A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS “BURCAS” MÍTICAS QUE VESTIMOS

Submissão, o livro polêmico do ano, conta uma história que se passa em 2022 em uma França islamizada: Mulheres se submetem ao patriarcado, aceitam a poligamia dos homens e perdem direitos humanos

Uma charge na revista Charlie Hebdo anunciava o romance Submissão como as previsões do mago Michel Houellebecq, um escritor francês ficcionista. No barulho midiático do lançamento desse livro, a redação da revista que trazia a caricatura do autor foi atacada por dois muçulmanos. Eles portavam armas automáticas e, no silêncio das mortes, ouviu-se um grito: “O profeta foi vingado”. Não se sabe se o livro teria uma relação direta com o ataque; ou se este resultou apenas dos desenhos satíricos, do profeta Maomé, que profanou o sagrado do mundo islâmico.

Em Submissão chega ao Bernard Bonabess, do partido poder da Irmandade Muçulmana, que faz coalisão com outros partidos na França. O homem ocidental adiposo e entupido de drogas de todos os tipos, sem uma vida organizada em rituais, não possui estrutura que lhe permita ter um modo de contemplar o sagrado dos mistérios da existência. Isso deixa um vazio que facilita a genialidade política de um muçulmano, Ben-Abbes, que faz acontecer a ascensão do Islã.

A Fraternidade Muçulmana, em lugar de colocar a economia no centro de tudo, aposta no aumento da taxa de reprodução e nos valores transmitidos por seus pais. O lema é: “Quem controla as crianças controla o futuro”. Os professores são todos muçulmanos. Separam as turmas por sexo a fim de aprenderem as leis do Alcorão. Aprendem que laços familiares entre pai e filho não têm base no amor e sim na transmissão de uma competência e de um patrimônio.

Como o Admirável Mundo Novo, de Huxley, Submissão traz fragmentos de verdades. Não foi escrito para dizer o que vai acontecer, mas o que as pessoas temem que aconteça: a submissão absoluta da mulher ao homem, e do homem a Deus – como é no Islã.

O mundo islâmico é orientado pelo mito, por isso se volta ao passado como quem procura uma perfeição primordial que foi perdida e se quer resgatá-la. É uma busca que anula o criativo. Criar é desobedecer e dirigir-se ao futuro traindo a tradição. Por outro lado, a cultura ocidental, como produto do logos, deixa de compreender a importância do papel dos mitos.

O mundo muçulmano veste as mulheres com uma burca concreta. Os ocidentais – homens e mulheres – constroem burcas que não são físicas, são míticas. Com essa burca mítica, habitamos um universo falso e estreito que nos impede de transitar na vastidão das profundezas do nosso mundo interior para nos adaptarmos a ele.

O mistério cósmico que chamamos de Deus, enquanto esses outros povos o chamam de Alá, necessita da consciência do ser humano para existir. C. G. Jung chamou de “Processo de Individuação” o caminho que deveremos trilhar em busca da totalidade do ser projetada nessa imagem de Deus. Ele abarca não só a perfeição como também a imperfeição. Esse “Processo de Individuação” depende do quanto aprendemos a sacrificar a vaidade e o orgulho para aprendermos com o outro que nos afeta. Nossos conteúdos inconscientes se revelam por meio de tudo que nos incomoda no outro. Surge assim a xenofobia e todas as outras situações que dizemos não suportar.

Enquanto os islâmicos não toleram o secularismo, a laicidade e o materialismo ateu, nós ocidentais falamos dos mistérios procurando dissolvê-los no caldo quente da lógica. A torre de Babel que construímos não nos permite escalar para compreender os mistérios sem deixar de falar uma língua diferente do outro. Afinal o mundo interior é tão singular quanto nossas impressões digitais. É nesse interior que habita nossa verdade na forma de mitos. Onde encontrar o sagrado para merecer nosso sacrifício?

Construímos líderes que quando desvestidos de suas “burcas” revelam que o seu sagrado é o capital. Jung afirmava que o que mais nos atrapalha ser religioso, para viver uma vida simbólica, são as próprias religiões. Religiões que traduzem os mistérios da existência de forma simplificada e conveniente, para erguer um altar e colocar um deus inimigo da totalidade, unilateral, um antideus.

Precisamos de um mito que dê conta de uma vida simbólica. Não precisamos provar a existência de um filho de Deus ou um profeta, mas nos permitirmos a orientação pela máxima de nos amarmos para poder conseguir amar o outro. E o mostrar-se sem a “burca”. Aceitar o outro também desvestido e abraçá-lo com seus odores agradáveis e desagradáveis. Esse é o sacrifício para uma humanidade melhor.

O livro de Houellebecq pode ser uma previsão como a de Cassandra. Na mitologia grega, Apolo, apaixonado por Cassandra, lhe confere o dom da profecia em troca do seu amor. Ela aceita o dom, mas se recusa a amá-lo. Furioso, o deus lhe cospe na boca e a amaldiçoa para que, mesmo com suas previsões corretas, nunca mais ninguém a compreenda ou nela acredite.

Dessa forma, enquanto o Islã olha para trás e vive um mito rígido e unilateral, de forma inconsciente vinga-se dos mongóis – que no século XIII destruíram sua cultura – a nos confundir, no Ocidente, com esses povos do seu passado, sem perceber que olhamos apenas para uma direção e vestimos “burcas” míticas que nos escondem de nós mesmos. Aqui experimentamos um mundo concreto de concreto e desvalorizamos o simbólico que não se transforma em capital.

CARLOS SÃO PAULO – é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia.

carlos@ijba.com.br / www.ijba.com.br

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.