EU ACHO …

UM PREÇO ALTO PARA ISRAEL

Ter a superioridade bélica faz perder a simpatia da opinião pública

Toda vez é a mesma coisa: imagens de civis feridos chegando a hospitais, famílias arrastando suas poucas posses diante de casas e prédios completamente destruídos, pais arrasados pela perda de filhos. Como não se solidarizar com a dor dessas pessoas? É impossível, obviamente. Por causa dessas cenas, Israel entra em qualquer conflito em Gaza já perdendo a batalha da opinião pública, por mais proezas bélicas que alcance num campo de combate quase insustentável: cidades de alta densidade populacional. As disparidades no número de vítimas também são invocadas para acusar Israel de reação desproporcional. Algumas considerações ajudam a entender os fatos:

■ Israel move céus e terra para defender sua população. Tem abrigos antiaéreos que atendem boa parte dos habitantes e desenvolveu o Domo de Ferro, o sistema de mísseis, originalmente considerado impossível, que consegue interceptar até 90% dos foguetes lançados a partir de Gaza pelas duas organizações que operam no território, o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina.

■ Os dois grupos fazem exatamente o contrário. Construíram extensos sistemas de túneis por toda a Faixa de Gaza, chamados pelos militares israelenses de “metrô”, mas nenhum civil tem acesso a eles. A rede subterrânea é usada apenas pelos militantes armados para se proteger e desfechar ataques em caso de invasão por terra. Boa parte dela foi destruída nas últimas semanas.

■ Comandos operacionais, depósitos de armas e baterias de foguetes, que entram em Gaza procedentes do Irã através dos túneis na fronteira com o Egito, são instalados deliberadamente ao lado, debaixo ou até dentro de casas, prédios, escolas, mesquitas e hospitais.

■ Como atingir um inimigo protegido por várias camadas de escudos humanos? O método desenvolvido por Israel consiste em avisar antes que vai bombardear um determinado prédio. Avisar literalmente: desde o conflito anterior, em 2014, a inteligência militar de Israel levantou 650.000 números de telefone de moradores de Gaza, com as respectivas localizações. Um telefonema em árabe dá o ultimato. Um método complementar é disparar um míssil de baixo poder explosivo no topo dos prédios, como uma espécie de precursor do que está por vir.

■ É horrível? Sem dúvida. E nem sempre é dado o aviso. “Guerra é crueldade; não tem como mudar isso. Quanto mais cruel, mais cedo acaba”, resumiu notoriamente o general William Tecumseh Sherman, que massacrou o sul americano durante a Guerra Civil.

■ A legitimidade dos alvos tem de ser aprovada pelos advogados das Forças Armadas israelenses. Isso, evidentemente, não impede erros, mas minimiza o número de vítimas civis.

■ Nada disso aconteceria se Hamas e Jihad não tomassem a iniciativa de jogar foguetes dirigidos deliberadamente contra alvos civis. Gaza, uma pequena e estreita faixa de terra de 40 quilômetros de comprimento, conquistada por Israel na guerra defensiva de 1967, foi entregue aos palestinos em 2005. Tornou-se o pior exemplo, para os israelenses, do que acontece quando abrem mão do controle de territórios que deveriam constituir um futuro Estado palestino, tão justo e necessário. E, infelizmente, tão longe da realidade.

***VILMA GRYZINSKI

OUTROS OLHARES

COMEÇAR DE NOVO

Depois de tantos meses sem pegação, parte dos solteiros, mesmo vislumbrando o futuro pós-vacinas, ente medo de buscar parceiros em um mundo cheio de protocolos

Solteiros à procura deum par – seja com intenções sérias, seja para uma ficada rápida – seguiam uma cartilha básica: ir a um bar ou a uma festa, engatar uma conversa ao pé do ouvido, compartilhar uma cerveja e, em algum ponto da noite, trocar beijos. Pois tudo, rigorosamente tudo o que configurava a arte da paquera foi por água abaixo na pandemia. Se antes já estava difícil encontrar um match decente, com o advento da Covid-19 muitas pessoas sem par fixo abandonaram a nau dos esperançosos, deletando a chance de encontros ao vivo e se desencantando com a falta de espontaneidade dos flertes via Zoom. Agora que a vacina começa a abrir a janela para a vida mais ou menos normal, esses refratários, em vez de soltar foguetes, se debatem em dúvidas. Ele usa máscara? Ela evitou ao máximo sair de casa? Encontro de dia, no parque, tem algum futuro? Existe bate-papo sem os assuntos contágio, mortes, home office e delivery? “Depois de meses de quarentena, é normal a pessoa se sentir um peixe fora d’água na paisagem da paquera e achar que não tem lugar nele”, diz Logan Ury, diretora do aplicativo de relacionamentos britânico Hinge.

De tão frequente, o pé atrás na seara dos encontros ganhou nome em inglês, inventado pelo próprio Hinge: Fear Of Dating Again (medo de voltar a paquerar), resumido no acrónimo – totalmente inofensivo no idioma original – F.O.D.A. A criadora de conteúdo Helena Morani, 25 anos, identifica-se com o transtorno pandêmico. ” Encontros são tão difíceis, com todos os protocolos e cuidados, que a gente fica com receio de se relacionar.

Estou aproveitando o momento para aprender a ficar sozinha e curtir a minha própria companhia”, conta ela, que em seu perfil no Instagram publicou uma divertida vídeoparódia de uma fala antiga da jornalista Marília Gabriela – “Eu virei um animal solitário. Eu leio, vejo série, fico em silêncio. Meu celular não toca mais” -, com mais de 50.000 visualizações.

No fim do ano passado, em urna pesquisa realizada por outro aplicativo de namoro, o Bumble, duas a cada três pessoas disseram estar se sentindo muito solitárias em todos os aspectos da vida, sobretudo o amoroso, e 90% declararam que sua vida mudou radicalmente com a pandemia. Cerca de 60% afirmaram estar mais preocupados em se preservar do que em buscar encontros casuais e mais da metade revelou que, em um eventual encontro pessoal, gostaria que ambos estivessem de máscara. No aplicativo OkCupid, 40% dos candidatos a namoro na faixa de idade dos millennials frisaram que cancelariam o encontro se a pessoa dissesse que não pretendia se vacinar. No Tinder, a presença da frase “Uso máscara” nas biografias dos usuários duplicou ao longo da pandemia. “Antes, ficaria horrorizada se um cara passasse álcool em gel nas mãos durante um encontro. Agora, fico excitada”, brincou uma adepta do aplicativo.

Nos perfis publicados em sites de relacionamento, o tipo alto, forte e bonitão deu lugar ao rapaz de máscara e praticante do isolamento social na escala de atração. Nos Estados Unidos, Reino Unido e onde quer que a imunização esteja avançada, o carimbo de “vacinado” sempre acompanha as fotos dos usuários. Mesmo assim, muitos solitários não se sentem seguros para voltar à pegação a que estavam habituados – o que, segundo especialistas, não deve ser motivo de maiores preocupações. “O medo é um fenômeno absolutamente normal e compatível com o momento atual. Foi ele que fez a gente chegar até 2021. O comportamento cauteloso só se torna um problema quando paralisa, vira uma fobia social”, avalia Pablo Vinicius, neurocientista da Universidade de Brasília.

Embora a tendência seja de os solteiros retomarem o ritual da conquista, há quem veja na retração de agora uma mudança definitiva. “Ficamos mais arredios. Acho que, futuramente, vamos ser mais seletivos nos relacionamentos e parar de marcar encontro com pessoas em quem a gente sabe que não está interessada de verdade”, reflete a estudante Kethlyn Verona, 20 anos, há meses distante de bares e festas. O psicanalista Christian Dunker, professor da Universidade de São Paulo, confirma: “A crise do novo coronavírus vai ter um impacto permanente na moral sexual. Os que se cuidam vão seguir roteiros de precaução no campo amoroso, dando preferência a pessoas que já conhecem e monitorando suas atitudes nas redes”, prevê Dunker. Para quem acha que F.O.D.A. é isso mesmo que o acrônimo indica, fica a esperança: a paquera, quando ela voltar a acontecer, deve ser mais criteriosa e produtiva.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 31 DE MAIO

A LÍNGUA É O PINCEL DOS SÁBIOS

A língua dos sábios adorna o conhecimento, mas a boca dos insensatos derrama a estultícia (Provérbios 15.2).

A língua dos sábios não apenas revela conhecimento, mas também adorna o conhecimento. O conhecimento não é somente útil, mas também belo. É não apenas necessário, mas também atraente. Uma pessoa sábia torna o conhecimento apetitoso. O aprendizado deixa de ser um processo doloroso para tornar-se algo prazeroso. O conhecimento na língua dos sábios recebe contornos de beleza invulgar. A língua dos sábios é como um pincel nas mãos de um artista. Transforma as coisas comuns da vida em raras obras de arte. O oposto disso é a boca dos insensatos. Quando uma pessoa tola abre a boca, deixa sair uma torrente de estultícia. A boca do insensato é a picareta que abre sua própria cova. O homem tolo destrava a boca apenas para falar o que não convém e o que corrompe os bons costumes. Vangloria-se de suas palavras chulas e rasga a cara em gargalhadas espalhafatosas para contar suas piadas indecentes.  A boca do homem insensato é como o romper de uma barragem. Provoca inundação e muita destruição. Da boca do insensato saem enxurradas pestilentas que arrastam para a vala da podridão a reputação das pessoas. Que Deus nos livre da boca dos insensatos. Que Deus nos ajude a adornarmos o conhecimento com nossa língua.

GESTÃO E CARREIRA

ELES PAGAM PARA VOCÊ COMPRAR

Empresas que trabalham com sistema de cashback têm conquistado consumidores antenados e que buscam vantagens para comprar. A devolução de parte do dinheiro tem ganhado espaço não só nas compras virtuais como também nas realizadas em lojas físicas. Conheça quem anda fazendo isso aqui no Brasil

O nome já diz muito sobre o tema dessa reportagem: cashback, que em português significa “dinheiro de volta”. É assim: você paga por um produto ou serviço e parte do valor volta para você. Sem rodeios. Às claras. Esse tipo de recompensa para o consumidor tem sido a aposta de grandes varejistas, que optam por programas próprios ou players do mercado que criam parcerias com lojas para permitir a operação com os clientes.

A gigante de cartões de crédito Visa é um grande exemplo de empresa que tem investido em várias ações de cashback. Uma das mais recentes é em parceria com a Amazon. Nela, o participante cadastrado no Vai de Visa, plataforma de ofertas da empresa, recebe R$70 de volta na fatura ao acumular R$200 ou mais em compras na Amazon Brasil. “Não houve alteração no sistema da Amazon ou do banco – basta utilizar o cartão e tê-lo cadastrado em nossa plataforma”, explica a diretora de Soluções para o Comércio da Visa do Brasil, Lucia Chaves.

Outro exemplo de aposta em cashback aos clientes foi a ação de estímulo de transações fora do Brasil, em que o participante cadastrado ganha 10% de volta na fatura com qualquer transação realizada em restaurantes nos EUA. Não há nenhuma sinalização nos estabelecimentos ou ação adicional requerida do consumidor final. “Desse modo, conseguimos trazer o diferencial e entregar uma experiência simples, positiva e relevante para os nossos clientes e parceiros”, destaca a executiva.

Lucia Chaves acredita que uma boa experiência é parte fundamental de uma estratégia de fidelização, para qualquer produto ou serviço. Não basta ter apenas preço, mas a experiência de compra, de uso, de pós-venda e de atendimento compõem a satisfação do consumidor em relação a uma marca, de modo que todos os itens devem ser consistentemente acompanhados e revisitados.

Há quatro anos, a Visa trouxe para o Brasil uma plataforma com soluções de fidelização que, baseadas na capacidade da empresa de ver transações de portadores dos cartões na rede, permite buscar comportamentos de compra dos clientes. Ou seja, a Visa consegue operacionalizar, por exemplo, uma ação com um grande varejista ou emissor, sem que o consumidor tenha que se identificar no momento da compra ou que haja qualquer treinamento/preparo da força de vendas do estabelecimento comercial para o atendimento. Basta utilizar o cartão Visa que o sistema consegue confirmar, em tempo real, se aquela é uma transação elegível e, caso seja, enviar automaticamente a premiação via crédito em fatura.

NOVIDADE NO MERCADO

É 100% nacional e o nome não poderia ser mais brasileiro: Meu Dim Dim. A plataforma de cashback é uma startup que sabe bem o que quer: permitir que lojas de pequeno, médio ou grande porte possam oferecer cashback como benefício para os clientes. De maneira geral, só os grandes e-commerces oferecem parte do dinheiro de volta.

Para começar a operar, a startup investiu cerca de R$150 mil. O tempo desde a concepção da ideia, incluindo estudo de mercado, desenvolvimento do sistema até o lançamento foi de aproximadamente um ano. “Posso afirmar que o brasileiro vem comprando cada vez mais essa ideia [de cashback], porém ainda há um espaço imenso para crescimento e para ser explorado”, analisa o head do Meu Dim Dim, Dyego Joia, que acrescenta: “experimente perguntar para alguém da sua família ou amigos se eles utilizam cashback em suas compras, pouquíssimas pessoas já conhecem ou experimentaram”.

Atualmente, o Meu Dim Dim conta com 5 mil usuários ativos e 250 lojas prontas para oferecer cashback como benefício. Algumas das marcas participantes são Ponto Frio, Submarino e Lojas Renner. Mas os planos são grandiosos e ousados: a ideia é atingir a marca de 800mil usuários cadastrados até o fim de 2021. Além disso, a startup quer contar com um catálogo de três mil lojas virtuais parceiras.

Para ter acesso aos benefícios que o Meu Dim Dim propõe, o consumidor precisa se cadastrar gratuitamente na plataforma e realizar todas as compras a partir dela. No entanto, caso um usuário acesse qualquer uma das lojas participantes do programa de recompensa sem passar pela plataforma, seja por falta de hábito ou por esquecimento, verá um lembrete na página da loja on-line e poderá acessar o Meu Dim Dim por ele. Os resgates dos valores em dinheiro acumulados pelos participantes poderão ser realizados a partir do valor mínimo de R$20,00.

Do lado das lojas on-line, a startup quer contribuir com uma questão antiga e um dos maiores desafios do setor: ampliar a taxa de conversão que, na média, é de 1,6% aqui no Brasil. “Quando se oferece um benefício ao consumidor, as chances de ele, de fato, realizar a compra, aumentam de maneira significativa”, avalia Joia.

SÓ NA LOJA FÍSICA

Se por um lado o Meu Dim Dim tem como foco o cashback no comércio eletrônico, o Beblue atende o consumidor que compra em lojas físicas. Trata-se de uma plataforma de pagamentos (as maquininhas de cartão) atrelada à recompensa por meio do dinheiro de volta. O cliente que opta pelo pagamento nas máquinas do Beblue recebe parte do valor pago de volta. Esse saldo pode ser acompanhado por meio de um aplicativo para smartphone e usado em estabelecimentos parceiros.

Desde sua fundação, em maio de 2016, o Beblue já devolveu mais de R$130 milhões de reais em cashback para 2.703.821 usuários cadastrados, que consumiram em 16.853 estabelecimentos credenciados durante todo o período. “O Beblue se sustenta por meio de uma comissão sobre as vendas realizadas nos estabelecimentos comerciais cadastrados”, revela o CMO do Beblue, Daniel Abbud. O executivo da empresa defende que o Beblue é mais do que um programa de fidelidade: “por meio da parceria com a plataforma, as empresas credenciadas têm outros benefícios, como o aumento do ticket médio devido à oferta de cashback, aumento na frequência de consumo de seus clientes, acesso a um rico sistema de CRM, redução dos investimentos em publicidade tradicional e atração de novos clientes através de campanhas de cashback especial”.

FORTALECENDO A REDE PARCEIRA

Mas nem sempre o cashback está atrelado ao consumo de produtos. Na Ozonean Group, quem paga por serviços também recebe dinheiro de volta. O grupo de empresas de consultorias optou por criar um formato que é válido para ambos os lados: contratante e contratado.

Quando uma empresa do ecossistema da Ozonean adquire um serviço da própria Ozonean ou de uma das empresas do grupo, o cashback pode variar de 4% a 6% (dependendo do serviço). Já quando o serviço é adquirido de outra empresa, não pertencente ao grupo, mas cadastrada no sistema, o retorno fica entre 1% e 2%.

Até aí tudo semelhante a outras empresas, mas vem uma diferença decisiva: esse valor pode ser movimentado pela empresa contratante sempre a partir do primeiro dia do quarto mês a contar do dia do pagamento da fatura. ”A Ozonean tem usado mecanismos de investimento variados para fazer com que as verbas retidas de cashback rendam durante esses três meses de retenção, o que representou ao grupo uma receita variável interessante. Esta ação também tem nos proporcionado um melhor relacionamento com as instituições financeiras”, revela o fundador e CEO da Ozonean Group, André Castilho.

A estratégia passou a ser usada pelo grupo em novembro de 2018, mas começou a ser desenvolvida seis meses antes. O aumento das receitas do grupo e da aquisição de serviços no sistema de novembro de 2018 até maio de 2019 superaram todas as vendas do grupo no ano de 2018 (até o mês de setembro). A taxa de cancelamento teve também uma redução de quase 30% para o período.

4 PONTOS QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE CASHBACK

1º – A PERCENTUAL DE RETORNO É VARIÁVEL: Os programas ou ações de cashbacks variam de empresa para empresa. Normalmente partem de 1% e, depois disso, crescem conforme o valor do produto ou serviço.

2º – RETORNOS COM MAIS DE DOIS DÍGITOS SÃO PONTUAIS: Não se assuste se o programa ou a loja oferecerem cashback acima de 10%. Casos como esses são menos comuns, mas não impossíveis. Grande parte das vezes, trata-se de campanhas pontuais e de curta duração.

3º – NEM SEMPRE VOCÊ PODERÁ SACAR O SALDO: Com o aumento do número de plataformas, os formatos de retorno têm variado. Alguns permitem que o consumidor faça transferência para uma conta bancária após determinado valor. Outros, que o uso seja restrito a um grupo de empresas cadastradas.

4º – ALGUNS PROGRAMAS DE CASHBACK EXIGEM ASSINATURA MENSAL: A maioria das empresas que trabalham com cashback não cobra nada do cliente para a adesão ao programa de recompensas. No entanto, com o crescimento do modelo no Brasil, algumas empresas já oferecem assinaturas ou compras de pacote que garantem benefícios a mais, entre eles, percentuais de devolução maiores do que para os demais clientes.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DORMINDO COM O INIMIGO

O Brasil registra mais de 240.000 denúncias de abuso psicológico feitas por mulheres que decidiram reagir à rotina de humilhações masculinas

No princípio são só flores, demonstrações de afeto e juras de amor eterno. Com o tempo, entra o ciúme travestido de cuidado, que por sua vez dá lugar às ofensas, humilhações e tentativas de controlar cada passo. Àbriga, inevitável, seguem o pedido de desculpas e a promessa de que não vai acontecer de novo. Aí começa tudo outra vez. Eis o ciclo do relacionamento abusivo, um foco de sofrimento que permaneceu escondido sob a fachada de que vida a dois é assim mesmo, até que o problema passou a emergir dentro e fora das redes sociais, impulsionado por depoimentos de celebridades que experimentaram o calvário, como a cantora Anitta, a atriz Cleo Pires, a apresentadora Adriane Galisteu e a modelo Yasmin Brunet. “Sofri toda sorte de agressão e até hoje faço terapia para lidar com os traumas que os namorados tóxicos me causaram. Cheguei a ouvir de um deles que merecia um prêmio por me aturar. Achava que amor era isso”, desabafa Yasmin, 32 anos, que diz ter sido vítima de uma série de relações do tipo e demorado anos para distinguir amor de abuso.

Por se tratar de uma violência antes de tudo psicológica, calcada em expressões e atitudes vistas como “normais”, a mulher – de longe a parte mais afetada por abusos dessa natureza – em geral custa a reagir. O agressor insiste em que faz o que faz porque gosta dela, criando uma armadilha na qual os dois ficam presos – ele, maltratando e desdenhando, ela sofrendo e esperando passar. “As mulheres precisam ter consciência de que o primeiro indício de um relacionamento abusivo é o xingamento, não o tapa na cara”, afirma Jamila Jorge Ferrari, coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher de São Paulo. “Ligar o tempo todo para o trabalho, aparecer na porta da faculdade sem avisar e se queixar da maquiagem não são crimes, mas formas de minar a segurança e manipular a parceira.”

Tivemos acesso a um levantamento feito pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que aponta 246.240 registros de violência psicológica no Brasil no ano passado – em 2019, quando a métrica era menos precisa, foram 3.887 violações. Entram nesse rol impressionante as denúncias de ameaça, assédio moral, constrangimento, exposição e tortura psíquica feitas nos canais oficiais da pasta que indicam o algoz, seja namorado, marido ou companheiro. O total deve ser bem maior, levando-se em conta a vasta subnotificação e os relatos registrados no ministério que não revelam o autor da agressão. Mesmo assim, o fato de tantas terem criado coragem de se manifestar sinaliza que elas estão, cada vez mais, abrindo os olhos para uma situação em que a mistura de sentimentos dificulta a identificação dos sinais. “Nesse tipo de relação, o agressor manifesta afeto, demonstra fragilidade, e a vítima sente culpa quando pensa em terminar ou denunciar”, alerta a psicanalista Vera Iaconelli.

Indício numérico de que violências como essas saem das sombras é o aumento das buscas da expressão “relacionamento abusivo” no Google: 1.000% nos últimos cinco anos, 300% só em 2020, com picos de 500% cada vez que uma mulher famosa fala publicamente sobre o tema. Os testemunhos são consequência direta da explosão, em 2015, de movimentos como Meu Primeiro Assédio e MeToo, que abriram a comporta dos segredos represados e promoveram, nas redes sociais, em documentários, reportagens e programas de TV, uma enxurrada de denúncias de assédio sexual e violência física contra mulheres, tanto conhecidas quanto anônimas.

Daí para a exposição de casos de abuso psicológico foi um pulo. Só nos últimos quatro meses, três cantoras, Anitta, Billie Eilish e Demi Lovato, revelaram em documentários autobiográficos terem vivido relacionamentos abusivos. Em um caso de grande repercussão, a influenciadora digital Duda Reis, 19 anos, anunciou em janeiro o término do noivado com o funkeiro Nego do Borel, 28 anos, e foi à polícia prestar queixa por lesão corporal psicológica e física, injúria, ameaça e estupro de vulnerável. “Vivia em um ciclo vicioso. Já até esperava as brigas, porque sabia que depois ele voltaria a me tratar bem, mesmo que por poucos dias”, conta Duda. Segundo ela, as pessoas em volta não se davam conta dos abusos. “Quando ele me humilhava, elas viam aquilo como brincadeira e ignoravam a minha dor”, afirma.

Ainda que categorizar esse tipo de relação abusiva não seja simples, especialistas apontam padrões de comportamento que se repetem em todas elas. A violência está sempre presente, seja psicológica, física, financeira (o controle do caixa conjugal é dele) ou tecnológica – a insistência em ter a senha dos aplicativos e bisbilhotar curtidas em fotos alheias são algumas das formas de o agressor exercer dominação no ambiente virtual. Outros fatores a se estar atento são aqueles que o passar do tempo agrava: a frequência dos abusos, o escalonamento das agressões e o nível de sofrimento causado. Casada durante sete anos e divorciada há dois, a empresária gaúcha Bárbara Dalpont, 36 anos, mesmo depois de separada precisou ir à Justiça para se desvencilhar do ex­ marido: em março do ano passado, ela ganhou uma medida protetiva de urgência após ser perseguida intensivamente por ele na internet. “Achei que com a separação teria a paz de volta, mas minha vida virou um verdadeiro inferno. Se durante nosso relacionamento ele me desmoralizava, com a separação passou a me perturbar por telefone e a entrar em contato com todos os homens que comentavam as minhas fotos”, relata Bárbara, que teve de mudar de cidade três vezes e hoje processa o ex por ameaça, perseguição, calúnia e difamação.

O Brasil é o país que mais pesquisa no Google sobreo assunto, seguido de Portugal, Jamaica, África do Sul e Estados Unidos. Segundo a fundação americana One Love, que oferece cursos on-line para ensinar as pessoas a reconhecer problemas e diferenciar as relações saudáveis das doentias – mais de 100 milhões de alunos já se matricularam neles -, as mulheres entre 16 e 24 anos são as que mais sofrem violência psicológica por parte dos parceiros. Outro estudo mostra que, entre as vítimas, muitas nem sequer enxergam os maus-tratos como comportamento abusivo, e, além de sentirem vergonha e medo de denunciar, precisam encarar a desconfiança geral que costuma acompanhar suas queixas. “Para esse grupo de mulheres, a violência psicológica é uma forma de lesão corporal, em razão do dano à saúde psíquica”, dispara Izabella Borges, advogada de Duda e Bárbara, que contratou uma equipe de psicólogos para acompanhar os casos e comprovar que as alterações psíquicas sofridas pelas clientes foram causadas pelos agressores.

Durante séculos as mulheres foram acostumadas a depender do marido e a ser controladas por ele, um comportamento que, como mostra a atual exposição de relações abusivas, deixou raízes mesmo após a primeira, a segunda e a terceira onda de feminismo no planeta. “Na minha cabeça não era abuso, era desentendimento de casal. Tinha certeza que a culpa de ele me tratar feito lixo era minha”, relata a atriz Julia Konrad, 30 anos, que terminou um relacionamento abusivo depois de três anos e meio, resumindo o sentimento da imensa maioria. “É preciso superar a questão cultural”, alerta a antropóloga Mirian Goldenberg. “No Brasil, ter um relacionamento é considerado um valor, mesmo que ele seja problemático e seja fonte de sofrimento.” Os testemunhos e as denúncias dos últimos tempos são a prova de que, ao contrário do que prega o ditado, ruim com ele, melhor sem ele.

EU ACHO …

TOMEI A VACINA!

A emoção de ser imunizado contra a Covid-19 – e sem furar a fila

Finalmente chegou minha vez! Graças a uma antecipação de idade em São Paulo, tomei minha primeira dose de vacina anti- Covid. Puxa vida, que espera! Aguardei a invenção das vacinas. Depois, a fabricação. E aí veio o momento de levar a picada. Minha família sempre valorizou as vacinas. Criança, tomei contra a poliomielite. Tive até um amigo de escola com paralisia infantil, portanto, o risco era bem presente. Também tomei (e isso prova que sou de época) contra a varíola. Altamente infecciosa, a doença matava cerca de 30% dos contaminados, principalmente bebês. Deixava sequelas, como cegueira e marcas por todo o corpo. O último caso relatado foi em 1977. Erradicada graças à vacinação. Só existe em algum laboratório de alta segurança, atrás de portas blindadas, para estudo, nos Estados Unidos e talvez em outros países.

Sou muito grato por amar minha profissão, trabalhar em casa, e saber ficar sozinho. Confinamento não é difícil para nenhum autor de novelas ou série de televisão. A gente escreve dezenas de páginas por dia. Escritores de livros, teatro, poetas também amam ficar sozinhos. Ou vocês acham que Erico Veríssimo escreveu O Tempo e o Vento indo a churrasco com os amigos? Eu gosto de vida social, não nego. Mas não exaustivamente. Também para outras pessoas – não necessariamente escritores – ficar mais tempo com a família, concentrar-se em si mesmo, teve um efeito positivo. Claro, engordei. Mas agora estou começando um regime – provavelmente o centésimo da minha vida, enquanto minha barriga só aumenta.

Perdi amigos, que me acharam radical. Os sinceros entenderam minha rigidez. Se nos encontrávamos, faziam teste de Covid antes. Afinal, sou grupo de risco. Mas tenho de confessar uma coisa. Tive a enorme tentação de furar a fila. Em conversa com minha amiga Lucília, ela disse que jamais faria isso. Foi um alerta precioso. Em situações extremas se descobre quem a gente realmente é. Não sou esse cara capaz de furar fila e talvez enviar alguém diretamente para a UTI. Eu me inscrevi, sim, nos postos de saúde, no caso de sobrar vacina – em São Paulo é legalmente permitido. Muita gente tem sido chamada, e aproveitam material que ia ser descartado. Eu não fui. Mas há três ou quatro semanas um amigo me procurou. Tinha um esquema certeiro, através de uma tia que coordena um posto de saúde. Eu me recusei. Se sou contra os outros furarem, por que vou furar? É preciso ser coerente com o que se pensa.

Meu dia chegou no tempo certo. Acordei cedo. E, rapidamente, tinha tomado minha vacina. Viva o SUS! O tratamento é de Primeiro Mundo! A picada doeu, mas faz parte! No dia seguinte, eu me senti cansado. Tinha medo de reações adversas. Mas estou bem. Sentindo dor pelos que partiram, não conseguiram resistir. Cada dia alguém é hospitalizado, ou vai embora, muita gente que conheço!

Espero pela segunda dose. E por uma certa liberdade. Mas não muita. Há novas cepas do vírus por aí. O confinamento, maior ou menor, não sai mais da nossa vida.

*** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

ESCOLA COM PARTIDO

A Câmara dos Deputados se prepara para votar o projeto de lei que regulamenta o ensino em casa, bandeira bolsonarista apoiada pela bancada evangélica

No rol de 34 matérias que tramitam pelo Congresso Nacional e são consideradas prioritárias pelo governo, apenas uma diz respeito à educação – e seus desdobramentos preocupam. A Câmara dos Deputados se prepara para votar, em regime de urgência, um projeto de lei que regulamenta o ensino domiciliar, no qual os pais se encarregam da educação formal dos filhos. O homeschooling, como ficou conhecido, é compromisso de campanha de Jair Bolsonaro com sua base conservadora, sobretudo a poderosa ala ligada às igrejas evangélicas. Por se tratar de tema polêmico, permaneceu adormecido na gaveta das lideranças até ser resgatado agora pelo atual presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL). Ao negociar o apoio do Planalto na disputa pelo cargo, ele se propôs a pôr o projeto em pauta ainda no primeiro semestre. O debate em plenário promete emoções, já que o aprendizado em casa reverte a obrigação de que crianças de 4 a 17 anos frequentem a escola – o modo pelo qual, estabelecido por lei, se deu o avanço no grau de instrução da população brasileira nas últimas décadas.

Mundialmente, o conceito de homeschooling é bandeira de duas ideologias opostas: a ultra libertária, que não vê nem qualidade nem utilidade no ensino formal; e a ultra conservadora, para quem a sala de aula é um antro de bullying, uso de drogas e, no caso brasileiro, suposta doutrinação marxista por parte de professores e educadores. O projeto que tramita na Câmara tem a assinatura dessa segunda linha, tanto que dois ministros ideológicos disputam protagonismo no seu andamento: Damares Alves, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos – que articulou até a criação de uma frente parlamentar para defender a ideia -, e Milton Ribeiro, pastor presbiteriano à frente da pasta da Educação. “O homeschooling é o caminho de a gente livrar as famílias da forma agressiva pela qual a esquerda tomou conta da educação”, prega com todas as letras o deputado federal Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), representante da bancada evangélica.

Na tentativa de evitar um bate-boca virulento quando o assunto chegar ao plenário, Lira entregou a redação do projeto à deputada Luísa Canziani (PTB- PR), de 25 anos, a mais jovem da casa. Apesar da pouca experiência, a relatora circula bem entre as correntes políticas, interessa-se pelo ensino e preocupou-se em dar contornos mais técnicos do que ideológicos ao texto. “Esta modalidade de educação já é hoje abraçada por alguns brasileiros sem nenhum tipo de regra”, diz Luísa. A Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned) calcula que 17.000 famílias adotem o sistema no Brasil – menos de 1% do total. Só que os pais e mães das crianças envolvidas estão sujeitos a processo por abandono intelectual dos filhos. Em setembro de 2018, examinando um desses casos, o Supremo Tribunal Federal determinou que o ensino domiciliar em si não fere a Constituição, mas precisa ser regulamentado por lei específica. “Estamos em um limbo jurídico. Pelo menos 100 famílias foram processadas depois da decisão do STF”, lembra Rick Dias, presidente da Aned.

Tivemos acesso exclusivo ao texto do projeto de lei, que está praticamente pronto e deve ser apresentado até 15 de junho. Ele estabelece, em primeiro lugar, que o ensino doméstico tem de cumprir a Base Nacional Comum Curricular ensinada nas escolas. Também determina que os pais apresentem certidão de antecedentes criminais, que ao menos um deles tenha diploma universitário e que aceitem receber visitas do Conselho Tutelar. Outra condição para o ensino domiciliar é que a criança esteja matriculada em alguma escola e nela se submeta a avaliações periódicas em uma instituição credenciada pelo MEC. A ala radical dos defensores do homeschooling na Câmara, contudo, discorda da exigência. “Obrigar o aluno a fazer diversas provas dentro da escola é burocratizar demais o sistema, tornando a educação em casa inviável”, argumenta o deputado Marco Feliciano (Republicanos-SP), outro prócer da bancada evangélica.

Os opositores do projeto apontam na insistência dos evangélicos por sua aprovação um interesse não só ideológico, mas também financeiro. Uma ideia não incorporada ao texto, mas não descartada, é que os pais possam contratar um preceptor para assumir o ensino dos filhos, figura que as igrejas se dispõem a providenciar. Ofereceriam inclusive aulas em dependências religiosas, o que faria delas uma espécie de escola informal. Assumindo essa função, poderiam se sentir no direito de reivindicar uma fatia do Fundo de Educação Básica, o Fundeb, como fizeram em outras ocasiões – todas frustradas. Otimistas, instituições evangélicas já começaram até a vender na internet material didático voltado para o ensino doméstico e ainda cursos de treinamento para os pais.

Entre as críticas ao ensino em casa, a principal diz respeito ao isolamento da criança e sua exposição a um modo único de pensar. “A ideia de homeschooling é pautada pelo fim do convívio com o diferente e com a diversidade do ambiente escolar”, diz Priscila Cruz, diretora executiva da ONG Todos pela Educação. Outro temor é que a nova lei contribua para agravar a evasão escolar, um velho problema da educação brasileira. Preocupa ainda o fato de, longe dos olhos de mestres e colegas, as crianças ficarem mais sujeitas a violência doméstica, abusos sexuais e trabalho infantil.

Com certo atraso, o Brasil repete o dilema por que passou a maior parte dos 65 países onde o ensino domiciliar já é legalizado. Nos Estados Unidos, a prática está em vigor, de diferentes maneiras, em todos os cinquenta estados, abrangendo 2 milhões de crianças. Um estudo da Universidade Harvard mostrou que mais da metade das famílias adeptas do método é cristã fundamentalista, que questiona a ciência, promove a subserviência feminina e chega a defender a supremacia branca. “Crianças têm o direito de crescer expostas a ideias e valores diversos dos de seus pais, em nome de um futuro aberto, em que elas escolham o próprio caminho”, diz a americana Elizabeth Bartholet, coordenadora do Programa de Direito da Criança da Harvard Law School. O conhecimento, para ser libertador, não deve estar delimitado pelos muros da casa de cada um.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 30 DE MAIO

COLOCANDO ÁGUA NA FERVURA

A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira (Provérbios 15.1).

Nosso maior problema não é com nossas ações, mas com nossas reações. Podemos conviver em paz com uma pessoa a vida toda, desde que ela nos respeite. No entanto, quando essa pessoa nos provoca com uma pergunta insolente, perdemos o controle e a compostura e tendemos a dar uma resposta à altura. É por isso que o sábio nos mostra que não é a palavra branda que desvia o furor, mas a resposta branda. Isso é mais do que ação, é reação. Mesmo diante de uma ação provocante, a pessoa tem uma reação branda. É como colocar água na fervura e acalmar os ânimos. Em outras palavras, é ter uma reação transcendental. O oposto disso é a palavra dura e deselegante. Essa palavra, em vez de jogar água na fervura, coloca mais lenha na fogueira. Em vez de abrandar o coração, provoca ira. A escolha é nossa: podemos ser pacificadores ou provocadores de contendas. Podemos dominar nossas ações e reações, ou podemos ferir as pessoas com a nossa língua e com nossas atitudes. Nesse mundo em ebulição, o caminho mais sensato é jogar água na fervura. Em face das tensões da vida e diante da complexidade dos relacionamentos, o melhor caminho é ter palavras doces e respostas brandas.

GESTÃO E CARREIRA

TALENTOS EXTRAORDINÁRIOS

Companhias de diversas áreas de negócios descobrem as notáveis qualidades dos profissionais autistas. Não á toa, eles começam a ocupar mais terreno no mercado de trabalho

“Você é autista? Nem parece, é tão inteligente e comunicativo. “Frases como essa têm se tornado cada vez mais comuns em escritórios e reuniões virtuais de trabalho. Apesar de ofensivas e baseadas em velhos e equivocados estereótipos, trata-se de um ótimo sinal. No passado, os debates sobre o autismo se baseavam na esteira dos avanços da medicina, girando em torno da infância, das formas de identificá-lo e do papel dos pais para minimizar os danos de um transtorno incurável. Mas essas crianças crescem e precisam tocar sua vida como qualquer adulto, com os mesmos sentimentos e fragilidades, e eventualmente com muito mais habilidades. E essa é a grande mudança. Eis um fato inconteste, cientificamente comprovado, que o mercado de trabalho está assimilando rapidamente: autistas podem ser excelentes profissionais – e excelentes profissionais podem ser autistas.

O Brasil ainda é carente de dados confiáveis. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, um em cada cinco autistas já consegue emprego – uma taxa modesta de 20%, mas em franco crescimento, uma vez que a inserção no mercado de trabalho era quase inexistente no passado. Autistas de grau leve podem apresentar algumas dificuldades, como sensibilidade a luz e barulho ou falhas na compreensão de figuras de linguagem – nada que não seja contornável, sobretudo levando-se em conta as contrapartidas. “O cérebro dos autistas tem qualidades específicas que podem e devem ser aproveitadas. Em diversos aspectos, eles são mais eficientes”, diz Joana Portolese, neuropsicóloga da Faculdade de Medicina da USP. Com a propensão ao hiperfoco (estado de concentração intensa), os autistas têm sido especialmente aceitos nos ramos de tecnologia e programação, pois respondem muito bem quando lhes é dado um planejamento. São disciplinados e tendem a se especializar em assuntos de seu interesse. Há profissões não recomendadas, como cozinheiro ou guarda de trânsito, pois são atividades que geram situações de stress exagerado e imprevistos.

Estudos recentes mostram que há 2 milhões de autistas diagnosticados no Brasil, mas estima-se que o número real possa ultrapassar 3 milhões, devido a diagnósticos tardios e à imensa subnotificação. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o transtorno acomete uma a cada 160 crianças, mas estudos nos Estados Unidos apontam incidência bem maior, de uma a cada 59. Esmiuçada pela primeira vez em 1943 pelo psiquiatra infantil austríaco Leo Kanaer (1894-1981), a condição passa por constantes releituras. Em 2013, a Associação Americana de Psiquiatria decidiu abarcar diversos tipos de desordens neurológicas, incluindo a síndrome de Asperger – grau mais leve de autismo constantemente relacionado à genialidade -, dentro de uma única definição, o transtorno do espectro do autismo (TEA). No Brasil, um ano antes, a aprovação da lei 12.764, também conhecida como Lei Berenice Piana, tornou-se um marco ao incluir autistas entre os demais portadores de deficiência, garantindo a eles tratamento via Sistema Único de Saúde (SUS) e sua presença no mercado de trabalho pelo sistema de cotas.

Nenhum autista é igual a outro, mas há similaridades como a dificuldade de interação social e a presença de padrões restritos de comportamento, interesses ou atividades. Em suma, há três gradações: o autismo leve ou funcional, em que chamam atenção comportamentos excêntricos ou repetitivos; o moderado, o qual há déficit nas habilidades de comunicação verbal e não verbal; e o severo, quando a capacidade cognitiva é altamente prejudicada, exigindo suporte absoluto. O primeiro grupo é plenamente capaz de viver de forma autônoma, ter filhos e uma profissão. O americano Donald Triplett, hoje com 88 anos, primeira pessoa diagnosticada com TEA, aos 5 anos, demonstra excepcional memória e trabalhou na empresa da família.

Boas iniciativas vêm ganhando impulso nos últimos anos. A Specialisterne é uma das organizações que mais contribuem para a neurodiversidade no Brasil, trabalhando em parceria com empresas como Itaú e Danone. A ONG já propiciou a contratação de cerca de 120 autistas, com 90% de taxa de retenção nos cargos. O processo de capacitação e seleção dura quatro meses, e a chegada ao escritório do colega “atípico” (termo que autistas costumam usar para se definir) exige adaptação e suporte. “Um workshop esclarece aos funcionários tanto sobre o que é o autismo quanto acerca das particularidades da pessoa”, afirma Rute Rodrigues, gerente da Specialisterne. Há algumas recomendações simples de integração que fazem toda a diferença no ambiente de trabalho, como reservar ao autista um local silencioso, com iluminação controlada, e evitar conversas fora de hora e mudança abrupta de rotina.

A neurodiversidade não é um tipo de assistencialismo, mas, sim, parte de uma estratégia lucrativa das empresas. Pesquisa da consultoria McKinsey mostrou que companhias que promovem diversidade em seus quadros têm receitas até 33% maiores. Com a inclusão de minorias, elas conseguem ampliar seus horizontes e atingir suas metas. “Pessoas com visões diferentes trazem soluções mais robustas, o que é fundamental para uma empresa de inovação”, diz Ricardo Neves, CEO da Everis, multinacional de consultoria de Negócios e TI.

Transformação de tal magnitude, evidentemente, tem seus desafios. Uma reclamação recorrente entre os profissionais autistas é sobre a ausência de um plano de carreira. Assim como ocorre com a maioria dos deficientes físicos ou visuais, eles geralmente trabalham como colaboradores, não funcionários contratados, e têm salário mais baixo. Esse é um dos motivos que levam muitos a esconder sua condição e a priorizar processos seletivos tradicionais. Outra razão é o constrangimento provocado por colegas desinformados, que insistem em trata-los de maneira infantilizada. Esse comportamento tem nome: capacitismo, o preconceito contra deficientes, uma segregação muitas vezes velada. Filmes e séries de TV costumam influenciar as pessoas, fazendo-as olhar para os autistas como incapazes ou, no outro extremo, gênios excêntricos. Na maioria dos casos, porém, são indivíduos que têm fragilidades intensas tanto quanto talentos notáveis – como todo e qualquer ser humano.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A JUVENTUDE TRANCAFIADA

Pesquisa inédita revela sinais de mau humor, irritação e solidão entre os jovens. É fato: o isolamento tem sido duro, mas pode ser uma valiosa lição de vida para essa turma

“A proibição foi suspensa hoje. Não mais… máscaras. Tudo aberto também. O Romance de Tarzan está passando no Coliseu, como há cerca de seis semanas. Eu gostaria tanto de poder ir ao cinema assistir ao filme. A escola abre esta semana, na quinta-feira! Você sabia? Como se não pudessem esperar até segunda-feira!” Esse trecho do diário de Violet Harris, uma adolescente de 15 anos de Seattle, nos Estados Unidos, poderia ter sido escrito hoje, hoje mesmo, sem tirar nem pôr- mas tem mais de 100 anos, foi rabiscado em 15 de outubro de 1918, em um dos momentos de abre e fecha da quarentena imposta pela Gripe Espanhola. Ressalte-se que aquela pandemia, na comparação com o surto do novo coronavírus, tinha uma característica assustadora para quem namorava a idade adulta: atingia e matava mais os jovens, filhos de um período histórico em que houve duas tragédias simultâneas, a da saúde e a da I Guerra. Havia pouco respiro e escassa esperança, em um tempo evidentemente sem internet, em que as janelas fechadas isolavam as pessoas do mundo – até que as autoridades sanitárias autorizassem algum sorriso, alguma liberdade celebrada em letras miúdas nas cadernetas carcomidas pelo cotidiano.

Agora é diferente, as válvulas de escape brotam a um toque de dedo no smartphone, nas conversas por WhatsApp, nas reuniões por Zoom, nas reclamações diante de intermináveis aulas on-line, apesar do heroico esforço dos professores e diretores de escolas. Os adolescentes não são as vítimas prioritárias do vírus, do ponto de vista epidemiológico e de internações. E, no entanto, a juventude dos anos 20 do século XXI, o nosso tempo, será outra quando o contágio se aquietar, com vacinação em massa e respeito aos cuidados de isolamento.

Há uma geração na berlinda e convém estar atento às transformações pelas quais ela passa- e que, se já não brotam em diários, pululam nas redes sociais. Uma pesquisa conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) durante a pandemia revela o que vai nas mentes e corações de adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos. Há relatos de mau humor, irritação e solidão. Há tristeza. Há dificuldade em manter hábitos saudáveis, como a dieta balanceada. São nós que alcançam os jovens adultos. “Não é exagero dizer que, do ponto de vista psíquico, é o grupo mais afetado”, diz a responsável pelo estudo, Célia Szwarcwald, pesquisadora titular da Fiocruz.

Há uma dificuldade inerente à idade. A adolescência é como uma sinfonia hormonal sem tonalidade definida, de violinos brigando com tubas, sem partitura, irregular – e calhou desse rico e incontrolável período de qualquer vida coincidir com os freios determinados pelo vírus. Uma primeira e evidente má novidade: a distância do toque, do olho no olho, do dia a dia agora intermediado pelas câmeras.

Não se justifica o injustificável, mas as imagens dos últimos dias de festas clandestinas frequentadas por uma garotada sem máscara em ambientes com pouca ventilação representam um ato extremado (e perigosíssimo) de uma geração contida na marra. Apenas em São Paulo, ao longo do último fim de semana de março, por volta de 100 bares e aglomerações proibidas foram alvo de blitz e policiais. Cenas semelhantes foram vistas em Manaus, Rio e Florianópolis. “Há uma questão comportamental muito forte ligada a essa época da vida, que é sentir-se imortal”, diz o infectologista Marcos Boulos, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Tentamos explicar das mais diversas formas quanto é arriscado se expor a esse tipo de evento, mas eles acham que nunca acontecerá algo de ruim com eles.”

Mas pode acontecer, evidentemente, e por ora a única saída é a cautela, compulsória e, para muitos, exageradamente restritiva. As escolas correm para amenizar o desânimo generalizado. No colégio de alto padrão Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, ficou combinado que os estudantes que já concluíram o ensino médio poderão voltar à instituição quando houver queda relevante do número de casos em decorrência da Covid-19, que chegou a assustadoras 3.200 mortes na média móvel de sete dias, com mais de 500.000 vítimas. “Esse tipo de atividade tem um ganho inestimável ao construir memórias em uma época tão decisiva da vida”, diz o professor João Roberto de Souza Silva, diretor das classes de ensino médio na instituição. Nos Estados Unidos, a formatura do chamado high school, o último passo antes da formação universitária, não contou com os tradicionais bailes, mas foi comemorada por meio de fotos e faixas na porta das casas e jardins das famílias dos formandos. Talvez não baste, mas é um jeito de tocar o barco, porque viver é preciso.

Viver e viver, apesar dos sustos em torno do que se enxerga lá fora. O vírus ainda não se mostrou letal para os mais jovens, longe disso, mas há uma sombra incômoda, que se avizinha. Por motivos que vão do aumento da exposição ao microrganismo às características das novas cepas, mais agressivas, análise da Fiocruz constatou aumento de casos graves entre homens e mulheres com idades de 20 a 29 anos na ordem de 256% ao longo das quinze primeiras semanas de 2021 – e, como consequência, mais hospitalizações. Entre idosos de 80 a 89 anos, a título de comparação, a alta foi de 154,39% – com a vital diferença deque avós e avôs começam a ser vacinados e já desenvolvem os tão desejados anticorpos. Ao estender a lupa para outros países, como a França, é possível notar um crescimento até de contaminação entre crianças e adolescentes. Uma análise epidemiológica no país revelou que a faixa etária entre 10 e 19 anos teve cinco vezes mais casos da doença em março do que em janeiro deste ano. Atribui-se a escalada à manutenção do funcionamento das escolas e a algum relaxamento natural, depois de tantos meses, depois de tanto cansaço.

Em meio ao medo, as boas novas são celebradas com incontida euforia. Na quarta-feira 31, o consórcio formado pelas farmacêuticas Pfizer e BioNtech apresentou extraordinários resultados com testes de vacina entre crianças de 12 a 15 anos. Em ensaio clínico com 2.260 voluntários, em quem foram aplicadas duas doses em um intervalo de três semanas, não se verificou um único caso de contágio. O trabalho ainda não foi publicado em revista científica, mas as autoridades de saúde dos Estados Unidos já se organizam para ampliar a reabertura das escolas de ensino fundamental e médio assim que as agulhadas chegarem à turma que mal começou a vida, e, portanto, poderia retomá-la.

À espera do definitivo achatamento das curvas, na fila pela vacina, convém não perder o bom humor. A pandemia, reafirme-se, não durará para sempre e há como enxerga-la de outro modo. A atual situação abre caminho para que os jovens que se aventuram pela primeira vezno mercado de trabalho desenvolvam uma capacidade fundamental para os novos tempos: a adaptação. “O estágio de trabalho em home office é uma boa experiência para que eles sejam mais independentes e aprendam a controlar a própria produtividade”, diz Seme Arone Junior, presidente do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube). “Mas é preciso que as empresas ofereçam a contrapartida decisiva para esse momento da carreira, as orientações e retornos claros.” A resiliência é também outra palavra-chave usada pelos especialistas em intercâmbios estudantis – atividade que despencou 46% no ano passado em comparação com 2019. Muitos dos alunos que tinham interesse em viajar para fora do país adaptaram-se ao novo cenário por meio de aulas on-line em instituições estrangeiras. “As escolas internacionais decidiram flexibilizar diversas regras e incluíram aulas virtuais no currículo para que estudantes de outros países, como o Brasil, possam aprender com qualidade da própria casa e só precisem viajar quando for seguro”, diz Priscilla Gomes, diretora de eventos da Business Marketing Internacional (BMI), empresa responsável pelo Salão do Estudante, a maior feira do setor no país. “Ninguém precisa desistir do sonho, basta esperar um pouco ou adaptá-lo para a atual realidade.”

Sublinhe-se, então, depois de mais de um ano da eclosão do surto em Wuhan, na China, apesar das agruras, apesar da tristeza, que nem todos guardarão na memória apenas episódios traumáticos do período em que sair de casa representava um grande risco à saúde. Há meninas e meninos que aproveitaram positiva e calorosamente o inesperado período de convivência junto aos pais e sentiram algum alívio nas pressões por vezes impostas no convívio escolar, da sala de aula, do ir e vir diariamente. Esconder-se por trás de uma câmera pode funcionar como escudo. Um levantamento do Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde (NIHR), no Reino Unido, com 1.000 estudantes com idades de 13 a 14 anos em dezessete escolas da Inglaterra, mostrou que os níveis de ansiedade entre a garotada reduziram-se na casa dos 10% ao longo do período de lockdown. Houve, portanto, um aumento no bem-estar geral. Para os que não estão lidando tão bem com a situação – o que é absolutamente aceitável – é bom relembrar que esta não é a primeira nem será a última vez que a humanidade foi posta em situações-limite. “Os pais podem trazer referências históricas ao conversar com seus filhos”, diz Ilana Pinsky, psicóloga clínica e coautora do recém-lançado livro Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Editora Contexto). “Houve restrição de liberdade e muito receio sobre o futuro ao longo das guerras mundiais e em outras ocasiões de epidemias”, diz Ilana. “Pensando nisso, precisamos aprender que a vida nunca será absolutamente previsível e cabe a nós a adaptação para atravessar as tempestades. “E quando tudo passar, porque passará, com total segurança sanitária, de mãos dadas com a ciência, alguém voltará ao diário, abrirá o Instagram, para anotar, como se a adolescente Violet da Gripe Espanhola olhasse para 2021: “A proibição foi suspensa hoje. Não mais… máscaras. Tudo aberto também”.

UMA GERAÇÃO NA BERLINDA

O Impacto da pandemia nos Jovens de 12 a 17 anos•

A DUAS DOSES DA LIBERDADE

Em março do ano passado, tão logo a pandemia foi confirmada, criou-se uma atmosfera de blindagem de homens e mulheres acima de 60 anos, o grupo mais vulnerável à infecção pelo novo coronavírus. Os avós passaram, então, a aparecer em fotos e vídeos recebendo carinho a distância de netos, por meio da tela de smartphones ou por trás dos vidros da janela de casa. Um ano depois, uma fagulha de esperança começou a circular na internet, com imagens completamente diferentes – famosos e anônimos passaram a exibir nas redes sociais os braços oferecidos a profissionais de saúde. A profusão de posts criou expressões de grande sucesso na internet, como #vacinados e #vemvacina.

Os primeiros beneficiados foram aqueles com idade acima de 90 anos. Agora, dois meses depois do início da imunização no país, a faixa etária está em torno dos 60 anos. O resultado vai muito além de toda a comoção causada pelos cliques. A vacinação começa a apresentar sinais concretos de alento entre a geração mais antiga. De acordo com levantamento, pelo menos três capitais já apontam redução do impacto da Covid-19 entre os imunizados. No Rio de Janeiro, houve queda de 34% nas mortes e 30% das internações por Covid-19 entre os que estão acima de 90 anos. Na cidade de São Paulo, as médias de internações despencaram 57% e as mortes, 70%, na mesma faixa etária, após o início da campanha de vacinação. No Distrito Federal, as internações de idosos com 80 anos ou mais em UTIs da rede pública caíram 45%. Trata-se de uma decisiva indicação de que a celeridade na vacinação deve ser perseguida a todo custo pelo Ministério da Saúde. Só dessa maneira todos, e não só os avós devidamente protegidos com duas aplicações dos imunizantes, poderão voltar a abraçar seus amigos e familiares.

A DUAS DOSES DA LIBERDADE

Em março do ano passado, tão logo a pandemia foi confirmada, criou-se uma atmosfera de blindagem de homens e mulheres acima de 60 anos, o grupo mais vulnerável à infecção pelo novo coronavírus. Os avós passaram, então, a aparecer em fotos e vídeos recebendo carinho a distância de netos, por meio da tela de smartphones ou por trás dos vidros da janela de casa. Um ano depois, uma fagulha de esperança começou a circular na internet, com imagens completamente diferentes – famosos e anônimos passaram a exibir nas redes sociais os braços oferecidos a profissionais de saúde. A profusão de posts criou expressões de grande sucesso na internet, como #vacinados e #vemvacina.

Os primeiros beneficiados foram aqueles com idade acima de 90 anos. Agora, dois meses depois do início da imunização no país, a faixa etária está em torno dos 60 anos. O resultado vai muito além de toda a comoção causada pelos cliques. A vacinação começa a apresentar sinais concretos de alento entre a geração mais antiga. De acordo com levantamento, pelo menos três capitais já apontam redução do impacto da Covid-19 entre os imunizados. No Rio de Janeiro, houve queda de 34% nas mortes e 30% das internações por Covid-19 entre os que estão acima de 90 anos. Na cidade de São Paulo, as médias de internações despencaram 57% e as mortes, 70%, na mesma faixa etária, após o início da campanha de vacinação. No Distrito Federal, as internações de idosos com 80 anos ou mais em UTIs da rede pública caíram 45%. Trata-se de uma decisiva indicação de que a celeridade na vacinação deve ser perseguida a todo custo pelo Ministério da Saúde. Só dessa maneira todos, e não só os avós devidamente protegidos com duas aplicações dos imunizantes, poderão voltar a abraçar seus amigos e familiares.

OUTROS OLHARES

A CARNE É FORTÍSSIMA

Na trilha do sucesso de produtos premium, fazenda no Japão oferece cortes especiais que custam 9.000 reais o quilo. É o churrasco mais caro do mundo

O consumo de produtos de qualidade elevada é uma tendência que tem provocado mudanças em diversos setores. No ramo de cafés, as vendas de grãos especiais crescem ao ritmo de 20% ao ano, muito acima do segmento tradicional, e novas frentes de negócios como as cápsulas expressas fizeram surgir um mercado bilionário. Na área de bebidas, as cervejas artesanais ganharam fãs em diversos países, inclusive no Brasil, fisgando um público que não se importa em pagar mais para degustar sabores diferentes. Mais recentemente, a gastronomia experimentou fenômeno parecido. De cinco anos para cá, as carnes premium começaram a ocupar as gôndolas dos supermercados e, embora a sua produção seja relativamente recente, elas já respondem por 10% de toda a demanda nacional. Pois o sucesso de itens sofisticados acaba de chegar a um patamar surpreendente. Nos Estados Unidos, o quilo da carne Ozaki, uma variedade super premium da já conhecida e exclusiva wagyu, custa 1.600 dólares, ou aproximadamente 9.000 reais. Trata-se, de longe, da peça mais cara do mundo.

Os especialistas afirmam que, em um churrasco bem servido, deve-se considerar a média de consumo de meio quilo de carne por pessoa. Para uma reunião com dez amigos, portanto, são necessários 5 quilos, ou 45.000 reais em Ozaki. É muito mais do que uma família gastaria para jantar em um restaurante estrelado de Nova York (e isso pedindo vinhos e pratos caros). O que justifica esse valor? Para começo de conversa, a Ozaki é, de fato, exclusiva – mesmo. Além de ser uma versão mais nobre da wagyu, a raça de gado japonesa que mudou os parâmetros de qualidade nos últimos anos, seu sistema de produção é bastante rigoroso. O bicho fica em um rancho na pequena cidade de Miyazaki, no Japão, e são mantidas apenas 1.600 cabeças. Segundo os proprietários da fazenda, isso permite o controle obsessivo do rebanho, eliminando o risco de doenças, eventuais perdas de peso ou qualquer outro problema.

A alimentação é mais um aspecto que faz a diferença. Todos os animais comem ração 100% natural, composta de treze tipos de grãos, como cevada, soja e trigo. A receita levou vinte anos para ser aperfeiçoada e é preparada do zero todos os dias. Além disso, dizem os fazendeiros, os bois são criados em um ambiente sem stress, alimentados em horários prefixados e desfrutam de boas noites de sono. Os animais também não recebem esteroides ou antibióticos, comuns na produção em larga escala de bovinos.

A invenção do churrasco mais caro do mundo é obra do japonês Muneharu Ozaki, que assumiu o rancho do pai na década de 80, aos 24 anos. Antes, Ozaki passou dois anos em uma fazenda de Washington, período que combinou com o estudo de agropecuária na Universidade de Nebraska. De volta à terra natal, ele resolveu pôr em prática seu sonho. No início, introduziu seu inovador sistema na criação de cem cabeças de gado, e logo pôde notar que o sabor da carne Ozaki era realmente especial. Com o tempo, a fazenda foi ampliada, até alcançar a configuração atual. Hoje em dia, cortes da Ozaki são vendidos em quantidades modestas em 32 países, como Estados Unidos, Arábia Saudita, Austrália e Singapura, sempre acima dos 1.500 dólares por quilo.

A busca por carnes sofisticadas é uma tendência global. Antes da crise do novo coronavírus, o segmento de alimentos premium crescia três vezes mais rapidamente do que o mercado geral de comida, liderado sobretudo por Estados Unidos e China. Em alguns lugares, a pandemia até reforçou o movimento. É o caso do Brasil. Segundo dados da Marfrig, um dos maiores frigoríficos do país, as vendas de cortes premium cresceram 30% em 2020 – em plena crise, ressalte-se. “Se apresentamos um produto diferente que conquista o consumidor, ele dificilmente volta atrás”, diz Daniel Lee, primeiro brasileiro a se tornar juiz da Kansas City Barbecue Society (KCBS}, maior entidade internacional de churrasco, e reconhecido como um dos principais pitmasters (mestre-churrasqueiro) do mundo. “Esse é um processo irreversível. O paladar não regride.”

Não à toa, há no país inúmeras butiques de carne gourmet, com peças importadas ou produzidas internamente. No Brasil, a mais cara é justamente a da raça wagyu, cuja picanha costuma sair por 500 reais o quilo. As grandes empresas estão atentas à nova realidade gastronômica. Recentemente, o Grupo Pão de Açúcar e a Friboi, uma das maiores produtoras de proteína do país, assinaram parceria para explorar o mercado de cortes especiais, criando espaços exclusivos para vender as chamadas carnes dry aged, de textura ultra macia. A carne está mais forte do que nunca. Fortíssima.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 29 DE MAIO

A PRUDÊNCIA TEM RECOMPENSA

O servo prudente goza do favor do rei, mas o que procede indignamente é objeto do seu furor (Provérbios 14.35).

O sucesso ou fracasso dos nossos relacionamentos depende muito de quem somos. Favor ou fúria serão as colheitas da nossa semeadura. Se formos prudentes, ceifaremos favor; se formos indignos, colheremos fúria. Semearemos uma ação e colheremos uma reação. Aqueles que semeiam vento colhem tempestade. Quem semeia na carne colhe corrupção. Quem planta as sementes malditas do ódio colherá o desprezo. Contudo, aqueles que semeiam amor farão uma abundante ceifa de amizade. O empregado prudente que vive de forma irrepreensível, fala de forma irrefutável e realiza obras inegáveis goza do respeito e do favor de seus superiores. Aqueles, porém, cujo proceder é irresponsável e indigno acabam provocando o furor dos seus superiores e o desprezo de seus pares. A Bíblia nos ensina a respeitar aqueles que exercem autoridade. Devemos entender que Deus instituiu a ordem e, por isso, toda autoridade é por ele constituída. Devemos dar honra a quem tem honra. Não fazemos as coisas para sermos reconhecidos. Não praticamos o bem para sermos aplaudidos nem falamos palavras bonitas para sermos bajulados. Nosso compromisso é com Deus e conosco mesmos. Mas, quando respeitamos as pessoas e honramos nossos superiores, recebemos favor em vez de repúdio.

GESTÃO E CARREIRA

A CORRENTE DO BEM

A pandemia do coronavírus levou a uma expansão inédita nas ações de filantropia, movimento que pode mudar de forma radical a maneira como se combate a desigualdade no país

Acontecimentos extremos exigem atitudes extraordinárias. É o que costuma pregar o senso comum diante de períodos turbulentos como guerras, crises, catástrofes naturais e humanitárias.

Herdeira do fundador do Bradesco, um dos maiores bancos privados do país, Lia Maria Aguiar, 82 anos, percebeu que precisava agir em face da crise causada pelo coronavírus – e o caminho seria a filantropia. Habituada a financiar ações sociais voltadas à educação e cultura em Campos do Jordão, cidade paulista na Serra da Mantiqueira, onde mora, decidiu investir também na área de saúde, território até então inexplorado para a fundação que leva seu nome. “A pandemia só deixou mais clara a situação de fragilidade do nosso país,” constata. Em um primeiro momento, decidiu oferecer gratuitamente exames para o diagnóstico da Covid-19, até então inexistentes na cidade. Além dos testes, a fundação está erguendo um ambulatório para medicina preventiva, que, em breve, terá recursos para atendimentos mais sofisticados, como hemodiálise. A ideia é transformar essa unidade em hospital filantrópico, gerido sob a consultoria do Sírio-Libanês. Dona de uma fortuna estimada em 1,5 bilhão de dólares, que, por testamento, deve ser destinada aos projetos de caridade de sua fundação, Lia de Aguiar faz parte de um contingente de brasileiros que se dedicam a fazer mais pelo país e pelos necessitados.

Entre tantas agruras vividas nestes tempos de pandemia, trata-se de um movimento crescente e bem-vindo ao país. Historicamente, a prática da doação por aqui tem uma dimensão muito menor do que poderia, especialmente quando comparada a outros países. A eclosão da Covid-19, porém, deu um impulso significativo de recursos destinados a projetos filantrópicos. De acordo com os registros de entidades como o Grupo de Institutos Fundações e Empresas (Gife) e a Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), as doações que somavam 3,25 bilhões de reais em 2018 foram catapultadas a 6,9 bilhões de reais do início da pandemia até a semana passada. Grande parte delas aconteceu no começo da crise – entre março e maio de 2020, os recursos somaram 5,5 bilhões de reais. No início de 2021, o ritmo chegou a apresentar uma queda, mas a nova onda de contaminações e a piora das condições de vida da população mais pobre voltaram a impulsionar os números nos últimos dois meses. Em abril, o volume de recursos aplicados em filantropia foi de 150 milhões de reais, o mais alto desde agosto de 2020.

Do grupo de beneméritos que optaram pela prática do bem na pandemia fazem parte tanto sobrenomes e instituições já conhecidos por suas iniciativas assistenciais quanto novatos nesse universo. Na lista dos dez maiores doadores podem ser encontrados sobrenomes tradicionalmente vinculados às causas sociais, como os das famílias Moreira Salles (fundadora do Unibanco, com atuação na área cultural e científica) e Ermírio de Moraes (do grupo Votorantim, que apoia instituições hospitalares de São Paulo). Na esfera empresarial, chamam atenção o grupo educacional Cogna, fundada por Walfrido Mares Guia, e a JBS, a maior processadora de carnes e aves do país, que doou cerca de 400 milhões de reais, aplicados na construção de hospitais modulares no Distrito Federal e em Rondônia, na instalação de 1.800 leitos clínicos e de UTIs pelo país, além do financiamento de reforma e ampliação de unidades de atendimento em sete estados. Titã do setor de saúde, a Rede D’Or, fundada pelo médico carioca Jorge Moll Filho e hoje comandada por seu filho Paulo Moll, destinou 108 milhões de reais à requalificação da rede do SUS do Rio de Janeiro e ao financiamento dos testes clínicos da vacina do consórcio entre Fiocruz e AstraZeneca, que, em conjunto com a CoronaVac, está sendo usada na imunização dos brasileiros.

Em um período tão dramático, é natural que boa parte das doações tivesse como destino ações voltadas à saúde pública. Tais iniciativas receberam 74% dos investimentos realizados. É uma inflexão de perfil de doações, uma vez que, em anos anteriores, segundo os dados do Gife, a maior parte dos recursos consistia de repasses a instituições religiosas, que ficavam com 49% do total. Nessa nova leva, o maior doador da pandemia foi o Itaú Unibanco, que já despendeu em torno de 1,25 bilhão de reais, o maior volume de recursos já destinados por uma instituição em uma ação filantrópica no país em tão curto período. Presidente da Fundação Tide Setúbal e uma das herdeiras do banco, Neca Setúbal acredita que, apesar dos efeitos nefastos, a pandemia teve impacto positivo ao chamar a atenção de empresários e potenciais doadores para os efeitos das desigualdades sociais e econômicas brasileiras. “Anteriormente ainda existia uma cultura de que os problemas do Brasil são de responsabilidade do governo. Hoje isso definitivamente mudou”, diz Neca.

Entre os grandes doadores, as instituições financeiras tiveram participação relevante. Segundo os cálculos da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), apenas para o desenvolvimento das vacinas os bancos doaram 380,5 milhões de reais, sendo a Fundação Oswaldo Cruz a maior beneficiária dos recursos (cerca de 220 milhões de reais). No entanto, o setor de finanças foi além do combate ao coronavírus. Causas importantes e particularmente sensíveis nos últimos meses, como a preservação ambiental, também ganharam a atenção dos três maiores bancos privados do país (Itaú, Bradesco e Santander). Junto com organizações da sociedade civil, ambientalistas e empresários rurais, formalizaram o apoio a uma coalização para fazer frente a desmatamentos, iniciativa de alta relevância em meio a desastres ambientais como as terríveis queimadas no Pantanal ocorridas no ano passado.

Notoriamente positiva, a expansão da filantropia no país traz pelo menos uma inquietação. Tanto gestores de projetos da área como beneficiados pelas ações se perguntam até que ponto as doações recordes não se restringem a um acontecimento episódico, com tendência a refluir depois da pandemia – uma situação particularmente delicada caso a economia saia muito machucada deste momento desafiador. É bem possível que, nos próximos anos, o valor aplicado em benemerência seja inferior ao atual, mas há fortes indícios de que uma barreira foi definitivamente rompida. “A pandemia vai ser um marco para a filantropia. Foi o gatilho para uma sociedade mais solidária e, nesse sentido, o setor privado brasileiro mudou o patamar do seu compromisso”, acredita André Esteves, sócio fundador do banco BTG Pactuai, que destinou 50 milhões de reais para uma série de iniciativas em dezesseis estados.

Entre os projetos financiados pelo BTG na pandemia, alguns serão mantidos nos próximos anos, como um fundo de microcrédito e um projeto chamado BTG Soma, para capacitar organizações não governamentais, as ONGs. “Há uma mudança em curso, que vinha lenta e gradual, e a pandemia acelerou. O establishment brasileiro está se sentido mais responsável pela sociedade. E nesse sentido estamos nos aproximando do modelo que existe nos Estados Unidos”, diz Esteves. Outra iniciativa articulada por ele, essa de caráter pessoal, é a criação de uma universidade de tecnologia. O projeto receberá 250 milhões de reais e tem inspiração no Massachusetts Institute of Technology (MIT). O objetivo é suprir a falta de profissionais de tecnologia no Brasil, além de complementar a formação técnica dos estudantes com conceitos ligados ao empreendedorismo, às questões ambientais, ao direito e à economia de mercado.

Com seus 14 milhões de infectados e 460.000 mortos no país, a Covid-19 não fez distinção entre suas vítimas e contaminados, mas foi particularmente devastadora entre os mais pobres, tanto no aspecto sanitário como no econômico. No primeiro trimestre completo da pandemia, a renda média do trabalhador brasileiro caiu 20,1%, segundo dados da FGV Social. Em se tratando dos mais pobres, porém, a perda foi de 27,9%. O índice de Gini, que mede a desigualdade socioeconômica, subiu 2,82% no mesmo período. Nesse cenário, as ações voltadas especificamente para essas camadas da população também ganharam peso e receberam 1 a cada 5 reais doados no país. Apenas no mês de março do ano passado, as famílias Trajano e Garcia, controladoras da rede varejista Magazine Luiza, desembolsaram 10 milhões de reais em um projeto de segurança alimentar para famílias carentes – ao longo de 2020 esse valor alcançou 30 milhões.

Mas a força da segunda onda de contaminações fez com que Luiza Helena Trajano, presidente do conselho da empresa, fosse além do programa de segurança alimentar. Em janeiro, ela passou a liderar empresários em uma nova ofensiva contra os efeitos da Covid na sociedade a partir da vacinação. “Percebemos que estávamos no pior momento e ao mesmo tempo ainda existia uma força de mobilização”, recorda ela. “Os empresários estão trabalhando para aumentar a eficiência do processo de vacinação da população, tanto nos estados como nas prefeituras. E a doação não é só em dinheiro, estamos entrando na operação das campanhas”, diz ela. O projeto Unidos pela Vacina capitaneado por Luiza já conta com mais de 1.000 pessoas trabalhando em várias frentes para melhorar a estrutura de vacinação do país. Entre os empresários e executivos, que ajudam com tempo, conhecimento, trabalho e contatos, estão Paulo Kakinoff, da Gol, Chieko Aoki, da rede de hotéis Blue Tree, e Walter Schalka, da Suzano.

Em meio às rupturas socioeconômicas provocadas pela pandemia, um expediente recorrente entre empresas interessadas em apoiar iniciativas voltadas à população mais carente tem sido o de se valer de instituições e ONGs que já são conhecidas por sua atuação em favelas como receptoras para suas doações. O empresário Abílio Diniz e o dono da maior fortuna do Brasil, Jorge Paulo Lemann, controlador de colossos como Ambev, Lojas Americanas, Hershey’s, Heinz e Burger King, entre outras, estão entre os que procuraram a organização Gerando Falcões, do empreendedor social Eduardo Lyra, para a doação de cestas básicas. “Conheci mães que estavam havia três dias sem comer para poder garantir que seus filhos pudessem pelo menos fazer duas refeições diárias. O que estamos vivendo é uma verdadeira hecatombe social”, diz Lyra. Para manter, no início deste ano, o mesmo patamar dos meses de maior arrecadação de 2020, ele precisou ampliar drasticamente seus esforços. Entre março e junho de 2020, treze grandes empresas apoiaram o projeto, com doações iniciais de 1 milhão de reais. Foram arrecadados 25,6 milhões de reais, que garantiram 512.000 cestas básicas distribuídas a 85.333 famílias. Na reativação da campanha, Lyra mobilizou cinco vezes mais doadores. “Iniciativas como as do Gerando Falcões são o ponto de partida para inspirar a disseminação de um modelo filantrópico com eficiência no país”, declarou Lemann.

Dono de uma fortuna estimada em 20 bilhões de dólares, o empresário que antes da pandemia dividia a sua rotina entre a Suíça, Rio e São Paulo é mais conhecido no mundo filantrópico por sua atuação no ramo da educação, encabeçada pelas fundações Estudar e Lemann, criadas por ele. Com a chegada da Covid-19, porém, ele decidiu financiar os primeiros testes da vacina desenvolvida pela AstraZeneca e pela Universidade de Oxford no país e expandir a pesquisa local em parceria com as fundações Brava e Telles, pertencentes a seus sócios Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles. Além disso, investiu em uma fábrica de vacinas junto com o Itaú, o Instituto Votorantim, a Stone e as Lojas Americanas. Seu compromisso com a educação se refletiu no apoio a diversas instituições públicas, ao oferecer suporte técnico ao ensino remoto. A Ambev, empresa que ele controla, também entrou firme na crise de distribuição de oxigênio no país, em março, ao transformar em tempo recorde sua fábrica em Ribeirão Preto (SP) em uma unidade para produção do gás que faltava nos hospitais. Um traço comum aos grandes apoiadores de projetos filantrópicos no país é a forma altamente profissional com que gerem recursos e destinação aos projetos que financiam. De maneira geral, as fundações ligadas a empresas ou indivíduos são estruturadas por meio de uma polpuda doação inicial, que se transforma em um fundo patrimonial, administrado de forma que o principal fique preservado e os rendimentos anuais sejam aplicados em uma série de investimentos de modo que gerem recursos para as iniciativas filantrópicas. Esse modelo é adotado por diversas famílias, segundo o consultor Guilherme Benites, da Aditus Consultoria Financeira, e é comum nos Estados Unidos. Guardadas as devidas proporções, o atual modelo brasileiro de filantropia tem forte inspiração no existente hoje na maioria das fundações americanas. Por lá, os projetos de benemerência, que originaram centros médicos de referência mundial, universidades recheadas de prêmios Nobel e museus e instituições culturais de primeira grandeza, advêm de uma longa tradição de os grandes capitalistas ajudarem a sociedade de forma muito mais organizada e eficiente. A era das grandes fundações começou há pouco mais de 100 anos, com iniciativas como a do magnata do aço Andrew Carnegie. Em 1911, ele criou uma fundação de grande influência em Washington, especializada no desenvolvimento educacional e em pesquisas. O mesmo foi feito pouco depois por John D. Rockefeller.

Tanto um como o outro não eram muito bem-vistos na maneira como conduziam seus negócios, o que levou a críticas de que suas ações seriam formas de atenuar a má imagem pública. Um século depois, as empresas de ambos já não existem mais, mas suas fundações se mantêm sólidas em meio às instituições de maior prestígio entre os americanos. “Hoje, as chances de a filantropia usada como ação de marketing, para alavancar a imagem de uma corporação, de um indivíduo ou de uma família, dar certo são remotas”, comenta Patrícia Villela Marino, advogada casada com Ricardo Villela Marino, da sexta geração da família que Fundou o Itaú. “A gestão de recursos e a estruturação de projetos são iniciativas extremamente complexas que exigem dedicação e precisam ser sistematizadas e praticadas metodologicamente”, explica Patrícia, que comanda a ONG Humanitas 360, com atuação em presídios.

Muitos creditam a opulência da filantropia americana diante do tímido desenvolvimento desse setor no Brasil às regras tributárias de cada país. Segundo essa tese, a taxação sobre heranças, que chega a 40%, levou os americanos a estabelecer uma tradição secular de praticar o bem. Mas há outros exemplos de países onde a tradição filantrópica também é robusta, como Sri Lanka, Mianmar, Austrália e Nova Zelândia, sem o mesmo recurso tributário. “O sistema brasileiro até que é bem generoso com as empresas interessadas em investir em ações sociais”, diz Paula Janeso Fabiani, diretora-presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social. As instituições filantrópicas não pagam imposto de renda, PIS e Cofins, entre outros, desde que não distribuam renda para seus fundadores.

O fato é que, tanto na legislação tributária americana quanto na brasileira, os doadores têm meios de compensar o que investem em filantropia. A diferença entre os países parece ser, sobretudo, de aspecto cultural.

Nesse sentido, a pandemia tem sido um divisor de águas que sensibiliza mais as pessoas e efetivamente leva a um volume maior de doações. O grande desafio agora é fazer com que esse movimento, nascido de situações tão adversas e traumáticas, cresça e frutifique.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DIVÃ VIRTUAL

Com a ansiedade em alta entre a população, cresce o interesse pelos aplicativos de terapia digital, ferramenta de apoio aprovada por especialistas

Muitos caminhos novos foram sendo traçados para a investigação e conhecimento da mente humana desde que Sigmund Freud desenvolveu, há um século, as bases da psicoterapia. Sendo esta a era da tecnologia, e estando a humanidade mergulhada em um período especialmente suscetível a angústias e sofrimentos, nada mais natural que as sessões de análise, nos tempos atuais, pulassem do divã para a telado celular. E pularam, tanto na forma de videochamadas entre terapeuta e paciente quanto em sua versão mais radical: a terapia digital, na qual os meandros do inconsciente são desvendados por um robô movido a inteligência artificial e oferecido em diversos aplicativos. Se não chega a substituir o contato olho no olho, o recurso tem sido aprovado por especialistas como uma ferramenta coadjuvante de tratamento, no ano em que, segundo pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), as ocorrências de ansiedade e stress registraram um aumento de 80% no Brasil.

Uma das vantagens da terapia digital é quebrar a barreira da vergonha e do estigma que ainda envolve a busca de ajuda nas questões de saúde mental. Usuário do aplicativo Cíngulo há pouco mais de um ano, o estudante de biologia Davi Teixeira, 19 anos, diz saber que precisava de terapia, mas não conseguia se expor diante de outra pessoa. “Já com a Cora, a assistente virtual do aplicativo, eu me abro e falo como nunca fiz antes”, revela. Cora está disponível a qualquer momento do dia ou da noite e se comunica por mensagens de texto em tom amigável, com emojis, imagens e vídeos que ajudam os usuários a entender o que sentem e a buscar práticas que estimulem seu bem-estar.

Uma pesquisa da Universidade de Cambridge concluiu que a terapia digital de fato é útil como coadjuvante daquela conduzida por profissionais, mas não os substitui. “A complexidade do funcionamento psíquico, que envolve pensamentos, reações conscientes e não conscientes e interações humanas, impõe limites à capacidade dos aplicativos de detectar emoções e a dinâmica entre elas”, afirma Rogério Lerner, doutor em psicologia da Universidade de São Paulo. Idealizadora de outro aplicativo de terapia digital, o Vitalk, a doutora em psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP Inês Hungerbiihler concorda que Viki, a assistente virtual, é eficiente em casos brandos e moderados, mas os mais graves precisam da análise frente a frente. “A tecnologia não é avançada o suficiente para compreender situações mais complexas. Por isso também oferecemos tratamento com psicólogos reais, em um sistema híbrido” diz. O Vitalk, baixado em mais de 200.000 dispositivos, é gratuito, mas cobra pelo acesso a psicólogos.

O preço, aliás, é a segunda grande vantagem dos apps de psicanálise. Aestudante Lorena Santos, 20 anos, usa o Vitalk há dois anos para lidar com a ansiedade. “Eu não tinha condições financeiras de pagar uma sessão com um psicólogo. Converso e me consolo com a Viki”, relata. O neurocientista e psiquiatra Diogo Lara, criador do Cíngulo, afirma que seu propósito sempre foi oferecer uma ferramenta de alta qualidade e preço baixo – criado em 2017, tem 50.000 assinaturas com planos anuais de 199 reais. “Não queremos anular o trabalho dos psicólogos, mas prover um processo em conjunto com eles”, explica. A atriz Fernanda Souza, 36 anos, descobriu o Cíngulo durante a pandemia e compartilhou a experiência com seus seguidores no Instagram. Foi justamente em uma live da atriz que a publicitária Daniele Tangerino, 44 anos, conheceu o Cíngulo, no ano passado, quando se sentia “estagnada”. “Nunca tinha feito terapia e a Cora mudou minha vida. Consegui me conhecer melhor, trabalhei sofrimentos antigos, cuidei da minha autoestima e até troquei de emprego”, comemora.

A inteligência artificial lida com emoções de forma científica, fazendo uso de pesquisas sobre a mente para “etiquetar” características de personalidades. Sua aplicação terapêutica teve origem em Eliza, o primeiro robô – ou chatbot, no jargão do ramo – do gênero, criada em 1966 pelo cientista Joseph Weizenbaum, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Pioneiro no processamento de linguagem natural, o software simulou uma conversa entre um paciente e a “psicóloga” Eliza – a intenção era ressaltar a superficialidade do diálogo entre indivíduo e máquina. Aperfeiçoados, os robôs de hoje em dia promovem a constante interação do usuário com um banco de conteúdo alimentado por informações que ele mesmo forneceu. “Isso faz com que a pessoa pense a respeito do seu problema e reforça o autoconhecimento”, diz Augusto Baffa, professor de informática da PUC- Rio. Com uma ressalva, apontada pelo psicanalista Eduardo Zaidhaft: “O processo é encaminhado por um objeto que jamais saberá o que é sofrer”. Esse chatbot ainda está longe de ser inventado.

EU ACHO …

UM HOMEM

Sua inteligência absolutamente fora do comum de tão grande, a princípio me deixou embaraçada. Tive que me habituar ao jargão da grande inteligência. É normalmente sério, mas tem um sorriso – não, não vou dizer que o seu sorriso lhe ilumina o rosto todo. Mas, enfim, é a verdade. Ele não tem medo do lugar-comum, o tal não engajamento o leva à atmosfera de sua inteligência. Esta muitas vezes usa sofismas, que são a astúcia de quem pode. Entendo-o não com a cabeça, que não alcançaria a sua, mas com minha pessoa inteira. Aliás, ele é uma pessoa inteira. Seus olhos muito negros não se desviam: ele não tem medo de olhar os homens no profundo dos olhos. Dá vontade de sorrir com ele. Se eu soubesse. Aliás, preciso me habituar a sorrir mais, senão pensam que estou com problemas e não com o rosto apenas sério ou concentrado. Voltando ao homem: quando ele diz “até amanhã”, sabe-se que o amanhã virá. Ele tem um ligeiro mau gosto na escolha dos objetos de adorno que compra. Isso me dá ternura. Ele é inconsciente de que eu o vejo tanto, não tantas vezes, mas tanto.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A CASA EM UM CLIQUE

Plataforma se propõe a alugar imóveis por assinatura. Ao contrário do Air bnb, a prioridade são residências para moradia, e não para lazer

Sair à procura de um lugar para morar pode ser uma experiência desgastante, ainda mais se for às pressas. Périplo por imobiliárias, busca em sites, visitas, papelada e fiador são barreiras que costumam fazer as pessoas desistirem antes de começar. Além disso, é sempre uma tarefa inglória encontrar a moradia que combine localização ideal com serviços e preço adequados. O ambiente hostil, entretanto, está se tornando bem mais amigável: a tecnologia inovadora que mudou a forma como se consome entretenimento e transporte está também transformando o mercado de locação de imóveis. Ou seja, alugar um apartamento ou uma casa passou a ser tão fácil e cômodo quanto ver um filme no streaming ou pedir um carro pelo aplicativo.

Pensou no Air bnb? O revolucionário aplicativo, que começou a operar no Brasil em 2012, abriu um leque de opções para acomodar hóspedes por temporada, mas, até por suas características, ele é usado como plataforma de aluguel de veraneio, férias e feriados. Na cidade, o perfil do locatário é outro: o médico que migrou do interior, o divorciado que precisa sair logo de casa, o jovem executivo que não mora mais com os pais – apenas para citar alguns exemplos. Para esse público cosmopolita, acaba de ser criado o conceito de moradia por assinatura, cuja plataforma pioneira é a Housi, projeto do empresário Alexandre Frankel, também fundador da Vitacon, construtora especializada em pequenos apartamentos com serviços de cozinha e lavanderia compartilhados, um conceito igualmente inédito ao ser lançado, em 2019.

A Housi se propõe a alugar casas e apartamentos de forma instantânea, liberando imediatamente ao interessado a unidade escolhida. Para tanto, ele precisa ter cartão de crédito ou débito, do qual será cobrado o pacote que inclui aluguel, condomínio, IPTU e demais despesas. O inquilino não precisa passar em nenhuma imobiliária para assinar contrato e escolhe ficar pelo tempo que quiser, sendo cobrado por mês, como se fosse um assinante da Netflix, com a diferença de que, caso saia antes do período requisitado, deverá pagar 10% do restante da locação – a menos que se mude para outra unidade administrada pela Housi.

A modalidade simplificada, pronta para morar, serviu como uma luva para a modelo carioca Juliana Calderari, que está fixada em São Paulo por tempo indeterminado. Antes da pandemia, ela morava com os avós, mas precisou procurar seu canto para protegê-los da Covid-19 e também porque queria um apartamento de pé direito alto, onde pudesse fazer seus ensaios. Ela conta que procurou o serviço pela praticidade: “Se quebra alguma coisa, basta chamar pelo WhatsApp que eles vêm trocar”.

Embora o conceito seja novo, algumas empresas buscam caminhos similares – não exatamente iguais, ressalte-se. Em São Paulo, a construtora TPA reformou um prédio da década de 40 e colocou todas as 161 unidades para alugar, também sem qualquer burocracia e por períodos flexíveis. Em Belo Horizonte, a MRV, a maior construtora do país, descobriu no aluguel de unidades recém-construídas uma maneira de fazer dinheiro rápido. Lançada em Minas, a iniciativa foi expandida para outras regiões.

Crescente, o movimento está em sintonia com os hábitos de jovens de hoje, os millennials, mais interessados nos serviços e na localização do que na posse. Segundo Frankel, 82% desse público prefere alugar a comprar, porcentual que supera a média nacional. Trata-se de um contingente de milhões de pessoas que não querem adquirir uma propriedade só pelo fato de tê-la, uma vez que podem vir a morar em outra cidade ou mesmo em outro país de uma hora para outra – fenômeno que foi impulsionado pelo home office.

Das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, onde começou a operação em março de 2020, a Housi saltou para quarenta municípios em todas as regiões do país. Tem sob sua custódia 20.000 unidades, que contabilizam 10 bilhões de reais em ativos. A plataforma é dividida em site e aplicativo, mas o site ainda é mais utilizado, inclusive pelos proprietários que cadastram imóveis para alugar.

É de imaginar que o conceito represente uma ameaça às imobiliárias tradicionais, como a Netflix acabou com as videolocadoras. O fundador da Housi refuta esse atrito, afirmando que são modelos complementares e que a sua empresa pode prestar serviço às imobiliárias, como faz junto à hotelaria e a construtoras que vendem imóveis para investidores interessados na receita do aluguel. “Imóvel é apenas um hardware, precisa de um software para funcionar”, diz o empresário.

Iniciativas como essas reforçam um momento único para o setor. O mercado imobiliário não sabe o que é crise. De acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), o volume de financiamentos cresceu 113% no primeiro trimestre, ante igual período de 2020. Os números são ainda mais surpreendentes considerando que o crédito já havia avançado 57,5% no ano passado. Se não for viável comprar a casa, seja por razões financeiras, seja por desejos pessoais, a tecnologia pode ser uma aliada decisiva – e as plataformas digitais estão aí para provar isso.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 28 DE MAIO

UMA NAÇÃO ENVERGONHADA

A justiça exalta as nações, mas o pecado é o opróbrio dos povos (Provérbios 14.34).

Os historiadores afirmam que o império romano só caiu nas mãos dos bárbaros porque já estava podre por dentro. Os grandes impérios caíram nas mãos de seus inimigos porque primeiro tropeçaram em seus próprios pecados. O profeta Oseias disse a Israel: Pelos teus pecados estás caído (Oseias 14.1). O pecado é a vergonha dos povos, o opróbrio das nações. Uma nação não é maior do que seus valores morais. Se uma nação promove o pecado, faz apologia do vício, levanta a bandeira da imoralidade e inverte os valores morais, chamando luz de trevas e trevas de luz, sua ruína já está lavrada. Uma nação não é maior do que suas famílias. Se as famílias que a compõem estão trôpegas, cambaleando bêbadas pela volúpia do pecado, então essa nação está coberta de vexame, e sua derrota é irremediável. A justiça, porém, exalta as nações. As nações em cujo berço estava a verdade e que beberam o leite da piedade, essas cresceram fortes, ricas, bem-aventuradas e tornaram-se protagonistas das grandes transformações sociais. Tais nações sempre estiveram na vanguarda e lideraram o mundo na corrida rumo ao progresso. A justiça não pode ser apenas um verbete nos dicionários; deve ser uma prática presente nos palácios, nas cortes, nas casas legislativas, nas universidades, na indústria, no comércio, na família e na igreja.

GESTÃO E CARREIRA

NO COMPASSO DO CRESCIMENTO

Quem são as empresas que, com um modelo de negócio inovador e escalável, mais se desenvolvem no País? Será que a sua PME pode ser uma delas?

Você sabe o que é um negócio escalável? Significa ter uma empresa com a capacidade de produzir em larga escala e ter bom retorno financeiro, mas sem que os custos com tempo, dinheiro e mão de obra, por exemplo, aumentem na mesma proporção. Parece impossível, ainda mais para uma PME, não é mesmo? Mas, acredite, é o que acontece com as chamadas scalle-ups.

A gerente de apoio a empreendedores da Endeavor, Maria Fernanda Musa, define scale-up exatamente como uma empresa que possui um modelo de negócio escalável, que lhe permite crescer de forma acelerada. “São empresas com seu modelo de negócio já validado e que já têm tração”, esclarece.

A Organização para o Desenvolvimento Econômico (OCDE) pontua que esse alto nível de crescimento deva ser no mínimo de 20% ao ano. E a Endeavor soma a isso ainda o crescimento por pelo menos três anos consecutivos.

Segundo a entidade, o Brasil possui cerca de 21 mil empresas de alto crescimento (EACs). Ou seja, 0,5% das empresas do País são EACs – e as scale-ups estão contidas dentro desse grupo. Ao mesmo tempo, de acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as EACs geram mais de 1,7 milhão, ou 70%, dos novos empregos do País.

Mas, ao contrário do que muitos imaginam, as scale-ups não são novas no mercado. A analista da Unidade de Inovação do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Débora Mazzei, diz que a nomenclatura teve início em 2007. No Brasil, elas têm, aproximadamente, 14,9 anos.

É preciso deixar claro ainda, de acordo com a Endeavor, que scale-ups não são apenas grandes empresas. Ao contrário, 92% delas são pequenas e médias (PMEs).

DIFERENÇAS

Toda scale-up é uma empresa de alto crescimento, mas nem toda empresa de alto crescimento é uma scale-up. Isso porque, segundo a Endeavor, um dos fatores que mais influenciam na diferenciação de uma scale-up das demais empresas no mercado é o modelo de negócio. Ou seja, como disse a gerente Maria Fernanda, o de um negócio escalável, que consiga ganhar tração ao longo dos anos. Em termos práticos, pode-se dizer que são as empresas que conseguem aumentar a sua margem de lucro mais do que o número de funcionários.

Sem falar ainda no perfil de liderança do seu dono. “Os empresários de scale-ups atuam fortemente na vertente de inovação em seu negócio, o que afeta diretamente o crescimento da empresa”, lembra Débora do Sebrae.

Até o RH de uma scale-up trabalha de forma diferenciada. Elas priorizam o capital humano como mola propulsara de todos os processos, em todos os negócios. “Todo o time deve estar alinhado com os ideais que permeiam o bom funcionamento e evolução da empresa enquanto scale-up”, diz o especialista em negócios, inovação e startups, Fernando Seabra.

Segundo ele, o comprometimento dos líderes com essas empresas também é uma de suas particularidades. Eles se sentem tão gratos e tão ligados à empresa que veem a necessidade de retribuir o que aprenderam e ganharam com elas. E a maneira com que contribuem é passando seus conhecimentos aos demais colaboradores, por meio de mentorias, palestras e cursos.

STARTUP X SCALE-UP

É comum a comparação entre scale-up e startup, mas existem diferenças importantes entre elas. Uma delas é a de que a scale-up envolveu um conhecimento efetivo do negócio e uma forte base de inovação. Além disso, uma scale-up pode fazer parte de outros segmentos, já uma startup deve ter bases tecnológicas”, completa Seabra.

Outra diferença entre elas é número de pessoas, pois enquanto as scale-ups têm, por exemplo, dez funcionários, as startups dificilmente chegam a esse número. ”As startups estão em seu momento inicial de atividade, geralmente sua equipe é composta por sócios que ainda estão buscando a validação do modelo de negócio no mercado”, complementa Débora do Sebrae.

NÃO BASTA SER, TEM QUE SE MANTER

Tornar-se uma scale-up não é uma tarefa tão fácil, um dos pontos básicos é estar atento às demandas do mercado para ofertar produtos e serviços inovadores, que causem impacto no estilo de consumo.

Mas Fernando Seabra explica que as empresas precisam ter em mente que, para se tornar uma scale-up, será necessário trabalhar muito, pois esse modelo de negócio demora para ser escalado.

Para que isso ocorra, é importante olhar o mercado e descobrir quais serviços e produtos podem ser inovadores. É desse modo que a empresa consegue atingir um estágio mais e levado de desenvolvimento. “É possível que empresas que estavam estagnadas possam fazer algum investimento em inovação ou uma mudança no modelo de negócios e passem a ser uma scale-up. Assim, passam a crescer a partir de uma redefinição estratégica de uma nova tecnologia, ou de um novo posicionamento, ou mesmo de um aporte de investimento”, explica o CEO do Movimento 100 Open Startups, Bruno Rondani.

Afinal, a vantagem desse tipo de organização é estar um passo à frente de seus concorrentes, com produtos e serviços em constante crescimento.

Por outro lado, a desvantagem é que se essa rapidez ocorrer sem um planejamento, pode desordenar a gestão do negócio. E, do mesmo jeito que teve um crescimento acelerado, pode ter uma queda tão acelerada quanto.

Por isso, o mais difícil depois que você se torna uma scale-up, é se manter como uma. Portanto, é fundamental não parar de investir no desenvolvimento ou aquisição de tecnologia, conhecimento de novos produtos ou serviços e, assim, agregar cada vez mais valores ao seu cliente.

VOCÊ SABIA?

•  As empresas de alto crescimento estão presentes em todos os setores, do varejo à indústria tecnológica, da construção civil aos transportes!

•  Elas também estão espalhadas por todo o Brasil. Das 5.000 cidades brasileiras, mais da metade – 2.806, exatamente – são sedes dessas empresas que crescem muito.

•  60% das scale-ups do País estão presentes em cidades com menos de 500 mil habitantes, ou seja, as scale-ups não nascem somente em grandes cidades. Na verdade, algumas das maiores densidades de scale-ups encontram-se, por exemplo, em Guarulhos (SP), Jaboatão dos Guararapes (PE), Duque de Caxias (RJ), Aparecida de Goiânia (GO), Camaçari (BA), Ananindeua (PA) e Contagem (MG). O que demonstra que por mais que estar perto de grandes metrópoles ajude seu negócio, o alto crescimento é resultado de vários fatores, desde a inovação até a gestão de recursos técnicos e financeiros.

11 DICAS PARA TER UMA EMPRESA SCALE-UP

1. BUSQUE EXPERIÊNCIAS: Não apenas busque novas experiências, como ouça pessoas experientes.

2. EXECUTE PRIMEIRO O QUE LHE É FAMILIAR: Primeiro inicie pelo que lhe parece mais fácil e aos poucos vá aumentando o grau de dificuldade de suas ações. A prática nos leva à perfeição.

3. NÃO FIQUE PRESO AO SEU BUSINESS PLAN: Tenha autonomia para realizar mudanças sempre que necessário.

4. CONSTRUA UMA EQUIPE EM QUE VOCÊ CONFIE: Não adianta você ter colaboradores que não se identificam com as premissas com as quais você alinha seus negócios.

5. CORRA RISCOS CALCULADOS: Arrisque-se sabendo exatamente qual é a imensidão de tal passo.

6. BUSQUE INVESTIDORES: Ninguém consegue ir tão longe em carreira solo. E não devemos simplesmente dar ênfase em investimento que nos tragam ganhos financeiros.

7. SONHE GRANDE MESMO QUE VOCÊ SEJA PEQUENO.

8. TENHA IDEIAS E AS EXECUTE: Apenas ideias não mudam situações nem escalam negócios.

9. CONHEÇA SEU CAIXA: Saiba exatamente seus dados básicos em relação a capital de giro.

10. MESMO QUE VOCÊ CRESÇA NÃO PERCA SUA ESSÊNCIA.

11. SE ERRAR, FAÇA NOVAMENTE COM BASE NO QUE APRENDEU.

Fonte: FERNANDO SEABRA, especialista em negócios, inovação e startups.

COMO UMA PME PODE SE TORNAR UMA SCALE-UP

•  Identificando novas ofertas, serviços e produtos inovadores para o mercado.

•  Alcançando um nível de gestão elevado.

•  Mantendo o crescimento na geração de novos postos de trabalho na ordem de 20% em três anos seguidos.

•  Desenvolvendo um modelo de negócio sustentável.

Fontes: DÉBORA MAZZEI, analista da unidade de inovação do Sebrae, e BRUNO RONDANI, CEO do Movimento 100 open startups.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DE PERTO É MELHOR

Pesquisadores acreditam que toques sutis, como encostar a mão no ombro do interlocutor, aumentam o grau de confiança entre as pessoas e podem impulsionar a cooperação grupal

Independentemente da forma, seja um toque delicado de paquera ou um beliscão, o contato físico pode transmitir vários tipos de informação social. Há mais de três décadas os psicólogos Christopher G. Wetzel, do Rhodes College, e April H. Crusco, então da Universidade do Mississippi, relataram que garçonetes que encostavam brevemente na mão ou no ombro dos clientes tinham chances de ganhar uma gorjeta maior do que se não fizessem esse gesto. Estudos posteriores demonstraram ainda que o toque costuma favorecer a influência que exercemos sobre estranhos e ajudar vendedores a pressionar consumidores ou instituições de caridade na hora de procurar voluntários. Esse tipo de contato talvez possa explicar por que alguns políticos costumam dar tapinhas nos ombros ou nas costas de seus eleitores sempre que possível.

O efeito funciona também entre pessoas íntimas. Por exemplo, um estudo realizado por um grupo de psicólogos da Central de Serviços Psicológicos de Iowa e da Universidade do Estado de Iowa demonstrou que as mulheres costumam tocar o marido mais frequentemente quando discutem um tema que elas trouxeram do que nos momentos em que ele levanta uma questão – como se a pressão extra, física e simbólica, pudesse aumentar sua influência. O estudo mostra, porém, que quando não há interesse de sedução, os homens tendem a manter menor contato físico durante um diálogo, independentemente da pessoa que iniciou a conversa.

Os cientistas acreditam que as interações físicas sutis, que sinalizam cordialidade e confiança, podem impulsionar também a cooperação grupal. Psicólogos da Universidade da Califórnia em Berkeley descobriram que o tempo que os jogadores de basquete da NBA passavam tocando um no outro no início da temporada poderia ajudar a prever o desempenho meses mais tarde. Não importa se são leves pancadas comemorativas com os punhos, apertos de mãos, abraços. A proximidade parece refletir o espírito de uma equipe unida e indicar a capacidade dos atletas de jogar bem como indivíduos e como time.

EU ACHO …

DEZ ANOS

– Amanhã faço dez anos. Vou aproveitar bem este meu último dia de nove anos.

Pausa, tristeza.

– Mamãe, minha alma não tem dez anos.

– Quanto tem?

– Acho que só uns oito.

– Não faz mal, é assim mesmo.

– Mas eu acho que se deviam contar os anos pela alma. A gente dizia: aquele cara morreu com 20 anos de alma. E o cara tinha morrido mas era com 70 anos de corpo.

Mais tarde começou a cantar, interrompeu-se e disse:

– Estou cantando em minha homenagem. Mas, mamãe, eu não aproveitei bem os meus dez anos de vida.

– Aproveitou muito bem.

– Não, não quero dizer aproveitar fazendo coisas, fazendo isso e fazendo aquilo. Quero dizer que não fui contente o suficiente. O que é? Você ficou triste?

– Não. Vem cá para eu te beijar.

– Viu? eu não disse que você ficou triste?! viu quantas vezes me beijou?! quando uma pessoa beija tanto outra é porque está triste.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O MEDO DA QUIMERA

Seres híbridos, como os criados agora em laboratório, fascinam e assustam a humanidade

Quando orei Minos de Creta recebeu um magnífico touro do deus do mar, Poseidon, para fazer um sacrifício, ele não conseguiu matá-lo. Enraivecido, Poseidon encantou a mulher de Minas, Pasífae, para que sentisse um grande desejo pela criatura. O resultado de sua cópula transespécie foi um monstro com cabeça de touro, o Minotauro. Híbridos de humanos e animais são comuns nos mitos e nas lendas: centauros, sereias, Pan com seus pés de bode. Somos ao mesmo tempo fascinados e incomodados pelo limite que nos separa dos outros animais – e se ele é permeável. Por isso, a recente notícia dada por uma equipe nos Estados Unidos e na China sobre embriões que contêm a mistura de células humanas e de macacos toca uma antiga linha de ansiedade: que estranhos seres híbridos estamos criando, e porquê?

Entidades vivas com células ou tecidos de mais de uma espécie são tecnicamente chamadas de quimeras, nome de um monstro lendário que Homero descreveu na Ilíada como “fronte de leão e traseiro de serpente, um bode no meio”. Há muito tempo sabemos que esses animais de partes encaixadas são possíveis. Uma quimera com uma mistura de tecidos de cabra e carneiro, chamada geep, com cabeça de cabra, mas corpo lanoso de carneiro, foi relatada em 1984. As quimeras geralmente são feitas com a transferência de células-tronco, capazes de se transformar em vários tipos de tecidos, de uma espécie para o embrião de outra. Em algumas circunstâncias, as células estrangeiras podem continuar a crescer e prosperar em seu novo hospedeiro.

O incômodo provocado por tais combinações biológicas é consideravelmente maior quando as quimeras contêm células humanas. Mas estas também são conhecidas há anos. Células-tronco embrionárias humanas foram inseridas em fetos de carneiros e embriões de ratos, coelhos e porcos. Algumas conseguem sobreviver durante dias. Tais experimentos poderiam evocar ecos grotescos do cientista louco de H.G. Wells, o Doutor Moreau, que “humanizava” animais por meio de cirurgia. Mas há bons motivos para eles. Em particular, a escassez de órgãos humanos para transplante, como rins, o que leva a muitas mortes potencialmente evitáveis por falência de órgãos, poderia ser solucionada pelo cultivo de órgãos “humanos” em animais.

Vários anos atrás, os biólogos japoneses Hiromitsu Nakauchi e Toshihiro Kobayashi criaram um truque para que células de outra espécie injetadas em um embrião se desenvolvessem exatamente no órgão desejado. Eles criaram um “nicho” para as células estrangeiras ao modificar geneticamente os embriões dos animais para que eles pudessem produzir por conta própria o órgão-alvo, por exemplo, um fígado. Então, o embrião usará as células-tronco do hospedeiro para fazê-lo. A técnica mostrou-se funcional para cultivar órgãos de ratos, como pâncreas, em camundongos, e vice-versa. Mas os roedores, obviamente, não podem ser hospedeiros de órgãos humanos completos. Para isso há necessidade de um animal maior. Em 2017, uma equipe liderada por Juan Carlos Izpisua Belmonte, no Instituto Salk em La Jolla, na Califórnia, mostrou que células-tronco humanas adicionadas a embriões de porcos podiam sobreviver por até quatro semanas.

Em contraste com as quimeras de rato-camundongo, as células humanas cresciam, no entanto, apenas em proporções pequenas e cada vez menores, insuficientes para gerar tecidos e órgãos humanos. “Foi um resultado decepcionante”, disse Jun Wu, que era pesquisador de pós-doutorado na equipe de Salk e hoje está no Centro Médico Southwestern da Universidade do Texas, em Dallas. “Por que é tão difícil as células humanas sobreviverem?”

lzpisua Belmonte desconfia que é porque somos parentes muito distantes dos porcos: nosso ramo da árvore evolucionária divergiu do deles há 90 milhões de anos. Por isso ele e seus colegas, colaborando como grupo de Weizhi Ji na Universidade de Ciência e Tecnologia Kunming em Yunnan, na China, agora fizeram quimeras de humanos com macacos. Como nossa relação evolutiva com os macacos (os pesquisadores usaram animais do gênero Macaca) é mais próxima – nós divergimos há cerca de 20 a 30 milhões de anos -, os pesquisadores imaginaram que os dois tipos de células poderiam se dar melhor e esperavam descobrir mais sobre o que promove sua compatibilidade. “Se conseguirmos aprender sobre a comunicação entre as células, poderemos melhorar o trabalho com porcos”, disse Wu.

Dos 132 embriões quiméricos feitos pelos pesquisadores e cultivados numa placa, a maioria morreu antes do 17º dia após a fertilização. Apenas três continuavam vivos no 19°dia. Mas os pesquisadores dizem que, em geral, as células humanas pareciam se integrar melhor com aquelas de macacos do que com as de embriões de porcos. Vários embriões ainda continham de 4% a 7% das células humanas no 15º dia.

Isto significa que as quimeras de humanos e macacos podiam suportar misturas mais íntimas e extensas dos dois tipos de células, com menos previsibilidade sobre onde elas acabariam crescendo. Nakauchi, hoje na Universidade Stanford, na Califórnia, diz que a ética desses experimentos é mais perturbadora se eles gerarem “animais ambíguos, como um porco com rosto ou cérebro humano”. Isso poderia ser impossível até em princípio, dada a distância evolucionária entre porcos e humanos, mas para os macacos é menos claro. Por isso devemos evitar fazer quimeras de humanos e animais com um grande componente humano, diz ele – e talvez usar células-tronco humanas geneticamente modificadas que não possam fazer células cerebrais. Wu concorda, mas salienta que eles nunca pretenderam implantar qualquer um de seus embriões quiméricos para crescimento mais longo. O objetivo não é cultivar órgãos humanos em macacos. Ele não pensa que isso deva ser contemplado se não sabemos onde as células humanas poderão acabar. “O que importa para mim é aonde as células humanas vão e quantas existem”, diz a bióloga Marta Shahbazi, que trabalha em desenvolvimento de embriões na Universidade de Cambridge. “Se os limitarmos exclusivamente a um órgão de interesse, como o pâncreas, tudo bem: um camundongo com um pâncreas feito de células humanas não é ‘humano’ em um sentido importante. Mas para um camundongo com células-tronco humanas espalhadas por todos os tecidos a resposta não está clara. E para um macaco as coisas ficam ainda mais imprecisas.”

Alfonso Martinez Arias, biólogo desenvolvimentista na Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, pensa que as afirmações de Izpisua Belmonte e colegas são completamente exageradas, de qualquer modo. Ele acredita que tudo o que eles realmente mostraram é que, quando algumas células humanas são acrescentadas a embriões de macacos, elas se tornam moribundas. “Se acrescentar algumas células estranhas que tornem mais difícil para o embrião sobreviver, o que você aprendeu dessa entidade biológica doente? “, pergunta. “As quimeras de humanos e macacos não virão logo, e muitas talvez nunca cheguem. Em todo caso, não precisamos delas nem para responder a perguntas biológicas, nem para solucionar problemas associados a doadores de órgãos.”

Mesmo assim, outras quimeras de humanos com animais certamente surgirão, mas elas são proibidas em muitos países. Nakauchi mudou-se do Japão para os Estados Unidos para escapar de tais restrições, ironicamente para encontrar uma moratória das verbas federais a esse tipo de pesquisa em 2015. A proibição no Japão foi cancelada em 2019, mas mesmo assim Nakauchi diz que as novas diretrizes tornam “praticamente muito difícil conseguir a aprovação”. Essa hesitação o frustra: “Órgãos cultivados em animais poderiam transformar a vida de milhares de seres humanos que enfrentam a falência de órgãos. Eu simplesmente não entendo porque continua a haver resistência”. lzpisua Belmonte insiste que seu trabalho em quimeras de humanos com macacos prestou “total atenção às considerações éticas”.

Até recentemente, as quimeras de humanos com animais eram material para lendas e folclore, dificilmente uma boa base para se fazerem avaliações éticas. Mas a história das deliberações em concepção assistida mostra que tais histórias têm uma tendência perigosa a mudar nossa percepção quando não se oferece algo melhor. As questões precisam de ampla discussão pela sociedade, mas estas poderão acompanhar o ritmo da ciência?

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 27 DE MAIO

CORAÇÃO, A MOLDURA DO CARÁTER

No coração do prudente, repousa a sabedoria, mas o que há no interior dos insensatos vem a lume (Provérbios 14.33).

Do coração procedem as fontes da vida. James Hunter, o autor do livro O monge e o executivo, tem razão quando diz que não somos o que falamos, mas o que fazemos. Na verdade, não somos aquilo que proclamamos em público, mas o que agasalhamos no coração em secreto. O que guardamos no coração, ainda que nos arquivos mais secretos, trancados pelos cadeados do sigilo, acaba vindo a lume e tornando-se público, pois a boca fala do que está cheio o coração. O coração é a moldura do caráter. Dele transbordam torrentes que se esparramam pelos nossos poros. É do coração que procedem os maus desígnios. É desse poço profundo que brotam tanto o bem quanto o mal. A maldade escondida e maquiada dos insensatos acaba vindo à tona. Mas no coração do prudente repousa a sabedoria. Sabedoria é olhar para a vida com os olhos de Deus. É ser regido não pela cartilha da maioria, mas pelos valores morais que procedem da lei de Deus. Sabedoria é amar o que Deus ama e repudiar o que Deus odeia. Sabedoria é buscar as coisas lá do alto mais do que os tesouros da terra. Sabedoria é adorar a Deus, amar as pessoas e usar as coisas, em vez de amar as coisas, usar as pessoas e esquecer de Deus. Os prudentes saboreiam as finas iguarias no banquete da sabedoria nesta vida e depois alcançam as bem-aventuranças eternas, cujas glórias sublimes jamais se contaram aos mortais.

GESTÃO E CARREIRA

DE OLHO NA SEGURANÇA DO SEU CLIENTE

Lei que regulamenta o tratamento de dados pessoais envolve empresas de todos os portes e segmentos. Saiba como adaptar o seu negócio para evitar multas

Ter um banco de dados de clientes é imprescindível se a sua empresa lida com o público. Afinal, conhecê-los é importante para direcionar produtos e campanhas que realmente sejam do seu interesse. No entanto, com tanta onda de vazamentos de dados pessoais de clientes até por grandes empresas como Facebook, tornou-se cada vez mais essencial ter regras que digam até onde se pode usar as informações pessoais dos clientes com fins de vendas e poder.

Por isso, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) 13.709, sancionada em 2018, sofreu diversas alterações e entrou em vigor em agosto de 2020. E não pense que o tamanho da companhia não é parâmetro de exclusão para a aplicabilidade das novas regras. Seja você micro, pequeno, médio ou grande, de qualquer segmento de atuação, se coleta e armazena dados pessoais, terá que atender às exigências da nova legislação. O Brasil passou a fazer parte dos países com esta legislação específica para proteger a privacidade dos cidadãos, assim como o General Data Protection Regulation, da União Europeia, e o California Consumer Privacy Act of 2018, dos Estados Unidos. Mesmo assim, uma pesquisa do Serasa Experian mostrou que cerca de 85% das empresas brasileiras ainda não estão preparadas para atender às exigências da LGPD.

Qualquer dado pessoal em território brasileiro que envolva o objeto das atividades empresariais estará sujeito a penalidades caso não seja realizado o tratamento correto. Será um momento de adaptação das empresas, cidadãos, órgãos públicos e autoridades regulatórias, como explica a sócia do L.O. Baptista Advogados, Esther Cunha. “A lei dispõe sobre o tratamento de dados pessoais com o objetivo de proteger os direitos fundamentais de liberdade e de privacidade e o livre desenvolvimento da personalidade da pessoa”, afirma.

Situações como venda de cadastros, uso dos dados coletados sem autorização do titular e vazamento de informações são exemplos de violações da LGPD, completa o diretor de Segurança Cibernética da Service IT e professor da Unisinos, Leonardo Lemes.

DE ACORDO COM A LEI

Mas, afinal, o que minha empresa precisa fazer para se adequar aos novos procedimentos?

Primeiro, Esther conta que a nova lei exige urna mudança da cultura interna das empresas, passando a incorporar algumas práticas específicas de privacidade e segurança. Isso porque a LGPD é aplicável a qualquer operação de tratamento (coleta, produção, utilização, reprodução, eliminação) de dados pessoais que preencha um dos seguintes requisitos: A – Seja realizada no Brasil; B – Tenha por objetivo a oferta de bens ou serviços ou ainda o tratamento de dados de indivíduos no Brasil; C – Seja referente a dados pessoais coletados no Brasil. ”A LGPD somente não é aplicável em situações excepcionais previstas no Art. 4° da mesma lei. Para adequação das empresas, é necessária a revisão, a adaptação e, possivelmente, a criação de novos procedimentos internos, além da conscientização de todos os colaboradores sobre a LGPD e seus impactos nas suas atividades, tanto por meio de políticas internas como através de treinamento dos colaboradores”, explica.

Alguns pontos também merecem maior atenção. Caso a empresa trate dados pessoais de crianças e adolescentes (Art. 14, LGPD) ou dados sensíveis (Arts. 5°, II e 11, 12 e 13, LGPD), por exemplo, deverá garantir o cumprimento de requisitos ligados a essas categorias. A LGPD prevê responsabilidade solidária entre controladores e operadores (Art. 42 e ss., LGPD), significando que empresas não diretamente ligadas a uma violação da lei podem ser responsabilizadas e obrigadas a reparar danos causados por outra empresa da cadeia, em lógica semelhante à do Código de Defesa do Consumidor. ”As legislações anteriores já tratavam do tema. Contudo, a LGPD é uma lei que zela pelo direito do titular dos dados, os cidadãos, independentemente do segmento de atuação da empresa e que não se restringe ao meio (digital ou impresso) em que esse dado esteja sendo tratado”, acrescenta Lemes.

O primeiro passo da mudança seria mapear os dados pessoais e entender contexto e práticas de cada organização, implicando nesse processo questões jurídicas, de tecnologia da informação e de segurança, além de uma revisão dos aspectos do negócio. As penalidades previstas podem chegar a multas no valor de R$50 milhões por infração, quando for devidamente apurada e confirmada. ”A Lei não impede que o dado seja utilizado para uma ou outra finalidade, ela apenas exige que o usuário seja informado dessa utilização e autorize. Acaba devolvendo para o usuário o controle de algo que sempre foi dele, possibilitando-lhe decidir se quer ou não fornecer o dado e, ainda, que saiba exatamente para que ele será utilizado”, explica o diretor executivo da IT2S, Leonardo Goldim.

Ele conta ainda que há a possibilidade de a Autoridade Nacional simplificar procedimentos para que microempresas e empresas de pequeno porte possam adequar-se. Mesmo assim, não conte com a sorte! Comece desde já sua reorganização para evitar problemas futuros. Os maiores riscos envolvem incidentes como ransonware – um tipo de ameaça que criptografa os arquivos e pede um resgate para que sejam liberados novamente; vazamento de dados; invasão de dispositivos e outros.

Ou seja, não se trata apenas do que sua empresa faz com as informações, mas também da segurança delas em relação a ameaças externas, tornando você o responsável. A disciplina jurídica dos dados pessoais está espalhada em diversas leis, como o Marco Civil da Internet e seu decreto regulador, o Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei do Cadastro Positivo, Lei do Sigilo Bancário, normas do CMN e do BACEN sobre Cibersegurança, a Lei de Acesso à Informação, entre outras. “A LGPD não afasta a aplicação das regras sobre proteção de dados pessoais já estabelecidas em outras leis, mas reúne os direitos dos titulares de dados pessoais e estabelece para as empresas a obrigação de garantir os direitos dos titulares e criar mecanismos para que isso ocorra de forma rápida e eficaz”, adverte Esther.

ATENÇÃO REDOBRADA

Empresas que já possuem outras obrigações relacionadas permanecem obrigadas, segundo Esther, a menos que a LGPD disponha em contrário. Além disso, a LGPD estabelece uma autoridade fiscalizadora e sancionadora para prevenção e repressão de práticas abusivas, relativamente a dados pessoais, sendo também atribuição dessa Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) educar a população sobre privacidade e proteção de dados pessoais.

Leonardo Lemes conta que uma coleta de dados realizada para uma finalidade específica não poderá ser usada para outra sem o devido consentimento. “Além disso, é preciso oferecer ferramentas que permitam ao usuário revogar esse consentimento quando quiser. A compra de base de dados de terceiros para envio de publicidade, por exemplo, pode ser um tiro no pé quando a empresa não documentar o ciclo de vida dos dados pessoais dentro da organização e indicar a finalidade deles”, afirma.

Um dos pilares da LGPD é a autodeterminação informativa, isto é, o titular dos dados pessoais deve ter controle sobre o fluxo. “A comercialização indeterminada de dados pessoais sem o conhecimento dos titulares vai em direção completamente oposta à autodeterminação informativa e com as exigências da LGPD”, completa Esther.

PROTEJA-SE!

Um bom design de PKI (Public Key Infrastructure ou chaves de segurança), usando certificados digitais, pode proteger organizações bem-sucedidas, com foco em uma abordagem de segurança por design. Isso é especialmente importante para os fabricantes de dispositivos de IoT (Internet of Things Internet das Coisas) e as empresas que os utilizam, além de empresas com forte presença digital para lidar com comércio eletrônico, transações financeiras e informações privadas, como data de nascimento, endereço, ID do governo.

O uso de PKI reforça os princípios básicos de segurança – autenticação, criptografia, dados e integridade do sistema -, pode ajudar a proteger sites e aplicativos conectados à internet, bem como dispositivos de IoT na rede e à medida que são fabricados. “Os certificados digitais e PKI podem fornecer uma camada importante de defesa e prova de que você leva a sério a segurança de seus clientes e mantém os dados privados”, alerta o representante principal do DigiCert, Timothy Hollebeck. O profissional tem mais de 15 anos de experiência em segurança de computadores, incluindo oito anos trabalhando em pesquisas inovadoras sobre segurança financiadas pela Agência de Projetos de Pesquisa Avança da de Defesa.

Ele ressalta também que uma boa higiene de segurança exige o uso de certificados digitais em todos os pontos de conexão – páginas da web, interna e externamente, para proteção de e-mail, acesso remoto, autenticação de dispositivos IoT e proteção dos dados compartilhados com criptografia e assinatura de código no firmware do dispositivo. “É aqui que entra o TLS – Transport Layer Security, conhecido como SSL para Secure Socket Layer, que foi substituído pelo TLS. Uma tecnologia de segurança padrão criada para proteger o tráfego na internet usando criptografia, também”, acrescenta.

Além disso, todos os servidores web na internet precisam de certificados de segurança. Antes, eram projetados para comércio eletrônico e transações financeiras, para sites em que outras informações confidenciais eram inseridas, como informações de identidade pessoal ou logins. Atualmente, a necessidade de criptografar a web por padrão é motivada pela proteção da livre troca de ideias e pela privacidade dos usuários contra o governo, agências de espionagem ou pessoas com intenções criminais. “O Google deu aos sites HTTPS um valor extra em seus algoritmos de pesquisa há alguns anos. Todos os principais navegadores agora marcam sites HTTP que não usam certificados TLS como Não Seguro. As empresas não podem mais ignorar o uso de certificados TLS, não apenas em sites que realizam transações com informações valiosas, mas em todos os sites da internet”, conclui.

BÊ-Á-BÁ DA LGPD

O QUE MUDA: as leis existentes hoje garantem o direito à intimidade e ao sigilo de comunicações, porém foram criadas e implementadas em um cenário que não contemplava soluções tecnológicas. A LGPD é uma legislação que disciplina como as empresas e os setores públicos podem coletar e tratar dados de pessoas, determinando direitos, exigências e procedimentos a serem seguidos.

A TRANSIÇÃO: o ideal é contar com um parceiro com expertise para ajudar na transição e com serviços que possam ser facilmente implementados.

A adequação começou a valer em agosto de 2020, o que significa que as empresas precisam estar em conformidade.

PASSO A PASSO: desde o mapeamento de todos os dados que são coletados do usuário, onde esses dados estão sendo armazenados. quais dados o usuário consentiu que fossem coletados e qual o uso de cada dado, até processos de remoção completa dos dados por solicitação do usuário e a definição de um responsável pela proteção e privacidade de dados na empresa.

APLICABILIDADE DA LEI: atualmente, qualquer empresa, órgão ou pessoa física que não cumprir as orientações ditadas pela lei poderá pagar multas que variam entre R$50 milhões e 2% do faturamento total da empresa. Mas as penalizações ainda estão em avaliação pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), responsável pelas diretrizes.

EXEMPLOS: diversas atividades comuns que vemos atualmente podem ser consideradas ilegais, desde atividades como a venda de dados até a simples coleta de dados sem consentimento do usuário (como dados coletados para marketing e outros).

SELO DE QUALIDADE

A Associação Brasileira de Fintechs – ABFintechs, em parceria com a empresa de tecnologia IT2S Group, acaba de lançar um selo de qualidade voltado à segurança de dados. O Programa Fintech Segura é uma iniciativa para trazer mais transparência sobre a maturidade das startups do setor nos temas de proteção e privacidade de dados, além de fomentar as boas práticas de segurança da informação e proteção de dados pessoais, que é um dos requisitos da LGPD. As recomendações de segurança são práticas e objetivas, sendo aplicáveis a startups em qualquer fase operacional.

ERROS MAIS COMUNS

•  Imaginar que a LGPD se aplica apenas a dados no ambiente digital. A LGPD se aplica a dados pessoais em qualquer formato (Art.12, LGPD).

•  Assumir que uma empresa que tem como clientes pessoas jurídicas, e não pessoas naturais, não está abrangida pela LGPD.

•  Esquecer que no ambiente interno de toda empresa há, no mínimo, fluxo de dados pessoais dos colaboradores.

•  Acreditar que sempre é necessário obter consentimento dos titulares para tratar seus dados pessoais. A LGPD estabelece dez bases legais diferentes e deve ser feita uma análise caso a caso para identificar qual a base legal mais adequada para cada finalidade de tratamento (Art. 72, LGPD).

•  Pensar que bastará incluir nos contratos, documentos e plataformas da empresa um parágrafo genérico dizendo que o titular consente com o tratamento de seus dados pela empresa para fins indeterminados. A LGPD estabelece requisitos de validade para o consentimento (deve ser livre, o controlador deve ser capaz de demonstrar a manifestação de vontade do titular, deve se referir a finalidades determinadas, deve ser revogável – Art. 82, LGPD).

•  Não lembrar que a lei determina que o controlador deve assegurar a segurança dos dados pessoais, e deixar de implementar políticas e sistemas próprios.

•  Criar ferramentas e produtos que sejam ótimos sob perspectiva de vendas, mas que não necessariamente atendam às exigências da LGPD. É importante que os produtos e ferramentas das empresas sejam concebidos de forma a garantir a privacidade e segurança (“privacy by design”).

•  Esquecer que a empresa deve criar canais e mecanismos para que os titulares de dados pessoais possam exercer de forma efetiva os seus direitos quanto a dados pessoais.

•  Atribuir a uma única área ou departamento a função de deixar a empresa em conformidade com a LGPD. O ideal é que se estabeleça um comitê composto por profissionais de diferentes áreas (jurídico, TI, RH, comercial, compliance e outros).

DICAS DE SEGURANÇA

1. CRIE MODELOS DE AMEAÇAS: avalie o caso de uso dos sites, aplicativos e serviços conectados à internet durante sua fase de design. Avalie os vários riscos e crie planos de mitigação no design geral de seus aplicativos voltados para a web, incluindo servidores de preparação e produção.

2. ELABORE CASOS DE SEGURANÇA E ABUSO: certifique- se de colocar sua equipe para trabalhar testando para validar seu modelo de ameaça. Implemente uma avaliação contínua para garantir que o modelo de ameaça continue atendendo seus cenários de ameaça.

3. GERENCIE CHAVES COM SEGURANÇA: integre seus processos gerando e armazenando suas chaves privadas com segurança, usando os módulos de segurança de hardware (HSM) ou uma das principais plataformas de loT baseadas na nuvem.

4.  COLOQUE CERTIFICADOS EM USO: saiba onde sua organização pode usar certificados em vez de senhas para autenticação com integração ao Active Directory. Os certificados de infraestrutura de chave pública (PKI) desempenham um papel fundamental em sua solução, pois validam a identidade para que apenas usuários e servidores autorizados possam acessar um dispositivo ou aplicativo especifico.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENTRE PALITOS DE NICOTINA E CONEXÕES VIRTUAIS

O cigarro já foi ferramenta de dependência e preenchimento do vazio existencial. Hoje, o celular ocupa esse lugar, mas vive o germe da decadência

Se antes passávamos pela avenida Paulista e víamos pessoas sentadas fumando os seus cigarros, hoje nos deparamos com cidadãos absolutamente vidrados checando seus iPhones.

A função social é semelhante: estar parado sem fazer nada é insuportável para muitos e assim o cigarro caía como uma luva, ou seja, preenchimento do vazio existencial com o palito de nicotina, tal qual hoje, em seu lugar, o uso dos novos aplicativos dos telefones móveis faz o tempo fluir.

O homem mediano tem necessidade de ocupar o seu interior, desejo instintivo de realizar algo quando não tem o que fazer, assim como a fome, que também é uma expressão de necessidade.

O celular veio suprir essa lacuna e, por meio desse pequeno objeto, o seu portador fica, em tempo real, conectado a outros usuários. Não está mais isolado, pois compartilha as suas vivências, tira selfies, posta as fotos, checa o Facebook, confere o WhatsApp (as ondas do momento) e, às vezes, até usa o telefone para falar.

Essa tecnologia se disseminou de tal maneira pela sociedade que o número de celulares no Brasil é maior do que o da população. Em outras palavras, milhões de pessoas têm mais de um aparelho.

A bem ver, já não se pode, no mundo contemporâneo, viver sem um desses instrumentos. Porém, no bojo de todos os progressos, existe o germe da decadência e, nesse aspecto da telefonia móvel, não poderia ser diferente.

Então, vem a pergunta: qual o ônus do celular? Em primeiro lugar, se tornou o objeto mais roubado do Brasil; além disso, por causa dele ocorreram tragédias, desde separação de casais enciumados que surpreenderam o parceiro ou a parceira em determinada circunstância constrangedora, graças aos aplicativos que localizam as pessoas, até crimes de morte, sequestro e extorsão foram praticados mediante o uso desses aparelhos, lembrando que, nas cadeias de todo o Brasil, estes são facilmente introduzidos e abundam nas mãos dos presidiários.

Ainda mais, prestam-se para a prática de bullying, muito comum entre jovens estudantes, que postam fotos de colegas em situações vexatórias ou, outro acontecimento comum, atribuem notas para o desempenho sexual da pessoa, para o odor, para o hálito, para o tamanho do pênis etc.

Assim, o que faz mais mal, o cigarro de outrora ou o celular hodierno? A bem ver, são dois objetos absolutamente distintos, que causam semelhante dependência e dão prazer, mas, de outra perspectiva, podem ser bem nocivos à saúde: o primeiro, para a física; o segundo, para a mental.

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo

EU ACHO …

O “VERDADEIRO” ROMANCE

Bem sei o que é o chamado verdadeiro romance. No entanto, ao lê-lo, com suas tramas de fatos e descrições, sinto-me apenas aborrecida. E quando escrevo não é o clássico romance. No entanto é romance mesmo. Só que o que me guia ao escrevê-lo é sempre um senso de pesquisa e de descoberta. Não, não de sintaxe pela sintaxe em si, mas de sintaxe o mais possível se aproximando e me aproximando do que estou pensando na hora de escrever. Aliás, pensando melhor, nunca escolhi linguagem. O que eu fiz, apenas, foi ir me obedecendo.

Ir me obedecendo – é na verdade o que faço quando escrevo, e agora mesmo está sendo assim. Vou me seguindo, mesmo sem saber ao que me levará. Às vezes ir me seguindo é tão difícil – por estar seguindo em mim o que ainda não passa de uma nebulosa – que termino desistindo.

E os romances que escrevo que não passam do título? Porque seria muito difícil escrevê-los ou porque, já tendo uma ideia precisa do desenrolar-se da história, perco a curiosidade de escrevê-la. Embora representando grande risco, só é bom escrever quando ainda não se sabe o que acontecerá. Agora mesmo, neste próprio instante, ou melhor, há alguns instantes em que interrompi para atender o telefone, nasceu-me um título do que seria um conto ou um romance: O montanhês. O título é sem graça, bem sei. E sei o que seria: não se trataria de um homem das montanhas, mas da subida gradual de um homem através da vida até chegar a um cume simbólico, ou não simbólico de uma montanha, de onde ele veria o seu passado e também o que lhe restava ainda a subir, isto é, um pouco mais de futuro.

E o que ele via não era bonito, nem bom, nem ruim, nem feio, era o que fatalmente a vida fizera dele e sobretudo o que fatalmente ele fizera da vida. E aí vem o problema: até que ponto fora fatal o que ele fizera na vida e esta dele? Até que ponto houvera escolha? Estou me confundindo toda com esta história que jamais escreverei.

E eu, que já viajei bastante e não quero mais viajar, como é que nunca me ocorreu nem ocorrerá jamais escrever um livro de viagens? Com perdão da palavra, sou um mistério para mim. E, ainda fazendo parte desse mistério, por que leio tão pouco? O que era de se esperar é que eu tivesse verdadeira fome de leituras. Também para ver o que os outros fazem. No entanto só consigo ler coisas que, se possível, caminhem direto ao que querem dizer. Não, positivamente não me entendo. Bem, mas o fato é que mesmo não me entendendo, vou lentamente me encaminhando – e também para o quê, não sei. De um modo geral, para mais amor por tudo. É vago “mais amor por tudo”? Inclusive mais amor inclui uma alerteza maior para achar bonito o que nem mesmo bonito é. E, embora a palavra humano me arrepie um pouco, de tão carregada de sentidos variados e vazios essa palavra foi ficando, sinto que me encaminho para o mais humano. Ao mesmo tempo as coisas do mundo – os objetos – estão se tornando cada vez mais importantes para mim. Vejo os objetos sem quase me misturar com eles, vendo-os por eles mesmos. Então às vezes se tornam fantásticos e livres, como se fossem coisa nascida e não feita por pessoas. Se eu for me encaminhando para o mais humano não quer dizer que eu precise perder essa qualidade que tenho às vezes de enxergar a coisa pela coisa. Porque – e aí vou eu entrando com sofisma só para me defender – se sendo gente eu consigo ir, por que haveria de perder essa capacidade ao me tornar mais gente? Ah, Deus, sinto que é puro sofisma. Aliás o sofisma como forma de raciocínio sempre me atraiu um pouco, passou a ser um de meus defeitos. Explicável porque sempre tive que me defender muito, e com sofismas se consegue. Talvez, quem sabe, eu que agora me defendo menos, largue pelo caminho o raciocínio-sofisma. Talvez eu não precise mais ganhar para me defender. O sofisma faz ganhar muito em discussões – há anos que não discuto – e em explicação para si mesma das próprias ações inexplicáveis etc. De agora em diante eu gostaria de me defender assim: é porque eu quero. E que isso bastasse.

Bem, fui escrevendo ao correr do pensamento e vejo agora ter me afastado tanto do começo que o título desta coluna já não tem nada a ver com o que escrevi. Paciência.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

RÓTULOS EXAGERADOS

As celebridades adoram colar seu nome a safras de vinho – algumas são excelentes, mas quase sempre a jogada é de marketing

Famoso que é famoso, hoje em dia, precisa apresentar duas credenciais: popularidade no Instagram e ter um rótulo de vinho para chamar de seu. Há algum exagero, sim, na segunda condição – mas não está muito longe da realidade. Brotam, como uvas em parreiras, garrafas com a marca de gente celebrada. Brad Pitt e Angelina Jolie têm um rosé particular, o Muse de Miraval, produzido por uma família do Ródano francês que aprendeu o métier em Châteauneuf-du-Pape. A mais recente sócia do clube é a cantora pop australiana Kylie Minogue. Ela acaba de anunciar sua “grande paixão”, um rosé – sempre um rosé, um tanto na moda, suave, boa companhia para carnes magras, massas leves e verduras gratinadas – que leva seu nome, vendido pelo equivalente a 75 reais. Tudo muito bem, e os artistas têm o legítimo direito de lançar vinhos como quem assina perfumes, mas há um truque fácil de ser desmascarado. Costuma ser marketing, ainda que algumas safras sejam aplaudidas. Compra-se a grife. “Nem sempre a qualidade combina com o preço”, resume Alexandra Corvo, sócia e professora do Ciclo das Vinhas – Escola de Vinho, de São Paulo. No caso de Kylie, lê-se, em letras pequenas, “vin de France”, porque é realmente francês, produzido na Provença, mas não é um DOC, a denominação de origem controlada que assegura a localização geográfica, única e insubstituível, de uma produção vinícola.

Há, claro, exceções de qualidade, como os respeitadíssimos chardonnay de Francis Ford Coppola do Napa Valley californiano e, sim, o Anima, varietal de merlot da Bueno Wines, do locutor esportivo Galvão Bueno, extraído na Campanha Gaúcha, no Rio Grande do Sul. Mas a regra é a inflação do paladar quando os vinhos estão atrelados a gente conhecida. Note-se, por exemplo, que o Miraval do ex-casal “Brangelina” chegou a ser vendido, em leilão beneficente, pelo equivalente a nada suaves 12.000 reais. O veredicto, segundo Manoel Beato, chef sommelier do restaurante Fasano, de São Paulo: “Já provei vinhos deles e chegam a ser maravilhosos, mas não dá para pagar tão caro por um rosé”. É exagerado mesmo – e, em se tratando dos sutis prazeres de Baco, convém lembrar de um batido e útil ditado do tempo de nossos avós: “Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 26 DE MAIO

A ESPERANÇA DO JUSTO NÃO MORRE

Pela sua malícia é derribado o perverso, mas o justo, ainda morrendo, tem esperança (Provérbios 14.32).

O perverso é o homem que professa o nome de Deus nos lábios e o nega com a vida. Diz conhecer a Deus, mas vive como se Deus não existisse. É o ateu prático, que professa uma coisa e vive outra. Há um abismo entre sua crença e sua conduta. O perverso é aquele que empurra Deus para a lateral da vida e se rende à maldade. A maldade, porém, leva os maus à desgraça. Quando chega a calamidade, esses ímpios são derrubados. Aquilo que eles desejaram e fizeram contra os outros cai sobre sua própria cabeça. A lança venenosa que atiram contra os outros volta-se contra a sua vida. Eles recebem a paga com suas próprias obras perversas. O justo não é assim. Sua âncora está firmada numa rocha que não se abala. Sua esperança não é um devaneio incerto. Mesmo atravessando todos os desertos tórridos, mesmo cruzando os vales mais escuros, mesmo gemendo sob o látego da dor, mesmo descendo à tumba, mesmo surrado pela doença mais atroz, o justo não perde a esperança, pois ela não está apenas nesta vida. Sua esperança está em Deus. O justo tem uma viva esperança. Ele sabe que o seu redentor vive. Caminha para uma eternidade de glória, na qual receberá um corpo de glória e será coroado com uma coroa de glória. A esperança do justo jamais morre!

GESTÃO E CARREIRA

BRINCADEIRA TEM LIMITE?

Quanto menor a empresa, maior a proximidade com os colaboradores e, consequentemente, a intimidade. Mas quais os limites das brincadeiras e do contato físico e como separar o pessoal do profissional?

A prática do assédio moral não é uma questão exclusivamente brasileira. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em pesquisa realizada em 1996, detectou que 12 milhões de trabalhadores na União Europeia já viveram situações humilhantes no trabalho que acarretaram distúrbios de saúde mental. Outro levantamento, desta vez da consultoria de recursos humanos Gartner, mostra que 40% dos profissionais europeus disseram ter enfrentado essa situação. Nos Estados Unidos, o índice chega a 25%.

No Brasil, a pesquisa pioneira realizada pela médica do trabalho Margarida Barreto, em sua dissertação de mestrado, em 2003, constatou que 42% dos trabalhadores entrevistados foram vítimas de assédio moral nas empresas. Um número extremamente expressivo e que pode ter subido pelo menos 10% nos últimos dez anos, segundo o Ministério do Trabalho.

A psicanalista Andréa Ladislau explica que é considerado assédio toda e qualquer conduta abusiva de gestos, palavras, escritos, comportamentos e atitudes que de forma intencional e frequente venha a ferir a dignidade e integridade física e psíquica de uma pessoa, ameaçando seu emprego ou degradando o clima de trabalho, seja de forma direta (por meio de insultos, acusações, gritos, humilhações públicas e exposição do outro ao ridículo), ou mesmo de forma indireta (por meio de isolamentos, fofocas, propagação de boatos, recusa na comunicação, exclusão social, acuamento sexual, propostas indecentes).

Nem sempre é brincadeira, ou melhor, na maioria das vezes não é. Por isso podemos começar diferenciando brincadeira de assédio, mas sabendo que a linha que separa uma coisa da outra é tênue. “Quando a brincadeira é desrespeitosa ou até humilhante e constrangedora, gerando incômodo, de forma repetitiva e prolongada, no exercício de suas funções, vira assédio. A vítima se torna o centro das atenções de maneira negativa. E o cunho preconceituoso é uma constante nessas situações”, explica a advogada trabalhista Cátia Vita.

Por esse motivo, é sempre aconselhado deixar às claras os limites e apontar de maneira delicada quando forem ultrapassados. “Se depois de uma conversa, o problema não se resolver, é o caso de recorrer aos mecanismos da empresa, como a área de recursos humanos e a ouvidoria, tendo em vista que esses departamentos devem ser um elemento neutro no julgamento dos casos”, conclui Cátia.

TIPOS DE ASSÉDIO

A master of Science in Business Administration in Neurornarketing na Florida Christian University e autora do livro Liderança Tóxica, Alessandra Assad, explica que o assédio pode ser moral, sexual, verbal, de abuso de poder, dano existencial ou danos morais. Importante frisar que os assédios podem se dar tanto do líder para seu subordinado, como do subordinado para seu superior, ainda entre os colegas de trabalho, ou podem ser mistos, isto é, entre superiores, colegas ou subordinados. “Muitas vezes a própria organização incentiva ou tolera a prática por motivos que são convenientes, em grande parte dos casos, em função de metas e resultados. E isso acontece mais do que se imagina, como pude confirmar na minha pesquisa de campo”, conta.

As vítimas de assédio moral não são necessariamente pessoas frágeis ou que apresentam qualquer transtorno. Algumas vezes elas têm características percebidas pelo agressor como ameaçadoras ao seu poder. Por exemplo, podem ser pessoas que reagem ao autoritarismo do líder ou que se recusam a submeter-se a ele. Frequentemente acontece com grupos que já sofrem discriminação social, como mulheres, portadores de necessidades especiais, idosos, negros, homossexuais etc.

Por ser uma forma de violência, as consequências do assédio para quem o sofre podem ser graves, provocando desde queda de autoestima, sensações e sentimentos desagradáveis, até doenças das mais diversas naturezas.

O PAPEL DA EMPRESA

Para a sócia do escritório Securato e Abdul Ahad Advogados, Claudia Securato, ao falar de assédio no ambiente corporativo, seja ele moral, seja sexual, é importante ressaltar que é obrigação do empregador manter um ambiente de trabalho saudável a todos os seus empregados, esforçando-se, portanto, para que situações de assédio não ocorram em seu negócio. “Diante disso, é importante que a empresa estabeleça códigos de conduta e ética de funcionários e que crie mecanismos de denúncia a serem utilizados, nos quais os trabalhadores vítimas de assédio – ou que presenciem situações de assédio – sintam-se à vontade para se queixar antes de tomar uma medida como o pedido de demissão ou a propositura de uma reclamatória trabalhista”, detalha.

A empresa deve adotar política interna de incentivo à denúncia, bem como punir devidamente casos de assédio comprovados, demonstrando-se completamente impiedosa em relação aos assediadores. Para tanto, é dever da empresa demitir o assediador. “Por fim, sugere-se que as empresas orientem seus funcionários, promovam palestras explicativas sobre assédios no ambiente de trabalho, preferencialmente por profissionais especializados no assunto (como médicos, psicólogos e advogados), de forma a alertá-los sobre as consequências jurídicas, físicas e psicológicas capazes de atingir a vítima de situações envolvendo assédio, seja ele moral, seja sexual”, conclui a advogada Claudia.

Já as pessoas que se sentem assediadas devem buscar algum interlocutor na empresa com quem possam tratar esta questão. Às vezes é o líder, às vezes a área de Recursos Humanos ou algum canal de comunicação existente na organização. “O assédio é sempre um fenômeno grave e não pode ser entendido como algo normal ou que faz parte da cultura da organização”, afirma a doutora em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, que atua como docente na área de Gestão de Pessoas e Comportamento Organizacional e coordena os Cursos de Graduação Tecnológicos EaD do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Miriam Rodrigues.

POR DENTRO DA LEI

Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 4742/01, que tipifica, no Código Penal, o crime de assédio moral no ambiente de trabalho, com previsão de pena de detenção de um a dois anos e multa. Sem prejuízo da pena correspondente à violência, se houver. Foi aprovado na Câmara dos Deputados em março deste ano e agora aguarda decisão do Senado.

No âmbito internacional, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) possui várias convenções que dispõem sobre a proteção da integridade física e psíquica do trabalhador, a exemplo da Convenção nº 155, de 1981.

O advogado, sócio da área trabalhista da Benício Advogados Associados, graduado pela USP e com MBA pela FGV, Marcos Lemos, explica que a Constituição Federal, por exemplo, tem como fundamento a dignidade da pessoa humana e o valor social do trabalho, além de prever o direito de reparação por dano moral, material e a imagem. E que essa determinação da constituição garante direitos ao trabalhador.

O art. 154 da CLT, por sua vez, determina que as empresas tenham o dever de cumprir qualquer norma que verse sobre saúde e meio ambiente do trabalho, inserindo-se neste conceito, por óbvio, a obrigação da empresa em manter um ambiente livre do assédio.

Os artigos 186 e 927 do Código Civil preveem a obrigação, por parte do ofensor, de reparar o dano causado a outrem. “Em paralelo a estas normas temos, também, o art. 482 da CLT, que possibilita a demissão por justa causa do assediador. Há, ainda, o art. 483 da CLT, que possibilita que o assediado entre com um pedido de rescisão indireta. Nesta hipótese, o empregado assediado poderia ‘despedir’ o seu empregador”, completa Lemos.

Portanto, à vista de todo este conjunto de normas, é muito importante que o ofendido procure os seus direitos, denunciando os atos de assédio, e não apenas para obtenção de uma indenização, mas, sobretudo, para evitar sua reincidência por parte do agressor e estimular empresas eventualmente omissas no tratamento do tema a adotarem uma postura de conscientização e enfrentamento do problema.

Igualmente importante é que as empresas deem a atenção necessária ao tema, criando regras, qualificando funcionários, fiscalizando e punindo com rigor os ofensores.

A advogada trabalhista do escritório Solon Tepedino Advogados, Luana C. Godinho Bicalho, explica que o assediador pode ser responsabilizado nas esferas administrativa, através da apuração de infração disciplinar, na esfera trabalhista, conforme previsão nos artigos 482 e 483 da CCT, na esfera civil, mediante ações indenizatórias de cunho moral e material, e ainda na esfera criminal, caso o assédio moral caracterize em lesão corporal, crimes contra a honra, racismo e outros. “O Direito do Trabalho assegura à vítima do assédio a possibilidade de requerer a rescisão indireta do contrato de trabalho, por meio da qual o trabalhador recebe todas as indenizações previstas em lei, como multa de 40% sobre o FGTS, projeção de aviso prévio, 13° salário e férias, sem prejuízo de ingressar com ação trabalhista pleiteando danos morais e materiais sofridos em virtude do assédio”, completa Luana.

SAIBA A DIFERENÇA

ASSÉDIO MORAL: o assédio moral é a exposição à situação humilhante e constrangedora, de forma repetitiva ou não, que visa humilhar, coagir e denegrir o indivíduo.

ASSÉDIO SEXUAL: o assédio sexual é todo comportamento indesejado de caráter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objetivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador.

BULLYING: é a prática de atos violentos, intencionais e repetidos para causar danos à vítima.

STALKING: é a perseguição decorrente de uma obsessão que invade a intimidade da vítima, incluindo contato insistente pelo telefone e pela internet.

Fonte: SABRINA FERRER, psicóloga-chefe do Fala Freud, o primeiro app de terapia on-line do Brasil.

TECNOLOGIA CONTRA O ASSÉDIO

O PCI – Portal Confidencial Independente, idealizado pelo CEO da SP Auditores, João Vieira Uchôa Filho, que pode ser acessado de qualquer lugar e a qualquer hora, atende tanto o público interno quanto o externo de qualquer empresa. Entre suas funcionalidades, a plataforma apura casos de assédio sexual nas empresas.

A pessoa cria um usuário e senha e descreve a denúncia. Eles garantem a privacidade e anonimato estimulando assim que mais pessoas denunciem. “Essa privacidade incentiva que mais pessoas tomem coragem e denunciem, sem medo de represálias ou sansões”, acredita Uchôa Filho.

A empresa responsável pela novidade no mercado brasileiro é a SP Auditores, que cuida de toda gestão do processo de denúncia, do início ao fim, e nem presidente, acionista ou investidor estão imunes à investigação. É feita pela plataforma gestão, averiguação e acompanhamento de cada caso.

FIQUE ATENTO

Ao sentir-se constrangido:

1.  DEMONSTRE QUE AQUELA SITUAÇÃO NÃO É ADEQUADA PARA VOCÊ: é extremamente necessário que a vítima do assédio deixe CLARO que não está contente com a situação, sob pena até de descaracterizar o assédio. Logo, fale não. Fale “não gostei”. Peça “por favor, pode não fazer mais esse tipo de brincadeira/elogio?”. A negativa, por parte da vítima, é essencial como uma primeira tentativa prática de cessar novos assédios.

2.  TRANSPARÊNCIA: não se cale jamais diante de uma situação de assédio. É dever da empresa garantir um ambiente corporativo saudável aos seus empregados. Assim, caso a negativa não tenha sido suficiente para frear as atitudes impróprias do assediador, RELATE a situação de assédio internamente na empresa, requerendo que alguma providência seja tomada.

3.  NÃO PEGUE A EMPRESA DE SURPRESA: antes de tentar resolver o incidente por vias externas (inclusive judiciais), tente resolver o ocorrido “dentro de casa”.

4.  DIÁLOGO ABERTO COM A EMPRESA: o auxílio que você precisa às vezes está mais próximo do que você imagina. Relate, denuncie internamente, dialogue.

5.  PROCURE SEUS DIREITOS PERANTE O JUDICIÁRIO: se após sanadas todas as tentativas de dialogar e resolver o problema do assédio dentro da empresa, a situação permanecer, ou a empresa não tomar nenhuma atitude perante o assediador, procure seus direitos na Justiça do Trabalho ou mesmo na Esfera Criminal.

Fonte: CLAUDIA SECURATO, sócia do escritório Securato e Abdul Ahad Advogados.

O QUE DIZ A CQNSTITUIÇÃO SOBRE CASOS DE ASSEDIO NO TRABALHO?

Segundo Marcos Lemos, advogado, sócio da área trabalhista da Benício Advogados Associados, graduado pela USP e com MBA pela FGV, a Constituição Federal tem como fundamento a dignidade da pessoa humana e o valor social do trabalho, além de prever o direito de reparação por dano moral, material e a imagem. E que essa determinação da constituição garante direitos ao trabalhador.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DIZ-ME ONDE ANDAS QUE TE DIREI COMO TE ENCONTRAR

Será que o fenômeno de utilizar o serviço de geolocalização nas redes sociais, além de perigoso, pode indicar algum tipo de adoecimento psicológico?

Todos os dias milhões de pessoas geram um aumento significativo nos bancos de dados utilizando o serviço de geolocalização de seus aparelhos celulares. Esse fenômeno traz novas oportunidades para pesquisas nos sistemas sócio- técnicos. De acordo com os autores a geolocalização permite a identificação de quando e onde uma pessoa interagiu com algum tipo de ferramenta tecnológica, tornando possível estudar o comportamento humano e sua mobilidade. Um exemplo de aplicativo, mundialmente utilizado, que facilita na procura de lugares de lazer, como estabelecimentos gastronômicos, é o Foursquare. Com esse recurso o usuário encontra e descobre locais pela recomendação de terceiros que também utilizam essa ferramenta. Dessa forma, caso você vá a um restaurante X você pode publicar onde esteve e em que momento (igualmente ao Instagram). Porém, será que esse “GPS pessoal” é útil apenas para esse fim ou pode, em paralelo, facilitar crimes, como o sequestro, por meio do rastreamento dos hábitos de um determinado usuário?

Apesar da escassez de manuscritos que revelem os riscos da divulgação da geolocalização para amigos e estranhos, diversos portais de notícias internacionais revelaram momentos de terror de indivíduos que tiveram sua localização descoberta por estranhos e passaram a sentir um grande medo em continuar a utilizar o Foursquare. Em um dos relatos uma mulher recebe uma ligação quando estava em um restaurante (no local em que ela havia marcado sua localização no aplicativo), e o sujeito, do outro lado da linha, menciona que ela deve ter bastante cuidado, pois ele sabe onde ela mora e onde está devido ao uso desse recurso tecnológico. Longe de ser uma lenda urbana, esse tipo de fenômeno revela duas facetas: a primeira delas a falta de cautela do usuário em restringir algumas informações apenas para um grupo seleto de conhecidos; o segundo, as novas formas de crimes que surgem em paralelo aos novos modelos tecnológicos.

Existem estratégias para evitar que finais trágicos ocorram:

a) a recomendação é não fazer check-in nos lugares em que a pessoa costuma ir com frequência. Esse tipo de ação informa a desconhecidos que, além do grande apreço que o indivíduo tem por aquela localização (o trabalho ou mesmo um restaurante), ele indica facilmente um hábito rotineiro, facilitando uma possível ação como sequestro ou assalto;

b) é preciso alertar sobre os perfis fakes (falsos) que aparecem em aplicativos no modelo de redes sociais, o indicado é aceitar sujeitos que conhecemos pessoalmente ou que tenha amigos em comum com nosso perfil;

c) o Foursquare permite a utilização de cartões de crédito, dessa forma o usuário obtém descontos especiais, por exemplo. Porém, é necessário certo cuidado com a liberação de informações de cartões na Internet, já que o aplicativo obterá informações sobre dados pessoais, a lista de amigos e antigos check-ins.

Um website intitulado Please Rob Me (Por favor, me roube) alerta para outro problema do Foursquare. Apesar de o aplicativo gerar recompensas pela publicação de localizações (um funcionamento incluído no campo da gamificação), talvez um ponto que poucos de nós tenhamos refletido é: se estamos divulgando nossa localização em algum local, então definitivamente não estamos em casa. Dessa forma, em momentos de festividade ou de férias. Assim, permitir que terceiros saibam esses tipos de informações, como locais e horários de nossa rotina, pode facilitar a invasão de nossa residência, por exemplo.

Outro aspecto negativo é a necessidade de divulgar, como uma espécie de diário, todos os locais que o usuário frequenta. Será que, além das “conquistas” que o aplicativo oferece, o uso problemático do Foursquare pode estar indicando algum tipo de adoecimento psicológico? Outra pergunta: será que todas as localizações que são divulgadas são importantes? Exemplos são cemitérios, motéis e hospitais (relatos que já presenciei diversas vezes na minha escuta no consultório).

A missão deste artigo não é suscitar medo, mas um maior cuidado com aquilo que é oferecido, sobre nós mesmo, ao público. Contemporaneamente existem diversos estudos, que serão abordados em momentos futuros nesta coluna, sobre a relação de publicar sobre si em excesso e o narcisismo, assim como a necessidade de ser aceito na internet pelos conteúdos que são publicados, dentre outros. O que isso significa? Que apesar de diversos aplicativos oferecem benefícios de inúmeros tipos ainda é possível observar que existe um uso inadequado desses recursos. É possível perceber uma grande necessidade de sermos ouvidos, visualizados e “curtidos” atualmente. Porém, você já parou para pensar, por alguns minutos, por qual razão esse hábito se tornou parte do seu cotidiano? Sua localização, opinião e imagens devem ser constantemente divulgadas? Se sim, por qual motivo? Traga o campo da ciberpsicologia para suas reflexões.

IGOR LINS LEMOS – é doutorando em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas.

E-mail: igorlemos87@hotmail.com

EU ACHO …

CONVERSA PUXA CONVERSA À TOA

Eu estava na copa tomando um café e ouvi a cozinheira na área de serviço cantando uma melodia linda, sem palavras, uma espécie de cantilena extremamente harmoniosa. Perguntei-lhe de quem era a canção. Respondeu: é bobagem minha mesmo.

Ela não sabia que era criativa. E o mundo não sabe que é criativo. Parei de tomar o café, meditei: o mundo ainda será muito mais criativo. O mundo não se conhece a si próprio. Estamos tão atrasados em relação a nós mesmos. Inclusive a palavra criativa não será usada como palavra, nem mesmo vai se falar nela: apenas tudo se criará. Não é culpa nossa – continuei com meu café – se estamos atrasados de milhares de anos. Ao pensar em “milhares de anos à nossa frente”, deu-me quase uma vertigem pois não consigo contar sequer com a cor que a terra terá. A posteridade existe e esmagará o nosso presente. E se o mundo se cria por ciclos, digamos, é possível que voltemos às cavernas e que tudo se repita de novo? Dói-me até o corpo ao pensar que não saberei jamais como o mundo será daqui a milhares de anos. Por outro lado, continuei, nós estamos engatinhando até depressa. E a toada que a moça cantava vai dominar esse mundo novo: vai-se criar sem saber. Mas por enquanto estamos secos como um figo seco onde ainda há um pouco de umidade.

Enquanto isso a empregada estende roupa na corda e continua sua melopeia sem palavras. Banho-me nela. A empregada é magra e morena, e nela se aloja um “eu”. Um corpo separado dos outros, e a isso se chama de “eu”? É estranho ter um corpo onde se alojar, um corpo onde sangue molhado corre sem parar, onde a boca sabe cantar, e os olhos tantas vezes devem ter chorado. Ela é um “eu”.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O BIG BROTHER DOS CRIMES

O aplicativo Citizen estimula usuários a filmar e transmitir ao vivo ocorrências policiais com a promessa de contribuir para a segurança pública

Em 2014, o filme O Abutre provocou certa polêmica ao fazer uma sátira sombria do telejornalismo policial. Desesperado para encontrar trabalho, o protagonista decide reportar crimes em Los Angeles. Ao longo da narrativa, ele se torna insensível às mortes que relata, passando a causar acidentes para ter histórias terríveis para contar. Devido a um aplicativo lançado nos Estados Unidos, o cenário está mais próximo do que nunca (sem a parte da criação de crimes, claro). Trata-se do Citizen, que permite que usuários transmitam ao vivo, via smartphone, ocorrências policiais como roubos, ataques, incêndios, vazamentos de gás e todo tipo de tragédia. Os donos do app dizem que o objetivo é informar os assinantes do serviço sobre as regiões que oferecem perigo, permitindo que desviem do caminho ou compareçam ao local para ajudar possíveis vítimas. Na prática, porém, o Citizen vai muito além disso.

O aplicativo conta com 5 milhões de usuários espalhados por duas dezenas de cidades dos Estados Unidos. Apesar do grande número de inscritos, nem todos são ativos na plataforma – a maioria fica apenas à espreita. Desde maio, o serviço ganhou nova função: ajudar as pessoas a rastrear a presença do coronavírus. Com a mesma promessa de fornecer um senso de comunidade e segurança aos participantes, o Citizen agora mostra em seu mapa estatísticas sobre a disseminação da Covid-19 pela cidade e fornece informações sobre as regulamentações impostas pelas autoridades para conter a pandemia.

À primeira vista, parece ser algo bastante positivo. Quem, afinal, não gostaria de saber os lugares em que há encrencas e manter distância segura deles? No mundo real, não é assim que as coisas funcionam. A polícia de Nova York, por exemplo, teme que o Citizen estimule a ação de justiceiros, o que seria uma óbvia violação das regras civilizatórias. Além disso, é preciso considerar o risco real de um cidadão despreparado interferir em uma ocorrência, o que seria perigoso para ele próprio e para os outros envolvidos.

Outro ponto negativo diz respeito à privacidade dos usuários. Para que o Citizen funcione adequadamente, a função de localização do celular deve estar sempre ligada. Ou seja: o aplicativo saberá o tempo todo o lugar exato em que o inscrito está. “Isso é preocupante, pois pode oferecer à empresa um mapeamento de hábitos de locomoção, endereço da residência e local de trabalho da pessoa”, diz Bruno Bioni, mestre em direito pela Universidade de São Paulo e consultor especializado em proteção de dados. O especialista diz que há limites jurídicos para o aplicativo. Vítimas dos acidentes que tenham sido eventualmente filmadas e ou fotografadas podem processar o app pelo uso indevido de suas imagens. “Como a finalidade do aplicativo é o relato de crimes, indivíduos podem ser erroneamente identificados e sofrer danos decorrentes disso”, afirma.

De fato, há inúmeros relatos de equívocos. Em Manhattan, um usuário relatou ter visto um tigre, mas descobriu-se depois que o animal em questão era um guaxinim. Episódios prosaicos como esse não causam maiores problemas, mas há o risco evidente de alguém confundir um criminoso com um cidadão comum. Existe a preocupação inclusive com a possibilidade de o aplicativo incentivar práticas racistas, imputando a negros crimes que eles não cometeram.

A empresa spOn, dona do Citizen, diz que trabalha para corrigir eventuais erros de rota, mas destaca os alegados benefícios oferecidos pela tecnologia. Entre eles está, evidentemente, o aspecto da segurança. O discurso parece ter convencido o mercado financeiro. Recentemente, o Citizen levantou 60 milhões de dólares com fundos de investimentos, até mesmo de executivos graúdos. É o caso de Peter Thiel, cofundador do PayPal e um dos principais investidores da plataforma.

O Citizen não é o único aplicativo desse tipo disponível no mercado. Nos EUA, há pelo menos outras três plataformas parecidas. No Brasil, o B.O. Coletivo oferece aos inscritos a possibilidade de identificar as regiões mais violentas de uma determinada cidade e informar outros usuários sobre as ocorrências. Ele, porém, não conta com o principal atributo do Citizen: a transmissão de vídeos em tempo real. No fundo, é isso que atrai a curiosidade – e, provavelmente em alguns casos, o espírito mórbido – dos usuários.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 25 DE MAIO

QUEM CUIDA DO POBRE HONRA A DEUS

O que oprime ao pobre insulta aquele que o criou, mas a este honra o que se compadece do necessitado (Provérbios 14.31).

Um dos atributos de Deus é a justiça. Ele é justo em todas as suas obras. Deus abomina toda forma de injustiça. Ele julga a causa dos pobres e oprimidos. Quem oprime ao pobre, por ser ele fraco, sem vez e sem voz, insulta a Deus. Quem torce a lei para levar vantagem sobre o pobre conspira contra o Criador. Quem corrompe os tribunais, subornando juízes e testemunhas para prevalecer sobre o pobre em juízo, entra numa batalha contra o próprio Deus onipotente. Insultar a Deus, porém, é uma insanidade consumada, pois ninguém pode lutar contra o Senhor e prevalecer. Por outro lado, quem socorre o necessitado agrada o coração de Deus. Aquilo que fazemos para os pobres, fazemos para o próprio Senhor. Quem dá aos pobres empresta a Deus. A alma generosa prosperará. Deus multiplica a sementeira daqueles que semeiam a bondade na vida do próximo. Tanto o pobre como o rico foram criados por Deus. Ele ama a ambos. Os ricos devem manifestar a generosidade de Deus aos pobres, e estes devem agradecer a bondade dos ricos a Deus. Aqueles que oprimem ao pobre, mesmo que acumulem riquezas, não desfrutarão de seus tesouros. Aqueles, porém, que socorrem o necessitado, mesmo que desprovidos dos tesouros da terra, possuirão as riquezas do céu.

GESTÃO E CARREIRA

TESTE – PRONTO PARA TRABALHAR DOBRADO?

Ter um trabalho ou um negócio e decidir começar uma segunda jornada em outro empreendimento não é para muitos. É apenas para quem tem fibra, gosta de desafios e possui a ambição admirável dos empresários de sucesso.

Porém, tarefa fácil não é e nunca será! Especialmente no início, a agenda é apertada, os problemas aparecem aos milhares e você vai sentir que tudo demandará mais tempo do que você dispõe. Está realmente preparado para encarar esse desafio?

1. ALÉM DO INVESTIMENTO, UM EMPREENDIMENTO PART TIME DEMANDARÁ TEMPO. COMO VOCÊ AVALIA ESSA QUESTÃO?

a) Já ponderei, mas acredito que só o dinheiro é suficiente para iniciar a nova operação por ela ser simples e apenas para complementação da minha atual renda.

b) Já ponderei, porém, nesse momento, só a análise do dinheiro é suficiente para iniciar a nova operação. No dia a dia avaliarei a questão do tempo a ser dedicado.

c) Tenho dinheiro e disponibilidade, mas não sei como isso ocorrerá na prática. Contudo, já estou desenhando alguns cenários possíveis, como acordar mais cedo ou jogar algumas tarefas para o fim de semana.

d) Tenho o dinheiro, o tempo e já comecei, na prática, a me organizar com as atividades cotidianas para conseguir dedicar tempo ao novo negócio.

2. VOCÊ JÁ REALIZOU UM PLANEJAMENTO FINANCEIRO DE MÉDIO A LONGO PRAZO?

a) Não exatamente. Tenho o aporte inicial, mas esperarei os primeiros resultados para investir.

b) Em partes. Tenho o aporte inicial e uma pequena reserva para os primeiros meses.

c) Sim. Fiz um business plan que apontou a possibilidade de ainda manter o meu emprego atual pelos próximos 12 meses.

d) Sim. Inclusive já há perspectiva de lucro após os primeiros meses de operação, sem a necessidade de aportar mais investimento oriundo do meu emprego fixo atual.

3. VOCÊ PODERÁ CONTAR COM UM SUPOR­ TE PRESENCIAL (PESSOAS DE CONFIANÇA) PARA RECORRER EM CERTOS MOMENTOS DECISIVOS?

a) Não. Contarei somente com meu esforço pessoal e buscarei me dividir nas tarefas.

b) Não. Por ser um pequeno negócio, acredito que conseguirei tocar as duas carreiras, simultaneamente, de forma tranquila.

c) Sim. Consultei um colega que se prontificou a me ajudar.

d) Sim. Tenho alguém de confiança e com experiência que se prontificou a mergulhar comigo neste empreendimento. Ele me substituirá nos momentos em que não for possível a minha presença nas tomadas de decisão.

4. VOCÊ SE SENTE PREPARADO PARA SE DEDICAR DE FORMA INTENSIVA A UMA GRADE DE HORÁRIOS APERTADA?

a) Não. O meu emprego ainda me consome muito. Preciso achar uma solução.

b) Em partes, pois, além de ter outro emprego, minha família ainda depende muito da minha presença.

c) Sim. Ficarei bastante desgastado, mas acredito que conseguirei tocar as atividades tranquilamente.

d) Sim. Estou motivado para abrir meu negócio e isso me incentiva a dividir meus períodos entre a

carreira profissional e meu novo empreendimento, mesmo que tenha que avançar em horários além do previsto para começá-lo. Sou multitarefas.

5. VOCÊ CONHECE, DE FATO, O SEGMENTO EM QUE VAI ATUAR?

a) Conheço um pouco, pois sempre me interessei pelo tema.

b) Ainda não conheço, mas buscarei informações que me auxiliem a tocar o negócio.

c) Sim. Tenho um amigo que possui uma empresa do mesmo ramo e me auxiliará com dicas para que o negócio cresça.

d) Sim. Estudei cautelosamente o segmento e estou a par das necessidades do meu público e como atuarei para satisfazê-lo.

6. COMO VOCÊ COSTUMA ORGANIZAR SUAS TAREFAS DIÁRIAS?

a) Tenho tudo anotado mentalmente.

b) Procuro listar as coisas que tenho a fazer em um papel e, de acordo com o andamento do dia, vou eliminando, deixando o que não consigo para o dia seguinte.

c) Pontuo os afazeres por ordem de prioridade, colocando-os na minha agenda para não esquecer nada.

d) Trago tudo anotado e só finalizo o dia com tudo feito e já organizado para o dia seguinte.

7. JÁ FOI IDENTIFICADA A NECESSIDADE DOS SEUS CLIENTES QUE A SUA EMPRESA ATENDERÁ OU QUAL PROBLEMA DELES ELA RESOLVERÁ? VOCÊ JÁ VALIDOU ESSAS PREMISSAS?

a) Tenho uma boa intuição para negócios e acho que consegui elaborar uma solução interessante para os problemas dos meus clientes.

b) Conversei sobre a minha ideia com alguns amigos e familiares. Todos eles a consideraram muito boa.

e) Entendo perfeitamente do que os meus clientes necessitam e pretendo fazer uma pesquisa para validar isso, mas ainda não sei como fazer.

d) Já mapeei todas as necessidades dos meus potenciais clientes e validei essas premissas através de uma pesquisa com perguntas objetivas para uma amostra bem significativa de pessoas.

8. VOCÊ JÁ ORGANIZOU UMA CONTA PARA A SUA NOVA EMPRESA? OU USARÁ SUA CONTA DE FINANÇAS PESSOAIS?

a) Não. Usarei, inicialmente, minha conta pessoal para movimentar as despesas da minha empresa.

b) Não, mas saberei separar um do outro utilizando extratos bancários e aplicativos de internet banking.

c) Sim. Já abri uma nova conta bancária para gerir o novo negócio.

d) Sim. Conversei com o gerente que me auxiliou na abertura de uma conta exclusiva para a nova empresa. Ainda negociei taxas de serviços mais vantajosas.

9. QUANTO AOS FORNECEDORES, VOCÊ JÁ OS MAPEOU?

a) Não. Farei conforme a necessidade.

b) Em partes. A princípio só necessito do meu próprio serviço.

c) Sim, mapeei, porém ainda estou analisando os prós e os contras de cada fornecedor.

d) Sim e já fechei a lista inicial, prevendo, inclusive, outras opções para sanar eventuais gaps na operação.

10. VOCÊ ESTÁ PREPARADO PARA TRABALHAR SOB PRESSÃO? E SOB DUAS PRESSÕES?

a) Acredito que sim, mas não vou me preocupar com isso agora.

b) Atualmente no meu emprego sim. Preciso começar a entender como enfrentar esses desafios, pois serão pressões diferentes a partir de agora, e a nova ainda é desconhecida para mim.

c) Sim, afinal sou multitarefas e sei a hora de acelerar e desacelerar.

d) Sim e vou me policiar para não acumular e transferir a pressão de uma atividade para a outra.

CONFIRA O RESULTADO DO SEU TESTE!

Para cada alternativa A, adicione 1 ponto. Para cada letra B, 2 pontos. Às respostas para a letra C, confira 3 pontos. E para cada letra D, 4 pontos. Depois, some o resultado e verifique em qual resposta você se enquadra:

DE 10 A 20 PONTOS

Querer nem sempre é poder. Empreender nas horas livres eganhar uma renda extra é o sonho de muitas pessoas, mas nem sempre é possível. Saber equilibrar é a grande chave para que o segundo trabalho ou renda não seja uma dor de cabeça e não prejudique o seu atual emprego. É preciso planejar muito bem a médio e longo prazo tanto a questão financeira quanto em relação ao tempo. A sugestão, portanto, é estudar etrabalhar mais a ideia eo projeto como um todo.

DE 21 A 30 PONTOS

Caminho certo. Você tem perfil empreendedor, mas precisa estudar maneiras de saber aproveitar e administrar seu tempo, dividindo-o entre suas tarefas principais para que os negócios não sejam prejudicados. Treinar uma pessoa de confiança e delegar algumas atividades são caminhos essenciais para o sucesso da nova empreitada, além disso, tente antecipar ao máximo os possíveis entraves, evitando ser pego desprevenido diante de uma agenda já apertada para execução das tarefas.

DE 31 A 40 PONTOS

Sim, você consegue! Além de conhecer seus pontos fracos e fortes, você consegue se organizar e estabelecer prioridades, estando presente nas decisões do seu negócio tanto quanto possível e necessário, apesar de só se dedicar a ele, teoricamente, por meio período, sem deixar de lado sua profissão e fonte de renda principal. Dividir-se entre duas jornadas não é fácil, mas você está conseguindo. O cuidado agora deve ser para continuar mantendo a balança equilibrada e fazendo a roda girar, dando lucro.

GUILHERME SIRIANI – é sócio-diretor da ba}STOCKLER, responsável pela gestão e crescimento de redes varejistas por meio de franquias. O executivo contabiliza onze anos de experiência na área comercial e vendas, com passagens por empresas de médio e grande porte, como Copias, Multicoisas, Mr. Cheney/Cookies e Portobello Shop.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

APRISIONADO PELOS PRÓPRIOS PENSAMENTOS

O transtorno obsessivo-compulsivo, conhecido como TOC, é mais comum do que se pode imaginar e, segundo estudos, acomete entre três e quatro milhões de pessoas somente no Brasil

Quando se ouve falar em TOC parece que se fala de algo bem distante. Porém, o transtorno obsessivo-compulsivo é bastante comum e encontrado na população em geral, hoje em dia. Esse distúrbio existe e se manifesta há muitos anos. No entanto, só passou a ser estudado e divulgado a partir da década de 80. Atualmente, é um problema que tem se mostrado comum, sendo estimado que, no Brasil, existam cerca de três a quatro milhões de indivíduos com o transtorno.

Uma pesquisa recente realizada pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH – National Institute of Mental Health), departamento oficial que financia pesquisas sobre cérebro, doenças mentais e saúde mental, em nível nacional naquele país, demonstra que esse transtorno afeta cerca de 2% da população. Através desse trabalho, pode-se dizer que o TOC é mais comum do que a esquizofrenia e outras doenças mentais graves. Trata-se do quarto diagnóstico psiquiátrico mais comum e décima maior causa de incapacidade por anos vividos.

Mesmo assim, apenas uma pequena quantidade de pessoas que sofrem da doença procura ajuda. Geralmente, porque elas sentem extrema vergonha de seus sintomas e acabam escondendo esses comportamentos. Não entendem que essas características fazem parte de um transtorno que pode ser tratado.

O QUE É

O TOC é um distúrbio psiquiátrico ou transtorno de ansiedade, caracterizado por pensamentos obsessivos e compulsivos, no qual o indivíduo é levado a realizar comportamentos que são considerados estranhos para a sociedade ou para ele mesmo.

Essas ideias invadem a mente do indivíduo de forma compulsiva e recorrente, produzindo alto nível de ansiedade. O indivíduo, então, é levado a realizar comportamentos específicos para tentar amenizar a ansiedade. Essas ações se tornam rituais incontroláveis e são elaboradas, também, de forma repetitiva.

Mas que ideias e pensamentos são esses? Geralmente, são ideias exageradas e irracionais relacionadas à saúde, higiene, organização, simetria e perfeição, que podem se tornar rituais e manias das mais diferentes formas.

Alguns exemplos com uns desses comportamentos podem ser lavar as mãos repetidamente; limpar a casa de maneira específica, usando objetos específicos que não podem ser trocados; organizar objetos por cor ou tamanho, não aceitando que eles fiquem fora de ordem; fechar o trinco da porta um determinado número de vezes, e muitos outros. Eis alguns casos:

Perturbada por pensamentos repetitivos de que pode ter se contaminado ao tocar maçanetas e outros objetos “sujos”, uma mulher de meia-idade passa horas todos os dias lavando as mãos. Suas mãos estão vermelhas e doloridas, descascando, e sobra pouco tempo para suas atividades sociais.

Um adolescente é atormentado pela ideia de que pode ferir outras pessoas por negligência. Não consegue sair de casa sem antes passar por um longo ritual de verificação, quando se certifica diversas vezes de que as torneiras e os bicos de gás do fogão estão fechados.

Mãe de dois filhos pequenos, uma mulher não consegue dormir antes de guardar e reposicionar milimetricamente os brinquedos dos filhos. Ela está cansada e irritada, porém, atormentada pela ideia de ser boa mãe, não consegue pegar no sono antes de organizar tudo.

Como descrito em exemplos acima, se o TOC se tornar grave, pode comprometer seriamente as atividades de uma pessoa em casa, no trabalho ou na escola.

CAUSAS

Apesar de ter sido descrito há mais de um século, e de haver vários estudos publicados a respeito, até o momento o transtorno obsessivo-compulsivo ainda é considerado um “enigma”. Não se sabe ao certo o que desencadeia o distúrbio.

O que se sabe é que ele é resultado da interação entre origem genética e fatores ambientais. Ou seja, pessoas com o histórico do transtorno na família têm maior tendência a desenvolvê-lo. Porém, isso não significa que a doença irá se manifestar.

Como muitos outros transtornos mentais, isso também vai depender do ambiente em que a pessoa está inserida e de fatores emocionais. É preciso identificar se o ambiente é mais hostil ou mais acolhedor, se possui regras e limites claros e com certa flexibilidade, ou se esses aspectos são rígidos demais. Que tipo de relacionamento prevalece com os pais ou responsáveis? Existe afeto ou é mais frio e distante? Como a pessoa lida com expectativas e frustrações? Esses são apenas alguns fatores que podem influenciar no desenvolvimento da doença. O fato de que alguns pacientes com TOC respondem bem a medicamentos específicos sugere que o transtorno tenha uma base neurobiológica. Por essa razão, não se atribui mais o TOC a comportamentos aprendidos na infância – por exemplo, ênfase excessiva em limpeza ou a crença de que certos pensamentos sejam perigosos ou inaceitáveis. Ao contrário, a pesquisa das causas atualmente se concentra primordialmente na interação entre fatores neurobiológicos e influências ambientais.

Acredita-se também que pessoas que desenvolvem TOC tenham uma predisposição biológica a reagir de forma acentuada ao estresse. Tal reação se manifesta sob a forma de pensamentos intrusivos e desagradáveis, que gerem mais ansiedade e estresse, criando, por fim, um círculo vicioso, do qual a pessoa não consegue sair sem ajuda.

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico é clínico, ou seja, de acordo com os sintomas apresentados, e deve ser feito por um médico.

PET – Positron Emission Tomography – Com o propósito de identificar fatores biológicos específicos, que possam ser importantes para o início ou a persistência do TOC, pesquisadores financiados pelo NIMH têm utilizado uma técnica denominada tomografia por emissão de pósitrons (PET – Positron Emission Tomography) para estudar o cérebro de pacientes com TOC.

Vários grupos de pesquisadores obtiveram informações, com o uso do PET, que sugerem que pacientes com TOC apresentam um padrão de atividade cerebral diferente do de outras pessoas sem doença mental ou com alguma outra doença mental.

Estudos com imagens cerebrais de pacientes com TOC demonstram atividade neuroquímica anormal em áreas do cérebro, com participação reconhecida em certos distúrbios neurológicos. Entre eles incluem-se a síndrome de Tourette, uma condição que se desenvolve em determinadas famílias, caracterizada por movimentos (tiques motores) e vocalizações (tiques vocais) abruptos, involuntários e repetitivos. Estudos genéticos de TOC e de outras condições relacionadas poderão algum dia possibilitar, aos especialistas, definir com precisão a base molecular desses transtornos.

SÍNDROME DE TOURETTE

O TOC também é encontrado em pelo menos 50% dos pacientes que têm a síndrome de Tourette (transtorno neurológico caracterizado por tiques motores e vocais ao mesmo tempo). Além disso, está relacionado ao mesmo gene responsável pela expressão dos tiques, tais como: movimentos motores ou vocalizações súbitas, rápidas, recorrentes, estereotipadas e não rítmicas, em resposta a sensações subjetivas de desconforto, segundo Rolak.

Estudos recentes mostraram que entre pacientes que apresentam TOC até 15% têm síndrome de Tourette, e entre pacientes que apresentam essa síndrome, de 20 % a 60 % têm sintomas obsessivos e compulsivos, sendo esta uma das comorbidades mais comuns em todas as faixas etárias.

As características clínicas mais frequentemente encontradas em pacientes com TOC, associado a tiques e/ ou síndrome de Tourette são: predominância do sexo masculino; início mais precoce dos sintomas obsessivo-compulsivos; maior frequência de fenômenos sensoriais; obsessões com temas sexuais e de agressão, colecionamento, rituais de contagem e simetria; maior frequência de compulsões do tipo tic-like; maior carga genética; maior número e variedade de sintomas obsessivo-compulsivos; maior comorbidade com tricotilomania, transtorno dismórfico corporal, transtorno bipolar, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, fobia social e abuso de substâncias.

PREVALÊNCIA

Os estudos de prevalência no Brasil ainda são insuficientes e pouco representativos. O sexo masculino estaria mais associado ao início mais precoce dos sintomas e à presença de tiques. E esse número aumenta no sexo feminino com a entrada da adolescência, chegando a uma proporção de 1:1 na idade adulta. Estima-se que cerca de 50% dos adultos com transtorno obsessivo-compulsivo tenha apresentado o início do TOC na infância.

Assim sendo, de acordo com esses dados, o transtorno obsessivo-compulsivo representa um distúrbio de extrema importância para a saúde pública. Além de bastante frequente, o TOC apresenta altas taxas de comorbidade com outros transtornos psiquiátricos.

COMO IDENTIFICAR

Considera-se que uma pessoa tenha TOC quando seus comportamentos obsessivos e compulsivos atingem gravidade suficiente para interferir em sua vida cotidiana. Na linguagem popular, muitas pessoas são chamadas de “compulsivas” por apresentarem um elevado padrão de desempenho em seu trabalho e, até mesmo, em alguma atividade de lazer. Essas pessoas não devem ser confundidas com pessoas que apresentam TOC.

Vulgarmente, algumas pessoas falam em “mania de perfeição”, “mania de limpeza”, “mania de organização”. Esse tipo de comportamento “compulsivo” ou “mania” geralmente funciona para a pessoa e contribui para a autoestima do indivíduo e seu sucesso no trabalho e na sua vida. Esse não traz nenhum sofrimento, não prejudica seu cotidiano e, assim, pode-se diferenciá-lo de obsessões e rituais.

SINTOMAS

Os principais são: pensamentos obsessivos – pensamentos repetitivos que interferem na vida do indivíduo; compulsões – comportamentos baseados nesses comportamentos, que se tornam rituais. É possível amenizar e controlar os sintomas. Porém, esses podem se intensificar ou não, dependendo da fase em que a pessoa está, podendo haver longos intervalos de sintomas.

O TOC aflige pessoas de todos os grupos étnicos. Tanto homens como mulheres são afetados e os prejuízos na relação com a sociedade e a família são muitos, principalmente de cunho social.

A família do portador sofre com as constantes alterações de rotina para se adaptar aos sintomas do portador. Os portadores do transtorno, normalmente, podem chegar a obrigar os demais membros da família a fazer o mesmo que eles, chegando a impedir o uso de sofás, camas, roupas, toalhas, louças e talheres, bem como o acesso a determinados locais da casa. Discussões e atritos são provocados por cuidados excessivos. Exigências e medos exagerados nem sempre são compreendidos ou tolerados pelos demais.

Prejuízos no trabalho, na carreira e no poder aquisitivo do portador e de sua família também são encontrados. Esses indivíduos acabam não conseguindo mais funcionar da forma esperada no trabalho, e demissões do emprego podem ocorrer.

Assim como separações conjugais, brigas e conflitos em família e até muita resistência em sair de casa. Dependendo da intensidade dos sintomas, algumas pessoas perdem a crítica sobre si mesmas e não buscam ajuda.

Como a doença é crônica, muitas vezes as famílias vão se adaptando a esses sintomas e exigências do portador para evitar conflitos no dia a dia. Porém, isso prejudica ainda mais a vida do portador e de sua família, pois os comportamentos são, assim, reforçados. A família ou pessoas de seu convívio devem tentar não reforçar os comportamentos compulsivos, não incentivando os mesmos. A busca de ajuda especializada é de extrema importância.

TRATAMENTO

Este pode ser medicamentoso, mas é principalmente terapêutico. A Psicoterapia Cognitivo-comportamental é a mais indicada.

TRATAMENTO COM MEDICAMENTOS – Não existe um medicamento específico para TOC. E essa parte será usada apenas para aliviar sintomas, visto que a doença não tem cura, e sim controle. Os antidepressivos se mostraram eficazes, pois aumentam a capacidade de o cérebro utilizar a serotonina.

TERAPIA COMPORTAMENTAL – Uma terapia tradicional, na maioria das vezes, não dá conta dos sintomas apresentados. Uma abordagem terapêutica comportamental, em que o paciente é deliberadamente exposto ao objeto ou à ideia temidos, tanto diretamente quanto pela imaginação, mostra-se bastante eficaz.

Por exemplo, uma pessoa que lave as mãos compulsivamente pode ser estimulada a tocar um objeto supostamente contaminado e, depois, evitar que lave as mãos durante horas. Essa técnica faz com que o paciente, gradualmente, diminua os pensamentos obsessivos, conseguindo permanecer sem atitudes compulsivas por períodos cada vez mais prolongados.

COMORBIDADES

É comum encontrarmos outros transtornos associados, como os transtornos do humor (depressão), o abuso e dependência de substâncias e os transtornos alimentares, como a anorexia e a bulimia. As comorbidades prejudicam o curso e a qualidade de vida de quem tem o transtorno. Além disso, interferem na evolução, no prognóstico e também na procura por atendimento especializado.

Transtornos de ansiedade e fobias também podem aparecer em indivíduos que apresentam TOC. Entretanto, geralmente o TOC é desencadeado após esses distúrbios. Em casos de transtorno de humor, esses podem ocorrer simultaneamente ao TOC, e a dependência química também relacionada pode ocorrer após o TOC.

PRIMEIRO RELATO SURGIU EM 1838

Apesar de muito frequente nos dias de hoje, o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) é um distúrbio que teve suas ocorrências iniciais em 1838.

Os primeiros relatos da doença foram desenvolvidos pelo médico psiquiatra francês Jean Étienne Dominique Esquirol (1772-1840). Ele detectou o caso de um jovem que se sentia extremamente aflito quando tinha de visitar sua tia. A senhora demonstrava angústia, porque pensava o tempo todo que o sobrinho queria roubá-la. Portanto, esse comportamento compulsivo da tia do jovem teve seu primeiro registro, mostrando que ela havia se transformado em refém do próprio pensamento. O psiquiatra francês estudou e foi discípulo de Philippe Pinel. Ao lado de seus colaboradores, entre os quais J. P. Falret, trabalhou na preparação da lei de 30 de junho de 1838. considerada modelo para muitos países, que previa a criação de instituições públicas para tratar de pessoas insanas. Ainda em 1838, publicou o estudo “Des maladies mentales considerées sous les rapponts medical, hygienique et medico-legal”. No tratado, definiu inúmeros fenômenos psicopatológicos, tais como a idiotia, demência, alucinações, termos usados até hoje.

TIC-LIKE

São muitas as reações tisicas provenientes de transtornos do tipo TOC ou de Tourette. As chamadas compulsões tic-like são semelhantes a tiques. porém realizadas com o objetivo principal de minimizar a ansiedade, o desconforto, o medo ou a preocupação, que são causados geralmente por uma obsessão. Alguns exemplos de compulsões tic-like são: tocar, esfregar, dar pancadinhas, piscar os olhos ou olhar fixamente.

CELEBRIDADES

Embora a síndrome de Tourette possa causar inúmeras dificuldades no que se refere ao convívio social, várias pessoas famosas e talentosas foram diagnosticadas com o distúrbio. Entre elas os escritores Hans Christian Andersen e André Maulraux. Napoleão Bonaparte, na imagem acima (líder político), Howard Hughes (industrial), Amadeus Mozart {músico), além dos Jogadores de futebol Tim Howard {goleiro da seleção dos EUA) e David Beckham (inglês).

EU ACHO …

DOAR A SI PRÓPRIO

Tendo lidado com problemas de enxerto de pele, fiquei sabendo que um banco de doação de pele não é viável, pois esta, sendo alheia, não adere por muito tempo à pele do enxertado. É necessário que a pele do paciente seja tirada de outra parte de seu corpo, e em seguida enxertada no lugar necessário. Isto quer dizer que no enxerto há uma doação de si para si mesmo.

Esse caso me fez devanear um pouco sobre o número de outros em que a própria pessoa tem que doar a si própria. O que traz solidão, e riqueza, e luta. Cheguei a pensar na bondade que é tipicamente o que se quer receber dos outros – e no entanto às vezes só a bondade que doamos a nós mesmos nos livra da culpa e nos perdoa. E é também, por exemplo, inútil receber a aceitação dos outros, enquanto nós mesmos não nos doarmos a autoaceitação do que somos. Quanto à nossa fraqueza, a parte mais forte nossa é que tem que nos doar ânimo e complacência. E há certas dores que só a nossa própria dor, se for aprofundada, paradoxalmente chega a amenizar.

No amor felizmente a riqueza está na doação mútua. O que não significa que não haja luta: é preciso se doar o direito de receber amor. Mas lutar é bom. Há dificuldades que só por serem dificuldades já esquentam o nosso sangue, que este felizmente pode ser doado.

Lembrei-me de outra doação a si mesmo: o da criação artística. Pois em primeiro lugar por assim dizer tenta-se tirar a própria pele para enxertá-la onde é necessário. Só depois de pegado o enxerto é que vem a doação aos outros. Ou é tudo já misturado, não sei bem, a criação artística é um mistério que me escapa, felizmente. Não quero saber muito.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

TODOS POR UM

Sem uma ação conjunta internacional, o planeta viverá uma crise humanitária sem precedentes

Os pedidos de ajuda e as previsões assustadoras de desastre iminente chegam rapidamente. O mundo está em alerta vermelho de uma forma que poucos seres humanos vivos experimentaram. Apesar do clamor urgente, a resposta internacional à catástrofe do coronavírus é, porém, nula, sem liderança e tardia.

Nula no sentido de que a escalado problema, especialmente nos países em desenvolvimento, é tão grande que é quase atordoante. A Oxfam diz que mais de 500 milhões podem ser levados à pobreza pelas consequências econômicas. A redução da pobreza global pode ser atrasada em 30 anos.

Empresas de alimentos, agricultores e grupos da sociedade civil indicam uma maré crescente de fome, a menos que as cadeias de suprimento de alimentos sejam mantidas e as fronteiras sejam abertas ao comércio. É necessária uma ação coordenada dos governos “para evitar que a pandemia de Covid-19 se transforme em uma crise alimentar e humanitária global”, dizem eles.

Os sistemas de saúde deficientes na África Subsaariana e no Sul da Ásia enfrentam um colapso. “O Covid-19 está prestes a destruir comunidades pobres, deslocadas e afetadas por conflitos em todo o mundo”, alertou Samantha Power, ex-embaixadora dos Estados Unidos que ajudou a construir uma coalizão para combater a epidemia de Ebola em 2014. “Três bilhões de seres humanos são incapazes de lavar as mãos em casa, o que torna impossível seguir os protocolos de higiene. Como as clínicas nessas comunidades têm poucas luvas, máscaras, testes de coronavírus, ventiladores ou capacidade de isolar pacientes, o contágio será exponencialmente mais letal do que nos países desenvolvidos.”

O Comitê Internacional de Resgate de David Miliband, ex-secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, diz que é uma dupla emergência. Primeiro, há o impacto direto “nos sistemas de saúde despreparados e nas populações com vulnerabilidades preexistentes”. Depois há o “caos secundário”, causado às economias e sistemas políticos dos Estados frágeis.

Preocupada com a deterioração da segurança, a ONU quer o fim de sanções unilaterais dos EUA a países como Irã, Cuba e Venezuela. Mas o governo Trump mostra pouca compreensão. António Guterres, secretário-geral da ONU, também busca um “cessar-fogo global” relacionado ao Covid.

Houve progresso em 12 países em conflito, informou o Grupo Internacional de Crises, “embora com níveis diferentes de entusiasmo e graus muito desiguais de seguimento”. Isso inclui o Iêmen, onde um cessar-fogo temporário da coalizão liderada pela Arábia Saudita começou. Os iemenitas têm, no entanto, outro problema, que a pandemia só vai agravar: uma redução iminente da ajuda do Programa Mundial de Alimentos para áreas controladas pelos rebeldes houthis. Ao menos 100 mil iemenitas morreram na guerra. Outros milhares poderão segui-los em breve, condenados por uma mistura letal de doenças, desnutrição e violência sem sentido.

No Iraque e na Síria, a disseminação do vírus instiga antigas inimizades, e não as atenua. Os EUA, a Grã-Bretanha e a França interromperam as missões de treinamento e assistência e aceleraram a retirada de tropas. Para os jihadistas do Estado Islâmico isso representa uma oportunidade. O EI tem pedido a seus seguidores que intensifiquem os ataques às “nações de cruzados” enquanto estão distraídas. “O medo desse contágio as afetou mais que o próprio contágio”, zombou o canal de propaganda do grupo, Al-Naba – conforme citado por Pesha Magid, um jornalista de Bagdá, na revista Foreign Policy. À medida que a pandemia avança, a ausência ou o fracasso da liderança internacional aumenta de forma crônica e escandalosa. Obstruído por discordâncias egoístas entre os EUA e a China, o Conselho de Segurança da ONU, reunido em sessão virtual, discutiu a pandemia pela primeira vez no início de abril, mais de três meses após a erupção. “A pandemia representa uma ameaça significativa à manutenção da paz e da segurança internacionais, potencialmente levando a um aumento da agitação social e da violência”, declarou Guterres. Apesar dos apelos, nenhuma ação foi tomada.

O Banco Mundial, o FMI e o grupo de países do G-20 devem discutir em breve o alívio da dívida depois que a ONU disse que 2,5 bilhões de dólares são necessários para ajudar os países em desenvolvimento a enfrentarem a tempestade. A Oxfam solicita 1 bilhão em financiamento de emergência imediato.

Enquanto isso, a Organização Mundial da Saúde, que desempenhou um papel crucial no início da conscientização, distrai-se com uma briga sobre Taiwan e com afirmações maliciosas de Donald Trump e comentaristas americanos de direita de que ela estaria ligada à China. Demonstrando a falta de tino que só ele poderia conseguir, Trump ameaçou congelar o financiamento.

A falha abjeta do presidente dos EUA em mostrar a liderança internacional esperada tem implicações sérias e negativas para a futura influência global de Washington. Xi Jinping, presidente da China, irritou muitos ao tentar ganhar pontos com propaganda. O russo Vladimir Putin está se isolando do mal.

Os líderes da União Europeia concordaram tardiamente com um pacote de resgate recorde de 500 bilhões de euros na sexta-feira 10, mas não conseguiram resolver uma briga feia entre Norte e Sul sobre “títulos corona” para socorrer os integrantes mais atingidos. Isso pode ter causado danos duradouros. Os primeiros-ministros da Itália e da Espanha foram francos: este é um momento decisivo para a UE. Ela falha em seu maior teste por sua conta e risco. O mundo esperou até ser tarde demais para se salvar? Richard Haass, um ex-diplomata dos EUA, diz que a falta de uma resposta internacional significativa” diz muito sobre o mau estado da governança global”. A frase “comunidade internacional” tinha de fato pouca base nas realidades geopolíticas de hoje, escreveu na revista Foreign Affairs.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 24 DE MAIO

PAZ DE ESPÍRITO, O ELIXIR DA VIDA

O ânimo sereno é a vida do corpo, mas a inveja é a podridão dos ossos (Provérbios 14.30).

Uma pessoa invejosa é aquela que se perturba com o sucesso dos outros. Não se alegra com o que tem, mas se entristece pelo que o outro tem. Um invejoso nunca é feliz porque sempre está buscando aquilo que não lhe pertence. Um invejoso nunca é grato, pois está sempre querendo o que é do outro. Um invejoso nunca tem paz porque sua mesquinhez é como um câncer que lhe destrói os ossos. A Organização Mundial de Saúde afirma que mais de 50% das pessoas que passam pelos hospitais são vítimas de doenças com fundo emocional. Quando a alma está inquieta, o corpo padece. Quando a mente não descansa, o corpo se agita. A paz de espírito é um bem precioso. Essa paz não está em coisas nem se compra na farmácia. A paz de espírito dá saúde ao corpo. Um coração em paz dá vida ao corpo. Um coração tranquilo é a vida do corpo. Mas como alcançar essa cobiçada paz de espírito? Pela meditação transcendental? Fugindo perigosamente pelo caminho das drogas? Entrando pelos labirintos do misticismo? Não, mil vezes não. A paz de espírito é resultado da graça de Deus em nossa vida. Somente os que foram reconciliados com Deus por meio de Cristo têm paz com Deus e desfrutam da paz de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

FORÇA DISTRIBUÍDA

Flexibilização de horário dos colaboradores, trato mais próximo com fornecedores, melhores relações humanas são algumas das vantagens competitivas de uma empresa de menor porte

Todo e qualquer negócio de sucesso nasceu pequeno. De uma ideia, uma necessidade identificada ou um buraco inexplorado, a oportunidade de sair da informalidade deu espaço para quase 6,5 milhões de brasileiros tornarem-se micro e pequenas empresas (MPE) ou microempreendedores individuais (MEI), segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Destes, 99% são micro e pequenas empresas, que respondem por 52% dos empregos com carteira assinada no setor privado (16,1 milhões). Um universo à parte que, a despeito do tamanho individual, concentra, juntas, uma participação muito efetiva na economia, na geração de postos de trabalho e na arrecadação tributária. Assim, com elas no mercado, há um natural aumento do número de empresas de cada setor, o que estimula o crescimento considerável da competitividade entre concorrentes. São elas o fôlego do Brasil.

Sendo startups, um mercadinho de bairro, um escritório de contabilidade ou uma senhora que faz marmitas, elas possuem, naturalmente, uma série de características com vantagens e desvantagens em face da economia e do cenário mercadológico.

De acordo com o especialista em PNL e administrador de empresas Eduardo Rocha, para administrar uma empresa de menor porte é necessário perceber que os cuidados e riscos são iguais aos das grandes companhias, contudo, a diferença é que os riscos são menores, mas, por outro lado, os recursos também. Inclusive em relação aos profissionais, ou seja, grandes empresas contam com gestores especialistas em cada departamento, enquanto um pequeno empresário, mesmo sem dinheiro, tem a capacidade de fazer isso sozinho. “O que percebemos é que grandes empresas possuem recursos suficientes para terem especialistas em cada setor, já o pequeno empresário rem que contar com seus próprios recursos para isso”, explica Rocha.

Em uma pequena empresa, o empreendedor acaba se tornando um grande generalista para conseguir lidar com todas as circunstâncias e especialidades. “Logo, é necessário, uma vez que temos riscos menores, ficarmos sempre atentos aos erros, buscando trazer um maior envolvimento dos funcionários, o que pode agregar muito nas decisões do negócio. Um bom gestor é aquele que consegue perceber o melhor de cada um. Assim, a administração de uma pequena empresa tende a ser mais assertiva”, opina Rocha.

O PODER DAS PEQUENAS

Na visão do CEO da consultoria de marketing digital Macfor, Fabrício Macfor, as pequenas empresas conseguem identificar mudanças no cenário e adaptar-se a elas de maneira rápida. “Quando falamos de um novo mundo onde tudo muda com uma velocidade exponencial, essas características são uma grande alavanca”, diz. O CEO da NetSupport, Frederico Queiroz, corrobora: “Grandes empresas têm processos burocráticos e grandes; em uma pequena empresa, a decisão não tem mais de um nível e a burocracia é praticamente nula”.

Além da clara vantagem de ser menor, as possibilidades de passar ilesos por problemas de maiores complexidades é menor também, mas, infelizmente, cada intempérie, geralmente, pode ser sentida por toda a equipe. Junto a isso, a pressão desleal dos grandes players, a escassez de recursos e a dificuldade em emplacar os primeiros “cases e grandes clientes” podem significar dificuldades na gestão. “Uma pequena empresa tem que comprar bem e vender melhor ainda, você não tem dinheiro sobrando e tem que ser duro nas negociações. Isso ajuda, porém você não tem escala de compras, não compra muito, isso diminui seu poder de barganha. O ponto é ser inteligente para comprar e não gastar mais do que precisa”, pontua Queiroz, da NetSupport, que terceiriza gestão de TI de empresas, principalmente as menores, que não costumam ter um time fixo para essas atividades.

Afinal, segundo ele, empresas não fecham somente por falta de clientes ou produto ruim, o principal problema é falta de dinheiro para rodar o dia a dia.

TRATO COM FUNCIONÁRIOS

Um grande desafio, porém, é atrair e reter talentos, mostrando a eles que a organização também tem vantagens e que, assim como acontece em grandes empresas, há sim possibilidade de crescimento e estabilidade.

Por isso, quando se consegue cultivar uma cultura de desafio com claro senso de propósito e responsabilidade dentro da empresa, acaba-se atraindo talentos que reconhecem o valor do negócio e o entrave de mão de obra é resolvido. “Grande rotatividade de funcionários mostra que sua empresa passa por problemas e que essas questões não estão sendo observadas”, lembra o especialista em PNL Eduardo Rocha. Ao contrário, quando o empresário constrói uma organização transparente com sua equipe, ele tem mais chance de que o senso de propósito e a sensação de pertencimento desta sejam mais claros e estabelecidos.

O caminho, portanto, é a flexibilidade na forma de gerenciar e negociar o futuro de cada colaborador, trazendo mais possibilidade de crescimento baseado em mensurações com opções a longo prazo, fazendo que cada membro da equipe cresça com a organização, conforme seus resultados, gerando aproximação e credibilidade necessárias para reter talentos e ter líderes na organização capazes de pensar como gestores, empreendedores e empresários.

A consultoria de marketing digital Macfor, por exemplo, localizada no interior de São Paulo, possui cerca de 20 funcionários e tem investido muito nesse envolvimento da equipe para crescer. Para tanto, vem aplicando várias técnicas diferenciadas de gestão que têm começado a chamar a atenção do mercado, com o a gestão libertária, na qual cada colaborador gerencia seu tempo; o inbound recruiting, de recrutamento mais segmentado, direcionado, neste caso, a buscar os melhores profissionais das universidades mais conceituadas do País.

NEGOCIAÇÃO EXTERNA

No entanto, como em todo negócio, ser menor não isenta MEIs ou microempreendedores de problemas. Seu tamanho também traz dificuldades inerentes ao perfil. O professor de Direito Empresarial do Damásio Educacional, Suhel Sarhan Júnior, lembra que como são empresas menores, geralmente constituídas em forma individual (empresário individual ou EIRELI – Empresa Individual de Responsabilidade Limitada), ou mesmo em forma de sociedade Ltda., normalmente são administradas pelos próprios titulares que, muitas vezes, não fazem a separação contábil das despesas e receitas empresariais das pessoais, o que pode ser um erro muito grande. “Por isso, a melhor forma de administrá-las é de fato criar uma contabilidade independente, não misturando com as contas pessoais. Caso as micro e pequenas empresas sejam constituídas em forma de EIRELI ou Sociedade Ltda., sua administração poderá ser exercida pelo próprio titular ou sócios ou mesmo por terceira pessoa contratada para este fim”, indica.

Uma situação que pode dificultar a composição e sustentação de negócios menores, segundo o professor da Damásio, é que dependendo do tipo societário, forma de composição social ou objeto social desenvolvido, mesmo que os limites de receita bruta não extrapolem o teto previsto em lei, não poderão estar enquadradas como, por exemplo: empresa de cujo capital participe outra pessoa jurídica; empresa que seja filial, sucursal, agência ou representação, no País, de pessoa jurídica com sede no exterior; empresa de cujo capital participe pessoa física que seja inscrita como empresário, ou seja, sócia de outra empresa que receba tratamento jurídico diferenciado nos termos desta Lei Complementar, desde que a receita bruta global ultrapasse o limite de que trata esta lei etc.

Outro problema que pode ser enfrentado pelo pequeno empresário acontece quando um grande cliente não parece satisfeito com o seu produto ou serviço, pois há um risco tremendo que essa insatisfação contamine o seu mercado. Para isso, torna-se necessário um acompanhamento mais próximo e um plano para contornar, o mais rápido possível, tal situação, buscando sempre a melhoria contínua e a disposição para mudar o jogo. “Grandes empresas têm muitos clientes, processos e muitas reuniões, isso pode causar o distanciamento deles. Em uma pequena empresa, deve-se estar muito próximo e ouvir seu cliente todos os dias, dessa forma você estará cada vez mais preparado para melhorar seus produtos e fidelizar seus clientes. Pequenas empresas geralmente conseguem flexibilizar melhor seus produtos para atender às demandas de seus consumidores. Isso personaliza a entrega, passa a impressão de exclusividade e eles gostam”, sugere Frederico Queiroz.

O importante é encontrar um nicho de grande oportunidade para o seu negócio, otimizando os seus custos e mostrando, assim, valor agregado. Dessa forma, é possível rentabilizar mais e melhor. Vale lembrar que, normalmente, empresas maiores possuem maiores facilidades com fornecedores na aquisição de produtos ou serviços, uma vez que compram em maior escala, consequentemente obtendo os melhores preços. “Entretanto, pensando nisso, há leis que possibilitam às micro e pequenas empresas se associarem e criarem as chamadas Sociedades de Propósito Específico, para comprarem juntas de fornecedores, a fim de que tenham maior capacidade de negociação”, explica o especialista em Direito Empresarial, Suhel Sarhan Júnior.

CLASSIFICAÇÃO

As micro e pequenas empresas podem ser classificadas de acordo com o número de empregados e com o faturamento bruto anual, sendo as MEls com faturamento anual até R$81 mil; Microempresa, com faturamento anual até R$360 mil; empresa de pequeno porte, aquelas que faturam entre R$360 mil e R$4,8 milhões por ano.

BENEFÍCIOSS DA LEI

A Lei Complementar n. 123/06 foi elaborada justamente para trazer tratamento diferenciado e simplificado para as micro e pequenas empresas. São os principais:

1. Optar pela forma de recolhimento de tributos por meio do Simples Nacional (forma de arrecadação tributária simplificada e que permite às micro e pequenas empresas pagarem alíquotas mais baixas);

2. Poderão litigar como autoras nos Juizados Especiais Cíveis e Federais, o que faz com que não precisem recolher custas judiciais em primeira instância;

3. Possuem também vantagens no acesso ao crédito e na participação em procedimentos licitatórios, em casos de desempate;

4. Obtenção de investidores-anjo, investidores que aportem capital sem necessariamente delas se tornarem sócios, entre outros previstos na LC n. 123/06.

FONTE: SUHEL SARHAN JR., docente do Damásio Educacional

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ALÉM DO QUE SE PODE VER

A deficiência física é uma marca impressa em diversos níveis do psiquismo. bebês, sejam deficientes ou não, começam a explorar seus corpos e aprendem que tocar as áreas genitais é algo que dá prazer

Nas duas colunas anteriores abordamos diversos aspectos da sexualidade da pessoa com deficiência física, enfatizando os acometidos por lesões medulares; neste post, trataremos dos fatores emocionais que podem estar envolvidos nessas situações, relacionando-os com a dimensão sexual.

Possuir uma deficiência atrai o estigma, o preconceito; conviver com ela é estar permeável a enfrentar dificuldades; compreendê-la demanda esforço, ajuda e determinação; aceitá-la requer afeto.

As fatalidades da vida nos são impostas inexoravelmente. Faz-se um hiato nas emoções, juízos que outrora tinham significado esfacelam-se e o sofrimento emerge, e esse conduz à desorganização, às dúvidas e às contradições. Se a deficiência acompanha a pessoa desde o seu nascimento, as pegadas do passado serão para os familiares e a sociedade as sombras do que o indivíduo poderia ter sido…; se ela foi adquirida, os rastros deixados, antes da sua instalação, serão as limitações do presente.

Pensar que as pessoas por terem uma deficiência semelhante apresentam personalidades similares é um equívoco. Apesar de não se observar uma personalidade que seja comum nas pessoas com deficiência, algumas particularidades merecem ser consideradas, como o momento de vida em que essa se manifesta; bem como as restrições que serão percebidas por cada indivíduo são essenciais para compor a complexidade do impacto no psiquismo e na sexualidade.

As características particulares, o processo psicológico que seguirá a instalação da deficiência (quando adquirida), a história pessoal, os valores sociais, ambientais e pessoais conquistados pela pessoa no decorrer da sua vida, assim como os fatores biológicos relacionados às deficiências determinarão suas atitudes diante da limitação. O grau da adversidade da deficiência pode influenciar a pessoa na sua adaptação, e independe dos processos psicológicos pessoais.

Em relação às deficiências adquiridas, é incontestável que mudanças ocorrerão em relação à identidade pessoal; obstáculos físicos, sociais e culturais trarão consigo novas experiências, que irão refletir em aspectos concretos e abstratos da personalidade/ sexualidade.

Existem diferenças de adaptação para aqueles que adquirem a deficiência ao longo da vida e aqueles que a apresentam desde o nascimento. Sentimentos de assexualidade podem estar presentes nos dois grupos, mas aqueles com deficiência congênita não raramente são superprotegidos, o que lhes causa isolamento social. Timidez e submissão podem ser decorrentes da dependência, dificultando a maturação e desenvolvimento sexual.

Além disso, a criança com deficiência requer mais cuidados dos pais ou cuidadores, por vezes insustentáveis; a criança capta essa rejeição, contribuindo isso ainda mais para a formação de uma autoimagem negativa. Pelos cuidados de saúde que a pessoa com deficiência demanda, outras questões como o desenvolvimento intelectual, pessoal, social e sexual podem ser negligenciadas.

As crianças nascem com sensações sexuais e as atividades de se balançar, acariciar e afagar-se realizadas de um modo carinhoso – são percebidas como agradáveis ao bebê e o ajudam a aprender a confiar e responder aos outros. Infelizmente, os pais que têm um bebê numa condição limitada fisicamente podem sentir-se esmagados pela tristeza e, como resultado disso, podem não balançar, acariciar ou afagar o filho tanto quanto o fariam com uma criança sem deficiência. A criança pode não aprender a desfrutar dessas sensações agradáveis, o que apresenta implicações futuras para emoções relativas à sexualidade.

Estereótipos de masculinidade estão relacionados à força física, demonstração de próprio poder, da capacidade de dominação, do estar seguro de si e de suas vontades em detrimento dos desejos alheios; pensando na pessoa com deficiência, esses estereótipos podem contribuir de forma negativa à sua (re)adaptação. Por outro lado, alguns segmentos da sociedade preferem definir as mulheres como seres mais fracos, passivos; de modo que a deficiência apoia essa imagem, sendo para essas mais fácil (aparentemente) esquecerem seu lado sexual, ou mesmo se tornarem assexuadas.

A adolescência traz consigo possibilidades de descobertas físicas, sociais, sexuais e relacionais; essa fase pode ser particularmente frustrante à pessoa com deficiência. Aconselhamentos neste período são altamente frutíferos, na tentativa de promover o amadurecimento de outros valores humanos.

Ressaltamos que a atividade sexual, com ou sem fins procriativos, é uma das principais formas de gratificação e promoção de autoestima que a existência nos proporciona.

O olhar da pessoa com deficiência vai além do compromisso de facilitar seu acesso aos locais públicos, meios de transporte e adaptações de infraestrutura. Entrar em contato com o outro pressupõe participação mútua; a pessoa com deficiência, nesse compartilhar humano, não desistiu do seu mundo imaginativo, e por conseguinte da sua sexualidade; mesmo que as aparências demonstrem conformismo ou receio recíproco; caso a pessoa sem deficiência considere estar perante um ser assexuado e, por sua vez, a pessoa com deficiência incorpore esse papel, instaura-se um distúrbio na comunicação, o discurso entre ambos estará prejudicado, comprometendo, portanto, a possibilidade de troca e a saúde da relação.

GIANCARLO SPIZZIRRI – é psiquiatra doutorando pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Ipq e professor do curso de Especialização em Sexualidade Humana da USP.

EU ACHO …

DAS VANTAGENS DE SER BOBO

  • O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.
  • O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”
  • Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem à ideia.
  • O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem.
  • Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas.
  • O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver.
  • O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes o bobo é um Dostoiévski.
  • Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar-refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.
  • Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
  • O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.
  • Aviso: não confundir bobos com burros.
  • Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre: “Até tu, Brutus?”
  • Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
  • Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu.
  • Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
  • O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
  • Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.
  • Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida.
  • Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
  • Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita o ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
  • Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
  • É quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

À SOMBRA DE MALTHUS

O aumento da população versus a escassez de recursos naturais gera novos debates acalorados entre cientistas

Carta Capital #1157 (19.05.2021)

Em 2011, quando a população global atingiu 7 bilhões, o economista David Lam e o demógrafo Stan Becker fizeram uma aposta. Lam previu que os alimentos ficariam mais baratos na década seguinte, apesar do crescimento contínuo da população. Becker previu que os preços dos alimentos subiriam, por causa dos danos que os humanos causavam ao planeta, o que significava que o crescimento populacional superaria a oferta de alimentos. Becker venceu e, seguindo seus desejos, Lam acaba de preencher um cheque de 194 dólares para a organização sem fins lucrativos Population Media Center, em Vermont (EUA), que promove a estabilização populacional em nível internacional. Os 194 dólares, cerca de mil reais, equivalem ao aumento de preço que uma cesta com cinco tipos de alimentos ­ óleos e gorduras, cereais, laticínios, carne e açúcar – e valor médio de mil dólares na década que terminou em 2010, sofreu na década seguinte, segundo o índice de preços de alimentos da Organização para Alimentação e Agricultura, da ONU, descontada a inflação.

A aposta se parece com outra feita em 1980, entre o biólogo conservacionista Paull Ehrlich e o economista Julian Simon. Mais uma vez, a questão era se a expansão da população humana era sustentável. Ehrlich, autor com sua mulher, Anne, de A Bomba Populacional, no qual previram a penúria em massa iminente, devido ao excesso de população, adotou a visão pessimista e Simon, a otimista. A medida da escassez de recursos naturais que eles escolheram foi a mudança no preço de cinco metais entre 1980 e 1990. Simon venceu.

Essas apostas são amplamente reconhecidas como uma simplificação de questões complexas, o que significa que seus resultados podem ser e foram muito discutidos, mas aqueles que pensam em questões populacionais ainda as consideram úteis. “Apostas desses tipos são importantes para chamar atenção para grandes problemas globais”, disse o demógrafo John Bongnarts, do Population Council, de Nova York, em um webinário em 9 de abril, no qual foi anunciado o resultado da aposta Lam-Becker.

A nova aposta deriva de um discurso acalorado de Lam, que trabalha na Universidade de Michigan, proferido na Associação Populacional da América, como seu presidente em 2011. As duas previsões dos Ehrlich não se realizaram. A produção de alimentos per capita havia aumentado 46% em relação ao meio século anterior, enquanto o número daqueles que viviam com menos de 1,90 dólar por dia, a definição do Banco Mundial de extrema pobreza em países de baixa e média renda, tinha caído mais de 30% desde 1981. Mesmo que 4 bilhões de seres humanos fossem acrescentados ao planeta, como se previa na época, Lam sentia-se confiante em que eles poderiam ser alimentados. No webinário do mês passado, ele indicou que o crescimento populacional tinha desacelerado desde 2011, com o acréscimo de, aproximadamente, 850 milhões de indivíduos desde então, enquanto a pobreza continuou a diminuir e a produção de alimentos per capita a aumentar. Isso foi verdade até na África Subsaariana, onde a produção de alimentos perdeu para o crescimento da população até a última década.

Becker, da Universidade Johns Hopkins, objetou em 2011 e uma década depois, não que fosse impossível alimentar 11 milhões de seres humanos, mas que essa perspectiva ignorava os danos colaterais a outras espécies e ao planeta. Ele indicou estatísticas da FAO que mostram que quase 70% das áreas de pesca estão super exploradas. Outros mencionaram estoque cada vez menor de água doce e a erosão da biodiversidade. “Toda a biosfera enfrenta problemas”, disse Becker.

Debates sobre a sustentabilidade da humanidade são constantes desde que Thomas Malthus afirmou, há mais de 200 anos, que o crescimento populacional tende a superar e abafar o crescimento econômico. O pessimismo das três décadas a partir dos anos 1950, personificado por Ehrlich, deu lugar a um período de otimismo por volta de 1950, quando a fertilidade começou a declinar, a revolução verde aumentou a produção de alimentos e os preços do petróleo despencaram. Mas, por volta de 2000 o pessimismo retornou, principalmente devido à crescente consciência sobre a crise climática e à previsão da Divisão de População da ONU de que a população global chegaria perto de 11 bilhões por volta de 2000, com a maior parte do futuro crescimento esperado pela África.

Os preços dos alimentos, como os dos metais, são voláteis. A demanda – o número de bocas a alimentar – é o principal fator que os conduz, mas o FFPI é um índice baseado no comércio também sensível a fatores pelo lado da oferta, como a proibição de exportações. O FFPI aumentou acentuadamente na década que terminou em 2010, em parte devido à alta demanda por cereais para produzir biocombustíveis, combinada com baixas reservas. Ele caiu na década seguinte, mas não o suficiente para compensar o aumento anterior. Becker ganhou com folga segundo os termos da aposta, mas Lam diz que estava certo de que haveria uma correção. “Em certo sentido, nós dois ganhamos”, diz.

Parte do motivo pelo qual a sustentabilidade humana continua um tema tão quente é que os especialistas discordam sobre como a população global vai crescer. A ONU acredita que o crescimento atingirá o pico no fim deste século, mas outros acham que será mais cedo. Pesquisadores da Universidade de Washington previram no ano passado que ela atingiria o máximo de cerca de 10 bilhões por volta de 2064, depois diminuiria ligeiramente para cerca de 9 bilhões até 2100. O principal motivo foi um melhor acesso a anticoncepcionais e à educação feminina na África, o que levaria a taxas de fertilidade menores lá mais cedo que     o previsto da ONU. A discrepância entre as duas previsões, de 2 bilhões de seres humanos até o fim do século, obviamente afeta os cálculos sobre o impacto da humanidade no planeta.

Outra questão é a equidade: talvez possamos alimentar praticamente todo o mundo, mas alguns serão mais bem alimentados que outros. Se muitos estiverem vivos, mas famintos, ainda poderemos dizer que o crescimento populacional é sustentável? Bongnarts disse que essa lacuna de equidade é visível e se amplia.

A FAO relata que a fome tem aumentado desde 2014 e 9% da população mundial está faminta hoje. Se a fome for definida como subnutrição, o consumo de alimento aquém das necessidades energéticas, a Asia representa a maior parte dela, mas os aumentos mais rápidos foram registrados   na África. “A situação não parece tão boa quanto David (Lam) previu”, disse Bongnarts.

Apesar de tender para o pessimismo, Bonganarts não prevê o futuro próximo da humanidade pontuado por catástrofes demográficas. Em vez disso, afirma, será um caso de deterioração   gradual da qualidade de vida. “Cada bilhão que acrescentarmos ao planeta torna a vida mais difícil para todas as outras”, disse. Os ricos conseguirão se proteger do pior por algum tempo, mas a maior parte da humanidade terá um “tempo terrível” nas próximas décadas. Previsivelmente, Ehrlich acha que Becker mereceu vencer a aposta e que, embora algumas de suas previsões estivessem erradas nos anos 1960, sua tristeza essencialmente se justificava. “Todo mundo que observou isso de perto sabe que não é possível a longo prazo, com qualquer das tecnologias conhecidas, sustentar 8 bilhões sem constantemente esgotar a capacidade de sustenta-las”, disse Ehrlich, hoje com 88 anos.

Becker citou vários estudos ecológicos que indicam que o número máximo de seres humanos que a Terra pode manter de forma sustentável é entre 2 bilhões e 3 bilhões, aproximadamente a população de meados do século XX. Uma parte essencial da solução para a atual dificuldade, segundo ele, é o “decrescimento”, cujo elemento mais importante é uma “ética de família pequena”. O problema é que desacelerar o crescimento populacional pode não resolver o problema ambiental, ao menos não em tempo.

Lam oferece a tendência a longo prazo de maior produção de alimentos per capita como evidência de que ele estava parcialmente certo. “Se nos preocuparmos com o consumo em massa mais do que com a fome em massa, é uma espécie de progresso”, diz. Mas ele também critica Simon, que morreu em 1998, por não distinguir entre o problema que o capitalismo conseguiu resolver e os que não conseguiu, ao menos por conta própria. A crise climática é um deles.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 23 DE MAIO

PACIÊNCIA, PROVA DE SABEDORIA

O longânimo é grande em entendimento, mas o de ânimo precipitado exalta a loucura (Provérbios 14.29).

Uma pessoa de estopim curto é mais explosiva do que uma bomba. Um indivíduo destemperado emocionalmente não apenas comete loucuras, mas exalta a loucura. Por onde passa deixa um rastro devastador. Sempre que fala, agride e machuca as pessoas. A insensatez está em seus lábios, e a agressão acompanha seus atos. É muito diferente o longânimo. Este pensa antes de falar. Suas palavras são medicina para a alma, bálsamo para o coração e deleite para a vida. Um homem paciente está sempre pronto para ouvir, mas reflete muito antes de abrir a boca. Suas palavras são poucas e comedidas. Mesmo quando ultrajado, não revida com ultraje. Prefere pagar o mal com o bem. Em vez de retribuir ódio com rancor, toma a decisão de perdoar. Em vez de amaldiçoar aqueles que o cobrem de críticas injustas, toma a decisão de abençoar e bendizer. Se a precipitação é a sala de espera da loucura, a paciência é o portal da sabedoria. A pessoa iracunda tenta controlar os outros com suas ameaças, mas o indivíduo paciente controla a si mesmo com sabedoria. Mais forte, porém, é o homem que tem domínio próprio do que aquele que ganha uma briga e conquista uma cidade.

GESTÃO E CARREIRA

BASE SÓLIDA EM UM MAR DE AREIA

Toda pessoa que inicia uma nova empresa deseja vê-la prosperar e alcançar um excelente patamar no mercado, mas, infelizmente, há um alto índice de mortalidade de empresas no Brasil. Conhecer os principais fatores que arruinaram um negócio e saber como contorná-los a tempo é o caminho para solidificar o empreendimento

Dados da pesquisa do Instituto de Informações de crédito Boa Vista pontuam qu1e, em setembro de 2019, os pedidos de falência subiram 59,8% em comparação com o mesmo mês do ano anterior. As micro e pequenas empresas respondem por 95,1% do total dos pedidos. Há ainda quem diga que a cada dez empresas criadas anualmente, mais da metade não sobrevive à primeira década de operação. Diante desses números (assustadores), como se motivar a criar um negócio e fugir dessas estatísticas?

No geral, as empresas que fecham as portas em um espaço de dois anos após o início das atividades são aquelas cujos donos tiveram menos tempo para planejar o negócio, não conseguiram negociar as melhores condições com fornecedores, não investiram na capacitação da mão de obra, não inovaram e não diferenciaram seus produtos da concorrência e tinham dificuldade de fazer o acompanhamento rigoroso de receitas e despesas.

Isso porque, na maioria das vezes, os pequenos negócios nascem sem o planejamento adequado e com recursos limitados, a partir da iniciativa de pessoas com pouca ou nenhuma experiência em gestão que, diante da ausência de alternativas (em situação de desemprego, por exemplo), apostam no empreendedorismo como uma forma de viabilizar o seu sustento. Naturalmente, pessoas inexperientes e sem conhecimento em gestão cometem mais erros e, diante da escassez de recursos para enfrentar as dificuldades do negócio, acabam sucumbindo com uma frequência enorme.

Uma pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em 2016 com mais de 2.000 empresas constituídas em 2011 e 2012 mostrou que não há apenas um único fator determinante para o fechamento de negócios no Brasil. ”A mortalidade da maioria está associada a uma combinação de fatores, em especial ao tipo de ocupação dos empresários antes da abertura (se desempregado ou não), à experiência ou ao conhecimento do empresário anterior no ramo, à motivação para a abertura do negócio, ao planejamento adequado do negócio antes da sua abertura, à qualidade da gestão e à capacitação dos donos da empresa em gestão empresarial”, pontua o doutor em economia e analista da unidade de Capitalização e Serviços Financeiros do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Giovanni Beviláqua.

DIAGNÓSTICO

A falência é o caminho adequado para o encerramento regular de negócios que se revelaram inviáveis e que se encontram em estado de insolvência, ou seja, não dispõem de patrimônio suficiente para fazer frente a todas as suas dívidas. Por outro lado, se o negócio se revela economicamente viável, mas, por qualquer razão, se encontra em uma situação momentânea de dificuldade financeira, é possível evitar essa medida drástica, valendo-se de ferramentas de reestruturação e recuperação de empresas, a exemplo da recuperação judicial.

Para “sair da UTI”, é preciso pensar na empresa como sendo um organismo único, que depende igualmente de todas as suas partes ou setores, considerando, por exemplo, que, em um cenário em que a falência da empresa está relacionada ao não pagamento de uma determinada dívida, a causa pode estar em qualquer outra área da empresa: as vendas não serem suficientes, os custos de produção podem estar altos, os clientes podem estar insatisfeitos ou terem demandas diferentes das que tinham etc.

Cada setor (administrativo, financeiro, comercial, suprimentos, jurídico, entre outros) tem seus indicadores e precisa ter métricas, que são definidas de acordo com o seu negócio e com a estratégia e impacto daquela ação. O dono da empresa precisa ter clareza dessa estratégia, impacto e resultado, fazendo a gestão de uma empresa bem-sucedida a caminho de ser autogerenciável.

Para o professor da Fundação Armando Alvares Penteado (FMP), José Sarkis, o empreendedor tem que começar a empresa já entendendo e alinhando o seu modelo de negócios, criando valor para sua organização.

Para isso, é preciso entender a necessidade e o desejo do cliente final e como oferecerá ao mercado algo que não tenha ainda – seja para um determinado segmento, nicho ou lacuna. “O primeiro grande fator é definir o modelo de negócio de um produto ou um serviço pensando no que trará de diferente para uma parcela do público consumidor, ‘como ele vai preferir o meu produto e não algo que já está no mercado?’. Se eu não conseguir responder a isso, inevitavelmente, cai-se em oferecer algo já existente no mercado advindo de alguma companhia que já deve estar estabilizada, só conseguindo gerar vendas e ofertas abaixando preço. E, provavelmente, em longo prazo, terá uma rentabilidade menor e uma dificuldade maior”, lembra.

PRINCIPAIS ERROS

Seguramente, não há “receita de bolo” para garantir o sucesso de um negócio. Mas é possível dizer que realizar um planejamento adequado e o investimento em ferramentas de controle, governança corporativa e gestão profissional são providências que aumentam muito, as chances de sucesso de qualquer empreendimento.

Os primeiros anos de atividade são, portanto, cruciais para a durabilidade de um negócio, seja ele de qualquer ramo ou tamanho; devendo o empresário evitar cometer duas das principais falhas nesse período, que podem prejudicar, e muito, esse primeiro fôlego: a incapacidade de formar uma boa carteira de clientes, ou de atender seus clientes eficazmente, e a impossibilidade de gerar lucro. “As microempresas (ME) constituem o grupo que tem maior peso no fechamento dos pequenos negócios, o que pode indicar que a estrutura mais organizada e o maior capital das empresas de pequeno porte e das médias e grandes conferem a esses negócios uma maior capacidade de resiliência necessária para manter o empreendimento em operação”, analisa o consultor do Sebrae.

Por isso, para um início empresarial saudável, a atenção é primordial. Na opinião do administrador, professor de administração de empresas do IAG – Escola de Negócios da PUC-Rio, Henrique Castro Martins, basicamente, as novas empresas morrem por três grandes razões:

1) falta de planejamento prévio sobre o próprio negócio;

2) falta de conhecimento para gestão das finanças, que leva à falta de capital e a problemas de fluxo de caixa;

3) falta de comportamento empreendedor e de capacidade de inovar.

Na outra ponta, empresas mais antigas, independentemente do tamanho, enfrentam os seus próprios problemas, talvez com maior experiência em contornar situações difíceis, mas não imunes a errar e sofrer graves e, talvez, mortais consequências. No caso desses perfis, um dos principais erros é a incapacidade de se profissionalizar e adaptar-se às novas demandas dos clientes mais atualizados, mantendo, muitas vezes, os negócios sob administração muito próxima do seu fundador. “É comum que essas empresas nunca se profissionalizem verdadeiramente (isto é, nunca criem sistemas de controles internos, de governança etc.) durante o período em que o fundador está nela. Esse processo de profissionalização, infelizmente, apenas ocorre, muitas vezes, quando é preciso buscar um sucessor para o fundador”, completa o docente da IAG da PUC Rio.

Em resumo, as empresas precisam estar prontas para se reinventar a qualquer momento. Aquelas que se acomodam na zona de conforto provocada pelo histórico de sucesso, normalmente demoram para identificar e reagir às situações de crise e acabam ficando no meio do caminho.

CONTORNANDO TEMPOS RUINS

Juridicamente, a empresa está “na UTI” quando faltam (ou na iminência de faltar) recursos para fazer frente às obrigações assumidas pelo negócio (pagamento de pessoal, compra de matéria-prima etc.). O especialista em recuperação de empresas Diego Montenegro ressalta, porém, que, enquanto houver geração positiva de caixa (sobra de recursos após o pagamento de todas as obrigações), o negócio se manterá vivo. “Por outro lado, ainda que a empresa seja economicamente lucrativa, se a geração de caixa for negativa, é preciso adotar medidas imediatas para a reversão do cenário, ou o destino do negócio será a falência”, ressalta.

Outro aspecto que merece bastante atenção, indicando que a empresa está à beira de uma crise, é a dependência de operações de crédito para a manutenção normal do giro do negócio. Vendo-se nesses casos, o empresário precisa admitir que algo deve ser feito com urgência, pois a sobrevivência do negócio está nas mãos dos credores, e não da administração da companhia.

Atenção, portanto, aos indicadores como fluxo de caixa, resultado operacional, gestão de caixa, ponto de equilíbrio e retorno sobre investimentos, que são medidos a partir dos dados que compõem as informações contábeis e financeiras das empresas, podendo ser avaliados em vários períodos, à medida que estejam disponíveis.

Por esses motivos, é importante que as empresas tenham um sistema bem organizado de coleta e organização desses dados, avaliando-os trimestralmente, no mínimo, junto a outros dados disponíveis da economia como condições de crédito, PIB, mercado de trabalho etc. “Saliento que todos esses indicadores e outros disponíveis na literatura de gestão são relativamente fáceis de ser calculados. O importante é que a empresa possua um sistema que permita a organização desses dados, bem como a sua exposição, além disso, é preciso que os gestores entendam o que são indicadores financeiros e saibam agir de acordo com o que eles demonstram em relação à saúde da sua empresa”, lembra Beviláqua, do Sebrae.

Se o empresário conseguir aplicar recursos e obter retornos acima dos custos desses recursos, a companhia está gerando valor para seus investidores. Se, além disso, a demanda dos clientes está sendo resolvida, então a empresa muito provavelmente está saudável financeiramente. O recomendável, na opinião do consultor Guilherme Machado, é que os empreendedores concentrem-se no seu público-alvo, buscando vender valor e propósito, com foco em educar o cliente, tendo a experiência como objetivo maior – surpreender com algo que gere valor para o cliente sem que ele tenha que pedir.

Junto a isso, o docente da PUC-Rio indica que os gestores sempre devem ficar atentos à geração de caixa da empresa, ao seu nível de liquidez (isto é, a proporção entre ativos circulantes e passivos circulantes), ao nível de endividamento (proporção de recursos de terceiros que a empresa está usando) e à sua lucratividade (isto é, margem líquida, margem bruta etc.). “Qualquer acompanhamento desses índices deve ser constante, em muitos casos, inclusive, diário. O gestor deve sempre ficar atento caso um ou outro desses dados comecem a cair de forma constante, variar demais ou, simplesmente, cair muito abruptamente”, alerta.

Por isso, Martins diz que é importante criar um bom sistema de controle para esses indicadores e, em paralelo, ter valores a partir do qual se ‘liga uma luz amarela e uma luz vermelha’, as quais permitem que o gestor e sua equipe de confiança tomem medidas corretivas imediatas que façam a empresa voltar a apresentar valores aceitáveis para esses indicadores.

Os exercícios e cálculos acompanharão o empresário, quase que diariamente, durante toda a vida útil de uma empresa, analisando a geração de caixa, o nível de liquidez do negócio, ou proporção entre ativos circulantes e passivos circulantes, o nível de endividamento e a sua lucratividade.

MEDIDAS ALTERNATIVAS

Em casos de precisar de uma recuperação, Montenegro indica que o primeiro passo é traçar uma estratégia global de reestruturação da empresa, que normalmente se sustenta em dois pilares associados:

I) reconfiguração da operação, com revisão de processos para redução de custos, aumento de eficiência / produtividade, entre outros; e

II) renegociação das dívidas. A depender das circunstâncias específicas de cada empresa, a renegociação das dívidas pode realizar-se extrajudicialmente, com a repactuação voluntária das obrigações existentes ou a substituição das dívidas atuais por outra(s) nova(s), mais apropriada(s) à realidade do negócio. “Todavia, quando não é possível, nas negociações com os credores, chegar a um consenso que de fato viabilize o soerguimento da empresa, o devedor pode valer-se da recuperação judicial para reestruturar suas dívidas e evitar a falência”, pondera o advogado.

O especialista em Governança Corporativa e sócio- fundador da Crowe, Marcelo Lico, lembra que a falência é um caminho sem volta, que pode prejudicar, também, a credibilidade do empresário para criação ou administração de outros negócios. Em alternativa, buscar investimentos externos pode ser o caminho, mas para conseguir investimentos a empresa deve mostrar ao potencial investidor que tem um produto que gera rentabilidade e que também tem uma gestão que transmite confiança e trabalha com total transparência.

Esse caminho pode “dar um gás” no capital de giro e conseguir um novo fôlego para uma operação mais saudável. Seja mediante equity (ingresso de novos sócios), seja através da realização de novas operações de crédito, em condições mais adequadas às possibilidades da empresa, a captação de investimento externo é uma ferramenta extremamente comum e útil em um processo de reestruturação empresarial.

O momento e a forma de fazer essa captação dependem muito da realidade de cada empresa. Certo é que, por um lado, operações dessa natureza, se feitas corretamente, podem salvar a companhia da crise, enquanto captações de recursos mal estruturadas podem provocar o efeito inverso, ou seja, precipitar a falência. “Por isso mesmo é fundamental que a companhia em dificuldade se faça assessorar por profissionais especializados e experientes nesse mercado, para garantir que essas operações sejam estruturadas de maneira adequada e eficiente”, indica Montenegro, advogado, especialista em recuperação empresarial.

APRENDENDO COM AS FALHAS

O presidente da holding Encontre Sua Franquia, detentora das redes Encontre Sua Viagem, Quisto Corretora de Seguros, SUAV, Fórmula Pizzaria e Acquazero, Henrique Mol, sabe o que é passar por maus momentos como empresário. Segundo ele, a falta de experiência o fez quebrar nos primeiros negócios que montou, dentre eles, uma empresa focada em publicidade para jornais de bairro. “Chegamos a atuar em cinco regiões de Belo Horizonte (MG), mas, devido ao alto índice de inadimplência e um acidente gravíssimo que tive, acabei fechando o negócio. Isso me mostrou que precisamos ter mais clareza nos negócios em indicadores para saber se estamos no caminho certo, ou é realmente necessário mudar o caminho rapidamente para seguir crescendo”, diz.

A tentativa frustrada não foi empecilho para dar novos voos. “Comecei a trabalhar para uma empresa de tecnologia, responsável pelo setor comercial, e minha função era encontrar soluções ao mercado de turismo, principalmente no que se referia a agências de viagens. A instituição havia acabado de lançar um produto para o setor, mas na época contava com pouquíssimos clientes. Foi aí que vi uma chance para crescer profissionalmente, já que eu conhecia o segmento por ter tido várias agências como clientes na empresa do meu pai”, explicou.

Em suas mãos, o negócio apresentou sinais de crescimento. Nessa experiência, Mol conheceu ainda mais o setor e as necessidades que o comportava e, a partir daí, iniciou uma nova jornada de sucesso, em 2011, criando a Encontre Sua Viagem, seguido pelo lançamento de outras cinco redes.

Hoje, ele lidera um grupo que, juntas, soma quase mil unidades espalhadas pelo Brasil, em menos de dez anos no franchising. “Uma empresa de sucesso é aquela que nasce para solucionar os problemas recorrentes das pessoas. Para saber quem você pode ajudar, é preciso pesquisar, desenvolver um perfil/ persona”, pontua o consultor e coach empresarial Guilherme Machado.

Essencial é entender que o sucesso não diz respeito ao tamanho da empresa, mas sim à mentalidade empreendedora, que está associada a ter propósito e visão de mercado para conseguir ver as oportunidades do seu negócio, além de estar disposto a canalizar todas as suas forças para fazer dar certo. “Isso requer um bom capital intelectual e emocional para lidar com os desafios. A diferença está no mindset, na maneira de pensar. As empresas grandes são menos propensas a errar porque já vivem em um ambiente próspero. Na empresa menor, às vezes o empreendedor pensa mais na crise, nos problemas que está vendo e acaba criando uma crença autorrealizável para si mesmo”, lembra.

5 PRINCIPAIS MOTIVOS PELOS QUAIS AS EMPRESAS QUEBRAM

• DIFICULDADE EM PLANEJAR E CONTROLAR O FLUXO DE CAIXA – o grande problema é que as vendas são feitas hoje, e os recebimentos, em sua maior parte, executados depois. Quanto mais você vende, mais cede crédito e, nesse meio-tempo, pode ficar inadimplente e com dificuldades de se reequilibrar: “bancos são relutantes em emprestar dinheiro para quem tem problemas de capital de giro. Costumam gostar muito de emprestar para quem não precisa de dinheiro, mas não gostam de emprestar para quem está em dificuldades”.

• DESCONHECER SEUS CUSTOS: As empresas costumam responder à pergunta “qual é o seu custo por produto?” com uma resposta do tipo “em média 50% o valor de venda”. Isso significa que o cliente não sabe quanto custa cada produto que ele vende, algo inadmissível em tempos nos quais sistemas simples realizam esse cálculo de forma rápida e razoavelmente adequada.

• DESCONHECER OS LIMITES DE SUA ESTRUTURA DE CAPITAL: “Mais da metade das empresas com as quais trabalho enfrentam problemas no crescimento agressivo. É aquela venda gigante, oferecida pela cadeia de atacadistas, para ser fechada amanhã, que costuma gerar os problemas mais graves”. Segundo Flávio, crescer requer capital de giro, investir também e desfazer investimentos malfeitos queima capital. Tudo está atrelado a quanto capital se tem acesso. Não obrigatoriamente o seu, mas também aquele que pode ser emprestado.

• NÃO PROTEGER O FATURAMENTO: O termo “proteger” neste caso serve para volume e preço. As empresas apostam muito no desconto e nas liquidações para aumentar faturamento e esquecem quanto afetam, com isso, a percepção de valor do produto, que pode demorar anos para voltar a ser vendido em mesma escala pelo preço convencional. O comercial é o coração da empresa e a maioria acaba morrendo por falta de posicionamento comercial adequado.

• NÃO SEGUIR, OU NÃO TER SEU PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO: Se você determinou uma certa estratégia para seu negócio, testou a dita cuja, montou um plano estratégico que faz sentido, siga-o. Não tente na primeira dificuldade alterar o plano. Este negócio de mudar de direção à medida que o vento muda é bom para corrida de veleiros. Em todo o resto não faz tanto sentido. É obvio que você não precisa cimentar seus pés no pilar da ponte Rio-Niterói, mas tente manter o rumo aproado.

Fonte: FLÁVIO ITAVO, especialistas em turnaround.

EMPRESAS MAIS VELHAS ERRAM?

Falhas na gestão não são exclusivas de empresas mais novas, apesar de serem mais comuns nesse grupo. Falta de controle no planejamento, nas contas, no atendimento, na equipe e no próprio equilíbrio emocional do empreendedor podem ser fatais para as empresas, sejam elas novas, sejam mais antigas em suas áreas de atuação. A principal razão para esse erro não é falta de entusiasmo, mas sim de conhecimento, e isso, frequentemente, leva as empresas a cometerem erros que poderiam ser evitados. Alguns desses erros derivados da falta de conhecimento são:

•  Não ter um planejamento estratégico ou achar que um plano de negócios não é importante.

•  Deixar de acompanhar o mercado em que está inserido e não conhecer bem seu cliente, a concorrência e os fornecedores e demais parceiros.

•  Fazer uma estimativa equivocada do tamanho do seu mercado.

•  Fazer um controle deficiente do fluxo de caixa e da necessidade de capital de giro.

•  Não estar atento à conjuntura econômica e política do país e desconsiderar os seus efeitos sobre os mercados de atuação da empresa.

•  A não separação clara entre o dinheiro da empresa e o do empresário.

•  Não contratar bons colaboradores e não investir na sua qualificação.

•  Não ter uma área de processos bem desenhada e organizada, com a adequada coleta e análise

de dados sobre o negócio, clientes, produtos etc.

•  Não atentar para a comunicação institucional e as relações com o mercado que, se deficientes, podem gerar danos à imagem da empresa com consequências diretas sobre a sustentabilidade dos negócios.

Fonte: GIOVANNI BEVILÁQUA, do Sebrae nacional.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A MEDIDA DO “EU”

Na sociedade contemporânea, o viés temporal da construção da identidade coloca um desafio diário: como equilibrar o tempo social, mecânico, com as nuances do tempo subjetivo?

De um lado, adolescentes concedem a fala frágil a um dos mais respeitados documentaristas brasileiros. De outro, no âmbito da ficção, um fotógrafo retorna à casa da ex-mulher para passar alguns dias e lá se aproxima novamente da intimidade quase fora de alcance. A intersecção entre o documentário Últimas Palavras, de Eduardo Coutinho, e o longa Permanência, de Leonardo Lacca, acontece em um território dos mais férteis para o campo da Psicologia: no diálogo entre tempo e identidade. O sociólogo e psicólogo italiano Alberto Melucci deu ênfase a essa temática ao longo de O Jogo do Eu: a Mudança de si em uma Sociedade Global, obra na qual trabalha a formação identitária no mundo contemporâneo.

A busca por uma unidade onde limites e características estejam bem estabelecidos marca fortemente a constituição subjetiva. De acordo com Melucci, continuidade do sujeito – independentemente das variações no tempo e das adaptações ao ambiente – , delimitação em relação aos outros e capacidade de reconhecer-se e ser reconhecido assinalam a identidade do indivíduo ou de um grupo.

Dentro dessas características, podem ser notados atravessamentos temporais de naturezas distintas. Muito além de um ponto fixo, estático, o conceito ilustra um processo de criação e transformação com base em perspectivas passíveis de mudança, que geram mais autonomia. Ao dar ênfase à criatividade ao invés de sublinhar uma história inalterável, o autor confere caráter libertário ao tema. Por outro lado, justamente devido a essa maleabilidade, cria-se um sentimento de insegurança, pois “nada é definitivamente perdido, mas também nada é definitivamente adquirido”. Dessa forma, a experiência de si constitui-se pela provisoriedade e reversibilidade dependentes de escolhas.

A profunda incerteza sobre como agir e a necessidade de tomada de decisão constante compõem o chamado paradoxo da escolha. “A descontinuidade e a fragmentação da experiência que a complexidade introduz criam um esvaziamento do ‘sujeito’ como essência com características permanentes”.

O conceito de complexidade estabelecido pelo autor diz respeito à diferenciação, velocidade, aumento na frequência das variações e ampliação das possibilidades de ação. Esse quadro leva os indivíduos à crescente dificuldade de transferirem de um tempo a outro um mesmo modelo de ação. Como avanço da tecnologia, abrem-se mundos com culturas, linguagens, conjunto de papéis e regras distintos, os quais exigem adaptação. O processo comporta a pressão constante de mutação, transferência e tradução para novos códigos e formas de relações.

Diante desse cenário revelam-se dois sentimentos latentes: perda e frustração. O temor de abandonar alguma possibilidade priva todas de significado para anular seu apelo. E numa ação sem sentido, oscila-se entre o excesso e o tédio, extremos apresentados tanto no documentário de Coutinho quanto no filme de Lacca. O mundo de oportunidades diante dos adolescentes ou do cenário artístico de São Paulo se perde entre tantas outras direções e os indivíduos experimentam na pele o paradoxo da escolha.

DENTRO DA ENGRENAGEM

Se a identidade comporta tantos direcionamentos temporais, é necessário ir mais a fundo no conceito de tempo – culturalmente traçado, dividido e estancado numa tentativa de apreensão. Para Melucci, essa medida se apresenta corno uma multiplicidade de eventos, cada qual caracterizado por sua própria duração.

O psicólogo trabalha três metáforas principais registradas ao longo da história da cultura: o círculo, percebido como um retornar cíclico de todas as coisas, segundo a lei imposta por um evento primário e atemporal; a flecha, herança do cristianismo, que assinala um percurso linear, cujo final dá sentido ao trajeto e traz a salvação; e o ponto, relacionado à fragmentação.

A última figura, delineada pela aferição digital do relógio, direciona um processo de mudança perceptiva. “Quando a medida do tempo torna-se pura leitura de números, sequência ininterrupta mas descontínua de sinais, vibração eletrônica de regularidades imutáveis, então o ponto assume o predomínio, modificando profundamente nossa experiência de duração, da continuidade, da relação entre o antes e o depois”.

Renegar as nuances do tempo subjetivo e adequá-lo à força ao tempo social conduzido pelas máquinas traz consequências evidentes. Em Permanência, o marido de Rita é o típico homem atribulado, conectado inteiramente ao trabalho. Já Ivo, fotógrafo que flana entre Recife e São Paulo sem porto definido, reconstrói sua história por meio de fotogramas estáticos e imerge na cena noturna paulistana em noites intermináveis. Os dois, de uma forma ou de outra, convergem ao ritmo acelerado da capital, mas são as inconstâncias e desregramentos do artista responsáveis por levar novo fôlego à personagem Rita, exaurida pela rotina de jornalista. Os antigos amantes também foram consumidos pela engrenagem – o único resquício de sentimento inscreve-se em fotografias antigas, perdidas em meio a novos registros. Para Melucci, a rotação dos dias abarrotados de possibilidades para as quais não temos resposta resulta, muitas vezes, numa espécie de insensibilização, uma anestesia por excesso de estímulos que anula todo o espaço interior.

A sonorização do longa enfatiza esse aspecto. O barulho incessante da atividade da cidade parece barrar qualquer registro da memória – não fossem os fotogramas, estaria tudo perdido. As palavras dos personagens são emudecidas no metrô, na fábrica e nas máquinas de café, trituradas por um tempo sem comunicação concreta.

A dimensão puntiforme impulsionada pelo capitalismo – ou esquizofrênica, numa aproximação com o pensamento de Deleuze e Guattari – traz em si o incômodo do deslocamento contínuo. Entretanto, nesse contexto, o psicólogo italiano destaca como possibilidade a reativação do horizonte da presença como capacidade de viver momento a momento. Esse seria o real desafio apresentado pelo cotidiano: manter algo de genuíno em meio à multiplicidade desagregadora da produção social; desconectar-se dos tempos externos quando o tempo subjetivo clama por passagem.

No mundo globalizado, afirma Melucci, vivemos todas as figuras do tempo: o círculo repetido entre memória e projeto, o movimento linear da flecha como intenção e objetivo, a conjunção do ponto ou a experiência de nos perdermos nele. A união dessas metáforas se dá pela figura da espiral, no movimento circular avançando no espaço, onde “expressa-se o sonho, demasiado humano, de que o fluir também possa ser um conservar-se”.

QUEBRA DO EU MONOLÍTICO

No documentário de Coutinho, realizado com estudantes do ensino médio, percebe-se como as falas estão impregnadas de ideais construídos socialmente. A perda da ingenuidade e criatividade autênticas da infância causam certa irritação no diretor, sentimento perceptível quando aponta a “mentira” na fala dos jovens. Em Permanência, os personagens também sofrem do mesmo mal: agir conforme o script.

No âmbito coletivo, a identidade do grupo regula os critérios para o reconhecimento do indivíduo como membro. Dentro das sociedades tradicionais a noção se estabelecia de forma metassocial: ou seja, estava no tempo mítico das origens ou coincidia com a figura do líder. Essas formações, segundo Marilena Chauí, baseiam-se na exterioridade do saber-poder fundador para, assim, garantirem o aspecto de intemporalidade. “E esta se transmite à sociedade que pode, então, representar-se a si própria como pura identidade consigo mesma e como intemporal”.

Nos modelos propriamente históricos, onde condições determinadas e transformações estão em aberto, a autora destaca a fixação identitária por meio da ideologia – noção afirmadora de unidade, identidade e homogeneidade ilusórias por meio de diferentes mecanismos de controle e alienação, visando manter o poder dominante.

À medida que reconhecemos as formas identitárias como produto social, criamos as condições para a individualização dos processos de atribuição e de reconhecimento. Ou seja, na sociedade moderno-industrial adquirimos a capacidade autônoma de nos definirmos como indivíduos. Nem sempre é possível contornar os mecanismos ideológicos, mas, por meio do engajamento consciente, abre-se espaço para uma articulação crítica dentro do próprio discurso ideológico, a fim de desconstruí-lo.

Apesar dos padrões absorvidos, essenciais para a integração ao grupo e noção de pertencimento, Melucci destaca justamente o caráter criativo da construção da identidade, o qual integra passado, presente e futuro na história individual. Como não há fim nesse percurso, é preciso renunciar ao enfoque estático e atentar aos processos móveis de identificação. “Não é mais viável pensar no sujeito como um ente dotado de um núcleo essencial, definido de modo metafísico, mas devemos redirecionar nossa atenção para os processos com os quais os indivíduos constroem a identidade. A identidade de um eu múltiplo torna-se identização”.

Ao abordar a questão da multiplicidade, Deleuze e Guattari vão mais longe: defendem as diversas vozes do esquizofrênico na Psiquiatria materialista, em contraste ao estreito ponto de vista do eu estabelecido por Freud, com base na fórmula edipiana. Como pensar o inconsciente atrelado à representação e significante não bastava aos autores, conceberam uma nova forma com base no construtivismo inconsciente, capaz de abarcar o múltiplo e o real ao invés do imaginário e simbólico. Nesse sentido, descreveram o termo como uma máquina produtiva onde o desejo não está reduzido à questão da falta, mas diz respeito a uma lógica de fluxos.

“A grande descoberta da Psicanálise foi a da produção desejante, a das produções do inconsciente. Mas, com o Édipo, essa descoberta foi logo ocultada por um novo idealismo: substituiu-se o inconsciente como fábrica por um teatro antigo; substituíram as unidades de produção inconsciente pela representação; substitui-se o inconsciente produtivo por um inconsciente que podia tão somente exprimir- se (o mito, a tragédia, o sonho….)”.

Retomando o pensamento de Melucci, o autor conclui que a identidade não pode nem deve ser concebida como “unidade monolítica de um sujeito”, pois indica um sistema de relações e de representações. Se fosse atemporal, intemporal e deslocada da história, estaria mais próxima à ideologia.

O conceito de identização expressa um caráter processual, autorreflexivo e construído. Como identidade em si, ressalta a capacidade de reconhecermos os efeitos de nossas ações como nossas, seria a base da responsabilidade. Apesar dessa noção, Melucci reflete sobre a ilusória relação linear do tempo, a qual esconde os entrelaçamentos entre as diversas dimensões.

Para problematizar a questão da responsabilidade de si, um aforisma de Nietzsche se mostra adequado. Para o filósofo, a história dos sentimentos morais – em virtude dos quais nos tornamos alguém responsável por nossos atos – é a história de um erro, o erro da responsabilidade baseado no erro do livre-arbítrio.

Em sua descrição, primeiro chamamos as ações isoladas de boas ou más devido às consequências úteis ou prejudiciais. Logo, esquecemos a origem das ações e pensamos nessas qualidades como inerentes a elas. Em seguida, as introduzimos nos motivos e, depois, damos o predicado bom ou mau não mais ao motivo isolado, mas a todo o ser. “E afinal descobrimos que tampouco este pode ser responsável, na medida em que é inteiramente uma consequência necessária e se forma a partir dos elementos e influxos de coisas passadas e presentes: portanto, que não se pode tornar o homem responsável por nada, seja por seu ser, por seus motivos, por suas ações ou por seus efeitos”.

Sendo o livre-arbítrio uma utopia ou não, dentro das limitações impostas pelas ações no tempo e pelas condições socioculturais, parece haver um campo maleável onde algum nível de escolha se mostra possível. De qualquer forma, retomando o paradoxo de Melucci, as decisões urgentes tomadas instante a instante não gozam da completa autonomia associada a elas.

ARTE E ENVELHECIMENTO

Em Últimas Palavras, obra derradeira de Coutinho, o ambiente fala por si só. Na sala escolhida, a presença do velho documentarista estabelece um diálogo entre o próprio passado e o futuro dos adolescentes, em uma situação posta que remete ao espaço terapêutico. As várias histórias e seus tempos subjetivos adentram a cena estática alterando a temporalidade ali imposta – um espelho do próprio conceito de identidade proposto por Melucci.

E essa divagação não é à toa – a inspiração proporcionada por um filme, um texto ou uma tela pode levar a lugares inexplorados de si mesmo e a outras dimensões temporais. Para Deleuze e Guattari, a arte é a máquina desejante por excelência e “… as máquinas desejantes não param de se desarranjar enquanto funcionam, e só funcionam desarranjadas: o produzir se enxerta sempre no produto, e as peças da máquina são também o combustível. A arte utiliza frequentemente essa propriedade, criando verdadeiros fantasmas de grupo que curto-circuitam a produção social com uma produção desejante, e introduzem uma função de desarranjo na reprodução de máquinas técnicas, como os violinos queimados de Arman (Fernandez), os carros comprimidos de César (Baldaccini)”.

Tão rica quanto a arte – retratada por meio da fotografia em Permanência – pode ser a experiência do envelhecimento, do encontro com o limite. Entretanto, a leitura mediada da realidade própria das novas gerações diante do excesso de estímulos – rápidos demais para serem apreendidos e vividos como experiência – traz um outro quadro. Melucci afirma categoricamente que os novos sofrimentos e patologias dos jovens estão ligados ao risco de dissolução da perspectiva temporal. “Um tempo de muitas possibilidades transforma-se numa possibilidade sem tempo, isto é, em puro fantasma de duração”.

Se o desgaste, a exaustão e a indiferença podem ser consequências do excesso, uma saída está em perceber o novo fluxo de metamorfoses das linguagens e das relações. Diante delas, reflete o autor, é preciso mudar de forma, reverter decisões, participar e subtrair-se às mensagens, à chamada dos possíveis e às exigências dos afetos. “Na alternância de ruídos e silêncios, podemos aprender a salvaguardar um espaço interior que deve ser conservado, tanto na mutação das linguagens e dos interlocutores como na ausência de comunicação”, conclui.

CRISTINA TAVELIN – é jornalista, crítica de cinema e possui especialização em Psicologia Analítica com a tese ‘A sombra na contemporaneidade: o corpo como sombra da razão a partir da análise da personagem Joe nos filmes Ninfomaníaca Volumes I e II.

Email: cristina.tavelin@gmail.com

EU ACHO …

PARA UMA FRASE SOAR MELHOR

A editora dos livros de Bolso [Ediouro], que faz adaptações de romances para a leitura de adolescentes, distribui entre os adaptadores alguns exemplos do estilo por ela preferido. Na verdade a editora tem razão: as frases soam muito melhor. Vou dar exemplos que servirão para o estilo de qualquer pessoa que escreve, seja literatura ou não, cartas, relatórios etc.

Em vez de “uma vez consegui”, “certa vez consegui”. Não, o melhor modo de expor os exemplos é escrever a frase e, entre parênteses, anotá-la como ficaria melhor. Assim: “Uma vez consegui” (Certa vez consegui). “Prefiro morrer do que viver” (Prefiro morrer a viver). “Mas não havia árabes lá. Só havia um piquenique.” (Mas não havia árabes lá. Só um piquenique). “Pelo menos é o que eu desejo” (É o que desejo, pelo menos). “Quase pisei numa cobra bem grande” (Quase pisei sobre uma grande cobra). “Verifiquei que tudo dormia tranquilamente” (Verifiquei que tudo estava tranquilo). “Depois de comermos, deitamo-nos para fazer a sesta” (Depois de comer, deitamo-nos para a sesta).

“Quem o matou, uma vez que não foi você?” (Quem o matou, já que não foi você?). “Lembre-se, você disse que não vai contar” (Lembre-se, você prometeu não contar). “Tirei o meu chapéu” (Tirei o chapéu). “Ontem eu ia para a escola, quando aconteceu…” (Ontem, indo para a escola, aconteceu…). “Cansou-se de dizer para não fazer aquilo” (Cansou-se de recomendar que não fizesse aquilo). “Você disse que não podia haver nada pior do que…” (Você afirmou que não há nada pior do que…). “E que azar que deu?” (E deu azar?). “Arranjamos tudo isto e oito dólares por cima” (Arranjamos tudo isto e oito dólares ainda por cima). “Tomara que todos os dias acontecesse com a gente” (Tomara que todos os dias nos aconteça). “Custei a acreditar” (Custou-me acreditar). “Prefiro mais o cinema que o futebol” (Prefiro cinema a futebol). “Ele só falava a respeito das coisas que dão azar” (Ele só falava de coisas que dão azar). “Para que saber quando vai haver alguma coisa boa?” (Interessa saber quando vai acontecer algo bom?). “Um muro com três metros de altura” (Um muro de três metros). “Subimos o morro. No alto descobrimos…” (Subimos o morro. Lá em cima, descobrimos…) “Pegamos todo o nosso material” (Pegamos todas as nossas coisas) (referindo-se a roupas, mantimentos etc.). “Dentro em pouco, começou a trovejar” (pouco depois, começou a trovejar). “Ele era tal qual como o irmão” (Ele era tal qual o irmão). “Deram-lhe um tiro nas costas” (Deram-lhe um tiro pelas costas). “Tínhamos feito boa caçada, não havia dúvida” (Tínhamos feito boa caçada, sem dúvida). “João recuou para trás e feriu-se” (João recuou e feriu- se).

Acho que, como exemplos, bastam. Mas que não se torne mania esse tipo de correção. Senão, em vez de escrever, a pessoa ficará preocupada em exigir frase que soe melhor.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A BUSCA PELAS ORIGENS

Com redução do preço e ampliação da oferta, testes de ancestralidade e de DNA se popularizam no Brasil

Para entender o presente é preciso conhecer o passado. Reflexo do avanço tecnológico, a alta na procura por exames de DNA, que revelam a ancestralidade, dispara no Brasil. Com apenas uma gota de saliva, milhares de brasileiros podem mergulhar no passado. E, dessa forma, os especialistas conseguem ler o genoma dos pacientes — informação hereditária de um organismo — e traçar ligações genéticas.

O custo do procedimento varia entre R$ 199 e R$ 799, mas seu resultado é bastante preciso. Graças às parcerias com artigos científicos e bancos de dados públicos globais, é possível descobrir a porcentagem étnica e construir árvores genealógicas. Mayana Zatz, professora de genética da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que a tecnologia é tanta que alguns exames conseguem até alertar os pacientes dos riscos de doenças hereditárias. “Os testes são sofisticados e precisos”, diz.

Para Ricardo Di Lazzaro, médico e sócio- fundador da Genera, laboratório referência em testes de ancestralidade e de DNA, a busca por autoconhecimento é o que mais atrai os pacientes, pois muitas vezes só o DNA pode responder certas dúvidas. “A procura aumentou quase vinte vezes entre 2019 e 2020”, conta. “Eu imagino que um dia será feito no SUS”, reforça. O Brasil é um País extremamente miscigenado e, mesmo assim, algumas comunidades étnicas não tiveram referências de seu passado, como a população preta, afetada pelas mazelas da escravidão.

Embora a maioria da população seja negra, nas escolas pouco se aprende sobre a África e as famílias têm informações escassas sobre sua origem, o que ajuda a entender a importância dos exames. “Meu teste apontou 76% de ligação com a África, foi muito emocionante”, diz Xan Ravelli, criadora de conteúdo digital. “A gente cresce sem referência”, conta. Como muitos brasileiros, Xan cresceu com raras informações sobre seus antepassados, mas após o resultado do teste, vai mergulhar de vez na própria história. “Eu já quero fazer outro, só para saber das minhas etnias”, afirma.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 22 DE MAIO

SEM APOIO POPULAR É IMPOSSÍVEL GOVERNAR

Na multidão do povo, está a glória do rei, mas, na falta de povo, a ruína do príncipe (Provérbios 14.28).

Há diferentes regimes de governo, como a monarquia, o presidencialismo e o parlamentarismo. Mas nenhum deles funciona sem o apoio popular. A democracia se define como o governo do povo, pelo povo e para o povo. Sem o povo, o rei pode até ter a coroa, mas não tem o comando. É do povo que emana a legitimidade de um governo. Entendemos, à luz da Palavra de Deus, que o poder não vem do povo, mas de Deus. É Deus quem constitui e depõe reis. Mas Deus faz isso por intermédio do povo. Este não é a fonte do poder do governo, mas o instrumento usado por Deus para legitimar o poder do governo. Por isso, Salomão diz: Sem súditos, o príncipe está arruinado (Provérbios 14.28). A grandeza de um rei depende do número de pessoas que ele governa; sem elas, o rei não é nada. O governante sábio é aquele que governa para o povo, e não para si mesmo. É um servo, e não um explorador do povo. Trabalha para o bem do povo, e não para acumular glórias e riquezas para si mesmo. Essa mensagem é absolutamente oportuna e relevante em nossos dias, pois há uma crise de integridade galopante no mundo político. A roubalheira desavergonhada na vida pública acontece à luz do dia. Assistimos todos os dias, para nossa vergonha e tristeza, políticos avarentos saqueando inescrupulosamente os cofres públicos e aviltando, assim, tanto o povo como a Deus.

GESTÃO E CARREIRA

REI DO CHAPÉU

Com o sonho de se tornar um empreendedor de sucesso, ex- camelô dá a volta por cima, monta negócio próprio e já atinge a marca de um milhão de reais em vendas

Nascido em 1957, Wilson Catelã, desde os 11 anos, trabalhou como camelô no centro de São Paulo. No início vendia doces para ajudar a mãe em casa e, depois, migrou para a venda de frutas, com as quais trabalhou por mais de 20 anos, na Rua Boa Vista. Todo esse tempo como camelô e ajudando a mãe lhe ensinou desde cedo a administrar seu dinheiro e a cavar oportunidades no mercado.

Quando a venda de frutas não estava mais lhe trazendo renda, por exemplo, ele passou a comercializar óculos de sol, agora na Rua 25 de Março, em 1995. Quando este mercado, por sua vez, também sofreu uma grande queda, resolveu, novamente, mudar o rumo. “No fundo, como um fã de Charlie Chaplin, meu grande sonho sempre foi vender chapéus”, conta o empresário. Por isso, em 2002, montou uma barraca de chapéus e bonés.

Com essa barraca, ele percebeu sua vocação e o que realmente poderia trazer oportunidades mais promissoras no mercado como empreendedor. Resolveu economizar e, quando viu uma oportunidade, investiu em uma loja física, lá mesmo, na famosa 25 de Março. Com o nome de “Chapéus 25”, em 2004, foi então lançada a primeira loja especializada no produto em São Paulo.

Desde então, o empresário, hoje com 64 anos, comanda o negócio ao lado do filho, Wil Catelã Jr. Importando produtos do Equador e dos Estados Unidos, eles trazem em primeira mão as maiores novidades e variedades de chapéus.

Com vendas até então só físicas, em 2010 abriram o primeiro site da Chapéus 25, por iniciativa do filho, que estudou publicidade e fotografia. “A página servia como vitrine para clientes de fora de São Paulo, que podiam fechar a compra por telefone. Depois de um tempo, evoluiu para e-commerce para atender às novas praças e ampliar a visibilidade da marca”, conta Catelã.

As vendas então só aumentaram e em agosto deste ano a marca alcançou um milhão de reais em vendas on-line. Com uma equipe de 14 funcionários, atualmente eles vendem – no varejo ou no atacado – os chapéus e bonés tanto na loja física como pelo seu site, sendo que este é responsável por 40% das vendas mensais.

Os itens de revenda, nacionais ou importados, compõem 50% das vendas totais, enquanto a outra metade é encomendada de uma fábrica parceira. Um chapéu médio custa de R$40 a R$80, mas pode chegar a R$350 de acordo com a marca ou o material. ”A internet ajuda a compor o boca a boca na divulgação dos produtos, e também investimos em marketing on-line, nas redes sociais e em anúncios em ferramentas de busca”, afirma.

Depois de ter conquistado seu lugar no mercado, o maior foco e desafio de Catelã daqui para a frente é tornar o chapéu um acessório indispensável para a cultura brasileira.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS “BURCAS” MÍTICAS QUE VESTIMOS

Submissão, o livro polêmico do ano, conta uma história que se passa em 2022 em uma França islamizada: Mulheres se submetem ao patriarcado, aceitam a poligamia dos homens e perdem direitos humanos

Uma charge na revista Charlie Hebdo anunciava o romance Submissão como as previsões do mago Michel Houellebecq, um escritor francês ficcionista. No barulho midiático do lançamento desse livro, a redação da revista que trazia a caricatura do autor foi atacada por dois muçulmanos. Eles portavam armas automáticas e, no silêncio das mortes, ouviu-se um grito: “O profeta foi vingado”. Não se sabe se o livro teria uma relação direta com o ataque; ou se este resultou apenas dos desenhos satíricos, do profeta Maomé, que profanou o sagrado do mundo islâmico.

Em Submissão chega ao Bernard Bonabess, do partido poder da Irmandade Muçulmana, que faz coalisão com outros partidos na França. O homem ocidental adiposo e entupido de drogas de todos os tipos, sem uma vida organizada em rituais, não possui estrutura que lhe permita ter um modo de contemplar o sagrado dos mistérios da existência. Isso deixa um vazio que facilita a genialidade política de um muçulmano, Ben-Abbes, que faz acontecer a ascensão do Islã.

A Fraternidade Muçulmana, em lugar de colocar a economia no centro de tudo, aposta no aumento da taxa de reprodução e nos valores transmitidos por seus pais. O lema é: “Quem controla as crianças controla o futuro”. Os professores são todos muçulmanos. Separam as turmas por sexo a fim de aprenderem as leis do Alcorão. Aprendem que laços familiares entre pai e filho não têm base no amor e sim na transmissão de uma competência e de um patrimônio.

Como o Admirável Mundo Novo, de Huxley, Submissão traz fragmentos de verdades. Não foi escrito para dizer o que vai acontecer, mas o que as pessoas temem que aconteça: a submissão absoluta da mulher ao homem, e do homem a Deus – como é no Islã.

O mundo islâmico é orientado pelo mito, por isso se volta ao passado como quem procura uma perfeição primordial que foi perdida e se quer resgatá-la. É uma busca que anula o criativo. Criar é desobedecer e dirigir-se ao futuro traindo a tradição. Por outro lado, a cultura ocidental, como produto do logos, deixa de compreender a importância do papel dos mitos.

O mundo muçulmano veste as mulheres com uma burca concreta. Os ocidentais – homens e mulheres – constroem burcas que não são físicas, são míticas. Com essa burca mítica, habitamos um universo falso e estreito que nos impede de transitar na vastidão das profundezas do nosso mundo interior para nos adaptarmos a ele.

O mistério cósmico que chamamos de Deus, enquanto esses outros povos o chamam de Alá, necessita da consciência do ser humano para existir. C. G. Jung chamou de “Processo de Individuação” o caminho que deveremos trilhar em busca da totalidade do ser projetada nessa imagem de Deus. Ele abarca não só a perfeição como também a imperfeição. Esse “Processo de Individuação” depende do quanto aprendemos a sacrificar a vaidade e o orgulho para aprendermos com o outro que nos afeta. Nossos conteúdos inconscientes se revelam por meio de tudo que nos incomoda no outro. Surge assim a xenofobia e todas as outras situações que dizemos não suportar.

Enquanto os islâmicos não toleram o secularismo, a laicidade e o materialismo ateu, nós ocidentais falamos dos mistérios procurando dissolvê-los no caldo quente da lógica. A torre de Babel que construímos não nos permite escalar para compreender os mistérios sem deixar de falar uma língua diferente do outro. Afinal o mundo interior é tão singular quanto nossas impressões digitais. É nesse interior que habita nossa verdade na forma de mitos. Onde encontrar o sagrado para merecer nosso sacrifício?

Construímos líderes que quando desvestidos de suas “burcas” revelam que o seu sagrado é o capital. Jung afirmava que o que mais nos atrapalha ser religioso, para viver uma vida simbólica, são as próprias religiões. Religiões que traduzem os mistérios da existência de forma simplificada e conveniente, para erguer um altar e colocar um deus inimigo da totalidade, unilateral, um antideus.

Precisamos de um mito que dê conta de uma vida simbólica. Não precisamos provar a existência de um filho de Deus ou um profeta, mas nos permitirmos a orientação pela máxima de nos amarmos para poder conseguir amar o outro. E o mostrar-se sem a “burca”. Aceitar o outro também desvestido e abraçá-lo com seus odores agradáveis e desagradáveis. Esse é o sacrifício para uma humanidade melhor.

O livro de Houellebecq pode ser uma previsão como a de Cassandra. Na mitologia grega, Apolo, apaixonado por Cassandra, lhe confere o dom da profecia em troca do seu amor. Ela aceita o dom, mas se recusa a amá-lo. Furioso, o deus lhe cospe na boca e a amaldiçoa para que, mesmo com suas previsões corretas, nunca mais ninguém a compreenda ou nela acredite.

Dessa forma, enquanto o Islã olha para trás e vive um mito rígido e unilateral, de forma inconsciente vinga-se dos mongóis – que no século XIII destruíram sua cultura – a nos confundir, no Ocidente, com esses povos do seu passado, sem perceber que olhamos apenas para uma direção e vestimos “burcas” míticas que nos escondem de nós mesmos. Aqui experimentamos um mundo concreto de concreto e desvalorizamos o simbólico que não se transforma em capital.

CARLOS SÃO PAULO – é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia.

carlos@ijba.com.br / www.ijba.com.br

EU ACHO …

SÁBADO

Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço: sábado ao vento é a rosa da semana. Sábado de manhã é quintal, uma abelha esvoaça, e o vento: uma picada da abelha, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas. Nos quintais da infância no sábado é que as formigas subiam em fila pela pedra. Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia carne-seca e pirão: era sábado de tarde e nós já tínhamos tomado banho. Às duas horas da tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: e ao vento sábado era a rosa de nossa insípida semana. Se chovia, só eu sabia que era sábado: uma rosa molhada, não? No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana exausta vai morrer, ela com grande esforço metálico se abre em rosa: na Avenida Atlântica o carro freia de súbito com estridência e, de súbito, antes do vento espantado poder recomeçar, sinto que é sábado de tarde. Tem sido sábado mas já não é o mesmo. Então eu não digo nada, aparentemente submissa: mas na verdade já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã. Domingo de manhã também é a rosa da semana. Embora sábado seja muito mais. Nunca vou saber por quê.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O MILAGRE DA PELE DE TILÁPIA

Curativo biológico desenvolvido no Brasil vai ajudar no tratamento de pessoas queimadas no Líbano

A tilápia, também conhecida nos restaurantes como Saint Peter, é uma espécie de peixe que vive em água doce e representa uma parte importante na economia alimentícia do estado do Ceará. No processo de comercialização desse saboroso alimento, porém, a pele é descartada pelos produtores. Sabendo disso, em 2006, pesquisadores do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da Universidade Federal do Ceará, começaram a reaproveitar esse material orgânico para desenvolver um tipo de curativo biológico que tem eficácia comprovada por estudos realizados desde 2017 em pessoas que estavam em tratamento com queimaduras de segundo e terceiro grau.

Conforme o médico Edmar Maciel, coordenador do Projeto Pele de Tilápia, que desenvolveu o produto, as propriedades da pele são ideais para o tratamento de queimados. “A pele da tilápia adere à ferida, faz um tamponamento e evita a perda de líquido”, afirma. O especialista explica que o curativo natural pode antecipar a cicatrização de uma ferida em até dois dias. “Isso acontece porque na tilápia há colágeno tipo 1, muito semelhante ao do organismo humano”, pontua Maciel. Além dessas qualidades, o curativo biológico não precisa ser trocado diariamente, como se faz nos tratamentos convencionais. Essa especificidade ajuda a diminuir as dores locais, o desconforto do paciente e os custos do tratamento.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 21 DE MAIO

O TEMOR DO SENHOR É FONTE DE VIDA

O temor do Senhor é fonte de vida para evitar os laços da morte (Provérbios 14.27).

Um laço é uma armadilha invisível, imperceptível, porém real e mortífera. Um laço é uma espécie de arapuca que visa atrair a vítima com vantagens imediatas. É uma isca que oferece benefícios, mas esconde o anzol da morte. A vida está rodeada desses laços de morte. Há muitas luzes multicoloridas que apontam para o caminho do prazer, mas conduzem ao corredor da morte. É assim, por exemplo, com as aventuras sexuais. O rei Davi jamais poderia imaginar que uma aventura sexual com Bate-Seba lhe traria tantos transtornos. O pecado é um embuste. Promete todas as taças dos prazeres e paga com o desgosto. Promete liberdade sem limites e escraviza. Promete vida abundante e mata. O pecado o levará mais longe do que você gostaria de ir, o reterá por mais tempo do que você gostaria de ficar e lhe custará mais caro do que você gostaria de pagar. O temor do Senhor é que nos dá discernimento para não colocarmos nosso pé nesse laço. O temor do Senhor nos protege dessas armadilhas de morte. O temor do Senhor nos dá deleite para a alma e descanso para o coração. O caminho do pecado pode parecer empolgante e cheio de aventuras, mas é repleto de espinhos e conduz irremediavelmente à escravidão e à morte.

GESTÃO E CARREIRA

UM MERCADO QUE NUNCA PARA

Muito além de mais uma guloseima, o sorvete é a sobremesa mais popular no mundo. No Brasil, conquistou dois milhões de lares nos últimos 12 meses. Prático, gostoso e variado, pode ser o empreendimento certo para o seu perfil

Investir no setor de alimentação é quase sempre sinônimo de lucro certo. Se for no segmento de uma das sobremesas prediletas no mundo e nas mesas brasileiras, então, a aposta é mais certeira ainda. Estamos falando do sorvete, aquele doce que não pode faltar no congelador de boa parte das famílias brasileiras.

Ele é disparado o queridinho de todos e é consumido, sem preconceito, pelos brasileiros de todas as classes sociais. Sua fama é tão grande que ganhou um dia especial: no dia 23 de setembro comemora-se o Dia do Sorvete. Aliás, uma homenagem merecida, afinal o gelado está em 87% dos carrinhos brasileiros esse só tende a crescer.

Segundo estimativas da Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes (ABlS), o consumo de sorvetes no Brasil foi de 1,1 bilhão em 2019. O País é o 10° maior produtor mundial e o 11° maior consumidor, sendo o Nordeste a região com maior número de vendas. E, segundo um levantamento da Kantar, a delícia conquistou dois milhões de lares nos últimos 12 meses.

Neste ano, o mercado deve crescer mais 5%, prometendo ser uma boa fonte de investimento, especialmente para os pequenos e médios empreendedores. Existem vários cases de quem começou pequeno no setor e se tornou grande, como o Sorvete Rochinha. A questão é como entrar nesse setor, saber quais são os desafios e o que é necessário ter e fazer para ser bem-sucedido, sabendo ainda como driblar épocas sazonais em que sua renda sofre quedas, como o inverno. Os especialistas e personagens desta matéria contam como começaram e o que é necessário para ter sucesso no setor.

AQUECIMENTO

O mercado de sorvetes está tão aquecido que quem não entende muito do assunto, mas quer entrar para essa turma, pode buscar cursos, oficinas e até escolas. Existem bastantes opções na área educacional.

Para dar conta deste setor, o mestre sorveteiro Francisco Sant’Ana, por exemplo, revolveu criar uma escola, que tem sede própria em São Paulo desde 2018: a Escola Sorvete. Ele resolveu investir no público por acreditar que a sorveteria no Brasil está em constante renovação. “As pessoas estão em busca de produtos de qualidade, natural, sustentável e sem perder características de sorveteria brasileira.

Somos um país rico em frutas, então podemos usá-las em diversas formas para compor um sorvete”, relata.

Sant’Ana mostra várias tendências que podem ser exploradas pelos pequenos fabricantes, como os nichos regionais, e combinar o produto com cafeterias e docerias para driblar o inverno. “Pode não parecer, mas existem poucas e boas sorveterias, e quem chegar ao mercado com criatividade vai se destacar prontamente. Transformar a loja, fazer produtos mais leves e menos calóricos também é indispensável nessa nova realidade”, se anima

Para quem deseja entrar nesse mercado ou o pequeno fabricante que já tem um negócio e quer diversificar com o sorvete, é fundamental ele aprender a fazê-lo e dar lhe características segmentadas.

O setor é amplo e abre espaço para várias maneiras de trabalhar com o produto. O mestre explica que o pequeno fabricante pode partir para uma pequena indústria (distribuição de freezers em PDVs), ter uma loja física, trabalhar nos aplicativos, ou seja, existem várias possiblidades e maneiras de ganhar dinheiro com o sorvete. Mas é importante ter um bom plano de comunicação e um produto inovador e saboroso. “Você pode começar um negócio com pouquíssimo recurso. Costumo dizer que mil reais ou até um milhão pode ser muito ou pouco. Tudo depende de um bom planejamento e foco”, indica.

MARKETINGSABOROSO

Em termos de estratégia de divulgação neste segmento, existem várias maneiras de divulgar o produto e uma delas é investir no marketing da experiência. O pequeno fabricante pode explorar bem esse tipo de divulgação, cujo foco é despertar a percepção do consumidor usando as sensações.

A coordenadora do curso de especialização e gestão de marketing da Escola Politécnica da   Universidade Federal do Rio de Janeiro, Maria Alice Ferruccio da Rocha, indica: “Uma micro ­ empresa de sorvetes pode levar uma cozinha experimental e proporcionar uma oficina de sorvetes para crianças e adultos. Ao final, todos podem comer o que foi feito usando uma das receitas da empresa. Para cada tipo de produto (bens ou serviços) podemos ter estratégias diferentes. Não esquecer de fazer a famosa pesquisa de reação ao final da experiência”, ensina.

PRIORIZE A QUALIDADE

Além de uma divulgação personalizada e bem pensada, é necessário dar atenção também à qualidade. Quem trabalha com alimentos precisa ser rigoroso nesse tema.

A principal atenção que o pequeno fabricante deve ter é com relação à produção do sorvete. Isso vai desde comprar bons ingredientes, conhecer técnicas de produção até ter maquinário especial. “A embalagem e a logística de frio, por exemplo, são aspectos críticos para a manutenção da qualidade obtida na fábrica”, lembra a analista de Alimentos e Bebidas da Unidade de Competitividade do Sebrae, Mayra Monteiro Viana.

Esses detalhes fazem a diferença na hora de vender o produto. Fora isso, é importante fazer um planejamento do negócio, definindo o seu modelo, a localização e qual o perfil do cliente que se pretende atingir. Esses elementos devem estar vinculados ao posicionamento da marca.

Quando se trata de alimentos, todo cuidado é pouco, por isso o empreendedor deve estar atento, também, às regulamentações, incluindo as boas práticas de fabricação e os normativos específicos do ramo de alimentos.

VOU DE FRANQUIA?

Muitos empreendedores ficam em dúvida se abrem um negócio próprio na área de sorvetes ou optam pelas franquias já existentes no mercado. Especialmente neste setor, elas são inúmeras. Os especialistas se dividem sobre o assunto, e por esse motivo preferem enumerar algumas vantagens e desvantagens.

Francisco Sant’Ana, por exemplo, já ouviu algumas reclamações de quem investiu em franquia de sorvetes. Ele conta que, entre os principais problemas está o de repassar produtos que podem ser feitos em casa, com preços mais competitivos.

Já Mayra indica algumas vantagens, entre elas a de que o franqueado conta com uma marca reconhecida pelo mercado e que representa credibilidade. ”Além disso, o franqueado recebe um plano de negócios e caminhos claros para a avaliação do custo e retorno esperados. Outra vantagem é receber os produtos e processos já padronizados, o que facilita a operação. Por outro lado, essa mesma padronização resulta em uma menor flexibilidade do negócio, bem como limitações acerca da localização onde ele poderá ser instalado, por exemplo”, lembra a analista do Sebrae.

Sendo franquia ou não, o lucro só será bom se o empreendedor tiver claros os custos na ponta do lápis e se posicionar no mercado de maneira estratégica. “Também é importante buscar formas criativas de reduzir a sazonalidade do produto, já que em alguns meses o consumo de sorvete cai consideravelmente”, lembra Mayra.

Um meio de se diferenciar no mercado é estudar seus concorrentes e conhecer os modelos de negócios que estão fazendo sucesso em outros países. Além disso, é fundamental ter um plano de negócios bem estruturado, para que a empresa saiba exatamente aonde quer chegar.

DICAS PARA QUEM QUER INVESTIR NO RAMO DE SORVETES

1. Todo negócio começa com uma boa ideia.

2. Analise as carências do público que deseja alcançar.

3. Às vezes a solução está no produto, às vezes na forma como é vendido.

4. Para quem deseja investir em franquias, avalie se na sua região há abertura para esse modelo.

FONTE: Francisco Sant’Ana, da Escola Sorvete.

PERFIL DE CONSUMO BRASILEIRO

De acordo com o levantamento da Kantar, com tantas opções de sabores e formatos no mercado, a embalagem de 1,5L é a que mais se destaca e teve uma performance ainda mais positiva do que a média: ganhou penetração em 3,8 milhões de novas famílias no período de agosto de 2018 a agosto de 2019. Entre os sabores, o brasileiro é um consumidor tradicional, sendo o napolitano o preferido. A combinação de chocolate, creme e morango é a escolha de 27,9% dos lares. Em seguida, o ranking fica completo com flocos, creme e chocolate, nessa ordem.

Entre os shoppers nacionais, a sobremesa tem espaço em 53% das famílias com mais de três pessoas, é comprada por 40% dos consumidores com mais de 50 anos e está presente no carrinho de 87% das classes A, B, e C. A região Grande Rio de Janeiro é a que mais compra sorvete para consumo dentro do lar (63.6% de penetração). seguida pela Grande São Paulo (62,1%) e região Sul (54,8%). Na hora de encher o carrinho, os supermercados de rede e atacarejos foram os canais de destaques e registraram crescimento positivo no período.

Como era de se esperar, dezembro e janeiro, meses de férias e verão, são as épocas de maior consumo. E, mesmo nesses períodos, 2020 teve destaque favorável em relação aos anos anteriores.

O sorvete foi eleito principalmente para consumo no jantar e após o jantar entre os paulistanos, que consomem sorvete semanalmente e, em média, duas vezes por semana.

DICAS PARA TER SUCESSO NO RAMO:

1. Faça um bom plano de negócios.

2. Muita atenção aos ingredientes do seu sorvete.

3. Explore o alcance das mídias sociais.

4. Analise o que os aplicativos de entrega têm a oferecer.

FONTE: Francisco Sant’Ana da Escola Sorvete.

  • está no produto, às vezes na forma como é vendido.

.Para quem deseja investir em franquias,avalie se na sua região há abertura para esse modelo.

FONTE: Francisco Sant’Ana da Escola Sorvete

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A AMEAÇA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

O desenvolvimento tecnológico levará a enorme crescimento na capacidade computacional, e a inteligência artificial deve em algum momento futuro superar a humana, podendo se replicar e aperfeiçoar por conta própria

Cientistas como Stephen Hawking, e expoentes da tecnologia como Bill Gates e Elon Musk, têm alertado recentemente que o desenvolvimento tecnológico está tão acelerado que em breve os sistemas de inteligência artificial vão superar a capacidade do cérebro humano, e um cenário perturbador de uma distopia futurista pode emergir se esses seres robóticos inteligentes aprenderem a se reproduzir e a perfeiçoar por si mesmos, passando a controlar a sociedade. Essa ideia parece engraçada para alguns, mera ficção científica, algo que aparece nos filmes apenas e muito distante da realidade. Certamente, é um cenário fantasioso à primeira vista, mas, considerando que esse alerta vem de grandes pensadores, vale examinar mais de perto. Gordon Moore, um dos inventores dos circuitos integrados, ainda na década de 1970 enunciou o que é conhecido hoje como “lei de Moore”. Segundo a lei de Moore, a capacidade de processamento dobra a cada 18 meses, o que garante um desenvolvimento exponencial. Isso significa, segundo os cálculos do inventor norte-americano Ray Kurzweil, que em trinta anos a capacidade será superior à humana. Máquinas inteligentes podem construir outras máquinas mais inteligentes a inda, em um processo de evolução artificial extremamente acelerado. Em 2050, um computador custando mil dólares terá uma capacidade um milhão por cento superior ao mais potente atual. Mesmo essa previsão já foi ultrapassada, pois atualmente o espaço de tempo para dobrar a potência computacional encolheu para 13 meses apenas.

Um aspecto que torna a situação complicada, mas que em geral não conseguimos entender claramente, refere-se ao fato de estarmos lidando com sistemas de inteligência artificial, algo inteiramente novo na história da humanidade. Estamos acostumados com computadores que são programados, e a hipótese de que uma máquina possa realmente pensar por si própria não é nada fácil de assimilar. Ainda mais pela razão de o tipo de “pensamento” de um sistema de inteligência artificial ser tremendamente diferente de qualquer coisa que possamos imaginar. Os especialistas afirmam que a “mente” de um computador com inteligência artificial é muito bizarra e estranha pelos padrões humanos. Um insight sobre a estranheza do pensamento artificial pode ser provocado quando se assiste a um “sonho” de uma máquina como o Deep Blue, computador da IBM. As imagens do “sonho” do Deep Blue foram liberadas recentemente na internet, e na interpretação de alguns experts podemos fazer urna comparação com estados psicóticos, pois as imagens sugerem alucinações. É um a séria possibilidade imaginar uma mente artificial desenvolvendo psicose, por incrível que pareça. Mesmo sem conceber uma doença mental em sistemas inteligentes, a ameaça mais significativa está relacionada à própria superioridade da inteligência. Seres cibernéticos super inteligentes podem chegar à conclusão de que os seres humanos são imperfeitos, e que colocam em risco a vida no planeta, e, portanto, devem ser eliminados em prol de uma evolução que caminhará agora de forma artificial, com máquinas projetando máquinas mais evoluídas em cada geração. O fim cio Homo Sapiens e a ascensão do Robô Sapiens… Um cenário sombrio, pelo menos para nós, seres humanos.

Esses alertas e reflexões podem parecer fantasiosos, mas de fato refletem tendências que têm razoável probabilidade de efetivar-se. Precisamos de uma nova ética que nos ajude a construir o futuro que desejamos, e esses riscos potenciais devem servir de balizamento para a implementação de mecanismos que possam evitar os desdobramentos sombrios da inteligência artificial. Um dos maiores filósofos do Brasil, João de Fernandes Teixeira, lançou recentemente o livro O Cérebro e o Robô: Inteligência Artificial, Biotecnologia e a Nova Ética, precisamente abordando esse tema, de forma brilhante.

Como neurocientista, tenho uma sugestão que pode ser útil nas pesquisas a respeito desse tema: da mesma forma que uma mente humana pode usar sua inteligência para o mal, um sistema com inteligência artificial pode se voltar para o extermínio da humanidade se não tiver… empatia. A empatia em uma inteligência artificial levará à compaixão e zelo pela espécie humana, afinal somos os “deuses fundadores” da nova sociedade que emergirá quando as máquinas pensarem e resolverem problemas como as doenças e a escassez. Da mesma forma que a empatia nos seres humanos permite que consideremos a perspectiva dos outros para agir de forma cuidadosa, uma inteligência artificial também pode desenvolver preocupação com nosso bem-estar se estiver equipada com mecanismos de empatia. Ampliar as capacidades tecnológicas de sistemas que não têm empatia com a humanidade pode ser perigoso. Uma mente superinteligente tem que ser compassiva e generosa, ou estaremos em risco. É fundamental que os avanços técnicos sejam acompanhados de desenvolvimentos na ética, o que permitirá que a humanidade possa lidar com os desafios de sua própria escalada civilizatória.

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências revolucionaram o modelo do processamento mental (Artmed, 2011)

EU ACHO …

MEDO DA ETERNIDADE

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

– Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.

– Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.

– Não acaba nunca, e pronto.

Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual eu já começara a me dar conta.

Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

– E agora que é que eu faço? – perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.

– Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

– Acabou-se o docinho. E agora?

– Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

– Olha só o que me aconteceu! – disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

– Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

TOMBO NA OSTENTAÇÃO

A pandemia faz desabarem as vendas no mercado de luxo e prenuncia mudanças na retomada: crescem o comércio on-line e as compras de segunda mão

O glamour do mercado de luxo não anda o mesmo desde o início da pandemia. Há cerca de um mês, a dona da Louis Vuitton indicou, segundo o relato de fontes ao Wall Street Journal, que US$ 16,2 bilhões poderia ser um preço alto demais para pagar pelos brilhantes da Tiffany, os mesmos que encantaram Audrey Hepburn no clássico Bonequinha de luxo. A aquisição da joalheria, a maior já anunciada pelo conglomerado LVMH, deverá ser concluída ainda neste ano, apesar da suspeita de que uma palavra quase banida desse mercado possa ter sido ao menos sussurrada ao longo da negociação: desconto.

Nesta semana, nem mesmo a precisão dos relógios suíços passou incólume. Pela primeira vez em seus 37 anos de história, o Grupo Swatch, dono de marcas como Tissot, Longines e Omega, declarou prejuízo de 308 milhões de francos suíços nos primeiros seis meses do ano. A empresa reconheceu o impacto da Covid-19 sobre seus negócios lembrando que, em alguns momentos, 80% das lojas que vendem seus produtos estavam fechadas, restando apenas o canal de vendas on-line.

Um levantamento global da consultoria Boston Consulting Group acusa o golpe. As vendas no setor de luxo caíram 75% entre março e maio. A consultoria projeta uma contração anual de até 45% nas vendas de artigos como joias e relógios caros. Já as chamadas “experiências de luxo”, que incluem viagens a destinos exóticos, idas a restaurantes premiados ou mesmo itens de decoração de alto padrão deverão cair de 40% a 60% neste ano, na comparação com 2019, segundo projeção da consultoria italiana Alfagamma, especializada em luxo, em parceria com o BCG. O tombo já era esperado em um setor com dependência cada vez maior dos compradores asiáticos. No ano passado, os chineses foram responsáveis por 35% do mercado como um todo. O setor é também diretamente afetado pelas restrições de viagens e pela queda do turismo.

Para mitigar o impacto da crise e preparar uma retomada, o setor foi obrigado a enfrentar uma “repaginada no visual”. O marketing tradicional da execução artesanal de produtos, do atendimento exclusivo e particular agora divide espaço com o investimento em vendas on-line, maior uso de redes sociais e até do popular WhatsApp para fechar uma compra.

Segundo o consultor Carlos Ferreirinha, presidente e fundador da MCF Consultoria, especializada no segmento de luxo, marcas como Louis Vuitton, Cartier, Fendi e Dolce & Gabbana foram algumas das que passaram a usar o WhatsApp para falar com seus clientes durante a crise do coronavírus. O modelo, contudo, tende a funcionar para a carteira de clientes existente, que já se relaciona com a marca – e não como ferramenta para atrair novos consumidores. “Esse contato via WhatsApp é geralmente com um vendedor que o cliente já conhecia. Ou seja, tem nome e sobrenome”, resumiu. Ferreirinha também credita à pandemia a transformação digital de diversas grifes de luxo mundo afora. “Essas marcas sempre tiveram resistência ao mundo digital O coronavírus vai ser algo como o antes e o depois para esse mercado. As grifes já entenderam que, em breve, 100% das tomadas de decisão vão ocorrer on-line”, afirmou. Ainda que a demanda de uma parcela dos consumidores tenha sido represada durante a pandemia, isso não significa que, com a reabertura, haja um efeito de euforia nas compras do segmento. No Brasil, a expectativa é que a retomada do setor exija um esforço adicional. O pessimismo do consumidor de luxo brasileiro está acima da média global. Segundo pesquisa da Alfagamma feita com 12 milpessoas em dez países sobre o futuro desse mercado, 67% dos brasileiros disseram que dificilmente seguirão gastando como faziam antes da pandemia. É uma taxa acima do padrão em países também duramente afetados pela crise sanitária, como Estados Unidos (51%), Itália (53%) e França (47%). “A situação arrastada da pandemia no Brasil vai afetar em particular a experiência de consumo do mercado de luxo, que pressupõe um relacionamento próximo entre cliente e vendedor”, disse Flavia Gemignani, diretora do BCG e especialista em moda e varejo.

Flavia avalia que, no Brasil, um efeito possível da pandemia aliada à falta de dinheiro será o aumento da demanda por artigos de luxo de segunda mão. No ano passado, segundo a BCG, 69% das consumidoras brasileiras de vestuário de luxo estavam interessadas em comprar itens de segunda mão em lojas virtuais cada vez mais populares, como Etiqueta Única e Troe. A média global nesse quesito é de 62%.

Exemplo do aquecimento desse nicho durante a pandemia é o Projeto Ovo, criado pela designer de joias Ana Khouri, brasileira que vive em Nova York e produz algumas das peças mais cobiçadas dos tapetes vermelhos. Por meio de uma conta no Instagram, o projeto conecta pessoas interessadas em doar artigos de luxo para uma boa causa àquelas que desejam comprar peças em segunda mão. Todo o dinheiro arrecadado com as vendas é transferido diretamente do comprador para instituições de auxílio social que passam por dificuldades em razão da pandemia. Antes com um fluxo incipiente, só entre o final de março e julho deste ano a iniciativa arrecadou RS 1 milhão com a venda de artigos de luxo usados, com o valor integral repassado a cerca de 40 instituições. “Há uma grande demanda por reúso e mais sustentabilidade. E, desde que a pandemia começou, sentimos que precisávamos comover um grupo maior de doadores para fazer com que as vendas girassem mais rápido e ajudassem mais pessoas”, explicou a designer.

Outra aposta são as vendas por marketplaces – espécies de shopping centers virtuais – abertos nos últimos anos em centros comerciais de alto padrão no país, como o 365, do Iguatemi, e o CJ Fashion, do Cidade Jardim. Especialistas também apontam que a pandemia poderá finalmente abrir espaço para o crescimento de marcas independentes ou ao menos para uma disputa mais equilibrada. Segundo a Forbes, marcas que não são consideradas a número um em seu segmento têm obtido êxito na aproximação com o cliente por meio da parceria com varejistas on-line, maior presença em redes sociais e criação de aplicativos.

Mas até quando vai a penúria no merca­ do de luxo? Nas contas da consultoria Bain & Company, que também acompanha esse setor, o patamar de vendas do ano passado não deverá se repetir mundo afora até, pelo menos, 2023. A retomada será puxada basicamente pelo aumento do consumo de artigos de luxo na China, primeiro epicentro da Covid-19. Ao mesmo tempo, a Bain projeta mais vendas on-line. Em 2025, perto de um terço do faturamento do mercado de luxo deverá vir de lojas on-line – hoje, a fatia mal chega aos dois dígitos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 20 DE MAIO

UM CASTELO SEGURO PARA A FAMÍLIA

No temor do Senhor, tem o homem forte amparo, e isso é refúgio para os seus filhos (Provérbios 14.26).

O temor do Senhor não é fobia de Deus, mas reverência santa. O temor do Senhor não nos leva a fugir de Deus, mas a correr para Deus. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. É por meio dele que nos afastamos do mal e nos apegamos ao bem. Quando tememos a Deus, nossas palavras e ações são governadas pela santidade. Quando tememos a Deus, mantemos integridade nos relacionamentos, mesmo estando longe dos holofotes. No temor do Senhor encontramos um forte amparo, um firme apoio, uma fortaleza segura, uma confiança inabalável. Esse castelo seguro não é apenas para nós, mas também e sobretudo para nossa família. Quando um homem teme a Deus, está com isso protegendo seus próprios filhos. O temor do Senhor livra a família de tragédias. O temor do Senhor afasta nossos filhos de pessoas nocivas, de conselhos perversos, de ambientes perigosos, de circunstâncias tentadoras e de caminhos sinuosos. O temor do Senhor não é apenas refúgio para nós, mas também para os nossos filhos. A melhor proteção que podemos dar para a nossa família é andarmos no temor do Senhor. A melhor segurança que nossos filhos podem ter é viverem no temor do Senhor. As aventuras do pecado podem propiciar um prazer momentâneo, mas o temor do Senhor oferece uma segurança permanente.

GESTÃO E CARREIRA

NA MAIS PERFEITA HARMONIA

Conheça redes que permitem ao franqueado conciliar a operação com alguma outra atividade. Já pensou em ser funcionário de uma empresa e franqueado de outra ao mesmo tempo? Com disciplina e organização, isso pode ser possível. E lucrativo também!

Você já deve ter ouvido algumas dezenas de vezes que “o olho do dono é que engorda o gado”, não? Pois é, dependendo do tipo do negócio isso é muito real. Tão real que o empreendedor precisa abrir mão de uma série de coisas para se dedicar integralmente ao negócio.

Mas nem sempre essa “entrega” precisa ser integral. Há quem busque um complemento de renda e tenha se interessado por franquias que permitam ao franqueado ter uma atividade principal. É possível, sim, ter um emprego de carteira assinada, por exemplo, e empreender. Tudo ao mesmo tempo, na mais perfeita harmonia.

TODA ATENÇÃO

Nesses casos é preciso analisar duas dimensões: do franqueador, ou seja, a rede escolhida, e do franqueado, que é o empreendedor. “É importante ficar atento às exigências contratuais estabelecidas na circular de oferta, bem como ao planejamento apresentado para verificar se o tempo de retorno e o valor é o esperado”, afirma a especialista do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e coordenadora Nacional de Franquias, Hannah Salmen, que complementa: “No que diz respeito ao empreendedor, é preciso estar atento à decisão, à atividade escolhida, à gestão do tempo e fazer uma autoanálise sobre que competências é necessário desenvolver para gerir esse negócio”.

SEM FORTUNAS

Só que isso não quer dizer que você fará fortunas. Não se iluda. ”O franqueado que decidir ir pelo caminho de não se dedicar exclusiva mente ao negócio deve ter em mente que os ganhos serão mais difíceis. Geralmente, a renda extra gerada é pequena. Então, quem escolher algo nessa linha deve saber disso”, opina o diretor da Global Franchise Consulting, Paulo Cesar Mauro.

O especialista diz que franquias que prometem lucros altos com quase nada de esforço não estão sendo verdadeiras com os candidatos. Por isso, alerta que é preciso fazer uma boa triagem das marcas antes de assinar um contrato. “Há muita promessa furada no franchising, gerando um índice de frustração significativo. Por outro lado, há negócios de extremo sucesso, que entregam aquilo que prometem e geram satisfação.

A dica pode parecer batida, mas é a mais fundamental: fale sempre com mais de três franqueados de determinada rede. Você é quem deve escolher com quem vai falar, sem interferência do franqueador. Só assim poderá sentir se o negócio funciona na prática como no discurso.

TECNOLOGIA AJUDA

Na rede de franquias TSvalle, o modelo de negócio ajuda o franqueado que quer ter a franquia de seguros como segunda fonte. Atualmente, 30% dos 29 franqueados estão nessa condição e conciliam a franquia com cargos como gestores de RH, consultores financeiros, donos de imobiliárias e administradores de empresas. “Isso se dá devido à área administrativa e operacional que concedemos aos franqueados, que realizam cotação de seguros, transmissão de propostas, agendamento de vistorias, confecção de 2ª via de boletos e regulação de sinistros”, explica o CEO da TSvalle, Bruno Bronetta.

O modelo tem atraído interessados, visto que possui baixo investimento inicial. Caso a pessoa já tenha equipamentos básicos como computador e celular, ele só terá que investir na taxa de franquia, que, atualmente, está em R$8,9 mil. O faturamento de uma unidade da rede gira entre R$8 mil e R$25mil.

O executivo recomenda que o franqueado saiba conciliar o tempo, por mais que a franquia de seguros, em alguns casos, seja o complemento de valores no orçamento. É preciso dedicar atenção no momento da prospecção e apresentar a proposta ao cliente. “Esses franqueados trabalham exclusivamente seu networking, e se ele não fizer um bom trabalho na parte do seguro ou no seu trabalho, corre o risco de perder o cliente nas duas pontas, tanto no trabalho como na franquia”, diz.

Na rede, existem casos de franqueados que “terceirizam a responsabilidade” para pessoas de confiança, como parentes. Quando o franqueado opta por colocar um funcionário, o suporte operacional e administrativo da franqueadora é estendido a esse funcionário, que tem acesso aos treinamentos de produtos de seguros, consórcios e planos de saúde.

EM ALERTA

Mesmo que a operação permita que o franqueado indique uma pessoa de confiança para operar, é preciso ter em mente que os modelos home office ou home based foram criados, justamente, para contar com uma estrutura mais enxuta. “Ter um funcionário vai fazer o franqueado dividir a fatia do bolo com outra pessoa. O mais indicado é que a franquia home based seja operada pelo franqueado, mas tudo depende do segmento”, explica o executivo da Global Franchise Consulting, Paulo Cesar Mauro.

QUANDO PUDER E ONDE ESTIVER

Entre os franqueados da rede Trust Intercâmbio Cultural e Turismo, a maioria tem outra atividade além da franquia. São professores de inglês, consultores e pessoas que trabalham em multinacionais. Perfis variados, mas que têm um objetivo: lucrar com uma operação de baixa complexidade.

O franqueado pode acessar os treinamentos que ficam em um portal da Trust, fazer os orçamentos e acessar os portais dos fornecedores a qualquer hora do dia. Então, ele pode responder e atender aos clientes depois do trabalho, no horário do almoço e aos finais de semana.

A diretora da Trust, Mariana Cardoso, afirma que o franqueado, por mais que tenha outra atividade, deve separar um tempo diariamente para assistir aos treinamentos. “Toda semana temos material novo em nosso portal de treinamentos, que se chama Trust University. Além disso, oriento que faça um bom trabalho de divulgação nas redes sociais e na própria rede de contatos e que responda aos clientes com agilidade nos horários livres”, pontua a executiva.

A marca tem dois modelos de operação, e o home office é o que mais se encaixa para quem busca algo sem dedicação exclusiva. Para trabalhar apenas com produtos ligados ao turismo, a taxa de franquia é de R$3,5 mil. Já para quem quer agregar opções de intercâmbio cultural, a taxa sobe para R$3,9 mil. A rede tem, hoje, 32 unidades, sendo que 29 estão nas mãos de franqueados que acreditaram no negócio. As operações estão espalhadas por vários estados: São Paulo, Pará, Minas Gerais, Santa Catarina, Pernambuco, Rio de Janeiro, Alagoas, Piauí, além de unidades internacionais na Irlanda, Canadá e Austrália.

FOCO NA SAÚDE

A rede de clinicas de psiquiatria eCare acaba de entrar para o mundo do franchising. Ainda não tem unidades franqueadas em operação, mas o aprendizado com as oito unidades próprias serve de base para perceber que é possível, sim, conciliar o trabalho com outras atividades, mesmo se tratando de profissionais que fazem atendimento mais específico: psicólogos e psiquiatras.

O franqueado pode optar por manter atendimentos médicos em outros endereços enquanto a agenda da clínica cresce. “Conseguimos, onde já exista uma unidade madura eCare, que ele trabalhe nessa unidade e vá transferindo seu horário para uma nova unidade. E mesmo tendo lotação máxima de agendas, como o sistema de gestão já é bem maduro, pode optar por ter outros colegas atendendo em sua clínica”, conta o sócio da rede, Paulo Vaz.

O executivo diz apenas que é importante que o franqueado, mesmo não estando presente 100% do tempo na clínica, acompanhe a ocupação das salas tanto com oferta de médicos quanto com produtividade de consultas. “A franqueadora lhe dá suporte com diversos relatórios de acompanhamento no formato dash boards em plataforma de BJ – Business inteligence”, revela.

EMPREENDER E TRABALHAR

LUCROS REDUZIDOS: ao apostar em uma franquia que tenha tempo dividido com outra atividade profissional, saiba que os ganhos serão menores. Operações mais simples que permitam flexibilidade de horário, em sua maioria, são de modelo home office.

DIVIDINDO A FATIA: Caso opte por ter algum funcionário, lembre-se de que uma das principais características desse tipo de franquia é o baixo custo e a redução de despesas. Neste sentido, é importante projetar qual valor médio você busca e quanto será o seu custo com este funcionário.

CONCILIAR E NÃO DESPREZAR: é preciso ter em mente que a operação de uma franquia em paralelo ao seu trabalho principal também deverá ter dedicação. Não se iluda achando que vai fazer apenas nas horas vagas (isso se elas existirem). Na verdade, você vai precisar organizar sua agenda para reservar um tempo para empreender.

eCARE

• Fundação: 1999

• Início no franchising: 2019

• Número de unidades: 8

• Investimento inicial: a partir de R$104 mil

• Taxa de franquia: R$100 mil

• Capital de giro: a partir de R$109 mil

Royalties: 6% do faturamento mensal

•Taxa de publicidade: 2% do faturamento mensal

• Faturamento bruto da unidade: a partir de R$150 mil

• Lucro líquido da unidade: R$22 mil

• Prazo de retorno do investimento: 2,7 anos

• Contatos para interessados na franquia: www.grupolatinoamericano.com.br/franquia/franquia-e-care e comercial@grupolatinoamericano.com.br

TRUST INTERCÂMBIO E TURISMO

• Fundação: 2009

• Início no franchising: 2016

• Número de unidades: 32

• Investimento inicial: a partir de R$3,5 mil

• Taxa de franquia: a partir de R$3,5 mil

• Capital de giro: não exige

Royalties: não cobra

• Taxa de publicidade: R$10 7,54/ mês

• Faturamento bruto da unidade: R$50 mil

• Lucro líquido da unidade: R$5mil

• Prazo de retorno do investimento: de 2 a 18 meses

• Contato para interessados na franquia: http://www.trustintercambio. com.br

TSVALE

• Fundação: 2003

•  Início no franchising: 2017   

•  Número de unidades próprias: 30  

•  Investimento inicial:  aproximadamente R$3 mil  

•  Taxa de franquia: R$8,9 mil  

•  Capital de giro: não necessita

•  Royalties: 25% sobre comissão das vendas

• Taxa de publicidade: R$400,00

• Faturamento bruto da unidade: de R$8 mil a R$25 mil  

•  Lucro líquido da unidade: média de R$8 mil  

•  Prazo de retorno do investimento:  de 6 a 12 meses

•  Contatos para interessados na franquia: http://www.grupotsvalle.eom.br/ franquias e bruno@ tsvalleseguros.com.br

EU ACHO …

LEMBRANÇA DA FEITURA DE UM ROMANCE

Não me lembro mais onde foi o começo, sei que não comecei pelo começo: foi por assim dizer escrito todo ao mesmo tempo. Tudo estava ali, ou parecia estar, como no espaço temporal de um piano aberto, nas teclas simultâneas do piano.

Escrevi procurando com muita atenção o que se estava organizando em mim, e que só depois da quinta paciente cópia é que passei a perceber. Passei a entender melhor a coisa que queria ser dita.

Meu receio era de que, por impaciência com a lentidão que tenho em me compreender, eu estivesse apressando antes da hora um sentido. Tinha a impressão, ou melhor, certeza de que, mais tempo eu me desse, e a história diria sem convulsão o que ela precisava dizer.

Cada vez acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor.

O livro foi se levantando por assim dizer ao mesmo tempo, emergindo mais aqui do que ali, ou de repente mais ali do que aqui: eu interrompia uma frase no capítulo 10, digamos, para escrever o que era o capítulo dois, por sua vez interrompido durante meses porque escrevia o capítulo 18. Esta paciência eu tive: a de suportar, sem nem ao menos o consolo de uma promessa de realização, o grande incômodo da desordem. Mas também é verdade que a ordem constrange.

Como sempre, a dificuldade maior era a da espera. (Estou sentindo uma coisa estranha, diria a mulher para o médico. É que a senhora vai ter um filho. E eu que pensava que estava morrendo, responderia a mulher.) A alma deformada, crescendo, se avolumando, sem nem ao menos se saber que aquilo é espera de algo que se forma e que virá à luz.

Além da espera difícil, a paciência de recompor por escrito paulatinamente a visão inicial que foi instantânea. Recuperar a visão é muito difícil.

E como se isso não bastasse, infelizmente não sei redigir, não consigo relatar uma ideia, não sei “vestir uma ideia com palavras”. O que escrevo não se refere ao passado de um pensamento, mas é o pensamento presente: o que vem à tona já vem com suas palavras adequadas e insubstituíveis, ou não existe.

Ao escrevê-lo, de novo a certeza só aparentemente paradoxal de que o que atrapalha ao escrever é ter de usar palavras. É incômodo. É como se eu quisesse uma comunicação mais direta, uma compreensão muda como acontece às vezes entre pessoas. Se eu pudesse escrever por intermédio de desenhar na madeira ou de alisar uma cabeça de menino ou de passear pelo campo, jamais teria entrado pelo caminho da palavra. Faria o que tanta gente que não escreve faz, e exatamente com a mesma alegria e o mesmo tormento de quem escreve, e com as mesmas profundas decepções inconsoláveis: viveria, não usaria palavras. O que pode vir a ser a minha solução. Se for, bem-vinda.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O MILAGRE DA “RESSURREIÇÃO”

Pesquisadores japoneses trazem de volta à vida microrganismos adormecidos há 100 milhões de anos e aguçam a esperança da ciência em reviver espécies extintas

A saga Jurassic Park se tornou um dos grandes sucessos da história do cinema e da literatura com uma premissa extraordinária: a possibilidade de trazer de volta à vida espécies extintas. Por mais que isso ainda pareça obra da ficção, cientistas japoneses chegaram muito perto de alcançar o feito. Eles “ressuscitaram” microrganismos de 100 milhões de anos capturados no fundo no mar. Esses seres, contudo, não estavam de fato mortos. “Se fosse esse o caso, não teríamos sido capazes de revivê-los”, disse o microbiólogo Yuki Morono, pesquisador da Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha e Terrestre e coautor do estudo recém-publicado na revista Nature.“Acreditamos que eles estivessem em algum tipo de hibernação profunda pela última centena de milhão de anos.” Ao analisar os microrganismos com recursos de laboratório, os cientistas constataram que, de certa forma, eles estavam esperando condições ambientais mais adequadas para retomar sua vida. Dada a idade avançada dos tais micróbios, pode-se dizer que foram contemporâneos dos dinossauros – o que faz da descoberta algo ainda mais fantástico.

Para tornar o projeto possível, 31 cientistas usaram uma sonda que procurou sedimentos a 6.000 metros abaixo da superfície do mar. A ideia era desbravar a porção central do Oceano Pacífico, um dos biomas menos explorados do planeta. Depois de esquadrinhar o ambiente marinho e encontrar camadas profundas de rochas, uma espécie de broca perfurou o assoalho, enquanto outro equipamento recolhia detritos com amostras de bactérias e arqueas (um tipo de ser unicelular). Exames em laboratório descobriram que os microrganismos tinham exatos 101,5 milhões de anos. Eles foram incubados, e a surpresa se deu: não só estavam vivos como começaram a se alimentar e a se reproduzir. Os resultados animaram a comunidade científica. “Os progressos na pesquisa comprovaram que os ambientes profundos e as crostas oceânicas compreendem a maior biosfera e a última fronteira do planeta”, diz Vivian Helena Pellizari, professora do Departamento de Oceanografia Biológica da Universidade de São Paulo.

Além de desvendar os mistérios das profundezas oceânicas, o estudo pode ajudar a encontrar vida fora da Terra. De acordo com Steven D’ Hondt, especialista em geologia marítima e coautor do artigo publicado na Nature, a pesquisa abre novas portas na busca por vida em Marte, onde a presença de gases e nutrientes é rara – assim como no fundo do mar. Se foi possível despertar micróbios que surgiram há 100 milhões de anos, talvez os cientistas consigam fazer o mesmo com microrganismos marcianos adormecidos. “Dado o sucesso de nossa experiência, parece razoável supor que haja micróbios vivos sob a superfície de Marte e que tenham resistido por milhões ou bilhões de anos depois de o ambiente se tornar inabitável”, afirma D’Hondt. Uma das explicações para o fracasso da ciência em encontrar vida no Planeta Vermelho, portanto, pode estar em um erro de estratégia. Talvez os alienígenas estejam ocultos nas profundezas de Marte, e não na sua superfície.

O Japão, de fato, vem liderando projetos que têm a ambição de reviver animais extintos. No ano passado, o Departamento de Engenharia Genética da Universidade Kindai, em Osaka, informou que foi bem-sucedido na reativação de partes celulares de um mamute de 28.000 anos. Apelidado de Yuka, o animal foi encontrado na Sibéria em 2010 e, desde então, se tornou a maior esperança da ciência em experimentos desse tipo. Os cientistas extraíram a medula óssea e o tecido muscular de Yuka e inseriram o material em óvulos de camundongos. Pouco tempo depois, descobriram que as células modificadas apresentaram sinais de atividade biológica. “Muito em breve, avançaremos a pesquisa para o estágio da divisão celular”, diz o engenheiro genético Kei Miyamoto. Se isso acontecer, a ciência poderá, quem sabe num futuro não muito distante, trazer herdeiros do mamute Yuka de volta à vida.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 19 DE MAIO

O VALOR DA TESTEMUNHA VERDADEIRA

A testemunha verdadeira livra almas, mas o que se desboca em mentiras é enganador (Provérbios 14.25).

Testemunhar é contar exatamente o que viu e ouviu. Não é dar a opinião própria. Ao longo da história muitos tribunais proferiram sentenças injustas porque testemunhas infiéis deram falso testemunho, escondendo e escamoteando a verdade. José do Egito foi parar na cadeia quando a verdadeira culpada do crime era sua própria acusadora. O Sinédrio judaico contratou testemunhas falsas para acusar Jesus e assim o sentenciou à morte. O mesmo destino sofreu o diácono Estêvão, que terminou apedrejado por uma turba ensandecida. O que abre sua boca para promover a mentira é um enganador. Aquele que vende sua consciência e altera a realidade dos fatos para obter vantagens pessoais, acusando inocentes e inocentando culpados, labora em erro e torna-se agente do mal. Porém, a testemunha que fala a verdade salva vidas e livra as pessoas da morte. A verdade é luz. A verdade é pura. A verdade promove a justiça. Nossos lábios devem estar a serviço da verdade e não da mentira, do bem e não do mal, da justiça e não da iniquidade. O verdadeiro cidadão do céu é aquele que jura com dano próprio e não se retrata.

GESTÃO E CARREIRA

COMPRA INTELIGENTE

Muito mais que um supermercado on-line, plataforma auxilia usuários a planejarem e economizarem nas suas compras e faz sucesso entre os consumidores

Quem gosta de ir ao supermercado todo dia, semana ou mês e passar horas e horas escolhendo produtos e enfrentando filas que atire a primeira pedra. Afinal, quanto tempo e dinheiro você gasta nesse processo?  A opção de fazer uma compra on-line parece tentadora, mas pensar em perder promoções ou não poder escolher os produtos à sua maneira pode não ser tão atrativo assim, não é mesmo?

Foi pensando exatamente nesses consumidores que os empreendedores Bruna Vaz Negrão e Fábio Rodas Blanco criaram a startup Shopper.com.br, uma plataforma que auxilia os usuários a planejarem e economizarem nas compras de supermercado.

A empresa iniciou sua operação em 2015, mas tudo começou em 2014, quando Rodas e Bruna estavam cursando administração e economia no Insper.

Eles participaram de uma mentoria com o economista e empresário Jorge Paulo Lehmann, que lhes deu o seguinte conselho: “busquem soluções que Já funcionam lá fora e adaptem para a realidade brasileira”. Dessa maneira, perceberam que a inovação tinha melhorado diversos setores, mas o supermercadista parecia parado no tempo. E então tiraram como base o modelo de Subscribe and Save da Amazon e o adaptaram para o Brasil, criando a Shopper.

Segundo eles, diversos consumidores não gostam de ir ao supermercado para realizar compras de itens que sabem que vão consumir todos os meses e sentem que gastam tempo e dinheiro com essa tarefa. “Mas não havia no mercado uma solução que trouxesse praticidade e preço baixo. E, na nossa visão, preço baixo é algo relevantíssimo quando estamos falando de itens básicos, como sabão em pó, leite… Então, é um problema vivido por todos que ninguém estava resolvendo de maneira satisfatória”, argumenta o CEO da empresa, Fábio Rodas.

A proposta é levar comodidade para os clientes, entregando uma experiência sem igual, mas sem cobrar caro por isso – pelo contrário, entregando economia. “É um mundo onde os produtos essenciais chegam à casa deles com a mesma facilidade e eficiência que a água chega até a torneira”, diz Rodas.

COMO FUNCIONA

Muito ruais que um supermercado on-line, a startup se destaca por ser um sistema de reabastecimento de itens de consumo doméstico: produtos de limpeza, higiene pessoal, alimentos não perecíveis, bebidas, pets e frutas. E ela ajuda o consumidor a se organizar sem ter que sair de casa. “Nosso objetivo final é não deixar faltar produtos essenciais em casa e fazer isso de forma organizada, planejada, aumentando a eficiência da cadeia de abastecimento brasileira”, argumenta o CEO.

Nesse modelo de compras planejadas o cliente escolhe os produtos no site ou aplicativo e recebe em casa. No mês subsequente, o sistema deixa pré-programado o mesmo pedido e o cliente é lembrado, dias antes, para que faça ajustes em itens e quantidades, e receba outra cesta. “Assim ele consegue manter a casa sempre abastecida e itens essenciais não acabam em sua despensa. Lembrando que na plataforma, além de o cliente ter a flexibilidade de fazer ajustes no pedido, pode suspender a entrega ou reagendar para outra data. E podem alterar 100% de suas cestas entre uma entrega e outra”, diz Fábio Rodas.

CRESCIMENTO

Quando a Shopper começou, atendiam apenas três bairros da cidade de São Paulo, hoje já são mais de 600 bairros, indo além de São Paulo e chegando à região do ABC, Alphaville, Barueri e Aldeia da Serra. “Nosso objetivo ainda é expandir para 1.000 bairros e incluir cada vez mais produtos no mix. Contudo, só expandimos conforme aumentamos e treinamos novos membros do time: assim mantemos a qualidade do serviço alta”, revela Rodas.

Possuem um Centro de Distribuição com mais de 4.000 metros quadrados e disponibilizam mais de 2.500 itens essenciais de consumo, como produtos de limpeza, higiene pessoal, alimentos não perecíveis, bebidas e pets. “Quando começamos, eram apenas 1.200 produtos e não tínhamos Centro de Distribuição, usávamos minha sala. E era eu e a Bruna”, conta.

Hoje, já são mais de 120 pessoas no time e estão com mais de 50 vagas abertas, em 20 posições diferentes. A sede da empresa e o Centro de Distribuição ficam na Barra Funda e a logística é feita internamente; pois é isso que, segundo eles, garante a qualidade do serviço.

POR DENTRO DO PROCESSO

Segundo Fábio Rodas, o principal diferencial da empresa é que não compram de supermercados, e sim direto das indústrias. “Os supermercados físicos têm custos altíssimos, que são repassados nos seus preços. Hoje, algumas empresas que compram em mercados físicos para entregarem em casa subsidiam esses custos, cobrando preços artificiais (não precificando os serviços); no futuro, quando precificarem, esses serviços deixarão os produtos ainda mais caros para o consumidor final”, explica.

De acordo com o CEO, as lojas on-line daqueles supermercados que também compram da indústria, mas que têm modelos tradicionais (de compras pontuais/ não planejadas), possuem estoques e baixa previsibilidade, o que também eleva os preços (mesmo sem os custos das lojas físicas). “Todos esses modelos, seja da loja física, seja da loja on-line, incentivam o consumidor a comprar mais do que ele realmente precisa, com promoções do tipo ‘leve 3 pague 2’ (mesmo quando só precisamos de 1) e com artifícios para aumentar a compra impulsiva”, esclarece.

Já o modelo da Shopper nasceu para ser exatamente o oposto: “queremos ajudar as pessoas a comprar de forma inteligente. Com isso, conseguimos ter previsibilidade e organizar melhor nossa logística. Compramos direto da indústria apenas o que sabemos que será vendido (sem desperdícios e sem manter altos estoques); temos custos de m2 baixos, diferente dos supermercados tradicionais; conseguimos planejar com antecedência as entregas e, por isso tudo, temos preços em média 13% menores que os supermercados on-line tradicionais”, argumenta.

MUDANDO A CULTURA

Explicar às pessoas o conceito de reabastecimento planejado, de compras programadas, no entanto, não foi uma tarefa fácil para os sócios da Shopper. “Mas, uma vez que se entende que há um jeito diferente, mais inteligente e mais eficiente, de manter a casa abastecida, fica muito mais fácil a adesão ao modelo. E assim que a pessoa adere ao modelo, ela muda o hábito de compras, passando a economizar (desperdiçar menos dinheiro e tempo) e contribuir para que a cadeia de abastecimento brasileira fique mais eficiente como um todo”, reflete o CEO.

Apesar dessa dificuldade, no entanto, ele diz que crescem de 20% a 35% ao mês desde o início da Shopper. A empresa dobra de tamanho a cada três, quatro meses, um ritmo considerado bem forte. “As centenas de elogios espontâneos de nossos clientes nas redes sociais e a taxa de crescimento orgânico (novos clientes que vêm por indicações de atuais clientes) são o maior indicativo de que já conseguimos o reconhecimento do mercado”, comemora.

Por esse motivo também, segundo ele, que os maiores fabricantes querem estar ao lado da Shopper e colocar seus produtos na plataforma, inclusive investindo nos banners da Shopper como meio de marketing.

No mês de julho eles acrescentaram frutas ao portfólio de produtos. E lançaram um feature que mostra quanto cada cliente economizou (chamado “econômetro”).

Nesses seis anos, a Shopper já entregou mais de 2.500 toneladas de itens essenciais de consumo doméstico e gerou uma economia de R$3 milhões para os seus consumidores. “Essa economia gerada é dinheiro que fica no bolso dos nossos clientes, podendo gastar com outros produtos e serviços”, elucida.

O CEO gosta de frisar ainda que o objetivo da startup é construir um País com menos desperdício, mais eficiente, no qual as pessoas possam consumir e viver de forma mais inteligente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O FRACASSO DO SONHO E A CULTURA DO ATO?

De acordo com a visão da cultura atual, existe um predomínio da ação, da imagem e da superficialidade das relações humanas, o que traz como consequência a perda da reflexão e das relações humanas estáveis

A questão da prescrição de medicamentos deve ser tratada com cautela. Em 2012, fui uma das participantes de uma seleção de reportagens no jornal O Estado de Minas, cujo título era “Dispara em BH o uso de remédios contra a hiperatividade”. Belo Horizonte foi considerada a segunda capital que mais consumia a Ritalina. Alguns dados da Anvisa, além de informações em diversos sites e fontes, me inquietaram ainda mais.

O sonho e o ato são dois personagens centrais do universo psicanalítico. Vou poupar os leitores de maiores revisões sobre esses conceitos, sua relevância e seu percurso ao longo de nossa centenária história, porque as revisões conceituais estão à disposição de todos e muitas vezes podem se tornar defesas contra uma exposição direta por parte de quem escreve de sua própria visão e posicionamento sobre o tema em debate.

O título desta questão contém uma salutar provocação, bem como deixa perceber uma visão do mundo contemporâneo que está de acordo com sucessivas abordagens sociológicas, antropológicas e culturais.

Segundo esta visão do mundo e da cultura em que vivemos, que diferentes autores chamam de pós-modernidade, modernidade líquida, hiper­modernidade, cultura do narcisismo, o que observamos em nossos dias é um predomínio da ação, da imagem, da velocidade, da violência, da superficialidade, da fugacidade das relações humanas, das comunicações instantâneas e virtuais, da descartabilidade de pessoas, valores e ideias, com uma perda considerável ou mesmo uma quase ausência da reflexão, das relações humanas estáveis, da imaginação, da leitura, da calma, do tempo necessário para pensar, sentir, amar, conhecer a si mesmo e ao próximo.

Um psicanalista, estimulado pelos chamados trabalhos culturais de Freud, sente-se naturalmente tentado a participar deste debate, e muitos, entre os quais eu mesmo, já escreveram trabalhos sobre as relações entre a Psicanálise e a cultura. À medida, no entanto, que a idade e a observação dos fatos do mundo avançam, a tentação das generalizações e da aplicação de nossas teorias para entender fenômenos complexos torna-se mais cautelosa. Estamos lidando com realidades sobre as quais temos apenas uma visão fragmentária, e dependente de quem nos fornece as notícias e de suas motivações e interesses ideológicos, econômicos, religiosos e nacionais.

Afinal, qual é o nosso campo de observação, por excelência? A sessão analítica. O que nos chega nas sessões ou num processo analítico é uma visão particular, única e específica, daquele que nos fala, sobre o mundo em que vive, seja o interno, seja o externo, da forma como o percebe, a partir da trama possível de sucessivas identificações projetivas e introjetivas, dissociações, projeções, idealizações e assim por diante. Mas, de fato, não é bem isto o que ocorre. Hoje, graças a Bion, Meltzer, Baranger, Ferro, Ogden, sabemos que não há uma escuta analítica sem que a mente do analista tome parte ativa, não só da conversa na sessão, mas da construção conjunta de uma trama de significados, de um sonho sonhado a dois. Portanto, qualquer desejo de alguma objetividade ou de alguma informação sobre o mundo em que o paciente vive, que poderia nos ajudar a ver como é esse mundo, e contribuir para nossa visão do mundo como ele é ou quem sabe de como gostaríamos que fosse, torna-se uma ilusão perdida. Claro que os pacientes nos contam os fatos de sua vida, falam de pessoas reais com quem convivem, de experiências de que participam, mas este relato nos é absolutamente inútil para ter uma visão do mundo em que eles vivem, porque nosso interesse é por seu mundo interno, e estamos mais interessados e focados em identificar significados inconscientes do que na realidade supostamente factual.

Assim, o mundo que nos chega através da escuta analítica não me parece ser uma fonte fidedigna para que tenhamos uma visão razoável de nossa cultura. Não há como deixar de lembrar, a este respeito que, nesta pretensão de ver o mundo a partir dessa fonte de informação, estamos na mesma posição descrita no mito da caverna, por Platão: um grupo de prisioneiros, acorrentados numa caverna, passa todo o tempo olhando para a parede do fundo, que é iluminada por uma fogueira; nesta parede, são projetadas as sombras que representam pessoas, animais, plantas, situações do dia a dia; não se vê a realidade, mas imagens projetadas.

QUESTIONAMENTOS

Agora, se pensamos no que ocorre no trabalho analítico, temos duas questões a nos inquietar, para este tema: a primeira, se mudaram os pacientes, e nesta mudança predomina o ato sobre o sonho. E a segunda, se na prática analítica, observa-se o fracasso do sonho e a cultura do ato.

Quanto à primeira questão, temos uma sucessão de descrições dos chamados novos pacientes, em que se incluem os borderline, os narcisistas, os psicossomáticos, os perversos, os que têm as doenças da alma, os fronteiriços, as estruturas não neuróticas, conforme diferentes autores os caracterizam. Neste novo conjunto, predomina o ato sobre o sonho? Se considerarmos que em muitos destes pacientes predomina a dificuldade de simbolizar ou de representar, como descrevem os Botella, ou o pensamento operatório, conforme Marty, sim, de fato o sonho, em seu sentido mais amplo, que inclui esses elementos oníricos, é algo que tem que ser construído com essas estruturas não neuróticas. Com tais pacientes, o trabalho analítico será mais transformacional do que o tradicional arqueológico, como propõe Levine. O problema, contudo, é que existe uma discussão acerca da real prevalência dessas estruturas não neuróticas; serão de fato novas apresentações ou estamos vivendo um momento da prática analítica em que podemos trabalhar níveis mais profundos do psiquismo e em que mesmo continuando a predominar as estruturas neuróticas ou os transtornos de personalidade, podemos acessar e analisar níveis mais primitivos do funcionamento mental?

Uma possível constatação é que o progresso na compreensão do funcionamento psíquico, graças, por exemplo, ao trabalho monumental de Green, faz com que, em quase todas as análises, possamos percorrer esses infernos com nossos pacientes, bem como seus paraísos perdidos.

Quanto à segunda questão, sobre o trabalho analítico corrente, minha impressão é que ato e sonho convivem; sonho, aqui, tanto em sua versão freudiana fundante, como o psíquico por excelência, tanto como, por exemplo, descreve Ogden, a partir de Bion, no sentido de um trabalho conjunto entre analista e paciente, sonhando na sessão e construindo significados novos. O próprio sonho, propriamente dito, pode deixar assim de ser apenas um relato a ser interpretado pelo analista para informar ao paciente sobre algo de sua vida que ele ignora ou não quer saber, para ser também um estímulo a pensar e sentir a dois sobre o que está acontecendo na sessão ou na relação analítica.

Desta maneira, esses poucos elementos de nosso particular ângulo de observação não nos dizem que há um fracasso do sonho, nem que predomina uma cultura do ato. Talvez fosse mais de acordo com o que podemos observar ou viver no trabalho analítico, dizer que sonho e ato convivem, mantêm entre si uma permanente tensão, se alimentam mutuamente, são duas formas de comunicação. O sonho pode ser um prelúdio para o ato inibido ou interditado pela neurose, o ato pode ser uma defesa contra o lembrar e o sonhar, e esperamos que alguma convivência se estabeleça entre os dois personagens se um processo analítico é capaz de produzir transformação e mudança psíquica.

INSIGHTS

Voltemo-nos, agora, para a nossa cultura, tendo como pano de fundo os diversos insights de Freud em seus últimos trabalhos. Como adquirir alguma certeza sobre o que estamos observando? Freud observa que nossas estimativas sobre o futuro se baseiam muito mais em nossos desejos do que numa apreciação relativamente isenta ou na utilização dos faros do passado para tentar prever o futuro. Quando examina, por exemplo, o futuro de uma ilusão, alimenta a esperança de que o pensamento científico acabará por se impor ao animista ou religioso. Infelizmente, não é o que se observa. Pelo contrário, como destaca na Psicologia das massas, estas têm sede por obediência, por ilusões, por líderes fortes e que personifiquem todo o tipo de ilusões, o que é um fato que continuamos a observar, no curso da história e neste momento.

O que gostaria de examinar, então, é se de fato estamos vivendo, na cultura de hoje, o fracasso do sonho e o predomínio do ato. Podemos tomar tanto o nosso país, como o que ocorre em outras latitudes. Encontramos, então, o mesmo problema: quem faz a análise da situação? Baseado em que dados e em que interesses? Qual a extensão da apreensão de fragmentos maiores ou menores da realidade, qual a extensão das mentiras convenientes para cada grupo de interesses? Para um lado, o Brasil vive uma situação catastrófica, a violência, a corrupção, o desgoverno, a crise econômica campeiam soltas, e nos aproximamos do caos inevitável. Para outro, há inúmeras conquistas, melhoras nas condições de vida do povo, liberdade de investigação e ação da Polícia Federal e do Ministério Público.

Uma crônica recente de David Coimbra, no jornal Zero Hora, mostra a dissociação primária entre coxinhas e petralhas e ironiza uma forma de pensamento maniqueísta, que insiste no uso dos mecanismos primitivos de defesa. Uma pessoa tem que ser uma coisa ou outra, e a mesma forma elementar de classificação pode ser observada em inúmeras outras situações. Se formos para outra região, temos as ações assustadoras do denominado Estado Islâmico, cujos atos matam ou tentam eliminar boa parte das conquistas da civilização: os direitos das mulheres, dos homossexuais, a educação dos jovens e das mulheres, os monumentos históricos, a manutenção dos hábitos e tradições de diferentes minorias. Não é nada difícil sentir indignação e ódio desses fanáticos, que usam uma tecnologia apurada para espalhar imagens de decapitações ou queima de pessoas, porque são de outra religião ou de alguma minoria vista como inimiga duma versão distorcida e paranoica do Islã. Mas as coisas ficam mais complicadas quando saímos de uma reação emocional medular e vamos ler análises dessa situação complexa, de suas raízes históricas, das rivalidades entre xiitas e sunitas, das ações quase sempre desastrosas das potências ocidentais, e assim por diante.

E as coisas ficam ainda mais complicadas quando lembramos a sucessão de crueldades e decapitações ao longo da história, os banhos de sangue de minorias por razões políticas, econômicas ou religiosas, e a facilidade de dividir o mundo entre nós e eles.

Talvez uma conquista de nossos dias seja constituída pelas noções de complexidade, de fragmentação, de relativismo, de pluralismo. E aí voltamos às tentativas de descrever a nossa cultura com as propostas de pós-modernidade ou de modernidade líquida ou de cultura do narcisismo ou de hipermodernidade. Todas essas descrições me parecem úteis, mas irremediavelmente parciais, pois retratam um aspecto de uma realidade extremamente complexa. Nessa realidade complexa, que é a de nossos dias, encontramos, às vezes numa mesma rua ou num mesmo bairro, expressões hipermodernas ao lado de outras medievais ou modernas ou renascentistas. A realidade é complexa, por essência, e escapa de nossas tentativas de classificação. Como seria bom se nossos pacientes fossem histéricos, ou fóbicos ou deprimidos ou narcisistas! Como seria bom se comportassem e coubessem dentro dessas ficções diagnósticas que só servem para acalmar a quem os atende e defender da irremediável complexidade, da natureza única e irrepetível de cada pessoa e, pior ainda, de cada relação analítica. Como isso nos pouparia da dor insuportável da capacidade negativa e da necessidade sem remédio de recomeçar de novo a cada dia de trabalho!

ESPAÇO

Com isso, quero dizer que o estado da cultura me parece extremamente complexo, e que nela há espaço para o sonho e para o ato. Não consigo ver o fracasso do sonho, senão sua reimosa e persistente recusa a qualquer regulação ou controle. Freud gostava de citar aquela frase de que peçam a uma pessoa que conte seus sonhos, e ninguém escapará do açoite. Mas minha impressão é que, além do possível açoite, peçam a uma pessoa que conte seus sonhos e ninguém se entediará ou aborrecerá ou deixará de se encantar com a praticamente infinita variedade e a inesgotável criatividade humana para sempre criar novas expressões da dualidade pulsional. Quando se escutam lamentos sobre essas ferramentas contemporâneas que aparentemente limitam a imaginação, e invadem o setting analítico, ao mesmo tempo observamos as crianças com fome de histórias contadas pelos pais e avós, com seus olhos ávidos por entrar e tomar parte nesse mundo infinito de fantasias, possibilidades e aventuras. O sonho continua vivo, e forma com o ato um pas

de deux sutil, delicado, mutuamente alimentador e limitador. Não, nossa cultura não é a do ato, nossa cultura, como as que nos precederam, se alimenta do sonho e do ato, e tem sonhos que resultarão em atos criativos, mas tem também, como sempre houve, sonhos destrutivos que levarão aos atos perversos e de destruição do próximo e dos bens da civilização. Quanto aos instrumentos que apavoram muitos ou alguns por seu potencial de desumanização, são parte de nossa linguagem contemporânea, e através deles também falamos ou calamos, também sonhamos ou somos incapazes de simbolizar ou representar. Quando se viveu muito tempo numa civilização, escreveu Freud, e se tentou descobrir quais foram suas origens, e ao longo de que caminho ela se desenvolveu, fica-se às vezes tentado a voltar o olhar para outra direção e indagar qual o destino que a espera e quais as transformações que está fadada a experimentar.

Situando-me, neste momento, numa posição semelhante, permito-me cultivar não só a esperança, como uma confiança na capacidade do sonho e do ato em seu interminável balé em direção ao futuro. Como em tantos momentos, ao longo do ciclo vital, sinto-me em boa companhia, e assim repito aqui uma das lições que aprendi com Carlos Drummond:

Outrora viajei países imaginários, fáceis de habitar; ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio

Meus amigos foram às ilhas

Ilhas perdem o homem.

Entretanto, alguns se salvaram e

Trouxeram a notícia

De que o mundo, o grande mundo,

está crescendo todos os

dias, entre o fogo e o amor

Então, meu coração também pode crescer.

Entre o amor e o fogo,

Entre a vida e o fogo,

Meu coração cresce dez metros e

explode.

Ó vida futura! Nós te criaremos.

MODERNIDADE LÍQUIDA

O termo “modernidade líquida” foi cunhado pelo sociólo8o polonês Zygmunt Bauman. Seu conceito se traduz pelo conjunto de relações e instituições, que oferecem base para a contemporaneidade. Uma época de liquidez, fluidez e volatilidade, que traz como consequência incerteza e insegurança. É quando os referenciais morais de épocas anteriores – modernidade sólida – saem de cena e dão lugar à lógica do agora, do consumo e do artificial. No caso das relações sociais. estas se tornam frágeis e têm como pressuposto a transformação dos seres humanos em mercadorias, que podem ser consumidas e descartadas a qualquer momento. O sujeito líquido lida com um universo de consumo e opções, mas esse mundo nunca é objetivo e frio, pois causa frustrações e insegurança. Tudo se passa como se fosse uma questão de escolher a melhor opção, o que traz mais vantagens e, de preferência, nenhuma desvantagem. As relações de trabalho de desgastam e se tornam campo vasto para empregos temporários, sem vínculos maiores.

CLAUDIO LAKIS EIZIRIK – é psiquiatra e psicanalista, doutor em Medicina, membro efetivo da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre. Professor titular da UFRGS, ex-Presidente da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) e da Federação Psicanalítica Latino-Americana, autor de livros, capítulos, trabalhos e orientador de teses de doutorado e mestrado. Prêmio Sigourney de 2011. por contribuições relevantes à psicanálise. Coordenador, desde 2013, do Comitê de Psicanálise e o campo da Saúde Mental da IPA

EU ACHO …

IR CONTRA UMA MARÉ

Lutei toda a minha vida contra a tendência ao devaneio, sempre sem jamais deixar que ele me levasse até as últimas águas. Mas o esforço de nadar contra a doce corrente tira parte de minha força vital. E, se lutando contra o devaneio, ganho no domínio da ação, perco interiormente uma coisa muito suave de se ser e que nada substitui. Mas um dia ainda hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O ”STREAMING DOS CRISTÃOS”

O Lumine, uma plataforma de vídeo com “valores conservadores”, conquista adeptos com catálogo “família” e produções direitistas

Em abril deste ano, a militante extremista Sara Giromini – que se notabilizou já há alguns anos sob o nome de guerra Sara Winter – publicou para seus mais de 250 mil seguidores no Twitter: “!! Atenção!! Você já pode assistir o meu filme! Clique no link abaixo e se cadastre na Lumine, um portal de filmes conservadores”. O anúncio, além da evidente autopropaganda, era mais um lance da ofensiva em favor do que os sites conservadores têm apresentado a seus fiéis como uma “alternativa cristã ao Netflix”.

Primeira plataforma de vídeo on demand direcionado ao público cristão e/ou conservador, o Lumine está desde agosto do ano passado na disputa acirrada do streaming no Brasil com palavras-chaves pouco usuais nesses serviços: “moral”, “espiritual”, “religioso”. “Todo nosso catálogo é voltado para essa temática: bons filmes para serem vistos em família, que falam sobre a história da igreja, sobre o cristianismo, que falam sobre cultura e sobre arte”, disse o fundador da plataforma, Matheus Bazzo, ao canal do blogueiro Allan dos Santos, o Allan Terça Livre, dono do autodenominado “maior canal conservador de notícias e análises da América Latina”, com 1 milhão de seguidores no YouTube. Procurado, Bazzo declinou os pedidos de entrevista.

A plataforma oferece assinatura mensal (RS 28), trimestral (RS 78) e anual (R$ 274). Elas dão acesso a 120 horas de conteúdo, com novos títulos todo mês. Começou apenas com um cardápio de filmes tradicionais, mas logo passou a fazer lançamentos exclusivos, como os documentários Caos e ordem, sobre o psicólogo canadense Jordan Peterson, ídolo do público conservador, e O mistério de Padre Pio, sobre o mistério da canonização do santo de Pietrelcina. O número de assinantes não é conhecido.

Assim como grandes serviços de streaming, a Lumine também aposta em conteúdo próprio, como o documentário A vida de Sara, alardeado por Giromini nas redes sociais. Produzido por Bazzo e dirigido por Julia Sondermann, o filme “retrata uma vida complexa de uma mulher que luta para resgatar a normalidade da vida”, de acordo com a sinopse. A conversão de Winter do feminismo para o catolicismo é vista como uma “retomada de consciência” após o “radicalismo ideológico”. Em entrevistas, a própria ativista disse que o filme funcionava como uma “vacina contra a doença do feminismo”.

Em maio, a extremista protestou em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) usando símbolos que remetiam a grupos como Ku Klux Klan. Em junho, três meses após a estreia do documentário, ela foi presa pela Policia Federal por causa do inquérito que investiga atos antidemocráticos no Brasil. Poucos dias depois, foi liberada ante medidas restritivas.

O nome da plataforma, Lumine, é inspirado num dos termos do latim para “luz”. Ao apresentar seus filmes, o site da plataforma recorre seguidamente a uma oposição um tanto simplória e edificante entre o que considera uma arte “elevada”, “iluminada” ou “pura” e uma outra que define como inconsequente, feita apenas para a diversão. Publicado no site, o relato satisfeito de uma assinante resume essa visão estética: “Não sei como definir, muito obrigada por levarem a arte pura para dentro de nossos lares, que Nosso Senhor Jesus Cristo continue abençoando vocês”, escreveu ela.

Uma olhada rápida no catálogo, porém, mostra que a curadoria vai além do discurso simplório. Um dos destaques do último Natal foi o clássico indiscutível A felicidade não se compra, que há décadas agrada tanto à esquerda quanto à direita (embora, é preciso admitir, faça uma crítica pesada à ganância dos bancos) e costuma integrar listas dos melhores filmes da história. Embora adaptado de um romance considerado por muitos como “reacionário”, O leopardo, dirigido por Luchin o Visconti, é outro cuja contribuição artística para o cinema supera qualquer divergência ideológica. Shakespeare está presente em uma de suas adaptações mais arrojadas, o Othello de Orson Welles. E o que falar da obra de Robert Bresson, presente por sua inspiração católica jansenista, mas que é um dos cineastas preferidos do maoista Jean-Luc Godard?

A comparação dos conservadores com a Netflix, e não com outros grandes serviços de streaming como Globo Play ou Amazon Prime, não é acidental. O ápice da briga entre grupos cristãos e o serviço americano aconteceu em dezembro, quando a Netflix exibiu A primeira tentação de Cristo, o especial de Natal humorístico do Porta dos Fundos envolto em controvérsias. A pedido do Centro Dom Bosco, um desembargador da 6ª Câmara Cível do Rio de Janeiro chegou a censurar a obra com o argumento de que “Jesus é retratado como um homossexual pueril, Maria como uma adúltera desbocada e José como um idiota traído” (a decisão acabou sendo derrubada pelo STF). Dias antes, a sede da produtora havia sido alvo de um ataque terrorista reivindicado pelo grupo Comando de Insurgência Popular Nacionalista.

A Lumine aproveitou o impacto negativo do especial do Porta dos Fundos entre grupos cristãos para tentar se firmar. Divulgou um manifesto em suas redes sociais em que defendeu ser “impossível haver qualquer ganho artístico ou narrativo mediante a ridicularização da imagem de Jesus Cristo”. E acrescentou: “Entendemos que uma obra de arte pode abordar diferentes aspectos a respeito desse período histórico sem fazer nenhum tipo de caricatura ou ofensa à imagem de Jesus”.

Foi a partir daí que a plataforma ganhou grande visibilidade na mídia conservadora. Bazzo, que em 2017 trabalhou como assistente no documentário O jardim das aflições, sobre a vida e a obra do filósofo Olavo de Carvalho, deu entrevistas para canais bolsonaristas como o Terça Livre. Um de seus argumentos, ao promover o Lumine, é que pautas supostamente esquerdistas estariam fazendo mal ao audiovisual.

“A tomada da esquerda não é apenas um problema ideológico político, (ela)causou uma perda de qualidade nas artes. É um problema de qualidade poético”, disse Bazzo ao entrevistador Ricardo Roveran em dezembro. Ele também reclamou da “cosmovisão” das obras produzidas no Brasil e de uma classe acústica que estaria “intoxicada por marxismo”. “Sempre vai haver um conjunto de valores defendido por determinada obra de arte. O que acontece é que, quando você não utiliza os valores das pessoas, dos cristãos, vai haver outros. No Brasil das últimas décadas, a cosmovisão que está sendo transmitida é uma cosmovisão marxista bem tacanha de opressor e oprimido.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 18 DE MAIO

A SABEDORIA PRODUZ RIQUEZA

Aos sábios a riqueza é coroa, mas a estultícia dos insensatos não passa de estultícia (Provérbios 14.24).

A riqueza não produz sabedoria, mas a sabedoria produz riqueza. Nem todo rico é sábio, mas todo sábio é rico, pois riqueza não é tanto aquilo que possuímos, mas quem somos. Riqueza não tem a ver apenas com o que carregamos no bolso, mas sobretudo com o que levamos no coração. Riqueza não é somente uma fina camada de verniz de ouro, mas a nobreza do caráter. Há uns que se dizem ricos sendo muito pobres, mas há outros que mesmo sendo pobres são muito ricos. O apóstolo Paulo fala daqueles que são pobres, mas enriquecem a muitos; daqueles que nada têm, mas possuem tudo. A felicidade não mora na casa da riqueza, mas na casa da sabedoria. A felicidade não está no ter, mas no ser. O dinheiro não nos pode dar felicidade, mas o contentamento com piedade é grande fonte de lucro, pois nos oferece tanto felicidade quanto segurança interior. Quando o nosso contentamento está em Deus, podemos viver contentes em toda e qualquer situação, seja morando num palacete ou num casebre, pois nossa felicidade não vem das circunstâncias, mas de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

CABIDE DIGITAL

Riachuelo coloca em prática processo 100% sem intervenção humana em sua logística de reposição de mercadoria no centro de distribuição de Guarulhos (SP).

Vinte dias. Esse é o período entre a ideia de um estilista e a venda de uma roupa na rede de departamentos Riachuelo. São 480 horas de processos de criação, desenhos, protótipos, manufatura da peça, envio para o centro de distribuição (CD), separação, envio para a loja e a venda ao consumidor. No meio de tudo isso, tecnologia, tecnologia e mais tecnologia. Desde a pesquisa de tendências até a venda. “Tecnologia é ativo estratégico da empresa. Não vendemos uma unidade de valor, comercializamos a experiência do cliente”, afirmou à Carlos Alves, diretor-executivo de Tecnologia da Riachuelo.

A companhia potiguar, que completa 70 anos em 2022, trabalha para diminuir ainda mais o tempo entre a ideia da roupa e a chegada ao cliente. Para isso, tem um time de 850 engenheiros de computação. Em 2018 eram 150. Esse movimento explica a transformação. Um dos destaques da jornada de inovação é o sistema de gerenciamento de armazém WMS (Warehouse Management System) e o processo de reposição de mercadoria, que é 100% automatizado no Centro de Distribuição de Guarulhos (SP). A companhia tem outros dois em Natal e Manaus, que também têm recebido investimentos.

Funciona assim: quando os caminhões da Transportadora Casa Verde, de propriedade da Riachuelo, chegam ao CD carregados com os produtos das fábricas, robôs, esteiras e cabideiros controlados por um buffer entram em ação para levar cada item para um espaço específico do galpão. Já para a entrega desses itens às lojas, uma vez por dia, geralmente entre às 4h e 5h, o software proprietário de abastecimento executa sua inteligência e cria uma lista de picking (necessidades) baseada na rotina e performance de venda dos produtos que precisam ser repostos. Essa lista entra no setor de logística às 6h. Os produtos seguem pelas esteiras e cabideiros até chegar nos caminhões para a saída. “Temos um processo de roteirização inteligente no qual utilizamos a camada de transporte para montar o melhor roteiro para abastecimento das lojas”, disse Carlos Alves.

No ano passado, apenas o CD de Guarulhos expediu 57 milhões de peças para as lojas. São mais de 100 peças por minuto. “Além da automação dos CDs, que chamamos de estoque central, as lojas também possuem essa automação, que é o que chamamos de Active Omni.” Dessa forma, a Riachuelo é cada vez mais uma empresa de tecnologia que vende roupas e cada vez menos uma empresa de vestuário que usa tecnologia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EM BUSCA DO ACESSO À CONSCIÊNCIA

A metapsicologia é responsável por articular um repertório de insights da clínica, que são verdadeiros golpes de percepção, apreensões que movimentam o saber psicanalítico

O próximo Congresso Brasileiro de Psicanálise coincide com a comemoração dos 106 anos dos textos da metapsicologia de 1915. A metapsicologia articula um repertório de insights da clínica. Insights são golpes/ espantos da percepção – apreensões que surgem a posteriori – e que movem o saber psicanalítico. A representação é o conceito-chave na obra de Freud, e que compreende os de seus descendentes: o simbólico (Lacan), a fantasia (Klein), o pensar (Bion) e o crescimento (Winnicott).

Porém, é o ato que está na origem da cena da representação, na sua trama e malha afetiva. “No início era o ato”, conclui Freud no seu Livro de 1913, Totem e Tabu. Ato esse, do assassinato do pai, advindo em um enredo darwiniano: nos primórdios da humanidade, um macho ciumento rechaça os filhos, tomando posse de todos os bens, de todas as fêmeas. Os filhos mudam a história ao assassiná-lo, dando vez a organizações mais democráticas. Porém, a perda do todo-poderoso pai desemboca no luto, na separação. O conflito constitui, portanto, a lógica da cena na qual o sujeito, desde sempre, se insere. Não se trata, portanto, da representação de algo exterior e visível, mas de uma cena dentro da qual o sujeito está mergulhado a despeito de sua noção ou vontade.

O sonho seria a representação dessa representação, “a outra cena” (Freud), tornando-a passível ao alcance da percepção. Na clínica e na vida, uma coisa é o agir que resiste ao plano da análise desde seu início – isto é, viver a cena ou “cair dentro” da lembrança -, o que impede o acesso à consciência, à percepção e à palavra. Por isso, age aquilo que se teme ver ou lembrar! Outra coisa é a atuação, a evacuação somática e motora que denuncia a falha, senão a falência do esforço de origem na montagem da representação junto ao adulto, a partir de moções pulsionais. A atuação suscita, por isso, uma espécie de reivindicação desesperada por uma construção, uma história. A falência e a fragilidade das representações, da constituição do sonho ante as demandas da cultura, desafiam hoje o trabalho analítico e a Psicanálise.

PRELÚDIO DA AÇÃO

O sonho ou a representação como condições da ação são um dos clássicos do trabalho analítico: identificar na experiência analítica o afeto, a vivência na cena e no sonho, a partir das quais se esboça a ação. A ação, por sua vez, coloca o mundo psíquico à prova da realidade. O afeto como percepção de inervação interna, em via de descarga, remonta à expressão das emoções do recém-nascido. Essa convoca o adulto como interpretante de supostos estados afetivos.

A ajuda do adulto, veiculada pelas palavras e suas tonalidades, daria forma ao estreito apelo do corpo, ao seu desespero, gerando o repertório afetivo. Tal implantação primeira, histérica, do mundo humano seria posta, com a perda do objeto e instauração do recalcado, ao teste da subjetivação. E, ao vislumbrar um si, ao adentrar a trama edípica, da castração e da falta, o gozo conversivo do corpo transforma-se, em parte, em afetos e percepções; ou seja, no empenho do pensar inerente à descoberta da alteridade.

Dissolver os impasses (os sintomas) nesse doloroso caminho, em que se abre mão do terreno incestuoso da fantasia – aceitando a castração, a falta, alcançando a posição depressiva e assumindo os afetos no pensar – tem sido a via mestra da análise. E continua sendo um dos desafios principais da clínica, a da neurose.

Fora da neurose, não é a dissolução do sintoma que está em questão, mas a construção do sonho, da representação. É o trabalho do adulto (objeto) em suas possibilidades psíquicas de nomeação e, portanto, de construção que devem ser retomadas na via principal de certas demandas cada vez mais crescentes na contemporaneidade.

A fuga no agir e as atuações são objetos de uma reassunção do sonho, ou melhor, da conversão do ato em sonho, em pensar. A psicopatologia do ato de delírio da alma e seu corpo somático, e suas correspondentes denúncias (de falhas) do trabalho do objeto, impõem o grande desafio ao analista.

SINTOMA E CRIATIVIDADE

Mesmo após a inauguração da nova concepção econômica, onde a matéria psíquica primária se rege no equilíbrio lábil entre duas tendências opostas, de silêncio e de excitação, de morte e de vida (predominando a primeira), disponível aos efeitos do trabalho da cultura e seu mensageiro – adulto/ objeto -, Freud ainda acreditava, em 1921, nos sonhos, narrativas e mitos.

Porém, logo, a partir de 1923, Freud reconheceu que a pressão da cultura, a sublimação e os meios de retenção em prol da inclusão na civilização poriam limites econômicos às possibilidades da representação e suas entranhadas percepções, os afetos. Ante tal disjunção pulsional, o aparelho psíquico recorreria a modos de sustentação da separação do eu pelas vias primitivas de gozo do sintoma, além de outros modos de denegação da falta, como a rachadura e a divisão do eu. As fugas no ato e as atuações, e seu gozo, poderiam encontrar consolo em formas intermediárias, de assunção dos sintomas e de uma criatividade em modos de subjetivação passiveis de conciliação junto a essa forma de inadequação fundamental da vida humana na cultura.

EU ACHO …

DIVAGANDO SOBRE TOLICES

Depois de esporádicas e perplexas meditações sobre o cosmos, cheguei a várias conclusões óbvias (o óbvio é muito importante: garante certa veracidade). Em primeiro lugar concluí que há o infinito, isto é, o infinito não é uma abstração matemática, mas algo que existe. Nós estamos tão longe de compreender o mundo que nossa cabeça não consegue raciocinar senão à base de finitos. Depois me ocorreu que se o cosmos fosse finito, eu de novo teria um problema nas mãos: pois, depois do finito, o que começaria? Depois cheguei à conclusão, muito humilde minha, de que Deus é o infinito. Nessas minhas divagações também me dei conta do pouco que sabia, e isso resultou numa alegria: a da esperança. Explico-me: o pouco que sei não dá para compreender a vida, então a explicação está no que desconheço e que tenho a esperança de poder vir a conhecer um pouco mais.

O belo do infinito é que não existe um adjetivo sequer que se possa usar para defini-lo. Ele é, apenas isso: é. Nós nos ligamos ao infinito através do inconsciente. Nosso inconsciente é infinito.

O infinito não esmaga, pois em relação a ele não se pode sequer falar em grandeza ou mesmo em incomensurabilidade. O que se pode fazer é aderir ao infinito. Sei o que é o absoluto porque existo e sou relativa. Minha ignorância é realmente a minha esperança: não sei adjetivar. O que é uma segurança. A adjetivação é uma qualidade, e o inconsciente, como o infinito, não tem qualidades nem quantidades. Eu respiro o infinito. Olhando para o céu, fico tonta de mim mesma.

O absoluto é de uma beleza indescritível e inimaginável pela mente humana. Nós aspiramos a essa beleza. O sentimento de beleza é o nosso elo com o infinito. É o modo como podemos aderir a ele. Há momentos, embora raros, em que a existência do infinito é tão presente que temos uma sensação de vertigem. O infinito é um vir a ser. É sempre o presente, indivisível pelo tempo. Infinito é o tempo. Espaço e tempo são a mesma coisa. Que pena eu não entender de física e de matemática para poder, nessa minha divagação gratuita, pensar melhor e ter o vocabulário adequado para a transmissão do que sinto.

Espanta-me a nossa fertilidade: o homem chegou com os séculos a dividir o tempo em estações do ano. Chegou mesmo a tentar dividir o infinito em dias, meses, anos, pois o infinito pode constranger muito e confranger o coração. E, diante da angústia, trazemos o infinito até o âmbito de nossa consciência e o organizamos em forma humana simplificada. Sem essa forma ou outra qualquer de organização, nosso consciente teria uma vertigem perigosa como a loucura. Ao mesmo tempo, para a mente humana, é uma fonte de prazer a eternidade do infinito: nós, sem entendê-lo, compreendemos. E, sem entender, vivemos. Nossa vida é apenas um modo do infinito. Ou melhor: o infinito não tem modos. Qual a forma mais adequada para que o consciente açambarque o infinito? Pois quanto ao inconsciente, como já foi dito, este o admite pela simples razão de também sê-lo. Será que entenderíamos melhor o infinito se desenhássemos um círculo? Errei. O círculo é uma forma perfeita, mas que pertence à nossa mente humana, restrita pela sua própria natureza. Pois na verdade até o círculo seria um adjetivo inútil para o infinito. Um dos equívocos naturais nossos é achar que, a partir de nós, é o infinito. Nós não conseguimos pensar no existo sem tomarmos como ponto de vista o a partir de nós.

Para falar a verdade, já me perdi e nem sei mais do que estou falando. Bem, tenho mais o que fazer do que escrever tolices sobre o infinito. É, por exemplo, hora do almoço e a empregada avisou que já está servido. Era mesmo tempo de parar.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

PRONTOS PARA BEBER

Sem a aura de elegância com a qual ingressaram na cultura etílica, drinques famosos passaram a ser vendidos em lata no Brasil, e, para surpresa geral, o resultado tem agradado

O afã de dar graça a bebidas alcoólicas misturando-as a outros ingredientes acompanha a história da humanidade desde os gregos. Mas o embrião da coquetelaria tal qual a conhecemos só começou a germinar mesmo no século XVIII, quando os americanos passaram a cultivar o hábito de bebericar licores como aperitivo. Abriu-se aí um mundo de experimentações, freado pela Lei Seca nos anos 1920, porém logo reanimado pelo icônico bloody mary e, mais tarde, pelo dry martini, que encontrou nas mãos do James Bond de Sean Connery um charme todo especial. A partir da frenética década de 80, contudo, os drinques ficaram circunscritos à velha guarda – até que, nos anos 2000, entrou em cena o mixologista, profissional que junta o mais improvável em uma taça (e dá certo). Pois esse universo está sendo sacudido por uma nova onda que faz torcer o nariz dos mais puristas: a dos drinques na latinha.

Coquetéis prontos para o consumo embalados em lata de alumínio são comuns nos Estados Unidos e na Europa, mas só de um ano para cá vêm sendo assimilados pela cultura etílica brasileira. Essas versões ganham espaço em festas ao ar livre e na praia, lugares onde o vidro não orna tão bem, e se alastram especialmente na faixa dos 25 aos 40 anos, estimuladas pelo preço: os drinques enlatados custam em média metade do valor cobrado no bar. “São bebidas que pouca gente sabe fazer, daí a alta procura”, diz Ricardo Petrus, o autor das criações da gaúcha Le Mule, uma das empresas desse mercado em franca expansão: deverá responder por 10% de todos os líquidos vendidos em lata no país até o fim de 2020.

O frescor, evidentemente, se perde em certa medida, mas a qualidade da bebida é preservada graças ao avanço da embalagem laminada, feita para não oxidar. Também os ingredientes podem não ser aquilo que parecem ao primeiro gole. A Ambev, por exemplo, entrou no jogo com o GT, um gim-tônica de sabor puxado para a carambola que não leva nem gim nem tônica, mas álcool de cereais e aromatizantes. “A tecnologia nos permite reproduzir sabores cada vez mais próximos dos originais”, avalia o mixologista carioca Michell Agues. Ele e outros mestres da coquetelaria dão uma dica para que a magia seja preservada: entornar o drinque na taça, enfeitar com uma rodela de limão e tim-tim.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 17 DE MAIO

O TRABALHO É SEMPRE PROVEITOSO

Em todo trabalho há proveito; meras palavras, porém, levam à penúria (Provérbios 14.23).

Vivemos a cultura do enriquecimento rápido. As loterias e as casas de jogos alimentam a esperança de um enriquecimento imediato e sem esforço. Os cassinos prometem uma via alternativa cujo destino é a riqueza sem o suor do rosto. Mas a riqueza não é filha da aventura, e sim do trabalho. Os tolos passam o tempo todo correndo atrás do vento, contando suas lorotas e proclamando seus planos mirabolantes, mas os prudentes põem a mão na massa e trabalham com dedicação. O trabalho enobrece o homem. Traz dignidade à vida e robustez ao caráter. O trabalho engrandece a sociedade e gera riquezas para a nação. O trabalho promove o progresso e oferece segurança e honra à família. O conhecido e já citado ditado popular diz: “Cabeça vazia é oficina do diabo”. As mãos que não se ocupam com o trabalho acabam ocupando-se com o crime. Os ociosos maquinam o mal. Os vagabundos rendidos à preguiça são um peso para o Estado, uma vergonha para a família e uma ameaça à paz social. Até mesmo aqueles que cumprem pena no cárcere, privados de liberdade, deveriam ser matriculados na escola do trabalho. Só assim terão chance de ser reintegrados ao convívio da sociedade como provedores da família, e não como parasitas da nação.

GESTÃO E CARREIRA

A DIGNIDADE NÃO TEM GÊNERO

O sucesso de iniciativas para acomodar LGBTs no mercado de trabalho e ampliar a diversidade nas empresas

“Como toda mulher trans, encontrei dificuldade de me colocar no mercado de trabalho, mas não por falta de capacidade”, lamenta Joy Agoston. Por meio de uma bolsa universitária, obtida pelo fato de jogar vôlei em uma instituição particular de ensino superior, ela conseguiu se formar em Jornalismo, além de realizar dois intercâmbios durante o período, um para aprimorar o inglês, outro o espanhol. Com o diploma na mão, o momento das primeiras entrevistas de emprego refletiu, no entanto, o preconceito contra transgêneros. “Dava para ver um desconforto no olhar do entrevistador, claramente despreparado para lidar comigo, e assim cheguei a ser reprovada para uma vaga que, depois de dez dias, foi ocupada por uma colega cis, formada na mesma faculdade e com as mesmas capacidades que eu.”

Aos 26 anos, Agoston é um retrato dos problemas que não apenas transgêneros, mas também outros integrantes comunidade LGBTQIA+ enfrentam tanto para serem contratados, passo inicial na luta por um emprego, quanto nas empresas, cujo ambiente costuma reproduzir preconceitos claros, ofensas veladas ou os chamados “vieses inconscientes”, como define a linguagem corporativa. Após um tempo formada e em busca de oportunidades, a jornalista só encontrou seu primeiro emprego no setor de comunicação de uma rede hoteleira, após topar com uma das várias iniciativas que buscam especificamente unir as duas pontas: LGBTQIA+ que querem trabalhar e empresas dispostas a ampliar a diversidade de seu quadro de funcionários.

Consultorias, banco de talentos, plataformas de anúncios de emprego, promotores de palestras e assistentes em processos seletivos, entre outros, os empreendimentos que promovem a diversidade no mercado de trabalho florescem de diferentes formas no País a partir de uma necessidade clara de inclusão, segundo Maira Reis. Fundadora da camaleao.co, responsável por indicar Agoston para a vaga, Reis deu início ao serviço de forma artesanal em 2016, depois de começar a publicar textos sobre diversidade no ambiente profissional e ver sua caixa de e-mails se encher de currículos. Sem desconfiar inicialmente do potencial da empreitada, ela decidiu ligar para uma trans em busca de uma vaga de emprego, ainda sem a perspectiva de prestar um serviço. Foi quando vislumbrou a natureza do empreendimento. Cinco anos depois, com um banco de talentos com mais de 3,5 mil nomes e prestes a lançar uma plataforma profissional exclusiva para esse público – espécie de “vagas.com versão LGBTQIA+” -, a consultora destaca os obstáculos que ainda persistem: “Não adianta apenas contratar sem entender que é preciso criar um ambiente interno de inclusão.”

De acordo com o estudo Proud At Work, realizado em 2019 pela plataforma LinkedIn, 35% dos entrevistados LGBTQIA+ relataram ter sofrido preconceito no ambiente de trabalho. Segundo o levantamento, apenas 50% desses profissionais falam abertamente sobre sua orientação sexual ou identidade de gênero no trabalho e 22% afirmam preferir não tocar no assunto por medo de represálias. Do púb1íco LGUTQJA+ consultado, a maior fatia (29%) recebe de um a dois salários mínimos, 55% tinha o sexo biológico definido como masculino, além de, na orientação sexual, 45% ser homossexual, 35% bissexual, 8% pansexual e 2% assexual. “Não é apenas por contratar alguém da comunidade que a empresa pode se dizer diversa”, afirma a consultora. “É preciso engajar a liderança, desenvolver um código de conduta treinar os profissionais e entrar com tudo nessa mudança, o que pode demorar de dois a três anos para começar a funcionar.” O objetivo, ressalta, não é exatamente – apenas encontrar uma vaga, mas também fazer os clientes atendidos pelo serviço permanecerem nos empregos, o que só se consolida com uma mentalidade de inclusão difundida a longo prazo.

Entre aqueles classificados na sigla LGBTQlA+, Agoston acredita que sejam os transgêneros os que mais sofrem ofensas no trabalho. “Muitas vezes acham que a gente é um extraterrestre e ficam pisando em ovos para falar conosco”, descreve.

Para atender especificamente os transgêneros, a Trans Empregos surgiu em 2013 como plataforma gratuita de anúncio de vagas e banco de talentos. Hoje, incorporou aos serviços cursos de formação, além de projetos para empreendedores, com quase 900 empresas parceiras e 794 empregadas apenas em 2020. À frente da iniciativa, Maite Schneider afirma que os motivos elencados pelas empresas para não contratar trans são basicamente três: a resposta falta de profissionais qualificados”, “não sabem lidar com um profissional assim”, além de que seria preciso “baixar as regras para contratar esses trabalhadores. Todos escondem, no entanto, o preconceito, afirma Schneider. “Não é por falta de habilidades que elas não conseguem, porque temos talentos que atendem a todos os perfis e conseguem entregar exatamente o que os empregadores querem, mas falta a chance. “Não há uma forma exata de criar uma cultura corporativa inclusiva, diz, mas mecanismos para permitir que o assunto seja encarado com respeito e comprometimento, o que também se reflete em maneiras mais seguras de tratar esses empregados, como o uso de nome social, documentos, banheiros, pronomes e outras condições básicas.

Ainda que a diversidade seja um ponto que atrai empregadores que buscam uma imagem mais inclusiva de seus negócios, é preciso atenção para não transformar a decisão em um fim em si mesmo, com início e fim na empregabilidade. A inclusão não só de LGBTQIA+, como de raças e etnias, funciona para potencializar o ambiente de trabalho e criar equipes que fogem dos padrões e estimulam a criatividade, aponta Maite Schneider. “As empresas que entenderam que a diversidade não é só um negócio são aquelas que conseguem ter os melhores resultados.” Maira Reis resume de outra maneira: “Não adianta contratar apenas por caridade”.

Depois de trabalhar três anos no posto alcançado com apoio da camaleão.co, Joy Agoston voltou a procurar trabalho após a pandemia ter pulverizado a receita e os empregos no setor hoteleiro. Mas as exigências do mercado, reclama, não levam em consideração o histórico de vida das candidatas. No país que mais mata transgêneros no mundo, o preconceito é também um obstáculo à educação formal. Exigir, por exemplo, inglês fluente pode ser um problema, pois frequentar o ensino superior ou fazer intercâmbios acontecem raríssimos casos. “É preciso também querer nos ver lá dentro, dar a oportunidade de aprendermos uma vez empregados, e isso parte da vontade que os empregadores têm, porque, competência tenho certeza que possuímos” As empresas que não entendem ou não se interessam por incluir LGBTQIA+ estão fadadas a perder espaço no mercado. no qual a diversidade é cada vez mais exigida por consumidores e investidores, avalia Reis. “As empresas não têm escolha, porque a nova geração é a geração da diversidade. Se eu faço parte da comunidade LGBTQIA+ e sou disputado no mercado de trabalho, logicamente vou para o lugar que tenha políticas para mim e meus semelhantes. “No futuro, sonha Schneider, talvez esse tipo de política afirmativa não seja mais necessário em um mundo onde todos venham a ser tratados de maneira igualitária.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAFIOS DIGITAIS

Infindável mundo de possibilidades, também para as crianças, a internet faz parte cada vez mais cedo da vida delas. No entanto, é preciso cuidado para educar os filhos na era dos tablets e smartphones

Assim como acontece em relação aos adultos, para as crianças a internet também é um maravilhoso mundo de possibilidades. Tanto que seu uso tornou-se corriqueiro nas escolas, onde esse conhecimento por parte das crianças já é tido como certo. Por isso mesmo, elas podem e precisam ser estimuladas e orientadas a navegar desde cedo. E pelos pais! Hoje já se espera que as crianças estejam desenvoltas ao navegar pela rede, ao brincar com jogos interativos e ao se comunicar com os amigos e professores. Também é desejável que sejam autossuficientes nas buscas e pesquisas para seus trabalhos escolares. E sabemos que, quanto mais navegam, mais absorvem conhecimentos vários e vão se aprimorando na exploração do mundo digital em si, gerando uma contínua autoaprendizagem. Fantástico! Entretanto, há riscos.

Tanto acidentalmente quanto movidas pela própria curiosidade, as crianças vão acabar acessando material impróprio para sua idade, imagens que podem ser excessivamente impactantes ou nocivas para a formação de sua personalidade. Imaturas e emocionalmente vulneráveis, elas precisam caminhar sobre um terreno mais seguro para ter um desenvolvimento saudável. Por isso é tão importante estar ciente do que é que elas ouvem e veem na internet, que tipo de informação e conteúdo pesquisam, compartilham e com quem. Só assim é possível conversar sobre isso tudo com elas e orientá-las de acordo com a visão de mundo dos pais.

É preciso que as crianças estejam sob a vista dos pais, para que eles acompanhem sua evolução e descobertas. Os pais devem também ser capazes de ir apresentando-lhes opções interessantes e divertidas, brincando junto, tornando-se parceiros na sua vivência e aprendizado, compartilhando conhecimento e aquisição de conteúdo, além de diversão. Assim, do mesmo modo que é saudável discutir com as crianças um filme assistido juntos, para esclarecer alguns pontos e dar orientação sobre valores e princípios éticos, poderão ser dadas coordenadas que manterão as crianças em processo de aprendizado controlado, direcionadas para conteúdo cada vez mais complexo, mas sempre adequado à sua faixa etária e grau de maturidade.

Levando a sério a tarefa de protegê-las dos perigos do mundo digital, os pais estarão se atualizando sobre os potenciais riscos on-line. Além disso, monitorando o uso que seus filhos fazem da rede, os pais poderão ajudá-los a navegar em segurança. Embora os responsáveis possam (e devam) contar com ferramentas que ajudem a controlar o acesso das crianças a conteúdo adulto e inibam a ação de predadores, ainda assim nada garante que elas estarão 100% seguras. Daí ser tão importante seguir de perto suas atividades na internet e educá-las gradativamente sobre os riscos do mundo on-line.

A preocupação com a educação na era da web é um relato constante dos pais no self terapêutico. E isso leva aos profissionais de saúde mental avaliarem esse fenômeno com ainda mais cautela.

PROTEÇÃO

É preciso entender que, mesmo com a ajuda de bloqueios eletrônicos e proteção ou limitações definidas por dispositivos legais, a única proteção eficiente que as crianças podem ter é a ação dos pais. Por essa razão, a primeira e mais importante parte de toda essa discussão é que os pais têm que saber, no mínimo, tanto quanto os filhos, enquanto eles forem crianças, sobre a tecnologia a que estão expostos. Ninguém conseguirá proteger o filho daquilo que nem ele mesmo conhece. Como ensiná-lo a utilizar o transporte coletivo que o pai nunca usou? Ou trocar impressões sobre o livro que não leu? O meio digital pode se transformar no melhor amigo da criança, pois oferece uma quantidade incrível de conteúdo estimulante, amigável e útil, sem cobrança nem ônus aparente. Essa ideia costuma ser assustadora para os pais, mas é melhor ter consciência dessa tendência, justamente para poder lidar melhor com ela.

A pior atitude que os pais podem ter é acomodar-se com o sossego que as crianças dão enquanto estão entretidas com seus smartphones ou tablets, achando que por estarem dentro de casa e “quietas” estarão seguras. Elas podem até parecer imóveis fisicamente, mas bastou ficar chato um jogo para fechar e buscar outro, ou mudar de aplicativo, ou iniciar uma nova busca na internet, como fazem os adultos. E não dá para ter controle sobre isso tudo se elas forem deixadas a sós com seus dispositivos. Muito menos se puderem usá-los o tempo todo. O tempo de uso precisa ser limitado e, uma vez estabelecido esse tempo, precisa ser respeitado por todos. Afinal, atividades esportivas, brincadeiras ao ar livre e em grupo não saíram de moda e continuam sendo o meio mais saudável e eficiente que as crianças têm para a socialização.

O mundo on-line e os aparelhos eletrônicos já fazem parte da vida diária, e isso é inegável. Então, uma boa dica é explorar o infindável mundo da internet junto com as crianças. Estimulá-las desde cedo com conteúdos lúdicos e adequados à sua fase de desenvolvimento e interesse é uma forma positiva de desviá-las de uma navegação demasiadamente aberta, em que correria maior risco de encontrar materiais inadequados.

Acompanhá-los enquanto baixam e usam novos aplicativos e navegam pelos websites que mais gostam também é uma forma de se inteirar e participar da vida deles, acompanhando de perto, de forma ativa e não invasiva, o que estão fazendo. A atitude dos pais deverá ser parecida com a que teriam ao sentar-se com as crianças para montar um Lego ou brincar com um jogo de tabuleiro. Aliás, essa é uma dica que vai continuar valendo sempre. Nada melhor do que participar da vida dos filhos, acompanhar e tentar entender do que eles gostam e fazem, seu estágio de aprendizagem, nível de dificuldades, talentos que começam a despontar etc. Tudo isso para estar perto deles, estreitando laços e cumplicidade para minimizar as chances de ter surpresas desagradáveis. É preciso, ainda, falar com as crianças sobre essas preocupações, a fim de que fiquem cientes que há perigo na rede e possam ter a liberdade de expressar-se caso sinta algo estranho.

Quando se colocam regras, as crianças costumam reclamar e elas sempre tentarão desobedecer. É natural que seja assim, é seu papel porque são imediatistas e movidas pelo instinto do prazer. Cabe aos pais serem sensatos ao decidir quais limites impor e serem coerentes para cobrar que esses limites sejam respeitados. É quase inevitável que, mesmo esforçando-se muito para manter-se atuante e antenado, em algum momento os pais vão se dar conta de que seus filhos já sabem mais do que eles sobre toda a parafernália tecnológica. E aí, o que vai contar mesmo, é a qualidade da relação e reciprocidade de confiança que se estabeleceu entre filhos e pais. Eles levarão alguns sustos, tropeçarão aqui e ali e poderão sofrer também, mas estarão aparelhados para superar o que vier, porque os pais os acompanharam enquanto puderam. Na medida do possível, poderão contar com os pais para apoiá-los. Ou terão aprendido a se defender sozinhos, com o apoio recebido desde sempre.

Não gosto de tons alarmistas quando uma orientação sutil basta, mas este não me parece ser o caso, infelizmente. Recomendo enfaticamente, como profissional da área PSI, que os pais busquem constantemente toda informação e orientação que for possível em fontes confiáveis. Ao invés de repetir aqui as dicas dos profissionais em tecnologia, preferi deixar que eles falem por si mesmos, melhores conhecedores que são nesse tema. No entanto, a tecnologia evolui tão rapidamente que é preciso seguir se atualizando e buscando novas fontes mais recentes o tempo todo. Os perigos a que as crianças e adolescentes estão expostos são tantos e tão difíceis de serem evitados que a chance de algo desagradável acontecer não é pequena se os pais não estiverem próximos e bem informados. Há links maliciosos, rastreamento facilitado, assédio, bullying, spam, plugins, abuso, “amizades” mal-intencionadas, difamação, golpes diversos, pedofilia, montagem de imagens etc., uma lista infeliz de situações que ocorrem, triste dizer, diariamente com internautas desavisados. Isso sem falar nos acessos acidentais a conteúdos e imagens perturbadoras de violência e pornografia.

DISFUNÇÕES EMOCIONAIS

Outra questão que começa a ganhar importância entre os profissionais de saúde refere-se a possíveis disfunções emocionais e comportamentais decorrentes do início precoce do uso de meios digitais, aliado ao seu uso excessivo. A Sociedade Brasileira de Pediatria, a exemplo da American Academy of Pediatrics, aconselha que as crianças sejam apresentadas ao mundo digital somente a partir dos dois anos de idade. Também estabelece que esse uso seja bastante reduzido, priorizando-se sempre as interações pessoais. Mas não é isso que está ocorrendo. Hoje muitas crianças começam a interagir com tablets e outros dispositivos com menos de um ano de idade. E crescem usando-os continuamente, como vêm fazendo as crianças mais velhas, adolescentes e adultos. E quanto à comunicação, feita preferencialmente por mensagens de texto e envio de emojis, sem dúvida há potencial para acelerar o processo de alfabetização, mas de um modo muito diferente de tudo aquilo que vimos até aqui. Como lidar com essa realidade que se impôs irreversivelmente, subvertendo de tal modo a ordem das coisas que tornou obsoleto quase todo o conhecimento que detínhamos?

Talvez devamos lançar um novo olhar sobre toda a problemática da aprendizagem e admitir que não estamos devidamente preparados para ensinar nossas crianças. Elas sabem menos do que os seus professores, evidentemente, mas a maioria delas têm mais domínio do que eles em outras competências, como a tecnologia. E essa competência lhes dá acesso imediato e muito direto ao conhecimento, em vários casos prescindindo mesmo do professor. Nunca antes houve tal situação em nossa história. Como afirmou Ray Kurzweil, futurista e diretor de Engenharia do Google, “uma criança na África com um smartphone tem mais poder na sua mão do que o presidente dos Estados Unidos tinha 15 anos atrás, em termos de acesso ao conhecimento e à informação!”.

Mas e o equilíbrio entre o seu desenvolvimento emocional e intelectual, que lhe sustente e proporcione maturidade para assimilar de forma saudável todo esse aprendizado tão precocemente? E o que dizer dos pais modernos que, a pretexto de estar presentes na rotina dos filhos, enviam-lhes várias mensagens de texto ao dia? Alguns pediatras e especialistas em orientação de pais afirmam que essas crianças não estão se conectando emocionalmente com qualidade, devido à pouca vivência de contato olho no olho. Elas estariam com dificuldade de identificar e interpretar expressões faciais e não desenvolvem empatia porque não praticam o contato visual. Segundo Marc Brackett, da Universidade de Yale, “as crianças querem ser abraçadas e tocadas, elas precisam ter suas necessidades básicas supridas, e não receber mensagens de texto de seus pais”.

RELAÇÃO PESSOAL

As crianças continuam precisando passar mais tempo conversando pessoalmente, correndo, andando de bicicleta e expressando-se diretamente com outras crianças, sendo impactadas com a relação pessoal.

Crianças que gastam muito tempo se comunicando através de tecnologias não conseguem desenvolver as habilidades básicas de comunicação que as pessoas vêm usando desde sempre. Comunicar-se não é apenas conhecer e ler as palavras, envolve o tom de voz, o olhar, as expressões faciais, a linguagem corporal, muitos sinais que são percebidos somente na relação pessoal. É importante que a família invista em ter momentos de descontração e interação não mediada pela tecnologia, e creio também que o limite e a adequação a cada caso precisam ser pensados em conjunto pelo casal. A seguir, o casal deverá ouvir também o ponto de vista das crianças e, juntos, poderão escolher o melhor formato para sua rotina diária. Se a escolha conseguir contemplar tanto os interesses de cada um quanto a preservação dos hábitos saudáveis básicos, como respeitar as horas de sono, alimentação, estudos e atividade física, com compartilhamento pessoal das experiências, ótimo!

Não vejo, porém, por que culpar a tecnologia. Afinal de contas, crianças negligenciadas e sós sempre existiram. A diferença é que antes, na ausência dos tablets e smartphones, elas se ocupavam de outro modo. A ideia central para se ter em mente é que, com base na confiança e no diálogo, é possível criar um ambiente de confidencialidade e conexão forte, natural entre pais e filhos. E ao se construir esse universo que favorece o verdadeiro relacionamento, as crianças vão sendo preparadas de forma eficiente para lidar com todos os riscos do mundo, sejam eles digitais ou não.

EU ACHO …

AS MARAVILHAS DE CADA MUNDO

Tenho uma amiga chamada Azaleia, que simplesmente gosta de viver. Viver sem adjetivos. É muito doente de corpo, mas seus risos são claros e constantes. Sua vida é difícil, mas é sua.

Um dia desses me disse que cada pessoa tinha em seu mundo sete maravilhas. Quais? Dependia da pessoa. Ela então resolveu classificar as sete maravilhas de seu mundo.

Primeira: ter nascido. Ter nascido é um dom, existir, digo eu, é um milagre.

Segunda: seus cinco sentidos que incluem em forte dose o sexto. Com eles ela toca e sente e ouve e se comunica e tem prazer e experimenta a dor.

Terceira: sua capacidade de amar. Através dessa capacidade, menos comum do que se pensa, ela está sempre repleta de amor por alguns e por muitos, o que lhe alarga o peito.

Quarta: sua intuição. A intuição alcança-lhe o que o raciocínio não toca e que os sentidos não percebem.

Quinta: sua inteligência. Considera-se uma privilegiada por entender. Seu raciocínio é agudo e eficaz.

Sexta: a harmonia. Conseguiu-a através de seus esforços, e realmente ela é toda harmoniosa, em relação ao mundo em geral, e a seu próprio mundo.

Sétima: a morte. Ela crê, teosoficamente, que depois da morte a alma se encarna em outro corpo, e tudo começa de novo, com a alegria das sete maravilhas renovadas.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

 O INFERNO SÃO OS OUTROS

Nunca foi simples dividir as tarefas do cotidiano com a atenção aos filhos e ao cônjuge – é da condição humana. Mas a quarentena tem inaugurado novos conflitos domésticos

Escrito em 1944 o drama teatral Entre Quatro Paredes, de Jean-Paul Sartre (1905 – 1980), rapidamente saiu da alta-roda da intelectualidade francesa, embebida da beleza da narrativa de três personagens trancados em um quarto, metáfora das trevas, para conquistar imenso apelo popular – deu-se o salto, que reverbera até hoje, em virtude de uma máxima filosófica: “O inferno são os outro”. O inferno sempre são os outros, e os momentos de dificuldades parecem multiplicar essa impressão. Não é fácil um casal, uma família, estar dentro de casa, em confinamento – entre quatro paredes para não perder o tom da prosa -, e manter o bom humor, o respeito. Foi sempre assim, o trancamento a serviço de explosões mercuriais.

É tema que, em alguns casos brilhantemente, em outros como pastiche, conduziu filmes de sucesso como A Guerra dos Roses (1990) e Sr. & Sra. Smith (2005). Há um sem-fim de atalhos para acender o rastilho de pólvora, e um muito frequente, contumaz, é a conciliação entre o cotidiano doméstico e os filhos. Dá briga, mas pesquisa feita pelo instituto americano Morning Consult, a pedido do The New York Times, mostrou que a árdua tarefa de lidar com a educação das crianças tem sido interpretada de modo diferente pelos cônjuges. Quando se indaga aos maridos quem ajuda mais, 45% dizem ser eles. A mesma pergunta feita às mulheres entrega outra resposta: elas afirmam cuidar de 80% das atividades com os filhos. Ou seja: no mundo pandêmico, tudo leva a crer que as tarefas estão sendo compartilhadas como sempre foram, desigualmente (salvo as louváveis exceções) – ou então há percepções diferentes, irreconciliáveis.

Quando as coisas degringolam, atrelada à história que já crescia ante do vírus, dá-se o pior dos cenários, com o apagar das chamas, e o que era infinito deixa de sê-lo. Um levantamento feito mostrou que o número de novos processos de separação em escritório de advocacia cresceu 20%  desde o começo do isolamento, comparado ao mesmo período do ano passado. “Os discursos são parecidos, as pessoas relatam estar sufocadas, sentindo-se aprisionada nas relações”, diz Luiz Kignel, especializado em direito de família e sócio do escritório PLKC, de São Paulo. Novos tempos são sinônimo de novas situações para além dos transtornos habituais. Um desembargador da 29ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu recentemente que um casal em conflito que dividia o apartamento na Zona Norte de São Paulo teria de manter a distância de um cômodo a fim de romper o ciclo de desavença então recorrente no período de isolamento social, enquanto ambos trabalhavam em home office. Caso a medida fosse descumprida, seria necessário pagar uma multa de 500 reais a cada vez que o espaço fosse invadido.

É, naturalmente, fenômeno global, chamariz para inéditas saídas. No Japão, uma empresa passou a oferecer apartamentos mobiliados no estilo Airbnb a pessoas descontentes com o matrimônio para que pudessem passar um período, digamos, de quarentena, para “esfriar a cabeça” antes de decidir, de vez, pelo fim da relação. Um badalado casal brasileiro, formado pelo youtuber e humorista Whinderson Nunes e pela cantora Luiza Sonza, casados há dois anos, não aguentou o tranco do trancamento. Publicamente, a culpa foi colocada no lockdown doméstico – antes, com agendas atribuladas e distintas, tocavam o barco cada qual a seu modo. A união forçada desandou o acordo. “O confinamento pode dificultar muito a vida em um relacionamento, é saudável e desejado tentar buscar algum tipo de distanciamento do parceiro durante o dia”, diz Hélio Roberto, professor do Departamento de Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Pauto (PUC-SP). Outro atalho de pacificação, e que vale para a vida, é o equilíbrio.

Ele é fundamental para manter de pé o acordo de guarda compartilhada e pensão alimentícia dos filhos de casais já divorciados. Principalmente quando o combinado começa a ruir em decorrência de percalços no novo cenário. É o que aconteceu com o médico cardiologista Fabio Vivian Ferreira. Ele está há dois meses sem conseguir visitar a filha de 2 anos que mora com a mãe, no Estado de Goiás. Pelo aumento drástico na carga de trabalho e pela evidente dificuldade de viajar neste período, o único jeito de manter contato com a menina é por meio de videochamadas, que ocorrem em dias preestabelecidos. A solução, no entanto, tem problemas. “É um pesadelo, as chamadas nem sempre funcionam bem e sinto que estamos perdendo nossa conexão”, lamenta ele que procurou sua advogada para aconselhar­ se sobre como negociar melhor horário e regra para o encontro virtual. Em situações como essa, dizem os especialistas em família, impera em primeiro lugar o bem-estar da criança. “É preciso propor a harmonia de todos os envolvidos, ainda mais em um período de pandemia. Apesar do atual momento, a criança sempre terá o direito de convivência com os dois pais”, diz o advogado Renato de Mello Almada, do escritório Chiarottino e Nicoletti. O diálogo, a cautela e a paciência são armas fundamentais em tempos tão difíceis – sobretudo entre quatro paredes, para que o inferno não sejam os outros.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 16 DE MAIO

PLANEJAMENTO, AS SEMENTES DO FUTURO

Acaso não erram os que maquinam o mal? Mas amor e fidelidade haverá para os que planejam o bem (Provérbios 14.22).

Não podemos construir uma casa sem uma planta. Não podemos fazer uma viagem sem decidir antes o roteiro. Não podemos iniciar um empreendimento sem examinar primeiro os custos. É insensatez agir sem planejamento. Quem age sem planejar planeja fracassar. O planejamento são as sementes do futuro. Há pessoas que maquinam o mal e gastam seu tempo, suas energias e sua vida cogitando formas e meios de extorquir o próximo para adquirir riquezas ilícitas. Esses pecam contra Deus, contra o próximo e contra si mesmos. Na busca de uma felicidade egoísta, colhem amarga infelicidade. No entanto, aqueles que planejam o bem e empregam sua potencialidade para buscar meios de abençoar as pessoas encontram nesse planejamento amor e fidelidade. É impossível planejar o bem sem ser governado pelo vetor da fidelidade pessoal e do amor ao próximo. O bem não transige com a falta de integridade. Onde a integridade precisa ser comprometida, desse ninho a fidelidade já bateu asas. Onde o amor ao próximo não pode ser praticado, o que resta é maldade, e não o bem. Que tipo de planejamento ocupa sua mente e seu coração? Que colheita você fará no futuro?

GESTÃO E CARREIRA

BIG TECHS AMPLIAM SEU PODER

Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google têm resultados excepcionais com a pandemia

Já era esperado que a pandemia acelerasse mudanças no ambiente de negócios global. Essa transformação parece já ter se concretizado com a ampliação do poder das cinco gigantes da tecnologia – Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google –, que aceleraram sua expansão. As companhias tiveram faturamento e lucro líquido recordes no 1º trimestre de 2021. Juntas, as cinco corporações, chamadas pela sigla em inglês FAAMG, faturaram US$ 322,5 bilhões (R$ 1,75 trilhão) e deram um lucro líquido de US$ 73,9 bilhões (R$ 401,2 bilhões) aos acionistas. Como resultado, as empresas encerraram o trimestre com a cifra de US$ 467 bilhões (R$ 2,5 trilhões) em caixa, o que representa metade da dívida brasileira.

Os resultados refletiram o aumento das compras dos produtos de tecnologia pelos consumidores durante a pandemia, alavancadas pela recuperação da China e o generoso pacote de US$ 1,9 trilhão do presidente americano Joe Biden aos consumidores nos Estados Unidos. Além disto, os resultados refletem o avanço dos serviços digitais, processo considerado irreversível e que foi catapultado pelo home office e pelas restrições de circulação causadas pelo coronavírus. “A Apple, por exemplo, tirou seus serviços da cartola, com uma margem bruta de 66%, que é o dobro da margem obtida com a venda dos produtos”, comenta Alberto Amparo, analista de investimentos da Suno Research. “No caso da Amazon, houve crescimento exponencial nas vendas, como computação em nuvem. É um ecossistema, onde quanto mais empresas entram, maior é o tráfego.”

Com a migração mais forte para os serviços, em detrimento dos produtos, a tendência é que as corporações faturem ainda mais no futuro. “A estratégia delas é primeiro conseguir o cliente e depois monetizar”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DELINQUÊNCIA FEMININA

É preciso desfazer o tabu que ainda grassa no seio da coletividade, de que a mulher delinque menos do que o homem porque é o “sexo frágil”

Inúmeras quadrilhas foram desbaratadas tendo por chefes mulheres. Algumas não queriam ser apenas membros das quadrilhas, mas chefiá-las e o fizeram com competência criminal e com frieza idênticas às dos grandes inimigos da sociedade.

Hoje não é só no crime que a mulher está ombreada ao homem, pois já temos muitas autoridades policiais mulheres, agentes femininas em grande número, magistradas, militares, astronautas… Onde a mulher não chegou, com muita capacidade, competindo com o homem de igual para igual, na luta pela vida?

Não é mais possível sustentar o acanhado ponto de vista de que a mulher é o ”sexo frágil ” e por esta razão não delinque no mesmo grau que os maiores psicopatas masculinos da história. Até mesmo nos romances as mulheres que desmaiavam vendo sangue ou na presença de baratas e ratos, sumiram completamente.

Todos sabemos que nas faculdades de medicina há mais mulheres do que homens. Recorde-se, também, que o número de cirurgiãs e de intensivistas é enorme, bem como o de mulheres empunhando revólveres e metralhadoras, praticando assaltos, sequestros, atos terroristas e tráfico de drogas.

Então vem a pergunta: por que, no século XX, as mulheres delinquiam bem menos do que os homens?

Evidentemente a resposta não está em uma única explicação, uma vez que influem, na gênese de todos os crimes, inúmeros fatores psicológicos, fisiológicos, sociais e culturais. Porém, a igualdade do homem e da mulher no aspecto criminal passa, obrigatoriamente, por um fato deveras importante: a civilização moderna que, desde o início do movimento feminista nos anos 1950, tirou a mulher de sua casa, local em que as antigas civilizações a tiveram encerrada. Levou-a à vida agitada, ao acesso ilimitado à cultura, abriu-lhe as portas de um mundo cheio de dores e de estímulos, de tentações e de ilusões. Libertada da escravidão e detonado o velho homem machista, ignorante que pensava que a mulher era sua propriedade por ser o único provedor da casa, abandonou a zona de sombra em que se encontrava e mostrou que a fortaleza não é privilégio de qualquer dos sexos: há homens fracos e mulheres fortes, e todos se igualam no crime, na maldade, bem como na virtude e na bondade.

Porém, há certos tipos de crime que são quase que exclusividade das mulheres e outros, dos homens. Por exemplo, para elas reserva-se a ocorrência do infanticídio – assassinato do próprio filho em estado puerperal, que está sempre relacionado a algum transtorno mental grave -, raríssimo nos homens. Para eles, a pedofilia, raro nas mulheres, porque a gestação e a maternidade são dois momentos sublimes que a natureza ofertou somente às mulheres, dando-lhes proximidade umbilical com os menores, o que vai influenciar positivamente na formação dos valores éticos e morais e na consequente repulsa a crimes de abuso sexual infantil.

Assim, com exceção de algumas características peculiares aos dois sexos, a bem ver, ambos são iguais perante os crimes.

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo

EU ACHO …

A CRISE

Foi então que ela atravessou uma crise que nada parecia ter a ver com sua vida: uma crise de profunda sensibilidade. E um dos sintomas era a piedade pelos outros e por si própria. E a cabeça tão limitada, tão bem penteada pelo cabeleireiro da moda, mal podia suportar perdoar tanto. No Theatro Municipal, na sua frisa, não podia olhar o rosto de um tenor enquanto este cantava alegre – virava para o lado o rosto magoado, era insuportável, ela não suportava o patético da glória efêmera do cantor. Na rua, de repente, comprimia o peito – assaltada de perdão. Ela sofria muito.

Essa mesma senhora, que sofreu de sensibilidade como se passa por um sarampo, essa mesma senhora escolheu um domingo em que o marido viajava para procurar a bordadeira. Era mais um passeio que uma necessidade. Isso ela sempre soubera: passear. Como se ainda fosse a menina que passeia na calçada. Sobretudo neste sarampo-de-sensibilidade, passeava muito quando sentia que o marido a enganava. Assim foi procurar a bordadeira no domingo de manhã. Teve que subir por uma rua cheia de lama, de galinhas soltas e de crianças seminuas e barrigudas – onde fora se meter! No próprio centro da piedade. A bordadeira, na casinhola cheia de filhos com cara de fome, o marido tuberculoso – a bordadeira se deu ao luxo de recusar a bordar a toalha porque não gostava de fazer ponto de cruz! Saiu afrontada e perplexa. Sentia-se tão suja pelo calor da manhã, e um de seus prazeres era pensar que sempre fora imaculada. Em casa almoçou sozinha, deitou-se no quarto meio escurecido, oh pelo menos uma vez não sentia nada. Senão a perplexidade diante da liberdade de criação da bordadeira no entanto necessitada de dinheiro. Deitada talvez com um sentimento de espera. A liberdade?

Até que, dias depois, num chá de caridade, a sensibilidade se curou assim como uma ferida seca. Aliás, um mês depois, teve o seu primeiro amante, o primeiro de uma alegre série.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O LEITE DAS PLANTAS

Novos hábitos de alimentação saudável popularizam o consumo de bebidas vegetais no País e motivam grandes fabricantes de laticínios a entrar no mercado

Nunca se consumiu tanto leite vegetal no Brasil. Alternativa para quem quer ter uma alimentação mais saudável e balanceada, o produto caiu de vez nas graças dos consumidores nos últimos anos. Se antes era consumido majoritariamente por pessoas adeptas da dieta vegana ou vegetariana, agora especialistas afirmam que a variedade de sabores acabou com esse mito e atraiu novos adeptos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os brasileiros consomem mais produtos industrializados do que vegetais, mas há uma margem de crescimento considerável para produtos sustentáveis. Bebidas produzidas a partir de sementes de amêndoas, aveia, arroz, castanha de caju, coco, entre outros, estão em alta. “O leite vegetal é um leite com perfil menos inflamatório, menos alergênico e com menor quantidade de hormônios do que o de vaca”, afirma Fernanda Scheer, nutricionista funcional. “Quanto menos ingredientes e menos processado o produto for, melhor”, acrescenta.

A especialista em alimentação consciente Camila Espinosa conta que o hábito de ler os rótulos dos alimentos no momento da compra para conhecer os nutrientes não é uma pratica comum, mas deveria ser, visto que o excesso de açúcares, gorduras e conservantes causam doenças graves como diabetes, além de aumentar problemas como a intolerância à lactose. Além disso, os bons leites vegetais são alimentos equilibrados. “É preciso ter cuidado. Não adianta comprar um produto sem saber os ingredientes”, afirma. A penetração do leite vegetal no mercado brasileiro gira em torno de 1,8%, enquanto que nos Estados Unidos ultrapassa os 14%.

MERCADO ESTRATÉGICO

Empresas como a Vigor e Piracanjuba adotaram linhas de alimentos naturais recentemente, o que mostra uma nova estratégia de mercado, visto que o Brasil é o quinto país que mais consome leite no mundo. “Quando um gigante investe na área, é um bom sinal”, ressalta Giovanna Meneghel, CEO da Nude, especializada na produção de leite a partir da aveia. A empresa se lançou no mercado em dezembro e em pouco tempo já caminha para o terceiro lote de produção. Quem quiser provar leite vegetal encontra o produto em supermercados e lojas de alimentos naturais. Os preços do litro variam de R$ 9,99 até R$ 40 e há uma infinidade de sabores. E, definitivamente, seu consumo já não é mais uma exclusividade de veganos e vegetarianos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 15 DE MAIO

A FELICIDADE DA COMPAIXÃO

O que despreza ao seu vizinho peca, mas o que se compadece dos pobres é feliz (Provérbios 14.21).

O desprezo ao próximo, especialmente ao vizinho, é uma atitude reprovável em qualquer código moral criado pelos homens e também uma afronta à lei de Deus. Devemos amar e abençoar nosso vizinho em vez de desprezá-lo. Devemos buscar oportunidades para servi-lo em vez de ignorá-lo. O desprezo ao vizinho é uma atitude insensata, pois quem semeia desprezo colhe solidão. Quem deixa de investir na vida das pessoas mais próximas acabará seus dias no mais doloroso ostracismo. A felicidade não está em vivermos de forma egoísta, mas em sermos compassivos e generosos, especialmente com aqueles que jazem à nossa porta. O que se compadece dos pobres é feliz. Quem tem o coração franqueado para amar e o bolso aberto para socorrer aos necessitados desfruta da verdadeira alegria. A generosidade é uma fonte de prazer. O amor ao próximo é o elixir da vida, o tônico da longevidade e a essência da própria felicidade. Quem dá ao pobre empresta a Deus. A alma generosa prospera. Quem semeia na vida do pobre as sementes da bondade semeia num campo fértil e terá colheita abundante. O semeador encontra na própria ação de semear uma alegria indizível e, ao fim, ainda terá uma recompensa que não necessariamente vem da terra, mas certamente virá do céu.

GESTÃO E CARREIRA

NEGOCIAÇÃO: HABILIDADE EM FOCO

Aprimorar as táticas de conversação e a capacidade de aceitar o diferente como parte de um procedimento em busca da solução deve ser um caminho para o sucesso na empresa

Quando Darwin discorria em sua obra sobre a evolução das espécies deixou claro que são aquelas que melhor se adaptam no ambiente que sobrevivem e que, necessariamente, não são as mais fortes. No momento atual, agregar valores e diluir conflitos é um ponto importante em qualquer instituição e, embora isso seja, culturalmente falando, uma atribuição do gestor, também deve ser uma constante na mente de cada colaborador.

Quase sempre estamos dependendo do outro para alcançar nossos objetivos. Por isso, a negociação está presente no dia a dia em todos os ambientes através de situações simples como decidir onde será a reunião dessa semana, ou complexas, onde postos de trabalhos podem ser suprimidos. Assim, estar dialogando com os elementos de uma instituição é um exercício de clarificação da comunicação e assertividade, principalmente no quesito emocional.

Dessa forma, saber negociar é uma qualidade indispensável para quem deseja alcançar sucesso no ambiente corporativo. John Nash, matemático americano, recebeu um prêmio Nobel graças à sua participação na elaboração na Teoria dos Jogos. Essa teoria, hoje aplicada em quase todos os ramos onde exista interação entre humanos, fala sobre a possibilidade de se buscar o melhor resultado possível de forma que todos os participantes envolvidos na disputa obtenham frutos positivos também. Seria como uma troca de concessões, onde todos os lados pudessem sair ganhando. Todas as organizações de uma maneira geral dependem da cooperação entre os seus colaboradores e outras instituições para obterem resultados positivos no mercado. O processo comunicacional é o elemento fundamental para se estabelecer trabalho conjunto efetivo e o conflito é a quebra de pacto pela produtividade.

No entanto, existem diferentes características de personalidade, diversas estruturas socioculturais de onde se originam os integrantes da estrutura e, isso, vai definir suas atitudes, e a natureza de seus relacionamentos, tipos de acordos possíveis e o compromisso posterior com as decisões tomadas.

Não se trata de uma regra matemática em que diferentes valores, quando somados repetida vezes, irão apresentar os mesmos resultados. O ser humano é complexo e demanda certa flexibilidade de estratégias quando se deseja sucesso na negociação.

Podemos elencar três características básicas necessárias para uma boa argumentação durante a negociação: conhecimento, habilidades e atitudes. Não se pode entrar em uma negociação onde o tema é desconhecido ou se têm poucas referências, e negociar também depende de uma certa dose de habilidade conversacional. Por último, é necessária a atitude de querer alterar o processo final. Resumindo: trata-se de uma habilidade que pode ser desenvolvida, pois é importante em qualquer estrutura.

Sempre teremos opiniões divergentes de como solucionar demandas. Um gestor, mesmo tendo autoridade para as intervenções, também deve ouvir outros posicionamentos que podem apresentar criativas soluções ou argumentos convincentes. Reconhecidamente, nos dias atuais, a questão da mobilidade e flexibilidade é imperativa no universo corporativo. Sem a devida atenção, oportunidades podem ser desperdiçadas e interesses contrariados. A necessidade do olhar global, e não só nos próprios interesses, é uma premissa básica para uma competitividade saudável.

O então ministro do Comércio e Desenvolvimento Internacional da Inglaterra disse certa vez em 2007: “No século XX, a potência de um país era medida pelo que ele poderia destruir. No século XXI, a força deve ser medida pelo que somos capazes de construir juntos”. Para isso a negociação é a ferramenta mais importante: aglutinar valores.

Manter a ética profissional e o respeito aos posicionamentos diversos também é um exercício de empatia: a capacidade de se colocar no lugar do outro. Até mesmo em uma entrevista de recrutamento e seleção, antes de adentrar o ambiente corporativo. já é avaliada a capacidade do possível futuro colaborador em lidar com conflitos e qual o seu nível de habilidade em negociação.

Na verdade, qualquer diálogo já é um pequeno exercício de negociação. Seja em um momento social ou familiar, longe das decisões profissionais, ter a capacidade de lidar com antagonismos, sem criar dicotomias, limitando-se apenas a dois posicionamentos (certo ou errado), deve alavancar melhores relacionamentos. Sabemos que o departamento de RH de qualquer empresa deve funcionar corno um coração que bombeia sangue renovado para todo o organismo. Ser um desses profissionais requer atenção à fluidez da comunicação entre as partes integrantes de uma estrutura organizacional. Lançar mão de treinamentos e dinâmicas onde partes opostas interagem em busca de recursos para solucionar tarefas é um bom meio de criar sinergia. Onde existe uma boa sinergia ocorrendo entre os colaboradores existe também a certeza de sucesso à frente.

JOÃO OLIVEIRA – é psicólogo, mestre em Cognição e Linguagem, pós-graduado em Hipnose Clínica Hospitalar e Organizacional, em Psicologia Humanista Existencial e em Cultura, Comunicação e Linguagem. Diretor de Cursos do ISEC – Instituto de Psicologia Ser e Crescer. Autor dos livros Jogos para Gestão de Pessoas: A maratona para o desenvolvimento organizacional; Saiba Quem Está à sua Frente; Análise comportamental pelas expressões faciais e comportamentais e Ativando o Cérebro para Provas e Concursos (Todos pela Editora Wak)

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS NEUROCIÊNCIAS MUDAM A EDUCAÇÃO?

Para direcionarem de forma mais eficaz a aprendizagem infantil, os educadores devem conhecer a diferença entre os denominados “períodos críticos” e “períodos sensíveis” do desenvolvimento cerebral

Existirão realmente as chamadas “janelas de oportunidades”, fases que aparecem durante os primeiros anos de vida e que se revelam de excelência para determinados aprendizados? Essas e outras perguntas começaram a surgir após estudos realizados por volta de 1970 por Konrad Lorenz. Etólogo, observou que algumas aves, logo que nascem e por apenas um curto período de tempo, prendem-se permanentemente a um ser ou objeto que se mova. Esse fenômeno funciona como uma janela que se abre e se fecha, daí o nome pelo qual se tornou conhecido.

A partir de então, muitos estudiosos se empenharam em analisar, desde a importância da influência de um ambiente rico e estimulante sobre o cérebro infantil até o alcance que tal estimulação pode ter em diferentes fases da vida. Ainda, se preocuparam em analisar as consequências que uma combinação de grande variedade de estímulos novos durante um tempo reduzido para a sua assimilação (hiper estimulação) pode causar sobre o sistema nervoso em desenvolvimento. Dois pontos importantes para se ter em mente, ao iniciar o assunto, são o fato de que, enquanto o desenvolvimento neurológico do cérebro infantil acontece em fases ou ciclos, o desenvolvimento cognitivo ocorre de forma diversa, já que depende da interação do potencial do indivíduo com o meio ambiente. Ou seja: há um expressivo acréscimo neuronal durante os primeiros anos de vida, que prepara de modo natural as diferentes áreas cerebrais para os processos de estimulação associados a tais áreas, que ocorrerão posteriormente.

Esses primeiros são os chamados períodos críticos do cérebro, que possuem um momento determinado para ocorrer em todas as crianças, pois não dependem de nenhum outro estímulo senão do próprio sistema nervoso, que promove o desencadeamento de sua formação por meio de um crescimento expressivo de conexões neuronais desde a idade pré-natal até os 6 anos, principalmente. Trata-se de um processo neurobiológico que já prenuncia futuras possibilidades para funções importantíssimas, como visão, audição etc., e que deve estar concluído em determinadas épocas sob pena de prejuízos irreversíveis.

Desse processo participam áreas muito especificas do cérebro, dirigidas às funções sensoriais que não exigem treinamento ou constância na estimulação. Portanto, é um período em que tanto a educação, a aprendizagem, o aparato emocional ou social pouco podem influenciar para desencadear a nova rede neuronal. O cérebro, uma vez desenvolvido, aguarda um estímulo para desencadear a formação da rede de neurônios responsável por essas incitações.

Nos chamados períodos sensíveis, a motivação e a complexidade da influência ambiental tão diversas sobre cada criança, determinam uma época mais propícia para cada aprendizagem, pois coincidem com uma fase na qual o cérebro está predisposto a determinadas mudanças, o que o torna mais suscetível às ações educativas e às trocas de experiências com o meio.

Nesses períodos sensíveis, mais frequentes durante a infância e adolescência, mas não exclusivos a essas épocas, o cérebro está orientado para desenvolver processos intricados como é a aprendizagem: há um expressivo favorecimento para se estabelecerem conexões entre áreas cerebrais distintas e integração de processos cognitivos, que são indispensáveis à complexidade crescente da vida acadêmica. Questões relativas à motivação, ao prazer pela novidade, à criatividade, à sociabilidade, aos aspectos emocionais são parte coadjuvante desse processo.

Entre 3 e 16 anos de idade ocorre uma grande quantidade de interações nas diversas áreas cerebrais, determinando a condição de excelência para o início da educação escolar, do aumento crescente de habilidades que permitirão a aquisição de aprendizagens de grande impacto como a leitura e a escrita, a adaptação ao meio social, o equilíbrio emocional da criança nos diferentes ambientes, o incremento de valores culturais e morais.

Os estudos a partir da neuroimagem vieram confirmar que essa evolução natural não ocorre simultaneamente nas diferentes regiões do cérebro e sempre começam nas áreas primárias e vai se estendendo às secundárias e terciárias, em cada um dos lóbulos, começando pelo hemisfério esquerdo (habilidades cognitivas), passando pela área dorso lateral do córtex pré-frontal, responsável pelas funções executivas, e finalmente pelo córtex lateral órbita-frontal, responsável pelo controle dos impulsos, por volta dos 20 anos.

Entretanto, além do córtex, o cérebro é composto pela substância branca, cujo crescimento é muito mais linear que o da substância cinzenta, sem significativas diferenças entre os lobos, e ocorre de modo progressivo até os 40 anos. Na adolescência essa substância se desenvolve de modo acentuado e permite uma capacidade extraordinária para estabelecer conexões entre áreas cerebrais distantes, crescimento acentuado das funções cognitivas, adaptabilidade social, ética e moral.

Esses e outros conhecimentos das Neurociências mudam a educação? Não exatamente, mas têm mostrado que são capazes de ampliar e embasar o conhecimento teórico e prático sobre como melhorar a aprendizagem do aluno. E muito importante, dão aos profissionais da educação a comprovação inegável de sua responsabilidade perante a condução do processo de ensino-aprendizagem.

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.

irenemaluf@uol.com.br

EU ACHO …

VARIAÇÃO DO HOMEM DISTRAÍDO

Está de óculos e no entanto procura os óculos pela casa inteira. De vez em quando lhe ocorre com alegria: que sorte a minha, a de hoje ver tudo tão claro – isso me ajudará a procurar e achar meus óculos. Às vezes, no meio da procura, chega a pensar: estou vendo tão bem que até é capaz de não precisar mais de óculos nem para ler. Só foi dar conta que estava com os óculos no rosto quando, antes de dormir, ajeitou-os para ler: sentiu com estranheza mais um traço fisionômico. E a verdade é que ficou muito decepcionado: era natural que eu pensasse não precisar mais de óculos.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

OBRAS MIRABOLANTES

Marcadas pela ousadia e criatividade, surgem em várias partes do mundo construções radicais e (quase) impossíveis. O objetivo é um só: atrair turistas

A extravagância e o apelo artístico chamam a atenção da humanidade. Ao nos depararmos com criações arquitetonicamente grandiosas que nos enchem de dúvidas e espanto, a vontade imediata é de experimentar, ver de perto, tocar se for possível. Por exemplo, o edifício Lótus em Wujin, na China, além da beleza, o prédio remete à relação que o povo chinês tem com a planta, conforme a tradição budista, inaugurada em 2013, a construção já se tornou um marco cultural da sociedade. Outra obra que mexe com a imaginação das pessoas é a piscina flutuante instalada no edifício Embassy Gardens, de Londres. Essa criação arquitetônica consegue unir raridade com viés de requinte. A piscina foi construída na cobertura ligando dois prédios. Para quem está se refrescando lá em cima, a sensação é de estar flutuando. Por outro lado, para quem está no chão, olhando a uma distância de 35 metros, equivalente a 10 andares, sobra o desejo de se banhar indo de um edifício a outro nadando. A área de lazer aquática foi denominada sky pool, piscina no céu. Por estar suspensa no alto dos prédios, ela tem uma aparência de leveza, mas a estrutura é toda de acrílico, pesando 50 toneladas e comportando mais 140 mil litros de água. Sua inauguração está marcada para o próximo dia 19 e como os prédios dividem-se em residencial e comercial, a diversão será bastante disputada.

PASSARELA SUSPENSA

Da mesma forma que a piscina flutuante, a maior passarela suspensa do mundo é carregada de suntuosidade, mas exige mais coragem do que “nadar” no céu londrino. A ponte foi construída encravada entre montanhas no minúsculo município de Arouca, no norte de Portugal. Sua estrutura tem 516 metros de comprimento e fica suspensa 175 metros acima do rio Paiva. A travessia é de aproximadamente 10 minutos, a depender da valentia do visitante. A paisagem serena de montes e vegetação baixa dá uma vaga percepção de que é fácil atravessar de uma extremidade a outra, mas algumas pessoas que estiveram lá na quinta-feira, 30, dia da abertura, tremiam, rezavam ajoelhados, e outros se sentaram e ficaram imóveis, dado a imensidão visual. Apelidada de Arouca 516, a obra custou mais de US$ 2,8 milhões (R$ 15 milhões).

Em um primeiro momento, a construção de obras faraônicas como estas na Europa, China e outros lugares, representa um marco cheio de simbolismo para as cidades. Mais tarde, além de tornarem-se parte representativa da região, transformam-se em sinônimo da localidade e viram um recurso de marketing para atrair mais turistas. “Tem mesmo essa ideia da grandiosidade”, diz Eric Messa, coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da FAAP. Ele fala que o plano dessas iniciativas é transformar tanto a piscina londrina, como a ponte portuguesa, em chamarizes para os visitantes. Corrobora com essa ideia Leonardo Trevisan, professor de geoeconomia internacional da ESPM. “Esses empreendimentos salvarão o que for possível economicamente”, diz.

Assim como na Europa, a pandemia também derrubou o turismo no Brasil. Em 2020, o setor perdeu mais de R$ 55 bilhões em receitas. Por isso, a abertura do Mirante no Morro da Igreja, em Urubici, na Serra Catarinense, está sendo vital para a região. O local ficou fechado por sete meses, devido ao coronavírus. Inaugurado em 2019, é o principal atrativo ao visitante, que pode admirar a paisagem montanhosa a 1.822 metros de altura. “O passeio dura 15 minutos e é feito especialmente por pessoas que gostam de sentir frio, já que no inverno a temperatura cai abaixo de zero e, às vezes, há neve”, diz Denílson de Oliveira, dono da pousada Cascata Véu de Noiva. Ele conta que quando passa a neblina, dá até para contemplar o litoral. Nesse caso, a exuberância fica por conta da natureza.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 14 DE MAIO

OS DRAMAS DA POBREZA

O pobre é odiado até do vizinho, mas o rico tem muitos amigos (Provérbios 14.20).

Os valores estão invertidos em nossa sociedade. Os relacionamentos estão-se tornando utilitaristas. As pessoas se aproximam umas das outras não para servir, mas para receber alguma coisa em troca. O Salmo 73 retrata bem essa realidade. O ímpio que vê suas riquezas aumentando, mesmo assentado na cadeira da soberba, tem sua casa cheia de amigos. Esses amigos, porém, não são verdadeiros. São exploradores. São aproveitadores. Buscam uma oportunidade para alcançar algum favor. Na verdade, esses amigos não passam de bajuladores, pessoas sem escrúpulo, cujo caráter é governado pela cobiça. Por outro lado, o pobre, em sua penúria, vive na solidão. Sua pobreza não lhe dá prestígio. Os aduladores não encontram no pobre um porto seguro para seus interesses avarentos. Abandonam-no à sua desdita. Até mesmo os vizinhos mais achegados desprezam o pobre e passam a odiá-lo porque não recebem nenhuma recompensa imediata desse relacionamento. Vale ressaltar, entretanto, que é melhor viver só com integridade do que cercado de falsos amigos. É melhor ser pobre, mas colocando a cabeça no travesseiro da integridade, do que viver cercado de bens mal adquiridos, mas sofrendo ao tentar dormir sobre um colchão cheio de espinhos.

GESTÃO E CARREIRA

INTELIGÊNCIA SOCIAL É AGIR COM ÉTICA

Nos últimos anos, a crise de valores e ética e a indiferença moral tornaram-se alvo de urgente atenção e conscientização

Cada vez mais o ser humano conquista contextos externos, novas descobertas e resultados, porém, ao mesmo tempo, presenciamos injustiças, individualismo e corrupção na sociedade, na gestão de empresas e nos negócios.

O ser humano, olhando muito para fora, pouco conhece sobre si mesmo e sobre suas reações ou até mesmo sobre como lidar com os conflitos, dificuldades, desafios, sonhos e objetivos. Outra dificuldade é como lidar com as outras pessoas, tendo consciência de que os nossos atos influenciam a vida daqueles que estão no nosso entorno e que a nossa liberdade e escolhas acarretam em responsabilidade e consequências.

A interdependência da inteligência emocional, inteligência social e da ética permite, pelo menos em parte, responder a essas reflexões. Essas disciplinas se tornaram assunto muito presente no âmbito organizacional, percebidas como instrumentos para harmonizar e equilibrar a razão e a emoção nas relações interpessoais.

A inteligência social é a capacidade de compreender, interagir e influenciar positivamente as pessoas. Ela tem como foco a qualidade e harmonia das relações interpessoais e, consequentemente, melhorar a forma de se relacionar com as pessoas, criando um clima positivo e de cooperação em qualquer contexto da nossa vida, para uma convivência solidária.

Essa inteligência se desenvolve na relação com o mundo externo e origina-se da inteligência emocional que inclui o autoconhecimento, autoanálise, controle das emoções, automotivação, reconhecimento das emoções nas outras pessoas, saber usar as emoções adequadamente para atingir os objetivos, chegando, enfim, a ter ações responsáveis e aptidões sociais adequadas ao conceito de ética.

Do termo grego ethos, a ética refere-se na sua essência ao “interior do homem” ou “morada humana”. A ética então é o estudo da conduta humana, ela refere-se ao agir do ser humano. Refletir sobre ela significa analisar a nossa ação, tornando-nos mais atentos e mais conscientes das atitudes que praticamos em qualquer contexto da nossa vida.

A ética é então o complexo de critérios e valores que guiam nossas ações e comportamentos, por exemplo o respeito, a honestidade, a coerência, cooperação e confiança. Por meio do crescimento pessoal e da evolução dos valores, moldamos a concepção de ética e, quanto maiores os níveis de inteligência emocional que um indivíduo desenvolve, mais elevado será o seu nível comportamental ético.

As emoções, a inteligência social e a ética são então evidentemente interligadas e interdependentes e são fatores impactantes e importantes na vida em geral e consequentemente na vida organizacional.

A emoção e a ética são consideradas como pontos de vista distintos de uma mesma realidade e se soubermos compreender nossas próprias emoções e as dos outros saberemos reagir a situações de forma mais ética. Logo, atuar de forma ética é agir de forma inteligente.

A empatia e a compreensão das emoções do outro nos permitem criar relacionamentos sólidos, e a ética permite construir alicerces para uma convivência mais pacífica e respeitosa, capaz de superar as diferenças, pois, de forma ampla, a é tica é agir na busca da realização individual e do bem comum. Nas últimas décadas, começou a ganhar força uma nova sensibilidade dentro das organizações, ligada ao fator humano, à atenção aos valores, aos relacionamentos interpessoais, ao trabalho em equipe e ao indivíduo como um todo.

Nossas decisões, em todos os planos, precisam ser coerentes com nossos valores e com nossas emoções. No contexto profissional, essa coerência precisa ser mais forte ainda, sob pena de vivermos em um constante conflito. Diante disso, precisamos então ter clareza acerca das nossas emoções e de nossos valores.

O grande segredo para fortalecermos e disseminarmos a ética é por meio da educação. Com ela podemos construir a competência intelectual, emocional e ética, contribuindo para a formação de uma sociedade mais coerente e equilibrada.

Ao escolher a ética como um princípio de vida estamos tomando a decisão mais inteligente. Se nos dedicarmos a compreender as nossas próprias emoções e também as dos outros, poderemos encarar os acontecimentos de forma mais simples e espontânea, criando um clima positivo e de cooperação em qualquer contexto da vida.

EDUARDO SHINYASHIKI – é palestrante, consultor organizacional, escritor e especialista em Desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. Presidente da Sociedade CreSer Treinamentos, colabora periodicamente com artigos para revistas e jornais. Autor dos livros VNaccrro Viva como Você Quer Viver; A Vida é um Milagre e Transforme seus Sonhos em Vida – Editora Gente. Para mais informações: www.edushin.com.br 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

LESÃO MEDULAR E SEXUALIDADE

Além de a medula ser a via de comunicação entre várias partes do corpo e o cérebro, ela também exerce uma função reguladora, como é o caso do funcionamento sexual

Nesta coluna focaremos na sexualidade daqueles que são acometidos por lesões na medula espinhal. A agressão na medula pode acarretar a interrupção total ou parcial da passagem dos estímulos nervosos, originando uma das mais graves síndromes incapacitantes.

Setenta por cento (aproximadamente) das lesões medulares são causadas por traumatismos; o terço restante é oriundo de razões não traumáticas, como aquelas decorrentes de processos infeciosos, tumorais, vasculares e degenerativos.

Chamam a atenção, principalmente em nosso meio, as de origem traumática por terem maior incidência na população jovem (entre 21 e 35 anos de idade), acometerem mais homens que mulheres e terem como causas, por ordem de frequência: acidente de trânsito, agressão com arma de fogo, quedas e mergulhos.

O quadro clínico tanto para as lesões traumáticas e não traumáticas é semelhante, por isso a importância do diagnóstico preciso para que seja proposto um programa de reabilitação adequado para cada pessoa. A lesão é completa quando se perdem o movimento voluntário e a sensibilidade abaixo do nível da lesão, e incompleta quando há movimento voluntário e / ou sensações.

O impacto na função sexual será mais grave (para ambos os gêneros) dependendo do nível que a medula foi acometida e se é completa ou incompleta, assim sendo as lesões mais altas e completas são mais prejudiciais para a função sexual. Por outro lado, um ano após o evento da lesão, a maioria dos homens experimenta o retorno da ereção; esse potencial masculino, portanto, permanece após lesões de origem traumática (veja abaixo no quadro Consequências da lesão medular na função sexual para ambos os gêneros).

A ejaculação estará comprometida na grande maioria dos homens, com o inconveniente da ejaculação retrógrada, que ocorre devido à falha de fechamento do esfíncter interno no momento da ejaculação (que também contribui para a diminuição da fertilidade).

O orgasmo também estará prejudicado e, quando obtido, provavelmente será devido a fatores subjetivos. Alguns relatos afirmam que homens e mulheres com danos completos não têm orgasmos; outros descrevem orgasmos na fantasia, e orgasmos que emanam de outras zonas erógenas não prejudicadas.

A capacidade reprodutora está diminuída, somente 5% dos homens com lesão medular têm capacidade de procriar. As razões da infertilidade ainda não estão totalmente esclarecidas. Supõe-se que se deva à disfunção erétil e ejaculatória e à deficiência na espermatogênese.

É frequente perda da menstruação pós-lesão; o tempo médio até o seu reinicio é, geralmente, de 5 meses.

O índice de gravidez pós-lesão diminui, embora as mulheres com paraplegia incompleta apresentem uma incidência de gestação significativamente superior à das com quadriplegia completa.

É fundamental que os programas de reabilitação contemplem o tema da sexualidade em seus programas de tratamento; estudos advertem que 65% dos pacientes com lesão medular jamais discutem sua sexualidade com alguém, e 85% jamais falam com seus médicos sobre isso. Metade dos acometidos por lesões medulares indica um desejo de maior satisfação sexual, 42% acreditam que o cônjuge desejava mais satisfação, e 50% teriam gostado de conversar com um membro da equipe hospitalar sobre isso, antes da alta.

GIANCARLO SPIZZIRRI – é psiquiatra doutorando pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do lpq e professor do curso de Especialização em Sexualidade Humana da USP.

EU ACHO…

SOCIEDADES QUE SE MOVEM

O novo que vem pela realização da justiça e pela atualização das instituições a partir da ação social movida pela imaginação e pelo sentimento é particularmente interessante.

Há sociedades que se movem em direção ao novo, há sociedades que parecem não sair do lugar, e há aquelas que se movem em direção ao passado. Sim, imaginação. A abertura para o novo e para as mudanças que ele pode trazer exigem imaginação. Um dia se imaginou que o homem chegaria à lua. Ao longo da pandemia, o esforço de combatê-la e de pensar no que sobreviria exigiu imaginação. Aqui nos Estados Unidos o trabalho da imaginação esteve presente ao longo da campanha de Joe Biden, em sua vitória, durante o turbulento período de transição, e continua presente quatro meses depois do início de seu governo.

Imaginou-se que o país seria capaz de imunizar rapidamente a população em alguns meses utilizando as vacinas mais sofisticadas do mundo. Estamos a um par de meses de conseguir fazê-lo. Imaginou-se que o debate sobre clima e meio ambiente se tomaria central na reorganização das políticas públicas. O Plano Biden está aí para mostrar que também isso foi possível, a despeito do que venha a ocorrer durante as discussões no Congresso. Imaginou-se que a retomada econômica viria com a criação de empregos e com o apoio aos mais vulneráveis. Novamente, o pacote aprovado no início de 2021 tem como princípio norteador a ajuda aos mais pobres. Imaginou-se que seria possível começar a enfrentar o racismo e a violência policial contra os negros. No dia 20 de abril, o policial que ajoelhou sobre o pescoço de George Floyd a ponto de esmagá-lo e asfixiá-lo foi condenado por seus crimes. Não é mais do que um início, como muitos têm enfatizado. Mas, para quem vive aqui nos Estados Unidos e é testemunha do que se passa a toda hora com a comunidade negra, a esperança é palpável. Para quem viveu os anos Trump, mais ainda.

O novo na condenação de Derek Chauvin pelo homicídio de George Floyd se apresenta pela imaginação, pelo desejo e, sobretudo, pela forma de realização da justiça. Nesse caso em especial, a justiça se realizou como fruto das interações de instituições e sociedade, em particular, da ação social como forma de atualizar o caráter republicano das instituições. Sabemos que o tempo das instituições é demorado e que a questão do racismo nos Estados Unidos é, como no Brasil, estrutural, portanto, de longa duração. Mas essa arquitetura estruturante das relações que é o racismo foi desafiada, no caso do homicídio de George Floyd, pelo tempo célere das novas tecnologias comunicacionais, as quais parecem naturalmente incorporadas à vida dos mais jovens. O assassinato foi gravado por uma menina que empunhava um telefone celular e que, durante os nove minutos de agonia, captou cada instante da vida que escapava de Floyd por força do joelho do policial. O policial, em determinado momento, parece sorrir para a câmara enquanto praticava o mortífero ato.

O vídeo de nove minutos que registrou o homicídio rodou o mundo e despertou reações de solidariedade. Essa circulação ampla tomou George Floyd um ícone global da violência policial contra os negros em particular, mas também contra outras raças. A solidariedade que sobreveio de ser testemunha da agonia da vítima, de seu sofrimento intenso, de sua declaração “não consigo respirar” durante uma pandemia em que tantos se viram asfixiados, dos momentos finais em que chamou sua mãe, transcendeu as fronteiras dos Estados Unidos. Testemunhamos ações de protesto em todo o mundo e elas também perduraram nos Estados Unidos. Tudo isso torna possível dar passos além da imaginação rumo ao aperfeiçoamento do caráter republicano das instituições. O júri que condenou Derek Chauvin era composto de seis pessoas brancas. Seis pessoas brancas que não titubearam em declará-lo culpado pelos três crimes que lhe foram imputados.

Ele suscita muitas reflexões sobre como os caminhos para o novo podem ser percorridos no Brasil. O que não falta em nosso país são injustiças e mobilizações para demandar a implementação de direitos. O que parece nos faltar é a imaginação e a crença de que a ação social é, sim, capaz de moldar instituições, ainda que elas se mostrem engessadas e cada vez menos preocupadas com o bem-estar da população.

A movimentação por um país que enxerga na justiça o caminho para o que é novo começa agora. Que entregue bons frutos em 2022.

MONICA DE BOLLE – é pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

BORBOLETAS AMEAÇADAS

Degradação da floresta amazônica desbota as cores desses insetos. E os torna, assim, alvos fáceis de predadores

Nossa natureza está menos bela. Rica em biodiversidade, a floresta amazônica pede socorro, uma vez que as borboletas, ilustres moradoras, podem desaparecer. Altamente dependentes das árvores, os lepidópteros — termo científico usado para definir borboletas e mariposas — estão perdendo a cor, reflexo das ações humanas que lhes rouba a vida.

Um estudo intitulado “Descolorindo a Floresta Amazônica”, feito por pesquisadores brasileiros da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Federal de Pelotas, junto com a Universidade de Exeter, no Reino Unido, analisou mais de mil quilômetros quadrados da floresta e confirmou que o ecossistema está em colapso. Nas áreas menos devastadas, ainda é possível ver insetos com asas vermelhas, verdes e azuis, entre outros tons, e é por isso que eles conseguem se camuflar e manter uma alimentação razoável. Nas áreas onde quase tudo foi destruído, as borboletas ficam no solo, comem e moram em plantas queimadas, o que explica as cores marrom e cinza. Para o geógrafo Marcelo Lemes, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), “o desmatamento reduz o número de espécies porque nem todas se ajustam ao clima”.

Ele ressalta que os insetos coloridos não se adaptam tão bem fora de zonas com vegetação, mas as borboletas escuras sim, uma vez que se camuflam no solo, nas folhas e na fuligem para fugir dos perigos. Opinião que Olaf Hermann, Lepidopterologista da Universidade Federal do Paraná (UFPR), reforça. “Se acabar a comida, acaba a vida, é simples”, diz. “É um cenário muito triste, mas a tendência é aumentar”.

Hermann destaca que o descaso do governo brasileiro com o meio ambiente não é novidade, mas que nunca viu uma situação como a atual, em mais de 20 anos estudando borboletas. “Se os políticos não tomarem iniciativas, vai acabar tudo”, lamenta. Elas são fundamentais para a Amazônia. É seguro afirmar que as borboletas sem cor simbolizam o início do fim da nossa natureza.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 13 DE MAIO

A RECOMPENSA DA BONDADE

Os maus inclinam-se perante a face dos bons, e os perversos, junto às portas do justo” (Provérbios 14.19).

Os homens maus temporariamente parecem ser mais fortes, mais espertos e mais bem-sucedidos do que os homens bons. Prevalecem pela força. Fazem estardalhaço nos tribunais e amedrontam pelas suas bravatas. Porém, essa vantagem dos maus é apenas aparente e temporária. A maldade não compensa. As conquistas alcançadas pelo uso da maldade terminam em derrotas amargas e fatídicas. O prevalecimento pela força torna-se fraqueza consumada. As vitórias adquiridas pela injustiça convertem-se em fracasso vergonhoso. Os justos, mesmo sofrendo afrontas e ameaças, mesmo colhendo perdas e prejuízos, triunfarão, ao passo que os maus terão de inclinar-se perante a face dos bons, e os perversos terão que se dobrar à porta dos justos. A maldade não compensa. Pode parecer robusta e imbatível, mas carrega dentro de si o potencial para o desastre. A bondade, contudo, tem recompensa garantida. Os bons podem até descer à cova, vítimas da mais clamorosa injustiça, mas receberão do reto Juiz a bem-aventurada recompensa. Os justos podem até sofrer temporariamente escárnios e perseguições, mas no final usufruirão de gloriosa recompensa, senão da terra, certamente do céu.

GESTÃO E CARREIRA

QUESTÃO DE ORDEM VIRTUAL

Com a pandemia, assembleias de acionistas e reuniões com investidores migram para as chamadas de vídeo e ganham uma nova dinâmica

A onda das chamadas por vídeo chegou ao topo das corporações no Brasil. Apresentações de resultados financeiros, reuniões de conselhos de administração, assembleias de acionistas e encontros com investidores vêm migrando de modo crescente para a tela dos computadores e celulares. Dito de outra forma: o virtual é cada vez mais real nesse patamar algo nobre das atividades de empresas que funcionam no país. Ok. já havia uma tendência nesse sentido, sobretudo onde o mercado financeiro é mais robusto, como nos Estados Unidos. No entanto, tal como ocorreu em outros setores, e em níveis menos decisivos do próprio dia a dia corporativo, a pandemia do novo coronavírus tem acelerado a adesão às videoconferências. E com uma consequência nada desprezível: a mudança achata as hierarquias demarcadas presencialmente. Mais do que isso, democratiza o acesso àqueles eventos, dando voz para valer aos acionistas minoritários.

No Brasil, a revolução coincide com um momento particular do mercado: o aumento no número de investidores da categoria “pessoa física” nas Bolsas de Valores, que em 2020 quase dobrou (não por causa do sars-CoV-2, evidentemente, e sim em razão da iniciativa de alcançar melhores rendimentos em um cenário de juros baixos, baixíssimos).

Amplificar a participação de investidores de todos os portes traz desafios espinhosos, como aprender a lidar com mais críticas vindas dos acionistas. Contudo, esclarecer dúvidas e responder a questionamentos faz parte da proposta das companhias de oferecer maior transparência.

“Na divulgação de resultados, a coisa não mudou tanto (com as chamadas de vídeo), porque as perguntas continuam sendo mediadas pelo moderador do encontro. Mas não há dúvida de que as videoconferências (com investidores) ajudaram a romper algumas barreiras”, disse Pedro Serra, gerente de Research da Ativa Investimentos. “As pessoas perguntam mais e de maneira mais incisiva. E isso é positivo. porque são reuniões justamente de prestação de contas. Um lado de abrir capital em Bolsa é botar dinheiro no bolso, porém o outro é ouvir e explicar”, destacou ele.

Raphael Soté, sócio da área forense da Consultoria KPMG, ressaltou que o suporte em vídeo exige que a administração das empresas “prepare ainda mais seus executivos para reuniões com maior número de pessoas. Todos os acionistas têm direitos, e é fundamental garantir que eles sejam respeitados também no ambiente virtual”.

Não apostar nessa cautela pode ser desastroso. Até porque, com vídeo, e o registro gravado, basta um clique para que tudo reverbere à exaustão. Ao mesmo tempo, entretanto, tamanho alcance pode funcionar para explicitar pressões externas.

No dia 25 de fevereiro, em sua primeira aparição pública depois do anúncio de que seria substituído na presidência da Petrobras, Roberto Castello Branco, trabalhando em home office, comandou a videoconferência para apresentar os resultados da estatal no quarto trimestre do ano passado – lucro recorde, aliás – vestindo uma camiseta na qual se lia “Mind the gap”.

A frase, emprestada do alerta do metrô de Londres para que os passageiros tenham cuidado com o vão entre os trens e a plataforma, vinha sendo repetida por ele para assinalar que a companhia deveria manter uma dinâmica de preços em paridade com os valores praticados no mercado internacional – o estopim de sua saída da estatal, decidida pelo presidente Jair Bolsonaro. O recado ao chefe do Executivo repercutiu extraordinariamente.

Após o barulho da Petrobras, foi a vez de a Vale apresentar suas contas, só que por teleconfência. Seus executivos tiveram de responder a um analista do Bank of America Merrill Lynch se havia risco de ingerência política no comando da mineradora. Na mão oposta da atual tendência das companhias, a Vale não tem no momento planos de passar a fazer eventos dessa natureza por chamadas de vídeo.

Empresas de capital aberto voltadas para o varejo vêm aderindo mais ao novo modelo. Renner, Arezzo & Co e Via Varejo (dona de Casas Bahia e Ponto frio) estão fazendo divulgação de resultados em videoconferência. É, claro, uma ponte para chegar ao investidor – e, numa segunda leitura, também ao consumidor final.

Um ponto que foi a nocaute na era das reuniões virtuais é o que Sidney Ito, sócio da consultoria em riscos e governança corporativa da KPMG, chama de “a reunião fora da reunião”. Ito sublinhou que “no presencial, havia o café, o intervalo, a ida e a volta para o aeroporto, a viagem; uma série de momentos para encontros e conversas informais, bastidores, que ajudam na construção de uma rede de relações e negociações que colaboram com o todo”. Já no processo por videoconferência “existe a dificuldade de conhecer melhor outros membros do conselho, executivos ou acionistas”, pontuou ele.

Em que pese essa indiscutível realidade, durante a pandemia já ocorreram até mesmo eleições virtuais de conselheiros administrativos – que, portanto, não tiveram contato físico direto com os demais. E isso se constituiu em um problema? Não necessariamente.

A Assaí, rede do setor de atacarejo, que foi listada em Bolsa no início de março, depois da cisão do Grupo Pão de Açúcar, é exemplo de negócio que fez a transição por meio digital em pleno surto de Covid-19. “Todas as reuniões com investidores anteriores à listagem, o chamado ‘roadshow’, foram on-line. Sem essa mudança trazida pela doença, eu não teria conseguido participar desses encontros”, relatou Gabrielle Helú, executiva da empresa.

Atuando como diretora de relações com investidores, ela chegou ao Brasil em fevereiro, vinda de Paris, onde trabalhava para o francês Casino. “Reuniões com os investidores por vídeo aproximam mais do que a call por voz. Dá mais acesso aos executivos, que também têm mais tempo para falar com esses investidores. Poupa tempo, a agenda; reduz custos de deslocamento”, avaliou ela. “O Assai já está começando a adotar conferência de resultados por vídeo, e vai continuar a fazer isso, em minha visão. Nó tocamos o sino da Nyse (Bolsa de Nova York) digitalmente!”, destacou Helú.

Claudio Oksenberg, sócio da prática de Direito Societário do escritório Mattos Filho, chamou a atenção para o fato de que o novo modelo adotado pelas corporações sob o impacto do coronavírus também vem sendo acompanhado por ajustes na legislação. “Em assembleias de acionistas, já havia voto à distância, por exemplo. Com a pandemia, vieram novas regras para assembleias híbridas ou 100% digitais. A legislação tem se adaptado e ajudado no cumprimento das regras de mercado”, analisou o advogado.

Segundo ele, para manter as regras de boa governança corporativa em sintonia com a lei, é importante “ter nas videoconferências alguém conduzindo os trabalhos, controlando número e tempo de perguntas e respostas, dando a palavra a quem pede e tirando o microfone de quem estiver abusando de seu direito”.

As mexidas no universo corporativo ganham corpo ainda por meio de atos do governo. No fim de março, foi publicada a Medida Provisória (MP) 1.040, com o ambicioso objetivo de levar o país a subir de posição no Doing Business, ranking elaborado pelo Banco Mundial que classifica o ambiente de negócios das nações. Em 2019 – ano do último dado disponível a respeito -, o Brasil ficou em 124º lugar entre 190 países.

“Oferecer maior proteção a acionistas minoritários é uma forma de subir no ranking”, explicou Oksenberg. Para ele, no entanto, a MP trouxe medidas que pediriam mais debate “porque mexem com a Lei das SA, consolidada há tempos”.

De acordo com o advogado, “alguns assuntos passarão a ter de ser leva dos para a assembleia, em vez de se rem decididos pelo conselho, o que não impede que a questão passe pelo conselho. As assembleias de acionistas precisarão ser convocadas com 30 dias de antecedência, o que é melhor para o minoritário, mas não necessariamente para a companhia, pois pode tirar agilidade na tomada de decisões”.

Sars-CoV-2 à parte, há em relação à explosão das videoconferências no degrau mais alto do mundo corporativo dois consensos. Um deles é que a mudança veio para ficar. O outro é que executivos, acionistas e analistas seguem tendo muito a aprender nessa transição.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MINHAS EXPERIÊNCIAS COM A VERDADE

Em um mundo onde a palavra parece perder a importância, o exercício da autenticidade pode ser uma vantagem competitiva

Toda pessoa que escreve (e sobretudo lê) certamente já passou pela experiência de se deparar com um texto, às vezes apenas uma única frase, e lamentar-se de não ter sido sua autora. Isso aconteceu comigo inúmeras vezes, mas desta vez foi um título que me arrebatou: Minhas Experiências com a Verdade. Nada mais nada menos que a biografia de Gandhi. Pudesse eu escrever uma autobiografia, não haveria título melhor. De fato, “Minhas experiências com a verdade” poderia ser o título da autobiografia de qualquer pessoa que possui a autenticidade como uma de suas forças pessoais.

Considerada na Antiguidade grega como uma característica sagrada, autenticidade era o principal critério a ser levado em conta na formação de homem-excelência e, durante certo período, também foi condição essencial na outorga do título de cidadão na sociedade helênica. Nessa época, todo jovem que passasse pelo sistema educacional arcaico da Paideia deveria fazer o solene juramento a Eros: “Nada dirás ou farás que não seja em nome de Eros”. Mas qual seria a relação de tal juramento com a autenticidade? Para respondermos a essa pergunta precisamos lembrar que para o grego antigo qualquer coisa seria considerada sagrada do ponto de vista de Eros (ou seja, do ponto de vista erótico) se revelasse a verdade do ser. Vale dizer também que, nesse sentido, o conceito arcaico de prostituição em muito se diferia do seu significado atual, na medida em que correspondia ao ato de se fazer qualquer coisa que não revelasse a verdade do ser, ou seja, em termos mais heidegerianos, qualquer coisa que ocultasse ou impedisse a manifestação da exata correspondência entre essência e aparência. Sim, porque nessa época (quem diria?) a autenticidade era erótica.

Quando Atenas passou a oferecer o título de cidadão a qualquer sujeito que lutasse em seu nome e voltasse vivo, deu-se o início do fim de toda uma cultura que primava pela excelência do caráter.

Mas ainda assim a deterioração da autenticidade na cultura ocidental se deu lentamente. Ainda no século XIX, propriedades eram negociadas no que se costumava chamar de “fio do bigode”, ou seja, na simples palavra dos envolvidos.

Concordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, que afirma vivermos hoje os “tempos líquidos”, ou seja, uma sociedade do descartável na qual nada é feito para durar. Contudo, creio que mais grave do que o tempo líquido de Bauman (ou talvez até mesmo como consequência dele) seja o que chamo de palavras líquidas. Palavras esvaziadas de sentido, esvaziadas de verdade, palavras que mais escondem do que revelam, palavras que o vento leva, como afirma o dito popular.

São as palavras líquidas que tornam imperativo que qualquer contato no escritório seja formalizado por um e-mail. Estamos perdendo a capacidade de confiar nas pessoas, deixando de ouvi-las com atenção porque, afinal de contas, tudo será registrado por escrito para consulta posterior. E porque tudo será registrado, apenas o registrado se torna real. E, assim, a palavra se liquefaz, tornando-se dependente da escrita e dos contratos que jazem num mar de firmas reconhecidas.

É nesse contexto que os autênticos se sobressaem. Adoradores da antiga arte de fazer valer a sua palavra, mostram-se como são, vivenciam seus valores e fazem o que dizem tanto quanto o que assinam. Eis uma excelente vantagem competitiva!

Mas não nos deixemos levar por exageros. Talvez a primeira lição que uma pessoa autêntica deva aprender seja a de diferenciar sinceridade de “sincericídio”. Em minha autobiografia imaginária esse certamente seria um longo capítulo.

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiapositiva.com.br

EU ACHO …

O GENE DA FESTINHA

Recente estudo do Royal College de Londres descobriu que alguns seres humanos nascem com uma mutação genética que afeta o gene do bom-senso.

Essa mutação faz com que o portador seja incapaz de controlar seus impulsos quando ouve as palavras “festa”, “balada” ou “rave”, por isso, foi batizada de Festogênia.

Para nós, seres humanos normais, pode parecer ridículo.

Difícil compreender como alguém pode ter dificuldade em conter o ímpeto de festejar, pensam aqueles que, numa festa de casamento, por exemplo, sempre precisam ser arrastados para a pista.

Os festogênicos não.

Esses dançam até quando o garçom derruba a bandeja.

Aposto que você conhece o tipo.

São consumidores contumazes de colares havaianos e vuvuzelas.

Ao menor sinal de uma bagunça, são os primeiros a fazer um trenzinho e se perderem no salão.

Carnaval para eles é o ponto alto do ano. De preferência na Bahia.

Antes da pandemia, não era fácil reconhecê-los, porque festas e reuniões não estavam proibidas, então mutantes
e não mutantes se misturavam e sempre acabavam enchendo a cara em algum boteco. Aí faltavam ferramentas para saber quem era quem.

Apesar de que, desconfio, os festogênicos eram os que mandavam “Sextou!” no grupo de WhatsApp da família.
Também acho que eram os que no meio de reuniões de trabalho sugeriam:

— Deu né? Vamos de Happy Hour? Hein? Hein? Alguém?

Os festogênicos geralmente são sujeitos boa praça.

Indivíduos perfeitos para que a gente pergunte:

— E aí? Qual a boa de hoje?

Sempre sabem a resposta.

Em suas agendas tem sempre uma balada, uma festinha secreta, o show de um DJ qualquer.

E até o início da pandemia, eram inofensivos.

Ocorre que, de alguns meses para cá, os festogênicos passaram a ser um grupo perseguido pela sociedade.
Párias mesmo.

Tudo porque, não importa os números da Covid-19, ou as restrições em suas cidades, os festogênicos não conseguem se controlar.

É mais forte que eles, coitados.

Então continuam se reunindo em festas que varam as noites, orgias virais, a despeito dos riscos.

E não ache que fazem isso em apoio ao presidente Bolsonaro. Nada disso.

Nessas festas proibidas você encontra Bolsonaristas, Lulistas, Ciristas e até alguns que votaram no cabo Daciolo.
Apoiadores da Marina, é verdade, são raros porque não primam pela animação.

O fato é que os festogênicos estão lá porque são motivados pela genética e não pela política.

Muitos deles compreendem o risco de participar de um encontro nos dias de hoje e são favoráveis ao isolamento, desde que não esteja tocando Alok.

E correm o risco com ou sem máscara porque, afinal, festa sempre tem umas bebidinhas e os festogênicos não costumam perder a chance de uns bons drinks.

Aí já viu.

Combinando suas animações genéticas com uns dois ou três copos de caipirinha, as máscaras perdem muito da importância e mesmo os mais cuidadosos acabam por ceder à tentação e são vistos pelo salão de língua de fora como
se a pandemia já tivesse acabado há décadas.

A verdade é que, nas últimas semanas, as polícias em todos os estados têm invadido dezenas, centenas até, de reuniões de festogênicos.

Por mais que tentem coibi-los, na semana seguinte estão lá de novo, dançando, pulando e distribuindo perdigotos como se não houvesse amanhã.

Se você conhece alguém que apresenta esse tipo de sintoma, a Organização Mundial da Saúde recomenda que reporte para as autoridades o nome do infeliz para que possa ser feito o monitoramento de suas atividades.

O estudo que identificou essa mutação ainda está no início, e a comunidade cientifica aguarda ansiosa por novas conclusões. Principalmente sobre a suspeita de que estes indivíduos sofrem também de outra profunda metamorfose, essa muito comum, conhecida pelo nome de “estupidez”.

*** MENTOR NETO

OUTROS OLHARES

DOS JETSONS PARA A VIDA REAL

Curiosamente, diversos equipamentos mostrados no desenho são usados por nós hoje, como robôs, aspiradores inteligentes e tablets. O seriado se passava em 2062

Acredite ou não, um desenho conseguiu prever o futuro. Lançado em 1962, o seriado “Os Jetsons”, que mostrava as aventuras de uma família vivendo no ano de 2062, apresentou, em primeira mão, diversos aparelhos tecnológicos que usamos hoje, desde robôs que limpam a casa até chamadas de vídeo, tablets, assistentes pessoais e carros voadores.

Quase tudo dependia de tecnologia, como agora. Assim sendo, é possível afirmar que nos tornamos seres high-tech como ‘Os Jetsons’ previram. Oscar Reis, especialista em comércio exterior, é a prova disso. Ele não vive sem seus apetrechos digitais. Por isso, desde o início da pandemia, trabalha em home office com seu computador, tablet, celular e smartwatch integrado com a Alexa, assistente virtual da Amazon, que o alerta das atividades diárias. “Sou totalmente futurista”. Ele reforça: “Quase tudo está integrado. Portanto, é preciso se adaptar”.

TUDO INTEGRADO

De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), o setor cresceu 5,1% em 2020 e movimentou mais de R$ 144,52 bilhões, números que comprovam a paixão dos brasileiros por tecnologia. “A indústria lança conceitos para ver como as pessoas vão lidar com aquilo, se vão desejar os objetos”, diz o especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja. Sobre a influência do desenho, ele acredita que em breve os lares brasileiros serão totalmente integrados digitalmente. “A eficiência dos aparelhos chama atenção dos consumidores”, afirma.

Com duas gatas e sem tempo para fazer faxina em seu apartamento, a especialista em tecnologia Victoria Morena da Silva descobriu as vantagens de um robô aspirador há um ano e hoje não vive sem ele. “Uso todos os dias. Como sou alérgica, me salva da poeira”, diz. A utilidade é o principal pré-requisito dos aparelhos. “Eu limpo um cômodo e o robô limpa outro. Me ajuda muito”, conta. É seguro dizer que daqui para frente a nossa realidade será cada vez mais parecida com a dos Jetsons. Como se vê, a vida imita a arte.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 12 DE MAIO

VALORIZE O CONHECIMENTO

Os simples herdam a estultícia, mas os prudentes se coroam de conhecimento (Provérbios 14.18).

O conhecimento é o melhor tesouro que podemos acumular. Os bens se dissipam, mas o conhecimento permanece. O dinheiro pode ser roubado, mas ninguém pode assaltar o cofre da nossa mente para roubar o que lá depositamos. Os tesouros que granjeamos aqui podem ser dilapidados pela ferrugem, carcomidos por traça e saqueados por ladrões, mas o conhecimento que adquirimos é um bem inalienável que ninguém pode tirar de nós. Aqueles que desprezam o conhecimento e se gabam de coisas são tolos e herdam a estultícia, mas os prudentes se coroam de conhecimento. Os sábios investem tempo na busca do conhecimento. Privam-se de confortos imediatos para adquirir o conhecimento, mas este é em si mesmo um grande prazer. O conhecimento distingue o prudente, coroa-o de honra e eleva-o a uma posição de destaque. A Bíblia nos ensina a empregarmos o melhor dos nossos recursos para adquirirmos a sabedoria. Os tolos fazem troça da sabedoria e folgam-se com sua sandice, mas ao fim serão envergonhados e terão como herança aquilo que não possui valor algum. Mas os prudentes que buscaram o conhecimento herdarão honra e felicidade.

GESTÃO E CARREIRA

AS DORES DA DISTÂNCIA

O home office deve ser adotado em definitivo pela maioria das empresas no pós-pandemia. Antes, porém, será preciso aprender a administrar os desafios longe do escritório

A verdade é que as empresas esperavam por este momento: o dia em que o teletrabalho seria tão corriqueiro quanto pegar um ônibus. Elas já sabiam que poderiam economizar muito com aluguel e energia, mas ainda pairavam dúvidas em relação à produtividade – se aumentaria, diminuiria ou permaneceria a mesma. A pandemia parece ter acelerado o processo e respondido a algumas questões. Estudos de múltiplas consultorias nacionais e internacionais mostram que, enquanto a ocupação de lajes corporativas caiu em 40%, a produtividade tomou caminho contrário, subindo em média 50%. Resta agora saber se a melhoria no desempenho será permanente ou apenas um efeito colateral do medo que as pessoas têm de perder o emprego na crise. E mais relevante: descobrir como ficará a saúde mental dos funcionários no distanciamento.

Segundo pesquisa recente da consultoria de recrutamento Robert Half, 92% dos colaboradores são favoráveis ao trabalho remoto, tendo o modelo híbrido (parte em casa, parte no escritório) como o preferido. Ainda que as companhias estejam alinhadas com esse desejo, há um lado do home office potencialmente sombrio que não pode ser ignorado: os efeitos deletérios sobre as pessoas. Se, por um lado, o profissional rende mais afastado das distrações inerentes ao convívio social, ele fica à mercê de outros transtornos. Um levantamento da Royal Society for Public Health, instituição britânica dedicada à saúde, revelou que 67% das pessoas forçadas a fazer home office reportaram queda de empatia com os colegas, enquanto 37% relataram distúrbios de sono.

“Os problemas podem ir além da solidão e do burnout, o esgotamento físico e mental ocasionado por excesso de tarefas”, diz Eliseu Urban, sócio da Valuing, empresa de treinamento de executivos. “Já foram relatados falecimentos não relacionados à Covid-19, brigas em teletrabalho e até uma aparente tentativa de suicídio.” Urban também pontua que, por esses motivos, as empresas estão oferecendo ajuda psicológica aos funcionários, além de aproximá-los dos gerentes-seniores. “A saúde mental das equipes passou a ser prioridade dos RHs”, afirma o especialista.

A postura assumida pelas grandes empresas confirma a percepção das consultorias. A Johnson & Johnson instituiu um modelo que incentiva os profissionais a se desconectar uma sexta-feira por mês para relaxar. A Heinz além de oferecer auxílio financeiro para o home office, tem bloqueado as manhãs de segunda-feira a fim de permitir que as pessoas se organizem para a semana sem ter de se preocupar com isso no domingo. A BR Distribuidora optou por oferecer atendimentos virtuais de medicina e psicologia. O fundo Aqua Capital, de agronegócio, foi além: busca entender quais empregados podem estar próximos do burnout para impedir que aconteça. A Cielo passou a oferecer apoio contra ansiedade e depressão. Caminho semelhante percorrem a companhia de tecnologia VTEX, a Arcelor Mittal, líder mundial na produção de aço, e outros gigantes de diversos segmentos, como Braskem, Roche, PepsiCo e Royal Canin.

A opção pelo modelo híbrido em vez do home office integral, não se deve apena à melhoria da dinâmica de trabalho. Há uma preocupação genuína dos RHs com a conexão entre os funcionários e a empresa. É interessante diminuir o desembolso com a locação de espaços, mas é igualmente importante manter algum contato para avaliar as condições físicas e mentais dos colaboradores. Mas trata-se de um movimento irreversível. Muitas companhias estão abordando nos seus contratos profissionais nova regras para o teletrabalho, como o fornecimento de equipamentos, cadeiras e mesas ergonômicas, concessão ou cancelamento de benefícios e adequação de jornada.

Nos últimos meses, as boas empresas têm, de fato, se esforçado para cumprir esses requisitos, e a maioria delas certamente chegará a um modelo que seja adequado para o negócio em si e para a qualidade devida dos colaboradores. “É um caminho sem volta, em que todas as partes têm de se ajustar”, diz Carlos Marui, sócio-diretor da Tredici, empresa especializada em recursos humanos. Superada a crise do coronavírus, o mercado precisará agir para evitar outra pandemia – a de colapsos emocionais. Felizmente, isso já vem sendo feito.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SONHAÇÕES: A PELE DA COBRA

A observação na Psicanálise trata diretamente com movimentos fluentes, com mudanças de estados mentais. A dificuldade principal reside em como aproximar conceitos de intuições

“Quando pronuncio a palavra Futuro,

A primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,

Suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,

Crio algo que não cabe em nenhum

não ser.”

Wislawa Szymborska (As Três Palavras mais Estranhas)

Para falar sobre o ato de observação em Psicanálise estou tom ando como base o momento que o poema demonstra esse hiato entre o que é observado e as palavras que usamos para nomeá-lo. Ressalto que esse momento se constitui como um ponto crucial em nosso cotidiano como psicanalistas. Há um risco sempre presente em nossa atividade, que é o de tomarmos nossos mapas conceituais ou os nomes que usamos como fatos e colapsarmos nossas observações.

Em nossa atividade lidamos com movimentos fluentes, com passagens constantes entre estados mentais, que fazem parte de uma complexidade que, em Psicanálise, conjugamos pelo nome “personalidade”. Nossas formas de entendimento, bem como a linguagem que usamos para nos aproximarmos dos eventos que nos torneiam, inexoravelmente delimitam diversas regiões da realidade.

O problema continua sendo como aproximar conceitos de nossas intuições. Para nós, psicanalistas, a distância entre o dogma e a fé pode ser muito estreita. Através de um “ato de fé” pode-se “ver”, “ouvir ” e “sentir ” o fenômeno mental de cuja realidade nenhum psicanalista praticante tem dúvida, embora não possa representá-lo com exatidão pelas formulações existentes.

Os psicanalistas observam certas coisas que outras pessoas não podem ver, ainda que talvez seja possível para os que buscam uma análise. Esse mundo é o mundo da experiência emocional. Nele, emoções, como tristeza, alegria, amor, sexo, solidão, paixão são fatos tão tangíveis como uma mesa ou a chuva. Esses aspectos, muitas vezes, são tão sutis e evanescentes que resultam ser virtualmente invisíveis, mas sabemos que são tão reais que podem chegar a destruir-nos se permanecemos passivos frente a eles.

As investigações sobre a realidade psíquica e a expansão dos limites de suas fronteiras nos colocam na mesma situação de uma criança que precisa aprender a falar e pensar simultaneamente. Ela não consegue falar, pois seus pensamentos lhe são estranhos, e não pode pensar, pois lhe faltam conceitos a partir dos quais seus pensamentos possam se ordenar.

O analista, ao “obter” uma experiência emocional, precisa vesti-la através de uma imagem visual (ou, de modo mais geral, uma experiência sensorial), com o intuito de torná-la disponível para ser uma espécie de peça, que será usada nos pensamentos. A imagem visual encarna uma emoção de tal modo que ela possa se tornar pensável.

Esse é o misterioso trabalho do sonho (que Bion denomina TS-alfa): parear a experiência emocional do momento com uma imagem visual. Quando esse pareamento ocorre, outro salto misterioso sobrevém; agrega-se a essa imagem uma dimensão ideacional que não é um pensamento, mas, sim, uma extensão passível de ser convertida em uma dimensão pensável.

EXPERIÊNCIA

Visitando uma região rural e passeando por um lugar na mata junto com um acompanhante, alguém que conhecia a região, em uma ravina, ele me apontou o que percebi como sendo a pele de uma cobra. Logo adiante eu mesmo apontei a ele o que seria mais um pedaço da pele de uma cobra, o local parecia estar coalhado de “peles” de cobra.

Obviamente, instalou-se uma grande apreensão. Mas, e as cobras propriamente ditas, como eu as perceberia? O fato de estar nessa região e com esses indícios, ampliavam-se sobremaneira as chances de nos encontrarmos com uma cobra, pois me lembrava de que, na época de mudança de pele, a cobra fica mais arisca e irritável.

Nesse momento tenho também uma recordação da minha visita educativa ao Instituto Butantan e das explanações sobre a aparência das cobras venenosas. Essas eram as referências que valorizei para dar conta do que estava experimentando e dar continuidade à investigação do que se apresentava como a minha experiência daquele momento.

Após algum tempo de caminhada meu acompanhante, que estava logo atrás de mim, solta um grito de dor – ele sofrera o bote de uma cobra que o picara. Ele passava justamente pelo mesmo caminho que alguns segundos atrás eu passara. Com seu grito, tornando-me ainda mais alerta, viro-me rapidamente em sua direção e vislumbro um pequeno vulto deslizando furtivamente entre a vegetação rasteira e desaparecendo logo em seguida.

A partir desses elementos apresentados pelo grito de meu parceiro, meu próprio susto e o estado de alerta subsequente, uma ruptura do estado mental anterior, vislumbrei a dimensão na qual a cobra viva estava presente.

Em minha epistemologia pessoal havia pelo menos três diferentes dimensões, que delineio como premissas para sustentar meus argumentos a respeito do ato de observar e/ou colapso de nossas observações. Havia uma dimensão do que seria a cobra, outra dimensão era o lugar em que a cobra esteve e não estava mais, e por último a cobra. Com essa analogia quero focalizar as diferentes dimensões de nosso instrumental observacional: os enquadres conceituais (aquilo que aprendi sobre as cobras), a sustentação de dúvidas (as peles da cobra e meus conhecimentos sobre cobras me possibilitavam um tipo de expectativa a respeito daquele momento) e a emergência de uma intuição (o bote da cobra).

Pontuo que a Psicanálise não pode ser contida nas teorias que ela produz, e o que melhor configura seu método seja a ideia de que ela é uma sonda, cujo movimento expande um universo que está muito além de seus conceitos.

O analista e seu analisando são ambos dependentes dos sentidos, mas as qualidades psíquicas com as quais tratamos não são percebidas pelos sentidos, nem pela memória ou pelo desejo. Acredito que manter- se disponível e em sintonia com um estado de mente que propicie o “bote da cobra” pode nos apresentar para uma experiência fugaz, dolorosa e vivamente presente e real. Talvez seja somente nessa dimensão que a nossa própria existência como analista possa ser experimentada como verdadeira.

Tal disponibilidade exige o exercício da fé, uma fé científica, para que a intuição possa emergir e captar a experiência emocional que está sendo transformada na sessão. Segundo minhas referências, “mistério” é a vida real e ela só pode se apresentar aos nossos instrumentos de observação pela via da intuição.

O “bote da cobra” aproxima-se de uma “intuição instantânea” que, uma vez formulado, assume “definitividade” e pode temporariamente ser usado como ponte para passar para outro momento. O que surge da intuição deverá ser um pensamento que pode ser abandonado no mesmo momento em que é pensado. Quando entramos em unicidade com a verdade daquele momento, o que se consegue é uma percepção do positivo e do negativo, mas com a velocidade de um flash, uma centelha. Esse movimento é pontuado no poema de Szymborska.

MODELO CLÍNICO

Nesse modelo clínico aparece o que chamei de “bote da cobra”, uma intuição instantânea que provém de um longo percurso de sustentação de dúvidas e incertezas, uma ponte para outro momento da dupla.

Inicio um relacionamento com alguém que se apresenta a mim como quem foi indicada por uma ex-paciente minha, que foi sua professora na universidade. Nossos encontros revelam-se, à minha percepção, de uma forma excêntrica: senta-se à minha frente e me pergunta, sentindo-se afrontada com o meu olhar: “Eh… o que foi, hein?”.

Os momentos em que sustentei algum tipo de fala, a partir de uma questão ou observação que me pareciam pertinentes, desencadeavam uma turbulência que “desmoronava” literalmente o setting, culminando com a saída brusca da “paciente”, batendo a porta e dizendo impropérios à minha pessoa e ao que ela imaginava que fosse o meu trabalho.

Afortunadamente ou desafortunadamente ela voltava para outra sessão. Ela, então, na medida em que eu aguardava em silêncio que algo evoluísse entre nós, parecia brincar mostrando-se indiferente à minha presença, dava pequenos chiados, que eu identificava como um ciciar. Colocava um dedo sobre a boca, apontava para o meu corpo e sussurrava esse chiado. As primeiras imagens pictóricas sobre a cobra surgiram desses momentos. Posteriormente, foram se transformando nas conjeturas imaginativas que apresentei.

Acontecia às vezes um esboço de diálogo, resmungos que eu escutava como ruminações e queixas sobre a sua vida e sobre o que ela experimentava em suas relações; nesses momentos se eu a interrompesse formulando alguma questão ou mesmo interpelando-a sobre algo que não havia escutado, ela dizia exibindo uma mímica facial de desprezo: “Não é nada…”.

Percebia que ela jogava seus cabelos sobre seu rosto. Ela os tem longos e selvagens, isto é, sem nenhum tratamento de escovação ou métodos de alisamento. Separava, então, de cada lado de sua cabeleira duas porções de cabelos e literalmente pendurava-se neles, enrolando-os e desenrolando continuamente. Com sua face escondida pelos cabelos iniciava uma fala, para mim, desconexa e em um tom monocórdio, mesclada com vocalizações de cantigas infantis.

Havia entre nós a mobilização de um tipo de passividade, uma entrega a uma ausência de sentidos, a uma ausência de palavras e a presença de um comportamento que eu sentia como incompreensível.

Vou me sentindo torporoso e tenho a impressão, a partir dessa sonolência, de observar, nos momentos em que consigo manter-me precariamente atento, uma criança completamente alheia ao seu entorno, brincando e conversando sozinha. Saio desses episódios como que embriagado, recompondo-me logo em seguida ao término da sessão. Essas situações eram perturbadoras, porque eu sentia que estava completamente desprovido dos recursos que habitualmente nos acompanham em diferentes contextos, além de que essas situações me aproximavam daquilo que acontecia com alguém severamente regredido. Segundo Bion, quanto mais perto de alcançar a supressão do desejo, memória e compreensão chega o analista, mais é possível que ele deslize num sono semelhante ao estupor.

Ao final de algumas dessas ocorrências ela resmunga algo expressando certa surpresa, mas como se falasse consigo mesma: “Como é que consegue?”. Noto nesses momentos que ela expressa uma jovialidade, quase um contentamento.

Essa observação e tal questão ampliam meu desconcerto, mas ao mesmo tempo me fazem supor que essa condição tenha alguma importância para o que ela tenta me comunicar, mas que para mim era inacessível.

Ao longo de um período e experimentando um estado de torpor, vou me atendo às vocalizações, que vão me parecendo um tipo de ritmo infantil e repetitivo. Algo como: “Nã, na, nãã, na, nãã, na…!”. Que me dava a impressão de estar envolvido pelos ritmos e rimas de canções de ninar e, ao mesmo tempo, pela cadência das zombarias infantis.

Depois de um bom tempo dessas experiências vou distinguindo, mobilizado por esses ritmos e padrões, uma de minhas vivências e me vejo em situações de confrontos infantis, elaborando sátiras, que eram repetidas nos ritmos de uma canção, tais como: “Magro banguelo… pé de chinelo ” como resposta a “Gordo … baleia… saco de areia”.

Dou-me conta da habilidade, muitas vezes cruel das “crianças”, de transformar diferenças, insuficiências e defeitos em “apelidos jocosos”, que, por sua vez, sustentam uma interação através de disputas e confrontos, mas, ao mesmo tempo, pode ser entendido como um tipo de apresentação entre duas pessoas. Distinguir essas emoções em meio ao torpor tem efeito de um choque, um impacto, sinto-me vivo e existindo naquele momento. Aquela experiência inacessível, momentaneamente, torna-se singular e pessoal. Sinto que tenho algo de minha experiência afetiva e que posso imaginar que se relaciona ao que ela está tentando me comunicar. Observo-a com seus cabelos cobrindo todo o seu rosto e ela, percebendo que saí daquele estado torporoso, se espanta agarrando-se às mechas de seu cabelo com mais intensidade e começa a enrolá-las.

Pergunto-lhe: “É sobre um tribufo…?”. Sonhei que a partir daqueles movimentos e ritmos, bem como daquele cenário, ela me contava uma história sobre algo que poderia pertencer a essa dimensão. Assusto-me ao mesmo tempo por ter formulado tal questão e usado tal nomeação tão espontaneamente. Posteriormente, soube que este é um adjetivo regional da Bahia, de onde sua família migrou em busca de melhor sorte em São Paulo, bem como um tipo de troça que seus irmãos mais velhos lhe impunham.

Ela, então, me surpreende e dá uma gargalhada e me pergunta interessada: “De onde você tirou isto…?”.

Logo sua mímica facial se recompõe e me diz com desprezo, olhando ostensivamente para o

meu corpo: “E você, quem pensa que é?”. Respondo: “Daqui de onde te observo elevando em conta como você me olhou, posso imaginar que também sou um ‘gordo… baleia’ – expresso esse adjetivo jocoso no compasso que vinha de seus ritmos – que pode nos encalhar! “.

Sorri novamente e me diz: “E eu sou um tribufo que vai te assombrar!”.

MIGUEL MARQUES – é médico e psicanalista; membro efetivo da SBPSP e membro efetivo e analista didata de SBPRP. Trabalha em Marília, Ribeirão Preto e São Paulo.

EU ACHO …

O LANCHE

As imaginações que assustam. Pensei numa festa – sem bebida, sem comida, festa só de olhar. Até as cadeiras alugadas e trazidas para um terceiro andar vazio da Rua da Alfândega, este seria um bom lugar. Para essa festa eu convidaria todos os amigos e amigas que tive e não tenho mais. Só eles, sem nem sequer os entre amigos mútuos. Pessoas que vivi, pessoas que me viveram. Mas como é que eu subiria sozinha pelas escadas escuras até uma sala alugada? E como é que se volta da Rua da Alfândega ao anoitecer? As calçadas estariam secas e duras, eu sei.

Preferi outra imaginação. Começou misturando carinho, gratidão, raiva; só depois é que se desdobraram duas asas de morcego, como o que vem de longe e vai chegando muito perto; mas também brilhavam as asas. Seria um chá – domingo, Rua do Lavradio – que eu ofereceria a todas as empregadas que já tive na vida. As que esqueci marcariam a ausência com uma cadeira vazia, assim como estão dentro de mim. As outras sentadas, de mãos cruzadas no colo. Mudas – até o momento em que cada uma abrisse a boca e, rediviva, morta-viva, recitasse o que eu me lembro. Quase um chá de senhoras, só que nesse não se falaria de criadas.

— Pois te desejo muita felicidade – levanta-se uma – desejo que você obtenha tudo o que ninguém pode te dar.

— Quando peço uma coisa – ergue-se a outra – só sei falar rindo muito e pensam que não estou precisando.

— Gosto de filme de caçada. (E foi tudo o que me ficou de uma pessoa inteira.)

— Trivial, não, senhora. Só sei fazer comida de pobre.

— Quando eu morrer, umas pessoas vão ter saudade de mim. Mas só isso.

— Fico com os olhos cheios de lágrimas quando falo com a senhora, deve ser espiritismo.

— Era um miúdo tão bonito que até me vinha a vontade de fazer-lhe mal.

— Pois hoje de madrugada – me diz a italiana – quando eu vinha para cá, as folhas começaram a cair, e a primeira neve também. Um homem na rua me disse assim: “É a chuva de ouro e de prata.” Fingi que não ouvi porque se não tomo cuidado os homens fazem de mim o que querem.

— Lá vem a lordeza – levanta-se a mais antiga de todas, aquela que só conseguia dar ternura amarga e nos ensinou tão cedo a perdoar crueldade de amor. – A lordeza dormiu bem? A lordeza é de luxo. É cheia de vontades, ela quer isso, ela não quer aquilo. A lordeza é branca.

— Eu queria folga nos três dias de carnaval, madame, porque chega de donzelice.

— Comida é questão de sal. Comida é questão de sal. Comida é questão de sal. Lá vem a lordeza: te desejo que obtenhas o que ninguém pode te dar, só isso quando eu morrer. Foi então que o homem disse que a chuva era de ouro, o que ninguém pode te dar. A menos que não tenhas medo de ficar toda de pé no escuro, banhada de ouro, mas só na escuridão. A lordeza é de luxo pobre: folhas ou a primeira neve. Ter o sal do que se come, não fazer mal ao que é bonito, não rir na hora de pedir e nunca fingir que não se ouviu quando alguém disser: esta, mulher, esta é a chuva de ouro e de prata. Sim.

CLARICE LISPECTOR