativa à manutenção da paz e da segurança internacionais, potencialmente levando a um aumento da agitação social e da violência”, declarou Guterres. Apesar dos apelos, nenhuma ação foi tomada.

O Banco Mundial, o FMI e o grupo de países do G-20 devem discutir em breve o alívio da dívida depois que a ONU disse que 2,5 bilhões de dólares são necessários para ajudar os países em desenvolvimento a enfrentarem a tempestade. A Oxfam solicita 1 bilhão em financiamento de emergência imediato.

Enquanto isso, a Organização Mundial da Saúde, que desempenhou um papel crucial no início da conscientização, distrai-se com uma briga sobre Taiwan e com afirmações maliciosas de Donald Trump e comentaristas americanos de direita de que ela estaria ligada à China. Demonstrando a falta de tino que só ele poderia conseguir, Trump ameaçou congelar o financiamento.

A falha abjeta do presidente dos EUA em mostrar a liderança internacional esperada tem implicações sérias e negativas para a futura influência global de Washington. Xi Jinping, presidente da China, irritou muitos ao tentar ganhar pontos com propaganda. O russo Vladimir Putin está se isolando do mal.

Os líderes da União Europeia concordaram tardiamente com um pacote de resgate recorde de 500 bilhões de euros na sexta-feira 10, mas não conseguiram resolver uma briga feia entre Norte e Sul sobre “títulos corona” para socorrer os integrantes mais atingidos. Isso pode ter causado danos duradouros. Os primeiros-ministros da Itália e da Espanha foram francos: este é um momento decisivo para a UE. Ela falha em seu maior teste por sua conta e risco. O mundo esperou até ser tarde demais para se salvar? Richard Haass, um ex-diplomata dos EUA, diz que a falta de uma resposta internacional significativa” diz muito sobre o mau estado da governança global”. A frase “comunidade internacional” tinha de fato pouca base nas realidades geopolíticas de hoje, escreveu na revista Foreign Affairs.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 24 DE MAIO

PAZ DE ESPÍRITO, O ELIXIR DA VIDA

O ânimo sereno é a vida do corpo, mas a inveja é a podridão dos ossos (Provérbios 14.30).

Uma pessoa invejosa é aquela que se perturba com o sucesso dos outros. Não se alegra com o que tem, mas se entristece pelo que o outro tem. Um invejoso nunca é feliz porque sempre está buscando aquilo que não lhe pertence. Um invejoso nunca é grato, pois está sempre querendo o que é do outro. Um invejoso nunca tem paz porque sua mesquinhez é como um câncer que lhe destrói os ossos. A Organização Mundial de Saúde afirma que mais de 50% das pessoas que passam pelos hospitais são vítimas de doenças com fundo emocional. Quando a alma está inquieta, o corpo padece. Quando a mente não descansa, o corpo se agita. A paz de espírito é um bem precioso. Essa paz não está em coisas nem se compra na farmácia. A paz de espírito dá saúde ao corpo. Um coração em paz dá vida ao corpo. Um coração tranquilo é a vida do corpo. Mas como alcançar essa cobiçada paz de espírito? Pela meditação transcendental? Fugindo perigosamente pelo caminho das drogas? Entrando pelos labirintos do misticismo? Não, mil vezes não. A paz de espírito é resultado da graça de Deus em nossa vida. Somente os que foram reconciliados com Deus por meio de Cristo têm paz com Deus e desfrutam da paz de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

FORÇA DISTRIBUÍDA

Flexibilização de horário dos colaboradores, trato mais próximo com fornecedores, melhores relações humanas são algumas das vantagens competitivas de uma empresa de menor porte

Todo e qualquer negócio de sucesso nasceu pequeno. De uma ideia, uma necessidade identificada ou um buraco inexplorado, a oportunidade de sair da informalidade deu espaço para quase 6,5 milhões de brasileiros tornarem-se micro e pequenas empresas (MPE) ou microempreendedores individuais (MEI), segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Destes, 99% são micro e pequenas empresas, que respondem por 52% dos empregos com carteira assinada no setor privado (16,1 milhões). Um universo à parte que, a despeito do tamanho individual, concentra, juntas, uma participação muito efetiva na economia, na geração de postos de trabalho e na arrecadação tributária. Assim, com elas no mercado, há um natural aumento do número de empresas de cada setor, o que estimula o crescimento considerável da competitividade entre concorrentes. São elas o fôlego do Brasil.

Sendo startups, um mercadinho de bairro, um escritório de contabilidade ou uma senhora que faz marmitas, elas possuem, naturalmente, uma série de características com vantagens e desvantagens em face da economia e do cenário mercadológico.

De acordo com o especialista em PNL e administrador de empresas Eduardo Rocha, para administrar uma empresa de menor porte é necessário perceber que os cuidados e riscos são iguais aos das grandes companhias, contudo, a diferença é que os riscos são menores, mas, por outro lado, os recursos também. Inclusive em relação aos profissionais, ou seja, grandes empresas contam com gestores especialistas em cada departamento, enquanto um pequeno empresário, mesmo sem dinheiro, tem a capacidade de fazer isso sozinho. “O que percebemos é que grandes empresas possuem recursos suficientes para terem especialistas em cada setor, já o pequeno empresário rem que contar com seus próprios recursos para isso”, explica Rocha.

Em uma pequena empresa, o empreendedor acaba se tornando um grande generalista para conseguir lidar com todas as circunstâncias e especialidades. “Logo, é necessário, uma vez que temos riscos menores, ficarmos sempre atentos aos erros, buscando trazer um maior envolvimento dos funcionários, o que pode agregar muito nas decisões do negócio. Um bom gestor é aquele que consegue perceber o melhor de cada um. Assim, a administração de uma pequena empresa tende a ser mais assertiva”, opina Rocha.

O PODER DAS PEQUENAS

Na visão do CEO da consultoria de marketing digital Macfor, Fabrício Macfor, as pequenas empresas conseguem identificar mudanças no cenário e adaptar-se a elas de maneira rápida. “Quando falamos de um novo mundo onde tudo muda com uma velocidade exponencial, essas características são uma grande alavanca”, diz. O CEO da NetSupport, Frederico Queiroz, corrobora: “Grandes empresas têm processos burocráticos e grandes; em uma pequena empresa, a decisão não tem mais de um nível e a burocracia é praticamente nula”.

Além da clara vantagem de ser menor, as possibilidades de passar ilesos por problemas de maiores complexidades é menor também, mas, infelizmente, cada intempérie, geralmente, pode ser sentida por toda a equipe. Junto a isso, a pressão desleal dos grandes players, a escassez de recursos e a dificuldade em emplacar os primeiros “cases e grandes clientes” podem significar dificuldades na gestão. “Uma pequena empresa tem que comprar bem e vender melhor ainda, você não tem dinheiro sobrando e tem que ser duro nas negociações. Isso ajuda, porém você não tem escala de compras, não compra muito, isso diminui seu poder de barganha. O ponto é ser inteligente para comprar e não gastar mais do que precisa”, pontua Queiroz, da NetSupport, que terceiriza gestão de TI de empresas, principalmente as menores, que não costumam ter um time fixo para essas atividades.

Afinal, segundo ele, empresas não fecham somente por falta de clientes ou produto ruim, o principal problema é falta de dinheiro para rodar o dia a dia.

TRATO COM FUNCIONÁRIOS

Um grande desafio, porém, é atrair e reter talentos, mostrando a eles que a organização também tem vantagens e que, assim como acontece em grandes empresas, há sim possibilidade de crescimento e estabilidade.

Por isso, quando se consegue cultivar uma cultura de desafio com claro senso de propósito e responsabilidade dentro da empresa, acaba-se atraindo talentos que reconhecem o valor do negócio e o entrave de mão de obra é resolvido. “Grande rotatividade de funcionários mostra que sua empresa passa por problemas e que essas questões não estão sendo observadas”, lembra o especialista em PNL Eduardo Rocha. Ao contrário, quando o empresário constrói uma organização transparente com sua equipe, ele tem mais chance de que o senso de propósito e a sensação de pertencimento desta sejam mais claros e estabelecidos.

O caminho, portanto, é a flexibilidade na forma de gerenciar e negociar o futuro de cada colaborador, trazendo mais possibilidade de crescimento baseado em mensurações com opções a longo prazo, fazendo que cada membro da equipe cresça com a organização, conforme seus resultados, gerando aproximação e credibilidade necessárias para reter talentos e ter líderes na organização capazes de pensar como gestores, empreendedores e empresários.

A consultoria de marketing digital Macfor, por exemplo, localizada no interior de São Paulo, possui cerca de 20 funcionários e tem investido muito nesse envolvimento da equipe para crescer. Para tanto, vem aplicando várias técnicas diferenciadas de gestão que têm começado a chamar a atenção do mercado, com o a gestão libertária, na qual cada colaborador gerencia seu tempo; o inbound recruiting, de recrutamento mais segmentado, direcionado, neste caso, a buscar os melhores profissionais das universidades mais conceituadas do País.

NEGOCIAÇÃO EXTERNA

No entanto, como em todo negócio, ser menor não isenta MEIs ou microempreendedores de problemas. Seu tamanho também traz dificuldades inerentes ao perfil. O professor de Direito Empresarial do Damásio Educacional, Suhel Sarhan Júnior, lembra que como são empresas menores, geralmente constituídas em forma individual (empresário individual ou EIRELI – Empresa Individual de Responsabilidade Limitada), ou mesmo em forma de sociedade Ltda., normalmente são administradas pelos próprios titulares que, muitas vezes, não fazem a separação contábil das despesas e receitas empresariais das pessoais, o que pode ser um erro muito grande. “Por isso, a melhor forma de administrá-las é de fato criar uma contabilidade independente, não misturando com as contas pessoais. Caso as micro e pequenas empresas sejam constituídas em forma de EIRELI ou Sociedade Ltda., sua administração poderá ser exercida pelo próprio titular ou sócios ou mesmo por terceira pessoa contratada para este fim”, indica.

Uma situação que pode dificultar a composição e sustentação de negócios menores, segundo o professor da Damásio, é que dependendo do tipo societário, forma de composição social ou objeto social desenvolvido, mesmo que os limites de receita bruta não extrapolem o teto previsto em lei, não poderão estar enquadradas como, por exemplo: empresa de cujo capital participe outra pessoa jurídica; empresa que seja filial, sucursal, agência ou representação, no País, de pessoa jurídica com sede no exterior; empresa de cujo capital participe pessoa física que seja inscrita como empresário, ou seja, sócia de outra empresa que receba tratamento jurídico diferenciado nos termos desta Lei Complementar, desde que a receita bruta global ultrapasse o limite de que trata esta lei etc.

Outro problema que pode ser enfrentado pelo pequeno empresário acontece quando um grande cliente não parece satisfeito com o seu produto ou serviço, pois há um risco tremendo que essa insatisfação contamine o seu mercado. Para isso, torna-se necessário um acompanhamento mais próximo e um plano para contornar, o mais rápido possível, tal situação, buscando sempre a melhoria contínua e a disposição para mudar o jogo. “Grandes empresas têm muitos clientes, processos e muitas reuniões, isso pode causar o distanciamento deles. Em uma pequena empresa, deve-se estar muito próximo e ouvir seu cliente todos os dias, dessa forma você estará cada vez mais preparado para melhorar seus produtos e fidelizar seus clientes. Pequenas empresas geralmente conseguem flexibilizar melhor seus produtos para atender às demandas de seus consumidores. Isso personaliza a entrega, passa a impressão de exclusividade e eles gostam”, sugere Frederico Queiroz.

O importante é encontrar um nicho de grande oportunidade para o seu negócio, otimizando os seus custos e mostrando, assim, valor agregado. Dessa forma, é possível rentabilizar mais e melhor. Vale lembrar que, normalmente, empresas maiores possuem maiores facilidades com fornecedores na aquisição de produtos ou serviços, uma vez que compram em maior escala, consequentemente obtendo os melhores preços. “Entretanto, pensando nisso, há leis que possibilitam às micro e pequenas empresas se associarem e criarem as chamadas Sociedades de Propósito Específico, para comprarem juntas de fornecedores, a fim de que tenham maior capacidade de negociação”, explica o especialista em Direito Empresarial, Suhel Sarhan Júnior.

CLASSIFICAÇÃO

As micro e pequenas empresas podem ser classificadas de acordo com o número de empregados e com o faturamento bruto anual, sendo as MEls com faturamento anual até R$81 mil; Microempresa, com faturamento anual até R$360 mil; empresa de pequeno porte, aquelas que faturam entre R$360 mil e R$4,8 milhões por ano.

BENEFÍCIOSS DA LEI

A Lei Complementar n. 123/06 foi elaborada justamente para trazer tratamento diferenciado e simplificado para as micro e pequenas empresas. São os principais:

1. Optar pela forma de recolhimento de tributos por meio do Simples Nacional (forma de arrecadação tributária simplificada e que permite às micro e pequenas empresas pagarem alíquotas mais baixas);

2. Poderão litigar como autoras nos Juizados Especiais Cíveis e Federais, o que faz com que não precisem recolher custas judiciais em primeira instância;

3. Possuem também vantagens no acesso ao crédito e na participação em procedimentos licitatórios, em casos de desempate;

4. Obtenção de investidores-anjo, investidores que aportem capital sem necessariamente delas se tornarem sócios, entre outros previstos na LC n. 123/06.

FONTE: SUHEL SARHAN JR., docente do Damásio Educacional

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ALÉM DO QUE SE PODE VER

A deficiência física é uma marca impressa em diversos níveis do psiquismo. bebês, sejam deficientes ou não, começam a explorar seus corpos e aprendem que tocar as áreas genitais é algo que dá prazer

Nas duas colunas anteriores abordamos diversos aspectos da sexualidade da pessoa com deficiência física, enfatizando os acometidos por lesões medulares; neste post, trataremos dos fatores emocionais que podem estar envolvidos nessas situações, relacionando-os com a dimensão sexual.

Possuir uma deficiência atrai o estigma, o preconceito; conviver com ela é estar permeável a enfrentar dificuldades; compreendê-la demanda esforço, ajuda e determinação; aceitá-la requer afeto.

As fatalidades da vida nos são impostas inexoravelmente. Faz-se um hiato nas emoções, juízos que outrora tinham significado esfacelam-se e o sofrimento emerge, e esse conduz à desorganização, às dúvidas e às contradições. Se a deficiência acompanha a pessoa desde o seu nascimento, as pegadas do passado serão para os familiares e a sociedade as sombras do que o indivíduo poderia ter sido…; se ela foi adquirida, os rastros deixados, antes da sua instalação, serão as limitações do presente.

Pensar que as pessoas por terem uma deficiência semelhante apresentam personalidades similares é um equívoco. Apesar de não se observar uma personalidade que seja comum nas pessoas com deficiência, algumas particularidades merecem ser consideradas, como o momento de vida em que essa se manifesta; bem como as restrições que serão percebidas por cada indivíduo são essenciais para compor a complexidade do impacto no psiquismo e na sexualidade.

As características particulares, o processo psicológico que seguirá a instalação da deficiência (quando adquirida), a história pessoal, os valores sociais, ambientais e pessoais conquistados pela pessoa no decorrer da sua vida, assim como os fatores biológicos relacionados às deficiências determinarão suas atitudes diante da limitação. O grau da adversidade da deficiência pode influenciar a pessoa na sua adaptação, e independe dos processos psicológicos pessoais.

Em relação às deficiências adquiridas, é incontestável que mudanças ocorrerão em relação à identidade pessoal; obstáculos físicos, sociais e culturais trarão consigo novas experiências, que irão refletir em aspectos concretos e abstratos da personalidade/ sexualidade.

Existem diferenças de adaptação para aqueles que adquirem a deficiência ao longo da vida e aqueles que a apresentam desde o nascimento. Sentimentos de assexualidade podem estar presentes nos dois grupos, mas aqueles com deficiência congênita não raramente são superprotegidos, o que lhes causa isolamento social. Timidez e submissão podem ser decorrentes da dependência, dificultando a maturação e desenvolvimento sexual.

Além disso, a criança com deficiência requer mais cuidados dos pais ou cuidadores, por vezes insustentáveis; a criança capta essa rejeição, contribuindo isso ainda mais para a formação de uma autoimagem negativa. Pelos cuidados de saúde que a pessoa com deficiência demanda, outras questões como o desenvolvimento intelectual, pessoal, social e sexual podem ser negligenciadas.

As crianças nascem com sensações sexuais e as atividades de se balançar, acariciar e afagar-se realizadas de um modo carinhoso – são percebidas como agradáveis ao bebê e o ajudam a aprender a confiar e responder aos outros. Infelizmente, os pais que têm um bebê numa condição limitada fisicamente podem sentir-se esmagados pela tristeza e, como resultado disso, podem não balançar, acariciar ou afagar o filho tanto quanto o fariam com uma criança sem deficiência. A criança pode não aprender a desfrutar dessas sensações agradáveis, o que apresenta implicações futuras para emoções relativas à sexualidade.

Estereótipos de masculinidade estão relacionados à força física, demonstração de próprio poder, da capacidade de dominação, do estar seguro de si e de suas vontades em detrimento dos desejos alheios; pensando na pessoa com deficiência, esses estereótipos podem contribuir de forma negativa à sua (re)adaptação. Por outro lado, alguns segmentos da sociedade preferem definir as mulheres como seres mais fracos, passivos; de modo que a deficiência apoia essa imagem, sendo para essas mais fácil (aparentemente) esquecerem seu lado sexual, ou mesmo se tornarem assexuadas.

A adolescência traz consigo possibilidades de descobertas físicas, sociais, sexuais e relacionais; essa fase pode ser particularmente frustrante à pessoa com deficiência. Aconselhamentos neste período são altamente frutíferos, na tentativa de promover o amadurecimento de outros valores humanos.

Ressaltamos que a atividade sexual, com ou sem fins procriativos, é uma das principais formas de gratificação e promoção de autoestima que a existência nos proporciona.

O olhar da pessoa com deficiência vai além do compromisso de facilitar seu acesso aos locais públicos, meios de transporte e adaptações de infraestrutura. Entrar em contato com o outro pressupõe participação mútua; a pessoa com deficiência, nesse compartilhar humano, não desistiu do seu mundo imaginativo, e por conseguinte da sua sexualidade; mesmo que as aparências demonstrem conformismo ou receio recíproco; caso a pessoa sem deficiência considere estar perante um ser assexuado e, por sua vez, a pessoa com deficiência incorpore esse papel, instaura-se um distúrbio na comunicação, o discurso entre ambos estará prejudicado, comprometendo, portanto, a possibilidade de troca e a saúde da relação.

GIANCARLO SPIZZIRRI – é psiquiatra doutorando pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Ipq e professor do curso de Especialização em Sexualidade Humana da USP.