EU ACHO …

A MÁQUINA ESTÁ CRESCENDO

O homem foi programado por Deus para resolver problemas. Mas começou a criá-los em vez de resolvê-los. A máquina foi programada pelo homem para resolver os problemas que ele criou. Mas ela, a máquina, está começando também a criar problemas que desorientam e engolem o homem. A máquina continua crescendo. Está enorme. A ponto de que talvez o homem deixe de ser uma organização humana. E como perfeição de ser criado, só existirá a máquina. Deus criou um problema para si próprio. Ele terminará destruindo a máquina e recomeçando pela ignorância do homem diante da maçã. Ou o homem será um triste antepassado da máquina; melhor o mistério do paraíso.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

AMOR INTERROMPIDO

Sistema jurídico falho faz com que famílias adotivas tenham de devolver crianças mesmo após anos de convívio

Era por volta de 20 horas da sexta-feira 20 de novembro quando o telefone da dona de casa Carolina Alves Bella, de 43 anos, tocou. Do outro lado da linha, sua advogada trazia uma notícia que desestabilizaria toda a família: uma decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) determinava que Maria (nome fictício), a filha adotiva de Carolina e Manuel, fosse devolvida para a família biológica, aos cuidados da avó paterna, após mais de seis anos sob a guarda deles. A informação caiu como uma bomba naquele fim de semana que tinha tudo para ser especial, com a apresentação de balé de Maria depois de um ano de aula virtual e o descanso planejado em uma pousada da região para comemorar a conquista da menina. A decisão dizia “devolva-se imediatamente”. “Nosso mundo desabou. Perdemos a noção de tudo e começamos a chorar desesperadamente. foi como se minha filha fosse uma coisa, um objeto”, desabafou Carolina.

Maria hoje tem 9 anos e foi adotada legalmente por Carolina e Manuel em 2015, quando estava prestes a completar 3 anos. O casal, que estava habilitado e formalmente inscrito no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) desde 2011, recebeu a ligação do Fórum sobre a disponibilidade da criança no fim de 2014, e os encontros de aproximação começaram no Carnaval de 2015. Maria foi retirada do convívio com os genitores quando tinha 2 anos de idade por denúncias de maus-tratos e violações dos direitos da criança. Além disso, o genitor da menina foi condenado por matar o próprio pai, avô de Maria. Ela foi acolhida em um abrigo institucional, onde permaneceu por um ano.

Em fevereiro de 2019 houve uma sentença em primeiro grau confirmando a perda do poder familiar, mas a avó paterna de Maria recorreu da decisão pedindo a guarda dela. Em novembro passado o Tribunal de Justiça decidiu favoravelmente ao pedido da avó e, em recurso julgado no final de fevereiro, manteve a decisão de devolução da criança para a família biológica. Maria só está em casa ainda porque seus pais adotivos conseguiram um habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinando que ela fique com eles até o final do processo.

A advogada Larissa Jardim, vice-presidente do Grupo de Apoio à Adoção de Belo Horizonte (GAABH) e representante da família adotiva no processo de adoção, classifica a decisão do TJMG de “biologista” por privilegiar o vínculo de sangue da criança em vez do vínculo afetivo e emocional. “É um retrocesso e viola os direitos fundamentais da criança ao prevalecer o vínculo sanguíneo. A decisão desconsiderou e contrariou uma série de relatórios técnicos feitos pelo próprio Poder Judiciário atestando a irresponsabilidade da família biológica sobre essa criança. Determinar que ela volte para o contexto abusivo é tratá-la como se ela fosse de segunda categoria, e ela não está tendo seus interesses considerados”, disse Jardim ao citar o artigo 39 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que diz que “em caso de conflito entre direitos e interesses do adotando e de outras pessoas, inclusive seus pais biológicos, devem prevalecer os direitos e os interesses do adotando”.

Quando uma criança é retirada dos cuidados dos pais biológicos, o Judiciário faz várias análises psicossociais e técnicas até esgotar todas as possibilidades de manutenção dessa criança em sua família de origem ou na chamada família extensa (tios, avós, primos). Não sendo possível essa reintegração, o Ministério Público entra com um pedido de destituição do poder familiar. O artigo 163 do ECA determina um prazo máximo de 120 dias para a conclusão desse pedido e ressalta que “no caso de notória inviabilidade de manutenção do poder familiar, caberá ao juiz dirigir esforços para preparar a criança ou adolescente com vistas à colocação em família substituta”.

A realidade é outra. Um sistema judiciário ineficiente e lento faz com que dificilmente esses tipos de ação sejam julgados dentro desse prazo de 120 dias. Dados da Associação Brasileira de Jurimetria (ABJ) apontam que o tempo médio desses casos no Sudeste, por exemplo, é de 1.137 dias – algo em torno de três anos. Um dos motivos é o baixo número de instâncias especializadas. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), são 143 Varas exclusivas de Infância e Juventude no país, número considerado “muito pequeno” para a quantidade de casos. Segundo dados do SNA consultados no último dia 20, há hoje 30.863 crianças acolhidas, 4.951 disponíveis para adoção e 4.230 em processo de adoção. Desse total, 2.474 foram adotadas em 2020. Não há, no entanto, números oficiais sobre ações judiciais determinando que crianças adotadas retornem para sua família de origem. Segundo o CNJ, 9.317 crianças que estavam acolhidas voltaram a viver com a família biológica em 2020, mas não é possível saber quantas delas estavam morando em abrigos e quantas já estavam sob a guarda da família substituta. Diante desse cenário, o caso complexo envolvendo a situação de Maria não foi o primeiro e não deverá ser o último, e por isso tem levantado discussões sobre a insegurança jurídica que essas decisões causam nas famílias adotivas.

Fomos atrás de outros três casos de decisões judiciais semelhantes, que determinaram o retorno de crianças adotadas para suas famílias de origem, privilegiando os vínculos biológicos em detrimento dos afetivos. Em agosto do ano passado, em meio à pandemia do coronavírus, a Justiça de terminou que Joaquim (nome fictício), de 3 anos, passasse a receber a visita dos pais biológicos, mediada por profissionais da Vara da Infância. O menino foi afastado do convívio dos genitores após o Conselho Tutelar ser acionado pelo hospital em que o bebé deu entrada vítima de politraumatismo e fraturas cm várias costelas, com apenas 17 dias de vida. Joana e Marcelo receberam a guarda provisória de Joaquim quando ele estava com 4 meses e meio e, depois de dois anos, foram informados da decisão que estipulava que fossem realizadas visitas mediadas dos genitores a Joaquim com o intuito de restituir-lhes a guarda da criança. “A adoção é linda, mas isso nos mostrou um mundo que não conhecíamos. Decisões assim causam um imenso dano psicológico nas famílias adotivas”, disse Joana. As visitas dos pais biológicos ainda não aconteceram e a família aguarda o julgamento do recurso. “Acreditávamos muito na Justiça, mas fiquei desiludida. Joaquim não tem ideia do que está acontecendo. Quando estamos com ele, vivemos a vida como ela deveria ser”, disse a mãe.

O casal Alfredo e Gisele (nomes fictícios) também está passando por momentos de angústia e insegurança relacionados à adoção das filhas Bruna, de 8 anos, e Bianca, de 10, que estão sob a tutela deles há dois anos. Uma decisão judicial do final de 2019 determinou que as meninas voltassem a viver no abrigo até que o processo de destituição familiar seja finalizado. As irmãs foram retiradas da família biológica quando tinham 3 e 6 anos por denúncias de maus-tratos e de abuso sexual. As meninas viveram no abrigo durante três anos, até que foram encaminhadas para adoção e conheceram Alfredo e Gisele. “Nossas filhas chegaram ao abrigo em uma situação de absoluta negligência. A mais velha mal conseguia falar e expressar seus sentimentos. Fizemos tudo dentro da legalidade, estávamos habilitados, não passamos na frente de ninguém. Desde que saiu essa decisão, entramos com vários recursos e perdemos todos. Ainda estamos aguardando o julgamento de mais um. Se não ganharmos, vamos recorrer ao Superior Tribunal de Justiça”, afirmou Alfredo.

Gisele, mãe das meninas, disse que vê com preocupação decisões que privilegiam os laços sanguíneos das crianças e afirmou ter muito medo de perder as filhas. “Eu não vivo mais em paz. Fico pensando que algo de ruim pode acontecer a qualquer momento. Em nenhum momento foi olhado para o lado das crianças. Quer dizer então que viver no abrigo é melhor do que viver com a gente? Vamos lutar até o fim, e desistir não é uma palavra que faz parte do nosso vocabulário”, afirmou.

Para a advogada Silvana do Monte Moreira, presidente da Comissão Nacional de Adoção do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFam), casos como esses abalam as famílias envolvidas na adoção legal e acabam desestimulando e trazendo descrença ao processo. Ela destacou que, para uma família se tornar apta para adotar uma criança, é preciso passar por uma complexa habilitação e cumprir uma série de requisitos que incluem avaliação psicológica, criminal e laudos da assistência social, entre outros.

Outro caso que chamou a atenção foi o do casal homoafetivo Juliano Peixoto de Pina, de 38 anos, e Jhonatan Pereira de Araújo Peixoto, de 41 anos. Eles moram em Goiás e conviveram apenas 12 dias com a filha adotiva, Melissa (nome fictício), que está prestes a completar 1 ano. A bebê foi adotada quando estava com 6 meses, depois de seus pais adotivos esperarem seis anos na fila. Poucos dias após receberem Melissa em casa, Juliano e Jhonatan foram surpreendidos com uma ordem de retorno da criança para a família acolhedora – uma família que não é habilitada para adotar, mas se inscreve no sistema a fim de fornecer lar temporário a crianças que estão em processo de adoção para que elas não esperem esse tempo vivendo em abrigos. O argumento da decisão judicial foi o vínculo que a criança teria criado com a família acolhedora. A família biológica não está envolvida no processo. Antes de cumprir a ordem judicial de entregar Melissa, Juliano decidiu se resguardar de possíveis falsas acusações e levou a bebê a um hospital, para passar por uma consulta médica e exames que comprovassem que ela estava com saúde plena e sendo bem cuidada. Um casal de amigos os acompanhou e foram eles que entregaram a bebê ao Conselho Tutelar. “No dia 6 de outubro nós nos despedimos na porta do hospital. Desde então, nunca mais vi minha filha, nem recebi notícias. Estamos aguardando julgamento do recurso”, afirmou Juliano. No último dia 6 de abril, o Tribunal de Justiça de Goiás manteve a decisão de deixar a criança com a família acolhedora, o que fez o casal desistir de lutar pela menina. “Decidimos não insistir num embate que só geraria danos à Melissa.”

Para Silvana Moreira, situações como essa são muito graves porque podem abrir precedentes para que pessoas não habilitadas no processo formal de adoção se inscrevam como acolhedoras e, depois, peçam à Justiça a guarda da criança, como forma de burlar o sistema. “Família acolhedora é um serviço temporário criado para oferecer melhores condições para a criança. Isso não pode acontecer.”

Mônica Molica, presidente da Comissão Estadual de Direito à Adoção da Ordem dos Advogados do Brasil – São Paulo (OAB-SP), ressaltou que a adoção é uma medida protetiva de exceção, que só ocorre quando são esgotados todos os meios possíveis de manter a criança na família de origem. Para isso, o Judiciário conta com um setor técnico com psicólogos e assistentes sociais que elaboram os laudos que dão suporte às decisões. “Defendemos que deve prevalecer o melhor interesse da criança, que deve ser ouvida respeitando os limites de sua idade. Tirar uma criança da família adotiva após anos de convivência é um novo trauma na vida dessa criança. E nos preocupa uma decisão judicial que torne o processo de adoção instável, porque traz consigo a insegurança jurídica”, disse.

O desembargador Jos é Antônio Daltoé Cezar, presidente da Associação Brasileira de Magistrados da Infância e da Juventude (Abram.inj), atua há mais de 25 anos na área da infância e disse que já está vendo reflexos dessas decisões no universo da adoção, com famílias habilitadas procurando os fóruns de suas cidades pedindo para riscar o estado de Minas Gerais do processo com medo de que aconteça o mesmo com elas. “Essa situação nos preocupa muito. Isso já é um reflexo e mostra uma chance a menos de uma criança de Minas conseguir ser adotada. Temos de dar prioridade ao que é melhor para a criança. Não podemos esperar dois, três anos para que um processo finalize. O tempo da criança é outro”, afirmou.

Na avaliação de Daltoé, situações como essas ocorrem porque falta treinamento de juízes e assistentes que atuam nas Varas de Infância em todo o Brasil. “Muitos tribunais se preocupam apenas em seguir as regras técnicas de um processo. Mas quando não há má-fé no processo de adoção temos de dar uma outra solução. Não podemos transformar a criança em uma mercadoria e desconsiderar a história que ela construiu ao lado dos pais adotivos”, disse. Segundo Daltoé, são poucos os casos desse tipo que chegam à instância máxima, mas o entendimento do STJ tem sido o de manter a criança em sua família adotiva. “A avaliação é feita levando em consideração o que é o melhor para a criança. Não existe uma certidão de propriedade da família biológica.”

No fim de fevereiro a Comissão Externa de Políticas para a Primeira Instância da Câmara dos Deputados realizou uma audiência pública com participação de técnicos do CNJ para debater o problema. “Esse não é um caso isolado e nós não podemos deixar que a lentidão jurídica deixe essa criança em situação de fragilidade. A criança é a prioridade absoluta e ela tem de ser o objeto principal dessa discussão, e não a expectativa da família”, disse a deputada federal Paula Belmonte (Cidadania-DF), ao ressaltar ler medo de que decisões como essa façam o país regredir nos avanços conquistados nas políticas de adoção. A deputada afirmou que vai protocolar um projeto de lei que crie mecanismos para o cumprimento dos prazos pela Justiça. “Não precisamos de mais leis sobre adoção, mas temos de fazer cumprir as leis que existem. Se existem lacunas na legislação, precisamos preenchê-las”, afirmou.

O casal Válbio Messias da Silva, de 57 anos, e Liamar Dias de Almeida, de 55 anos, viveu na pele o drama de adotar urna criança e correr o risco de perder sua guarda por causa de uma decisão judicial que determinava o retorno da menina à família de origem. O caso ocorreu em 2013 e ficou conhecido no Brasil todo como “Caso Duda”, em referência ao processo envolvendo Maria Eduarda Rosa Almeida Silva, hoje com 11 anos, filha de Válbio e Liamar.

Duda havia sido separada da família biológica aos 60 dias de vida junto a seus seis irmãos mais velhos por causa de denúncias de negligência e maus-tratos. A menina foi levada para um abrigo, onde permaneceu por um ano e oito meses antes de ser encaminhada para a tutela provisória de Válbio e Liamar. Depois de dois anos de convivência com Duda, o casal foi surpreendido por uma decisão judicial de reintegração imediata da filha à família de origem – os genitores haviam recorrido da destituição do poder familiar e já haviam recuperado a guarda dos outros seis filhos, o que tornava o caso ainda mais difícil. “Ficamos seis anos na fila de adoção e nunca imaginamos que poderíamos passar por uma situação como essa. Para nós, o risco de algo dar errado era quase zero. Fiquei muito nervosa, chorei muito, e nosso advogado da época disse que não tínhamos chance nenhuma de reverter essa decisão”, lembrou Liamar, ao destacar que a família decidiu trocar de advogado para continuar lutando pela filha.

O casal entrou com inúmeros recursos, que eram sucessivamente negados, até que decidiram tornar o caso público por meio da campanha “Fica, Duda”. “A repercussão foi imediata, milhares de pessoas nos apoiaram e vestiram a camisa de nossa luta. Fizemos passeata, audiência pública no Congresso Nacional”, contou. Em dezembro de 2018, depois de cinco anos e uma batalha de recursos, Válbio e Liamar finalmente conseguiram a destituição do poder familiar e a adoção definitiva de Duda. Hoje a menina sabe tudo que aconteceu e convive com os irmãos biológicos, para alegria das duas famílias. “Sou muito segura em relação à minha maternidade. O contato deles é frequente e acho muito importante, pois é parte da história da minha filha.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 04 DE MAIO

A VIDA NÃO É UM MAR DE ROSAS

O coração conhece a sua própria amargura, e da sua alegria não participará o estranho (Provérbios 14.10).

A vida não é um parque de diversões nem um mar de rosas. A vida não é uma estufa espiritual nem uma redoma de vidro. Não podemos nos blindar contra os reveses da vida. A vida não é indolor. Nosso coração é um campo onde se travam muitas batalhas. Nessa peleja renhida, muitas vezes nosso coração conhece profundas amarguras. Lutamos contra medos e fraquezas. Travamos uma batalha sem trégua contra o diabo e o pecado. Pelejamos contra os outros e ainda contra nós mesmos. Muitas vezes, entramos no palco da vida como um ser ambíguo e contraditório. Decepcionamos as pessoas, e elas nos decepcionam. Choramos por nós mesmos e pelos membros da nossa família. Nessa saga cheia de gemidos, a cidadela do nosso coração é um país distante e uma terra desconhecida, onde não repartimos nossas amarguras mais profundas com as pessoas mais íntimas nem as alegrias com os estranhos. Muitas vezes, a solidão é nossa companheira de caminhada. Conversamos com nossa própria alma. Abrimos com nosso próprio coração um solilóquio no qual rasgamos o íntimo para conhecer nossas amarguras e alegrias.

GESTÃO E CARREIRA

QUE DEVEM FAZER OS GESTORES POR SEUS FUNCIONÁRIOS QUE TÊM FILHOS

O equilíbrio entre previsibilidade e flexibilidade.

Mesmo durante a pandemia, os gestores são pressionados a entregar resultados. Eles precisam liderar efetivamente suas equipes impulsionando-lhes o desempenho e ao mesmo tempo apoiando as necessidades da vida profissional e pessoal dos funcionários, quer eles tenham sido convocados a trabalhar presencialmente, quer estejam remotos no momento. Sobretudo os pais que trabalham estão se esforçando ao máximo para conciliar o emprego com a assistência aos filhos pequenos, incluindo as tarefas escolares.

Nossa pesquisa indica que reaprender a gerenciar pessoas – principalmente as que têm filhos pequenos em casa – nesta crise é um dos desafios mais importantes que os chefes enfrentam hoje. É também uma grande oportunidade: se tratada com bom senso, ela pode melhorar o bem-estar, a cultura e o desempenho das equipes, agora e no futuro. Para chegar a esses resultados positivos, é bom entender primeiro o dilema que você está enfrentando. Você também deve utilizar as estratégias certas – ou seja, aquelas que equilibram previsibilidade e flexibilidade – para que você e seus funcionários sejam bem-sucedidos.

Os gestores de funcionários horistas da linha de frente, em particular, devem prestar muita atenção, uma vez que esses funcionários geralmente são os que mais precisam de previsibilidade e flexibilidade, mas são os que têm menor probabilidade de obtê-las, na medida em que precisam conciliar os cuidados com os filhos e sair de casa para trabalhar durante a pandemia. No entanto, independentemente de quem você está gerenciando, há muitos conselhos baseados em evidências sobre como aplicar uma estratégia de previsibilidade e flexibilidade à sua equipe.

O DILEMA DO GESTOR

Pense no que está sendo pedido aos gestores atualmente. Em primeiro lugar, não ignore a covid-19 e seu efeito na vida dos trabalhadores. Se tentar impor prazos rígidos e reuniões frequentes, não estará reconhecendo as outras ansiedades e exigências que as pessoas – mais uma vez, e em especial, os pais que trabalham – enfrentam. A pesquisa mostra que os gestores que são exageradamente exigentes no quesito tempo presencial e estabelecem prazos arbitrários sem inputs dos funcionários – no caso do telemarketing em particular – aumentam o stress desses indivíduos. Eles também ignoram as mães e pais que poderão pedir demissão se forem forçados a escolher entre trabalho e família. Da mesma forma, pode haver para os trabalhadores horistas momentos em que eles precisam se afastar do local de trabalho para receber uma ligação inesperada do filho, do professor ou da babá, mesmo que não seja no horário formal de descanso. Estabeleça uma norma de flexibilidade oferecendo-se para substituí-los ou permita que colegas façam isso. Ambientes em que as pessoas se sentem com pouco controle do limite entre pessoal e profissional raramente levam ao bom desempenho.

Ao mesmo tempo, não seja condescendente demais. Não aja como se rotinas e metas previsíveis não tivessem nenhuma importância. Nem dê carta branca a “acordos idiossincráticos” super relaxados (como negociar pessoalmente arranjos e horários de trabalho) apenas para os pais que trabalham. Fazer isso de forma perceptível ignorando outros funcionários ou forçando-os a tirar folga cria discórdia na equipe.

Os gestores precisam adotar, portanto, duas estratégias aparentemente conflitantes: previsibilidade (ou seja, a estrutura para organizar horários, prazos, rotinas e backups) e administração da flexibilidade (ou seja, disposição para mudar tarefas e processos, reduzir tarefas de baixa prioridade e incorporar tempo de folga planejado para absorver os prazos para pais que trabalham).

ADICIONE ELEMENTOS DE PREVISIBILIDADE AO DIA DE TRABALHO

Primeiro, procure tornar o trabalho o mais previsível possível sem sobrecarregar os pais. A pesquisa mostra que os funcionários, principalmente os que têm demandas familiares, preferem horários estabelecidos ou pré-planejados porque eles podem então gerenciar melhor sua vida fora do trabalho. Com a covid-19, os horários geralmente são corridos, mas os gestores ainda podem tentar bloquear períodos para interação e comunicação focada e, quando isso não funcionar, utilizar sistemas de apoio. A seguir, algumas sugestões.

DESTAQUE “HORÁRIOS PRIORITÁRIOS”.

Os gestores podem ajudar a criar prioridades organizando horários prioritários ou “janelas de disponibilidade”. Isso requer inputs do cronograma de todos os membros da equipe, incluindo perguntar como acomodar melhor as necessidades da família. Dependendo da estrutura do grupo e das respectivas tarefas individuais, você pode determinar os mesmos horários prioritários (por exemplo, das 10 às14 horas) quando todos estão disponíveis para colaborar. Atividades da equipe realizadas durante esse “horário coletivo” devem ter metas claras. A Microsoft, por exemplo, encorajou os gestores a limitar o tempo das reuniões a 30 minutos para garantir que as pessoas continuem envolvidas. Outra opção é fazer com que cada membro da equipe cubra um conjunto de horários prioritários (porexemplo,8-11, 11-14,14-17); assim alguém sempre estará disponível para os clientes ou consumidores. Ferramentas virtuais como uma mensagem instantânea também podem ajudaras pessoas a se comunicar com colegas de diferentes horários e durante horários não prioritários. Embora não seja possível honrar todas as exigências de horários, é importante consultar os funcionários, explicar como e porque quaisquer decisões são tomadas, e dar-lhes liberdade de executar quaisquer projetos independentes quando for conveniente para eles.

CRIAR UM SISTEMA DE CAMARADAGEM.

Estudos mostram que formalizar a cobertura de apoio é uma forma eficiente de auxiliar os funcionários que estão lidando com necessidades de mudança da família. Designe um “colega a cada membro da equipe”, que transmitirá as informações importantes quando os empregados perderem reuniões por problemas familiares de última hora. Os gestores devem iniciar e supervisionar o processo de pareamento, mas, sempre que possível, solicitar input ao funcionário. Se dois pais com filhos pequenos formarem um par, terão um benefício adicional que é o potencial apoio informal do colega, já que provavelmente conversarão não só sobre trabalho, mas também sobre família. Em organizações de serviços essenciais, que a rigor requerem trabalho presencial, é possível treinar de forma proativa ou contratar trabalhadores flutuantes para substituir pessoas que inesperadamente precisam de um período livre.

AGENDE REUNIÕES INDIVIDUAIS REGULARMENTE.

Enquanto a crise continua, é ainda mais importante para os gestores comunicarem-se regularmente com cada funcionário, sobretudo os pais que trabalham. Infelizmente poucos chefes fazem isso de forma estruturada. Para começar, estabeleça reuniões individuais recorrentes, consistentes e pessoais (por videoconferência ou telefone se você não estiver realizando trabalho essencial no local) com todos os membros de sua equipe tanto para discutir suas prioridades de trabalho como para fazer perguntas abertas sobre como eles estão conseguindo equilibrar as demandas do trabalho e da família.

A última é crucial: a pesquisa mostra que não é suficiente apoiar os funcionários profissionalmente. Para reduzir o conflito trabalho/família, aborde especificamente essas questões e descubra os recursos de que as pessoas precisam para ter bom desempenho tanto no trabalho como fora dele. Talvez você queira aprofundar o apoio familiar nessas conversas. Ele é composto de quatro fatores amplamente estudados em empresas de todo o mundo: apoio emocional (fazer perguntas aos funcionários sobre essas questões e demonstrar empatia), apoio instrumental (solicitar input dos funcionários sobre suas preferências para acomodar horários), exemplo a seguir (demonstrar estratégias pessoais que utilizou quando teve de gerenciar demandas competidoras) e gestão trabalho/família criativa (discutir soluções que ajudem os pais que criam filhos, mas ainda garantir que o trabalho seja feito a contento). Nossa pesquisa mostra que, enquanto praticamente 100% dos gestores se consideram apoiadores de funcionários com família, somente metade de seus subordinados concorda com essa avaliação. Um jeito fácil de resolver essa discrepância é reservar tempo para discussões pessoais e garantir que você sempre pergunte a todos de sua equipe – tanto pais de filhos pequenos como não pais – como as coisas estão indo no trabalho e na vida pessoal e se há alguma coisa que você ou a empresa pode fazer para ajudar.

APRENDA A ADMINISTRAR A FLEXIBILIDADE

Previsibilidade funciona até certo ponto. Inevitavelmente, algum imprevisto pode surgir. Um funcionário pode precisar ignorar seu horário prioritário para cuidar de seu filho que está doente ou que tem energia demais para ficar sentado assistindo a uma aula via zoom. Um projeto pode ser adiado, um cliente pode ligar com um pedido urgente ou você descobre um problema em sua cadeia de suprimentos. Os gestores precisam, portanto, saber administrar a flexibilidade. Isso pode parecer desafiador em algumas situações, principalmente no varejo e serviços de alimentação, onde a entrega just in time é geralmente a norma. A seguir, apresentamos algumas estratégias a ser consideradas.

GARANTA CARGAS DE TRABALHO E HORÁRIOS SUSTENTÁVEIS.

O conceito “flexibilidade flexível” começou com um estudo centrado em profissionais extremamente talentosos sobrecarregados de trabalho (principalmente mulheres com familia) que negociaram redução de jornada de trabalho (com redução proporcional de remuneração) para dispor de mais tempo para tudo, de família a outros interesses pessoais. Os gestores se associaram a esses funcionários para criar cargas de trabalho mais sustentáveis e frequentemente faziam checagens para ter certeza de que ninguém estava registrando mais horas do que era normal. Sugerimos que você pense nessa abordagem para todos os funcionários neste exato momento.

Isso pode exigir eliminar trabalho de pouco valor – por exemplo, descartar um relatório que ninguém lê ou permitir que um funcionário da linha de frente solicite redução de horas no início ou no fim do dia, quando a demanda dos clientes quase sempre tende a ser menor. Outras possibilidades incluem permitir dois talentosos pais que trabalham partilhem um trabalho temporário. A flexibilidade baseada no tempo também pode ajudar. Pense em dividir a jornada, quando pais trabalham de manhã, ajudam seus filhos com a escola à tarde e início da noite e depois voltam ao trabalho à noite ou no fim de semana. Algumas pessoas podem querer trabalhar seis dias por semana com menos horas, ou quatro dias por semana com mais horas. Você também precisa mudaras metas de desempenho para semanais ou mensais, em vez de diárias ou semanais, o que dá às pessoas a liberdade de executar suas tarefas durante o horário que for melhor para elas. Encoraje-as a falar abertamente se precisarem de flexibilidade.

SEJA UM BOM EXEMPLO A SEGUIR.

Você pode assumir a liderança em sua equipe para remover barreiras sociais usando a flexibilidade trabalho/família. A ideia de que “a miséria nunca está só” se confirma em estudos que mostram a importância de comunicar aos funcionários que conflitos entre trabalho e vida pessoal são comuns e que todos, incluindo você, às vezes precisam se reorganizar. Compartilhar suas preocupações – principalmente se você trabalha enquanto cuida das crianças ou faz seus próprios deveres escolares em casa – expõe essa tensão. Fazer mudanças em sua própria agenda e conversar sobre elas abertamente também mostra a flexibilidade como uma solução.

Esta abordagem compensa: pesquisas sobreo poder dos colegas mostram que quanto mais os gestores utilizam a flexibilidade, maior a probabilidade de seus funcionários sentirem que também podem usar a flexibilidade trabalho/vida pessoal sem medo.

Verifique as normas das políticas. Antes da pandemia, muitos gestores se prendiam a políticas da organização relativas a trabalho flexível e trabalho remoto. Havia regras claras sobre quem podia aproveitá-las, onde e quando. Mas agora está na hora de checar. Se sua empresa costumava ter, por exemplo, a exigência de que os funcionários precisam residir a menos de 120 quilômetros do escritório, mas agora ninguém virá para a empresa por pelo menos um ano, você poderia certamente permitir que um jovem pai trabalhasse na casa de seus pais em outro estado para usufruir de assistência gratuita e segura para o filho pequeno. Se o staff precisava estar presente na empresa todos os dias, talvez agora as pessoas possam cuidar pessoalmente do trabalho de segunda a quarta-feira, enquanto as obrigações administrativas são desempenhadas remotamente às quintas e sextas-feiras. Pense em desenvolver para a equipe um estatuto de flexibilidade que inclua uma lista de novas regras mutuamente acordadas para trabalhar durante a pandemia. E alguns empregadores – incluindo aqueles com funcionários horistas – estão admitindo semanas de trabalho comprimidas, com três ou quatro dias com jornadas mais longas, mas menos dias de trabalho, o que facilita conciliar a assistência às crianças por parentes reduzindo custos e esgotamento.

AUMENTE A USABILIDADE DAS POLÍTICAS DE LICENÇAS.

Somente 17% dos trabalhadores americanos têm acesso a férias familiares remuneradas, e 24% deles – incluindo muitos horistas e funcionários de serviços essenciais – ainda não dispõem de licença médica remunerada. Mas mesmo as pessoas que possuem esses benefícios raramente os utilizam totalmente por causa de falta de pessoal, incapacidade de ter licença aprovada, o estigma de nem sempre colocar o trabalho em primeiro lugar, ou medo de perder o emprego. Principalmente agora, os gestores precisam garantir que os funcionários se sintam seguros para tirar licenças remuneradas (seguidas de licença não remunerada quando necessário), mesmo porque ajudaria a evitar o espalhamento da covid-19 se um funcionário ou algum membro da família estiver infectado.

Os gestores também precisam ser francos sobre o que acontece durante o período de ausência. Eles devem deixar claro que se não se espera que os funcionários trabalhem, suas equipes não devem esperar respostas a e-mails.

Além disso, ninguém deveria ligar ou mandar mensagem de texto para um funcionário quando ele, supostamente, não está trabalhando. Esses tipos de comunicação costumam ser muito mais invasivos porque são mais difíceis de ignorar. Emergências ocorrem, mas você deve definir previamente o que significa emergência para garantir que todos estejam alinhados.

EVITE SANÇÕES.

Também é importante garantir que funcionários que solicitam flexibilidade durante a pandemia não sofram consequências. Ninguém deveria ser impedido de ter aumento de salário, promoções ou novas oportunidades porque precisaram modificar seus horários ou usar todos os dias de férias e de licença médica.

Uma solução é ajustar os padrões de desempenho – por exemplo, permitindo que pais de filhos pequenos tivessem mais tempo para atingir determinados critérios. Algumas universidades estão estendendo os períodos de contratação de professor assistente. Escritórios de consultoria e advocacia poderiam fazer o mesmo. Outra solução, principalmente para funcionários de vendas, é criar um comitê de auxílio à remuneração para ajustar as cotas de vendas ou mudar temporariamente as estruturas de remuneração (por exemplo, oferecer somente remuneração baseada emcomissões ou até combinação de remuneração básica com bônus de comissão). E no setor de serviços duramente atingidos como hospitalidade, que está enfrentando as maiores quedas de demanda pelo consumidor, alguns funcionários estão concordando com os direitos de recontratação depois dos seis meses de seguro-desemprego, que garante aos trabalhadores demitidos o direito de ser recontratados em primeiro lugar.

Outros estão oferecendo licença médica ilimitada para horistas. Isso pode manter os funcionários motivados e fidelizados, e compensar os sentimentos de derrota durante esses momentos economicamente problemáticos.

Esses foram apenas alguns exemplos de como é importante ser flexível, não só em agendar horários, mas também em adaptar políticas e práticas relevantes de recursos humanos durante a pandemia.

MUDAR A FORMA DE LIDERAR SUA EQUIPE

Tendo como prioridade atingir as metas de desempenho durante uma crise econômica – pode parecer assustador. Mas você não pode gerenciar da mesma forma que fazia há um ano. Estas estratégias podem ajudá-lo a gerenciar a previsibilidade e a flexibilidade, e ajudará você e seus funcionários, principalmente aqueles com filhos pequenos, a superar as pressões atuais. Elas também podem ajudá-lo a criar uma equipe mais forte, capaz de ter bom desempenho durante a pandemia e depois dela.

ELLEN ERNST KOSSEK – é professora na Purdue University. Atualmente ela estuda como os limites entre trabalho e vida pessoal, flexibilidade e trabalho remoto impactam a inclusão de mulheres e a igualdade de carreiras.

KELLY SCHWINO WILSON – é professora associada de gestão na Purdue University. Sua pesquisa foca na Interface trabalho/família, relações interpessoais e liderança.

LINDSAY MECHEM ROSOKHA – é aluna de doutorado na Purdue University e estuda comportamento organizacional e recursos humanos. Sua pesquisa inclui trocas interpessoais, diversidade e liderança de funcionários no âmbito do trabalho e fora dele.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TDAH – UM SINTOMA CULTURAL

Comum na infância, o TDAH afeta de 5% a 8% da população e é considerado um distúrbio biopsicossocial, o que signi1ica que não é possível separar causa genética da psicológica e do meio em que se vive

Quem nunca ouviu falar sobre o TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade)? O tema vem sendo veiculado na imprensa, tanto a falada quanto a escrita, além da variedade de abordagens e debates em torno do assunto. O TDAH vem ocupando rodas de conversa em diversos ambientes e principalmente entre pais e professores, além dos consultórios médicos, psicológicos e psicopedagógicos. Algumas dessas ideias são levantadas no livro Cabeça nas Nuvens: Orientando Pais e Professores a Lidar com o TDAH, de Jane Patrícia Haddad (Editora Wak), lançado em 2013 em diversas capitais do Brasil.

Passados oito anos da publicação, Jane chegou à conclusão de que, se fosse reescrevê-lo hoje, consideraria diversos outros olhares e daria maior ênfase ao âmbito familiar dessas crianças e jovens que já são parte de algumas estatísticas, bem como um alerta que parece passar despercebido por muitos.

Ao escrever Cabeça nas Nuvens, ela refletiu sobre o aumento de diagnósticos em crianças e jovens com TDAH e o uso do medicamento, e o que eles estariam nos sinalizando. A leitura do livro teve, na época, o objetivo de provocar e suscitar caminhos ainda não percorridos por pessoas que buscam outra forma de entender o TDAH.

A nomenclatura TDAH {transtorno do déficit de atenção com hiperatividade) passou a ser usada na década de 80. Antes disso, o transtorno era mais conhecido como DCM (disfunção cerebral mínima). Naquela época, já era tratado com psicoestimulantes. O TDAH é um dos transtornos neurológicos do comportamento mais comuns na infância. A estimativa é de que afeta cerca de 5% a 8% da população. O que vem sendo debatido entre as diversas áreas do saber são as causas do transtorno, entendido até o momento como distúrbio biopsicossocial, ou seja, não se pode separar a causa genética da psicológica e do meio em que se vive.

Os principais sintomas do TDAH têm aparecido na idade escolar, já que, conforme as exigências escolares aumentam, as crianças começam a apresentar falta de atenção, recorrentes esquecimentos, dificuldade em se concentrar, em seguir instruções e combinados e em organizar tarefas por suas prioridades, além de iniciarem várias atividades ao mesmo tempo e quase sempre não as finalizarem. De acordo com a Medicina, as manifestações que hoje caracterizam o transtorno estão classificadas pelo DSM-IV e situam-se em torno de três sintomas básicos: desatenção, hiperatividade e impulsividade. A característica essencial desse transtorno é a persistência de desatenção e/ou hiperatividade.

Iniciei meus estudos sobre o TDAH no ano de 2007. De lá para cá venho proferindo conferências junto à Educação com o intuito de ampliar o debate sobre os diagnósticos e suas conduções. Toda vez que recebo uma criança ou jovem em meu consultório trago o cenário contemporâneo para compor a história de vida daquele sujeito. Crianças e jovens estão imersos em um núcleo familiar muitas vezes tomado pela correria de uma vida que seus pais e familiares (adultos) estão envolvidos. Um mundo, por si só, hiperativo e desatento a questões essenciais, como o tempo de educar, que é incompatível com a pressa.

Independentemente dos sintomas, uma preocupação específica vai na direção de se minimizarem os efeitos comportamentais causados pelo transtorno. Segundo avaliação da psicóloga e pesquisadora Camila Ferreira Vorkapic, uma das propostas está no yoga. “Crianças atentas, relaxadas e com melhor desempenho escolar? Sim, isso é possível. De acordo com novos estudos a resposta está na prática das chamadas técnicas contemplativas, como o yoga”, afirma.

O yoga é uma antiga prática mente-corpo originada na Índia há mais de 2 mil anos e descrita sistematicamente centenas de anos depois (Yoga Sutras de Patanjali, aproximadamente 900 a.C.). Apesar de, segundo as escrituras tradicionais, seu objetivo ser o alcance de um estado unificado de consciência e autorrealização, o yoga tem sido usado para melhorar a saúde geral e o bem-estar. Sua prática envolve técnicas diferentes como posturas físicas (asanas), respiração (pranayama), relaxamento profundo (yoganidra), meditação, entre outras.

CAMILA FERREIRA VORKAPIC – é  doutora em Psicologia pela UFRJ, com pós-doutorado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Sergipe e pesquisadora de Desenvolvimento Científico Regional CNPq\Fapitec no Laboratório de Neurofisiologia da Universidade Federal de Sergipe.