A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O FRACASSO DO SONHO E A CULTURA DO ATO?

De acordo com a visão da cultura atual, existe um predomínio da ação, da imagem e da superficialidade das relações humanas, o que traz como consequência a perda da reflexão e das relações humanas estáveis

A questão da prescrição de medicamentos deve ser tratada com cautela. Em 2012, fui uma das participantes de uma seleção de reportagens no jornal O Estado de Minas, cujo título era “Dispara em BH o uso de remédios contra a hiperatividade”. Belo Horizonte foi considerada a segunda capital que mais consumia a Ritalina. Alguns dados da Anvisa, além de informações em diversos sites e fontes, me inquietaram ainda mais.

O sonho e o ato são dois personagens centrais do universo psicanalítico. Vou poupar os leitores de maiores revisões sobre esses conceitos, sua relevância e seu percurso ao longo de nossa centenária história, porque as revisões conceituais estão à disposição de todos e muitas vezes podem se tornar defesas contra uma exposição direta por parte de quem escreve de sua própria visão e posicionamento sobre o tema em debate.

O título desta questão contém uma salutar provocação, bem como deixa perceber uma visão do mundo contemporâneo que está de acordo com sucessivas abordagens sociológicas, antropológicas e culturais.

Segundo esta visão do mundo e da cultura em que vivemos, que diferentes autores chamam de pós-modernidade, modernidade líquida, hiper­modernidade, cultura do narcisismo, o que observamos em nossos dias é um predomínio da ação, da imagem, da velocidade, da violência, da superficialidade, da fugacidade das relações humanas, das comunicações instantâneas e virtuais, da descartabilidade de pessoas, valores e ideias, com uma perda considerável ou mesmo uma quase ausência da reflexão, das relações humanas estáveis, da imaginação, da leitura, da calma, do tempo necessário para pensar, sentir, amar, conhecer a si mesmo e ao próximo.

Um psicanalista, estimulado pelos chamados trabalhos culturais de Freud, sente-se naturalmente tentado a participar deste debate, e muitos, entre os quais eu mesmo, já escreveram trabalhos sobre as relações entre a Psicanálise e a cultura. À medida, no entanto, que a idade e a observação dos fatos do mundo avançam, a tentação das generalizações e da aplicação de nossas teorias para entender fenômenos complexos torna-se mais cautelosa. Estamos lidando com realidades sobre as quais temos apenas uma visão fragmentária, e dependente de quem nos fornece as notícias e de suas motivações e interesses ideológicos, econômicos, religiosos e nacionais.

Afinal, qual é o nosso campo de observação, por excelência? A sessão analítica. O que nos chega nas sessões ou num processo analítico é uma visão particular, única e específica, daquele que nos fala, sobre o mundo em que vive, seja o interno, seja o externo, da forma como o percebe, a partir da trama possível de sucessivas identificações projetivas e introjetivas, dissociações, projeções, idealizações e assim por diante. Mas, de fato, não é bem isto o que ocorre. Hoje, graças a Bion, Meltzer, Baranger, Ferro, Ogden, sabemos que não há uma escuta analítica sem que a mente do analista tome parte ativa, não só da conversa na sessão, mas da construção conjunta de uma trama de significados, de um sonho sonhado a dois. Portanto, qualquer desejo de alguma objetividade ou de alguma informação sobre o mundo em que o paciente vive, que poderia nos ajudar a ver como é esse mundo, e contribuir para nossa visão do mundo como ele é ou quem sabe de como gostaríamos que fosse, torna-se uma ilusão perdida. Claro que os pacientes nos contam os fatos de sua vida, falam de pessoas reais com quem convivem, de experiências de que participam, mas este relato nos é absolutamente inútil para ter uma visão do mundo em que eles vivem, porque nosso interesse é por seu mundo interno, e estamos mais interessados e focados em identificar significados inconscientes do que na realidade supostamente factual.

Assim, o mundo que nos chega através da escuta analítica não me parece ser uma fonte fidedigna para que tenhamos uma visão razoável de nossa cultura. Não há como deixar de lembrar, a este respeito que, nesta pretensão de ver o mundo a partir dessa fonte de informação, estamos na mesma posição descrita no mito da caverna, por Platão: um grupo de prisioneiros, acorrentados numa caverna, passa todo o tempo olhando para a parede do fundo, que é iluminada por uma fogueira; nesta parede, são projetadas as sombras que representam pessoas, animais, plantas, situações do dia a dia; não se vê a realidade, mas imagens projetadas.

QUESTIONAMENTOS

Agora, se pensamos no que ocorre no trabalho analítico, temos duas questões a nos inquietar, para este tema: a primeira, se mudaram os pacientes, e nesta mudança predomina o ato sobre o sonho. E a segunda, se na prática analítica, observa-se o fracasso do sonho e a cultura do ato.

Quanto à primeira questão, temos uma sucessão de descrições dos chamados novos pacientes, em que se incluem os borderline, os narcisistas, os psicossomáticos, os perversos, os que têm as doenças da alma, os fronteiriços, as estruturas não neuróticas, conforme diferentes autores os caracterizam. Neste novo conjunto, predomina o ato sobre o sonho? Se considerarmos que em muitos destes pacientes predomina a dificuldade de simbolizar ou de representar, como descrevem os Botella, ou o pensamento operatório, conforme Marty, sim, de fato o sonho, em seu sentido mais amplo, que inclui esses elementos oníricos, é algo que tem que ser construído com essas estruturas não neuróticas. Com tais pacientes, o trabalho analítico será mais transformacional do que o tradicional arqueológico, como propõe Levine. O problema, contudo, é que existe uma discussão acerca da real prevalência dessas estruturas não neuróticas; serão de fato novas apresentações ou estamos vivendo um momento da prática analítica em que podemos trabalhar níveis mais profundos do psiquismo e em que mesmo continuando a predominar as estruturas neuróticas ou os transtornos de personalidade, podemos acessar e analisar níveis mais primitivos do funcionamento mental?

Uma possível constatação é que o progresso na compreensão do funcionamento psíquico, graças, por exemplo, ao trabalho monumental de Green, faz com que, em quase todas as análises, possamos percorrer esses infernos com nossos pacientes, bem como seus paraísos perdidos.

Quanto à segunda questão, sobre o trabalho analítico corrente, minha impressão é que ato e sonho convivem; sonho, aqui, tanto em sua versão freudiana fundante, como o psíquico por excelência, tanto como, por exemplo, descreve Ogden, a partir de Bion, no sentido de um trabalho conjunto entre analista e paciente, sonhando na sessão e construindo significados novos. O próprio sonho, propriamente dito, pode deixar assim de ser apenas um relato a ser interpretado pelo analista para informar ao paciente sobre algo de sua vida que ele ignora ou não quer saber, para ser também um estímulo a pensar e sentir a dois sobre o que está acontecendo na sessão ou na relação analítica.

Desta maneira, esses poucos elementos de nosso particular ângulo de observação não nos dizem que há um fracasso do sonho, nem que predomina uma cultura do ato. Talvez fosse mais de acordo com o que podemos observar ou viver no trabalho analítico, dizer que sonho e ato convivem, mantêm entre si uma permanente tensão, se alimentam mutuamente, são duas formas de comunicação. O sonho pode ser um prelúdio para o ato inibido ou interditado pela neurose, o ato pode ser uma defesa contra o lembrar e o sonhar, e esperamos que alguma convivência se estabeleça entre os dois personagens se um processo analítico é capaz de produzir transformação e mudança psíquica.

INSIGHTS

Voltemo-nos, agora, para a nossa cultura, tendo como pano de fundo os diversos insights de Freud em seus últimos trabalhos. Como adquirir alguma certeza sobre o que estamos observando? Freud observa que nossas estimativas sobre o futuro se baseiam muito mais em nossos desejos do que numa apreciação relativamente isenta ou na utilização dos faros do passado para tentar prever o futuro. Quando examina, por exemplo, o futuro de uma ilusão, alimenta a esperança de que o pensamento científico acabará por se impor ao animista ou religioso. Infelizmente, não é o que se observa. Pelo contrário, como destaca na Psicologia das massas, estas têm sede por obediência, por ilusões, por líderes fortes e que personifiquem todo o tipo de ilusões, o que é um fato que continuamos a observar, no curso da história e neste momento.

O que gostaria de examinar, então, é se de fato estamos vivendo, na cultura de hoje, o fracasso do sonho e o predomínio do ato. Podemos tomar tanto o nosso país, como o que ocorre em outras latitudes. Encontramos, então, o mesmo problema: quem faz a análise da situação? Baseado em que dados e em que interesses? Qual a extensão da apreensão de fragmentos maiores ou menores da realidade, qual a extensão das mentiras convenientes para cada grupo de interesses? Para um lado, o Brasil vive uma situação catastrófica, a violência, a corrupção, o desgoverno, a crise econômica campeiam soltas, e nos aproximamos do caos inevitável. Para outro, há inúmeras conquistas, melhoras nas condições de vida do povo, liberdade de investigação e ação da Polícia Federal e do Ministério Público.

Uma crônica recente de David Coimbra, no jornal Zero Hora, mostra a dissociação primária entre coxinhas e petralhas e ironiza uma forma de pensamento maniqueísta, que insiste no uso dos mecanismos primitivos de defesa. Uma pessoa tem que ser uma coisa ou outra, e a mesma forma elementar de classificação pode ser observada em inúmeras outras situações. Se formos para outra região, temos as ações assustadoras do denominado Estado Islâmico, cujos atos matam ou tentam eliminar boa parte das conquistas da civilização: os direitos das mulheres, dos homossexuais, a educação dos jovens e das mulheres, os monumentos históricos, a manutenção dos hábitos e tradições de diferentes minorias. Não é nada difícil sentir indignação e ódio desses fanáticos, que usam uma tecnologia apurada para espalhar imagens de decapitações ou queima de pessoas, porque são de outra religião ou de alguma minoria vista como inimiga duma versão distorcida e paranoica do Islã. Mas as coisas ficam mais complicadas quando saímos de uma reação emocional medular e vamos ler análises dessa situação complexa, de suas raízes históricas, das rivalidades entre xiitas e sunitas, das ações quase sempre desastrosas das potências ocidentais, e assim por diante.

E as coisas ficam ainda mais complicadas quando lembramos a sucessão de crueldades e decapitações ao longo da história, os banhos de sangue de minorias por razões políticas, econômicas ou religiosas, e a facilidade de dividir o mundo entre nós e eles.

Talvez uma conquista de nossos dias seja constituída pelas noções de complexidade, de fragmentação, de relativismo, de pluralismo. E aí voltamos às tentativas de descrever a nossa cultura com as propostas de pós-modernidade ou de modernidade líquida ou de cultura do narcisismo ou de hipermodernidade. Todas essas descrições me parecem úteis, mas irremediavelmente parciais, pois retratam um aspecto de uma realidade extremamente complexa. Nessa realidade complexa, que é a de nossos dias, encontramos, às vezes numa mesma rua ou num mesmo bairro, expressões hipermodernas ao lado de outras medievais ou modernas ou renascentistas. A realidade é complexa, por essência, e escapa de nossas tentativas de classificação. Como seria bom se nossos pacientes fossem histéricos, ou fóbicos ou deprimidos ou narcisistas! Como seria bom se comportassem e coubessem dentro dessas ficções diagnósticas que só servem para acalmar a quem os atende e defender da irremediável complexidade, da natureza única e irrepetível de cada pessoa e, pior ainda, de cada relação analítica. Como isso nos pouparia da dor insuportável da capacidade negativa e da necessidade sem remédio de recomeçar de novo a cada dia de trabalho!

ESPAÇO

Com isso, quero dizer que o estado da cultura me parece extremamente complexo, e que nela há espaço para o sonho e para o ato. Não consigo ver o fracasso do sonho, senão sua reimosa e persistente recusa a qualquer regulação ou controle. Freud gostava de citar aquela frase de que peçam a uma pessoa que conte seus sonhos, e ninguém escapará do açoite. Mas minha impressão é que, além do possível açoite, peçam a uma pessoa que conte seus sonhos e ninguém se entediará ou aborrecerá ou deixará de se encantar com a praticamente infinita variedade e a inesgotável criatividade humana para sempre criar novas expressões da dualidade pulsional. Quando se escutam lamentos sobre essas ferramentas contemporâneas que aparentemente limitam a imaginação, e invadem o setting analítico, ao mesmo tempo observamos as crianças com fome de histórias contadas pelos pais e avós, com seus olhos ávidos por entrar e tomar parte nesse mundo infinito de fantasias, possibilidades e aventuras. O sonho continua vivo, e forma com o ato um pas

de deux sutil, delicado, mutuamente alimentador e limitador. Não, nossa cultura não é a do ato, nossa cultura, como as que nos precederam, se alimenta do sonho e do ato, e tem sonhos que resultarão em atos criativos, mas tem também, como sempre houve, sonhos destrutivos que levarão aos atos perversos e de destruição do próximo e dos bens da civilização. Quanto aos instrumentos que apavoram muitos ou alguns por seu potencial de desumanização, são parte de nossa linguagem contemporânea, e através deles também falamos ou calamos, também sonhamos ou somos incapazes de simbolizar ou representar. Quando se viveu muito tempo numa civilização, escreveu Freud, e se tentou descobrir quais foram suas origens, e ao longo de que caminho ela se desenvolveu, fica-se às vezes tentado a voltar o olhar para outra direção e indagar qual o destino que a espera e quais as transformações que está fadada a experimentar.

Situando-me, neste momento, numa posição semelhante, permito-me cultivar não só a esperança, como uma confiança na capacidade do sonho e do ato em seu interminável balé em direção ao futuro. Como em tantos momentos, ao longo do ciclo vital, sinto-me em boa companhia, e assim repito aqui uma das lições que aprendi com Carlos Drummond:

Outrora viajei países imaginários, fáceis de habitar; ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio

Meus amigos foram às ilhas

Ilhas perdem o homem.

Entretanto, alguns se salvaram e

Trouxeram a notícia

De que o mundo, o grande mundo,

está crescendo todos os

dias, entre o fogo e o amor

Então, meu coração também pode crescer.

Entre o amor e o fogo,

Entre a vida e o fogo,

Meu coração cresce dez metros e

explode.

Ó vida futura! Nós te criaremos.

MODERNIDADE LÍQUIDA

O termo “modernidade líquida” foi cunhado pelo sociólo8o polonês Zygmunt Bauman. Seu conceito se traduz pelo conjunto de relações e instituições, que oferecem base para a contemporaneidade. Uma época de liquidez, fluidez e volatilidade, que traz como consequência incerteza e insegurança. É quando os referenciais morais de épocas anteriores – modernidade sólida – saem de cena e dão lugar à lógica do agora, do consumo e do artificial. No caso das relações sociais. estas se tornam frágeis e têm como pressuposto a transformação dos seres humanos em mercadorias, que podem ser consumidas e descartadas a qualquer momento. O sujeito líquido lida com um universo de consumo e opções, mas esse mundo nunca é objetivo e frio, pois causa frustrações e insegurança. Tudo se passa como se fosse uma questão de escolher a melhor opção, o que traz mais vantagens e, de preferência, nenhuma desvantagem. As relações de trabalho de desgastam e se tornam campo vasto para empregos temporários, sem vínculos maiores.

CLAUDIO LAKIS EIZIRIK – é psiquiatra e psicanalista, doutor em Medicina, membro efetivo da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre. Professor titular da UFRGS, ex-Presidente da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) e da Federação Psicanalítica Latino-Americana, autor de livros, capítulos, trabalhos e orientador de teses de doutorado e mestrado. Prêmio Sigourney de 2011. por contribuições relevantes à psicanálise. Coordenador, desde 2013, do Comitê de Psicanálise e o campo da Saúde Mental da IPA

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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