EU ACHO …

IR CONTRA UMA MARÉ

Lutei toda a minha vida contra a tendência ao devaneio, sempre sem jamais deixar que ele me levasse até as últimas águas. Mas o esforço de nadar contra a doce corrente tira parte de minha força vital. E, se lutando contra o devaneio, ganho no domínio da ação, perco interiormente uma coisa muito suave de se ser e que nada substitui. Mas um dia ainda hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O ”STREAMING DOS CRISTÃOS”

O Lumine, uma plataforma de vídeo com “valores conservadores”, conquista adeptos com catálogo “família” e produções direitistas

Em abril deste ano, a militante extremista Sara Giromini – que se notabilizou já há alguns anos sob o nome de guerra Sara Winter – publicou para seus mais de 250 mil seguidores no Twitter: “!! Atenção!! Você já pode assistir o meu filme! Clique no link abaixo e se cadastre na Lumine, um portal de filmes conservadores”. O anúncio, além da evidente autopropaganda, era mais um lance da ofensiva em favor do que os sites conservadores têm apresentado a seus fiéis como uma “alternativa cristã ao Netflix”.

Primeira plataforma de vídeo on demand direcionado ao público cristão e/ou conservador, o Lumine está desde agosto do ano passado na disputa acirrada do streaming no Brasil com palavras-chaves pouco usuais nesses serviços: “moral”, “espiritual”, “religioso”. “Todo nosso catálogo é voltado para essa temática: bons filmes para serem vistos em família, que falam sobre a história da igreja, sobre o cristianismo, que falam sobre cultura e sobre arte”, disse o fundador da plataforma, Matheus Bazzo, ao canal do blogueiro Allan dos Santos, o Allan Terça Livre, dono do autodenominado “maior canal conservador de notícias e análises da América Latina”, com 1 milhão de seguidores no YouTube. Procurado, Bazzo declinou os pedidos de entrevista.

A plataforma oferece assinatura mensal (RS 28), trimestral (RS 78) e anual (R$ 274). Elas dão acesso a 120 horas de conteúdo, com novos títulos todo mês. Começou apenas com um cardápio de filmes tradicionais, mas logo passou a fazer lançamentos exclusivos, como os documentários Caos e ordem, sobre o psicólogo canadense Jordan Peterson, ídolo do público conservador, e O mistério de Padre Pio, sobre o mistério da canonização do santo de Pietrelcina. O número de assinantes não é conhecido.

Assim como grandes serviços de streaming, a Lumine também aposta em conteúdo próprio, como o documentário A vida de Sara, alardeado por Giromini nas redes sociais. Produzido por Bazzo e dirigido por Julia Sondermann, o filme “retrata uma vida complexa de uma mulher que luta para resgatar a normalidade da vida”, de acordo com a sinopse. A conversão de Winter do feminismo para o catolicismo é vista como uma “retomada de consciência” após o “radicalismo ideológico”. Em entrevistas, a própria ativista disse que o filme funcionava como uma “vacina contra a doença do feminismo”.

Em maio, a extremista protestou em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) usando símbolos que remetiam a grupos como Ku Klux Klan. Em junho, três meses após a estreia do documentário, ela foi presa pela Policia Federal por causa do inquérito que investiga atos antidemocráticos no Brasil. Poucos dias depois, foi liberada ante medidas restritivas.

O nome da plataforma, Lumine, é inspirado num dos termos do latim para “luz”. Ao apresentar seus filmes, o site da plataforma recorre seguidamente a uma oposição um tanto simplória e edificante entre o que considera uma arte “elevada”, “iluminada” ou “pura” e uma outra que define como inconsequente, feita apenas para a diversão. Publicado no site, o relato satisfeito de uma assinante resume essa visão estética: “Não sei como definir, muito obrigada por levarem a arte pura para dentro de nossos lares, que Nosso Senhor Jesus Cristo continue abençoando vocês”, escreveu ela.

Uma olhada rápida no catálogo, porém, mostra que a curadoria vai além do discurso simplório. Um dos destaques do último Natal foi o clássico indiscutível A felicidade não se compra, que há décadas agrada tanto à esquerda quanto à direita (embora, é preciso admitir, faça uma crítica pesada à ganância dos bancos) e costuma integrar listas dos melhores filmes da história. Embora adaptado de um romance considerado por muitos como “reacionário”, O leopardo, dirigido por Luchin o Visconti, é outro cuja contribuição artística para o cinema supera qualquer divergência ideológica. Shakespeare está presente em uma de suas adaptações mais arrojadas, o Othello de Orson Welles. E o que falar da obra de Robert Bresson, presente por sua inspiração católica jansenista, mas que é um dos cineastas preferidos do maoista Jean-Luc Godard?

A comparação dos conservadores com a Netflix, e não com outros grandes serviços de streaming como Globo Play ou Amazon Prime, não é acidental. O ápice da briga entre grupos cristãos e o serviço americano aconteceu em dezembro, quando a Netflix exibiu A primeira tentação de Cristo, o especial de Natal humorístico do Porta dos Fundos envolto em controvérsias. A pedido do Centro Dom Bosco, um desembargador da 6ª Câmara Cível do Rio de Janeiro chegou a censurar a obra com o argumento de que “Jesus é retratado como um homossexual pueril, Maria como uma adúltera desbocada e José como um idiota traído” (a decisão acabou sendo derrubada pelo STF). Dias antes, a sede da produtora havia sido alvo de um ataque terrorista reivindicado pelo grupo Comando de Insurgência Popular Nacionalista.

A Lumine aproveitou o impacto negativo do especial do Porta dos Fundos entre grupos cristãos para tentar se firmar. Divulgou um manifesto em suas redes sociais em que defendeu ser “impossível haver qualquer ganho artístico ou narrativo mediante a ridicularização da imagem de Jesus Cristo”. E acrescentou: “Entendemos que uma obra de arte pode abordar diferentes aspectos a respeito desse período histórico sem fazer nenhum tipo de caricatura ou ofensa à imagem de Jesus”.

Foi a partir daí que a plataforma ganhou grande visibilidade na mídia conservadora. Bazzo, que em 2017 trabalhou como assistente no documentário O jardim das aflições, sobre a vida e a obra do filósofo Olavo de Carvalho, deu entrevistas para canais bolsonaristas como o Terça Livre. Um de seus argumentos, ao promover o Lumine, é que pautas supostamente esquerdistas estariam fazendo mal ao audiovisual.

“A tomada da esquerda não é apenas um problema ideológico político, (ela)causou uma perda de qualidade nas artes. É um problema de qualidade poético”, disse Bazzo ao entrevistador Ricardo Roveran em dezembro. Ele também reclamou da “cosmovisão” das obras produzidas no Brasil e de uma classe acústica que estaria “intoxicada por marxismo”. “Sempre vai haver um conjunto de valores defendido por determinada obra de arte. O que acontece é que, quando você não utiliza os valores das pessoas, dos cristãos, vai haver outros. No Brasil das últimas décadas, a cosmovisão que está sendo transmitida é uma cosmovisão marxista bem tacanha de opressor e oprimido.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 18 DE MAIO

A SABEDORIA PRODUZ RIQUEZA

Aos sábios a riqueza é coroa, mas a estultícia dos insensatos não passa de estultícia (Provérbios 14.24).

A riqueza não produz sabedoria, mas a sabedoria produz riqueza. Nem todo rico é sábio, mas todo sábio é rico, pois riqueza não é tanto aquilo que possuímos, mas quem somos. Riqueza não tem a ver apenas com o que carregamos no bolso, mas sobretudo com o que levamos no coração. Riqueza não é somente uma fina camada de verniz de ouro, mas a nobreza do caráter. Há uns que se dizem ricos sendo muito pobres, mas há outros que mesmo sendo pobres são muito ricos. O apóstolo Paulo fala daqueles que são pobres, mas enriquecem a muitos; daqueles que nada têm, mas possuem tudo. A felicidade não mora na casa da riqueza, mas na casa da sabedoria. A felicidade não está no ter, mas no ser. O dinheiro não nos pode dar felicidade, mas o contentamento com piedade é grande fonte de lucro, pois nos oferece tanto felicidade quanto segurança interior. Quando o nosso contentamento está em Deus, podemos viver contentes em toda e qualquer situação, seja morando num palacete ou num casebre, pois nossa felicidade não vem das circunstâncias, mas de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

CABIDE DIGITAL

Riachuelo coloca em prática processo 100% sem intervenção humana em sua logística de reposição de mercadoria no centro de distribuição de Guarulhos (SP).

Vinte dias. Esse é o período entre a ideia de um estilista e a venda de uma roupa na rede de departamentos Riachuelo. São 480 horas de processos de criação, desenhos, protótipos, manufatura da peça, envio para o centro de distribuição (CD), separação, envio para a loja e a venda ao consumidor. No meio de tudo isso, tecnologia, tecnologia e mais tecnologia. Desde a pesquisa de tendências até a venda. “Tecnologia é ativo estratégico da empresa. Não vendemos uma unidade de valor, comercializamos a experiência do cliente”, afirmou à Carlos Alves, diretor-executivo de Tecnologia da Riachuelo.

A companhia potiguar, que completa 70 anos em 2022, trabalha para diminuir ainda mais o tempo entre a ideia da roupa e a chegada ao cliente. Para isso, tem um time de 850 engenheiros de computação. Em 2018 eram 150. Esse movimento explica a transformação. Um dos destaques da jornada de inovação é o sistema de gerenciamento de armazém WMS (Warehouse Management System) e o processo de reposição de mercadoria, que é 100% automatizado no Centro de Distribuição de Guarulhos (SP). A companhia tem outros dois em Natal e Manaus, que também têm recebido investimentos.

Funciona assim: quando os caminhões da Transportadora Casa Verde, de propriedade da Riachuelo, chegam ao CD carregados com os produtos das fábricas, robôs, esteiras e cabideiros controlados por um buffer entram em ação para levar cada item para um espaço específico do galpão. Já para a entrega desses itens às lojas, uma vez por dia, geralmente entre às 4h e 5h, o software proprietário de abastecimento executa sua inteligência e cria uma lista de picking (necessidades) baseada na rotina e performance de venda dos produtos que precisam ser repostos. Essa lista entra no setor de logística às 6h. Os produtos seguem pelas esteiras e cabideiros até chegar nos caminhões para a saída. “Temos um processo de roteirização inteligente no qual utilizamos a camada de transporte para montar o melhor roteiro para abastecimento das lojas”, disse Carlos Alves.

No ano passado, apenas o CD de Guarulhos expediu 57 milhões de peças para as lojas. São mais de 100 peças por minuto. “Além da automação dos CDs, que chamamos de estoque central, as lojas também possuem essa automação, que é o que chamamos de Active Omni.” Dessa forma, a Riachuelo é cada vez mais uma empresa de tecnologia que vende roupas e cada vez menos uma empresa de vestuário que usa tecnologia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EM BUSCA DO ACESSO À CONSCIÊNCIA

A metapsicologia é responsável por articular um repertório de insights da clínica, que são verdadeiros golpes de percepção, apreensões que movimentam o saber psicanalítico

O próximo Congresso Brasileiro de Psicanálise coincide com a comemoração dos 106 anos dos textos da metapsicologia de 1915. A metapsicologia articula um repertório de insights da clínica. Insights são golpes/ espantos da percepção – apreensões que surgem a posteriori – e que movem o saber psicanalítico. A representação é o conceito-chave na obra de Freud, e que compreende os de seus descendentes: o simbólico (Lacan), a fantasia (Klein), o pensar (Bion) e o crescimento (Winnicott).

Porém, é o ato que está na origem da cena da representação, na sua trama e malha afetiva. “No início era o ato”, conclui Freud no seu Livro de 1913, Totem e Tabu. Ato esse, do assassinato do pai, advindo em um enredo darwiniano: nos primórdios da humanidade, um macho ciumento rechaça os filhos, tomando posse de todos os bens, de todas as fêmeas. Os filhos mudam a história ao assassiná-lo, dando vez a organizações mais democráticas. Porém, a perda do todo-poderoso pai desemboca no luto, na separação. O conflito constitui, portanto, a lógica da cena na qual o sujeito, desde sempre, se insere. Não se trata, portanto, da representação de algo exterior e visível, mas de uma cena dentro da qual o sujeito está mergulhado a despeito de sua noção ou vontade.

O sonho seria a representação dessa representação, “a outra cena” (Freud), tornando-a passível ao alcance da percepção. Na clínica e na vida, uma coisa é o agir que resiste ao plano da análise desde seu início – isto é, viver a cena ou “cair dentro” da lembrança -, o que impede o acesso à consciência, à percepção e à palavra. Por isso, age aquilo que se teme ver ou lembrar! Outra coisa é a atuação, a evacuação somática e motora que denuncia a falha, senão a falência do esforço de origem na montagem da representação junto ao adulto, a partir de moções pulsionais. A atuação suscita, por isso, uma espécie de reivindicação desesperada por uma construção, uma história. A falência e a fragilidade das representações, da constituição do sonho ante as demandas da cultura, desafiam hoje o trabalho analítico e a Psicanálise.

PRELÚDIO DA AÇÃO

O sonho ou a representação como condições da ação são um dos clássicos do trabalho analítico: identificar na experiência analítica o afeto, a vivência na cena e no sonho, a partir das quais se esboça a ação. A ação, por sua vez, coloca o mundo psíquico à prova da realidade. O afeto como percepção de inervação interna, em via de descarga, remonta à expressão das emoções do recém-nascido. Essa convoca o adulto como interpretante de supostos estados afetivos.

A ajuda do adulto, veiculada pelas palavras e suas tonalidades, daria forma ao estreito apelo do corpo, ao seu desespero, gerando o repertório afetivo. Tal implantação primeira, histérica, do mundo humano seria posta, com a perda do objeto e instauração do recalcado, ao teste da subjetivação. E, ao vislumbrar um si, ao adentrar a trama edípica, da castração e da falta, o gozo conversivo do corpo transforma-se, em parte, em afetos e percepções; ou seja, no empenho do pensar inerente à descoberta da alteridade.

Dissolver os impasses (os sintomas) nesse doloroso caminho, em que se abre mão do terreno incestuoso da fantasia – aceitando a castração, a falta, alcançando a posição depressiva e assumindo os afetos no pensar – tem sido a via mestra da análise. E continua sendo um dos desafios principais da clínica, a da neurose.

Fora da neurose, não é a dissolução do sintoma que está em questão, mas a construção do sonho, da representação. É o trabalho do adulto (objeto) em suas possibilidades psíquicas de nomeação e, portanto, de construção que devem ser retomadas na via principal de certas demandas cada vez mais crescentes na contemporaneidade.

A fuga no agir e as atuações são objetos de uma reassunção do sonho, ou melhor, da conversão do ato em sonho, em pensar. A psicopatologia do ato de delírio da alma e seu corpo somático, e suas correspondentes denúncias (de falhas) do trabalho do objeto, impõem o grande desafio ao analista.

SINTOMA E CRIATIVIDADE

Mesmo após a inauguração da nova concepção econômica, onde a matéria psíquica primária se rege no equilíbrio lábil entre duas tendências opostas, de silêncio e de excitação, de morte e de vida (predominando a primeira), disponível aos efeitos do trabalho da cultura e seu mensageiro – adulto/ objeto -, Freud ainda acreditava, em 1921, nos sonhos, narrativas e mitos.

Porém, logo, a partir de 1923, Freud reconheceu que a pressão da cultura, a sublimação e os meios de retenção em prol da inclusão na civilização poriam limites econômicos às possibilidades da representação e suas entranhadas percepções, os afetos. Ante tal disjunção pulsional, o aparelho psíquico recorreria a modos de sustentação da separação do eu pelas vias primitivas de gozo do sintoma, além de outros modos de denegação da falta, como a rachadura e a divisão do eu. As fugas no ato e as atuações, e seu gozo, poderiam encontrar consolo em formas intermediárias, de assunção dos sintomas e de uma criatividade em modos de subjetivação passiveis de conciliação junto a essa forma de inadequação fundamental da vida humana na cultura.