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ME SINTO SÓ

Uma pesquisa mostra que, com a vida social limitada, a solidão bateu forte em uma grande parcela dos brasileiros. A boa notícia é que eles estão lutando contra a angústia e se reinventando.

Aquela sensação de casa silenciosa, vazia, onde o solitário morador vive em seu próprio palácio, com a liberdade no sentido mais pleno, é uma ideia que encanta as novas gerações mundo afora. Tanto assim que a cada ano cresce o número de domicílios com um único residente, fenômeno global impulsionado pela busca da individualidade, uma marca desses tempos. Mas eis que veio a pandemia e abalou os pilares, fazendo com que uma parcela desses seres independentes, agora forçados ao isolamento, se visse pela primeira vez mergulhada na mais pura solidão. Com a rotina social restrita, abriu-se uma fresta para o vácuo, o que obrigou os assolados por essa condição humana a olhar para si mesmos como nunca antes. Desencadeou-se então, para muitos, um processo de autoconhecimento que o poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) definiu como oportunidade: “Quem não sabe povoar sua solidão também não saberá ficar sozinho em meio à multidão”, escreveu.

O grupo dos que vêm experimentando a solidão na pandemia não é pequeno nem localizado em um ponto especifico do globo. Segundo uma pesquisa internacional do Instituto lpsos, realizada em 28 países com o objetivo de aferir os impactos da crise na vida das pessoas, encontram-se solitários por toda parte. Em nenhum lugar, porém, eles são tão incidentes quanto no Brasil, onde a metade dos entrevistados declarou ser frequentemente acometida por esse sentimento – seguido de Turquia (46%) e Índia (43%). Uma explicação para a dianteira brasileira tem a ver com o perfil expansivo e sociável de seu povo, algo que remete às raízes da própria identidade nacional. “Perder esse contato humano pode acabar desestruturando as pessoas em um país onde ele é tão intenso”, afirma a psicóloga Paula Peron, da PUC de São Paulo. Mais um fator conspira para exacerbar a solidão em uns cantos do planeta e atenuá-la em outros. “Nos países que apresentam uma melhor gestão da pandemia, a população se vê mais amparada, portanto, menos solitária”, avalia Marcos Calliari, CEO do lpsos. É o caso de holandeses e alemães, entre os últimos no ranking dos que se sentem sós (veja o quadro abaixo).

Para seguir adiante sem a vida de encontros de antes, seja no trabalho, seja entre amigos, a turma do eu ­ sozinho começou a traçar estratégias de sobrevivência. Em um primeiro momento, a estudante de arquitetura Júlia Grangeiro, 21 anos, que havia recém-concretizado o sonho de sair da casa dos pais, regressou ao ninho para escapar do isolamento em tempo integral. Conforme a situação se esticava, porém, ela achou que era hora de voltar a seu apartamento, em Copacabana, no Rio de Janeiro. “Sempre me vi preenchida por amizades e a vida social fora de casa, mas, de repente, me senti sem afeto e isso me fez muito mal”, conta Júlia, que, como outros que vivem sós, diz que foi aprendendo a direcionar os ventos a seu favor. Riscou um projeto de reforma para seu imóvel, renovando o quintal, e matriculou-se na natação, uma chacoalhada nos hábitos que ganha escala e faz mover vários setores da economia. Em plena crise, a venda de livros, por exemplo, subiu 20 % nos primeiros meses do ano, enquanto a indústria do bem-estar deve crescer 10%, segundo as projeções.

A solidão em seu sentido mais profundo e dolorido, aquela que ataca a alma, deve ser combatida com todo o empenho, sustentam os especialistas. Ela está associada a stress, ansiedade, depressão e outros transtornos que avançaram na pandemia. Um estudo recente da University College de Londres, na Inglaterra, indica que uma saída para começar a romper com a angústia do isolamento é buscar o calor humano mesmo a distância, em videoconferências ou no velho e bom smartphone. “A privação da convivência produz no cérebro o mesmo tipo de resposta biológica da falta prolongada de alimentos”, compara a psicóloga Julianne Holt-Lunstad, da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos. O produtor cultural Jomas Monteiro, 50 anos, experimentou na pele a alteração fisiológica desencadeada pelo cenário pandêmico: ficou sem emprego, sem namorada e, com diagnóstico de depressão, brigou para não se afundar no poço da solidão – e conseguiu. “Ingressei em um curso de marketing digital para me atualizar e até pão aprendi a fazer”, orgulha-se da reviravolta.

Ao encarar a solidão e enxergá-la de forma menos pessimista e mais produtiva, as pessoas a transformam em “solitude”, termo de origem anglo-saxã absorvido pelos dicionários da psicologia. Em bom português, é como fazer do limão uma limonada. “A atividade intelectual, a religião, a prática esportiva são maneiras de preencher as lacunas abertas pela ausência do convívio, já que funcionam como uma janela para o mundo exterior”, afirma o psicólogo Rafael Baioni, autor de uma tese de doutorado sobre o tema. Grandes nomes da história egressos das mais diversas áreas deixaram exemplos contundentes de como extrair da solidão combustível para a engenhosidade humana. Precursor do expressionismo, o pintor norueguês Edvard Munch estava solitário e se recuperando da gripe espanhola, no início do século XX, quando arranjou forças para produzir a famosa tela Autorretrato com Gripe Espanhola, inspirado na própria convalescença. Antes dele, em meio a uma epidemia de peste bubônica que tomou Londres no século XVII, William Shakespeare também isolou-se e veio a reaparecer para o mundo com algumas de suas obras-primas (veja este e mais exemplos no final do post).

Uma leitura da obra do psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981) lança luz sobre caminhos para espantar o mal da solidão – e ele passa pela busca de atividades que conversem com “o imaginário e o simbólico” de cada um. Em suma, é achar algo que realmente desperte o interesse e soe renovador. Podem ser iniciativas bastante simples, dentro do plano do possível, como relata o professor de teatro Rene do Amaral, 51 anos, que encontrou nas artes diversão constante e alimento para o cérebro. Ele ouve música, lê uma montanha de livros, vê filmes sem parar – e tem passado bons momentos consigo mesmo imerso nesse rico universo. “A quarentena me provou que cultura e artesão como o oxigênio”, diz ele, que, aliás, já não se sente mais tão só. Na verdade, em sua reclusão, o professor anda é muito bem acompanhado.

ISOLADOS E PRODUTIVOS

Grandes figuras da história se viram às voltas coma clausura e a solidão e conseguiram converter os tempos sombrios em alimento para a inventividade nas mais diversas áreas

WILLIAM SHAKESPEARE (1564-1616)

A peste bubônica assolava Londres e o escritor Inglês teve de cumprir um rigoroso lockdown. Desse período, deixou como legado para a humanidade as obras-primas Rei Lear e Macbeth

ISAAC NEWTON (1642-1727)

Em outro surto de peste bubônica, o cientista inglês se viu recluso e passava o tempo brincando com uns prismas. Extraiu daí ideias para suas primeiras teorias no campo da óptica

FRIDA KAHLO (1907-1954)

Após sobreviver a um acidente de ônibus, aos 18 anos, a pintora mexicana não podia nem sair da cama. Descobriu as artes e produziu, deitada, um de seus famosos autorretratos

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.