A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TDAH III – ACALMANDO AS PEQUENAS MENTES

A prática do yoga em crianças, inclusive nas escolas, pode ajudar no tratamento de TDAH, pois as práticas contemplativas têm como uma das características deixar a pessoa mais atenta às sensações corporais e experiências sensoriais

O TDAH é responsável por profundas alterações no comportamento das crianças. Por isso, alternativas que buscam amenizar os efeitos do distúrbio são bem-vindas. O yoga é um exemplo. Uma das principais características de práticas contemplativas, como o yoga, é a ênfase dada ao processo de se tornar mais atento às sensações corporais, às experiências sensoriais e aos próprios pensamentos. O aumento da percepção do corpo e dos processos mentais (atenção) pode ser benéfico não só do ponto de vista cognitivo, mas para a saúde e para a autorregulação, pois reflete uma melhor habilidade em observar sinais do corpo e da mente sem se envolver com eles.

Comparado às práticas puramente sentadas, o componente do movimento, típico do yoga, pode aumentar a intensidade de sinais interoceptivos e proprioceptivos e subsequentemente facilitar o processamento e a integração desses sinais, melhorando a atenção. Esse, segundo Laura Schmalzl, da Universidade de Califórnia, nos Estados Unidos, é o principal diferencial do yoga. De acordo com a pesquisadora, a eficácia da prática do yoga na atenção e na concentração decorre do fato de esta prática desenvolver diversos tipos de atenção: a atenção alerta, necessária para rastrear sensações corporais; a atenção de orientação, que envolve a leitura ativa do ambiente e dos estímulos, assim como a seleção de alvos específicos para a execução de determinado movimento (no yoga, este tipo de atenção ajuda o delicado processo de feedback neuromuscular e a consequente eficiência do engajamento muscular, necessário para a execução do movimento); e atenção executiva, que se refere à habilidade de prestar atenção de modo seletivo a estímulos relevantes e inibir informação irrelevante (no yoga, a atenção executiva é usada para manter a atenção nos estados mentais e físicos e simultaneamente esquecer das distrações irrelevantes). Além disso, práticas contemplativas também desenvolvem a percepção de metacognição, definida como um monitoramento intencional dos processos mentais e comportamentos. Um possível benefício desse monitoramento metacognitivo e não crítico do processamento espontâneo de pensamentos é a redução no autorreferencial negativo e na ruminação, além da sensação de equanimidade, que, no caso específico do yoga, pode ser resultado das sensações corporais e feedback proprioceptivo relacionado ao movimento e à respiração.

Estudos mostraram que as melhoras nessas funções cognitivas estão relacionadas a alterações estruturais em áreas do cérebro envolvidas no processamento de sensações corporais, como os córtices sensório-motor primário e secundário, o giro cingulado anterior e, especialmente, a ínsula, uma estrutura-chave para a percepção extra e interoceptiva. Pesquisadores do National Institute of Health, nos Estados Unidos, liderados por Chantal Villemure, encontraram um aumento de massa cinzenta e massa branca em praticantes de yoga.

Todas essas melhoras nos níveis de atenção fizeram os pesquisadores se perguntar se as práticas contemplativas podiam auxiliar crianças com dificuldades de aprendizagem, como no transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Uma recente revisão sistemática feita por Gurjeet Birdee, da Universidade de Medicina de Harvard, mostrou que a quantidade de estudos de qualidade com crianças com TDAH era muito pequena. Os poucos estudos existentes na literatura mostram resultados inconsistentes, mas sugerem benefícios em potenciais da prática de yoga. Pesquisas futuras com o yoga devem observar a eficácia destas práticas em deficiências cognitivas diversas, mas os estudos atuais se restringem à observação em crianças saudáveis, talvez pela necessidade de primeiro se elucidar em os mecanismos de ação do yoga para depois se extrapolarem os estudos para crianças com dificuldades de aprendizagem.

NAS ESCOLAS

A pesar dos conhecidos efeitos restaurativos do yoga na saúde mental (principalmente em adultos), hoje essa prática não está limitada ao uso terapêutico e vem sendo utilizada em uma grande variedade de situações e condições, incluindo contextos educacionais e escolares, já que o bem-estar e a saúde constituem objetivos primários da própria educação. Além disso, o desempenho escolar depende diretamente dos níveis de atenção e concentração e, como mencionado, o yoga tem se mostrado eficaz no desenvolvimento dessas variáveis.

De acordo com um relatório das Nações Unidas (Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, 2007), crianças e adolescentes ao redor do mundo passam, em média, 10 a 15 anos na escola. Sendo assim, a instituição de ensino tem um grande potencial para ensinar hábitos saudáveis, desde idades mais jovens, e promover o bem-estar e a saúde de crianças.

Para crianças que lidam com estressores extremos como traumas, abuso, ansiedade, dificuldades de aprendizagem, evasão escolar e bullying, a prática de técnicas contemplativas pode ser a diferença entre sucesso e fracasso, acadêmica, profissionalmente e na vida em geral. Além disso, o início da maioria dos transtornos mentais em adultos ocorre numa idade muito jovem, com 7,5% dos adolescentes preenchendo critérios para DSM-IV para uma ou mais condições mentais.

A solução para se lidar com ansiedade, estresse e dificuldades de aprendizagem certamente depende de muitos fatores, mas as evidências sugerem que muitos ou todos esses problemas podem ser amenizados pela prática de técnicas contemplativas. A prática dessas técnicas em escolas é capaz de redirecionar a atenção, melhorar a concentração, aumentar o autocontrole e fornecer mecanismos mais saudáveis e confiáveis de se lidar com o estresse.

O Dr.Sat Bir Khalsa, professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, observou que a implementação de um programa de yoga nas escolas foi essencial na recuperação da autoestima, confiança e saúde mental das crianças, assim como na promoção de atitudes positivas e melhoras na concentração, estresse e ansiedade.

Uma revisão sistemática (no prelo) deste ano conduzida por mim analisou apenas estudos controlados e randomizados sobre o ensino de yoga em escolas. O estudo observou o efeito de programas de yoga nas funções cognitivas e saúde mental de crianças e adolescentes. A revisão mostrou efeitos benéficos do ensino do yoga em escolas, mas afirmo que em alguns estudos os resultados são inconclusivos e demandam a reaplicação dos resultados, pois em muitos deles não há padronização ou adequação ao tipo de prática que deve ser realizado em crianças. Do mesmo modo, a frequência e a duração das práticas também não costumam ser apropriadas a uma faixa etária menor. Além disso, técnicas de yoga, como respiração e meditação, requerem alto controle atencional, uma função executiva que ainda não está madura em crianças e adolescentes. À medida que os lobos frontais do cérebro amadurecem, a capacidade de exercitar o controle da atenção aumenta, mas, ainda assim, as capacidades atencionais de crianças e adolescentes permanecem mais pobres comparadas às de adultos.

Os efeitos negativos encontrados em alguns estudos podem ser explicados pelos seguintes fatores: processo de adaptação, controle de atenção e inadequação da prática para crianças.

DESAFIO

O processo de se tornar consciente de tudo, incluindo as próprias emoções e sensações, e o fato de o yoga ser uma prática que demanda esforço e disciplina podem fazer com que o primeiro contato com o yoga seja desafiador. Quando a prática de yoga é adicionada às atividades extracurriculares, a criança pode experimentar níveis mais altos de estresse em curto prazo. De acordo com a pesquisadora Adele Hayes, do Departamento de Psicologia da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, esse aumento temporário nos níveis de estresse pode fazer parte do processo de se tornar consciente de tudo (mindful), à medida que as crianças começam a reconhecer seus padrões típicos de reação ao estresse. Além disso, a realização no yoga depende de autoconfiança adquirida. A princípio, tentar algo no qual não temos habilidade pode aumentar a sensação de inadequação.

Segundo Lisa Kaley-Isley, da Divisão de Psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, à medida que adultos e crianças passam de um estágio pré-contemplativo (início da prática) para o contemplativo, eles podem experimentar mais distresse (aflição, ansiedade e estresse), já que nesse momento há mais conscientização da necessidade de mudar, mas o indivíduo ainda não desenvolveu as ferramentas necessárias para realizar a mudança. Pesquisadores sugerem que esse achado seria revertido com uma intervenção de longa duração, mas estudos assim ainda não foram realizados.

Ainda, no que diz respeito a alguns achados negativos, além do processo de adaptação há também a questão do controle precário da atenção em crianças. Técnicas de yoga, como as respirações e a meditação, requerem alto controle atencional, uma função executiva que ainda não está madura em crianças e adolescentes. À medida que lobos frontais amadurecem, a capacidade de exercer o controle da atenção também aumenta, mas a habilidade ainda permanece muito mais precária em crianças e adultos.

Paradoxalmente, o yoga tem se demonstrado uma ferramenta importante na melhora da atenção em adultos e crianças. Desse modo, a prática de yoga deve ser especificamente adaptada para crianças, para que elas possam se beneficiar dos efeitos positivos observados em adultos, levando em consideração a maturidade de seus cérebros.

Ainda assim, de modo geral os estudos observaram reduções nos níveis de fadiga, raiva, inércia, ansiedade e estresse. Assim como aumentos na autoestima, autorregulação e capacidade de autocontrole. No que diz respeito às funções cognitivas, a prática de yoga em contextos escolares mostrou efeitos significativos na atenção, memória e habilidades de desenvolvimento, assim como melhoras em capacidades mentais diversas e no teste de Stroop (um conhecido teste de atenção).

Alterações negativas do humor estão associadas a declínios na função cognitiva. Então, é possível que os efeitos do yoga na saúde mental das crianças tenham refletido nas melhoras de funções cognitivas como a atenção. O foco da atenção é um aspecto-chave da prática de yoga e produz efeitos similares aos do relaxamento, já que também promove o autocontrole, a concentração e a conscientização do corpo.

EVOLUÇÃO

Estudos com crianças que sofrem de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade demonstraram melhoras significativas em escalas e tarefas de atenção após a prática de yoga. Estudos de neuroimagem mostraram que a meditação (uma das técnicas do yoga) tem efeitos mais significativos no putâmen e no córtex cingulado, estruturas cerebrais envolvidas no processamento da atenção. Melhoras na memória seguidas da prática de yoga também foram demonstradas extensivamente. Estudos observaram a ativação do hipocampo durante estados meditativos, uma estrutura subcortical responsável pela formação de novas memórias.

Apesar da grande quantidade de evidências acerca dos efeitos benéficos das técnicas contemplativas, a inserção de um programa de yoga em escolas para crianças e adolescentes está longe de ser uma realidade comum, embora escolas em São Paulo e no Rio Grande do Sul já estejam utilizando com sucesso essas técnicas no dia a dia das crianças. Infelizmente, o currículo tradicional foca primariamente no desenvolvimento intelectual, e as escolas vêm progressivamente perdendo a capacidade de adotar programas que promovam a saúde. A habilidade em lidar com o estresse, a ansiedade e a manutenção da saúde física, todas consequências da prática de yoga, é de valor inestimável em todas as esferas da vida de um indivíduo, incluindo a educação. Além disso, os estudantes precisam estar saudáveis para ser educados, e o desempenho escolar está diretamente relacionado ao status de saúde. Consequentemente, há uma necessidade cada vez maior e urgente de se desenvolver e investigar programas de saúde eficazes, de baixo custo e baseado em evidências, que possam ser utilizados em contextos escolares.

É preciso lembrar que as crianças saudáveis de hoje serão os adultos equilibrados de amanhã. Como disse o Dalai Lama: “Se a meditação fosse ensinada a toda criança, a violência estaria eliminada do mundo em apenas uma geração”.

YOGA: O QUE AS PESQUISAS MOSTRAM?

ADULTOS

  •  menores níveis de ansiedade e estresse
  •  menos depressão
  •  menos ataques de pânico
  •  maior autorregulação emocional
  • melhoras cognitivas
  •  melhoras nos níveis de atenção
  •  maior resiliência

CRIANÇAS

  •  melhoras cognitivas
  •  melhoras na autoestima
  •  melhoras na capacidade de autorregulação
  •  maior autocontrole
  •  melhoras nos níveis de atenção e memória
  •  melhoras em capacidades mentais diversas como no teste de Stroop

CAMILA FERREIRA VORKAPIC – é doutora em Psicologia pela UFRJ, com pós-doutorado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Sergipe e pesquisadora de Desenvolvimento Científico Regional CNPq\Fapitec no Laboratório de Neurofisiologia da Universidade Federal de Sergipe.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.