A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SONHAÇÕES: A PELE DA COBRA

A observação na Psicanálise trata diretamente com movimentos fluentes, com mudanças de estados mentais. A dificuldade principal reside em como aproximar conceitos de intuições

“Quando pronuncio a palavra Futuro,

A primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,

Suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,

Crio algo que não cabe em nenhum

não ser.”

Wislawa Szymborska (As Três Palavras mais Estranhas)

Para falar sobre o ato de observação em Psicanálise estou tom ando como base o momento que o poema demonstra esse hiato entre o que é observado e as palavras que usamos para nomeá-lo. Ressalto que esse momento se constitui como um ponto crucial em nosso cotidiano como psicanalistas. Há um risco sempre presente em nossa atividade, que é o de tomarmos nossos mapas conceituais ou os nomes que usamos como fatos e colapsarmos nossas observações.

Em nossa atividade lidamos com movimentos fluentes, com passagens constantes entre estados mentais, que fazem parte de uma complexidade que, em Psicanálise, conjugamos pelo nome “personalidade”. Nossas formas de entendimento, bem como a linguagem que usamos para nos aproximarmos dos eventos que nos torneiam, inexoravelmente delimitam diversas regiões da realidade.

O problema continua sendo como aproximar conceitos de nossas intuições. Para nós, psicanalistas, a distância entre o dogma e a fé pode ser muito estreita. Através de um “ato de fé” pode-se “ver”, “ouvir ” e “sentir ” o fenômeno mental de cuja realidade nenhum psicanalista praticante tem dúvida, embora não possa representá-lo com exatidão pelas formulações existentes.

Os psicanalistas observam certas coisas que outras pessoas não podem ver, ainda que talvez seja possível para os que buscam uma análise. Esse mundo é o mundo da experiência emocional. Nele, emoções, como tristeza, alegria, amor, sexo, solidão, paixão são fatos tão tangíveis como uma mesa ou a chuva. Esses aspectos, muitas vezes, são tão sutis e evanescentes que resultam ser virtualmente invisíveis, mas sabemos que são tão reais que podem chegar a destruir-nos se permanecemos passivos frente a eles.

As investigações sobre a realidade psíquica e a expansão dos limites de suas fronteiras nos colocam na mesma situação de uma criança que precisa aprender a falar e pensar simultaneamente. Ela não consegue falar, pois seus pensamentos lhe são estranhos, e não pode pensar, pois lhe faltam conceitos a partir dos quais seus pensamentos possam se ordenar.

O analista, ao “obter” uma experiência emocional, precisa vesti-la através de uma imagem visual (ou, de modo mais geral, uma experiência sensorial), com o intuito de torná-la disponível para ser uma espécie de peça, que será usada nos pensamentos. A imagem visual encarna uma emoção de tal modo que ela possa se tornar pensável.

Esse é o misterioso trabalho do sonho (que Bion denomina TS-alfa): parear a experiência emocional do momento com uma imagem visual. Quando esse pareamento ocorre, outro salto misterioso sobrevém; agrega-se a essa imagem uma dimensão ideacional que não é um pensamento, mas, sim, uma extensão passível de ser convertida em uma dimensão pensável.

EXPERIÊNCIA

Visitando uma região rural e passeando por um lugar na mata junto com um acompanhante, alguém que conhecia a região, em uma ravina, ele me apontou o que percebi como sendo a pele de uma cobra. Logo adiante eu mesmo apontei a ele o que seria mais um pedaço da pele de uma cobra, o local parecia estar coalhado de “peles” de cobra.

Obviamente, instalou-se uma grande apreensão. Mas, e as cobras propriamente ditas, como eu as perceberia? O fato de estar nessa região e com esses indícios, ampliavam-se sobremaneira as chances de nos encontrarmos com uma cobra, pois me lembrava de que, na época de mudança de pele, a cobra fica mais arisca e irritável.

Nesse momento tenho também uma recordação da minha visita educativa ao Instituto Butantan e das explanações sobre a aparência das cobras venenosas. Essas eram as referências que valorizei para dar conta do que estava experimentando e dar continuidade à investigação do que se apresentava como a minha experiência daquele momento.

Após algum tempo de caminhada meu acompanhante, que estava logo atrás de mim, solta um grito de dor – ele sofrera o bote de uma cobra que o picara. Ele passava justamente pelo mesmo caminho que alguns segundos atrás eu passara. Com seu grito, tornando-me ainda mais alerta, viro-me rapidamente em sua direção e vislumbro um pequeno vulto deslizando furtivamente entre a vegetação rasteira e desaparecendo logo em seguida.

A partir desses elementos apresentados pelo grito de meu parceiro, meu próprio susto e o estado de alerta subsequente, uma ruptura do estado mental anterior, vislumbrei a dimensão na qual a cobra viva estava presente.

Em minha epistemologia pessoal havia pelo menos três diferentes dimensões, que delineio como premissas para sustentar meus argumentos a respeito do ato de observar e/ou colapso de nossas observações. Havia uma dimensão do que seria a cobra, outra dimensão era o lugar em que a cobra esteve e não estava mais, e por último a cobra. Com essa analogia quero focalizar as diferentes dimensões de nosso instrumental observacional: os enquadres conceituais (aquilo que aprendi sobre as cobras), a sustentação de dúvidas (as peles da cobra e meus conhecimentos sobre cobras me possibilitavam um tipo de expectativa a respeito daquele momento) e a emergência de uma intuição (o bote da cobra).

Pontuo que a Psicanálise não pode ser contida nas teorias que ela produz, e o que melhor configura seu método seja a ideia de que ela é uma sonda, cujo movimento expande um universo que está muito além de seus conceitos.

O analista e seu analisando são ambos dependentes dos sentidos, mas as qualidades psíquicas com as quais tratamos não são percebidas pelos sentidos, nem pela memória ou pelo desejo. Acredito que manter- se disponível e em sintonia com um estado de mente que propicie o “bote da cobra” pode nos apresentar para uma experiência fugaz, dolorosa e vivamente presente e real. Talvez seja somente nessa dimensão que a nossa própria existência como analista possa ser experimentada como verdadeira.

Tal disponibilidade exige o exercício da fé, uma fé científica, para que a intuição possa emergir e captar a experiência emocional que está sendo transformada na sessão. Segundo minhas referências, “mistério” é a vida real e ela só pode se apresentar aos nossos instrumentos de observação pela via da intuição.

O “bote da cobra” aproxima-se de uma “intuição instantânea” que, uma vez formulado, assume “definitividade” e pode temporariamente ser usado como ponte para passar para outro momento. O que surge da intuição deverá ser um pensamento que pode ser abandonado no mesmo momento em que é pensado. Quando entramos em unicidade com a verdade daquele momento, o que se consegue é uma percepção do positivo e do negativo, mas com a velocidade de um flash, uma centelha. Esse movimento é pontuado no poema de Szymborska.

MODELO CLÍNICO

Nesse modelo clínico aparece o que chamei de “bote da cobra”, uma intuição instantânea que provém de um longo percurso de sustentação de dúvidas e incertezas, uma ponte para outro momento da dupla.

Inicio um relacionamento com alguém que se apresenta a mim como quem foi indicada por uma ex-paciente minha, que foi sua professora na universidade. Nossos encontros revelam-se, à minha percepção, de uma forma excêntrica: senta-se à minha frente e me pergunta, sentindo-se afrontada com o meu olhar: “Eh… o que foi, hein?”.

Os momentos em que sustentei algum tipo de fala, a partir de uma questão ou observação que me pareciam pertinentes, desencadeavam uma turbulência que “desmoronava” literalmente o setting, culminando com a saída brusca da “paciente”, batendo a porta e dizendo impropérios à minha pessoa e ao que ela imaginava que fosse o meu trabalho.

Afortunadamente ou desafortunadamente ela voltava para outra sessão. Ela, então, na medida em que eu aguardava em silêncio que algo evoluísse entre nós, parecia brincar mostrando-se indiferente à minha presença, dava pequenos chiados, que eu identificava como um ciciar. Colocava um dedo sobre a boca, apontava para o meu corpo e sussurrava esse chiado. As primeiras imagens pictóricas sobre a cobra surgiram desses momentos. Posteriormente, foram se transformando nas conjeturas imaginativas que apresentei.

Acontecia às vezes um esboço de diálogo, resmungos que eu escutava como ruminações e queixas sobre a sua vida e sobre o que ela experimentava em suas relações; nesses momentos se eu a interrompesse formulando alguma questão ou mesmo interpelando-a sobre algo que não havia escutado, ela dizia exibindo uma mímica facial de desprezo: “Não é nada…”.

Percebia que ela jogava seus cabelos sobre seu rosto. Ela os tem longos e selvagens, isto é, sem nenhum tratamento de escovação ou métodos de alisamento. Separava, então, de cada lado de sua cabeleira duas porções de cabelos e literalmente pendurava-se neles, enrolando-os e desenrolando continuamente. Com sua face escondida pelos cabelos iniciava uma fala, para mim, desconexa e em um tom monocórdio, mesclada com vocalizações de cantigas infantis.

Havia entre nós a mobilização de um tipo de passividade, uma entrega a uma ausência de sentidos, a uma ausência de palavras e a presença de um comportamento que eu sentia como incompreensível.

Vou me sentindo torporoso e tenho a impressão, a partir dessa sonolência, de observar, nos momentos em que consigo manter-me precariamente atento, uma criança completamente alheia ao seu entorno, brincando e conversando sozinha. Saio desses episódios como que embriagado, recompondo-me logo em seguida ao término da sessão. Essas situações eram perturbadoras, porque eu sentia que estava completamente desprovido dos recursos que habitualmente nos acompanham em diferentes contextos, além de que essas situações me aproximavam daquilo que acontecia com alguém severamente regredido. Segundo Bion, quanto mais perto de alcançar a supressão do desejo, memória e compreensão chega o analista, mais é possível que ele deslize num sono semelhante ao estupor.

Ao final de algumas dessas ocorrências ela resmunga algo expressando certa surpresa, mas como se falasse consigo mesma: “Como é que consegue?”. Noto nesses momentos que ela expressa uma jovialidade, quase um contentamento.

Essa observação e tal questão ampliam meu desconcerto, mas ao mesmo tempo me fazem supor que essa condição tenha alguma importância para o que ela tenta me comunicar, mas que para mim era inacessível.

Ao longo de um período e experimentando um estado de torpor, vou me atendo às vocalizações, que vão me parecendo um tipo de ritmo infantil e repetitivo. Algo como: “Nã, na, nãã, na, nãã, na…!”. Que me dava a impressão de estar envolvido pelos ritmos e rimas de canções de ninar e, ao mesmo tempo, pela cadência das zombarias infantis.

Depois de um bom tempo dessas experiências vou distinguindo, mobilizado por esses ritmos e padrões, uma de minhas vivências e me vejo em situações de confrontos infantis, elaborando sátiras, que eram repetidas nos ritmos de uma canção, tais como: “Magro banguelo… pé de chinelo ” como resposta a “Gordo … baleia… saco de areia”.

Dou-me conta da habilidade, muitas vezes cruel das “crianças”, de transformar diferenças, insuficiências e defeitos em “apelidos jocosos”, que, por sua vez, sustentam uma interação através de disputas e confrontos, mas, ao mesmo tempo, pode ser entendido como um tipo de apresentação entre duas pessoas. Distinguir essas emoções em meio ao torpor tem efeito de um choque, um impacto, sinto-me vivo e existindo naquele momento. Aquela experiência inacessível, momentaneamente, torna-se singular e pessoal. Sinto que tenho algo de minha experiência afetiva e que posso imaginar que se relaciona ao que ela está tentando me comunicar. Observo-a com seus cabelos cobrindo todo o seu rosto e ela, percebendo que saí daquele estado torporoso, se espanta agarrando-se às mechas de seu cabelo com mais intensidade e começa a enrolá-las.

Pergunto-lhe: “É sobre um tribufo…?”. Sonhei que a partir daqueles movimentos e ritmos, bem como daquele cenário, ela me contava uma história sobre algo que poderia pertencer a essa dimensão. Assusto-me ao mesmo tempo por ter formulado tal questão e usado tal nomeação tão espontaneamente. Posteriormente, soube que este é um adjetivo regional da Bahia, de onde sua família migrou em busca de melhor sorte em São Paulo, bem como um tipo de troça que seus irmãos mais velhos lhe impunham.

Ela, então, me surpreende e dá uma gargalhada e me pergunta interessada: “De onde você tirou isto…?”.

Logo sua mímica facial se recompõe e me diz com desprezo, olhando ostensivamente para o

meu corpo: “E você, quem pensa que é?”. Respondo: “Daqui de onde te observo elevando em conta como você me olhou, posso imaginar que também sou um ‘gordo… baleia’ – expresso esse adjetivo jocoso no compasso que vinha de seus ritmos – que pode nos encalhar! “.

Sorri novamente e me diz: “E eu sou um tribufo que vai te assombrar!”.

MIGUEL MARQUES – é médico e psicanalista; membro efetivo da SBPSP e membro efetivo e analista didata de SBPRP. Trabalha em Marília, Ribeirão Preto e São Paulo.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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