EU ACHO …

DAS VANTAGENS DE SER BOBO

  • O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.
  • O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”
  • Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem à ideia.
  • O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem.
  • Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas.
  • O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver.
  • O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes o bobo é um Dostoiévski.
  • Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar-refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.
  • Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
  • O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.
  • Aviso: não confundir bobos com burros.
  • Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre: “Até tu, Brutus?”
  • Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
  • Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu.
  • Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
  • O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
  • Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.
  • Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida.
  • Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
  • Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita o ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
  • Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
  • É quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

À SOMBRA DE MALTHUS

O aumento da população versus a escassez de recursos naturais gera novos debates acalorados entre cientistas

Carta Capital #1157 (19.05.2021)

Em 2011, quando a população global atingiu 7 bilhões, o economista David Lam e o demógrafo Stan Becker fizeram uma aposta. Lam previu que os alimentos ficariam mais baratos na década seguinte, apesar do crescimento contínuo da população. Becker previu que os preços dos alimentos subiriam, por causa dos danos que os humanos causavam ao planeta, o que significava que o crescimento populacional superaria a oferta de alimentos. Becker venceu e, seguindo seus desejos, Lam acaba de preencher um cheque de 194 dólares para a organização sem fins lucrativos Population Media Center, em Vermont (EUA), que promove a estabilização populacional em nível internacional. Os 194 dólares, cerca de mil reais, equivalem ao aumento de preço que uma cesta com cinco tipos de alimentos ­ óleos e gorduras, cereais, laticínios, carne e açúcar – e valor médio de mil dólares na década que terminou em 2010, sofreu na década seguinte, segundo o índice de preços de alimentos da Organização para Alimentação e Agricultura, da ONU, descontada a inflação.

A aposta se parece com outra feita em 1980, entre o biólogo conservacionista Paull Ehrlich e o economista Julian Simon. Mais uma vez, a questão era se a expansão da população humana era sustentável. Ehrlich, autor com sua mulher, Anne, de A Bomba Populacional, no qual previram a penúria em massa iminente, devido ao excesso de população, adotou a visão pessimista e Simon, a otimista. A medida da escassez de recursos naturais que eles escolheram foi a mudança no preço de cinco metais entre 1980 e 1990. Simon venceu.

Essas apostas são amplamente reconhecidas como uma simplificação de questões complexas, o que significa que seus resultados podem ser e foram muito discutidos, mas aqueles que pensam em questões populacionais ainda as consideram úteis. “Apostas desses tipos são importantes para chamar atenção para grandes problemas globais”, disse o demógrafo John Bongnarts, do Population Council, de Nova York, em um webinário em 9 de abril, no qual foi anunciado o resultado da aposta Lam-Becker.

A nova aposta deriva de um discurso acalorado de Lam, que trabalha na Universidade de Michigan, proferido na Associação Populacional da América, como seu presidente em 2011. As duas previsões dos Ehrlich não se realizaram. A produção de alimentos per capita havia aumentado 46% em relação ao meio século anterior, enquanto o número daqueles que viviam com menos de 1,90 dólar por dia, a definição do Banco Mundial de extrema pobreza em países de baixa e média renda, tinha caído mais de 30% desde 1981. Mesmo que 4 bilhões de seres humanos fossem acrescentados ao planeta, como se previa na época, Lam sentia-se confiante em que eles poderiam ser alimentados. No webinário do mês passado, ele indicou que o crescimento populacional tinha desacelerado desde 2011, com o acréscimo de, aproximadamente, 850 milhões de indivíduos desde então, enquanto a pobreza continuou a diminuir e a produção de alimentos per capita a aumentar. Isso foi verdade até na África Subsaariana, onde a produção de alimentos perdeu para o crescimento da população até a última década.

Becker, da Universidade Johns Hopkins, objetou em 2011 e uma década depois, não que fosse impossível alimentar 11 milhões de seres humanos, mas que essa perspectiva ignorava os danos colaterais a outras espécies e ao planeta. Ele indicou estatísticas da FAO que mostram que quase 70% das áreas de pesca estão super exploradas. Outros mencionaram estoque cada vez menor de água doce e a erosão da biodiversidade. “Toda a biosfera enfrenta problemas”, disse Becker.

Debates sobre a sustentabilidade da humanidade são constantes desde que Thomas Malthus afirmou, há mais de 200 anos, que o crescimento populacional tende a superar e abafar o crescimento econômico. O pessimismo das três décadas a partir dos anos 1950, personificado por Ehrlich, deu lugar a um período de otimismo por volta de 1950, quando a fertilidade começou a declinar, a revolução verde aumentou a produção de alimentos e os preços do petróleo despencaram. Mas, por volta de 2000 o pessimismo retornou, principalmente devido à crescente consciência sobre a crise climática e à previsão da Divisão de População da ONU de que a população global chegaria perto de 11 bilhões por volta de 2000, com a maior parte do futuro crescimento esperado pela África.

Os preços dos alimentos, como os dos metais, são voláteis. A demanda – o número de bocas a alimentar – é o principal fator que os conduz, mas o FFPI é um índice baseado no comércio também sensível a fatores pelo lado da oferta, como a proibição de exportações. O FFPI aumentou acentuadamente na década que terminou em 2010, em parte devido à alta demanda por cereais para produzir biocombustíveis, combinada com baixas reservas. Ele caiu na década seguinte, mas não o suficiente para compensar o aumento anterior. Becker ganhou com folga segundo os termos da aposta, mas Lam diz que estava certo de que haveria uma correção. “Em certo sentido, nós dois ganhamos”, diz.

Parte do motivo pelo qual a sustentabilidade humana continua um tema tão quente é que os especialistas discordam sobre como a população global vai crescer. A ONU acredita que o crescimento atingirá o pico no fim deste século, mas outros acham que será mais cedo. Pesquisadores da Universidade de Washington previram no ano passado que ela atingiria o máximo de cerca de 10 bilhões por volta de 2064, depois diminuiria ligeiramente para cerca de 9 bilhões até 2100. O principal motivo foi um melhor acesso a anticoncepcionais e à educação feminina na África, o que levaria a taxas de fertilidade menores lá mais cedo que     o previsto da ONU. A discrepância entre as duas previsões, de 2 bilhões de seres humanos até o fim do século, obviamente afeta os cálculos sobre o impacto da humanidade no planeta.

Outra questão é a equidade: talvez possamos alimentar praticamente todo o mundo, mas alguns serão mais bem alimentados que outros. Se muitos estiverem vivos, mas famintos, ainda poderemos dizer que o crescimento populacional é sustentável? Bongnarts disse que essa lacuna de equidade é visível e se amplia.

A FAO relata que a fome tem aumentado desde 2014 e 9% da população mundial está faminta hoje. Se a fome for definida como subnutrição, o consumo de alimento aquém das necessidades energéticas, a Asia representa a maior parte dela, mas os aumentos mais rápidos foram registrados   na África. “A situação não parece tão boa quanto David (Lam) previu”, disse Bongnarts.

Apesar de tender para o pessimismo, Bonganarts não prevê o futuro próximo da humanidade pontuado por catástrofes demográficas. Em vez disso, afirma, será um caso de deterioração   gradual da qualidade de vida. “Cada bilhão que acrescentarmos ao planeta torna a vida mais difícil para todas as outras”, disse. Os ricos conseguirão se proteger do pior por algum tempo, mas a maior parte da humanidade terá um “tempo terrível” nas próximas décadas. Previsivelmente, Ehrlich acha que Becker mereceu vencer a aposta e que, embora algumas de suas previsões estivessem erradas nos anos 1960, sua tristeza essencialmente se justificava. “Todo mundo que observou isso de perto sabe que não é possível a longo prazo, com qualquer das tecnologias conhecidas, sustentar 8 bilhões sem constantemente esgotar a capacidade de sustenta-las”, disse Ehrlich, hoje com 88 anos.

Becker citou vários estudos ecológicos que indicam que o número máximo de seres humanos que a Terra pode manter de forma sustentável é entre 2 bilhões e 3 bilhões, aproximadamente a população de meados do século XX. Uma parte essencial da solução para a atual dificuldade, segundo ele, é o “decrescimento”, cujo elemento mais importante é uma “ética de família pequena”. O problema é que desacelerar o crescimento populacional pode não resolver o problema ambiental, ao menos não em tempo.

Lam oferece a tendência a longo prazo de maior produção de alimentos per capita como evidência de que ele estava parcialmente certo. “Se nos preocuparmos com o consumo em massa mais do que com a fome em massa, é uma espécie de progresso”, diz. Mas ele também critica Simon, que morreu em 1998, por não distinguir entre o problema que o capitalismo conseguiu resolver e os que não conseguiu, ao menos por conta própria. A crise climática é um deles.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 23 DE MAIO

PACIÊNCIA, PROVA DE SABEDORIA

O longânimo é grande em entendimento, mas o de ânimo precipitado exalta a loucura (Provérbios 14.29).

Uma pessoa de estopim curto é mais explosiva do que uma bomba. Um indivíduo destemperado emocionalmente não apenas comete loucuras, mas exalta a loucura. Por onde passa deixa um rastro devastador. Sempre que fala, agride e machuca as pessoas. A insensatez está em seus lábios, e a agressão acompanha seus atos. É muito diferente o longânimo. Este pensa antes de falar. Suas palavras são medicina para a alma, bálsamo para o coração e deleite para a vida. Um homem paciente está sempre pronto para ouvir, mas reflete muito antes de abrir a boca. Suas palavras são poucas e comedidas. Mesmo quando ultrajado, não revida com ultraje. Prefere pagar o mal com o bem. Em vez de retribuir ódio com rancor, toma a decisão de perdoar. Em vez de amaldiçoar aqueles que o cobrem de críticas injustas, toma a decisão de abençoar e bendizer. Se a precipitação é a sala de espera da loucura, a paciência é o portal da sabedoria. A pessoa iracunda tenta controlar os outros com suas ameaças, mas o indivíduo paciente controla a si mesmo com sabedoria. Mais forte, porém, é o homem que tem domínio próprio do que aquele que ganha uma briga e conquista uma cidade.

GESTÃO E CARREIRA

BASE SÓLIDA EM UM MAR DE AREIA

Toda pessoa que inicia uma nova empresa deseja vê-la prosperar e alcançar um excelente patamar no mercado, mas, infelizmente, há um alto índice de mortalidade de empresas no Brasil. Conhecer os principais fatores que arruinaram um negócio e saber como contorná-los a tempo é o caminho para solidificar o empreendimento

Dados da pesquisa do Instituto de Informações de crédito Boa Vista pontuam qu1e, em setembro de 2019, os pedidos de falência subiram 59,8% em comparação com o mesmo mês do ano anterior. As micro e pequenas empresas respondem por 95,1% do total dos pedidos. Há ainda quem diga que a cada dez empresas criadas anualmente, mais da metade não sobrevive à primeira década de operação. Diante desses números (assustadores), como se motivar a criar um negócio e fugir dessas estatísticas?

No geral, as empresas que fecham as portas em um espaço de dois anos após o início das atividades são aquelas cujos donos tiveram menos tempo para planejar o negócio, não conseguiram negociar as melhores condições com fornecedores, não investiram na capacitação da mão de obra, não inovaram e não diferenciaram seus produtos da concorrência e tinham dificuldade de fazer o acompanhamento rigoroso de receitas e despesas.

Isso porque, na maioria das vezes, os pequenos negócios nascem sem o planejamento adequado e com recursos limitados, a partir da iniciativa de pessoas com pouca ou nenhuma experiência em gestão que, diante da ausência de alternativas (em situação de desemprego, por exemplo), apostam no empreendedorismo como uma forma de viabilizar o seu sustento. Naturalmente, pessoas inexperientes e sem conhecimento em gestão cometem mais erros e, diante da escassez de recursos para enfrentar as dificuldades do negócio, acabam sucumbindo com uma frequência enorme.

Uma pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em 2016 com mais de 2.000 empresas constituídas em 2011 e 2012 mostrou que não há apenas um único fator determinante para o fechamento de negócios no Brasil. ”A mortalidade da maioria está associada a uma combinação de fatores, em especial ao tipo de ocupação dos empresários antes da abertura (se desempregado ou não), à experiência ou ao conhecimento do empresário anterior no ramo, à motivação para a abertura do negócio, ao planejamento adequado do negócio antes da sua abertura, à qualidade da gestão e à capacitação dos donos da empresa em gestão empresarial”, pontua o doutor em economia e analista da unidade de Capitalização e Serviços Financeiros do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Giovanni Beviláqua.

DIAGNÓSTICO

A falência é o caminho adequado para o encerramento regular de negócios que se revelaram inviáveis e que se encontram em estado de insolvência, ou seja, não dispõem de patrimônio suficiente para fazer frente a todas as suas dívidas. Por outro lado, se o negócio se revela economicamente viável, mas, por qualquer razão, se encontra em uma situação momentânea de dificuldade financeira, é possível evitar essa medida drástica, valendo-se de ferramentas de reestruturação e recuperação de empresas, a exemplo da recuperação judicial.

Para “sair da UTI”, é preciso pensar na empresa como sendo um organismo único, que depende igualmente de todas as suas partes ou setores, considerando, por exemplo, que, em um cenário em que a falência da empresa está relacionada ao não pagamento de uma determinada dívida, a causa pode estar em qualquer outra área da empresa: as vendas não serem suficientes, os custos de produção podem estar altos, os clientes podem estar insatisfeitos ou terem demandas diferentes das que tinham etc.

Cada setor (administrativo, financeiro, comercial, suprimentos, jurídico, entre outros) tem seus indicadores e precisa ter métricas, que são definidas de acordo com o seu negócio e com a estratégia e impacto daquela ação. O dono da empresa precisa ter clareza dessa estratégia, impacto e resultado, fazendo a gestão de uma empresa bem-sucedida a caminho de ser autogerenciável.

Para o professor da Fundação Armando Alvares Penteado (FMP), José Sarkis, o empreendedor tem que começar a empresa já entendendo e alinhando o seu modelo de negócios, criando valor para sua organização.

Para isso, é preciso entender a necessidade e o desejo do cliente final e como oferecerá ao mercado algo que não tenha ainda – seja para um determinado segmento, nicho ou lacuna. “O primeiro grande fator é definir o modelo de negócio de um produto ou um serviço pensando no que trará de diferente para uma parcela do público consumidor, ‘como ele vai preferir o meu produto e não algo que já está no mercado?’. Se eu não conseguir responder a isso, inevitavelmente, cai-se em oferecer algo já existente no mercado advindo de alguma companhia que já deve estar estabilizada, só conseguindo gerar vendas e ofertas abaixando preço. E, provavelmente, em longo prazo, terá uma rentabilidade menor e uma dificuldade maior”, lembra.

PRINCIPAIS ERROS

Seguramente, não há “receita de bolo” para garantir o sucesso de um negócio. Mas é possível dizer que realizar um planejamento adequado e o investimento em ferramentas de controle, governança corporativa e gestão profissional são providências que aumentam muito, as chances de sucesso de qualquer empreendimento.

Os primeiros anos de atividade são, portanto, cruciais para a durabilidade de um negócio, seja ele de qualquer ramo ou tamanho; devendo o empresário evitar cometer duas das principais falhas nesse período, que podem prejudicar, e muito, esse primeiro fôlego: a incapacidade de formar uma boa carteira de clientes, ou de atender seus clientes eficazmente, e a impossibilidade de gerar lucro. “As microempresas (ME) constituem o grupo que tem maior peso no fechamento dos pequenos negócios, o que pode indicar que a estrutura mais organizada e o maior capital das empresas de pequeno porte e das médias e grandes conferem a esses negócios uma maior capacidade de resiliência necessária para manter o empreendimento em operação”, analisa o consultor do Sebrae.

Por isso, para um início empresarial saudável, a atenção é primordial. Na opinião do administrador, professor de administração de empresas do IAG – Escola de Negócios da PUC-Rio, Henrique Castro Martins, basicamente, as novas empresas morrem por três grandes razões:

1) falta de planejamento prévio sobre o próprio negócio;

2) falta de conhecimento para gestão das finanças, que leva à falta de capital e a problemas de fluxo de caixa;

3) falta de comportamento empreendedor e de capacidade de inovar.

Na outra ponta, empresas mais antigas, independentemente do tamanho, enfrentam os seus próprios problemas, talvez com maior experiência em contornar situações difíceis, mas não imunes a errar e sofrer graves e, talvez, mortais consequências. No caso desses perfis, um dos principais erros é a incapacidade de se profissionalizar e adaptar-se às novas demandas dos clientes mais atualizados, mantendo, muitas vezes, os negócios sob administração muito próxima do seu fundador. “É comum que essas empresas nunca se profissionalizem verdadeiramente (isto é, nunca criem sistemas de controles internos, de governança etc.) durante o período em que o fundador está nela. Esse processo de profissionalização, infelizmente, apenas ocorre, muitas vezes, quando é preciso buscar um sucessor para o fundador”, completa o docente da IAG da PUC Rio.

Em resumo, as empresas precisam estar prontas para se reinventar a qualquer momento. Aquelas que se acomodam na zona de conforto provocada pelo histórico de sucesso, normalmente demoram para identificar e reagir às situações de crise e acabam ficando no meio do caminho.

CONTORNANDO TEMPOS RUINS

Juridicamente, a empresa está “na UTI” quando faltam (ou na iminência de faltar) recursos para fazer frente às obrigações assumidas pelo negócio (pagamento de pessoal, compra de matéria-prima etc.). O especialista em recuperação de empresas Diego Montenegro ressalta, porém, que, enquanto houver geração positiva de caixa (sobra de recursos após o pagamento de todas as obrigações), o negócio se manterá vivo. “Por outro lado, ainda que a empresa seja economicamente lucrativa, se a geração de caixa for negativa, é preciso adotar medidas imediatas para a reversão do cenário, ou o destino do negócio será a falência”, ressalta.

Outro aspecto que merece bastante atenção, indicando que a empresa está à beira de uma crise, é a dependência de operações de crédito para a manutenção normal do giro do negócio. Vendo-se nesses casos, o empresário precisa admitir que algo deve ser feito com urgência, pois a sobrevivência do negócio está nas mãos dos credores, e não da administração da companhia.

Atenção, portanto, aos indicadores como fluxo de caixa, resultado operacional, gestão de caixa, ponto de equilíbrio e retorno sobre investimentos, que são medidos a partir dos dados que compõem as informações contábeis e financeiras das empresas, podendo ser avaliados em vários períodos, à medida que estejam disponíveis.

Por esses motivos, é importante que as empresas tenham um sistema bem organizado de coleta e organização desses dados, avaliando-os trimestralmente, no mínimo, junto a outros dados disponíveis da economia como condições de crédito, PIB, mercado de trabalho etc. “Saliento que todos esses indicadores e outros disponíveis na literatura de gestão são relativamente fáceis de ser calculados. O importante é que a empresa possua um sistema que permita a organização desses dados, bem como a sua exposição, além disso, é preciso que os gestores entendam o que são indicadores financeiros e saibam agir de acordo com o que eles demonstram em relação à saúde da sua empresa”, lembra Beviláqua, do Sebrae.

Se o empresário conseguir aplicar recursos e obter retornos acima dos custos desses recursos, a companhia está gerando valor para seus investidores. Se, além disso, a demanda dos clientes está sendo resolvida, então a empresa muito provavelmente está saudável financeiramente. O recomendável, na opinião do consultor Guilherme Machado, é que os empreendedores concentrem-se no seu público-alvo, buscando vender valor e propósito, com foco em educar o cliente, tendo a experiência como objetivo maior – surpreender com algo que gere valor para o cliente sem que ele tenha que pedir.

Junto a isso, o docente da PUC-Rio indica que os gestores sempre devem ficar atentos à geração de caixa da empresa, ao seu nível de liquidez (isto é, a proporção entre ativos circulantes e passivos circulantes), ao nível de endividamento (proporção de recursos de terceiros que a empresa está usando) e à sua lucratividade (isto é, margem líquida, margem bruta etc.). “Qualquer acompanhamento desses índices deve ser constante, em muitos casos, inclusive, diário. O gestor deve sempre ficar atento caso um ou outro desses dados comecem a cair de forma constante, variar demais ou, simplesmente, cair muito abruptamente”, alerta.

Por isso, Martins diz que é importante criar um bom sistema de controle para esses indicadores e, em paralelo, ter valores a partir do qual se ‘liga uma luz amarela e uma luz vermelha’, as quais permitem que o gestor e sua equipe de confiança tomem medidas corretivas imediatas que façam a empresa voltar a apresentar valores aceitáveis para esses indicadores.

Os exercícios e cálculos acompanharão o empresário, quase que diariamente, durante toda a vida útil de uma empresa, analisando a geração de caixa, o nível de liquidez do negócio, ou proporção entre ativos circulantes e passivos circulantes, o nível de endividamento e a sua lucratividade.

MEDIDAS ALTERNATIVAS

Em casos de precisar de uma recuperação, Montenegro indica que o primeiro passo é traçar uma estratégia global de reestruturação da empresa, que normalmente se sustenta em dois pilares associados:

I) reconfiguração da operação, com revisão de processos para redução de custos, aumento de eficiência / produtividade, entre outros; e

II) renegociação das dívidas. A depender das circunstâncias específicas de cada empresa, a renegociação das dívidas pode realizar-se extrajudicialmente, com a repactuação voluntária das obrigações existentes ou a substituição das dívidas atuais por outra(s) nova(s), mais apropriada(s) à realidade do negócio. “Todavia, quando não é possível, nas negociações com os credores, chegar a um consenso que de fato viabilize o soerguimento da empresa, o devedor pode valer-se da recuperação judicial para reestruturar suas dívidas e evitar a falência”, pondera o advogado.

O especialista em Governança Corporativa e sócio- fundador da Crowe, Marcelo Lico, lembra que a falência é um caminho sem volta, que pode prejudicar, também, a credibilidade do empresário para criação ou administração de outros negócios. Em alternativa, buscar investimentos externos pode ser o caminho, mas para conseguir investimentos a empresa deve mostrar ao potencial investidor que tem um produto que gera rentabilidade e que também tem uma gestão que transmite confiança e trabalha com total transparência.

Esse caminho pode “dar um gás” no capital de giro e conseguir um novo fôlego para uma operação mais saudável. Seja mediante equity (ingresso de novos sócios), seja através da realização de novas operações de crédito, em condições mais adequadas às possibilidades da empresa, a captação de investimento externo é uma ferramenta extremamente comum e útil em um processo de reestruturação empresarial.

O momento e a forma de fazer essa captação dependem muito da realidade de cada empresa. Certo é que, por um lado, operações dessa natureza, se feitas corretamente, podem salvar a companhia da crise, enquanto captações de recursos mal estruturadas podem provocar o efeito inverso, ou seja, precipitar a falência. “Por isso mesmo é fundamental que a companhia em dificuldade se faça assessorar por profissionais especializados e experientes nesse mercado, para garantir que essas operações sejam estruturadas de maneira adequada e eficiente”, indica Montenegro, advogado, especialista em recuperação empresarial.

APRENDENDO COM AS FALHAS

O presidente da holding Encontre Sua Franquia, detentora das redes Encontre Sua Viagem, Quisto Corretora de Seguros, SUAV, Fórmula Pizzaria e Acquazero, Henrique Mol, sabe o que é passar por maus momentos como empresário. Segundo ele, a falta de experiência o fez quebrar nos primeiros negócios que montou, dentre eles, uma empresa focada em publicidade para jornais de bairro. “Chegamos a atuar em cinco regiões de Belo Horizonte (MG), mas, devido ao alto índice de inadimplência e um acidente gravíssimo que tive, acabei fechando o negócio. Isso me mostrou que precisamos ter mais clareza nos negócios em indicadores para saber se estamos no caminho certo, ou é realmente necessário mudar o caminho rapidamente para seguir crescendo”, diz.

A tentativa frustrada não foi empecilho para dar novos voos. “Comecei a trabalhar para uma empresa de tecnologia, responsável pelo setor comercial, e minha função era encontrar soluções ao mercado de turismo, principalmente no que se referia a agências de viagens. A instituição havia acabado de lançar um produto para o setor, mas na época contava com pouquíssimos clientes. Foi aí que vi uma chance para crescer profissionalmente, já que eu conhecia o segmento por ter tido várias agências como clientes na empresa do meu pai”, explicou.

Em suas mãos, o negócio apresentou sinais de crescimento. Nessa experiência, Mol conheceu ainda mais o setor e as necessidades que o comportava e, a partir daí, iniciou uma nova jornada de sucesso, em 2011, criando a Encontre Sua Viagem, seguido pelo lançamento de outras cinco redes.

Hoje, ele lidera um grupo que, juntas, soma quase mil unidades espalhadas pelo Brasil, em menos de dez anos no franchising. “Uma empresa de sucesso é aquela que nasce para solucionar os problemas recorrentes das pessoas. Para saber quem você pode ajudar, é preciso pesquisar, desenvolver um perfil/ persona”, pontua o consultor e coach empresarial Guilherme Machado.

Essencial é entender que o sucesso não diz respeito ao tamanho da empresa, mas sim à mentalidade empreendedora, que está associada a ter propósito e visão de mercado para conseguir ver as oportunidades do seu negócio, além de estar disposto a canalizar todas as suas forças para fazer dar certo. “Isso requer um bom capital intelectual e emocional para lidar com os desafios. A diferença está no mindset, na maneira de pensar. As empresas grandes são menos propensas a errar porque já vivem em um ambiente próspero. Na empresa menor, às vezes o empreendedor pensa mais na crise, nos problemas que está vendo e acaba criando uma crença autorrealizável para si mesmo”, lembra.

5 PRINCIPAIS MOTIVOS PELOS QUAIS AS EMPRESAS QUEBRAM

• DIFICULDADE EM PLANEJAR E CONTROLAR O FLUXO DE CAIXA – o grande problema é que as vendas são feitas hoje, e os recebimentos, em sua maior parte, executados depois. Quanto mais você vende, mais cede crédito e, nesse meio-tempo, pode ficar inadimplente e com dificuldades de se reequilibrar: “bancos são relutantes em emprestar dinheiro para quem tem problemas de capital de giro. Costumam gostar muito de emprestar para quem não precisa de dinheiro, mas não gostam de emprestar para quem está em dificuldades”.

• DESCONHECER SEUS CUSTOS: As empresas costumam responder à pergunta “qual é o seu custo por produto?” com uma resposta do tipo “em média 50% o valor de venda”. Isso significa que o cliente não sabe quanto custa cada produto que ele vende, algo inadmissível em tempos nos quais sistemas simples realizam esse cálculo de forma rápida e razoavelmente adequada.

• DESCONHECER OS LIMITES DE SUA ESTRUTURA DE CAPITAL: “Mais da metade das empresas com as quais trabalho enfrentam problemas no crescimento agressivo. É aquela venda gigante, oferecida pela cadeia de atacadistas, para ser fechada amanhã, que costuma gerar os problemas mais graves”. Segundo Flávio, crescer requer capital de giro, investir também e desfazer investimentos malfeitos queima capital. Tudo está atrelado a quanto capital se tem acesso. Não obrigatoriamente o seu, mas também aquele que pode ser emprestado.

• NÃO PROTEGER O FATURAMENTO: O termo “proteger” neste caso serve para volume e preço. As empresas apostam muito no desconto e nas liquidações para aumentar faturamento e esquecem quanto afetam, com isso, a percepção de valor do produto, que pode demorar anos para voltar a ser vendido em mesma escala pelo preço convencional. O comercial é o coração da empresa e a maioria acaba morrendo por falta de posicionamento comercial adequado.

• NÃO SEGUIR, OU NÃO TER SEU PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO: Se você determinou uma certa estratégia para seu negócio, testou a dita cuja, montou um plano estratégico que faz sentido, siga-o. Não tente na primeira dificuldade alterar o plano. Este negócio de mudar de direção à medida que o vento muda é bom para corrida de veleiros. Em todo o resto não faz tanto sentido. É obvio que você não precisa cimentar seus pés no pilar da ponte Rio-Niterói, mas tente manter o rumo aproado.

Fonte: FLÁVIO ITAVO, especialistas em turnaround.

EMPRESAS MAIS VELHAS ERRAM?

Falhas na gestão não são exclusivas de empresas mais novas, apesar de serem mais comuns nesse grupo. Falta de controle no planejamento, nas contas, no atendimento, na equipe e no próprio equilíbrio emocional do empreendedor podem ser fatais para as empresas, sejam elas novas, sejam mais antigas em suas áreas de atuação. A principal razão para esse erro não é falta de entusiasmo, mas sim de conhecimento, e isso, frequentemente, leva as empresas a cometerem erros que poderiam ser evitados. Alguns desses erros derivados da falta de conhecimento são:

•  Não ter um planejamento estratégico ou achar que um plano de negócios não é importante.

•  Deixar de acompanhar o mercado em que está inserido e não conhecer bem seu cliente, a concorrência e os fornecedores e demais parceiros.

•  Fazer uma estimativa equivocada do tamanho do seu mercado.

•  Fazer um controle deficiente do fluxo de caixa e da necessidade de capital de giro.

•  Não estar atento à conjuntura econômica e política do país e desconsiderar os seus efeitos sobre os mercados de atuação da empresa.

•  A não separação clara entre o dinheiro da empresa e o do empresário.

•  Não contratar bons colaboradores e não investir na sua qualificação.

•  Não ter uma área de processos bem desenhada e organizada, com a adequada coleta e análise

de dados sobre o negócio, clientes, produtos etc.

•  Não atentar para a comunicação institucional e as relações com o mercado que, se deficientes, podem gerar danos à imagem da empresa com consequências diretas sobre a sustentabilidade dos negócios.

Fonte: GIOVANNI BEVILÁQUA, do Sebrae nacional.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A MEDIDA DO “EU”

Na sociedade contemporânea, o viés temporal da construção da identidade coloca um desafio diário: como equilibrar o tempo social, mecânico, com as nuances do tempo subjetivo?

De um lado, adolescentes concedem a fala frágil a um dos mais respeitados documentaristas brasileiros. De outro, no âmbito da ficção, um fotógrafo retorna à casa da ex-mulher para passar alguns dias e lá se aproxima novamente da intimidade quase fora de alcance. A intersecção entre o documentário Últimas Palavras, de Eduardo Coutinho, e o longa Permanência, de Leonardo Lacca, acontece em um território dos mais férteis para o campo da Psicologia: no diálogo entre tempo e identidade. O sociólogo e psicólogo italiano Alberto Melucci deu ênfase a essa temática ao longo de O Jogo do Eu: a Mudança de si em uma Sociedade Global, obra na qual trabalha a formação identitária no mundo contemporâneo.

A busca por uma unidade onde limites e características estejam bem estabelecidos marca fortemente a constituição subjetiva. De acordo com Melucci, continuidade do sujeito – independentemente das variações no tempo e das adaptações ao ambiente – , delimitação em relação aos outros e capacidade de reconhecer-se e ser reconhecido assinalam a identidade do indivíduo ou de um grupo.

Dentro dessas características, podem ser notados atravessamentos temporais de naturezas distintas. Muito além de um ponto fixo, estático, o conceito ilustra um processo de criação e transformação com base em perspectivas passíveis de mudança, que geram mais autonomia. Ao dar ênfase à criatividade ao invés de sublinhar uma história inalterável, o autor confere caráter libertário ao tema. Por outro lado, justamente devido a essa maleabilidade, cria-se um sentimento de insegurança, pois “nada é definitivamente perdido, mas também nada é definitivamente adquirido”. Dessa forma, a experiência de si constitui-se pela provisoriedade e reversibilidade dependentes de escolhas.

A profunda incerteza sobre como agir e a necessidade de tomada de decisão constante compõem o chamado paradoxo da escolha. “A descontinuidade e a fragmentação da experiência que a complexidade introduz criam um esvaziamento do ‘sujeito’ como essência com características permanentes”.

O conceito de complexidade estabelecido pelo autor diz respeito à diferenciação, velocidade, aumento na frequência das variações e ampliação das possibilidades de ação. Esse quadro leva os indivíduos à crescente dificuldade de transferirem de um tempo a outro um mesmo modelo de ação. Como avanço da tecnologia, abrem-se mundos com culturas, linguagens, conjunto de papéis e regras distintos, os quais exigem adaptação. O processo comporta a pressão constante de mutação, transferência e tradução para novos códigos e formas de relações.

Diante desse cenário revelam-se dois sentimentos latentes: perda e frustração. O temor de abandonar alguma possibilidade priva todas de significado para anular seu apelo. E numa ação sem sentido, oscila-se entre o excesso e o tédio, extremos apresentados tanto no documentário de Coutinho quanto no filme de Lacca. O mundo de oportunidades diante dos adolescentes ou do cenário artístico de São Paulo se perde entre tantas outras direções e os indivíduos experimentam na pele o paradoxo da escolha.

DENTRO DA ENGRENAGEM

Se a identidade comporta tantos direcionamentos temporais, é necessário ir mais a fundo no conceito de tempo – culturalmente traçado, dividido e estancado numa tentativa de apreensão. Para Melucci, essa medida se apresenta corno uma multiplicidade de eventos, cada qual caracterizado por sua própria duração.

O psicólogo trabalha três metáforas principais registradas ao longo da história da cultura: o círculo, percebido como um retornar cíclico de todas as coisas, segundo a lei imposta por um evento primário e atemporal; a flecha, herança do cristianismo, que assinala um percurso linear, cujo final dá sentido ao trajeto e traz a salvação; e o ponto, relacionado à fragmentação.

A última figura, delineada pela aferição digital do relógio, direciona um processo de mudança perceptiva. “Quando a medida do tempo torna-se pura leitura de números, sequência ininterrupta mas descontínua de sinais, vibração eletrônica de regularidades imutáveis, então o ponto assume o predomínio, modificando profundamente nossa experiência de duração, da continuidade, da relação entre o antes e o depois”.

Renegar as nuances do tempo subjetivo e adequá-lo à força ao tempo social conduzido pelas máquinas traz consequências evidentes. Em Permanência, o marido de Rita é o típico homem atribulado, conectado inteiramente ao trabalho. Já Ivo, fotógrafo que flana entre Recife e São Paulo sem porto definido, reconstrói sua história por meio de fotogramas estáticos e imerge na cena noturna paulistana em noites intermináveis. Os dois, de uma forma ou de outra, convergem ao ritmo acelerado da capital, mas são as inconstâncias e desregramentos do artista responsáveis por levar novo fôlego à personagem Rita, exaurida pela rotina de jornalista. Os antigos amantes também foram consumidos pela engrenagem – o único resquício de sentimento inscreve-se em fotografias antigas, perdidas em meio a novos registros. Para Melucci, a rotação dos dias abarrotados de possibilidades para as quais não temos resposta resulta, muitas vezes, numa espécie de insensibilização, uma anestesia por excesso de estímulos que anula todo o espaço interior.

A sonorização do longa enfatiza esse aspecto. O barulho incessante da atividade da cidade parece barrar qualquer registro da memória – não fossem os fotogramas, estaria tudo perdido. As palavras dos personagens são emudecidas no metrô, na fábrica e nas máquinas de café, trituradas por um tempo sem comunicação concreta.

A dimensão puntiforme impulsionada pelo capitalismo – ou esquizofrênica, numa aproximação com o pensamento de Deleuze e Guattari – traz em si o incômodo do deslocamento contínuo. Entretanto, nesse contexto, o psicólogo italiano destaca como possibilidade a reativação do horizonte da presença como capacidade de viver momento a momento. Esse seria o real desafio apresentado pelo cotidiano: manter algo de genuíno em meio à multiplicidade desagregadora da produção social; desconectar-se dos tempos externos quando o tempo subjetivo clama por passagem.

No mundo globalizado, afirma Melucci, vivemos todas as figuras do tempo: o círculo repetido entre memória e projeto, o movimento linear da flecha como intenção e objetivo, a conjunção do ponto ou a experiência de nos perdermos nele. A união dessas metáforas se dá pela figura da espiral, no movimento circular avançando no espaço, onde “expressa-se o sonho, demasiado humano, de que o fluir também possa ser um conservar-se”.

QUEBRA DO EU MONOLÍTICO

No documentário de Coutinho, realizado com estudantes do ensino médio, percebe-se como as falas estão impregnadas de ideais construídos socialmente. A perda da ingenuidade e criatividade autênticas da infância causam certa irritação no diretor, sentimento perceptível quando aponta a “mentira” na fala dos jovens. Em Permanência, os personagens também sofrem do mesmo mal: agir conforme o script.

No âmbito coletivo, a identidade do grupo regula os critérios para o reconhecimento do indivíduo como membro. Dentro das sociedades tradicionais a noção se estabelecia de forma metassocial: ou seja, estava no tempo mítico das origens ou coincidia com a figura do líder. Essas formações, segundo Marilena Chauí, baseiam-se na exterioridade do saber-poder fundador para, assim, garantirem o aspecto de intemporalidade. “E esta se transmite à sociedade que pode, então, representar-se a si própria como pura identidade consigo mesma e como intemporal”.

Nos modelos propriamente históricos, onde condições determinadas e transformações estão em aberto, a autora destaca a fixação identitária por meio da ideologia – noção afirmadora de unidade, identidade e homogeneidade ilusórias por meio de diferentes mecanismos de controle e alienação, visando manter o poder dominante.

À medida que reconhecemos as formas identitárias como produto social, criamos as condições para a individualização dos processos de atribuição e de reconhecimento. Ou seja, na sociedade moderno-industrial adquirimos a capacidade autônoma de nos definirmos como indivíduos. Nem sempre é possível contornar os mecanismos ideológicos, mas, por meio do engajamento consciente, abre-se espaço para uma articulação crítica dentro do próprio discurso ideológico, a fim de desconstruí-lo.

Apesar dos padrões absorvidos, essenciais para a integração ao grupo e noção de pertencimento, Melucci destaca justamente o caráter criativo da construção da identidade, o qual integra passado, presente e futuro na história individual. Como não há fim nesse percurso, é preciso renunciar ao enfoque estático e atentar aos processos móveis de identificação. “Não é mais viável pensar no sujeito como um ente dotado de um núcleo essencial, definido de modo metafísico, mas devemos redirecionar nossa atenção para os processos com os quais os indivíduos constroem a identidade. A identidade de um eu múltiplo torna-se identização”.

Ao abordar a questão da multiplicidade, Deleuze e Guattari vão mais longe: defendem as diversas vozes do esquizofrênico na Psiquiatria materialista, em contraste ao estreito ponto de vista do eu estabelecido por Freud, com base na fórmula edipiana. Como pensar o inconsciente atrelado à representação e significante não bastava aos autores, conceberam uma nova forma com base no construtivismo inconsciente, capaz de abarcar o múltiplo e o real ao invés do imaginário e simbólico. Nesse sentido, descreveram o termo como uma máquina produtiva onde o desejo não está reduzido à questão da falta, mas diz respeito a uma lógica de fluxos.

“A grande descoberta da Psicanálise foi a da produção desejante, a das produções do inconsciente. Mas, com o Édipo, essa descoberta foi logo ocultada por um novo idealismo: substituiu-se o inconsciente como fábrica por um teatro antigo; substituíram as unidades de produção inconsciente pela representação; substitui-se o inconsciente produtivo por um inconsciente que podia tão somente exprimir- se (o mito, a tragédia, o sonho….)”.

Retomando o pensamento de Melucci, o autor conclui que a identidade não pode nem deve ser concebida como “unidade monolítica de um sujeito”, pois indica um sistema de relações e de representações. Se fosse atemporal, intemporal e deslocada da história, estaria mais próxima à ideologia.

O conceito de identização expressa um caráter processual, autorreflexivo e construído. Como identidade em si, ressalta a capacidade de reconhecermos os efeitos de nossas ações como nossas, seria a base da responsabilidade. Apesar dessa noção, Melucci reflete sobre a ilusória relação linear do tempo, a qual esconde os entrelaçamentos entre as diversas dimensões.

Para problematizar a questão da responsabilidade de si, um aforisma de Nietzsche se mostra adequado. Para o filósofo, a história dos sentimentos morais – em virtude dos quais nos tornamos alguém responsável por nossos atos – é a história de um erro, o erro da responsabilidade baseado no erro do livre-arbítrio.

Em sua descrição, primeiro chamamos as ações isoladas de boas ou más devido às consequências úteis ou prejudiciais. Logo, esquecemos a origem das ações e pensamos nessas qualidades como inerentes a elas. Em seguida, as introduzimos nos motivos e, depois, damos o predicado bom ou mau não mais ao motivo isolado, mas a todo o ser. “E afinal descobrimos que tampouco este pode ser responsável, na medida em que é inteiramente uma consequência necessária e se forma a partir dos elementos e influxos de coisas passadas e presentes: portanto, que não se pode tornar o homem responsável por nada, seja por seu ser, por seus motivos, por suas ações ou por seus efeitos”.

Sendo o livre-arbítrio uma utopia ou não, dentro das limitações impostas pelas ações no tempo e pelas condições socioculturais, parece haver um campo maleável onde algum nível de escolha se mostra possível. De qualquer forma, retomando o paradoxo de Melucci, as decisões urgentes tomadas instante a instante não gozam da completa autonomia associada a elas.

ARTE E ENVELHECIMENTO

Em Últimas Palavras, obra derradeira de Coutinho, o ambiente fala por si só. Na sala escolhida, a presença do velho documentarista estabelece um diálogo entre o próprio passado e o futuro dos adolescentes, em uma situação posta que remete ao espaço terapêutico. As várias histórias e seus tempos subjetivos adentram a cena estática alterando a temporalidade ali imposta – um espelho do próprio conceito de identidade proposto por Melucci.

E essa divagação não é à toa – a inspiração proporcionada por um filme, um texto ou uma tela pode levar a lugares inexplorados de si mesmo e a outras dimensões temporais. Para Deleuze e Guattari, a arte é a máquina desejante por excelência e “… as máquinas desejantes não param de se desarranjar enquanto funcionam, e só funcionam desarranjadas: o produzir se enxerta sempre no produto, e as peças da máquina são também o combustível. A arte utiliza frequentemente essa propriedade, criando verdadeiros fantasmas de grupo que curto-circuitam a produção social com uma produção desejante, e introduzem uma função de desarranjo na reprodução de máquinas técnicas, como os violinos queimados de Arman (Fernandez), os carros comprimidos de César (Baldaccini)”.

Tão rica quanto a arte – retratada por meio da fotografia em Permanência – pode ser a experiência do envelhecimento, do encontro com o limite. Entretanto, a leitura mediada da realidade própria das novas gerações diante do excesso de estímulos – rápidos demais para serem apreendidos e vividos como experiência – traz um outro quadro. Melucci afirma categoricamente que os novos sofrimentos e patologias dos jovens estão ligados ao risco de dissolução da perspectiva temporal. “Um tempo de muitas possibilidades transforma-se numa possibilidade sem tempo, isto é, em puro fantasma de duração”.

Se o desgaste, a exaustão e a indiferença podem ser consequências do excesso, uma saída está em perceber o novo fluxo de metamorfoses das linguagens e das relações. Diante delas, reflete o autor, é preciso mudar de forma, reverter decisões, participar e subtrair-se às mensagens, à chamada dos possíveis e às exigências dos afetos. “Na alternância de ruídos e silêncios, podemos aprender a salvaguardar um espaço interior que deve ser conservado, tanto na mutação das linguagens e dos interlocutores como na ausência de comunicação”, conclui.

CRISTINA TAVELIN – é jornalista, crítica de cinema e possui especialização em Psicologia Analítica com a tese ‘A sombra na contemporaneidade: o corpo como sombra da razão a partir da análise da personagem Joe nos filmes Ninfomaníaca Volumes I e II.

Email: cristina.tavelin@gmail.com