EU ACHO …

LEMBRANÇA DA FEITURA DE UM ROMANCE

Não me lembro mais onde foi o começo, sei que não comecei pelo começo: foi por assim dizer escrito todo ao mesmo tempo. Tudo estava ali, ou parecia estar, como no espaço temporal de um piano aberto, nas teclas simultâneas do piano.

Escrevi procurando com muita atenção o que se estava organizando em mim, e que só depois da quinta paciente cópia é que passei a perceber. Passei a entender melhor a coisa que queria ser dita.

Meu receio era de que, por impaciência com a lentidão que tenho em me compreender, eu estivesse apressando antes da hora um sentido. Tinha a impressão, ou melhor, certeza de que, mais tempo eu me desse, e a história diria sem convulsão o que ela precisava dizer.

Cada vez acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor.

O livro foi se levantando por assim dizer ao mesmo tempo, emergindo mais aqui do que ali, ou de repente mais ali do que aqui: eu interrompia uma frase no capítulo 10, digamos, para escrever o que era o capítulo dois, por sua vez interrompido durante meses porque escrevia o capítulo 18. Esta paciência eu tive: a de suportar, sem nem ao menos o consolo de uma promessa de realização, o grande incômodo da desordem. Mas também é verdade que a ordem constrange.

Como sempre, a dificuldade maior era a da espera. (Estou sentindo uma coisa estranha, diria a mulher para o médico. É que a senhora vai ter um filho. E eu que pensava que estava morrendo, responderia a mulher.) A alma deformada, crescendo, se avolumando, sem nem ao menos se saber que aquilo é espera de algo que se forma e que virá à luz.

Além da espera difícil, a paciência de recompor por escrito paulatinamente a visão inicial que foi instantânea. Recuperar a visão é muito difícil.

E como se isso não bastasse, infelizmente não sei redigir, não consigo relatar uma ideia, não sei “vestir uma ideia com palavras”. O que escrevo não se refere ao passado de um pensamento, mas é o pensamento presente: o que vem à tona já vem com suas palavras adequadas e insubstituíveis, ou não existe.

Ao escrevê-lo, de novo a certeza só aparentemente paradoxal de que o que atrapalha ao escrever é ter de usar palavras. É incômodo. É como se eu quisesse uma comunicação mais direta, uma compreensão muda como acontece às vezes entre pessoas. Se eu pudesse escrever por intermédio de desenhar na madeira ou de alisar uma cabeça de menino ou de passear pelo campo, jamais teria entrado pelo caminho da palavra. Faria o que tanta gente que não escreve faz, e exatamente com a mesma alegria e o mesmo tormento de quem escreve, e com as mesmas profundas decepções inconsoláveis: viveria, não usaria palavras. O que pode vir a ser a minha solução. Se for, bem-vinda.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O MILAGRE DA “RESSURREIÇÃO”

Pesquisadores japoneses trazem de volta à vida microrganismos adormecidos há 100 milhões de anos e aguçam a esperança da ciência em reviver espécies extintas

A saga Jurassic Park se tornou um dos grandes sucessos da história do cinema e da literatura com uma premissa extraordinária: a possibilidade de trazer de volta à vida espécies extintas. Por mais que isso ainda pareça obra da ficção, cientistas japoneses chegaram muito perto de alcançar o feito. Eles “ressuscitaram” microrganismos de 100 milhões de anos capturados no fundo no mar. Esses seres, contudo, não estavam de fato mortos. “Se fosse esse o caso, não teríamos sido capazes de revivê-los”, disse o microbiólogo Yuki Morono, pesquisador da Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha e Terrestre e coautor do estudo recém-publicado na revista Nature.“Acreditamos que eles estivessem em algum tipo de hibernação profunda pela última centena de milhão de anos.” Ao analisar os microrganismos com recursos de laboratório, os cientistas constataram que, de certa forma, eles estavam esperando condições ambientais mais adequadas para retomar sua vida. Dada a idade avançada dos tais micróbios, pode-se dizer que foram contemporâneos dos dinossauros – o que faz da descoberta algo ainda mais fantástico.

Para tornar o projeto possível, 31 cientistas usaram uma sonda que procurou sedimentos a 6.000 metros abaixo da superfície do mar. A ideia era desbravar a porção central do Oceano Pacífico, um dos biomas menos explorados do planeta. Depois de esquadrinhar o ambiente marinho e encontrar camadas profundas de rochas, uma espécie de broca perfurou o assoalho, enquanto outro equipamento recolhia detritos com amostras de bactérias e arqueas (um tipo de ser unicelular). Exames em laboratório descobriram que os microrganismos tinham exatos 101,5 milhões de anos. Eles foram incubados, e a surpresa se deu: não só estavam vivos como começaram a se alimentar e a se reproduzir. Os resultados animaram a comunidade científica. “Os progressos na pesquisa comprovaram que os ambientes profundos e as crostas oceânicas compreendem a maior biosfera e a última fronteira do planeta”, diz Vivian Helena Pellizari, professora do Departamento de Oceanografia Biológica da Universidade de São Paulo.

Além de desvendar os mistérios das profundezas oceânicas, o estudo pode ajudar a encontrar vida fora da Terra. De acordo com Steven D’ Hondt, especialista em geologia marítima e coautor do artigo publicado na Nature, a pesquisa abre novas portas na busca por vida em Marte, onde a presença de gases e nutrientes é rara – assim como no fundo do mar. Se foi possível despertar micróbios que surgiram há 100 milhões de anos, talvez os cientistas consigam fazer o mesmo com microrganismos marcianos adormecidos. “Dado o sucesso de nossa experiência, parece razoável supor que haja micróbios vivos sob a superfície de Marte e que tenham resistido por milhões ou bilhões de anos depois de o ambiente se tornar inabitável”, afirma D’Hondt. Uma das explicações para o fracasso da ciência em encontrar vida no Planeta Vermelho, portanto, pode estar em um erro de estratégia. Talvez os alienígenas estejam ocultos nas profundezas de Marte, e não na sua superfície.

O Japão, de fato, vem liderando projetos que têm a ambição de reviver animais extintos. No ano passado, o Departamento de Engenharia Genética da Universidade Kindai, em Osaka, informou que foi bem-sucedido na reativação de partes celulares de um mamute de 28.000 anos. Apelidado de Yuka, o animal foi encontrado na Sibéria em 2010 e, desde então, se tornou a maior esperança da ciência em experimentos desse tipo. Os cientistas extraíram a medula óssea e o tecido muscular de Yuka e inseriram o material em óvulos de camundongos. Pouco tempo depois, descobriram que as células modificadas apresentaram sinais de atividade biológica. “Muito em breve, avançaremos a pesquisa para o estágio da divisão celular”, diz o engenheiro genético Kei Miyamoto. Se isso acontecer, a ciência poderá, quem sabe num futuro não muito distante, trazer herdeiros do mamute Yuka de volta à vida.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 19 DE MAIO

O VALOR DA TESTEMUNHA VERDADEIRA

A testemunha verdadeira livra almas, mas o que se desboca em mentiras é enganador (Provérbios 14.25).

Testemunhar é contar exatamente o que viu e ouviu. Não é dar a opinião própria. Ao longo da história muitos tribunais proferiram sentenças injustas porque testemunhas infiéis deram falso testemunho, escondendo e escamoteando a verdade. José do Egito foi parar na cadeia quando a verdadeira culpada do crime era sua própria acusadora. O Sinédrio judaico contratou testemunhas falsas para acusar Jesus e assim o sentenciou à morte. O mesmo destino sofreu o diácono Estêvão, que terminou apedrejado por uma turba ensandecida. O que abre sua boca para promover a mentira é um enganador. Aquele que vende sua consciência e altera a realidade dos fatos para obter vantagens pessoais, acusando inocentes e inocentando culpados, labora em erro e torna-se agente do mal. Porém, a testemunha que fala a verdade salva vidas e livra as pessoas da morte. A verdade é luz. A verdade é pura. A verdade promove a justiça. Nossos lábios devem estar a serviço da verdade e não da mentira, do bem e não do mal, da justiça e não da iniquidade. O verdadeiro cidadão do céu é aquele que jura com dano próprio e não se retrata.

GESTÃO E CARREIRA

COMPRA INTELIGENTE

Muito mais que um supermercado on-line, plataforma auxilia usuários a planejarem e economizarem nas suas compras e faz sucesso entre os consumidores

Quem gosta de ir ao supermercado todo dia, semana ou mês e passar horas e horas escolhendo produtos e enfrentando filas que atire a primeira pedra. Afinal, quanto tempo e dinheiro você gasta nesse processo?  A opção de fazer uma compra on-line parece tentadora, mas pensar em perder promoções ou não poder escolher os produtos à sua maneira pode não ser tão atrativo assim, não é mesmo?

Foi pensando exatamente nesses consumidores que os empreendedores Bruna Vaz Negrão e Fábio Rodas Blanco criaram a startup Shopper.com.br, uma plataforma que auxilia os usuários a planejarem e economizarem nas compras de supermercado.

A empresa iniciou sua operação em 2015, mas tudo começou em 2014, quando Rodas e Bruna estavam cursando administração e economia no Insper.

Eles participaram de uma mentoria com o economista e empresário Jorge Paulo Lehmann, que lhes deu o seguinte conselho: “busquem soluções que Já funcionam lá fora e adaptem para a realidade brasileira”. Dessa maneira, perceberam que a inovação tinha melhorado diversos setores, mas o supermercadista parecia parado no tempo. E então tiraram como base o modelo de Subscribe and Save da Amazon e o adaptaram para o Brasil, criando a Shopper.

Segundo eles, diversos consumidores não gostam de ir ao supermercado para realizar compras de itens que sabem que vão consumir todos os meses e sentem que gastam tempo e dinheiro com essa tarefa. “Mas não havia no mercado uma solução que trouxesse praticidade e preço baixo. E, na nossa visão, preço baixo é algo relevantíssimo quando estamos falando de itens básicos, como sabão em pó, leite… Então, é um problema vivido por todos que ninguém estava resolvendo de maneira satisfatória”, argumenta o CEO da empresa, Fábio Rodas.

A proposta é levar comodidade para os clientes, entregando uma experiência sem igual, mas sem cobrar caro por isso – pelo contrário, entregando economia. “É um mundo onde os produtos essenciais chegam à casa deles com a mesma facilidade e eficiência que a água chega até a torneira”, diz Rodas.

COMO FUNCIONA

Muito ruais que um supermercado on-line, a startup se destaca por ser um sistema de reabastecimento de itens de consumo doméstico: produtos de limpeza, higiene pessoal, alimentos não perecíveis, bebidas, pets e frutas. E ela ajuda o consumidor a se organizar sem ter que sair de casa. “Nosso objetivo final é não deixar faltar produtos essenciais em casa e fazer isso de forma organizada, planejada, aumentando a eficiência da cadeia de abastecimento brasileira”, argumenta o CEO.

Nesse modelo de compras planejadas o cliente escolhe os produtos no site ou aplicativo e recebe em casa. No mês subsequente, o sistema deixa pré-programado o mesmo pedido e o cliente é lembrado, dias antes, para que faça ajustes em itens e quantidades, e receba outra cesta. “Assim ele consegue manter a casa sempre abastecida e itens essenciais não acabam em sua despensa. Lembrando que na plataforma, além de o cliente ter a flexibilidade de fazer ajustes no pedido, pode suspender a entrega ou reagendar para outra data. E podem alterar 100% de suas cestas entre uma entrega e outra”, diz Fábio Rodas.

CRESCIMENTO

Quando a Shopper começou, atendiam apenas três bairros da cidade de São Paulo, hoje já são mais de 600 bairros, indo além de São Paulo e chegando à região do ABC, Alphaville, Barueri e Aldeia da Serra. “Nosso objetivo ainda é expandir para 1.000 bairros e incluir cada vez mais produtos no mix. Contudo, só expandimos conforme aumentamos e treinamos novos membros do time: assim mantemos a qualidade do serviço alta”, revela Rodas.

Possuem um Centro de Distribuição com mais de 4.000 metros quadrados e disponibilizam mais de 2.500 itens essenciais de consumo, como produtos de limpeza, higiene pessoal, alimentos não perecíveis, bebidas e pets. “Quando começamos, eram apenas 1.200 produtos e não tínhamos Centro de Distribuição, usávamos minha sala. E era eu e a Bruna”, conta.

Hoje, já são mais de 120 pessoas no time e estão com mais de 50 vagas abertas, em 20 posições diferentes. A sede da empresa e o Centro de Distribuição ficam na Barra Funda e a logística é feita internamente; pois é isso que, segundo eles, garante a qualidade do serviço.

POR DENTRO DO PROCESSO

Segundo Fábio Rodas, o principal diferencial da empresa é que não compram de supermercados, e sim direto das indústrias. “Os supermercados físicos têm custos altíssimos, que são repassados nos seus preços. Hoje, algumas empresas que compram em mercados físicos para entregarem em casa subsidiam esses custos, cobrando preços artificiais (não precificando os serviços); no futuro, quando precificarem, esses serviços deixarão os produtos ainda mais caros para o consumidor final”, explica.

De acordo com o CEO, as lojas on-line daqueles supermercados que também compram da indústria, mas que têm modelos tradicionais (de compras pontuais/ não planejadas), possuem estoques e baixa previsibilidade, o que também eleva os preços (mesmo sem os custos das lojas físicas). “Todos esses modelos, seja da loja física, seja da loja on-line, incentivam o consumidor a comprar mais do que ele realmente precisa, com promoções do tipo ‘leve 3 pague 2’ (mesmo quando só precisamos de 1) e com artifícios para aumentar a compra impulsiva”, esclarece.

Já o modelo da Shopper nasceu para ser exatamente o oposto: “queremos ajudar as pessoas a comprar de forma inteligente. Com isso, conseguimos ter previsibilidade e organizar melhor nossa logística. Compramos direto da indústria apenas o que sabemos que será vendido (sem desperdícios e sem manter altos estoques); temos custos de m2 baixos, diferente dos supermercados tradicionais; conseguimos planejar com antecedência as entregas e, por isso tudo, temos preços em média 13% menores que os supermercados on-line tradicionais”, argumenta.

MUDANDO A CULTURA

Explicar às pessoas o conceito de reabastecimento planejado, de compras programadas, no entanto, não foi uma tarefa fácil para os sócios da Shopper. “Mas, uma vez que se entende que há um jeito diferente, mais inteligente e mais eficiente, de manter a casa abastecida, fica muito mais fácil a adesão ao modelo. E assim que a pessoa adere ao modelo, ela muda o hábito de compras, passando a economizar (desperdiçar menos dinheiro e tempo) e contribuir para que a cadeia de abastecimento brasileira fique mais eficiente como um todo”, reflete o CEO.

Apesar dessa dificuldade, no entanto, ele diz que crescem de 20% a 35% ao mês desde o início da Shopper. A empresa dobra de tamanho a cada três, quatro meses, um ritmo considerado bem forte. “As centenas de elogios espontâneos de nossos clientes nas redes sociais e a taxa de crescimento orgânico (novos clientes que vêm por indicações de atuais clientes) são o maior indicativo de que já conseguimos o reconhecimento do mercado”, comemora.

Por esse motivo também, segundo ele, que os maiores fabricantes querem estar ao lado da Shopper e colocar seus produtos na plataforma, inclusive investindo nos banners da Shopper como meio de marketing.

No mês de julho eles acrescentaram frutas ao portfólio de produtos. E lançaram um feature que mostra quanto cada cliente economizou (chamado “econômetro”).

Nesses seis anos, a Shopper já entregou mais de 2.500 toneladas de itens essenciais de consumo doméstico e gerou uma economia de R$3 milhões para os seus consumidores. “Essa economia gerada é dinheiro que fica no bolso dos nossos clientes, podendo gastar com outros produtos e serviços”, elucida.

O CEO gosta de frisar ainda que o objetivo da startup é construir um País com menos desperdício, mais eficiente, no qual as pessoas possam consumir e viver de forma mais inteligente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O FRACASSO DO SONHO E A CULTURA DO ATO?

De acordo com a visão da cultura atual, existe um predomínio da ação, da imagem e da superficialidade das relações humanas, o que traz como consequência a perda da reflexão e das relações humanas estáveis

A questão da prescrição de medicamentos deve ser tratada com cautela. Em 2012, fui uma das participantes de uma seleção de reportagens no jornal O Estado de Minas, cujo título era “Dispara em BH o uso de remédios contra a hiperatividade”. Belo Horizonte foi considerada a segunda capital que mais consumia a Ritalina. Alguns dados da Anvisa, além de informações em diversos sites e fontes, me inquietaram ainda mais.

O sonho e o ato são dois personagens centrais do universo psicanalítico. Vou poupar os leitores de maiores revisões sobre esses conceitos, sua relevância e seu percurso ao longo de nossa centenária história, porque as revisões conceituais estão à disposição de todos e muitas vezes podem se tornar defesas contra uma exposição direta por parte de quem escreve de sua própria visão e posicionamento sobre o tema em debate.

O título desta questão contém uma salutar provocação, bem como deixa perceber uma visão do mundo contemporâneo que está de acordo com sucessivas abordagens sociológicas, antropológicas e culturais.

Segundo esta visão do mundo e da cultura em que vivemos, que diferentes autores chamam de pós-modernidade, modernidade líquida, hiper­modernidade, cultura do narcisismo, o que observamos em nossos dias é um predomínio da ação, da imagem, da velocidade, da violência, da superficialidade, da fugacidade das relações humanas, das comunicações instantâneas e virtuais, da descartabilidade de pessoas, valores e ideias, com uma perda considerável ou mesmo uma quase ausência da reflexão, das relações humanas estáveis, da imaginação, da leitura, da calma, do tempo necessário para pensar, sentir, amar, conhecer a si mesmo e ao próximo.

Um psicanalista, estimulado pelos chamados trabalhos culturais de Freud, sente-se naturalmente tentado a participar deste debate, e muitos, entre os quais eu mesmo, já escreveram trabalhos sobre as relações entre a Psicanálise e a cultura. À medida, no entanto, que a idade e a observação dos fatos do mundo avançam, a tentação das generalizações e da aplicação de nossas teorias para entender fenômenos complexos torna-se mais cautelosa. Estamos lidando com realidades sobre as quais temos apenas uma visão fragmentária, e dependente de quem nos fornece as notícias e de suas motivações e interesses ideológicos, econômicos, religiosos e nacionais.

Afinal, qual é o nosso campo de observação, por excelência? A sessão analítica. O que nos chega nas sessões ou num processo analítico é uma visão particular, única e específica, daquele que nos fala, sobre o mundo em que vive, seja o interno, seja o externo, da forma como o percebe, a partir da trama possível de sucessivas identificações projetivas e introjetivas, dissociações, projeções, idealizações e assim por diante. Mas, de fato, não é bem isto o que ocorre. Hoje, graças a Bion, Meltzer, Baranger, Ferro, Ogden, sabemos que não há uma escuta analítica sem que a mente do analista tome parte ativa, não só da conversa na sessão, mas da construção conjunta de uma trama de significados, de um sonho sonhado a dois. Portanto, qualquer desejo de alguma objetividade ou de alguma informação sobre o mundo em que o paciente vive, que poderia nos ajudar a ver como é esse mundo, e contribuir para nossa visão do mundo como ele é ou quem sabe de como gostaríamos que fosse, torna-se uma ilusão perdida. Claro que os pacientes nos contam os fatos de sua vida, falam de pessoas reais com quem convivem, de experiências de que participam, mas este relato nos é absolutamente inútil para ter uma visão do mundo em que eles vivem, porque nosso interesse é por seu mundo interno, e estamos mais interessados e focados em identificar significados inconscientes do que na realidade supostamente factual.

Assim, o mundo que nos chega através da escuta analítica não me parece ser uma fonte fidedigna para que tenhamos uma visão razoável de nossa cultura. Não há como deixar de lembrar, a este respeito que, nesta pretensão de ver o mundo a partir dessa fonte de informação, estamos na mesma posição descrita no mito da caverna, por Platão: um grupo de prisioneiros, acorrentados numa caverna, passa todo o tempo olhando para a parede do fundo, que é iluminada por uma fogueira; nesta parede, são projetadas as sombras que representam pessoas, animais, plantas, situações do dia a dia; não se vê a realidade, mas imagens projetadas.

QUESTIONAMENTOS

Agora, se pensamos no que ocorre no trabalho analítico, temos duas questões a nos inquietar, para este tema: a primeira, se mudaram os pacientes, e nesta mudança predomina o ato sobre o sonho. E a segunda, se na prática analítica, observa-se o fracasso do sonho e a cultura do ato.

Quanto à primeira questão, temos uma sucessão de descrições dos chamados novos pacientes, em que se incluem os borderline, os narcisistas, os psicossomáticos, os perversos, os que têm as doenças da alma, os fronteiriços, as estruturas não neuróticas, conforme diferentes autores os caracterizam. Neste novo conjunto, predomina o ato sobre o sonho? Se considerarmos que em muitos destes pacientes predomina a dificuldade de simbolizar ou de representar, como descrevem os Botella, ou o pensamento operatório, conforme Marty, sim, de fato o sonho, em seu sentido mais amplo, que inclui esses elementos oníricos, é algo que tem que ser construído com essas estruturas não neuróticas. Com tais pacientes, o trabalho analítico será mais transformacional do que o tradicional arqueológico, como propõe Levine. O problema, contudo, é que existe uma discussão acerca da real prevalência dessas estruturas não neuróticas; serão de fato novas apresentações ou estamos vivendo um momento da prática analítica em que podemos trabalhar níveis mais profundos do psiquismo e em que mesmo continuando a predominar as estruturas neuróticas ou os transtornos de personalidade, podemos acessar e analisar níveis mais primitivos do funcionamento mental?

Uma possível constatação é que o progresso na compreensão do funcionamento psíquico, graças, por exemplo, ao trabalho monumental de Green, faz com que, em quase todas as análises, possamos percorrer esses infernos com nossos pacientes, bem como seus paraísos perdidos.

Quanto à segunda questão, sobre o trabalho analítico corrente, minha impressão é que ato e sonho convivem; sonho, aqui, tanto em sua versão freudiana fundante, como o psíquico por excelência, tanto como, por exemplo, descreve Ogden, a partir de Bion, no sentido de um trabalho conjunto entre analista e paciente, sonhando na sessão e construindo significados novos. O próprio sonho, propriamente dito, pode deixar assim de ser apenas um relato a ser interpretado pelo analista para informar ao paciente sobre algo de sua vida que ele ignora ou não quer saber, para ser também um estímulo a pensar e sentir a dois sobre o que está acontecendo na sessão ou na relação analítica.

Desta maneira, esses poucos elementos de nosso particular ângulo de observação não nos dizem que há um fracasso do sonho, nem que predomina uma cultura do ato. Talvez fosse mais de acordo com o que podemos observar ou viver no trabalho analítico, dizer que sonho e ato convivem, mantêm entre si uma permanente tensão, se alimentam mutuamente, são duas formas de comunicação. O sonho pode ser um prelúdio para o ato inibido ou interditado pela neurose, o ato pode ser uma defesa contra o lembrar e o sonhar, e esperamos que alguma convivência se estabeleça entre os dois personagens se um processo analítico é capaz de produzir transformação e mudança psíquica.

INSIGHTS

Voltemo-nos, agora, para a nossa cultura, tendo como pano de fundo os diversos insights de Freud em seus últimos trabalhos. Como adquirir alguma certeza sobre o que estamos observando? Freud observa que nossas estimativas sobre o futuro se baseiam muito mais em nossos desejos do que numa apreciação relativamente isenta ou na utilização dos faros do passado para tentar prever o futuro. Quando examina, por exemplo, o futuro de uma ilusão, alimenta a esperança de que o pensamento científico acabará por se impor ao animista ou religioso. Infelizmente, não é o que se observa. Pelo contrário, como destaca na Psicologia das massas, estas têm sede por obediência, por ilusões, por líderes fortes e que personifiquem todo o tipo de ilusões, o que é um fato que continuamos a observar, no curso da história e neste momento.

O que gostaria de examinar, então, é se de fato estamos vivendo, na cultura de hoje, o fracasso do sonho e o predomínio do ato. Podemos tomar tanto o nosso país, como o que ocorre em outras latitudes. Encontramos, então, o mesmo problema: quem faz a análise da situação? Baseado em que dados e em que interesses? Qual a extensão da apreensão de fragmentos maiores ou menores da realidade, qual a extensão das mentiras convenientes para cada grupo de interesses? Para um lado, o Brasil vive uma situação catastrófica, a violência, a corrupção, o desgoverno, a crise econômica campeiam soltas, e nos aproximamos do caos inevitável. Para outro, há inúmeras conquistas, melhoras nas condições de vida do povo, liberdade de investigação e ação da Polícia Federal e do Ministério Público.

Uma crônica recente de David Coimbra, no jornal Zero Hora, mostra a dissociação primária entre coxinhas e petralhas e ironiza uma forma de pensamento maniqueísta, que insiste no uso dos mecanismos primitivos de defesa. Uma pessoa tem que ser uma coisa ou outra, e a mesma forma elementar de classificação pode ser observada em inúmeras outras situações. Se formos para outra região, temos as ações assustadoras do denominado Estado Islâmico, cujos atos matam ou tentam eliminar boa parte das conquistas da civilização: os direitos das mulheres, dos homossexuais, a educação dos jovens e das mulheres, os monumentos históricos, a manutenção dos hábitos e tradições de diferentes minorias. Não é nada difícil sentir indignação e ódio desses fanáticos, que usam uma tecnologia apurada para espalhar imagens de decapitações ou queima de pessoas, porque são de outra religião ou de alguma minoria vista como inimiga duma versão distorcida e paranoica do Islã. Mas as coisas ficam mais complicadas quando saímos de uma reação emocional medular e vamos ler análises dessa situação complexa, de suas raízes históricas, das rivalidades entre xiitas e sunitas, das ações quase sempre desastrosas das potências ocidentais, e assim por diante.

E as coisas ficam ainda mais complicadas quando lembramos a sucessão de crueldades e decapitações ao longo da história, os banhos de sangue de minorias por razões políticas, econômicas ou religiosas, e a facilidade de dividir o mundo entre nós e eles.

Talvez uma conquista de nossos dias seja constituída pelas noções de complexidade, de fragmentação, de relativismo, de pluralismo. E aí voltamos às tentativas de descrever a nossa cultura com as propostas de pós-modernidade ou de modernidade líquida ou de cultura do narcisismo ou de hipermodernidade. Todas essas descrições me parecem úteis, mas irremediavelmente parciais, pois retratam um aspecto de uma realidade extremamente complexa. Nessa realidade complexa, que é a de nossos dias, encontramos, às vezes numa mesma rua ou num mesmo bairro, expressões hipermodernas ao lado de outras medievais ou modernas ou renascentistas. A realidade é complexa, por essência, e escapa de nossas tentativas de classificação. Como seria bom se nossos pacientes fossem histéricos, ou fóbicos ou deprimidos ou narcisistas! Como seria bom se comportassem e coubessem dentro dessas ficções diagnósticas que só servem para acalmar a quem os atende e defender da irremediável complexidade, da natureza única e irrepetível de cada pessoa e, pior ainda, de cada relação analítica. Como isso nos pouparia da dor insuportável da capacidade negativa e da necessidade sem remédio de recomeçar de novo a cada dia de trabalho!

ESPAÇO

Com isso, quero dizer que o estado da cultura me parece extremamente complexo, e que nela há espaço para o sonho e para o ato. Não consigo ver o fracasso do sonho, senão sua reimosa e persistente recusa a qualquer regulação ou controle. Freud gostava de citar aquela frase de que peçam a uma pessoa que conte seus sonhos, e ninguém escapará do açoite. Mas minha impressão é que, além do possível açoite, peçam a uma pessoa que conte seus sonhos e ninguém se entediará ou aborrecerá ou deixará de se encantar com a praticamente infinita variedade e a inesgotável criatividade humana para sempre criar novas expressões da dualidade pulsional. Quando se escutam lamentos sobre essas ferramentas contemporâneas que aparentemente limitam a imaginação, e invadem o setting analítico, ao mesmo tempo observamos as crianças com fome de histórias contadas pelos pais e avós, com seus olhos ávidos por entrar e tomar parte nesse mundo infinito de fantasias, possibilidades e aventuras. O sonho continua vivo, e forma com o ato um pas

de deux sutil, delicado, mutuamente alimentador e limitador. Não, nossa cultura não é a do ato, nossa cultura, como as que nos precederam, se alimenta do sonho e do ato, e tem sonhos que resultarão em atos criativos, mas tem também, como sempre houve, sonhos destrutivos que levarão aos atos perversos e de destruição do próximo e dos bens da civilização. Quanto aos instrumentos que apavoram muitos ou alguns por seu potencial de desumanização, são parte de nossa linguagem contemporânea, e através deles também falamos ou calamos, também sonhamos ou somos incapazes de simbolizar ou representar. Quando se viveu muito tempo numa civilização, escreveu Freud, e se tentou descobrir quais foram suas origens, e ao longo de que caminho ela se desenvolveu, fica-se às vezes tentado a voltar o olhar para outra direção e indagar qual o destino que a espera e quais as transformações que está fadada a experimentar.

Situando-me, neste momento, numa posição semelhante, permito-me cultivar não só a esperança, como uma confiança na capacidade do sonho e do ato em seu interminável balé em direção ao futuro. Como em tantos momentos, ao longo do ciclo vital, sinto-me em boa companhia, e assim repito aqui uma das lições que aprendi com Carlos Drummond:

Outrora viajei países imaginários, fáceis de habitar; ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio

Meus amigos foram às ilhas

Ilhas perdem o homem.

Entretanto, alguns se salvaram e

Trouxeram a notícia

De que o mundo, o grande mundo,

está crescendo todos os

dias, entre o fogo e o amor

Então, meu coração também pode crescer.

Entre o amor e o fogo,

Entre a vida e o fogo,

Meu coração cresce dez metros e

explode.

Ó vida futura! Nós te criaremos.

MODERNIDADE LÍQUIDA

O termo “modernidade líquida” foi cunhado pelo sociólo8o polonês Zygmunt Bauman. Seu conceito se traduz pelo conjunto de relações e instituições, que oferecem base para a contemporaneidade. Uma época de liquidez, fluidez e volatilidade, que traz como consequência incerteza e insegurança. É quando os referenciais morais de épocas anteriores – modernidade sólida – saem de cena e dão lugar à lógica do agora, do consumo e do artificial. No caso das relações sociais. estas se tornam frágeis e têm como pressuposto a transformação dos seres humanos em mercadorias, que podem ser consumidas e descartadas a qualquer momento. O sujeito líquido lida com um universo de consumo e opções, mas esse mundo nunca é objetivo e frio, pois causa frustrações e insegurança. Tudo se passa como se fosse uma questão de escolher a melhor opção, o que traz mais vantagens e, de preferência, nenhuma desvantagem. As relações de trabalho de desgastam e se tornam campo vasto para empregos temporários, sem vínculos maiores.

CLAUDIO LAKIS EIZIRIK – é psiquiatra e psicanalista, doutor em Medicina, membro efetivo da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre. Professor titular da UFRGS, ex-Presidente da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) e da Federação Psicanalítica Latino-Americana, autor de livros, capítulos, trabalhos e orientador de teses de doutorado e mestrado. Prêmio Sigourney de 2011. por contribuições relevantes à psicanálise. Coordenador, desde 2013, do Comitê de Psicanálise e o campo da Saúde Mental da IPA