EU ACHO …

EU TOMO CONTA DO MUNDO

Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar, e vejo às vezes que as espumas parecem mais brancas e que às vezes durante a noite as águas avançaram inquietas, vejo isso pela marca que as ondas deixaram na areia. Olho as amendoeiras de minha rua. Presto atenção se o céu de noite, antes de eu dormir e tomar conta do mundo em forma de sonho, se o céu de noite está estrelado e azul-marinho, porque em certas noites em vez de negro parece azul-marinho. O cosmos me dá muito trabalho, sobretudo porque vejo que Deus é o cosmos. Disso eu tomo conta com alguma relutância.

Observo o menino de uns dez anos, vestido de trapos e macérrimo. Terá futura tuberculose, se é que já não a tem.

No Jardim Botânico, então, eu fico exaurida, tenho que tomar conta com o olhar das mil plantas e árvores, e sobretudo das vitórias-régias.

Que se repare que não menciono nenhuma vez as minhas impressões emotivas: lucidamente apenas falo de algumas das milhares de coisas e pessoas de quem eu tomo conta. Também não se trata de um emprego pois dinheiro não ganho por isso. Fico apenas sabendo como é o mundo.

Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. E lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas encostas acima. Observo em mim mesma as mudanças de estação: eu claramente mudo com elas.

Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida. E sou responsável por tudo o que existe, inclusive pelas guerras e pelos crimes de leso-corpo e lesa-alma. Sou inclusive responsável pelo Deus que está em constante cósmica evolução para melhor.

Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas: elas andam em fila indiana carregando um pedacinho de folha, o que não impede que cada uma, encontrando uma fila de formigas que venha de direção oposta, pare para dizer alguma coisa às outras.

Li o livro célebre sobre as abelhas, e tomei desde então conta das abelhas, sobretudo da rainha-mãe. As abelhas voam e lidam com flores: isto eu constatei.

Mas as formigas têm uma cintura muito fininha. Nela, pequena como é, cabe todo um mundo que, se eu não tomar cuidado, me escapa: senso instintivo de organização, linguagem para além do supersônico aos nossos ouvidos, e provavelmente para sentimentos instintivos de amor-sentimento, já que falam. Tomei muito conta das formigas quando era pequena, e agora, que eu queria tanto poder revê-las, não encontro uma. Que não houve matança delas, eu sei porque se tivesse havido eu já teria sabido. Tomar conta do mundo exige também muita paciência: tenho que esperar pelo dia em que me apareça uma formiga. Paciência: observar as flores imperceptivelmente e lentamente se abrindo.

Só não encontrei ainda a quem prestar contas.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

ME SINTO SÓ

Uma pesquisa mostra que, com a vida social limitada, a solidão bateu forte em uma grande parcela dos brasileiros. A boa notícia é que eles estão lutando contra a angústia e se reinventando.

Aquela sensação de casa silenciosa, vazia, onde o solitário morador vive em seu próprio palácio, com a liberdade no sentido mais pleno, é uma ideia que encanta as novas gerações mundo afora. Tanto assim que a cada ano cresce o número de domicílios com um único residente, fenômeno global impulsionado pela busca da individualidade, uma marca desses tempos. Mas eis que veio a pandemia e abalou os pilares, fazendo com que uma parcela desses seres independentes, agora forçados ao isolamento, se visse pela primeira vez mergulhada na mais pura solidão. Com a rotina social restrita, abriu-se uma fresta para o vácuo, o que obrigou os assolados por essa condição humana a olhar para si mesmos como nunca antes. Desencadeou-se então, para muitos, um processo de autoconhecimento que o poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) definiu como oportunidade: “Quem não sabe povoar sua solidão também não saberá ficar sozinho em meio à multidão”, escreveu.

O grupo dos que vêm experimentando a solidão na pandemia não é pequeno nem localizado em um ponto especifico do globo. Segundo uma pesquisa internacional do Instituto lpsos, realizada em 28 países com o objetivo de aferir os impactos da crise na vida das pessoas, encontram-se solitários por toda parte. Em nenhum lugar, porém, eles são tão incidentes quanto no Brasil, onde a metade dos entrevistados declarou ser frequentemente acometida por esse sentimento – seguido de Turquia (46%) e Índia (43%). Uma explicação para a dianteira brasileira tem a ver com o perfil expansivo e sociável de seu povo, algo que remete às raízes da própria identidade nacional. “Perder esse contato humano pode acabar desestruturando as pessoas em um país onde ele é tão intenso”, afirma a psicóloga Paula Peron, da PUC de São Paulo. Mais um fator conspira para exacerbar a solidão em uns cantos do planeta e atenuá-la em outros. “Nos países que apresentam uma melhor gestão da pandemia, a população se vê mais amparada, portanto, menos solitária”, avalia Marcos Calliari, CEO do lpsos. É o caso de holandeses e alemães, entre os últimos no ranking dos que se sentem sós (veja o quadro abaixo).

Para seguir adiante sem a vida de encontros de antes, seja no trabalho, seja entre amigos, a turma do eu ­ sozinho começou a traçar estratégias de sobrevivência. Em um primeiro momento, a estudante de arquitetura Júlia Grangeiro, 21 anos, que havia recém-concretizado o sonho de sair da casa dos pais, regressou ao ninho para escapar do isolamento em tempo integral. Conforme a situação se esticava, porém, ela achou que era hora de voltar a seu apartamento, em Copacabana, no Rio de Janeiro. “Sempre me vi preenchida por amizades e a vida social fora de casa, mas, de repente, me senti sem afeto e isso me fez muito mal”, conta Júlia, que, como outros que vivem sós, diz que foi aprendendo a direcionar os ventos a seu favor. Riscou um projeto de reforma para seu imóvel, renovando o quintal, e matriculou-se na natação, uma chacoalhada nos hábitos que ganha escala e faz mover vários setores da economia. Em plena crise, a venda de livros, por exemplo, subiu 20 % nos primeiros meses do ano, enquanto a indústria do bem-estar deve crescer 10%, segundo as projeções.

A solidão em seu sentido mais profundo e dolorido, aquela que ataca a alma, deve ser combatida com todo o empenho, sustentam os especialistas. Ela está associada a stress, ansiedade, depressão e outros transtornos que avançaram na pandemia. Um estudo recente da University College de Londres, na Inglaterra, indica que uma saída para começar a romper com a angústia do isolamento é buscar o calor humano mesmo a distância, em videoconferências ou no velho e bom smartphone. “A privação da convivência produz no cérebro o mesmo tipo de resposta biológica da falta prolongada de alimentos”, compara a psicóloga Julianne Holt-Lunstad, da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos. O produtor cultural Jomas Monteiro, 50 anos, experimentou na pele a alteração fisiológica desencadeada pelo cenário pandêmico: ficou sem emprego, sem namorada e, com diagnóstico de depressão, brigou para não se afundar no poço da solidão – e conseguiu. “Ingressei em um curso de marketing digital para me atualizar e até pão aprendi a fazer”, orgulha-se da reviravolta.

Ao encarar a solidão e enxergá-la de forma menos pessimista e mais produtiva, as pessoas a transformam em “solitude”, termo de origem anglo-saxã absorvido pelos dicionários da psicologia. Em bom português, é como fazer do limão uma limonada. “A atividade intelectual, a religião, a prática esportiva são maneiras de preencher as lacunas abertas pela ausência do convívio, já que funcionam como uma janela para o mundo exterior”, afirma o psicólogo Rafael Baioni, autor de uma tese de doutorado sobre o tema. Grandes nomes da história egressos das mais diversas áreas deixaram exemplos contundentes de como extrair da solidão combustível para a engenhosidade humana. Precursor do expressionismo, o pintor norueguês Edvard Munch estava solitário e se recuperando da gripe espanhola, no início do século XX, quando arranjou forças para produzir a famosa tela Autorretrato com Gripe Espanhola, inspirado na própria convalescença. Antes dele, em meio a uma epidemia de peste bubônica que tomou Londres no século XVII, William Shakespeare também isolou-se e veio a reaparecer para o mundo com algumas de suas obras-primas (veja este e mais exemplos no final do post).

Uma leitura da obra do psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981) lança luz sobre caminhos para espantar o mal da solidão – e ele passa pela busca de atividades que conversem com “o imaginário e o simbólico” de cada um. Em suma, é achar algo que realmente desperte o interesse e soe renovador. Podem ser iniciativas bastante simples, dentro do plano do possível, como relata o professor de teatro Rene do Amaral, 51 anos, que encontrou nas artes diversão constante e alimento para o cérebro. Ele ouve música, lê uma montanha de livros, vê filmes sem parar – e tem passado bons momentos consigo mesmo imerso nesse rico universo. “A quarentena me provou que cultura e artesão como o oxigênio”, diz ele, que, aliás, já não se sente mais tão só. Na verdade, em sua reclusão, o professor anda é muito bem acompanhado.

ISOLADOS E PRODUTIVOS

Grandes figuras da história se viram às voltas coma clausura e a solidão e conseguiram converter os tempos sombrios em alimento para a inventividade nas mais diversas áreas

WILLIAM SHAKESPEARE (1564-1616)

A peste bubônica assolava Londres e o escritor Inglês teve de cumprir um rigoroso lockdown. Desse período, deixou como legado para a humanidade as obras-primas Rei Lear e Macbeth

ISAAC NEWTON (1642-1727)

Em outro surto de peste bubônica, o cientista inglês se viu recluso e passava o tempo brincando com uns prismas. Extraiu daí ideias para suas primeiras teorias no campo da óptica

FRIDA KAHLO (1907-1954)

Após sobreviver a um acidente de ônibus, aos 18 anos, a pintora mexicana não podia nem sair da cama. Descobriu as artes e produziu, deitada, um de seus famosos autorretratos

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 07 DE MAIO

QUANDO O RISO É TEMPERADO COM A DOR

Até no riso tem dor o coração, e o fim da alegria é tristeza (Provérbios 14.13).

Certa feita eu estava pregando em um congresso de médicos, e uma sorridente enfermeira que nos recepcionava no encontro me perguntou após uma palestra: “O senhor está vendo este meu belo sorriso?” Respondi-lhe: “É impossível deixar de ver”. Então, ela continuou: “É uma mentira. Por trás desse sorriso carrego um coração sofrido e doente”. Muitos indivíduos abrem os lábios para cantar, mas o coração está esmagado pela dor. A dor é uma companheira inseparável, que pulsa em nossa alma e lateja em nosso coração até mesmo quando abrimos um sorriso em nossa face. O patriarca Jó certa vez disse: Se eu falar, a minha dor não cessa; se me calar, qual é o meu alívio (Jó 16.6). O sorriso pode esconder a tristeza; pois, quando a felicidade vai embora, a tristeza já chegou. Nossa jornada na terra é marcada pela dor e pelo sofrimento. Aqui choramos e sangramos. Entramos no mundo chorando e não raras vezes saímos dele com dor no coração. Entre a entrada e nossa saída, a alegria muitas vezes é interrompida pelas perdas, pela doença e pelo luto. Mas haverá um dia em que Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima. Então não haverá mais pranto nem luto nem dor.

GESTÃO E CARREIRA

RESPOSTAS PARA SUAS DÚVIDAS SOBRE TRABALHO, FAMÍLIA E COVID-19

Conselhos de especialistas sobre como cuidar de si mesmo, lidar com a incerteza e culpa.

No início da pandemia, quando meu marido e eu estávamos começando a trabalhar em casa e ao mesmo tempo cuidando de nosso filho na pré-escola e do bebê e procurávamos ter um estoque de leite, ovos e lenços umedecidos para manter todos alimentados e seguros, eu comecei a usar um e-mail de resposta automática para alertar meus contatos de que eu poderia não estar disponível imediatamente como costumava estar.

No começo era uma mensagem genérica dizendo que as respostas poderiam atrasar. Mas à medida que a pandemia avançava, manter todas as atividades funcionando ficava cada vez mais complicado, então comecei a usar o espaço para entender a estranheza de trabalhar a paternidade/maternidade durante a pandemia. E, por isso, se você me enviou um e-mail, você ouviu falar de meu filho de quatro anos com fobia a cachorros anos implorando que lhe desse cinco filhotes no aniversário, ou chamando minha nova cadeira giratória de “assento cheio de frescura”, ou se referindo muito habilmente à nossa casa como “casa divertida”.

”Agora a vida está bem estranha”, é como eu encerro cada mensagem automática. “Por favor, tenha paciência comigo”. Foi uma súplica, – na verdade, um grito – para as pessoas saberem que não havia nada normal na forma como minha vida havia mudado da noite para o dia. A alegria dessas mensagens era o fato de eu receber retorno de tantos colegas: “sim, exatamente isso”. Seguido muito de perto por, “mas falando sério – como vocês estão se virando com a escola/trabalho/gestão do tempo/culpa/etc.?”

Sinceramente, eu não tinha – e ainda não tenho – a menor ideia. Na maior parte do tempo, preencher uma atribuição e acordar no dia seguinte para fazer tudo de novo são conquistas bem grandes. Mas eu posso, nós podemos fazer melhor? Será que podemos? Para descobrir, perguntamos a pais do mundo todo que trabalham fora (falando figurativamente, pelo menos) de casa: O que é mais difícil nesse momento? No que você precisou de ajuda? As respostas a seguir foram coletadas e organizadas por tema:

  • Cuidando de si
  • Lidando com interrupções Demissões e caçando talentos
  • O que as crianças estão aprendendo sobre o trabalho
  • Lidando com a incerteza e a culpa

Depois apresentamos essas questões a um júri de especialistas para obter algumas respostas. Entre os participantes estavam:

JULIA BECK, fundadora e CEO do lt’s Working Project

AMBER COLEMAN-MORTLEY, diretora de envolvimento social da iCivics, e podcaster de Let’s K12 Better

BRAD HARRINGTON, diretor do Center for Work & Family, do Boston College

BECKY KENNEDY, psicóloga clínica, @drbeckyathome no Instagram

LAILA TARRAF, diretora de pessoas, Allbirds

A via agora é estranha, todos eles afirmaram. Mas mostramos aqui como sobreviver (as dúvidas e conselhos foram editados para maior clareza).

1. CUIDANDO DE SI

Antes da pandemia, havia muita pressão para os pais serem funcionários perfeitos e mães e pais mágicos. Agora, a pressão é ainda maior. Não é só postar um quadro das fantasias de Halloween no Pinterest, é também estar no comando das tarefas escolares, preparando o almoço e snacks todos os dias, se preocupando com o que o isolamento social está causando a seu bebê de dois anos ou ao filho que está no ensino médio, o tempo todo participando de chamadas de vídeo e do afastamento de colegas.

Há também mais tensão no trabalho, entre interrupções comuns, perdas de emprego verdadeiras ou ameaças, e cronogramas irregulares. É isso que ouvimos dos leitores mais que qualquer outra coisa. Como colocou sucintamente Nedra Hutton, de Round Rock, Texas: como se manter mentalmente são? Eu me sinto como se estivesse falhando em tudo.

Na índia, um leitor anônimo escreveu: minha empresa está dispensando funcionários no mundo todo. E se isso acontecer comigo? Isso me preocupa tanto que eu me privo de horas de sono para me dedicar o máximo possível ao meu trabalho porque não quero prejudicar meu filho de dois anos privando-o do tempo que ele merece. Então eu ouço todos recomendarem fazer exercícios físicos e cuidar da saúde. Tudo isso é tão assustador.

Eu sinto muita empatia por esses dois leitores. Há tanto a fazer e tanta preocupação incorporada em tudo. O que podemos fazer?

BECKY KENNEDY:

PRIMEIRO, comece dedicando a si mesmo uma dose horária de compaixão.

A autocompaixão tem o poder de transformar nossas preocupações do intolerável para o ainda difícil, mas tolerável. De hora em hora, pare o trabalho, coloque seus pés no chão e uma mão no coração, e repita o mantra: “este é um momento realmente difícil para ser pai/mãe. Estou fazendo o melhor que posso. Estou fazendo o suficiente. Eu sou suficiente”.

SEGUNDO, pense em pequenas doses de cuidados pessoais. Isso pode significar um banho de ducha especial, três minutos de meditação, ou uma caminhada de 10 minutos sozinha, como seus dias são extremamente exaustivos, seu corpo precisa se recuperar. Respeite essa necessidade.

AMBER COLEMAN-MORTLEY:

Quando você está sentindo o caos girar à sua volta, feche os olhos por alguns minutos e inspire e expire. Eu me pego repetindo a “oração da serenidade” em meus momentos de ansiedade. Ajuda. Eu também tento me lembrar de que havia uma pressão enorme sobre pais que trabalham para cumprir os padrões irrealistas mesmo antes da Covid-19. Você pode romper essa pressão focando em rotinas baseadas em bem-estar, gratidão, e cuidado pessoal. De quais rituais, hábitos ou valores irrealistas você pode abrir mão? É do jantar todas as noites às 18 horas? Ou ir dormir impreterivelmente às 20 horas? Você é capaz de abdicar de um pouco da rigidez da rotina com rituais viáveis como discussões em família, mais abraços, melhores hábitos alimentares, jogar à noite com a família, horário de dormir flexível, ou ler por prazer?

LAILA TARRAF:

Vamos tentar dar um pouco de folga uns aos outros. As linhas que dividem trabalho e família se misturaram, o que exige que todos nós – funcionários e empregadores – devemos estabelecer limites mais fortes e praticar os cuidados pessoais de forma mais consciente.

Na Allbirds, continuamos a encorajar a flexibilidade para todos os funcionários, mas principalmente os pais que trabalham com filhos pequenos em casa. Nós interditamos os horários entre 8 e 9 horas da manhã para garantir que os pais possam fazer as crianças se organizarem pela manhã, e em uma tarde por semana não marcamos nenhuma reunião. Tentamos encorajar nossos pais a bloquear suas agendas durante o dia quando eles precisam dar atenção a seus filhos. Isso pode ser uma hora no almoço ou trinta minutos às 15 horas, quando as crianças saem da escola, ou às 16 ou 17 horas quando as crianças querem sair e brincar.

No entanto, as empresas não podem criar limites sadios para as pessoas, portanto, cabe a cada um de nós, determinar o que é necessário fazer para cuidar de nós mesmos. Os cuidados pessoais vêm em várias formas e tamanhos e se você tiver a capacidade, tempo e motivação para pular em seu Peloton ou ir correr, então ótimo. E se todos puderem dispor desse momento é hora de dar uma boa respirada, fechar os olhos e sair do computador, reservar pausas durante o dia para se alongar, ou fazer uma caminhada – isso também é ótimo.

2. LIDANDO COM AS INTERRUPÇÕES

Provavelmente, todos nós já participamos de uma videoconferência ou uma reunião por vídeo em que uma criança “apareceu de repente”. Nossos leitores perguntaram como lidar com esse tipo de interrupção, que pode ser momentaneamente engraçadinho, mas pode ter impactos de longo prazo.

Vineeta, de Mumbai perguntou: Por causa da pandemia, estou trabalhando em casa com um bebê de um ano cuja alimentação e outras necessidades não podem ser postergadas ou pré-planejadas. Em minha empresa, trabalhar remotamente não era a norma antes da pandemia. Como não ser interpretada como pouco profissional se eu interromper ou adiar uma ligação por uma necessidade urgente do bebê? Seria melhor ser sincera sobre os motivos, ou eu seria considerada uma pessoa em quem não se pode confiar?

Andria, de Centreville, Virgínia, também quer saber como lidar com as interrupções: como posso ser produtiva mesmo sendo interrompida e monitorando as crianças constantemente o dia todo? Meu foco está mudando a cada 30 minutos, e está provocando um verdadeiro colapso de atenção. Algum conselho?

JULIA BECK:

O colapso de atenção que você descreve é bem real, e prejudicial. Todos nós precisamos de tempo para pensar, idealizar e processar. Trabalhar em um espaço que também é escola, lavanderia e restaurante (só para mencionar alguns), é inviável. Minha resposta direta é encontrar um local onde você não pode e não quer ser interrompida. Eliminar todas as variáveis sempre presentes melhora a produtividade e protege sua saúde mental e bem-estar.

AMBER COLEMAN-MORTLEY:

A comunicação com seu supervisor e sua equipe é fundamental. Seja claro sobre suas necessidades e exija clareza em relação a eles, depois passe um tempo desenvolvendo uma estratégia que possa apoiar melhor a todos, e de forma equitativa. Existem pequenas manobras que podem ajudar, como por exemplo, desligar a câmera e o som até ser absolutamente necessário ligá-los?

Leia o manual do funcionário para ver como ele trata das necessidades dos pais. Você está utilizando os serviços e políticas disponíveis? Há espaço para a criatividade em relação a horários de trabalho? Como os outros pais que trabalham estão administrando a vida nesse momento, e é possível criar um grupo de apoio onde você compartilha as melhores práticas, dicas e mecanismos de enfrentamento? Se você não dispuser de um grupo de apoio no trabalho, procure sua indústria no Facebook. Há vários grupos que você pode participar para obter apoio.

Finalmente, pense em como gerenciar a disponibilidade de sua agenda. Bloqueie alguns períodos de cada semana para evitar que reuniões aleatórias sejam marcadas em horários inoportunos.

3. DIVIDINDO A CARGA EM CASA

Eu realmente amo/odeio essa pergunta de um leitor anônimo de Londres, que escreveu sobre as expectativas de gênero de empregadores e colegas em relação a cuidar das crianças: minha esposa desempenha uma atividade muito similar à minha. Na verdade, ela ocupa uma posição mais sênior. Quando estou participando de uma chamada por vídeo e preciso terminar antes, ou acomodar meu horário para cuidar das crianças, me perguntaram várias vezes, “o que sua esposa está fazendo?” ou “sua esposa não pode fazer isso?”

É frustrante ouvir que isso está acontecendo, embora saibamos que as mães assumem a assistência aos filhos durante a maior parte do tempo. O que as pessoas, como esse pai, podem fazer numa situação dessas?

BRAD HARRINGTON:

Está na hora de os homens enfrentarem preconceitos de gênero ultrapassados como esse. Nossa pesquisa no Center for Work & Families, do Boston College, mostrou que os pais são mais suscetíveis que as mães em atender as ideias organizacionais sobre o que se espera deles no trabalho – sejam elas sinalizadas pelos colegas ou pelas percepções dos homens sobre o que significa comportamento “apropriado” em suas empresas.

Em qualquer caso, os homens precisam avançar e ser aliados sinceros. Converse com seu parceiro para tomar as decisões certas para sua família e exponha suas convicções claramente para seus colegas. Ao fazer isso, você também estará contribuindo para maior igualdade de gênero.

BECKY KENNEDY:

Eu adoro a ideia de Kasia Urbaniak de responder questões inapropriadas com uma pergunta como uma forma de mudar a narrativa e estimular a dinâmica na relação. Eu penso que, para ser verdadeiramente impactante e eficiente, o pai aqui pode dizer algo como, “por que você pensa que minha esposa deveria fazer isso e não eu? ou “o que faz você pensar que eu não participo equitativamente das obrigações em casa?”. Isso realmente funciona porque força o interlocutor a enfrentar seus estereótipos.

4. DEMISSÕES E CAÇA TALENTOS

Ouvimos vários leitores que perderam o emprego durante a pandemia. Um deles, Lisa Eisensmith, de Lancaster, Nova York, perguntou: eu fui dispensada de meu emprego em tempo integral no final de julho. Eu tenho dois filhos em idade escolar e eles estão num sistema de aprendizado de meio período presencial e meio período virtual. Enquanto isso, estou procurando um novo emprego. Como abordar a situação em uma entrevista? Se eu conseguir o emprego, como abordar a situação da escola com o novo empregador?

Ouvimos também leitores que estão preocupados com os empregos e as empresas onde trabalham devido às suas responsabilidades de pai/mãe. Um leitor anônimo de Dallas, Texas, escreveu: nós organizamos nossas vidas para que o trabalho sempre tivesse prioridade máxima, mandamos nossos filhos para a escola e providenciamos assistência pós-escola para não interromper nosso dia de trabalho. Agora somos forçados a dividir nossa fidelidade à medida que as demandas de escola online e o trabalho virtual estão mais intensos que nunca. Estou preocupado porque as empresas podem querer priorizar a contratação e promoção de funcionários que não têm filhos e deixar de fora os que têm.

Essas duasquestões realmente atingem o ponto central de como a criação dos filhos e o trabalho mudaram tão violentamente, enquanto que as próprias empresas (e suas normas e prioridades) talvez não tenham mudado tanto. Como você administraria esse conflito?

LAILA TARRAF:

Poucas empresas consideram funcionários que são pais menos desejáveis que os não pais. A Covid acabará desaparecendo e eu acredito que a maioria das empresas tem uma visão de prazo mais longo.

Ao ser entrevistada para um emprego, não creio que deva esconder sua situação de maternidade, principalmente se seu trabalho começar sendo remoto. Talvez você possa abordar o assunto com possíveis empregadores perguntando que práticas e protocolos eles adotam atualmente. A maioria das empresas precisou adequar sua forma de trabalhar, portanto, fazer perguntas sobre expectativas e como os atuais funcionários estão conciliando família e trabalho lhe dará uma ideia se a empresa é uma boa opção para você.

JULIA BECK:

Trabalhar – durante a pandemia ou não -, requer foco total e capacidade de ativar a criatividade sem limitação ou ansiedade. O ambiente geral de sua casa pode não ser ideal para você começar a procurar emprego ou participar de uma reunião importante, mas você pode encontrar ou criar momentos quando isso acontecer?

Por exemplo, Peggy, executiva de uma fintech sediada em San Francisco, me revelou que seu ponto de partida para procurar emprego era seu carro estacionado em um local tranquilo no Embarcadero onde ela podia trabalhar duas ou três horas por dia. Quando ela conseguiu um emprego, ela firmou contratos de baixo custo para encontrar o espaço de que precisava longe dos filhos, enquanto ela se estabelecia em sua nova organização (o apartamento vazio de um amigo, por exemplo, ou um Airbnb a bom preço). No final, ela encontrou uma forma de trabalhar no quintal de sua casa.

Muitas pessoas podem se surpreender pela forma como a flexibilidade introduzida pela Covid se tornará norma. Neste contexto, o leitor que escreveu sobre organizar a assistência aos filhos e seu horário de trabalho sem interrupção poderia começar a pensar em como seria organizar a assistência aos filhos e conciliar as necessidades da família. Elas podem pensar que seus gestores e suas empresas estão, na maior parte, entendendo. Afinal, quando os funcionários encontram formas de se comprometer criativamente, os empregadores também se comprometem.

5. O QUE AS CRIANÇAS ESTÃO APRENDENDO SOBRE O TRABALHO

Havia uma linha interessante nas respostas sobre como as crianças estão vivenciando o trabalho neste exato momento.

Eu realmente sofri um impacto com esses dois comentários. O primeiro é de Roxana Contreras, de Lima, Peru: percebi que meu filho (de três anos) está associando “ter de trabalhar” com “momento triste”, mesmo quando eu digo a ele que amo o que faço. Ele só quer brincar, e é difícil para ele entender que mamãe e papai não podem brincar sempre que ele quer.

Derya, de Dubai, fez uma pergunta parecida: minha filha percebe que quando estou trabalhando, estou estressada, infeliz, ansiosa. Constantemente me culpando por não ser capaz de esconder minhas emoções e que eu respondo irritadamente toda vez que ela entra na sala e eu estou numa ligação. Estou preocupada que ela possa associar trabalho a infelicidade ou stress ou raiva. Como controlar minhas emoções? Estou ensinando a ela que trabalhar é desagradável?

AMBER COLEMAN-MORTLEY:

Para qualquer criança pequena, trabalho ou qualquer atividade que não as envolva parece um obstáculo. Três anos é uma idade difícil para aprender como esperar e respeitar o tempo e o espaço dos outros, mas, no entanto, é possível e importante.

Meu conselho é estabelecer um prazo limite e pedir que seu filho volte a ver como você está ou lhe dê um abraço quando esse prazo terminar. Às vezes, crianças muito pequenas só querem proximidade. Se possível crie espaço para seu filho pequeno trabalhar ao seu lado com um tablet durante um determinado período.

Emrelação às emoções negativas associadas ao trabalho, a questão mais importante é: qual é o sentido do trabalho em sua vida e para sua família?

Você precisa reconciliar isso antes de conversar com seu filho. À medida que as crianças crescem, devemos conversar sobre esses assuntos e explicar que é com o trabalho que sustentamos nossa família financeiramente. Se você ama o que faz, compartilhe essa alegria com seu filho. Se você não está gostando do trabalho, repense em como você corre atrás das paixões e alegrias da vida em qualquer lugar.

BECKY KENNEDY:

Em vez de ser realmente bom em fazer as coisas certas logo na primeira vez, tenha por meta ser realmente bom em corrigir. Isso significa que em vez de dizer a si mesma, “não vou gritar com meu filho hoje”, diga, “se eu gritar com meu filho hoje, vou me corrigir”. Aqui está um exemplo do que pode ser um bom conserto: “oi, meu amor. Hoje mais cedo eu gritei com você. Você estava certo ao perceber isso e estou certa deque você se sentiu mal. Exatamente como você, às vezes, sente forte emoções, mamãe também as sente e estou tentando manter acalma mesmo quando estou tendo um dia difícil. Eu te amo muito”.

6. QUANDO A CULPA CORRE SOLTA.

Vários leitores perguntaram como lidar com a culpa. Andrew, de Orlando, Florida, escreveu sobre a culpa que ele sente em mandar seu filho para a escola quando ele acredita não ser seguro. Laura, de Alberta, Canadá, escreveu sobre a culpa que sente por saber o que seus filhos estão perdendo durante a pandemia.

Outros escreveram sobre sentirem-se pessoalmente culpados ao tomar uma decisão de sair do emprego para administrar as tarefas domésticas.

Várias outras respostas repetiram os sentimentos deste leitor anônimo de Ashburn, Virgínia, que escreveu: Há uma sensação constante de culpa nos malabarismos entre ter um emprego exigente em tempo integral e conseguir tempo para cuidar dos filhos, o que finalmente nos faz ser 200 % no trabalho e em casa e isso é extremamente cansativo mentalmente.

Eu sinto muito isso. O que podemos fazer com esses sentimentos de culpa? O que eles significam? É possível não se sentir culpado exatamente neste momento?

BECKY KENNEDY:

É importante ter em mente que quando o mundo muda, precisamos mudar. Bem, na verdade, fazemos uma coisa mais complexa: nós nos adaptamos. A adaptação é o processo pelo qual um organismo consegue se ajustar melhor ao seu ambiente. Se você está tomando decisões diferentes sobrea criação dos filhos das que tomou meses atrás, é um sinal de sua capacidade de se adaptar. É um sinal de força, e ele é necessário para a sobrevivência.

BRAD HARRINGTON:

Dadas as atuais circunstâncias, culpa é a última coisa que qualquer um de nós deveria estar sentindo. Nossa empresa precisa de nós, mas nossos filhos também e, muitas vezes, suas necessidades são mais urgentes – e, sinceramente, no longo prazo, mais importantes.

Nunca houve uma oportunidade mais importante para mostrar compreensão e empatia por aqueles que estão em situação difícil. Gestores e organizações precisam oferecer condições de trabalho flexíveis sempre que for possível. Isso inclui trabalhar em casa se as crianças não puderem ficar na creche ou na escola. Talvez seja impossível trabalhar de segunda a sexta, das 9 às 17 horas neste exato momento, mas permitir que as pessoas gerenciem seu tempo de formas diferentes pode ajudar muito. Se você for afortunado e tiver um parceiro (a), esses arranjos podem permitir que os cônjuges se alternem durante a semana.

AMBER COLEMAN-MORTLEY:

Certamente frustraremos nossos filhos, haja pandemia ou não. Não importa quanto nosso trabalho exija de nós, nossos filhos ainda podem crescer e sentir que eles deveriam ter recebido mais um abraço, mais um brinquedo ou um sorriso. Essa é a realidade que todos os pais precisam aceitar.

Quando que você começa enfrentar os sentimentos de culpa, pode coloca-los no devido contexto. Explore o que está no cerne da culpa. Se você está tentando criar um mundo onde seu filho não sente dor nem desconforto, boa sorte. Isso é completamente insustentável para você e predispõe seu filho a expectativas irracionais do mundo e até de seu futuro cônjuge. Se sua culpa estiver ancorada em seu ego ou em como você mede seu valor, comece a explorar seu valor como uma constante do universo que não depende de você ter concluído um trabalho “com sucesso”.

7. LIDANDO COM A INCERTEZA

Uma leitora anônima de Boynton Beach, Florida, escreveu: meu filho teve Covid em abril. Felizmente ele sobreviveu. Ele cumpriu a quarentena em casa sendo que era só eu que cuidava dele. Sou mãe solteira sem nenhuma estrutura familiar de apoio. Preciso ser forte para meu filho, e serei, custe o que custar, mas quando estou sozinha com meus pensamentos me preocupo com todas as incertezas de nossas vidas. Como lidar com toda essa incerteza? Estou me esforçando, mas tudo depende de mim.

BECKY KENNEDY:

Este é um caso contundente para se discutir a ansiedade e a preocupação: a ansiedade surge da compreensão de nossa capacidade de enfrentar algumas incógnitas futuras.

Muitas vezes, tentamos superar a ansiedade enfrentando a incerteza – tentando planejar coisas e prever problemas. Mas como não podemos controlar o futuro, isso não funciona. Uma estratégia melhor é trabalhar nossas capacidades de enfrentamento e nossa estimativa de quanto elas serão eficientes. Na próxima vez que você sentir uma pontada de ansiedade, tente lidar com isso como uma conversa íntima: “eu posso enfrentar coisas difíceis, eu sempre as enfrentei e sempre as enfrentarei” ou “estou em condições de enfrentar isso se acontecer”. Lembre-se de sua resiliência.

LAILA TARRAF:

Quando percebo que estou entrando na toca do coelho, tento perceber o que está indo bem, e o que há para agradecer, mesmo que seja simplesmente ar puro e um teto sobre minha cabeça.

Se você estiver em um momento da vida no qual não pode conversar consigo mesma sobre ansiedade e não consegue confiar nos amigos ou familiares para ajudá-la, pense em procurar um profissional de saúde mental ou um grupo de apoio.

8. EVITANDO O RESSENTIMENTO

Uma leitora anônima de Washington, DC, escreveu: eu me orgulho de ser confiável e responsável por minha família, meus funcionários e os alunos que minha empresa atende e capaz de assumir diferentes papéis ao longo do dia. Essa pandemia me forçou a questionar tudo de que me orgulhei.

Não consigo ensinar minha filha de quatro anos a ler enquanto participo de um webinar via zoom. Não consigo ter uma conversa franca com um fundador se minha filha chora ao fundo. E não consigo manter a dieta prescrita pelo médico para minha família se faço as compras do supermercado online. Mas é isso que a pandemia espera de mim.

Tenho medo de ter um desempenho inferior a 100% no trabalho por temer perder nossa maior fonte de renda e nosso plano de saúde. Por isso, por necessidade, estou permitindo que minha vida familiar, a educação de meus filhos e nossa saúde sejam prejudicados, e pela primeira vez em minha vida adulta, eu me ressinto por ser uma mãe que trabalha.

AMBER COLEMAN-MORTLEY:

Ninguém está pretendendo tirar nota 10, nem ser promovido por ser “uma ótima mãe”. Apenas seja o melhor que você pode ser em um dado momento, que pode mudar ao longo do dia, da semana, do mês. Significa aceitar que “controle” não é mais uma meta da criação dos filhos. A meta deve ser crescer ou simplesmente sobreviver a esse dia.

AQUI ESTÃO ALGUMAS SUGESTÕES:

  •    Faça com que qualquer uma das crianças com idade suficiente ajude nas tarefas domésticas. Elas não executarão as tarefas que você delegar com perfeição, mas você terá de aprender a aceitar isso.
  •   Tente ser criativo no horário do estudo em casa. Membros da família – primos maiores, tios, tias e avós, ou amigos da família – podem passar 20 ou 30 minutos no Zoom ou no FaceTime lendo para sua filha de quatro anos?
  • Pense em como seus filhos se beneficiam por você ser um pai/mãe que trabalha. O que você pode ensinar a eles sobre amor, paciência e engenhosidade que são necessários para conciliar vida profissional e vida familiar.” Exclua mensagens e pessoas negativas de sua vida. As fotos perfeitas postadas no Pinterest ou Instagram estão alimentando seus sentimentos de inadequação ou imperfeição? Você tem o poder de parar de seguir, apertar o botão descartar, e desconectar quando as postagens forem de pessoas ou conteúdos desagradáveis.

Lembre-se que esse período representa somente uma pequena porcentagem de uma longa carreira e da linha de tempo familiar. Sim, ser pais e mães que trabalham é conflitante e imperfeito. Mas também é muito recompensador.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NOVOS DESAFIOS PARA A PSICOLOGIA

Nas últimas décadas a sociedade brasileira viu crescer o conceito de inclusão das pessoas com deficiência. Ações ganharam forças em todos os segmentos e isso também trouxe questionamentos sobre o papel dos psicólogos diante do novo cenário

As relações da Psicologia com as deficiências têm marco inicial e histórico em Lev Semenovich Vygostsky (1896-1934), quando esse pensador russo, em 1925, começou a organizar o Laboratório de Psicologia para Crianças Deficientes (transformado, em 1929, no Instituto de Estudos das Deficiências e, após sua morte, no Instituto Científico de Pesquisa sobre Deficiências da Academia de Ciências Pedagógicas). Vygotsky dirigiu, ao mesmo tempo, um departamento de educação de crianças com deficiências físicas e mentais, em Narcompros (Comitês Populares de Educação), bem como ministrou cursos na Academia Krupskaya de Educação Comunista, na Universidade Estadual de Moscou (posteriormente chamada de Instituto Pedagógico Estadual de Moscou) e no Instituto Pedagógico Hertzen, em Leningrado. Entre 1925 e 1934, Vygotsky reuniu em torno de si um grande grupo de jovens cientistas, que trabalhava nas áreas de Psicologia e no estudo das anormalidades físicas e mentais.

No Brasil, o interesse da Psicologia pelas questões das pessoas com deficiência também faz nascer a expressão “excepcional”, por uma necessidade de classificação. Essa história começa com a vinda da psicóloga russa Helena Antipoff para o Brasil na década de 30, a convite do governo mineiro para lecionar Psicologia Educacional na Escola de Aperfeiçoamento de Professores de Minas Gerais, juntamente com muitos outros professores estrangeiros, a fim de trazerem para o Brasil novas técnicas e concepções pedagógicas e psicológicas que se desenvolviam nos centros mais adiantados do mundo.

Esses ideais lhe inspiraram a criar duas instituições com a intenção de dar assistência às crianças: Antipoff, em novembro de 1932, com a colaboração de algumas antigas alunas da Escola de Aperfeiçoamento, fundou a primeira Sociedade Pestalozzi do país, com sede em Belo Horizonte, e, anos mais tarde, em 1940, a Fazenda do Rosário, significando uma grande mudança na forma de lidar com as crianças marginalizadas. Era o afastamento do modelo estritamente médico-pedagógico; o nascimento do trabalho multiprofissional, formado por médicos, psicólogos, pedagogos e assistentes sociais; novo modo de tratamento dado à categoria, então instituída naquela época, os “excepcionais”, atendendo, ainda, crianças de grupos escolares e seus pais, em um consultório médico-psico-pedagógico. E, no Laboratório de Psicologia da Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico, semanalmente havia reuniões com professores de grupos escolares que se interessassem em discutir a educação de pessoas com deficiência.

A relação científica entre Psicologia e deficiência ganhou força com as instalações dos cursos de graduação na área. Regulamentada como profissão em 1962, através da Lei nº 4.119 de 27/ 08/ 62, no ano seguinte, 1963, foi elaborado o primeiro currículo oficial do curso, fixado pelo Conselho Federal de Educação. Neste, a Psicologia do Excepcional – absorvendo em seu título a nomenclatura criada por Antipoff, tornou-se disciplina obrigatória.

SEM RUPTURAS

Várias décadas se passaram. E será que essas disciplinas acompanharam a evolução das pessoas com deficiência? Quase que não! Acredito que a primeira mudança precisa ser já em nossa formação acadêmica. Muitas faculdades ainda mantêm o título pejorativo dessas disciplinas de Psicologia do Excepcional. Com conteúdo quase que puramente classificando e/ou conceituando o que é deficiência, essas grades demonstram que a formação do psicólogo não apresenta avanço com relação às pessoas com deficiência, estabelecendo rupturas em termos epistemológicos.

Talvez o problema seja a não familiarização dos professores dessas disciplinas com a temática por eles ministradas. Apenas se cumpre um curso obrigatório, exigido pelo currículo mínimo para o funcionamento das faculdades de Psicologia. Entre os alunos criou-se o hábito da obrigação de passar por essas matérias como forma de também cumprir currículo, não despertando neles o interesse pelo assunto. Não lhes é despertado o quanto, em suas futuras atuações profissionais, poderão contribuir com a melhora de qualidade da vida de pessoas com deficiência e outras pessoas (por exemplo, familiares) a sua volta. Não lhes são apontadas todas as possibilidades de trabalho junto a essa clientela.

É preciso criar mecanismos para estimular professores e alunos nessas disciplinas. Se não avançarmos além das intenções classificatórias e conceituais da deficiência, no que tange à formação do psicólogo, não conseguiremos construir um espaço para a interdisciplinaridade. A intervenção psicológica (formação técnica) ainda se concentra no diagnóstico e na classificação. Falta-nos uma formação para uma ação processual, que considere o próximo desenvolvimento dessas pessoas. Fazendo uma citação livre, é como nos advertiu Lev Vygotsky, já nos anos 20 do século passado, “todo o ser humano, independentemente do grau de sua deficiência, aprende e se desenvolve”. A Psicologia como ciência passou por diversas transformações. A Psicologia do Excepcional, ao contrário, parece permanecer em uma condição “fossilizada”, sem rupturas. Essa expressão de uma atividade formativa reacionária está em conflito com as dimensões atuais, em que a formação do psicólogo deve estar voltada para a realidade que se transforma ininterruptamente.

UNIVERSO

O Brasil está chegando a 47 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Essa quantidade passou a ter um peso significativo na sociedade. Pessoas que nas últimas décadas, não contentes com o isolamento social, resolveram “colocar a cara na rua”, visando conquistar o seu lugar no seio social. Presentes hoje em todos os segmentos, deixaram de ser os “coitadinhos” para ser um público consumidor, produtivo, sabedor de onde realmente quer chegar e exigente de bons serviços. Consequência disso é que cada vez mais o contexto social está se vendo obrigado a promover e se adaptar à política da inclusão social para recebê-las, embora isso nem sempre ocorra. A proteção de pessoas com deficiência passou a só integrar as normas constitucionais brasileiras muito recentemente na Constituição Federal de 1988 – visto que temos cinco séculos de história.

Pela Convenção 159 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que assegura medidas de adaptação profissional e, no Brasil, o artigo 93 da Lei nº 8.213/ 91, que garante contratação percentual dessas pessoas em seus quadros de funcionários. As escolas e universidades públicas estão tendo que se reestruturar para que alunos com e sem deficiências dividam as mesmas salas de aula, por determinação do artigo 208, parágrafo III, da Constituição, que determina o atendimento educacional a essas pessoas. Mas, na prática, ainda poucas escolas públicas de educação básica atendem à demanda. As pessoas com deficiência estão cada vez mais presentes nos lugares de lazer, consumindo cultura e outros produtos: em espaços urbanos as barreiras arquitetônicas – por força de leis – estão começando a ser eliminadas com a construção de rampas, telefones públicos, degraus e guias rebaixadas, construções de elevadores e muito mais; os empresários, atentos às novas tendências, estão criando serviços especializados a essas pessoas; até mesmo os órgãos de comunicação estão abrindo cada vez mais espaço para essa temática.

EFEITOS POSITIVOS

Se antes a pergunta era “O que são pessoas com deficiência?”, hoje a pergunta precisa ser “Como nós psicólogos devemos atuar para ajudar as pessoas com deficiência a ter mais autoestima e uma vida plena?”. Vários conhecimentos teóricos nos dão bases para isto.

Em Obras Completas Elementos da Defectologia, Lev Vygotsky abordou de forma pioneira e sistemática assuntos relacionados à criança ou pessoa com deficiência com grande significado, gerando ideias e um novo modo de ver tais questões, descrevendo que essas pessoas têm dois tipos de deficiências:

PRIMÁRIA – trata-se da deficiência propriamente dita – impedimento, dano ou anormalidade de estrutura ou função do corpo, restrição/ perda de atividade, sequelas nas partes anatômicas do corpo, como órgãos, membros e seus componentes, incluindo a parte mental e psicológica com um desvio significativo ou perda.

SECUNDÁRIA – são as consequências, dificuldades e desvantagens geradas pela primária. Ou seja, tudo aquilo que uma pessoa com deficiência não consegue realizar em função de sua limitação. Uma situação de desvantagem às demais pessoas sem deficiência, podendo o indivíduo encontrar limitações na execução de atividades, restrições de participação ao se envolver em situações de vida, em ambiente físico, social e em atitude nos quais as pessoas vivem e conduzem sua vida.

A partir dessa divisão, Vygotsky passou a defender que profissionais de saúde e educadores precisam enfatizar suas atividades em ajudar a pessoa a superar suas deficiências secundárias e não focar nas deficiências primárias.                                             J’

De todo o pensamento vygotskyriano, talvez a síntese mais interessante seja esta. Concentrando sua atenção nas habilidades que poderiam formar a base para o desenvolvimento de suas capacidades integrais e partindo dos pressupostos gerais que orientavam a sua concepção do desenvolvimento de pessoas consideradas normais, Vygotsky focalizou o desenvolvimento de criança com deficiência, destacando-lhes os aspectos qualitativamente diversos, não apenas de suas diferenças orgânicas, mas principalmente de suas relações sociais. Por meio de uma análise de uma compreensão dialética do desenvolvimento, na qual os aspectos tidos como normais e especiais se interpenetram constituindo os sujeitos, afirmava que essas pessoas não são menos desenvolvidas em determinados aspectos do que as sem deficiência e, sim, desenvolvem-se de outra maneira. Suas forças são muito mais importantes do que suas faltas.

Ao nascer ou adquirir uma deficiência, a criança passa a ocupar certa posição social especial, levando-a a ter relações com o mundo de maneira diferente das que envolvem as crianças ditas normais. Para Vygotsky, junto com suas características biológicas (núcleo primário da deficiência), começa a constituir-se um núcleo secundário, formado pelas relações sociais, onde as interações serão responsáveis pelo desenvolvimento das funções especificamente humanas, surgindo as transformações das funções elementares (biológicas). A criança, ao interagir com um mundo mediado por signos, transformará tais relações interpsicológicas em intrapsicológicas. Portanto, a consciência e as funções superiores se originaram na relação com os objetos e com as pessoas, nas condições objetivas com a vida.

Vygotsky afirmava que uma deficiência era, para o indivíduo, uma constante estimulação para o desenvolvimento intelectual. Se um órgão, devido a uma deficiência funcional ou morfológica, não é capaz de enfrentar uma tarefa, o sistema nervoso central e o aparato mental compensam a deficiência pela criação de uma superestrutura psicológica, que permite superar o problema. Os conflitos surgem a partir do contato da deficiência com o meio exterior e podem criar estímulos para sua superação. Assim, as deficiências poderiam causar limitações e obstáculos para o desenvolvimento da criança, mas também estimulariam processos cognitivos comultativos. São o que ele intitulou de efeitos positivos da deficiência.

DOCUMENTO MUNDIAL

Na busca de uma imagem cada vez mais normalizada, poucos sabem da existência da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde – CIP, documento desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com um novo enfoque positivo da deficiência. Descrevendo a funcionalidade e a incapacidade relacionadas às condições de saúde, ressalta o que uma pessoa “pode ou não pode fazer na sua vida diária”, tendo em vista as funções dos órgãos ou sistemas e estruturas do corpo. E é importante que um psicólogo tenha esse conhecimento.

Tendo o duplo propósito de utilização em várias disciplinas e em diferentes setores, seus objetivos específicos, interligados entre si, requerem a construção de um sistema relevante e útil, que possa aplicar-se em âmbitos distintos: na política de saúde, na avaliação da qualidade da assistência e avaliação das consequências em diferentes culturas. São os seguintes:

Apresentar uma base científica para a compreensão e o estudo da saúde e dos estados com ela relacionados, bem como os resultados e suas determinantes; estabelecer uma linguagem comum para descrever a saúde e os estados com ela relacionados, para melhorar a comunicação entre os diferentes usuários, tais como profissionais de saúde, investigadores, legisladores de políticas de saúde e a população em geral, incluindo as pessoas com deficiência; permitir a comparação dos dados entre países, entre as disciplinas de saúde, entre os serviços e em diferentes momentos ao longo do tempo; proporcionar um esquema de codificação sistematizado de forma a ser aplicado nos sistemas de informação da saúde.

Dispondo de um amplo leque de aplicações, o surgimento da CIF foi um marco de referência conceitual. É ainda um modelo de atendimento multidisciplinar clínico, servindo para as várias equipes e os vários recursos de que dispõem os serviços, tais como médico, psicólogo, terapeuta, assistente social etc. Passa a ser uma perspectiva positiva, considerando as atividades de alguém com deficiência que, mesmo com ela, pode desempenhar, assim como sua participação social, sendo que a funcionalidade e a incapacidade dos indivíduos são determinadas pelo contexto ambiental onde as pessoas vivem. Trata-se da mudança de paradigma, pautando um novo pensamento para quem trabalha com pessoas com deficiência e a incapacidade, constituindo um instrumento importante para avaliação das condições de vida e para a promoção de políticas de inclusão social.

DESAFIO DE INCLUIR

Creio que a primeira grande mudança precisa ser nos bancos acadêmicos. Defendo para essas disciplinas o título Psicologia e Pessoas com Deficiência. Não temos a necessidade de sustentar a existência de uma subárea específica chamada Psicologia da Deficiência (ou, em pior grau, manter -se o título Psicologia do Excepcional). Que as disciplinas acadêmicas que ministram essa temática deixem de ser meramente uma obrigação curricular e teórica a cumprir na grade dos cursos de graduação em Psicologia no Brasil. É necessário desenvolver uma nova mentalidade em estimular uma linha de trabalho, no qual o papel do psicólogo seja intervir na busca da superação das limitações. Para os psicólogos já formados os desafios também são muitos. Temos mais de 46 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência no país. Precisam os gerar psicólogos mais preparados para atendê-las em suas necessidades específicas e, em muitos casos, psicólogos para serem o elo dessa inclusão social, mediadores entre o real e o ideal. Considerando o grande número de pessoas, hoje, em qualquer lugar que um psicólogo for atuar, deparará com esse público: se for para área organizacional, as empresas devem ter uma cota mínima dessas pessoas contratadas; no setor educacional está sendo discutido, implementado e garantido, por força da lei, a inclusão escolar; no setor hospitalar, elas ficam doentes como as demais; na clínica, mesmo se o psicólogo não atender diretamente essas pessoas, atenderá seus parentes.

Na inclusão, as iniciativas são da sociedade. E a Psicologia tem muito a colaborar nesse processo, em que a sociedade se adapta para poder incluir em seu contexto as pessoas com deficiência. Mas, por outro lado, essas mesmas pessoas precisam ser preparadas para assumir seus papéis na sociedade, o que abre várias possibilidades de atuações psicológicas.

Será uma forma de parceria entre toda a sociedade, visando equacionar problemas, decidindo sobre soluções, efetuando equiparações de oportunidades para todos. Estaremos, assim, realmente criando no relacionamento prático entre a Psicologia e pessoas com deficiência, na busca do ser humano por detrás da pessoa com qualquer tipo de limitação: suas reais necessidades, interações sociais, educacionais, relacionamentos familiares e afetivos, necessidades de atividades profissionais e, sobretudo, suas verdadeiras potencialidades a serem estimuladas de forma individual e coletiva.

NOMENCLATURA CORRETA

Muitos ainda usam expressões como “pessoas portadoras de deficiência”. Aqui no Brasil essa expressão não é mais utilizada, pois se entende que a pessoa com deficiência não está portando nada. Neste artigo, como em outros tantos trabalhos meus, usarei o termo mais aceitável em Língua Portuguesa. Segundo os movimentos mundiais, incluindo o Brasil, após amplos debates, o nome pelo qual essas pessoas desejam ser chamadas é “pessoas com deficiência”, isso em todos os idiomas. Esse termo foi adotado como sendo o correto pela Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde – CIF, que é da Organização Mundial de Saúde de 2003. Anexo V da edição brasileira. Em seguida. foi incorporado ao texto da Convenção Internacional para Proteção e Promoção dos Direitos e Dignidade das Pessoas com Deficiência, aprovada pela Assembleia Geral da ONU, em 2005, e promulgada, posteriormente, pela Lei Nacional de Todos os Países-Membros. Dessa forma, onde estiver escrito “pessoas portadoras de deficiência” ou, até mesmo, “portadores de deficiência”, singular ou plural, deverá ser entendido “pessoa (s) com deficiência”.

EMÍLIO FIGUEIRA – é psicólogo pela USC, pós-graduado em Educação Inclusiva, doutorado em Psicanálise e atua como pesquisador científico em instituições universitárias em duas linhas de pesquisas: Psicologia e Deficiência e Educação Inclusiva. Autor do livro Psicologia e Inclusão Atuações Psicológicas em Pessoas com Deficiência (Wak Editora).