EU ACHO …

DIVAGANDO SOBRE TOLICES

Depois de esporádicas e perplexas meditações sobre o cosmos, cheguei a várias conclusões óbvias (o óbvio é muito importante: garante certa veracidade). Em primeiro lugar concluí que há o infinito, isto é, o infinito não é uma abstração matemática, mas algo que existe. Nós estamos tão longe de compreender o mundo que nossa cabeça não consegue raciocinar senão à base de finitos. Depois me ocorreu que se o cosmos fosse finito, eu de novo teria um problema nas mãos: pois, depois do finito, o que começaria? Depois cheguei à conclusão, muito humilde minha, de que Deus é o infinito. Nessas minhas divagações também me dei conta do pouco que sabia, e isso resultou numa alegria: a da esperança. Explico-me: o pouco que sei não dá para compreender a vida, então a explicação está no que desconheço e que tenho a esperança de poder vir a conhecer um pouco mais.

O belo do infinito é que não existe um adjetivo sequer que se possa usar para defini-lo. Ele é, apenas isso: é. Nós nos ligamos ao infinito através do inconsciente. Nosso inconsciente é infinito.

O infinito não esmaga, pois em relação a ele não se pode sequer falar em grandeza ou mesmo em incomensurabilidade. O que se pode fazer é aderir ao infinito. Sei o que é o absoluto porque existo e sou relativa. Minha ignorância é realmente a minha esperança: não sei adjetivar. O que é uma segurança. A adjetivação é uma qualidade, e o inconsciente, como o infinito, não tem qualidades nem quantidades. Eu respiro o infinito. Olhando para o céu, fico tonta de mim mesma.

O absoluto é de uma beleza indescritível e inimaginável pela mente humana. Nós aspiramos a essa beleza. O sentimento de beleza é o nosso elo com o infinito. É o modo como podemos aderir a ele. Há momentos, embora raros, em que a existência do infinito é tão presente que temos uma sensação de vertigem. O infinito é um vir a ser. É sempre o presente, indivisível pelo tempo. Infinito é o tempo. Espaço e tempo são a mesma coisa. Que pena eu não entender de física e de matemática para poder, nessa minha divagação gratuita, pensar melhor e ter o vocabulário adequado para a transmissão do que sinto.

Espanta-me a nossa fertilidade: o homem chegou com os séculos a dividir o tempo em estações do ano. Chegou mesmo a tentar dividir o infinito em dias, meses, anos, pois o infinito pode constranger muito e confranger o coração. E, diante da angústia, trazemos o infinito até o âmbito de nossa consciência e o organizamos em forma humana simplificada. Sem essa forma ou outra qualquer de organização, nosso consciente teria uma vertigem perigosa como a loucura. Ao mesmo tempo, para a mente humana, é uma fonte de prazer a eternidade do infinito: nós, sem entendê-lo, compreendemos. E, sem entender, vivemos. Nossa vida é apenas um modo do infinito. Ou melhor: o infinito não tem modos. Qual a forma mais adequada para que o consciente açambarque o infinito? Pois quanto ao inconsciente, como já foi dito, este o admite pela simples razão de também sê-lo. Será que entenderíamos melhor o infinito se desenhássemos um círculo? Errei. O círculo é uma forma perfeita, mas que pertence à nossa mente humana, restrita pela sua própria natureza. Pois na verdade até o círculo seria um adjetivo inútil para o infinito. Um dos equívocos naturais nossos é achar que, a partir de nós, é o infinito. Nós não conseguimos pensar no existo sem tomarmos como ponto de vista o a partir de nós.

Para falar a verdade, já me perdi e nem sei mais do que estou falando. Bem, tenho mais o que fazer do que escrever tolices sobre o infinito. É, por exemplo, hora do almoço e a empregada avisou que já está servido. Era mesmo tempo de parar.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

PRONTOS PARA BEBER

Sem a aura de elegância com a qual ingressaram na cultura etílica, drinques famosos passaram a ser vendidos em lata no Brasil, e, para surpresa geral, o resultado tem agradado

O afã de dar graça a bebidas alcoólicas misturando-as a outros ingredientes acompanha a história da humanidade desde os gregos. Mas o embrião da coquetelaria tal qual a conhecemos só começou a germinar mesmo no século XVIII, quando os americanos passaram a cultivar o hábito de bebericar licores como aperitivo. Abriu-se aí um mundo de experimentações, freado pela Lei Seca nos anos 1920, porém logo reanimado pelo icônico bloody mary e, mais tarde, pelo dry martini, que encontrou nas mãos do James Bond de Sean Connery um charme todo especial. A partir da frenética década de 80, contudo, os drinques ficaram circunscritos à velha guarda – até que, nos anos 2000, entrou em cena o mixologista, profissional que junta o mais improvável em uma taça (e dá certo). Pois esse universo está sendo sacudido por uma nova onda que faz torcer o nariz dos mais puristas: a dos drinques na latinha.

Coquetéis prontos para o consumo embalados em lata de alumínio são comuns nos Estados Unidos e na Europa, mas só de um ano para cá vêm sendo assimilados pela cultura etílica brasileira. Essas versões ganham espaço em festas ao ar livre e na praia, lugares onde o vidro não orna tão bem, e se alastram especialmente na faixa dos 25 aos 40 anos, estimuladas pelo preço: os drinques enlatados custam em média metade do valor cobrado no bar. “São bebidas que pouca gente sabe fazer, daí a alta procura”, diz Ricardo Petrus, o autor das criações da gaúcha Le Mule, uma das empresas desse mercado em franca expansão: deverá responder por 10% de todos os líquidos vendidos em lata no país até o fim de 2020.

O frescor, evidentemente, se perde em certa medida, mas a qualidade da bebida é preservada graças ao avanço da embalagem laminada, feita para não oxidar. Também os ingredientes podem não ser aquilo que parecem ao primeiro gole. A Ambev, por exemplo, entrou no jogo com o GT, um gim-tônica de sabor puxado para a carambola que não leva nem gim nem tônica, mas álcool de cereais e aromatizantes. “A tecnologia nos permite reproduzir sabores cada vez mais próximos dos originais”, avalia o mixologista carioca Michell Agues. Ele e outros mestres da coquetelaria dão uma dica para que a magia seja preservada: entornar o drinque na taça, enfeitar com uma rodela de limão e tim-tim.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 17 DE MAIO

O TRABALHO É SEMPRE PROVEITOSO

Em todo trabalho há proveito; meras palavras, porém, levam à penúria (Provérbios 14.23).

Vivemos a cultura do enriquecimento rápido. As loterias e as casas de jogos alimentam a esperança de um enriquecimento imediato e sem esforço. Os cassinos prometem uma via alternativa cujo destino é a riqueza sem o suor do rosto. Mas a riqueza não é filha da aventura, e sim do trabalho. Os tolos passam o tempo todo correndo atrás do vento, contando suas lorotas e proclamando seus planos mirabolantes, mas os prudentes põem a mão na massa e trabalham com dedicação. O trabalho enobrece o homem. Traz dignidade à vida e robustez ao caráter. O trabalho engrandece a sociedade e gera riquezas para a nação. O trabalho promove o progresso e oferece segurança e honra à família. O conhecido e já citado ditado popular diz: “Cabeça vazia é oficina do diabo”. As mãos que não se ocupam com o trabalho acabam ocupando-se com o crime. Os ociosos maquinam o mal. Os vagabundos rendidos à preguiça são um peso para o Estado, uma vergonha para a família e uma ameaça à paz social. Até mesmo aqueles que cumprem pena no cárcere, privados de liberdade, deveriam ser matriculados na escola do trabalho. Só assim terão chance de ser reintegrados ao convívio da sociedade como provedores da família, e não como parasitas da nação.

GESTÃO E CARREIRA

A DIGNIDADE NÃO TEM GÊNERO

O sucesso de iniciativas para acomodar LGBTs no mercado de trabalho e ampliar a diversidade nas empresas

“Como toda mulher trans, encontrei dificuldade de me colocar no mercado de trabalho, mas não por falta de capacidade”, lamenta Joy Agoston. Por meio de uma bolsa universitária, obtida pelo fato de jogar vôlei em uma instituição particular de ensino superior, ela conseguiu se formar em Jornalismo, além de realizar dois intercâmbios durante o período, um para aprimorar o inglês, outro o espanhol. Com o diploma na mão, o momento das primeiras entrevistas de emprego refletiu, no entanto, o preconceito contra transgêneros. “Dava para ver um desconforto no olhar do entrevistador, claramente despreparado para lidar comigo, e assim cheguei a ser reprovada para uma vaga que, depois de dez dias, foi ocupada por uma colega cis, formada na mesma faculdade e com as mesmas capacidades que eu.”

Aos 26 anos, Agoston é um retrato dos problemas que não apenas transgêneros, mas também outros integrantes comunidade LGBTQIA+ enfrentam tanto para serem contratados, passo inicial na luta por um emprego, quanto nas empresas, cujo ambiente costuma reproduzir preconceitos claros, ofensas veladas ou os chamados “vieses inconscientes”, como define a linguagem corporativa. Após um tempo formada e em busca de oportunidades, a jornalista só encontrou seu primeiro emprego no setor de comunicação de uma rede hoteleira, após topar com uma das várias iniciativas que buscam especificamente unir as duas pontas: LGBTQIA+ que querem trabalhar e empresas dispostas a ampliar a diversidade de seu quadro de funcionários.

Consultorias, banco de talentos, plataformas de anúncios de emprego, promotores de palestras e assistentes em processos seletivos, entre outros, os empreendimentos que promovem a diversidade no mercado de trabalho florescem de diferentes formas no País a partir de uma necessidade clara de inclusão, segundo Maira Reis. Fundadora da camaleao.co, responsável por indicar Agoston para a vaga, Reis deu início ao serviço de forma artesanal em 2016, depois de começar a publicar textos sobre diversidade no ambiente profissional e ver sua caixa de e-mails se encher de currículos. Sem desconfiar inicialmente do potencial da empreitada, ela decidiu ligar para uma trans em busca de uma vaga de emprego, ainda sem a perspectiva de prestar um serviço. Foi quando vislumbrou a natureza do empreendimento. Cinco anos depois, com um banco de talentos com mais de 3,5 mil nomes e prestes a lançar uma plataforma profissional exclusiva para esse público – espécie de “vagas.com versão LGBTQIA+” -, a consultora destaca os obstáculos que ainda persistem: “Não adianta apenas contratar sem entender que é preciso criar um ambiente interno de inclusão.”

De acordo com o estudo Proud At Work, realizado em 2019 pela plataforma LinkedIn, 35% dos entrevistados LGBTQIA+ relataram ter sofrido preconceito no ambiente de trabalho. Segundo o levantamento, apenas 50% desses profissionais falam abertamente sobre sua orientação sexual ou identidade de gênero no trabalho e 22% afirmam preferir não tocar no assunto por medo de represálias. Do púb1íco LGUTQJA+ consultado, a maior fatia (29%) recebe de um a dois salários mínimos, 55% tinha o sexo biológico definido como masculino, além de, na orientação sexual, 45% ser homossexual, 35% bissexual, 8% pansexual e 2% assexual. “Não é apenas por contratar alguém da comunidade que a empresa pode se dizer diversa”, afirma a consultora. “É preciso engajar a liderança, desenvolver um código de conduta treinar os profissionais e entrar com tudo nessa mudança, o que pode demorar de dois a três anos para começar a funcionar.” O objetivo, ressalta, não é exatamente – apenas encontrar uma vaga, mas também fazer os clientes atendidos pelo serviço permanecerem nos empregos, o que só se consolida com uma mentalidade de inclusão difundida a longo prazo.

Entre aqueles classificados na sigla LGBTQlA+, Agoston acredita que sejam os transgêneros os que mais sofrem ofensas no trabalho. “Muitas vezes acham que a gente é um extraterrestre e ficam pisando em ovos para falar conosco”, descreve.

Para atender especificamente os transgêneros, a Trans Empregos surgiu em 2013 como plataforma gratuita de anúncio de vagas e banco de talentos. Hoje, incorporou aos serviços cursos de formação, além de projetos para empreendedores, com quase 900 empresas parceiras e 794 empregadas apenas em 2020. À frente da iniciativa, Maite Schneider afirma que os motivos elencados pelas empresas para não contratar trans são basicamente três: a resposta falta de profissionais qualificados”, “não sabem lidar com um profissional assim”, além de que seria preciso “baixar as regras para contratar esses trabalhadores. Todos escondem, no entanto, o preconceito, afirma Schneider. “Não é por falta de habilidades que elas não conseguem, porque temos talentos que atendem a todos os perfis e conseguem entregar exatamente o que os empregadores querem, mas falta a chance. “Não há uma forma exata de criar uma cultura corporativa inclusiva, diz, mas mecanismos para permitir que o assunto seja encarado com respeito e comprometimento, o que também se reflete em maneiras mais seguras de tratar esses empregados, como o uso de nome social, documentos, banheiros, pronomes e outras condições básicas.

Ainda que a diversidade seja um ponto que atrai empregadores que buscam uma imagem mais inclusiva de seus negócios, é preciso atenção para não transformar a decisão em um fim em si mesmo, com início e fim na empregabilidade. A inclusão não só de LGBTQIA+, como de raças e etnias, funciona para potencializar o ambiente de trabalho e criar equipes que fogem dos padrões e estimulam a criatividade, aponta Maite Schneider. “As empresas que entenderam que a diversidade não é só um negócio são aquelas que conseguem ter os melhores resultados.” Maira Reis resume de outra maneira: “Não adianta contratar apenas por caridade”.

Depois de trabalhar três anos no posto alcançado com apoio da camaleão.co, Joy Agoston voltou a procurar trabalho após a pandemia ter pulverizado a receita e os empregos no setor hoteleiro. Mas as exigências do mercado, reclama, não levam em consideração o histórico de vida das candidatas. No país que mais mata transgêneros no mundo, o preconceito é também um obstáculo à educação formal. Exigir, por exemplo, inglês fluente pode ser um problema, pois frequentar o ensino superior ou fazer intercâmbios acontecem raríssimos casos. “É preciso também querer nos ver lá dentro, dar a oportunidade de aprendermos uma vez empregados, e isso parte da vontade que os empregadores têm, porque, competência tenho certeza que possuímos” As empresas que não entendem ou não se interessam por incluir LGBTQIA+ estão fadadas a perder espaço no mercado. no qual a diversidade é cada vez mais exigida por consumidores e investidores, avalia Reis. “As empresas não têm escolha, porque a nova geração é a geração da diversidade. Se eu faço parte da comunidade LGBTQIA+ e sou disputado no mercado de trabalho, logicamente vou para o lugar que tenha políticas para mim e meus semelhantes. “No futuro, sonha Schneider, talvez esse tipo de política afirmativa não seja mais necessário em um mundo onde todos venham a ser tratados de maneira igualitária.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAFIOS DIGITAIS

Infindável mundo de possibilidades, também para as crianças, a internet faz parte cada vez mais cedo da vida delas. No entanto, é preciso cuidado para educar os filhos na era dos tablets e smartphones

Assim como acontece em relação aos adultos, para as crianças a internet também é um maravilhoso mundo de possibilidades. Tanto que seu uso tornou-se corriqueiro nas escolas, onde esse conhecimento por parte das crianças já é tido como certo. Por isso mesmo, elas podem e precisam ser estimuladas e orientadas a navegar desde cedo. E pelos pais! Hoje já se espera que as crianças estejam desenvoltas ao navegar pela rede, ao brincar com jogos interativos e ao se comunicar com os amigos e professores. Também é desejável que sejam autossuficientes nas buscas e pesquisas para seus trabalhos escolares. E sabemos que, quanto mais navegam, mais absorvem conhecimentos vários e vão se aprimorando na exploração do mundo digital em si, gerando uma contínua autoaprendizagem. Fantástico! Entretanto, há riscos.

Tanto acidentalmente quanto movidas pela própria curiosidade, as crianças vão acabar acessando material impróprio para sua idade, imagens que podem ser excessivamente impactantes ou nocivas para a formação de sua personalidade. Imaturas e emocionalmente vulneráveis, elas precisam caminhar sobre um terreno mais seguro para ter um desenvolvimento saudável. Por isso é tão importante estar ciente do que é que elas ouvem e veem na internet, que tipo de informação e conteúdo pesquisam, compartilham e com quem. Só assim é possível conversar sobre isso tudo com elas e orientá-las de acordo com a visão de mundo dos pais.

É preciso que as crianças estejam sob a vista dos pais, para que eles acompanhem sua evolução e descobertas. Os pais devem também ser capazes de ir apresentando-lhes opções interessantes e divertidas, brincando junto, tornando-se parceiros na sua vivência e aprendizado, compartilhando conhecimento e aquisição de conteúdo, além de diversão. Assim, do mesmo modo que é saudável discutir com as crianças um filme assistido juntos, para esclarecer alguns pontos e dar orientação sobre valores e princípios éticos, poderão ser dadas coordenadas que manterão as crianças em processo de aprendizado controlado, direcionadas para conteúdo cada vez mais complexo, mas sempre adequado à sua faixa etária e grau de maturidade.

Levando a sério a tarefa de protegê-las dos perigos do mundo digital, os pais estarão se atualizando sobre os potenciais riscos on-line. Além disso, monitorando o uso que seus filhos fazem da rede, os pais poderão ajudá-los a navegar em segurança. Embora os responsáveis possam (e devam) contar com ferramentas que ajudem a controlar o acesso das crianças a conteúdo adulto e inibam a ação de predadores, ainda assim nada garante que elas estarão 100% seguras. Daí ser tão importante seguir de perto suas atividades na internet e educá-las gradativamente sobre os riscos do mundo on-line.

A preocupação com a educação na era da web é um relato constante dos pais no self terapêutico. E isso leva aos profissionais de saúde mental avaliarem esse fenômeno com ainda mais cautela.

PROTEÇÃO

É preciso entender que, mesmo com a ajuda de bloqueios eletrônicos e proteção ou limitações definidas por dispositivos legais, a única proteção eficiente que as crianças podem ter é a ação dos pais. Por essa razão, a primeira e mais importante parte de toda essa discussão é que os pais têm que saber, no mínimo, tanto quanto os filhos, enquanto eles forem crianças, sobre a tecnologia a que estão expostos. Ninguém conseguirá proteger o filho daquilo que nem ele mesmo conhece. Como ensiná-lo a utilizar o transporte coletivo que o pai nunca usou? Ou trocar impressões sobre o livro que não leu? O meio digital pode se transformar no melhor amigo da criança, pois oferece uma quantidade incrível de conteúdo estimulante, amigável e útil, sem cobrança nem ônus aparente. Essa ideia costuma ser assustadora para os pais, mas é melhor ter consciência dessa tendência, justamente para poder lidar melhor com ela.

A pior atitude que os pais podem ter é acomodar-se com o sossego que as crianças dão enquanto estão entretidas com seus smartphones ou tablets, achando que por estarem dentro de casa e “quietas” estarão seguras. Elas podem até parecer imóveis fisicamente, mas bastou ficar chato um jogo para fechar e buscar outro, ou mudar de aplicativo, ou iniciar uma nova busca na internet, como fazem os adultos. E não dá para ter controle sobre isso tudo se elas forem deixadas a sós com seus dispositivos. Muito menos se puderem usá-los o tempo todo. O tempo de uso precisa ser limitado e, uma vez estabelecido esse tempo, precisa ser respeitado por todos. Afinal, atividades esportivas, brincadeiras ao ar livre e em grupo não saíram de moda e continuam sendo o meio mais saudável e eficiente que as crianças têm para a socialização.

O mundo on-line e os aparelhos eletrônicos já fazem parte da vida diária, e isso é inegável. Então, uma boa dica é explorar o infindável mundo da internet junto com as crianças. Estimulá-las desde cedo com conteúdos lúdicos e adequados à sua fase de desenvolvimento e interesse é uma forma positiva de desviá-las de uma navegação demasiadamente aberta, em que correria maior risco de encontrar materiais inadequados.

Acompanhá-los enquanto baixam e usam novos aplicativos e navegam pelos websites que mais gostam também é uma forma de se inteirar e participar da vida deles, acompanhando de perto, de forma ativa e não invasiva, o que estão fazendo. A atitude dos pais deverá ser parecida com a que teriam ao sentar-se com as crianças para montar um Lego ou brincar com um jogo de tabuleiro. Aliás, essa é uma dica que vai continuar valendo sempre. Nada melhor do que participar da vida dos filhos, acompanhar e tentar entender do que eles gostam e fazem, seu estágio de aprendizagem, nível de dificuldades, talentos que começam a despontar etc. Tudo isso para estar perto deles, estreitando laços e cumplicidade para minimizar as chances de ter surpresas desagradáveis. É preciso, ainda, falar com as crianças sobre essas preocupações, a fim de que fiquem cientes que há perigo na rede e possam ter a liberdade de expressar-se caso sinta algo estranho.

Quando se colocam regras, as crianças costumam reclamar e elas sempre tentarão desobedecer. É natural que seja assim, é seu papel porque são imediatistas e movidas pelo instinto do prazer. Cabe aos pais serem sensatos ao decidir quais limites impor e serem coerentes para cobrar que esses limites sejam respeitados. É quase inevitável que, mesmo esforçando-se muito para manter-se atuante e antenado, em algum momento os pais vão se dar conta de que seus filhos já sabem mais do que eles sobre toda a parafernália tecnológica. E aí, o que vai contar mesmo, é a qualidade da relação e reciprocidade de confiança que se estabeleceu entre filhos e pais. Eles levarão alguns sustos, tropeçarão aqui e ali e poderão sofrer também, mas estarão aparelhados para superar o que vier, porque os pais os acompanharam enquanto puderam. Na medida do possível, poderão contar com os pais para apoiá-los. Ou terão aprendido a se defender sozinhos, com o apoio recebido desde sempre.

Não gosto de tons alarmistas quando uma orientação sutil basta, mas este não me parece ser o caso, infelizmente. Recomendo enfaticamente, como profissional da área PSI, que os pais busquem constantemente toda informação e orientação que for possível em fontes confiáveis. Ao invés de repetir aqui as dicas dos profissionais em tecnologia, preferi deixar que eles falem por si mesmos, melhores conhecedores que são nesse tema. No entanto, a tecnologia evolui tão rapidamente que é preciso seguir se atualizando e buscando novas fontes mais recentes o tempo todo. Os perigos a que as crianças e adolescentes estão expostos são tantos e tão difíceis de serem evitados que a chance de algo desagradável acontecer não é pequena se os pais não estiverem próximos e bem informados. Há links maliciosos, rastreamento facilitado, assédio, bullying, spam, plugins, abuso, “amizades” mal-intencionadas, difamação, golpes diversos, pedofilia, montagem de imagens etc., uma lista infeliz de situações que ocorrem, triste dizer, diariamente com internautas desavisados. Isso sem falar nos acessos acidentais a conteúdos e imagens perturbadoras de violência e pornografia.

DISFUNÇÕES EMOCIONAIS

Outra questão que começa a ganhar importância entre os profissionais de saúde refere-se a possíveis disfunções emocionais e comportamentais decorrentes do início precoce do uso de meios digitais, aliado ao seu uso excessivo. A Sociedade Brasileira de Pediatria, a exemplo da American Academy of Pediatrics, aconselha que as crianças sejam apresentadas ao mundo digital somente a partir dos dois anos de idade. Também estabelece que esse uso seja bastante reduzido, priorizando-se sempre as interações pessoais. Mas não é isso que está ocorrendo. Hoje muitas crianças começam a interagir com tablets e outros dispositivos com menos de um ano de idade. E crescem usando-os continuamente, como vêm fazendo as crianças mais velhas, adolescentes e adultos. E quanto à comunicação, feita preferencialmente por mensagens de texto e envio de emojis, sem dúvida há potencial para acelerar o processo de alfabetização, mas de um modo muito diferente de tudo aquilo que vimos até aqui. Como lidar com essa realidade que se impôs irreversivelmente, subvertendo de tal modo a ordem das coisas que tornou obsoleto quase todo o conhecimento que detínhamos?

Talvez devamos lançar um novo olhar sobre toda a problemática da aprendizagem e admitir que não estamos devidamente preparados para ensinar nossas crianças. Elas sabem menos do que os seus professores, evidentemente, mas a maioria delas têm mais domínio do que eles em outras competências, como a tecnologia. E essa competência lhes dá acesso imediato e muito direto ao conhecimento, em vários casos prescindindo mesmo do professor. Nunca antes houve tal situação em nossa história. Como afirmou Ray Kurzweil, futurista e diretor de Engenharia do Google, “uma criança na África com um smartphone tem mais poder na sua mão do que o presidente dos Estados Unidos tinha 15 anos atrás, em termos de acesso ao conhecimento e à informação!”.

Mas e o equilíbrio entre o seu desenvolvimento emocional e intelectual, que lhe sustente e proporcione maturidade para assimilar de forma saudável todo esse aprendizado tão precocemente? E o que dizer dos pais modernos que, a pretexto de estar presentes na rotina dos filhos, enviam-lhes várias mensagens de texto ao dia? Alguns pediatras e especialistas em orientação de pais afirmam que essas crianças não estão se conectando emocionalmente com qualidade, devido à pouca vivência de contato olho no olho. Elas estariam com dificuldade de identificar e interpretar expressões faciais e não desenvolvem empatia porque não praticam o contato visual. Segundo Marc Brackett, da Universidade de Yale, “as crianças querem ser abraçadas e tocadas, elas precisam ter suas necessidades básicas supridas, e não receber mensagens de texto de seus pais”.

RELAÇÃO PESSOAL

As crianças continuam precisando passar mais tempo conversando pessoalmente, correndo, andando de bicicleta e expressando-se diretamente com outras crianças, sendo impactadas com a relação pessoal.

Crianças que gastam muito tempo se comunicando através de tecnologias não conseguem desenvolver as habilidades básicas de comunicação que as pessoas vêm usando desde sempre. Comunicar-se não é apenas conhecer e ler as palavras, envolve o tom de voz, o olhar, as expressões faciais, a linguagem corporal, muitos sinais que são percebidos somente na relação pessoal. É importante que a família invista em ter momentos de descontração e interação não mediada pela tecnologia, e creio também que o limite e a adequação a cada caso precisam ser pensados em conjunto pelo casal. A seguir, o casal deverá ouvir também o ponto de vista das crianças e, juntos, poderão escolher o melhor formato para sua rotina diária. Se a escolha conseguir contemplar tanto os interesses de cada um quanto a preservação dos hábitos saudáveis básicos, como respeitar as horas de sono, alimentação, estudos e atividade física, com compartilhamento pessoal das experiências, ótimo!

Não vejo, porém, por que culpar a tecnologia. Afinal de contas, crianças negligenciadas e sós sempre existiram. A diferença é que antes, na ausência dos tablets e smartphones, elas se ocupavam de outro modo. A ideia central para se ter em mente é que, com base na confiança e no diálogo, é possível criar um ambiente de confidencialidade e conexão forte, natural entre pais e filhos. E ao se construir esse universo que favorece o verdadeiro relacionamento, as crianças vão sendo preparadas de forma eficiente para lidar com todos os riscos do mundo, sejam eles digitais ou não.