EU ACHO …

VARIAÇÃO DO HOMEM DISTRAÍDO

Está de óculos e no entanto procura os óculos pela casa inteira. De vez em quando lhe ocorre com alegria: que sorte a minha, a de hoje ver tudo tão claro – isso me ajudará a procurar e achar meus óculos. Às vezes, no meio da procura, chega a pensar: estou vendo tão bem que até é capaz de não precisar mais de óculos nem para ler. Só foi dar conta que estava com os óculos no rosto quando, antes de dormir, ajeitou-os para ler: sentiu com estranheza mais um traço fisionômico. E a verdade é que ficou muito decepcionado: era natural que eu pensasse não precisar mais de óculos.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

OBRAS MIRABOLANTES

Marcadas pela ousadia e criatividade, surgem em várias partes do mundo construções radicais e (quase) impossíveis. O objetivo é um só: atrair turistas

A extravagância e o apelo artístico chamam a atenção da humanidade. Ao nos depararmos com criações arquitetonicamente grandiosas que nos enchem de dúvidas e espanto, a vontade imediata é de experimentar, ver de perto, tocar se for possível. Por exemplo, o edifício Lótus em Wujin, na China, além da beleza, o prédio remete à relação que o povo chinês tem com a planta, conforme a tradição budista, inaugurada em 2013, a construção já se tornou um marco cultural da sociedade. Outra obra que mexe com a imaginação das pessoas é a piscina flutuante instalada no edifício Embassy Gardens, de Londres. Essa criação arquitetônica consegue unir raridade com viés de requinte. A piscina foi construída na cobertura ligando dois prédios. Para quem está se refrescando lá em cima, a sensação é de estar flutuando. Por outro lado, para quem está no chão, olhando a uma distância de 35 metros, equivalente a 10 andares, sobra o desejo de se banhar indo de um edifício a outro nadando. A área de lazer aquática foi denominada sky pool, piscina no céu. Por estar suspensa no alto dos prédios, ela tem uma aparência de leveza, mas a estrutura é toda de acrílico, pesando 50 toneladas e comportando mais 140 mil litros de água. Sua inauguração está marcada para o próximo dia 19 e como os prédios dividem-se em residencial e comercial, a diversão será bastante disputada.

PASSARELA SUSPENSA

Da mesma forma que a piscina flutuante, a maior passarela suspensa do mundo é carregada de suntuosidade, mas exige mais coragem do que “nadar” no céu londrino. A ponte foi construída encravada entre montanhas no minúsculo município de Arouca, no norte de Portugal. Sua estrutura tem 516 metros de comprimento e fica suspensa 175 metros acima do rio Paiva. A travessia é de aproximadamente 10 minutos, a depender da valentia do visitante. A paisagem serena de montes e vegetação baixa dá uma vaga percepção de que é fácil atravessar de uma extremidade a outra, mas algumas pessoas que estiveram lá na quinta-feira, 30, dia da abertura, tremiam, rezavam ajoelhados, e outros se sentaram e ficaram imóveis, dado a imensidão visual. Apelidada de Arouca 516, a obra custou mais de US$ 2,8 milhões (R$ 15 milhões).

Em um primeiro momento, a construção de obras faraônicas como estas na Europa, China e outros lugares, representa um marco cheio de simbolismo para as cidades. Mais tarde, além de tornarem-se parte representativa da região, transformam-se em sinônimo da localidade e viram um recurso de marketing para atrair mais turistas. “Tem mesmo essa ideia da grandiosidade”, diz Eric Messa, coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da FAAP. Ele fala que o plano dessas iniciativas é transformar tanto a piscina londrina, como a ponte portuguesa, em chamarizes para os visitantes. Corrobora com essa ideia Leonardo Trevisan, professor de geoeconomia internacional da ESPM. “Esses empreendimentos salvarão o que for possível economicamente”, diz.

Assim como na Europa, a pandemia também derrubou o turismo no Brasil. Em 2020, o setor perdeu mais de R$ 55 bilhões em receitas. Por isso, a abertura do Mirante no Morro da Igreja, em Urubici, na Serra Catarinense, está sendo vital para a região. O local ficou fechado por sete meses, devido ao coronavírus. Inaugurado em 2019, é o principal atrativo ao visitante, que pode admirar a paisagem montanhosa a 1.822 metros de altura. “O passeio dura 15 minutos e é feito especialmente por pessoas que gostam de sentir frio, já que no inverno a temperatura cai abaixo de zero e, às vezes, há neve”, diz Denílson de Oliveira, dono da pousada Cascata Véu de Noiva. Ele conta que quando passa a neblina, dá até para contemplar o litoral. Nesse caso, a exuberância fica por conta da natureza.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 14 DE MAIO

OS DRAMAS DA POBREZA

O pobre é odiado até do vizinho, mas o rico tem muitos amigos (Provérbios 14.20).

Os valores estão invertidos em nossa sociedade. Os relacionamentos estão-se tornando utilitaristas. As pessoas se aproximam umas das outras não para servir, mas para receber alguma coisa em troca. O Salmo 73 retrata bem essa realidade. O ímpio que vê suas riquezas aumentando, mesmo assentado na cadeira da soberba, tem sua casa cheia de amigos. Esses amigos, porém, não são verdadeiros. São exploradores. São aproveitadores. Buscam uma oportunidade para alcançar algum favor. Na verdade, esses amigos não passam de bajuladores, pessoas sem escrúpulo, cujo caráter é governado pela cobiça. Por outro lado, o pobre, em sua penúria, vive na solidão. Sua pobreza não lhe dá prestígio. Os aduladores não encontram no pobre um porto seguro para seus interesses avarentos. Abandonam-no à sua desdita. Até mesmo os vizinhos mais achegados desprezam o pobre e passam a odiá-lo porque não recebem nenhuma recompensa imediata desse relacionamento. Vale ressaltar, entretanto, que é melhor viver só com integridade do que cercado de falsos amigos. É melhor ser pobre, mas colocando a cabeça no travesseiro da integridade, do que viver cercado de bens mal adquiridos, mas sofrendo ao tentar dormir sobre um colchão cheio de espinhos.

GESTÃO E CARREIRA

INTELIGÊNCIA SOCIAL É AGIR COM ÉTICA

Nos últimos anos, a crise de valores e ética e a indiferença moral tornaram-se alvo de urgente atenção e conscientização

Cada vez mais o ser humano conquista contextos externos, novas descobertas e resultados, porém, ao mesmo tempo, presenciamos injustiças, individualismo e corrupção na sociedade, na gestão de empresas e nos negócios.

O ser humano, olhando muito para fora, pouco conhece sobre si mesmo e sobre suas reações ou até mesmo sobre como lidar com os conflitos, dificuldades, desafios, sonhos e objetivos. Outra dificuldade é como lidar com as outras pessoas, tendo consciência de que os nossos atos influenciam a vida daqueles que estão no nosso entorno e que a nossa liberdade e escolhas acarretam em responsabilidade e consequências.

A interdependência da inteligência emocional, inteligência social e da ética permite, pelo menos em parte, responder a essas reflexões. Essas disciplinas se tornaram assunto muito presente no âmbito organizacional, percebidas como instrumentos para harmonizar e equilibrar a razão e a emoção nas relações interpessoais.

A inteligência social é a capacidade de compreender, interagir e influenciar positivamente as pessoas. Ela tem como foco a qualidade e harmonia das relações interpessoais e, consequentemente, melhorar a forma de se relacionar com as pessoas, criando um clima positivo e de cooperação em qualquer contexto da nossa vida, para uma convivência solidária.

Essa inteligência se desenvolve na relação com o mundo externo e origina-se da inteligência emocional que inclui o autoconhecimento, autoanálise, controle das emoções, automotivação, reconhecimento das emoções nas outras pessoas, saber usar as emoções adequadamente para atingir os objetivos, chegando, enfim, a ter ações responsáveis e aptidões sociais adequadas ao conceito de ética.

Do termo grego ethos, a ética refere-se na sua essência ao “interior do homem” ou “morada humana”. A ética então é o estudo da conduta humana, ela refere-se ao agir do ser humano. Refletir sobre ela significa analisar a nossa ação, tornando-nos mais atentos e mais conscientes das atitudes que praticamos em qualquer contexto da nossa vida.

A ética é então o complexo de critérios e valores que guiam nossas ações e comportamentos, por exemplo o respeito, a honestidade, a coerência, cooperação e confiança. Por meio do crescimento pessoal e da evolução dos valores, moldamos a concepção de ética e, quanto maiores os níveis de inteligência emocional que um indivíduo desenvolve, mais elevado será o seu nível comportamental ético.

As emoções, a inteligência social e a ética são então evidentemente interligadas e interdependentes e são fatores impactantes e importantes na vida em geral e consequentemente na vida organizacional.

A emoção e a ética são consideradas como pontos de vista distintos de uma mesma realidade e se soubermos compreender nossas próprias emoções e as dos outros saberemos reagir a situações de forma mais ética. Logo, atuar de forma ética é agir de forma inteligente.

A empatia e a compreensão das emoções do outro nos permitem criar relacionamentos sólidos, e a ética permite construir alicerces para uma convivência mais pacífica e respeitosa, capaz de superar as diferenças, pois, de forma ampla, a é tica é agir na busca da realização individual e do bem comum. Nas últimas décadas, começou a ganhar força uma nova sensibilidade dentro das organizações, ligada ao fator humano, à atenção aos valores, aos relacionamentos interpessoais, ao trabalho em equipe e ao indivíduo como um todo.

Nossas decisões, em todos os planos, precisam ser coerentes com nossos valores e com nossas emoções. No contexto profissional, essa coerência precisa ser mais forte ainda, sob pena de vivermos em um constante conflito. Diante disso, precisamos então ter clareza acerca das nossas emoções e de nossos valores.

O grande segredo para fortalecermos e disseminarmos a ética é por meio da educação. Com ela podemos construir a competência intelectual, emocional e ética, contribuindo para a formação de uma sociedade mais coerente e equilibrada.

Ao escolher a ética como um princípio de vida estamos tomando a decisão mais inteligente. Se nos dedicarmos a compreender as nossas próprias emoções e também as dos outros, poderemos encarar os acontecimentos de forma mais simples e espontânea, criando um clima positivo e de cooperação em qualquer contexto da vida.

EDUARDO SHINYASHIKI – é palestrante, consultor organizacional, escritor e especialista em Desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. Presidente da Sociedade CreSer Treinamentos, colabora periodicamente com artigos para revistas e jornais. Autor dos livros VNaccrro Viva como Você Quer Viver; A Vida é um Milagre e Transforme seus Sonhos em Vida – Editora Gente. Para mais informações: www.edushin.com.br 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

LESÃO MEDULAR E SEXUALIDADE

Além de a medula ser a via de comunicação entre várias partes do corpo e o cérebro, ela também exerce uma função reguladora, como é o caso do funcionamento sexual

Nesta coluna focaremos na sexualidade daqueles que são acometidos por lesões na medula espinhal. A agressão na medula pode acarretar a interrupção total ou parcial da passagem dos estímulos nervosos, originando uma das mais graves síndromes incapacitantes.

Setenta por cento (aproximadamente) das lesões medulares são causadas por traumatismos; o terço restante é oriundo de razões não traumáticas, como aquelas decorrentes de processos infeciosos, tumorais, vasculares e degenerativos.

Chamam a atenção, principalmente em nosso meio, as de origem traumática por terem maior incidência na população jovem (entre 21 e 35 anos de idade), acometerem mais homens que mulheres e terem como causas, por ordem de frequência: acidente de trânsito, agressão com arma de fogo, quedas e mergulhos.

O quadro clínico tanto para as lesões traumáticas e não traumáticas é semelhante, por isso a importância do diagnóstico preciso para que seja proposto um programa de reabilitação adequado para cada pessoa. A lesão é completa quando se perdem o movimento voluntário e a sensibilidade abaixo do nível da lesão, e incompleta quando há movimento voluntário e / ou sensações.

O impacto na função sexual será mais grave (para ambos os gêneros) dependendo do nível que a medula foi acometida e se é completa ou incompleta, assim sendo as lesões mais altas e completas são mais prejudiciais para a função sexual. Por outro lado, um ano após o evento da lesão, a maioria dos homens experimenta o retorno da ereção; esse potencial masculino, portanto, permanece após lesões de origem traumática (veja abaixo no quadro Consequências da lesão medular na função sexual para ambos os gêneros).

A ejaculação estará comprometida na grande maioria dos homens, com o inconveniente da ejaculação retrógrada, que ocorre devido à falha de fechamento do esfíncter interno no momento da ejaculação (que também contribui para a diminuição da fertilidade).

O orgasmo também estará prejudicado e, quando obtido, provavelmente será devido a fatores subjetivos. Alguns relatos afirmam que homens e mulheres com danos completos não têm orgasmos; outros descrevem orgasmos na fantasia, e orgasmos que emanam de outras zonas erógenas não prejudicadas.

A capacidade reprodutora está diminuída, somente 5% dos homens com lesão medular têm capacidade de procriar. As razões da infertilidade ainda não estão totalmente esclarecidas. Supõe-se que se deva à disfunção erétil e ejaculatória e à deficiência na espermatogênese.

É frequente perda da menstruação pós-lesão; o tempo médio até o seu reinicio é, geralmente, de 5 meses.

O índice de gravidez pós-lesão diminui, embora as mulheres com paraplegia incompleta apresentem uma incidência de gestação significativamente superior à das com quadriplegia completa.

É fundamental que os programas de reabilitação contemplem o tema da sexualidade em seus programas de tratamento; estudos advertem que 65% dos pacientes com lesão medular jamais discutem sua sexualidade com alguém, e 85% jamais falam com seus médicos sobre isso. Metade dos acometidos por lesões medulares indica um desejo de maior satisfação sexual, 42% acreditam que o cônjuge desejava mais satisfação, e 50% teriam gostado de conversar com um membro da equipe hospitalar sobre isso, antes da alta.

GIANCARLO SPIZZIRRI – é psiquiatra doutorando pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do lpq e professor do curso de Especialização em Sexualidade Humana da USP.