EU ACHO …

PARA UMA FRASE SOAR MELHOR

A editora dos livros de Bolso [Ediouro], que faz adaptações de romances para a leitura de adolescentes, distribui entre os adaptadores alguns exemplos do estilo por ela preferido. Na verdade a editora tem razão: as frases soam muito melhor. Vou dar exemplos que servirão para o estilo de qualquer pessoa que escreve, seja literatura ou não, cartas, relatórios etc.

Em vez de “uma vez consegui”, “certa vez consegui”. Não, o melhor modo de expor os exemplos é escrever a frase e, entre parênteses, anotá-la como ficaria melhor. Assim: “Uma vez consegui” (Certa vez consegui). “Prefiro morrer do que viver” (Prefiro morrer a viver). “Mas não havia árabes lá. Só havia um piquenique.” (Mas não havia árabes lá. Só um piquenique). “Pelo menos é o que eu desejo” (É o que desejo, pelo menos). “Quase pisei numa cobra bem grande” (Quase pisei sobre uma grande cobra). “Verifiquei que tudo dormia tranquilamente” (Verifiquei que tudo estava tranquilo). “Depois de comermos, deitamo-nos para fazer a sesta” (Depois de comer, deitamo-nos para a sesta).

“Quem o matou, uma vez que não foi você?” (Quem o matou, já que não foi você?). “Lembre-se, você disse que não vai contar” (Lembre-se, você prometeu não contar). “Tirei o meu chapéu” (Tirei o chapéu). “Ontem eu ia para a escola, quando aconteceu…” (Ontem, indo para a escola, aconteceu…). “Cansou-se de dizer para não fazer aquilo” (Cansou-se de recomendar que não fizesse aquilo). “Você disse que não podia haver nada pior do que…” (Você afirmou que não há nada pior do que…). “E que azar que deu?” (E deu azar?). “Arranjamos tudo isto e oito dólares por cima” (Arranjamos tudo isto e oito dólares ainda por cima). “Tomara que todos os dias acontecesse com a gente” (Tomara que todos os dias nos aconteça). “Custei a acreditar” (Custou-me acreditar). “Prefiro mais o cinema que o futebol” (Prefiro cinema a futebol). “Ele só falava a respeito das coisas que dão azar” (Ele só falava de coisas que dão azar). “Para que saber quando vai haver alguma coisa boa?” (Interessa saber quando vai acontecer algo bom?). “Um muro com três metros de altura” (Um muro de três metros). “Subimos o morro. No alto descobrimos…” (Subimos o morro. Lá em cima, descobrimos…) “Pegamos todo o nosso material” (Pegamos todas as nossas coisas) (referindo-se a roupas, mantimentos etc.). “Dentro em pouco, começou a trovejar” (pouco depois, começou a trovejar). “Ele era tal qual como o irmão” (Ele era tal qual o irmão). “Deram-lhe um tiro nas costas” (Deram-lhe um tiro pelas costas). “Tínhamos feito boa caçada, não havia dúvida” (Tínhamos feito boa caçada, sem dúvida). “João recuou para trás e feriu-se” (João recuou e feriu- se).

Acho que, como exemplos, bastam. Mas que não se torne mania esse tipo de correção. Senão, em vez de escrever, a pessoa ficará preocupada em exigir frase que soe melhor.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A BUSCA PELAS ORIGENS

Com redução do preço e ampliação da oferta, testes de ancestralidade e de DNA se popularizam no Brasil

Para entender o presente é preciso conhecer o passado. Reflexo do avanço tecnológico, a alta na procura por exames de DNA, que revelam a ancestralidade, dispara no Brasil. Com apenas uma gota de saliva, milhares de brasileiros podem mergulhar no passado. E, dessa forma, os especialistas conseguem ler o genoma dos pacientes — informação hereditária de um organismo — e traçar ligações genéticas.

O custo do procedimento varia entre R$ 199 e R$ 799, mas seu resultado é bastante preciso. Graças às parcerias com artigos científicos e bancos de dados públicos globais, é possível descobrir a porcentagem étnica e construir árvores genealógicas. Mayana Zatz, professora de genética da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que a tecnologia é tanta que alguns exames conseguem até alertar os pacientes dos riscos de doenças hereditárias. “Os testes são sofisticados e precisos”, diz.

Para Ricardo Di Lazzaro, médico e sócio- fundador da Genera, laboratório referência em testes de ancestralidade e de DNA, a busca por autoconhecimento é o que mais atrai os pacientes, pois muitas vezes só o DNA pode responder certas dúvidas. “A procura aumentou quase vinte vezes entre 2019 e 2020”, conta. “Eu imagino que um dia será feito no SUS”, reforça. O Brasil é um País extremamente miscigenado e, mesmo assim, algumas comunidades étnicas não tiveram referências de seu passado, como a população preta, afetada pelas mazelas da escravidão.

Embora a maioria da população seja negra, nas escolas pouco se aprende sobre a África e as famílias têm informações escassas sobre sua origem, o que ajuda a entender a importância dos exames. “Meu teste apontou 76% de ligação com a África, foi muito emocionante”, diz Xan Ravelli, criadora de conteúdo digital. “A gente cresce sem referência”, conta. Como muitos brasileiros, Xan cresceu com raras informações sobre seus antepassados, mas após o resultado do teste, vai mergulhar de vez na própria história. “Eu já quero fazer outro, só para saber das minhas etnias”, afirma.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 22 DE MAIO

SEM APOIO POPULAR É IMPOSSÍVEL GOVERNAR

Na multidão do povo, está a glória do rei, mas, na falta de povo, a ruína do príncipe (Provérbios 14.28).

Há diferentes regimes de governo, como a monarquia, o presidencialismo e o parlamentarismo. Mas nenhum deles funciona sem o apoio popular. A democracia se define como o governo do povo, pelo povo e para o povo. Sem o povo, o rei pode até ter a coroa, mas não tem o comando. É do povo que emana a legitimidade de um governo. Entendemos, à luz da Palavra de Deus, que o poder não vem do povo, mas de Deus. É Deus quem constitui e depõe reis. Mas Deus faz isso por intermédio do povo. Este não é a fonte do poder do governo, mas o instrumento usado por Deus para legitimar o poder do governo. Por isso, Salomão diz: Sem súditos, o príncipe está arruinado (Provérbios 14.28). A grandeza de um rei depende do número de pessoas que ele governa; sem elas, o rei não é nada. O governante sábio é aquele que governa para o povo, e não para si mesmo. É um servo, e não um explorador do povo. Trabalha para o bem do povo, e não para acumular glórias e riquezas para si mesmo. Essa mensagem é absolutamente oportuna e relevante em nossos dias, pois há uma crise de integridade galopante no mundo político. A roubalheira desavergonhada na vida pública acontece à luz do dia. Assistimos todos os dias, para nossa vergonha e tristeza, políticos avarentos saqueando inescrupulosamente os cofres públicos e aviltando, assim, tanto o povo como a Deus.

GESTÃO E CARREIRA

REI DO CHAPÉU

Com o sonho de se tornar um empreendedor de sucesso, ex- camelô dá a volta por cima, monta negócio próprio e já atinge a marca de um milhão de reais em vendas

Nascido em 1957, Wilson Catelã, desde os 11 anos, trabalhou como camelô no centro de São Paulo. No início vendia doces para ajudar a mãe em casa e, depois, migrou para a venda de frutas, com as quais trabalhou por mais de 20 anos, na Rua Boa Vista. Todo esse tempo como camelô e ajudando a mãe lhe ensinou desde cedo a administrar seu dinheiro e a cavar oportunidades no mercado.

Quando a venda de frutas não estava mais lhe trazendo renda, por exemplo, ele passou a comercializar óculos de sol, agora na Rua 25 de Março, em 1995. Quando este mercado, por sua vez, também sofreu uma grande queda, resolveu, novamente, mudar o rumo. “No fundo, como um fã de Charlie Chaplin, meu grande sonho sempre foi vender chapéus”, conta o empresário. Por isso, em 2002, montou uma barraca de chapéus e bonés.

Com essa barraca, ele percebeu sua vocação e o que realmente poderia trazer oportunidades mais promissoras no mercado como empreendedor. Resolveu economizar e, quando viu uma oportunidade, investiu em uma loja física, lá mesmo, na famosa 25 de Março. Com o nome de “Chapéus 25”, em 2004, foi então lançada a primeira loja especializada no produto em São Paulo.

Desde então, o empresário, hoje com 64 anos, comanda o negócio ao lado do filho, Wil Catelã Jr. Importando produtos do Equador e dos Estados Unidos, eles trazem em primeira mão as maiores novidades e variedades de chapéus.

Com vendas até então só físicas, em 2010 abriram o primeiro site da Chapéus 25, por iniciativa do filho, que estudou publicidade e fotografia. “A página servia como vitrine para clientes de fora de São Paulo, que podiam fechar a compra por telefone. Depois de um tempo, evoluiu para e-commerce para atender às novas praças e ampliar a visibilidade da marca”, conta Catelã.

As vendas então só aumentaram e em agosto deste ano a marca alcançou um milhão de reais em vendas on-line. Com uma equipe de 14 funcionários, atualmente eles vendem – no varejo ou no atacado – os chapéus e bonés tanto na loja física como pelo seu site, sendo que este é responsável por 40% das vendas mensais.

Os itens de revenda, nacionais ou importados, compõem 50% das vendas totais, enquanto a outra metade é encomendada de uma fábrica parceira. Um chapéu médio custa de R$40 a R$80, mas pode chegar a R$350 de acordo com a marca ou o material. ”A internet ajuda a compor o boca a boca na divulgação dos produtos, e também investimos em marketing on-line, nas redes sociais e em anúncios em ferramentas de busca”, afirma.

Depois de ter conquistado seu lugar no mercado, o maior foco e desafio de Catelã daqui para a frente é tornar o chapéu um acessório indispensável para a cultura brasileira.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS “BURCAS” MÍTICAS QUE VESTIMOS

Submissão, o livro polêmico do ano, conta uma história que se passa em 2022 em uma França islamizada: Mulheres se submetem ao patriarcado, aceitam a poligamia dos homens e perdem direitos humanos

Uma charge na revista Charlie Hebdo anunciava o romance Submissão como as previsões do mago Michel Houellebecq, um escritor francês ficcionista. No barulho midiático do lançamento desse livro, a redação da revista que trazia a caricatura do autor foi atacada por dois muçulmanos. Eles portavam armas automáticas e, no silêncio das mortes, ouviu-se um grito: “O profeta foi vingado”. Não se sabe se o livro teria uma relação direta com o ataque; ou se este resultou apenas dos desenhos satíricos, do profeta Maomé, que profanou o sagrado do mundo islâmico.

Em Submissão chega ao Bernard Bonabess, do partido poder da Irmandade Muçulmana, que faz coalisão com outros partidos na França. O homem ocidental adiposo e entupido de drogas de todos os tipos, sem uma vida organizada em rituais, não possui estrutura que lhe permita ter um modo de contemplar o sagrado dos mistérios da existência. Isso deixa um vazio que facilita a genialidade política de um muçulmano, Ben-Abbes, que faz acontecer a ascensão do Islã.

A Fraternidade Muçulmana, em lugar de colocar a economia no centro de tudo, aposta no aumento da taxa de reprodução e nos valores transmitidos por seus pais. O lema é: “Quem controla as crianças controla o futuro”. Os professores são todos muçulmanos. Separam as turmas por sexo a fim de aprenderem as leis do Alcorão. Aprendem que laços familiares entre pai e filho não têm base no amor e sim na transmissão de uma competência e de um patrimônio.

Como o Admirável Mundo Novo, de Huxley, Submissão traz fragmentos de verdades. Não foi escrito para dizer o que vai acontecer, mas o que as pessoas temem que aconteça: a submissão absoluta da mulher ao homem, e do homem a Deus – como é no Islã.

O mundo islâmico é orientado pelo mito, por isso se volta ao passado como quem procura uma perfeição primordial que foi perdida e se quer resgatá-la. É uma busca que anula o criativo. Criar é desobedecer e dirigir-se ao futuro traindo a tradição. Por outro lado, a cultura ocidental, como produto do logos, deixa de compreender a importância do papel dos mitos.

O mundo muçulmano veste as mulheres com uma burca concreta. Os ocidentais – homens e mulheres – constroem burcas que não são físicas, são míticas. Com essa burca mítica, habitamos um universo falso e estreito que nos impede de transitar na vastidão das profundezas do nosso mundo interior para nos adaptarmos a ele.

O mistério cósmico que chamamos de Deus, enquanto esses outros povos o chamam de Alá, necessita da consciência do ser humano para existir. C. G. Jung chamou de “Processo de Individuação” o caminho que deveremos trilhar em busca da totalidade do ser projetada nessa imagem de Deus. Ele abarca não só a perfeição como também a imperfeição. Esse “Processo de Individuação” depende do quanto aprendemos a sacrificar a vaidade e o orgulho para aprendermos com o outro que nos afeta. Nossos conteúdos inconscientes se revelam por meio de tudo que nos incomoda no outro. Surge assim a xenofobia e todas as outras situações que dizemos não suportar.

Enquanto os islâmicos não toleram o secularismo, a laicidade e o materialismo ateu, nós ocidentais falamos dos mistérios procurando dissolvê-los no caldo quente da lógica. A torre de Babel que construímos não nos permite escalar para compreender os mistérios sem deixar de falar uma língua diferente do outro. Afinal o mundo interior é tão singular quanto nossas impressões digitais. É nesse interior que habita nossa verdade na forma de mitos. Onde encontrar o sagrado para merecer nosso sacrifício?

Construímos líderes que quando desvestidos de suas “burcas” revelam que o seu sagrado é o capital. Jung afirmava que o que mais nos atrapalha ser religioso, para viver uma vida simbólica, são as próprias religiões. Religiões que traduzem os mistérios da existência de forma simplificada e conveniente, para erguer um altar e colocar um deus inimigo da totalidade, unilateral, um antideus.

Precisamos de um mito que dê conta de uma vida simbólica. Não precisamos provar a existência de um filho de Deus ou um profeta, mas nos permitirmos a orientação pela máxima de nos amarmos para poder conseguir amar o outro. E o mostrar-se sem a “burca”. Aceitar o outro também desvestido e abraçá-lo com seus odores agradáveis e desagradáveis. Esse é o sacrifício para uma humanidade melhor.

O livro de Houellebecq pode ser uma previsão como a de Cassandra. Na mitologia grega, Apolo, apaixonado por Cassandra, lhe confere o dom da profecia em troca do seu amor. Ela aceita o dom, mas se recusa a amá-lo. Furioso, o deus lhe cospe na boca e a amaldiçoa para que, mesmo com suas previsões corretas, nunca mais ninguém a compreenda ou nela acredite.

Dessa forma, enquanto o Islã olha para trás e vive um mito rígido e unilateral, de forma inconsciente vinga-se dos mongóis – que no século XIII destruíram sua cultura – a nos confundir, no Ocidente, com esses povos do seu passado, sem perceber que olhamos apenas para uma direção e vestimos “burcas” míticas que nos escondem de nós mesmos. Aqui experimentamos um mundo concreto de concreto e desvalorizamos o simbólico que não se transforma em capital.

CARLOS SÃO PAULO – é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia.

carlos@ijba.com.br / www.ijba.com.br