EU ACHO …

O LANCHE

As imaginações que assustam. Pensei numa festa – sem bebida, sem comida, festa só de olhar. Até as cadeiras alugadas e trazidas para um terceiro andar vazio da Rua da Alfândega, este seria um bom lugar. Para essa festa eu convidaria todos os amigos e amigas que tive e não tenho mais. Só eles, sem nem sequer os entre amigos mútuos. Pessoas que vivi, pessoas que me viveram. Mas como é que eu subiria sozinha pelas escadas escuras até uma sala alugada? E como é que se volta da Rua da Alfândega ao anoitecer? As calçadas estariam secas e duras, eu sei.

Preferi outra imaginação. Começou misturando carinho, gratidão, raiva; só depois é que se desdobraram duas asas de morcego, como o que vem de longe e vai chegando muito perto; mas também brilhavam as asas. Seria um chá – domingo, Rua do Lavradio – que eu ofereceria a todas as empregadas que já tive na vida. As que esqueci marcariam a ausência com uma cadeira vazia, assim como estão dentro de mim. As outras sentadas, de mãos cruzadas no colo. Mudas – até o momento em que cada uma abrisse a boca e, rediviva, morta-viva, recitasse o que eu me lembro. Quase um chá de senhoras, só que nesse não se falaria de criadas.

— Pois te desejo muita felicidade – levanta-se uma – desejo que você obtenha tudo o que ninguém pode te dar.

— Quando peço uma coisa – ergue-se a outra – só sei falar rindo muito e pensam que não estou precisando.

— Gosto de filme de caçada. (E foi tudo o que me ficou de uma pessoa inteira.)

— Trivial, não, senhora. Só sei fazer comida de pobre.

— Quando eu morrer, umas pessoas vão ter saudade de mim. Mas só isso.

— Fico com os olhos cheios de lágrimas quando falo com a senhora, deve ser espiritismo.

— Era um miúdo tão bonito que até me vinha a vontade de fazer-lhe mal.

— Pois hoje de madrugada – me diz a italiana – quando eu vinha para cá, as folhas começaram a cair, e a primeira neve também. Um homem na rua me disse assim: “É a chuva de ouro e de prata.” Fingi que não ouvi porque se não tomo cuidado os homens fazem de mim o que querem.

— Lá vem a lordeza – levanta-se a mais antiga de todas, aquela que só conseguia dar ternura amarga e nos ensinou tão cedo a perdoar crueldade de amor. – A lordeza dormiu bem? A lordeza é de luxo. É cheia de vontades, ela quer isso, ela não quer aquilo. A lordeza é branca.

— Eu queria folga nos três dias de carnaval, madame, porque chega de donzelice.

— Comida é questão de sal. Comida é questão de sal. Comida é questão de sal. Lá vem a lordeza: te desejo que obtenhas o que ninguém pode te dar, só isso quando eu morrer. Foi então que o homem disse que a chuva era de ouro, o que ninguém pode te dar. A menos que não tenhas medo de ficar toda de pé no escuro, banhada de ouro, mas só na escuridão. A lordeza é de luxo pobre: folhas ou a primeira neve. Ter o sal do que se come, não fazer mal ao que é bonito, não rir na hora de pedir e nunca fingir que não se ouviu quando alguém disser: esta, mulher, esta é a chuva de ouro e de prata. Sim.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

FAZENDO A CABEÇA DOS JOVENS

Droga preferida da juventude, sobretudo dos millennials, o MDMA tornou-se o mais novo desafio para a polícia com a descoberta dos primeiros laboratórios de produção no país. Perigosa e fácil de comprar, a substância tem potente efeito alucinógeno

Sábado, 2 da manhã. Em uma festa regada a música brasileira, cerveja gelada e temperatura de 25 graus, com vista estupenda para a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, cinco amigos de corpo sarado exibido por camisa aberta se reúnem em torno de um saquinho plástico contendo um pó cristalizado. Enquanto o DJ toca para a pista abarrotada um remix dançante de Mania de Você, antigo hit de Rita Lee, os integrantes da roda se servem da substância como se estivessem tendo acesso a um pote de ouro. Com o dedo, levam o conteúdo direto à língua (há quem prefira diluí-lo na água). O consumo não ocorre escondido dos olhos de ninguém, dura menos de trinta segundos, e demora entre dez e vinte minutos para o negócio percorrer a corrente sanguínea e bater no cérebro. Nas horas seguintes, os usuários vão experimentar seus potentes efeitos estimulantes e alucinógenos. Inundado pela química que altera a regulação dos neurotransmissores, o organismo fica em estado de hipersensibilidade, o que amplia percepções como o sentimento de prazer. “Eu tenho vontade de dançar e tocar nas pessoas, fico muito sexual”, descreve a universitária paulistana R.M., de 21 anos.

Cenas semelhantes vêm se repetindo em baladas, shows, raves, festas de faculdade e encontros ao ar livre em vários pontos do país. A substância em questão é uma das drogas mais potentes e perigosas já desenvolvidas em laboratório: o MDMA (sigla para 3,4-metilenodioximetanfetamina). Os mais íntimos a chamam apenas de MD. Ela é também conhecida por apelidos como “Michael Douglas”, “Madonna” ou “Molly”. Trata-se de uma espécie de versão melhorada do ecstasy, a denominada pílula do prazer, que perdeu parte da popularidade entre os jovens com maior poder de compra, sobretudo os millennials, quando passou a ser misturada pelos traficantes a substâncias como bicarbonato de sódio, provocando efeitos colaterais como vômitos e diarreias.

Considerado muito mais puro, o MDMA desembarcou no Brasil há mais de dez anos e, por essas e outras “vantagens”, transformou-se nos últimos tempos no mais procurado combustível sintético de adolescentes e adultos de classe média alta. O uso disseminado fez a droga fabricada em laboratório ser apontada como o lança-perfume dos novos tempos, sendo um dos aditivos mais usados em blocos e bailes de Carnaval. Virou também elemento da cultura pop, com citações em letras de música, sobretudo funk, além de menções em estampas de camisetas de marcas famosas. Há riscos enormes no consumo do entorpecente, mas que são desprezados por grande parte dos usuários. O MDMA provoca distúrbios importantes no organismo e, em casos extremos, leva à morte por falência hepática, hipotermia ou parada cardíaca.

Para as autoridades encarregadas da repressão às drogas no Brasil, um dos alarmes que despertaram atenção foi o aumento substancial de apreensões desses sintéticos no país. Só no Estado de São Paulo essas ações tiveram crescimento de cerca de 360% no primeiro semestre de 2019 em comparação ao mesmo período de 2018. Nesse espaço de tempo, flagras relacionados a cocaína e crack evoluíram em torno de 80%. A denominação “sintéticos” abriga vários tipos de droga, incluindo o ecstasy, mas os especialistas atribuem ao MDMA o papel de ter inflado os números. Por isso, recentemente, criou-se uma categoria específica para ele a fim de monitorar de perto o fenômeno. Mais preocupante ainda é que os dados podem não refletir o tamanho da encrenca. Diferentemente da maconha e da cocaína, o MDMA é inodoro e pode passar despercebido pela fiscalização. Para comprovar que a substância é ilícita, é necessário fazer um teste químico minucioso. “Às vezes, o MDMA vem escondido em frascos de remédio ou dentro de comprimidos”, diz o delegado Fabrizio Galli, chefe da área de entorpecentes da Polícia Federal de São Paulo. Outro problema: pouca droga faz a cabeça de muita gente. Com 1 grama, vendido a partir de 150 reais, é possível garantir a euforia de um grupo de dez pessoas ao longo de uma noite inteira.

A situação é preocupante porque um pedaço da produção hoje é made in Brazil. Se antes a substância chegava de países como Holanda e Bélgica, a partir deste ano os policiais começaram a descobrir laboratórios de MDMA em locais como Santa Catarina e Distrito Federal. Ao todo, foram desbaratadas ao menos dez centrais de produção nos últimos meses. A maioria delas se resume a uma quitinete ou chácara afastada, equipada com tubos de ensaio, balanças, termômetros, filtros, estufas, máscaras, luvas, compressores, aquecedores e muitos galões de produtos químicos. Em uma das ações mais recentes, realizada em setembro, uma fábrica clandestina da droga foi estourada pela Polícia Civil do Paraná no meio do mato em Campina Grande do Sul, na região metropolitana de Curitiba. Foram necessários dois meses de campana no curso das investigações. Ao entrarem no local, os agentes depararam com 20 quilos de MDMA em estado bruto divididos em dois baldes e nove barris cheios de misturas químicas. “Só de nos aproximarmos, sentíamos náuseas e dor de cabeça devido à quantidade de substâncias tóxicas no lugar”, conta Rodrigo Brown, delegado do Centro de Operações Policiais Especiais. “Precisamos pegar um caminhão para retirar aquele material dali, e levou um mês para acharmos uma empresa que pudesse descartá-­lo sem contaminar o meio ambiente. Se os usuários tivessem noção do que é composta essa droga, certamente não a usariam.” Na batida, foram presas duas pessoas e apreendidas muitas folhas de papel com fórmulas químicas anotadas, como “perfume 200 g, peróxido de hidrogênio 600 litros, soda cáustica 300 quilos e tricloro etileno de 600 litros”.

A polícia calcula que uma fábrica clandestina do gênero tenha um custo de cerca de 40 000 reais. Além do investimento, é necessário conhecimento técnico específico para fazer o MDMA. Em fevereiro, um laboratório em Rio dos Cedros, no interior de Santa Catarina, foi desmantelado pela polícia de Balneário Camboriú. Ali foram presos o engenheiro químico Rafael Fuller, de 27 anos, formado em uma universidade particular da região de Itajaí, e outros dois auxiliares — ou “cozinheiros”, na gíria dos bandidos. Entre 2016 e 2018, Fuller passou uma temporada na Europa. A suspeita é que teria ido para um “programa de estudos” com o objetivo de aprender a elaborar novas drogas com uma pessoa que se identificava no seu celular como “Alemão”. Nas comunicações interceptadas pela polícia, há imagens de fundo de tela de Walter White, o personagem principal do seriado Breaking Bad, que narra a saga de um professor de química convertido em um grande traficante de metanfetamina dos Estados Unidos. Segundo os investigadores catarinenses, o grupo de Rio dos Cedros se referia a White nas mensagens como “mestre”. No local, a polícia encontrou, além dos apetrechos de laboratório, 40 quilos de MDMA em cristal e um macacão amarelo semelhante ao usado na série.

A viagem lisérgica proporcionada pela droga se dá por um conjunto de reações químicas. “O MDMA atua sobre os neurotransmissores serotonina, dopamina e noradrenalina. O primeiro deles, o mais afetado, controla as emoções e regula o domínio sensorial e a capacidade associativa do cérebro”, explica Zila van der Meer Sanchez Dutenhefner, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina. Em outras palavras: a substância provoca hipercomunicabilidade, sensibilidade exacerbada e alucinações visuais e auditivas, além de aumento da libido e da vontade de dançar. Seu uso contínuo pode desregular os neurotransmissores, provocando baixa produção de serotonina, o que pode levar à depressão crônica.

A despeito dos riscos, jovens de classe média alta que eram usuários de ecstasy ou cocaína vêm migrando com velocidade para o MDMA, atestam os frequentadores mais atentos da cena noturna das grandes cidades brasileiras. O ecstasy, muito popular até cinco anos atrás, caiu em desgraça por ser encontrado no mercado cada vez mais impuro. Quem tem dinheiro prefere o MDMA. “Faço ioga, corro e gosto muito do meu corpo torneado”, descreve a estilista O.N., de 27 anos. “Por isso, só uso MD porque sei que no dia seguinte consigo ir à academia e correr 10 quilômetros na esteira.” Fundador do Grupo Vegas, empresa que reúne bares, baladas e restaurantes e fatura mais de 50 milhões de reais por ano em São Paulo, Facundo Guerra diz ter visto o MDMA chegar ao Brasil em meados de 2009. A substância fazia parte de um circuito fechadíssimo e de elite. “As pessoas traziam de Berlim ou Ibiza e consumiam em ambiente ligado à música tecno”, conta. “Agora, ela se popularizou.”

No Brasil, a fabricação, a distribuição e a venda da droga não são controladas (ao menos por enquanto) por grandes facções criminosas, como o PCC, dono dos mercados de maconha e cocaína. Com isso, a palavra traficante não existe no vocabulário dos usuários, que preferem o termo em inglês: dealer. Para efeito de consciência dessa turma, ainda que por vias bastante tortas, o fornecedor não é um criminoso, e sim alguém que frequenta seu mesmo círculo social. “Comprar MD não me faz sentir culpado porque sei que ele não mata nem paga propina a policial”, afirma o estudante W.P., de 20 anos.

O aumento do consumo do MDMA não representa um desafio apenas para as autoridades brasileiras. Jovens do mundo inteiro têm utilizado mais esse pó sintético. De acordo com a Global Drug Survey, o Reino Unido viu crescer em 50% o número de mortes em consequência do uso de MDMA: passou de 63, em 2016, para 92, em 2018. O instituto avalia que as pessoas têm tomado doses cada vez maiores, superiores a 150 miligramas, de uma só vez. Um dos problemas de saúde mais comuns está, curiosamente, associado ao consumo exagerado de água. Isso porque o MD aumenta a temperatura e a agitação do corpo, o que provoca muita sede. Com uma agravante: a droga potencializa a secreção do hormônio antidiurético, o ADH, que ajuda o organismo a reter líquidos. “O usuário então fica com vontade de beber muita água, mas não a libera na velocidade desejada. A literatura médica já descreveu casos de convulsões devido a edema encefálico por intoxicação por água”, conta Zila Sanchez. O mesmo relatório da Global Drug Survey mostra Irlanda, Escócia e Inglaterra como os países onde há maior consumo da droga.

Paradoxalmente, o MDMA surgiu para fazer bem à saúde. Composto derivado da anfetamina, ele foi sintetizado pela primeira vez em 1912, na Alemanha, com o objetivo inicial de atuar como um vasoconstritor. Dois anos depois, o laboratório Merck Pharmaceuticals patenteou o seu uso como um inibidor de apetite, mas nunca chegou a comercializá-lo. Nos anos 80, o pó cristalizado passou a ser utilizado como droga em casas noturnas da Europa — e começou a ganhar espaço no restante do mundo. Hoje, há estudos para o tratamento de alcoolismo com a substância na Inglaterra. Outra vertente vem aplicando-a em casos de transtorno de stress pós-traumático, provocado por abuso sexual, desastres naturais ou guerras. Como atinge diferentes sistemas neurotransmissores no cérebro, ela facilita a revisitação da experiência traumática pelo paciente, auxiliando em sua recuperação. Mas, mesmo que seja aprovado por agências reguladoras, o que ainda não aconteceu, convém lembrar que nenhum remédio pode ser usado de forma recreativa e sem controle — especialmente por quem não apresenta sintomas das doenças indicadas.

Ao contrário do que ocorre com a cocaína e a maconha, vendidas em locais que vão de favelas à entrada de grandes casas noturnas no Brasil, a comercialização do MDMA se dá no mundo digital, via aplicativo Whats­App. Quando o dealer é íntimo do cliente, os pedidos são feitos por mensagens diretas no Instagram e no Messenger. Foi o que descobriu a Polícia Civil do Distrito Federal na Operação Acarajé Químico, no fim do ano passado, quando um universitário de administração de 19 anos acabou sendo preso em Jequié, no interior da Bahia. Usando o codinome “Sr. Wonka”, ele administrava três grupos de Whats­App com cerca de sessenta participantes com a imagem do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate. Nas mensagens, “Wonka” oferecia “balas” (ecstasy), “doces” (LSD) e o “cristalzinho” (MDMA). “Geralmente o volume de vendas do MDMA é maior nas temporadas de grandes festivais e no Carnaval”, diz o delegado Galli. A maior parte dos traficantes entrega a droga em domicílio quando há pedidos superiores a 250 reais, sem cobrança de taxa de delivery, e ela normalmente vem nas cores branca ou caramelo, dependendo de sua composição e origem. As versões mais claras chegam da França e da Holanda, enquanto as outras vêm da Bélgica e do Paquistão.

Em maior ou menor escala, cada droga da moda traz embutida uma cultura criada ao redor do seu consumo. A maconha ganhou espaço com os hippies e virou o símbolo anti-establishment da pregação da paz e amor. O LSD veio no bojo do movimento de expandir as portas da percepção, expressão criada pelo escritor Aldous Huxley, que comparou o cérebro humano a uma válvula de escape e atribuía aos lisérgicos o dom de fazer com que as pessoas quebrassem as barreiras de acesso a novos mundos sensoriais que haviam sido fechadas pela caretice da vida adulta. A cocaína virou símbolo da ambição acelerada da era yuppie, enquanto as mais recentes drogas sintéticas se harmonizam perfeitamente com o culto às raves e às batidas alucinantes das modernas músicas eletrônicas. O MDMA surge como uma evolução dessa última cadeia, prometendo o que é impossível: combinar o uso de drogas com um estilo de vida mais saudável. “Na ilusão de tomarem algo que não é vendido pelo PCC e agride menos o corpo que o ecstasy, os jovens dão um tiro no escuro”, alerta a professora Zila Sanchez. “Já há MDMA adulterado com metanfetamina, com alto poder de vício, e trazido ao Brasil por traficantes do crime organizado”, completa. A viagem alternativa dos millennials tem tudo para virar uma tremenda bad trip.

UM LABORATÓRIO CONTRA O CRIME

Além da produção em fundo de quintal e da venda realizada por muitos pequenos traficantes, o maior desafio da polícia hoje no combate às drogas sintéticas é identificá-las e classificá-­las como ilícitas. Não são raros os casos de pessoas pegas com produtos estranhos e suspeitos, mas que, em seguida, são liberadas pelo fato de o material não estar cadastrado na lista de itens controlados pela Anvisa. “Basta modificar uma molécula que já se cria uma nova substância”, diz o perito Sergio Cibreiros, um dos maiores experts no assunto no país.

Nos últimos três anos, mais de 110 novas drogas foram descobertas no laboratório da Polícia Federal, em Brasília, pela equipe de Cibreiros, da qual fazem parte o delegado Marcos Pimentel e a perita Mônica de Souza. Elas acabaram sendo batizadas por siglas como MDMC, BMDP e MDPHP, entre outras. O MDMA já está cadastrado há dezesseis anos, época em que o ecstasy começou a se popularizar no Brasil vindo de países como Bélgica e Holanda. Os testes são requintados e exigem até uma análise por ressonância magnética nuclear e radiação infravermelha.

O problema não é só o surgimento constante de mais entorpecentes. Não há uma receita fixa para produzir o MDMA, por exemplo. Pelo contrário, é possível chegar à droga por diversos caminhos e substâncias diferentes — muitas delas comercializadas legalmente pela indústria química brasileira. A Polícia Civil do Distrito Federal, por exemplo, descobriu que se consegue produzi-la com um componente usado na fabricação de xampus. Em paralelo, a PF ajuda no combate a ela, atuando para controlar o comércio desses produtos. O tráfico, no entanto, atualiza-se constantemente. Na Operação Psy Trance, ocorrida em Santa Catarina em fevereiro, a polícia suspeita que a quadrilha constituiu uma empresa de produtos químicos só para produzir a droga. Os compradores utilizavam o CPF de idosos espalhados pelo país, que nada sabiam do esquema, para driblar a fiscalização das autoridades.

LIBIDO, EUFORIA E DEPRESSÃO

O QUE É MDMA: sigla da substância 3,4- metilenodioximetanfetamina, trata-se de um derivado da anfetamina que atua como estimulante e alucinógeno. O efeito a longo prazo pode ser devastador

USO: a droga é vendida em pó cristalizado. Ela pode ser usada misturada a água (chega à circulação sanguínea em vinte minutos) ou colocada diretamente sob a língua (dez minutos)

AÇAO NO ORGANISMO: ela age sobre os neurotransmissores serotonina, dopamina e noradrenalina. O primeiro deles, o mais afetado, controla as emoções e regula o domínio sensorial e a capacidade associativa do cérebro. A ingestão da droga provoca hipercomunicabilidade, sensibilidade exacerbada e alucinações visuais e auditivas, além de aumento da libido e da vontade de dançar

EFEITOS COLATERAIS: a temperatura do corpo se eleva radicalmente, fazendo com que o usuário aumente a ingestão de água. Se o organismo atinge 41 graus, há o risco de o sangue se coagular e ocorrer parada cardíaca. A longo prazo, o cérebro passa a produzir 40% menos serotonina, o que pode levar à depressão

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 11 DE MAIO

CUIDADO COM A IRA

O que presto se ira faz loucuras, e o homem de maus desígnios é odiado (Provérbios 14.17).

A ira é um fogo crepitante e assaz perigoso. Uma pessoa iracunda é uma bomba mortífera prestes a explodir. E, quando explode, lança estilhaços para todos os lados e fere as pessoas à sua volta. Quem se zanga facilmente fala muito, pensa pouco e provoca grandes transtornos a si e aos demais. O homem de maus desígnios é odiado. Torna-se persona non grata. O destempero emocional provoca tensões e conflitos no lar, no trabalho e nos demais setores da vida comunitária. É melhor morar no deserto do que relacionar-se com uma pessoa rixosa. É melhor viver só do que estar acompanhado de uma pessoa irritadiça. Há duas maneiras erradas de lidar com a ira. A primeira é a explosão da ira. Um indivíduo temperamental e explosivo machuca as pessoas com suas palavras e atitudes. Torna-se duro no trato e maligno em suas ações. A segunda é o congelamento da ira. Alguns não explodem, mas armazenam a ira. Não jogam sua agressividade para fora, mas a acumulam no coração. Tornam-se amargos, mal-humorados, fecham-se como uma cabeça de repolho e acabam azedando a alma. A solução não é a explosão nem o congelamento da ira, mas o exercício do perdão. O perdão cura e restaura. O perdão é a assepsia da alma, a faxina da mente e a cura das emoções.

GESTÃO E CARREIRA

LIDERANÇA CORPORATIVA

Saber escolher um bom grupo de colaboradores é papel de quem quer exercer uma liderança que dê resultados positivos dentro da estrutura em que atua

Obviamente não existe líder sem equipe. Claro que já ouvimos falar em liderar a si próprio, mas, no ambiente institucional, um líder só terá efeito na produtividade se tiver, sob seu comando, uma equipe.

O líder não é o sujeito que fica sentado na mesa dando ordens o tempo inteiro. Líder de fato é aquele que consegue, com inteligência, paciência, disciplina, humildade e respeito, direcionar as potencialidades de seus colaboradores para obter os frutos esperados. Muitas vezes, esse líder não ocupa uma posição formal de comando na empresa. Ele está entre os colaboradores, exercendo uma função de responsabilidade igual aos demais no seu entorno. Já sabemos que não é a posição que ocupa (o cargo) na empresa e sim o papel que exerce fazendo a diferença na organização de esforços e resultados que o grupo alcança.

Para existir liderança é importante a existência de um grupo, pelo menos mais de uma pessoa. Para que ocorra uma distribuição desigual de poder, ou seja, uma hierarquia para a instituição do líder estrutural. Isso é necessário mesmo que o líder de fato não seja o certificado e, por último, que a liderança seja aceita pelos colaboradores. Esse é o ponto relevante que define se há ou não o comando: se a autoridade é dada ao superior. Não existe forma de se comandar quem não quer ser comandado. Por isso a autoridade é uma coisa ofertada pelo comandado ao seu superior, e não o contrário como muitos líderes autoritários pensam. Assim, sem a aceitação do comando, surgem as divergências, os motins e todo o resto que pode acabar em uma instituição.

Ser carismático, saber ouvir, ter informações de todas as fontes confiáveis e saber escolher quais intervenções devem ser feitas são requisitos mínimos para o escopo de um bom líder. No entanto, para facilitar a formação de um perfil respeitado por todos os colaboradores podemos enumerar 10 atitudes comportamentais que devem ser evitadas a todo custo, pois elas não fazem parte da estrutura de um real líder.

O perfil autoritário só dá certo mesmo com o J. J. Jameson, o chefe do Peter Parker (Homem Aranha) nas histórias em quadrinhos. Além de caricato e apenas impor medo, esse tipo de chefe (não líder) acaba sendo destruído pelos próprios colaboradores na primeira oportunidade que tiverem.

Pessoas seguras não são prolixas. Dar muitos detalhes desnecessários de operações ou especular sobre o futuro de forma muito ampla com todos os colabores podem passar uma imagem de insegurança. Falar o essencial com assertividade é o ideal para que não haja ruídos no processo.

Há situações que pedem uma conversa mais densa com algum membro da equipe, porém isso nunca deve ser feito em público, até porque pode ser considerado assédio moral. Porém, o contrário é um a excelente ferramenta motivadora e o mérito deve ser valorizado. É importante ressaltar que os resultados obtidos só foram possíveis porque a equipe esteve coesa. A ideia pode ser do líder, mas foi a equipe que realizou sob seu comando. Então, a palavra de ordem é: nós!

Pessoas que emanam poder são mais calmas e costumam pensar antes de tomar decisões. Afinal, uma decisão certa ou errada pode mudar todo o conceito que os liderados têm de seu líder. Correr riscos faz parte do papel do líder, mas sempre consciente das possibilidades.

Com toda certeza o líder deve saber administrar suas emoções, pois elas podem contaminar todo o grupo. Quando a situação for de crise o líder deve saber alavancar o potencial do seu corpo laboral e elevar a autoestima de todos. Por isso deve manter o equilíbrio das emoções nas diferentes situações.

Saber dividir responsabilidades é fundamental para qualquer grande gestor. É necessário que exista a distribuição de comando para que o setor possa ter um desempenho orgânico. Se tudo depender do líder a empresa irá parar.

Um dos papeis mais importantes de um bom líder é encontrar pessoas mais competentes que ele e administrar seus talentos.

O líder deve saber dar o exemplo de uma vida saudável com seu tempo dedicado também ao lazer. A instituição pode criar possibilidades para que os seus colaboradores possam usufruir de uma qualidade de vida adequada. O tempo que a vida era só trabalho acabou! Aliás, isso nunca foi sinal de produtividade.

Nem todos podem se orgulhar de terem um talento para liderança natural. Para isso existem as técnicas apresentadas neste texto, que com treinamento adequado podem ser capazes de igualar os seres humanos com capacidade de aprender e replicar comportamentos.

JOÃO OLIVEIRA – é psicólogo. mestre em Cognição e Linguagem, pós-graduado em Hipnose Clínica Hospitalar e Organizacional, em Psicologia Humanista Existencial e em Cultura, Comunicação e Linguagem. Diretor de Cursos do ISEC – Instituto de Psicologia Ser e Crescer. Autor dos livros Jogos para Gestão de Pessoas: A maratona para o desenvolvimento organizacional; Saiba Quem Está à sua Frente: Análise comportamental pelas expressões faciais e comportamentais e Ativando o Cérebro para Provas e Concursos (Todos pela Editora Wak)

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CYBERBULLYING: UM MAL SILENCIOSO

O suicídio pode ser uma grave consequência do bullying na versão virtual, igualmente doloroso. Essa questão alcançou status de problema de saúde pública mundial

Diversos fenômenos ampliaram suas configurações patológicas com o advento da cibercultura: a compulsão sexual se expandiu ao cibersexo e a dependência midiática, anteriormente circunscrita aos televisores, disseminou para os celulares, os jogos eletrônicos e a internet. Simultaneamente, o bullying ganhou o seu caráter virtual, igualmente doloroso: o cyberbullying.

Bottino menciona que o cyberbullying é uma nova forma de violência disseminada na mídia eletrônica e tem causado preocupação em pais, educadores e pesquisadores devido aos efeitos negativos que causam na saúde mental do adolescente. Ainda de acordo com os pesquisadores, o termo é derivado dos tradicionais comportamentos de bullying que são comumente observados entre estudantes, por meio do abuso verbal e insultos, assim como agressões físicas de diversos tipos. Esse comportamento é repetitivo e sistemático, contra um sujeito que é incapaz ou falha em conseguir se defender. O cyberbullying é a expressão dessas características quando restringido em e-mails, salas de bate-papo, celulares ou qualquer outro recurso eletrônico.

Cantone discute a existência de três papéis principais no ciclo do bullying: o bully, a vítima e os espectadores. Usualmente o bully é o mais forte entre os seus semelhantes e, paralelamente, apresenta uma necessidade de obter poder. O propósito principal dos comportamentos de bullying é o de minar o status social da vítima assim como seu senso de segurança pessoal, ao mesmo tempo em que o bully aumenta a sua autoestima e seu status social. Como consequência, as ações de bullying usualmente ocorrem em frente a um público. Os espectadores podem dar suporte ao bully, defender a vítima ou serem passivos.

As consequências desse fenômeno, para a vítima, são diversas: solidão, problemas de conduta, sentimento de medo, maior risco de depressão, ideação suicida e diminuição da autoestima. Dentre elas, o suicídio é a mais grave, um problema de saúde pública de âmbito mundial. A depressão, em alguns casos, torna-se um intermédio para a prática suicida e, associada a um fenômeno virtual, pouco se sabe em relação às estratégias para lidar com essa questão. Além disso, há outros aspectos que podem potencializar as chances de o adolescente cometer suicídio: violência familiar, orientação sexual, abuso físico e sexual e perdas interpessoais. Sampasa-Kanyinga, Roumeliotis e Xu mencionam que os professores e pais devem ser treinados em relação às estratégias de prevenção, auxiliando-os a identificar sintomas ou mudanças comportamentais que possam estar relacionadas à depressão e ao suicídio.

Apesar dos conhecidos danos físicos e psíquicos, o cyberbullying é um tema que ainda necessita ser mais explorado, especialmente quanto às estratégias de enfrentamento em relação a esse fenômeno. Sabe-se que a conduta comumente utilizada pela vítima é a evitação, de diversos tipos: apagar mensagens desrespeitosas, bloquear o bully, ignorar emoções negativas, uso de substâncias, fingir que não se importa com essa problemática e, por fim, desabafar com amigos (quando o indicado é o acompanhamento com um profissional da área de saúde mental). Parris, Varjas e Meyers mencionam, em seu estudo, que a escuta de estudantes trouxe as seguintes sugestões destes no combate ao cyberbullying -, buscar um serviço de prevenção, treinamento de pais e professores em relação à tecnologia e ao cyberbullying e intervenções com maior ênfase no comportamento do estudante ao invés da restrição de tecnologia.

Por fim, Nixon ressalta que o impacto é significativo na saúde do adolescente, sendo uma problemática que pode ser considerada de atenção pública, relacionada a diversos tipos de adoecimentos. “É evidente que essas vítimas necessitam de suporte emocional, porém ainda estamos diante de um fenômeno silencioso e igualmente devastador.”

IGOR LINS LEMOS – é doutorando em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas.

E-mail: igorlemos87@hotmail.com