EU ACHO …

CHORANDO DE MANSO

… eu o vi de repente e era um homem tão extraordinariamente bonito e viril que eu sentia uma alegria de criação. Não é que eu o quisesse para mim assim como não quero a Lua nas suas noites em que ela se torna leve e frígida como uma pérola. Assim como não quero para mim um menino de nove anos que vi, com cabelos de arcanjo, correndo atrás da bola. Eu queria em tudo somente olhar. O homem olhou um instante para mim e sorriu calmo: ele sabia quanto era belo, e sei que ele sabia que eu não o queria para mim, ele sorriu porque não sentiu nenhuma ameaça. (Os seres excepcionais estão mais sujeitos a perigos do que o comum das pessoas.) Atravessei a rua e apanhei um táxi. A brisa me arrepiava os cabelos da nuca e era outono, mas parecia prenunciar uma nova primavera como se o verão estafante merecesse a frescura do nascimento de flores. Era, no entanto, outono e as folhas amarelavam nas amendoeiras. Eu estava tão feliz que me encolhi num canto do táxi de medo pois a felicidade também dói. E tudo isso causado pela visão de um homem bonito. Eu continuava a não querê-lo para mim, mas ele de algum modo me dera muito com o seu sorriso de camaradagem entre pessoas que se entendem. A essa altura, perto do viaduto do Museu de Arte Moderna, eu já não me sentia feliz, e o outono me pareceu uma ameaça dirigida contra mim. Tive então vontade de chorar de manso.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

ARMAS CONTRA A BALANÇA

Com o aval da ciência, a mais moderna geração de remédios para diabetes passa a ser utilizada com frequência para a perda de peso no mundo todo e também no Brasil

Há exatos dez anos, a chegada deum remédio para o diabetes tipo 2 no Brasil foi responsável por um dos mais ruidosos cismas no mercado farmacológico, ao deflagrar uma guerra entre os defensores e os detratores de seu uso como emagrecedor. A liraglutida – de nome comercial Victoza – começou a ser usada também por pessoas saudáveis que precisavam (ou queriam) perder peso. Tinham o aval de médicos responsáveis e competentes – prática na medicina conhecida como off-label, ou fora do rótulo, em tradução literal.

O estoque inicial, previsto para durar um mês, foi vendido em apenas uma semana. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) chegou a declarar publicamente que “o uso do produto para qualquer outra finalidade além do antidiabético caracteriza elevado risco sanitário para a saúde da população”. Como o tempo muitas vezes é o senhor da razão, sólidos estudos científicos comprovaram a eficácia e o reduzido risco da droga na luta com a balança – e agora, em 2021, ela se tornou a substância mais largamente prescrita nos consultórios particulares de endocrinologia.  “É a classe de emagrecedores com ação mais natural já desenvolvida”, diz Antônio Carlos do Nascimento, doutor em endocrinologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

A estatística ajuda a entender o interesse pelo medicamento. Dos 40 milhões de brasileiros na batalha contra os quilos a mais, 16 milhões não conseguem perder peso apenas com mudanças no estilo de vida. Desse grupo, metade apresenta alguma restrição ao clássico arsenal químico disponível, as anfetaminas e a sibutramina, que atuam no sistema nervoso central.

A liraglutida “imita” no organismo um hormônio, o GLP-1, ligado à produção de insulina (eis a ação no diabetes) e à sensação de saciedade (com menos fome, perde-se peso). “Ela não está isenta de efeitos colaterais, como náusea, dor abdominal e constipação, mas permitiu finalmente incluir até mesmo pessoas mais fragilizadas nos tratamentos para emagrecer, como doentes psiquiátricos, com câncer e problemas de coração”, diz a endocrinologista Claudia Cozer Kalil, coordenadora do Núcleo de Obesidade e Transtornos Alimentares do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo. No início deste ano, um segundo remédio antidiabético de mesma linha, e que já vinha sendo sobejamente aplicado no Brasil, a semaglutida (nome comercial Ozempic) comprovou ter efeito semelhante em estudo publicado na reputada revista The New England Journal of Medicine. Diferentemente das anfetaminas, ambos são isentos de prescrição médica. Convém, portanto, a regra de obrigatório bom senso: procurar um médico. “Há riscos, daí a necessidade de acompanhamento profissional”, diz o clínico geral e endocrinologista Fabiano Serfaty. “Mas os estudos têm mostrado resultados bastante impressionantes.”

Verdade. Em média, de acordo com as pesquisas citadas por Serfaty, a perda de gordura proporcionada pelas novas drogas gira em torno de 15% do peso inicial ao longo de um ano, taxa 40% superior ao que se vai com recursos habituais. Em um país com 26,8% de adultos obesos (veja no quadro abaixo) o impacto é brutal. Afora os raros casos associados exclusivamente à hereditariedade, a culpa dos quilos extras é o excesso de comida consumida. Em tempos de pandemia, ressalve-se, com famílias inteiras trancafiadas em casa, as refeições (e as tentações) se transformaram em atrativo ainda maior. E, como num círculo vicioso, quanto mais se exagera no prato, mais se quer comer. Os mecanismos da obesidade são comparados ao vicio, sim, por envolverem o sistema cerebral de recompensa. No cérebro dos gordos pode haver uma deficiência na atividade da dopamina, um neurotransmissor associado ao prazer. Para se sentirem saciados, portanto, os rechonchudos consomem mais alimentos. O açúcar, sobretudo, capaz de estimular muito rapidamente o aumento da dopamina, é o grande inimigo – à espreita, insidioso e traiçoeiro, desde os primeiros anos de vida, daí a necessária preocupação dos pais com a alimentação infantil feita à base de alimentos ultra processados.

Jovens com quilos extras sofrem muito mais para emagrecer quando crescem. Adultos que foram obesos na infância vivem até dez anos menos em relação aos que mantiveram uma vida com regras alimentares. É até os 20 anos que o número de células de gordura é definido no organismo. A partir de então, nada é capaz de diminuir essa quantidade – nem a mais rigorosa das dietas. Quando se perde peso, as células adiposas apenas perdem volume, mas continuam lá, ávidas para recuperar a dimensão anterior. E aqui convém destacar, uma vez mais, sem exageros, o papel da liraglutida. Há menos de um ano, o remédio recebeu o aval inédito para ser usado em meninas e meninos com idade a partir de 12 anos, com bons resultados.

Contudo, apesar do sucesso medicamentoso, não se pode ignorar, muito pelo contrário, o papel primordial, em crianças e adultos, da atividade física. “A prática regular não só aumenta o gasto calórico, como traz o bem-estar essencial para manter a força de vontade na dieta”, diz Eduardo Rauen, professor de nutrologia da pós-graduação do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Há poucos meses, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apertou o cinto em relação ao tempo ideal a ser dedicado aos exercícios para impactar na saúde, recomendando o dobro que estava estabelecido por décadas. Adultos de 18 a 64 anos devem praticar de 150 a 300 minutos por semana de treino moderado (como caminhada ou jardinagem, por exemplo), ou de 75 a 150 minutos se a intensidade for vigorosa (corrida e subir escadas). Ou seja, nada, nem mesmo o mais decisivo remédio, faz milagres isoladamente. É aprendizado que não pode sair da pauta – especialmente agora, com a eclosão das internações e mortes em decorrência da Covid-19.

Recentemente, minuciosos estudos em torno das comorbidades associadas à pandemia mostraram que a obesidade agrava a infecção pelo novo coronavírus, podendo aumentar em até quatro vezes o risco de morte depois do contágio. Um organismo gordo tem capacidade reduzida para produção de anticorpos e o tecido adiposo funciona como reservatório para o vírus. Emagrecer, portanto, é compulsório – e a injeção de armas usadas contra o diabetes pode ser útil. Com cuidado, insista-se, ainda que soe repetitivo o zelo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 05 DE MAIO

NÃO CONSTRUA SUA CASA NA AREIA

A casa dos perversos será destruída, mas a tenda dos retos florescerá (Provérbios 14.11).

Uma casa pode ser muito bonita e atraente, mas, se não for construída sobre um sólido fundamento, acabará destruída quando a tempestade chegar. É como construir uma casa sobre a areia. Quando a chuva cai, o vento sopra e os rios batem nos alicerces, a casa vai ao chão. É assim que acontece com a casa do perverso. A vida daqueles que não conhecem a Deus carece de fundamento. A Bíblia diz que, se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham aqueles que a edificam. Construir uma família sem a presença de Deus é construir para o desastre. Dinheiro e sucesso não podem manter uma família firme diante das tempestades da vida. A maior necessidade da família não é de coisas, mas de Deus. É por isso que a tenda dos retos florescerá. Não porque sua casa está fora do alcance da tempestade, mas porque, embora a chuva caia no telhado, os ventos soprem contra a parede e os rios açoitem os alicerces, a casa permanece de pé, uma vez que não foi construída sobre a areia, mas sobre a rocha. Essa tenda floresce porque Deus ali habita. Floresce porque a bênção de Deus está sobre ela. Floresce porque aqueles que habitam nessa tenda são como árvores plantadas junto às correntes das águas, que jamais murcham e jamais deixam de produzir o seu fruto.

GESTÃO E CARREIRA

COMO FALAR SOBRE TRABALHO COM SEUS FILHOS DURANTE A PANDEMIA

Um guia de atividades e discussão.

Para algumas famílias, a covid-19 significou trabalhar, viver e aprender juntos em aposentos apertados durante vários meses. Para outras, significou funcionários saindo de casa para trabalhar em hospitais, supermercados e outros estabelecimentos comerciais da linha de frente da pandemia. Embora a dinâmica de sua família tenha mudado, é provável que seus filhos estejam desenvolvendo novas ideias sobre seu trabalho e mais elementarmente, o que é o trabalho, como ele funciona no mundo atual e o que ele significa para eles.

É por isso que esta é uma boa hora para conversar com seus filhos sobre seu trabalho e mudanças de responsabilidade. Essas conversas podem ajudá-lo a entender melhor suas perspectivas sobre seu emprego, como eles pensam sobre seu futuro na força de trabalho, e qual a melhor forma de apoiá-los hoje. Você também pode aproveitar esse tempo para discutir saudavelmente estratégias de enfrentamento sadias quando o trabalho (e a vida) se tornarem difíceis.

O guia de atividades e discussão a seguir oferece algumas formas de iniciar conversas sobre esses temas. À medida que for lendo as questões, escolha os tópicos que mais se apliquem à sua família. Dependendo do interesse das crianças e da dispersão da atenção, você pode preferir discutir diferentes questões em várias ocasiões. É importante adaptar as questões a serem discutidas ao nível de desenvolvimento, temperamento, estilo de comunicação e outros aspectos de seus filhos. Para aconselhamento individualizado, parentes e cuidadores devem contatar seus próprios provedores.

ATIVIDADE

Comece a conversa com seu filho dizendo alguma coisa como “eu acho que seria interessante conversar sobre as mudanças que você viu na forma como estou trabalhando neste exato momento, e para lhe dar a oportunidade de tirar dúvidas que você pode ter sobre o que eu faço no trabalho”. Depois discuta os tópicos que tem em mente, deixando a conversa ser guiada pela curiosidade de seu filho. Para ter ideias sobre os tópicos, veja o guia de discussão a seguir.

Como crianças menores podem ter mais facilidade de se comunicar brincando, você pode então começar pedindo a seu filho um desenho de você trabalhando ou dele em aulas (remotas ou presenciais). Peça à criança que descreva seu desenho, e faça perguntas adicionais para entendê-lo melhor. Esse exercício é uma boa forma de ouvir as ideias de seus filhos sobre as mudanças em sua vida profissional, na forma como eles estão estudando e na dinâmica familiar.

GUIA DE DISCUSSÃO

A conversa com a criança pode abranger uma grande variedade de assuntos. Aqui estão algumas perguntas que você pode fazer:

— Você sabe o que eu faço no meu trabalho?

— O que você quer me perguntar sobre meu trabalho?

— Você sabe porque o que eu faço é importante para mim e para outros?

— Você sabe como eu passo meu tempo enquanto estou trabalhando?

— Que você faz quando está na escola?

— Quais são suas partes favoritas da escola?

Esta é também uma oportunidade de discutir mudanças no trabalho e na escola. Você pode perguntar:

— Neste momento tivemos de fazer muitas mudanças em nossas rotinas de trabalho e da escola. O que ficou mais difícil ou mais fácil na escola agora? O que ajuda você quando as coisas ficam mais difíceis? De que formas eu posso ajudá-lo quando você está com problemas?

— Você acha que as mudanças durante este período foram positivas para nossa família?

Esta última questão pode ser mais bem respondida por você e seu filho juntos. Por exemplo, talvez vocês se vejam mais ou façam mais refeições juntos durante a semana. Talvez você tenha mais oportunidade de interagir (mesmo que virtualmente) com o resto da família ou com amigos.

Você também pode pedir a seu filho que faça perguntas para saber mais sobre seu trabalho e como ele mudou. Se ele não estiver seguro sobre por onde começar, as sugestões a seguir podem ajudar: você poderia dizer “tenho algumas perguntas aqui que talvez você queira me fazer”. As crianças que já sabem ler podem ver a lista e fazer as perguntas que considerarem mais interessantes. Se seu filho ainda não sabe ler, você pode ler em voz alta aquelas que você acredita serem mais relevantes usando linguagem adequada ao nível de desenvolvimento da criança, e depois respondê-las (obviamente, tente criar um ambiente onde seu filho se sinta à vontade para fazer perguntas que não foram incluídas a seguir).

— Que você faz no seu trabalho?

— Como acabou fazendo esse tipo de trabalho?

— De que você mais gosta no seu trabalho?

— Quando você tinha a minha idade, que queria fazer quando crescesse?

— Que você queria saber na minha idade sobre trabalho e escola?

— Que problema no trabalho que você teve de superar? Como fez isso?

— Que ficou mais difícil no seu trabalho por causa da pandemia? Como você enfrentou os problemas?

— Por que você precisa trabalhar em vez de ficar comigo? (detalhe importante: esta pergunta poderá não ser apresentada se não refletir a experiência da criança).

DICAS PARA SUA CONVERSA

Em conversas com os filhos, é importante deixar claro que você está disponível para conversar ou ajudar quando eles precisarem. Também é importante estar tranquilo e legitimar os sentimentos deles e, ao mesmo tempo, enfatizar que você e outros adultos estão trabalhando muito pra mantê-los em segurança e ajudá-los a aprender durante este período anormal.

Com a pergunta “por que você precisa trabalhar em vez de ficar comigo?” é particularmente importante estar sintonizado com as emoções de seu filho. Você pode responder reforçando seu amor por ele e ao mesmo tempo também reconhecendo suas responsabilidades de trabalho e os motivos porque seu trabalho é importante. Deixe claro que você trabalha não porque não quer ficar com seu filho. Essa discussão também pode levar a oportunidades de marcar um período comum para estar com a família sem discutir nada de trabalho, se possível.

Se você não puder trabalhar em casa, seu filho pode ter preocupações relacionadas à segurança. Éimportante dar espaço para essa conversa e sincera e tranquilamente responder às perguntas de seu filho sem usar linguagem catastrófica. Normalize os sentimentos que seu filho expressa e enfatize que você está seguindo políticas de saúde pública e os protocolos de sua empresa para manter você e sua família seguros. Você também pode explicar a importância de seu cargo, porque ele exige que você continue indo ao escritório, e como seu trabalho ajuda os outros e a comunidade como um todo. Permitir que as crianças saibam que elas sempre podem discutir seus sentimentos com você e fazer perguntas deixa uma porta aberta para conversas futuras e mostra que as pessoas que cuidam delas estão lá se elas precisarem de apoio.

Embora não seja o foco deste guia, é muito importante observar que, além das mudanças no trabalho e na escola, as famílias podem estar vivenciando a perda de entes queridos, doenças, perda de emprego ou insegurança alimentar e doméstica. É importante dar espaço às crianças para que façam perguntas e consigam apoio nesses fatores estressantes. Os pais devem procurar recursos da escola e da comunidade quando seus filhos ou famílias precisarem de mais ajuda.

ESCLARECIMENTO

Este guia foi elaborado para ter natureza informativa e não para fornecer conselhos ou recomendações profissionais. Essas atividades são para consideração geral, mas os cuidadores devem contatar seus provedores em relação a aconselhamento individualizado para suas famílias e filhos. Os pais que perceberem mudanças comportamentais significativas ou mudanças de humor em seus filhos, ou que precisem de outro tipo de apoio, devem entrar em contato com a escola e agências comunitárias para obter orientação e recursos.

JACQUELINE ZELLER – é PhD, psicóloga licenciada, psicóloga escolar e professora de educação infantil. Seus interesses clínicos focam esforços de prevenção e intervenção em escolas, promovendo a resiliência nas crianças e apoiando o bem-estar de educadores e auxiliares. A dra. Zeller faz parte do núcleo pedagógico da faculdade de educação de Harvard. onde ela ministra cursos de pós-graduação relacionados a aconselhamento e consultas, e coordena parcerias escola/universidade.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TDAH III – ACALMANDO AS PEQUENAS MENTES

A prática do yoga em crianças, inclusive nas escolas, pode ajudar no tratamento de TDAH, pois as práticas contemplativas têm como uma das características deixar a pessoa mais atenta às sensações corporais e experiências sensoriais

O TDAH é responsável por profundas alterações no comportamento das crianças. Por isso, alternativas que buscam amenizar os efeitos do distúrbio são bem-vindas. O yoga é um exemplo. Uma das principais características de práticas contemplativas, como o yoga, é a ênfase dada ao processo de se tornar mais atento às sensações corporais, às experiências sensoriais e aos próprios pensamentos. O aumento da percepção do corpo e dos processos mentais (atenção) pode ser benéfico não só do ponto de vista cognitivo, mas para a saúde e para a autorregulação, pois reflete uma melhor habilidade em observar sinais do corpo e da mente sem se envolver com eles.

Comparado às práticas puramente sentadas, o componente do movimento, típico do yoga, pode aumentar a intensidade de sinais interoceptivos e proprioceptivos e subsequentemente facilitar o processamento e a integração desses sinais, melhorando a atenção. Esse, segundo Laura Schmalzl, da Universidade de Califórnia, nos Estados Unidos, é o principal diferencial do yoga. De acordo com a pesquisadora, a eficácia da prática do yoga na atenção e na concentração decorre do fato de esta prática desenvolver diversos tipos de atenção: a atenção alerta, necessária para rastrear sensações corporais; a atenção de orientação, que envolve a leitura ativa do ambiente e dos estímulos, assim como a seleção de alvos específicos para a execução de determinado movimento (no yoga, este tipo de atenção ajuda o delicado processo de feedback neuromuscular e a consequente eficiência do engajamento muscular, necessário para a execução do movimento); e atenção executiva, que se refere à habilidade de prestar atenção de modo seletivo a estímulos relevantes e inibir informação irrelevante (no yoga, a atenção executiva é usada para manter a atenção nos estados mentais e físicos e simultaneamente esquecer das distrações irrelevantes). Além disso, práticas contemplativas também desenvolvem a percepção de metacognição, definida como um monitoramento intencional dos processos mentais e comportamentos. Um possível benefício desse monitoramento metacognitivo e não crítico do processamento espontâneo de pensamentos é a redução no autorreferencial negativo e na ruminação, além da sensação de equanimidade, que, no caso específico do yoga, pode ser resultado das sensações corporais e feedback proprioceptivo relacionado ao movimento e à respiração.

Estudos mostraram que as melhoras nessas funções cognitivas estão relacionadas a alterações estruturais em áreas do cérebro envolvidas no processamento de sensações corporais, como os córtices sensório-motor primário e secundário, o giro cingulado anterior e, especialmente, a ínsula, uma estrutura-chave para a percepção extra e interoceptiva. Pesquisadores do National Institute of Health, nos Estados Unidos, liderados por Chantal Villemure, encontraram um aumento de massa cinzenta e massa branca em praticantes de yoga.

Todas essas melhoras nos níveis de atenção fizeram os pesquisadores se perguntar se as práticas contemplativas podiam auxiliar crianças com dificuldades de aprendizagem, como no transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Uma recente revisão sistemática feita por Gurjeet Birdee, da Universidade de Medicina de Harvard, mostrou que a quantidade de estudos de qualidade com crianças com TDAH era muito pequena. Os poucos estudos existentes na literatura mostram resultados inconsistentes, mas sugerem benefícios em potenciais da prática de yoga. Pesquisas futuras com o yoga devem observar a eficácia destas práticas em deficiências cognitivas diversas, mas os estudos atuais se restringem à observação em crianças saudáveis, talvez pela necessidade de primeiro se elucidar em os mecanismos de ação do yoga para depois se extrapolarem os estudos para crianças com dificuldades de aprendizagem.

NAS ESCOLAS

A pesar dos conhecidos efeitos restaurativos do yoga na saúde mental (principalmente em adultos), hoje essa prática não está limitada ao uso terapêutico e vem sendo utilizada em uma grande variedade de situações e condições, incluindo contextos educacionais e escolares, já que o bem-estar e a saúde constituem objetivos primários da própria educação. Além disso, o desempenho escolar depende diretamente dos níveis de atenção e concentração e, como mencionado, o yoga tem se mostrado eficaz no desenvolvimento dessas variáveis.

De acordo com um relatório das Nações Unidas (Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, 2007), crianças e adolescentes ao redor do mundo passam, em média, 10 a 15 anos na escola. Sendo assim, a instituição de ensino tem um grande potencial para ensinar hábitos saudáveis, desde idades mais jovens, e promover o bem-estar e a saúde de crianças.

Para crianças que lidam com estressores extremos como traumas, abuso, ansiedade, dificuldades de aprendizagem, evasão escolar e bullying, a prática de técnicas contemplativas pode ser a diferença entre sucesso e fracasso, acadêmica, profissionalmente e na vida em geral. Além disso, o início da maioria dos transtornos mentais em adultos ocorre numa idade muito jovem, com 7,5% dos adolescentes preenchendo critérios para DSM-IV para uma ou mais condições mentais.

A solução para se lidar com ansiedade, estresse e dificuldades de aprendizagem certamente depende de muitos fatores, mas as evidências sugerem que muitos ou todos esses problemas podem ser amenizados pela prática de técnicas contemplativas. A prática dessas técnicas em escolas é capaz de redirecionar a atenção, melhorar a concentração, aumentar o autocontrole e fornecer mecanismos mais saudáveis e confiáveis de se lidar com o estresse.

O Dr.Sat Bir Khalsa, professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, observou que a implementação de um programa de yoga nas escolas foi essencial na recuperação da autoestima, confiança e saúde mental das crianças, assim como na promoção de atitudes positivas e melhoras na concentração, estresse e ansiedade.

Uma revisão sistemática (no prelo) deste ano conduzida por mim analisou apenas estudos controlados e randomizados sobre o ensino de yoga em escolas. O estudo observou o efeito de programas de yoga nas funções cognitivas e saúde mental de crianças e adolescentes. A revisão mostrou efeitos benéficos do ensino do yoga em escolas, mas afirmo que em alguns estudos os resultados são inconclusivos e demandam a reaplicação dos resultados, pois em muitos deles não há padronização ou adequação ao tipo de prática que deve ser realizado em crianças. Do mesmo modo, a frequência e a duração das práticas também não costumam ser apropriadas a uma faixa etária menor. Além disso, técnicas de yoga, como respiração e meditação, requerem alto controle atencional, uma função executiva que ainda não está madura em crianças e adolescentes. À medida que os lobos frontais do cérebro amadurecem, a capacidade de exercitar o controle da atenção aumenta, mas, ainda assim, as capacidades atencionais de crianças e adolescentes permanecem mais pobres comparadas às de adultos.

Os efeitos negativos encontrados em alguns estudos podem ser explicados pelos seguintes fatores: processo de adaptação, controle de atenção e inadequação da prática para crianças.

DESAFIO

O processo de se tornar consciente de tudo, incluindo as próprias emoções e sensações, e o fato de o yoga ser uma prática que demanda esforço e disciplina podem fazer com que o primeiro contato com o yoga seja desafiador. Quando a prática de yoga é adicionada às atividades extracurriculares, a criança pode experimentar níveis mais altos de estresse em curto prazo. De acordo com a pesquisadora Adele Hayes, do Departamento de Psicologia da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, esse aumento temporário nos níveis de estresse pode fazer parte do processo de se tornar consciente de tudo (mindful), à medida que as crianças começam a reconhecer seus padrões típicos de reação ao estresse. Além disso, a realização no yoga depende de autoconfiança adquirida. A princípio, tentar algo no qual não temos habilidade pode aumentar a sensação de inadequação.

Segundo Lisa Kaley-Isley, da Divisão de Psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, à medida que adultos e crianças passam de um estágio pré-contemplativo (início da prática) para o contemplativo, eles podem experimentar mais distresse (aflição, ansiedade e estresse), já que nesse momento há mais conscientização da necessidade de mudar, mas o indivíduo ainda não desenvolveu as ferramentas necessárias para realizar a mudança. Pesquisadores sugerem que esse achado seria revertido com uma intervenção de longa duração, mas estudos assim ainda não foram realizados.

Ainda, no que diz respeito a alguns achados negativos, além do processo de adaptação há também a questão do controle precário da atenção em crianças. Técnicas de yoga, como as respirações e a meditação, requerem alto controle atencional, uma função executiva que ainda não está madura em crianças e adolescentes. À medida que lobos frontais amadurecem, a capacidade de exercer o controle da atenção também aumenta, mas a habilidade ainda permanece muito mais precária em crianças e adultos.

Paradoxalmente, o yoga tem se demonstrado uma ferramenta importante na melhora da atenção em adultos e crianças. Desse modo, a prática de yoga deve ser especificamente adaptada para crianças, para que elas possam se beneficiar dos efeitos positivos observados em adultos, levando em consideração a maturidade de seus cérebros.

Ainda assim, de modo geral os estudos observaram reduções nos níveis de fadiga, raiva, inércia, ansiedade e estresse. Assim como aumentos na autoestima, autorregulação e capacidade de autocontrole. No que diz respeito às funções cognitivas, a prática de yoga em contextos escolares mostrou efeitos significativos na atenção, memória e habilidades de desenvolvimento, assim como melhoras em capacidades mentais diversas e no teste de Stroop (um conhecido teste de atenção).

Alterações negativas do humor estão associadas a declínios na função cognitiva. Então, é possível que os efeitos do yoga na saúde mental das crianças tenham refletido nas melhoras de funções cognitivas como a atenção. O foco da atenção é um aspecto-chave da prática de yoga e produz efeitos similares aos do relaxamento, já que também promove o autocontrole, a concentração e a conscientização do corpo.

EVOLUÇÃO

Estudos com crianças que sofrem de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade demonstraram melhoras significativas em escalas e tarefas de atenção após a prática de yoga. Estudos de neuroimagem mostraram que a meditação (uma das técnicas do yoga) tem efeitos mais significativos no putâmen e no córtex cingulado, estruturas cerebrais envolvidas no processamento da atenção. Melhoras na memória seguidas da prática de yoga também foram demonstradas extensivamente. Estudos observaram a ativação do hipocampo durante estados meditativos, uma estrutura subcortical responsável pela formação de novas memórias.

Apesar da grande quantidade de evidências acerca dos efeitos benéficos das técnicas contemplativas, a inserção de um programa de yoga em escolas para crianças e adolescentes está longe de ser uma realidade comum, embora escolas em São Paulo e no Rio Grande do Sul já estejam utilizando com sucesso essas técnicas no dia a dia das crianças. Infelizmente, o currículo tradicional foca primariamente no desenvolvimento intelectual, e as escolas vêm progressivamente perdendo a capacidade de adotar programas que promovam a saúde. A habilidade em lidar com o estresse, a ansiedade e a manutenção da saúde física, todas consequências da prática de yoga, é de valor inestimável em todas as esferas da vida de um indivíduo, incluindo a educação. Além disso, os estudantes precisam estar saudáveis para ser educados, e o desempenho escolar está diretamente relacionado ao status de saúde. Consequentemente, há uma necessidade cada vez maior e urgente de se desenvolver e investigar programas de saúde eficazes, de baixo custo e baseado em evidências, que possam ser utilizados em contextos escolares.

É preciso lembrar que as crianças saudáveis de hoje serão os adultos equilibrados de amanhã. Como disse o Dalai Lama: “Se a meditação fosse ensinada a toda criança, a violência estaria eliminada do mundo em apenas uma geração”.

YOGA: O QUE AS PESQUISAS MOSTRAM?

ADULTOS

  •  menores níveis de ansiedade e estresse
  •  menos depressão
  •  menos ataques de pânico
  •  maior autorregulação emocional
  • melhoras cognitivas
  •  melhoras nos níveis de atenção
  •  maior resiliência

CRIANÇAS

  •  melhoras cognitivas
  •  melhoras na autoestima
  •  melhoras na capacidade de autorregulação
  •  maior autocontrole
  •  melhoras nos níveis de atenção e memória
  •  melhoras em capacidades mentais diversas como no teste de Stroop

CAMILA FERREIRA VORKAPIC – é doutora em Psicologia pela UFRJ, com pós-doutorado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Sergipe e pesquisadora de Desenvolvimento Científico Regional CNPq\Fapitec no Laboratório de Neurofisiologia da Universidade Federal de Sergipe.