GESTÃO E CARREIRA

QUESTÃO DE ORDEM VIRTUAL

Com a pandemia, assembleias de acionistas e reuniões com investidores migram para as chamadas de vídeo e ganham uma nova dinâmica

A onda das chamadas por vídeo chegou ao topo das corporações no Brasil. Apresentações de resultados financeiros, reuniões de conselhos de administração, assembleias de acionistas e encontros com investidores vêm migrando de modo crescente para a tela dos computadores e celulares. Dito de outra forma: o virtual é cada vez mais real nesse patamar algo nobre das atividades de empresas que funcionam no país. Ok. já havia uma tendência nesse sentido, sobretudo onde o mercado financeiro é mais robusto, como nos Estados Unidos. No entanto, tal como ocorreu em outros setores, e em níveis menos decisivos do próprio dia a dia corporativo, a pandemia do novo coronavírus tem acelerado a adesão às videoconferências. E com uma consequência nada desprezível: a mudança achata as hierarquias demarcadas presencialmente. Mais do que isso, democratiza o acesso àqueles eventos, dando voz para valer aos acionistas minoritários.

No Brasil, a revolução coincide com um momento particular do mercado: o aumento no número de investidores da categoria “pessoa física” nas Bolsas de Valores, que em 2020 quase dobrou (não por causa do sars-CoV-2, evidentemente, e sim em razão da iniciativa de alcançar melhores rendimentos em um cenário de juros baixos, baixíssimos).

Amplificar a participação de investidores de todos os portes traz desafios espinhosos, como aprender a lidar com mais críticas vindas dos acionistas. Contudo, esclarecer dúvidas e responder a questionamentos faz parte da proposta das companhias de oferecer maior transparência.

“Na divulgação de resultados, a coisa não mudou tanto (com as chamadas de vídeo), porque as perguntas continuam sendo mediadas pelo moderador do encontro. Mas não há dúvida de que as videoconferências (com investidores) ajudaram a romper algumas barreiras”, disse Pedro Serra, gerente de Research da Ativa Investimentos. “As pessoas perguntam mais e de maneira mais incisiva. E isso é positivo. porque são reuniões justamente de prestação de contas. Um lado de abrir capital em Bolsa é botar dinheiro no bolso, porém o outro é ouvir e explicar”, destacou ele.

Raphael Soté, sócio da área forense da Consultoria KPMG, ressaltou que o suporte em vídeo exige que a administração das empresas “prepare ainda mais seus executivos para reuniões com maior número de pessoas. Todos os acionistas têm direitos, e é fundamental garantir que eles sejam respeitados também no ambiente virtual”.

Não apostar nessa cautela pode ser desastroso. Até porque, com vídeo, e o registro gravado, basta um clique para que tudo reverbere à exaustão. Ao mesmo tempo, entretanto, tamanho alcance pode funcionar para explicitar pressões externas.

No dia 25 de fevereiro, em sua primeira aparição pública depois do anúncio de que seria substituído na presidência da Petrobras, Roberto Castello Branco, trabalhando em home office, comandou a videoconferência para apresentar os resultados da estatal no quarto trimestre do ano passado – lucro recorde, aliás – vestindo uma camiseta na qual se lia “Mind the gap”.

A frase, emprestada do alerta do metrô de Londres para que os passageiros tenham cuidado com o vão entre os trens e a plataforma, vinha sendo repetida por ele para assinalar que a companhia deveria manter uma dinâmica de preços em paridade com os valores praticados no mercado internacional – o estopim de sua saída da estatal, decidida pelo presidente Jair Bolsonaro. O recado ao chefe do Executivo repercutiu extraordinariamente.

Após o barulho da Petrobras, foi a vez de a Vale apresentar suas contas, só que por teleconfência. Seus executivos tiveram de responder a um analista do Bank of America Merrill Lynch se havia risco de ingerência política no comando da mineradora. Na mão oposta da atual tendência das companhias, a Vale não tem no momento planos de passar a fazer eventos dessa natureza por chamadas de vídeo.

Empresas de capital aberto voltadas para o varejo vêm aderindo mais ao novo modelo. Renner, Arezzo & Co e Via Varejo (dona de Casas Bahia e Ponto frio) estão fazendo divulgação de resultados em videoconferência. É, claro, uma ponte para chegar ao investidor – e, numa segunda leitura, também ao consumidor final.

Um ponto que foi a nocaute na era das reuniões virtuais é o que Sidney Ito, sócio da consultoria em riscos e governança corporativa da KPMG, chama de “a reunião fora da reunião”. Ito sublinhou que “no presencial, havia o café, o intervalo, a ida e a volta para o aeroporto, a viagem; uma série de momentos para encontros e conversas informais, bastidores, que ajudam na construção de uma rede de relações e negociações que colaboram com o todo”. Já no processo por videoconferência “existe a dificuldade de conhecer melhor outros membros do conselho, executivos ou acionistas”, pontuou ele.

Em que pese essa indiscutível realidade, durante a pandemia já ocorreram até mesmo eleições virtuais de conselheiros administrativos – que, portanto, não tiveram contato físico direto com os demais. E isso se constituiu em um problema? Não necessariamente.

A Assaí, rede do setor de atacarejo, que foi listada em Bolsa no início de março, depois da cisão do Grupo Pão de Açúcar, é exemplo de negócio que fez a transição por meio digital em pleno surto de Covid-19. “Todas as reuniões com investidores anteriores à listagem, o chamado ‘roadshow’, foram on-line. Sem essa mudança trazida pela doença, eu não teria conseguido participar desses encontros”, relatou Gabrielle Helú, executiva da empresa.

Atuando como diretora de relações com investidores, ela chegou ao Brasil em fevereiro, vinda de Paris, onde trabalhava para o francês Casino. “Reuniões com os investidores por vídeo aproximam mais do que a call por voz. Dá mais acesso aos executivos, que também têm mais tempo para falar com esses investidores. Poupa tempo, a agenda; reduz custos de deslocamento”, avaliou ela. “O Assai já está começando a adotar conferência de resultados por vídeo, e vai continuar a fazer isso, em minha visão. Nó tocamos o sino da Nyse (Bolsa de Nova York) digitalmente!”, destacou Helú.

Claudio Oksenberg, sócio da prática de Direito Societário do escritório Mattos Filho, chamou a atenção para o fato de que o novo modelo adotado pelas corporações sob o impacto do coronavírus também vem sendo acompanhado por ajustes na legislação. “Em assembleias de acionistas, já havia voto à distância, por exemplo. Com a pandemia, vieram novas regras para assembleias híbridas ou 100% digitais. A legislação tem se adaptado e ajudado no cumprimento das regras de mercado”, analisou o advogado.

Segundo ele, para manter as regras de boa governança corporativa em sintonia com a lei, é importante “ter nas videoconferências alguém conduzindo os trabalhos, controlando número e tempo de perguntas e respostas, dando a palavra a quem pede e tirando o microfone de quem estiver abusando de seu direito”.

As mexidas no universo corporativo ganham corpo ainda por meio de atos do governo. No fim de março, foi publicada a Medida Provisória (MP) 1.040, com o ambicioso objetivo de levar o país a subir de posição no Doing Business, ranking elaborado pelo Banco Mundial que classifica o ambiente de negócios das nações. Em 2019 – ano do último dado disponível a respeito -, o Brasil ficou em 124º lugar entre 190 países.

“Oferecer maior proteção a acionistas minoritários é uma forma de subir no ranking”, explicou Oksenberg. Para ele, no entanto, a MP trouxe medidas que pediriam mais debate “porque mexem com a Lei das SA, consolidada há tempos”.

De acordo com o advogado, “alguns assuntos passarão a ter de ser leva dos para a assembleia, em vez de se rem decididos pelo conselho, o que não impede que a questão passe pelo conselho. As assembleias de acionistas precisarão ser convocadas com 30 dias de antecedência, o que é melhor para o minoritário, mas não necessariamente para a companhia, pois pode tirar agilidade na tomada de decisões”.

Sars-CoV-2 à parte, há em relação à explosão das videoconferências no degrau mais alto do mundo corporativo dois consensos. Um deles é que a mudança veio para ficar. O outro é que executivos, acionistas e analistas seguem tendo muito a aprender nessa transição.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.