A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TDAH – O FANTASMA DOS MEDICAMENTOS

O uso crescente da Ritalina, droga utilizada no combate ao transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, quebra recordes no Brasil e preocupa pelo fato de o estimulante estar sendo usado de forma indiscriminada

A questão da prescrição de medicamentos deve ser tratada com cautela. Em 2012, fui uma das participantes de uma seleção de reportagens no jornal O Estado de Minas, cujo título era “Dispara em BH o uso de remédios contra a hiperatividade”. Belo Horizonte foi considerada a segunda capital que mais consumia a Ritalina. Alguns dados da Anvisa, além de informações em diversos sites e fontes, me inquietaram ainda mais.

Eu me vi perplexa, e continuo até o momento, mediante o aumento (ainda mais) da utilização desses e outros medicamentos por crianças, jovens e também adultos, sendo eles muitas vezes pessoas bem informadas, que fazem uso de tais estimulantes apenas para conseguir produzir mais ou mesmo ter “um barato diferente”, uma sensação boa e também não tão boa, na qual já escutei em meu consultório, conforme mostro abaixo:

“Sinto-me uma máquina quando tomo Ritalina. É muito bom. Você já experimentou? Tenho tomado para as baladas e quando saio já tomo logo duas” (A. L., 17 anos). “Outro dia, eu vendi a Ritalina para alguns colegas, íamos fazer provas a tarde toda. Eles adoraram e ficaram pilhados” (R., 15 anos). “Quando tomo a Ritalina, eu me sinto bem mais atento. Mas quando o efeito vai acabando eu sinto uma raiva e não consigo me controlar, acabo gritando com meus colegas…” (A. M., 11 anos). “Ontem eu não pude fazer a prova, pois minha mãe esqueceu de me dar o remédio. Aí, você sabe como é, né? Não lembro de nada…” (I., 9 a nos). “Tomando a Ritalina me sinto inteligente e com certeza vou conseguir o sucesso que meus pais tanto esperam de mim” (A., 17 anos). Desconfio das fórmulas mágicas, do tudo ou nada. O que defendo é um reposicionamento do sujeito que sofre. Quando o sujeito está fragilizado, desenraizado, dificilmente ele consegue lutar pelos seus sonhos e, com isso, vai sendo submetido aos sonhos dos outros. Os recortes acima assinalam nossa responsabilidade como adultos frente a essa geração que se “esconde” ou “aparece” em suas insatisfações, obstruindo com os remédios qualquer possibilidade de sofrimento. Existe um temor por parte de alguns pais de como conseguir que seus filhos se tornem responsáveis pelas suas vidas e, com certeza, não será dessa forma apresentada acima. Estão mais para, com o tempo, justificar suas mazelas ao uso do medicamento.

Refletir sobre transtornos e doenças mentais solicita de todos nós, profissionais Psi, outro olhar, um olhar que ultrapasse o “parece ser”, um olhar que entenda que uma “febre” é um sintoma do que aquele sujeito pode estar carregando: pode ser uma garganta inflamada; pode ser uma virose; pode ser uma infecção urinária; pode ser uma carência afetiva… podem ser muitas coisas, a febre é apenas um sintoma. E o TDAH pode ser um sintoma do mundo contemporâneo? Um mundo que corre contra o tempo cronológico, em que pessoas vão de lá para cá, sem imaginar onde desejam chegar, um mundo em que o único sentido que crianças e jovens enxergam em suas escolas e universidades é passar de ano. Esses são alguns dos tantos impasses da civilização, que retomarei mais à frente. É assim que sigo minhas questões acerca do TDAH, tendo como ponto de partida o sujeito que sofre “aprisionado” em seu não saber.

O que me mantém esperançosa é não ter uma única resposta. Hoje, passados dois anos da publicação de meu livro, retomo minhas “inconclusões” acerca do TDAH como um sintoma social. Algo está sendo sinalizado por crianças e jovens e que, muitas vezes, não pode ser colocado em palavras. Acredito ser necessária uma escuta mais atenta e desvinculada de respostas rápidas e sem sentido. O momento contemporâneo não deve ser descartado de tantos “novos” sintomas. A educação, em alguns (muitos) momentos, vem se perdendo entre a vida (interessante) e o mercado. Com isso, muitas crianças e jovens podem estar sendo confundidos entre uma “marca” e outra “marca”, fato é que essas marcas estão cravadas em suas histórias de vida e lá permanecerão até que eles possam ser escutados.

Fico me perguntando como pensar o TDAH fora da sua relação com o saber; o desejo de saber baseado nos estudos do francês Bernard Charlot, “o saber implica o desejo: não há relação com o saber se não a de um sujeito. E só há sujeito ” desejante”, e esse desejo é desejo do outro, desejo do mundo, desejo de si próprio; e o desejo de saber (ou de aprender) não é senão uma de suas formas, que advém quando o sujeito experimenta o prazer de aprender e saber”. Dito de outra forma, não há aprendizagem, mobilização intelectual, sem que haja desejo. “Desejo do mundo, do outro e de si mesmo é que se torna desejo de aprender.” No sentido estrito, a relação com o saber é o próprio sujeito, na medida em que deve aprender, apropriar-se do mundo, construir-se. O sujeito é a relação com o saber. Diante dessa rápida explanação da relação com o saber é que fico pensando: crianças e jovens têm desejo em aprender nas escolas? Podem descobrir sobre o seu “não saber”?

Certa vez li um texto do psicanalista Contardo Calligaris, em que ele escrevia que: “Mais do que buscar permanentemente felicidade máxima, um arrebatamento mágico, deveríamos nos preocupar em tornar interessante nossa vida de todo dia”.

Como estamos tornando nossas vidas interessantes? E a dos nossos filhos? Nossos desejos de pais nem sempre são os desejos de nossos filhos. Eu como aluna tive o privilégio de encontrar uma senhora que chamarei aqui de Tia Benedita e que, por algum motivo, ela conseguiu tornar minha vida interessante. Apresentarei esse breve texto que escrevi em sua homenagem:

“Uma vida interessante, muitas vezes, acontece no encontro com outro, aquele que coloca uma ponte entre o Não Saber e o Saber. Um encontro em que algo dos desencontros é possível de ser falado e também escutado. Foi nesse encontro que, hoje reconheço, encontrei a Tia Benedita”. Estudei minha vida toda em escolas particulares e religiosas e agradeço muito por ter tido esse privilégio. Foi a maior herança que minha família me deixou, mesmo que naquela época eu não acreditasse em tal fato e demonstrasse o contrário. Confesso que hoje imagino o que se passava na cabeça dos meus pais: “Essa menina não vai dar em nada na vida”. Confesso que não dei, talvez, o que eles quisessem de mim. Mas sou uma professora-educadora com brilho nos olhos, que ama o que faz e busca aprender todos os dias! Embora ainda hoje eu encontre “mestres” que tentam me convencer do contrário, começando pelas suas próprias posturas.

Eu sempre fui uma menina diferente do dito “normal”, detestava brincar de boneca, adorava jogar bola, colecionava estilingues, trocava figurinhas de futebol, tinha várias chuteiras e camisetas de times. Nem por isso sofri bullying, fui perseguida ou me senti diferente, até porque eu não dava ouvidos ao que não me interessava. Creio que por isso eu vivia sendo colocada para fora da sala de aula: não escutava o que não me interessava e, com isso, fui rotulada: TDAH.

Passei sete anos da minha vida escolar cumprindo castigos fora da sala de aula, já que, pelo menos duas vezes por semana, eu era gentilmente encaminhada para a biblioteca da escola (lugar de cumprir meu castigo). Ao meu lado, uma disciplinadora me conduzia por aquele longo corredor, sem poder correr… (rs.). Minutos depois, a disciplinadora me entregava à querida Tia Benedita (a bibliotecária), que me recebia com um sorriso cuidadoso, que deixou marcas positivas até hoje.

Desde aquela tenra idade, meus professores não davam conta de mim, digo desde, pois até hoje não dão. Segundo ainda escuto hoje, sou “rebelde”, questionadora, indisciplinada e, quem sabe, “burra”, já que fujo de uma forma. Boa parte dos meus castigos na infância era ler, escrever e tocar triângulo na aula de música, ou mesmo fazer argila como técnica para acalmar.

Revisitando minha memória afetiva, hoje me inquieto com crianças e jovens que recebo e, por algum motivo, não encontram em suas escolas Tia(s) Benedita(s). Quem irá acolher os alunos ditos “anormais”?

Eu me recordo, como se fosse hoje, toda vez que eu chegava na porta daquela enorme biblioteca da minha escola, eu olhava para tia Benedita, que com seu sorriso fazia eu me sentir a pessoa mais importante e amada. Benedita era linda, moça, pele negra, um lindo sorriso e muito inteligente, aquilo me deixava nas nuvens!

Ela já dizia: Entra, Paty, e nada de tristeza, venha ver o livro que separei, ele é um sonho… e assim foi, ano a ano; a cada “castigo” um novo livro, uma nova história, um novo sonho; uma porta que se abria quando todas as janelas escolares pareciam se fechar. Tia Benedita me abria o mundo e nem sei se ela soube disso.

Hoje, sou uma leitora voraz, curiosa em descobrir o mundo em cada página, inquieta como sempre, meio ” fora da casinha”. Não sou do tipo padrão intelectual, mas, apesar de tantos castigos e rótulos, sobrevivi e adoro estudar, aprender e compartilhar.

Só tenho a agradecer, sempre tive possibilidades, mesmo que difíceis. Aprendi naquela época que eu teria que decidir quem eu queria ser ou deixaria que os outros determinassem quem eu seria. E foi ali, com a Tia Benedita, que aprendi e decidi que eu seria incompleta (sempre), ou seja, jamais estaria pronta e fechada: “já aprendi tudo o que eu deveria”. Jamais! A educação mudou; a família mudou; o mundo mudou, girou, transformou, andou, voltou… Alunos e professores continuam em salas de aula, bonzinhos – silenciados, ou quando barulhentos logo são encaminhados. A questão é a qual (ais) Beneditas (s)?

Hoje, tarde de domingo, após 42 anos, aqui estou eu, lendo e escrevendo… lembrando da Tia Benedita. Hoje, ninguém mais me coloca de castigo, mas confesso que a Tia Benedita fez a diferença em meus “castigos”. Seu sorriso, seu cuidado, seu carinho, sua condução verdadeira estão em cada linha que leio e escrevo: uma mestra que me ensinou a arte de rever minhas dificuldades e lidar com elas.

TIA BENEDITA

Hoje, passados 51 anos, venho refletir sobre o TDAH, trazendo, na bagagem, minhas escolhas. Por 23 anos trabalhei diretamente na Educação, em sala de aula e coordenação, além de carregar em minha própria história uma marca de que “eu não daria em nada”. Felizmente, na época (hoje estou com 59 anos), meu tratamento foi todo conduzido junto a uma ludoterapeuta, além de uma orientação familiar e escolar (naquela época os diversos saberes conversavam bem mais do que hoje e não havia tanto acesso tecnológico, portanto o tema não era tão divulgado).

Enquanto estudante, sempre tive minhas dificuldades e as tenho até hoje. Porém, por um desejo meu consegui encontrar sentido no que fazia e faço, sempre me mobilizo intelectualmente por algum tema, sou muito envolvida com tudo que faço e consigo persistir até o término. Minha história pessoal reflete diretamente minhas escolhas profissionais e, hoje, entendo por que busquei primeiro uma formação na Educação e em seguida na Psicanálise, lugares aos quais permaneço (de forma diferente) até hoje.

FRAGMENTOS

Formei-me em Pedagogia e logo descobri que a teoria que eu via na universidade estava bem distante da minha prática vivida e sentida dentro da sala de aula. Ali eu não recebia apenas bons alunos, que se desenvolviam linearmente, de acordo com suas faixas etárias. Aos poucos, fui vendo que a criança era algo bem mais complexo do que eu imaginava, e foi aí que me encontrei pela primeira vez com a Psicanálise e comecei a estudá-la, com o intuito de abrir minha mente para poder conhecer a mente daquelas crianças e jovens. Comecei a dar a palavra às crianças e jovens, aos poucos, fui percebendo que eles não eram meros encaixes nas teorias que eu estudava, reconheci que algo me escapava. Então, revisitei o meu não saber e os diversos saberes, todos temporários e imprecisos. De lá para cá não abandonei mais minha análise pessoal e minha formação permanente em Psicanálise, hoje no Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.

Aos poucos, reconheci que as coisas não eram tão simples como pareciam, e hoje, passados oito anos da publicação do Cabeça nas Nuvens, reconheço que alguns enigmas ainda continuam fechados na educação. Aspectos urgentes precisam ser escutados como o reflexo das nossas palavras para as crianças. Na verdade, elas acreditam, internalizam aquilo que falamos (vejam a Tia Benedita) e é assim que venho escutando crianças e jovens que carregam seus rótulos, dentre eles o tão divulgado TDAH.

Ao concluir, mesmo que provisoriamente, que o TDAH é um sintoma social em uma “cultura do escape”, defendo o que Freud havia falado, chamando nossa atenção no sentido de que os sujeitos não se encontram na cultura de qualquer forma. Existe sempre um conflito, um mal-estar, algo que não para, e na educação contemporânea o mal-estar é visível, seja na família ou na escola. O mal-estar é inerente à existência humana. Quando entendermos ou aceitarmos tal fato talvez possamos parar de buscar tantas respostas e passemos a aprender a conviver com as diferenças.

“NÃO” PODE DESEJAR?

O sujeito inconsciente em suas manifestações sintomáticas, que afetam o corpo, promovendo agitação, perda de interesse por objetos do mundo e deflação de desejo em relação ao saber e conhecimento. Seriam esses boa parte dos nossos alunos “com” TDAH?

Quando paro para escutar alguns desses sujeitos em sua dor de existir e a palavra pode entrar em movimento, eles falam de seus desejos, daquilo que está guardado em suas “desatenções”. Crianças e jovens reconhecem em suas falas que, geralmente, não conseguem ser o que seus pais e professores esperam que eles sejam. Como vimos acima, o saber não é isento como muitos educadores e médicos acreditam e defendem.

O que venho constatando é que muitas crianças e jovens estão internalizando seus diagnósticos como verdadeiras “marcas”, e lá na sua dor de existir ficam “aprisionados” como desatentos e hiperativos. Eles não se desenvolvem em estágios como queríamos, ou, melhor, como aprendem os. Nossos “desatentos e hiperativos” estão nos mostrando, desde que possamos ver e escutar, que eles estão tentando marcar sua posição subjetiva.

Não será possível passarmos despercebidos por esse momento em que crianças e jovens pensam e sentem de formas diferentes de seus pais e professores, conforme nos mostra Bauman em seu livro Educação e Juventude (2013, p. 7): “… a crise da educação contemporânea é muito peculiar, porque, provavelmente pela primeira vez na história moderna, estamos percebendo que as diferenças entre os seres humanos e a falta de um modelo universal vieram para ficar”.

É nessa breve reflexão que faço um convite a todos. Porém, cada um em sua subjetividade. Reflita sobre sua própria experiência de existir e como vem tentando tornar sua vida mais interessante. Os sintomas contemporâneos são necessários para que o sujeito sobreviva ao que querem fazer dele, sem que ele o deseje. Será que deixar ou manter nossas crianças e jovens mais ligados será o caminho?

Outro dia perguntei a uma criança de 12 anos que chegava a meu consultório com uma latinha de “energético” na mão. Pra que isso? Rapidamente vem a resposta: “Para eu conseguir ficar ligado”. E eu pergunto novamente: “Por que você quer ficar ligado?”. E ele me responde: “Sei lá… me disseram que é bom!”.

É nesse caminho e cenário que somos convocados a rever nossa educação, ultrapassando os discursos pessimistas de “fim da história”, de “o mundo acabou”, não existe mais família”. Tais queixas ou lamentações não nos levarão a nenhuma efetiva mudança.

Sim, estamos diante de uma transição, o tempo que passou não volta mais, ele permanece apenas em nossas lembranças. O que temos hoje são diversas possibilidades e muitos convites abertos. Cabe nos perguntarmos: “Para onde caminha a educação?”. Tal desafio, dentre outros, é que nos impulsiona a ir além da mera constatação e da prescrição estreita, que de alguma forma continuamos fazendo da educação atual. Meu convite é dar um passo à frente; adentrar os subterrâneos de nossas instituições educacionais, bem como estabelecer bases e articulações para propor as relações reflexivas sobre si mesmo e sobre o outro, que possam ultrapassar alguns diagnósticos equivocados.

Quando lia contos de fadas, eu imaginava que aquelas coisas nunca aconteciam, e agora cá estou no meio de uma! Deveria haver um livro escrito sobre mim. Ah, isso deveria! E quando for grande, vou escrever um.

JANE PATRÍCIA HADDAD – é mestre em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná, com formação em Psicanálise, docência do Ensino Superior, Teoria Psicanalítica e Psicopedagogia. Graduada em Pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atuou por mais de 22 anos em escolas como professora, coordenadora pedagógica e diretora.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.