A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS NEUROCIÊNCIAS MUDAM A EDUCAÇÃO?

Para direcionarem de forma mais eficaz a aprendizagem infantil, os educadores devem conhecer a diferença entre os denominados “períodos críticos” e “períodos sensíveis” do desenvolvimento cerebral

Existirão realmente as chamadas “janelas de oportunidades”, fases que aparecem durante os primeiros anos de vida e que se revelam de excelência para determinados aprendizados? Essas e outras perguntas começaram a surgir após estudos realizados por volta de 1970 por Konrad Lorenz. Etólogo, observou que algumas aves, logo que nascem e por apenas um curto período de tempo, prendem-se permanentemente a um ser ou objeto que se mova. Esse fenômeno funciona como uma janela que se abre e se fecha, daí o nome pelo qual se tornou conhecido.

A partir de então, muitos estudiosos se empenharam em analisar, desde a importância da influência de um ambiente rico e estimulante sobre o cérebro infantil até o alcance que tal estimulação pode ter em diferentes fases da vida. Ainda, se preocuparam em analisar as consequências que uma combinação de grande variedade de estímulos novos durante um tempo reduzido para a sua assimilação (hiper estimulação) pode causar sobre o sistema nervoso em desenvolvimento. Dois pontos importantes para se ter em mente, ao iniciar o assunto, são o fato de que, enquanto o desenvolvimento neurológico do cérebro infantil acontece em fases ou ciclos, o desenvolvimento cognitivo ocorre de forma diversa, já que depende da interação do potencial do indivíduo com o meio ambiente. Ou seja: há um expressivo acréscimo neuronal durante os primeiros anos de vida, que prepara de modo natural as diferentes áreas cerebrais para os processos de estimulação associados a tais áreas, que ocorrerão posteriormente.

Esses primeiros são os chamados períodos críticos do cérebro, que possuem um momento determinado para ocorrer em todas as crianças, pois não dependem de nenhum outro estímulo senão do próprio sistema nervoso, que promove o desencadeamento de sua formação por meio de um crescimento expressivo de conexões neuronais desde a idade pré-natal até os 6 anos, principalmente. Trata-se de um processo neurobiológico que já prenuncia futuras possibilidades para funções importantíssimas, como visão, audição etc., e que deve estar concluído em determinadas épocas sob pena de prejuízos irreversíveis.

Desse processo participam áreas muito especificas do cérebro, dirigidas às funções sensoriais que não exigem treinamento ou constância na estimulação. Portanto, é um período em que tanto a educação, a aprendizagem, o aparato emocional ou social pouco podem influenciar para desencadear a nova rede neuronal. O cérebro, uma vez desenvolvido, aguarda um estímulo para desencadear a formação da rede de neurônios responsável por essas incitações.

Nos chamados períodos sensíveis, a motivação e a complexidade da influência ambiental tão diversas sobre cada criança, determinam uma época mais propícia para cada aprendizagem, pois coincidem com uma fase na qual o cérebro está predisposto a determinadas mudanças, o que o torna mais suscetível às ações educativas e às trocas de experiências com o meio.

Nesses períodos sensíveis, mais frequentes durante a infância e adolescência, mas não exclusivos a essas épocas, o cérebro está orientado para desenvolver processos intricados como é a aprendizagem: há um expressivo favorecimento para se estabelecerem conexões entre áreas cerebrais distintas e integração de processos cognitivos, que são indispensáveis à complexidade crescente da vida acadêmica. Questões relativas à motivação, ao prazer pela novidade, à criatividade, à sociabilidade, aos aspectos emocionais são parte coadjuvante desse processo.

Entre 3 e 16 anos de idade ocorre uma grande quantidade de interações nas diversas áreas cerebrais, determinando a condição de excelência para o início da educação escolar, do aumento crescente de habilidades que permitirão a aquisição de aprendizagens de grande impacto como a leitura e a escrita, a adaptação ao meio social, o equilíbrio emocional da criança nos diferentes ambientes, o incremento de valores culturais e morais.

Os estudos a partir da neuroimagem vieram confirmar que essa evolução natural não ocorre simultaneamente nas diferentes regiões do cérebro e sempre começam nas áreas primárias e vai se estendendo às secundárias e terciárias, em cada um dos lóbulos, começando pelo hemisfério esquerdo (habilidades cognitivas), passando pela área dorso lateral do córtex pré-frontal, responsável pelas funções executivas, e finalmente pelo córtex lateral órbita-frontal, responsável pelo controle dos impulsos, por volta dos 20 anos.

Entretanto, além do córtex, o cérebro é composto pela substância branca, cujo crescimento é muito mais linear que o da substância cinzenta, sem significativas diferenças entre os lobos, e ocorre de modo progressivo até os 40 anos. Na adolescência essa substância se desenvolve de modo acentuado e permite uma capacidade extraordinária para estabelecer conexões entre áreas cerebrais distantes, crescimento acentuado das funções cognitivas, adaptabilidade social, ética e moral.

Esses e outros conhecimentos das Neurociências mudam a educação? Não exatamente, mas têm mostrado que são capazes de ampliar e embasar o conhecimento teórico e prático sobre como melhorar a aprendizagem do aluno. E muito importante, dão aos profissionais da educação a comprovação inegável de sua responsabilidade perante a condução do processo de ensino-aprendizagem.

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.

irenemaluf@uol.com.br

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.