EU ACHO …

AS MARAVILHAS DE CADA MUNDO

Tenho uma amiga chamada Azaleia, que simplesmente gosta de viver. Viver sem adjetivos. É muito doente de corpo, mas seus risos são claros e constantes. Sua vida é difícil, mas é sua.

Um dia desses me disse que cada pessoa tinha em seu mundo sete maravilhas. Quais? Dependia da pessoa. Ela então resolveu classificar as sete maravilhas de seu mundo.

Primeira: ter nascido. Ter nascido é um dom, existir, digo eu, é um milagre.

Segunda: seus cinco sentidos que incluem em forte dose o sexto. Com eles ela toca e sente e ouve e se comunica e tem prazer e experimenta a dor.

Terceira: sua capacidade de amar. Através dessa capacidade, menos comum do que se pensa, ela está sempre repleta de amor por alguns e por muitos, o que lhe alarga o peito.

Quarta: sua intuição. A intuição alcança-lhe o que o raciocínio não toca e que os sentidos não percebem.

Quinta: sua inteligência. Considera-se uma privilegiada por entender. Seu raciocínio é agudo e eficaz.

Sexta: a harmonia. Conseguiu-a através de seus esforços, e realmente ela é toda harmoniosa, em relação ao mundo em geral, e a seu próprio mundo.

Sétima: a morte. Ela crê, teosoficamente, que depois da morte a alma se encarna em outro corpo, e tudo começa de novo, com a alegria das sete maravilhas renovadas.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

 O INFERNO SÃO OS OUTROS

Nunca foi simples dividir as tarefas do cotidiano com a atenção aos filhos e ao cônjuge – é da condição humana. Mas a quarentena tem inaugurado novos conflitos domésticos

Escrito em 1944 o drama teatral Entre Quatro Paredes, de Jean-Paul Sartre (1905 – 1980), rapidamente saiu da alta-roda da intelectualidade francesa, embebida da beleza da narrativa de três personagens trancados em um quarto, metáfora das trevas, para conquistar imenso apelo popular – deu-se o salto, que reverbera até hoje, em virtude de uma máxima filosófica: “O inferno são os outro”. O inferno sempre são os outros, e os momentos de dificuldades parecem multiplicar essa impressão. Não é fácil um casal, uma família, estar dentro de casa, em confinamento – entre quatro paredes para não perder o tom da prosa -, e manter o bom humor, o respeito. Foi sempre assim, o trancamento a serviço de explosões mercuriais.

É tema que, em alguns casos brilhantemente, em outros como pastiche, conduziu filmes de sucesso como A Guerra dos Roses (1990) e Sr. & Sra. Smith (2005). Há um sem-fim de atalhos para acender o rastilho de pólvora, e um muito frequente, contumaz, é a conciliação entre o cotidiano doméstico e os filhos. Dá briga, mas pesquisa feita pelo instituto americano Morning Consult, a pedido do The New York Times, mostrou que a árdua tarefa de lidar com a educação das crianças tem sido interpretada de modo diferente pelos cônjuges. Quando se indaga aos maridos quem ajuda mais, 45% dizem ser eles. A mesma pergunta feita às mulheres entrega outra resposta: elas afirmam cuidar de 80% das atividades com os filhos. Ou seja: no mundo pandêmico, tudo leva a crer que as tarefas estão sendo compartilhadas como sempre foram, desigualmente (salvo as louváveis exceções) – ou então há percepções diferentes, irreconciliáveis.

Quando as coisas degringolam, atrelada à história que já crescia ante do vírus, dá-se o pior dos cenários, com o apagar das chamas, e o que era infinito deixa de sê-lo. Um levantamento feito mostrou que o número de novos processos de separação em escritório de advocacia cresceu 20%  desde o começo do isolamento, comparado ao mesmo período do ano passado. “Os discursos são parecidos, as pessoas relatam estar sufocadas, sentindo-se aprisionada nas relações”, diz Luiz Kignel, especializado em direito de família e sócio do escritório PLKC, de São Paulo. Novos tempos são sinônimo de novas situações para além dos transtornos habituais. Um desembargador da 29ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu recentemente que um casal em conflito que dividia o apartamento na Zona Norte de São Paulo teria de manter a distância de um cômodo a fim de romper o ciclo de desavença então recorrente no período de isolamento social, enquanto ambos trabalhavam em home office. Caso a medida fosse descumprida, seria necessário pagar uma multa de 500 reais a cada vez que o espaço fosse invadido.

É, naturalmente, fenômeno global, chamariz para inéditas saídas. No Japão, uma empresa passou a oferecer apartamentos mobiliados no estilo Airbnb a pessoas descontentes com o matrimônio para que pudessem passar um período, digamos, de quarentena, para “esfriar a cabeça” antes de decidir, de vez, pelo fim da relação. Um badalado casal brasileiro, formado pelo youtuber e humorista Whinderson Nunes e pela cantora Luiza Sonza, casados há dois anos, não aguentou o tranco do trancamento. Publicamente, a culpa foi colocada no lockdown doméstico – antes, com agendas atribuladas e distintas, tocavam o barco cada qual a seu modo. A união forçada desandou o acordo. “O confinamento pode dificultar muito a vida em um relacionamento, é saudável e desejado tentar buscar algum tipo de distanciamento do parceiro durante o dia”, diz Hélio Roberto, professor do Departamento de Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Pauto (PUC-SP). Outro atalho de pacificação, e que vale para a vida, é o equilíbrio.

Ele é fundamental para manter de pé o acordo de guarda compartilhada e pensão alimentícia dos filhos de casais já divorciados. Principalmente quando o combinado começa a ruir em decorrência de percalços no novo cenário. É o que aconteceu com o médico cardiologista Fabio Vivian Ferreira. Ele está há dois meses sem conseguir visitar a filha de 2 anos que mora com a mãe, no Estado de Goiás. Pelo aumento drástico na carga de trabalho e pela evidente dificuldade de viajar neste período, o único jeito de manter contato com a menina é por meio de videochamadas, que ocorrem em dias preestabelecidos. A solução, no entanto, tem problemas. “É um pesadelo, as chamadas nem sempre funcionam bem e sinto que estamos perdendo nossa conexão”, lamenta ele que procurou sua advogada para aconselhar­ se sobre como negociar melhor horário e regra para o encontro virtual. Em situações como essa, dizem os especialistas em família, impera em primeiro lugar o bem-estar da criança. “É preciso propor a harmonia de todos os envolvidos, ainda mais em um período de pandemia. Apesar do atual momento, a criança sempre terá o direito de convivência com os dois pais”, diz o advogado Renato de Mello Almada, do escritório Chiarottino e Nicoletti. O diálogo, a cautela e a paciência são armas fundamentais em tempos tão difíceis – sobretudo entre quatro paredes, para que o inferno não sejam os outros.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 16 DE MAIO

PLANEJAMENTO, AS SEMENTES DO FUTURO

Acaso não erram os que maquinam o mal? Mas amor e fidelidade haverá para os que planejam o bem (Provérbios 14.22).

Não podemos construir uma casa sem uma planta. Não podemos fazer uma viagem sem decidir antes o roteiro. Não podemos iniciar um empreendimento sem examinar primeiro os custos. É insensatez agir sem planejamento. Quem age sem planejar planeja fracassar. O planejamento são as sementes do futuro. Há pessoas que maquinam o mal e gastam seu tempo, suas energias e sua vida cogitando formas e meios de extorquir o próximo para adquirir riquezas ilícitas. Esses pecam contra Deus, contra o próximo e contra si mesmos. Na busca de uma felicidade egoísta, colhem amarga infelicidade. No entanto, aqueles que planejam o bem e empregam sua potencialidade para buscar meios de abençoar as pessoas encontram nesse planejamento amor e fidelidade. É impossível planejar o bem sem ser governado pelo vetor da fidelidade pessoal e do amor ao próximo. O bem não transige com a falta de integridade. Onde a integridade precisa ser comprometida, desse ninho a fidelidade já bateu asas. Onde o amor ao próximo não pode ser praticado, o que resta é maldade, e não o bem. Que tipo de planejamento ocupa sua mente e seu coração? Que colheita você fará no futuro?

GESTÃO E CARREIRA

BIG TECHS AMPLIAM SEU PODER

Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google têm resultados excepcionais com a pandemia

Já era esperado que a pandemia acelerasse mudanças no ambiente de negócios global. Essa transformação parece já ter se concretizado com a ampliação do poder das cinco gigantes da tecnologia – Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google –, que aceleraram sua expansão. As companhias tiveram faturamento e lucro líquido recordes no 1º trimestre de 2021. Juntas, as cinco corporações, chamadas pela sigla em inglês FAAMG, faturaram US$ 322,5 bilhões (R$ 1,75 trilhão) e deram um lucro líquido de US$ 73,9 bilhões (R$ 401,2 bilhões) aos acionistas. Como resultado, as empresas encerraram o trimestre com a cifra de US$ 467 bilhões (R$ 2,5 trilhões) em caixa, o que representa metade da dívida brasileira.

Os resultados refletiram o aumento das compras dos produtos de tecnologia pelos consumidores durante a pandemia, alavancadas pela recuperação da China e o generoso pacote de US$ 1,9 trilhão do presidente americano Joe Biden aos consumidores nos Estados Unidos. Além disto, os resultados refletem o avanço dos serviços digitais, processo considerado irreversível e que foi catapultado pelo home office e pelas restrições de circulação causadas pelo coronavírus. “A Apple, por exemplo, tirou seus serviços da cartola, com uma margem bruta de 66%, que é o dobro da margem obtida com a venda dos produtos”, comenta Alberto Amparo, analista de investimentos da Suno Research. “No caso da Amazon, houve crescimento exponencial nas vendas, como computação em nuvem. É um ecossistema, onde quanto mais empresas entram, maior é o tráfego.”

Com a migração mais forte para os serviços, em detrimento dos produtos, a tendência é que as corporações faturem ainda mais no futuro. “A estratégia delas é primeiro conseguir o cliente e depois monetizar”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DELINQUÊNCIA FEMININA

É preciso desfazer o tabu que ainda grassa no seio da coletividade, de que a mulher delinque menos do que o homem porque é o “sexo frágil”

Inúmeras quadrilhas foram desbaratadas tendo por chefes mulheres. Algumas não queriam ser apenas membros das quadrilhas, mas chefiá-las e o fizeram com competência criminal e com frieza idênticas às dos grandes inimigos da sociedade.

Hoje não é só no crime que a mulher está ombreada ao homem, pois já temos muitas autoridades policiais mulheres, agentes femininas em grande número, magistradas, militares, astronautas… Onde a mulher não chegou, com muita capacidade, competindo com o homem de igual para igual, na luta pela vida?

Não é mais possível sustentar o acanhado ponto de vista de que a mulher é o ”sexo frágil ” e por esta razão não delinque no mesmo grau que os maiores psicopatas masculinos da história. Até mesmo nos romances as mulheres que desmaiavam vendo sangue ou na presença de baratas e ratos, sumiram completamente.

Todos sabemos que nas faculdades de medicina há mais mulheres do que homens. Recorde-se, também, que o número de cirurgiãs e de intensivistas é enorme, bem como o de mulheres empunhando revólveres e metralhadoras, praticando assaltos, sequestros, atos terroristas e tráfico de drogas.

Então vem a pergunta: por que, no século XX, as mulheres delinquiam bem menos do que os homens?

Evidentemente a resposta não está em uma única explicação, uma vez que influem, na gênese de todos os crimes, inúmeros fatores psicológicos, fisiológicos, sociais e culturais. Porém, a igualdade do homem e da mulher no aspecto criminal passa, obrigatoriamente, por um fato deveras importante: a civilização moderna que, desde o início do movimento feminista nos anos 1950, tirou a mulher de sua casa, local em que as antigas civilizações a tiveram encerrada. Levou-a à vida agitada, ao acesso ilimitado à cultura, abriu-lhe as portas de um mundo cheio de dores e de estímulos, de tentações e de ilusões. Libertada da escravidão e detonado o velho homem machista, ignorante que pensava que a mulher era sua propriedade por ser o único provedor da casa, abandonou a zona de sombra em que se encontrava e mostrou que a fortaleza não é privilégio de qualquer dos sexos: há homens fracos e mulheres fortes, e todos se igualam no crime, na maldade, bem como na virtude e na bondade.

Porém, há certos tipos de crime que são quase que exclusividade das mulheres e outros, dos homens. Por exemplo, para elas reserva-se a ocorrência do infanticídio – assassinato do próprio filho em estado puerperal, que está sempre relacionado a algum transtorno mental grave -, raríssimo nos homens. Para eles, a pedofilia, raro nas mulheres, porque a gestação e a maternidade são dois momentos sublimes que a natureza ofertou somente às mulheres, dando-lhes proximidade umbilical com os menores, o que vai influenciar positivamente na formação dos valores éticos e morais e na consequente repulsa a crimes de abuso sexual infantil.

Assim, com exceção de algumas características peculiares aos dois sexos, a bem ver, ambos são iguais perante os crimes.

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo