A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FUNÇÕES EXECUTIVAS E APRENDIZAGEM

Resultante da fusão da neurofisiologia, anatomia, embriologia, biologia celular e molecular e da psicologia experimental, a neurociência cognitiva renova a ideia de que para se conhecer a mente é preciso antes conhecer o cérebro

As funções mentais superiores, ou seja, a Aprendizagem, a Memória e a Linguagem, até meados do século XIX, foram estudadas apenas pela Psicologia e pela Fisiologia experimental invasiva. Foi em 1861 que se deu o primeiro grande passo para a compreensão dos mecanismos neurais dessas funções, quando Pierre Paul Broca descobriu que a fala é controlada por uma área específica do lobo frontal esquerdo. Em seguida, com novas pesquisas, foram localizadas as áreas do controle voluntário e diferentes córtices sensoriais primários para a visão, audição, sensibilidade somática e paladar.

Mas, apesar de os estudos neurológicos terem avançado com descrições elaboradas das funções cognitivas desempenhadas por várias partes do cérebro, a Fisiologia dos lobos frontais permanecia praticamente como uma incógnita, tendo sido por isso denominados de “lobos silenciosos”.

Um acidente não fatal, ocorrido em 1848, quando uma barra de ferro atravessou o crânio de um jovem rapaz, Phineas Gage, por meio da área frontal de seu cérebro, desencadeou novas descobertas a respeito desse lobo cerebral. Apesar de lúcido, com pleno uso de suas funções sensoriais, vegetativas e motoras, capaz de se comunicar, falar, ouvir, andar, pensar, o rapaz teve sua personalidade totalmente modificada, passando de um trabalhador responsável e bem adaptado socialmente a um a pessoa de modos rudes, instável e com evidente habilidade emocional.

Ao final do século XLX já havia evidências suficientes para atribuir ao lobo frontal a sede da atividade mental superior, e a importância da nova descoberta despertou muitos estudos específicos nesse campo. Embora ainda não totalmente esclarecidas, já se sabe comprovadamente que é nessa região do cérebro que se encontram as maiores diferenças na evolução filogenética entre os humanos e seus antepassados. Responsável pelas nossas habilidades mais complexas, como o planejamento de ações sequenciais, a uniformização de comportamentos sociais e motores, flexibilidade mental, parte da memória, a área frontal do cérebro não se refere a nenhuma habilidade mental específica, porém sua função abrange todas elas: parece ser mais metacognitiva do que praticamente cognitiva e, decorrente desse fato, passou-se a denominar de Função Executiva.

Funções Executivas facilitam o funcionamento cognitivo ao coordenarem a execução de um objetivo e são ligadas às habilidades de processamento de informações interrelacionadas: memória de trabalho (armazenamento e atualização das informações enquanto o desempenho de alguma atividade relacionada com elas),o controle inibitório (a inibição da resposta prepotente ou automatizada quando o indivíduo está empenhado na execução de uma tarefa) e a flexibilidade mental (capacidade de mudar a postura de atenção e cognição entre dimensões ou aspectos distintos, mas relacionados, de uma determinada tarefa).

Durante tal processo, alguns de seus componentes (como a atenção seletiva, flexibilidade cognitiva e planejamento) atingem mais tardiamente a maturidade, se comparadas a outras funções cognitivas, o que torna ainda mais complexa a compreensão da cognição humana e seus transtornos.

Déficits de desenvolvimento cognitivo, problemas de conduta e na aprendizagem acadêmica podem decorrer de prejuízos nas Funções Executivas, caracterizando a chamada Síndrome Disexecutiva. Seus sintomas mais claramente perceptíveis são as alterações cognitivo-comportamentais, associadas às dificuldades na seleção de informação e na tomada de decisão, assim como a distratibilidade, problemas de organização, comportamento perseverante ou estereotipado, dificuldades na constituição de novos repertórios comportamentais, déficit de abstração e de antecipação das consequências, tão frequentes nos transtornos de aprendizagem. Atualmente aliás, se descrevem diversas dificuldades cognitivas em termos de Disfunção Executiva, quando se trata de problemas marcantes com a hiperatividade, atenção e problemas de aprendizagem.

A Função Executiva tem início nos primeiros meses de vida pós-natal, e se transforma gradativamente até o final da adolescência, relacionada com o processo de configuração e amadurecimento cortical da região pré-frontal, uma das últimas áreas cerebrais a passar por esse processo. Ainda que exista m variações de maturação cerebral entre crianças de mesma idade, a filtragem de informações própria das Funções Executivas se desenvolve mais acentuadamente entre os 6 e 8 anos de idade e segue até começo da idade adulta, mas via de regra cresce de acordo com a progressão escolar.

Durante tal processo, alguns de seus componentes (como a atenção seletiva, flexibilidade cognitiva e planejamento) atingem mais tardiamente a maturidade, se comparadas a outras funções cognitivas, o que torna ainda mais complexa a compreensão da cognição humana e seus transtornos.

Especificamente, o córtex lateral órbito-frontal, responsável pelo controle dos impulsos, é o que amadurece por último, na década dos vinte anos, devido à progressiva e ininterrupta mielinização dos axônios do córtex pré-frontal, de onde se podem tirar algumas conclusões a respeito da educação e das questões relativas à socialização dos nossos jovens.

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.

irenemaluf@uol.com.br

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.