EU ACHO …

A EXPLICAÇÃO QUE NÃO EXPLICA

Não é fácil lembrar-me de como e por que escrevi um conto ou um romance. Depois que se despegam de mim, também eu os estranho. Não se trata de transe, mas a concentração no escrever parece tirar a consciência do que não tenha sido o escrever propriamente dito. Alguma coisa, porém, posso tentar reconstituir, se é que importa, e se responde ao que me foi perguntado.

O que me lembro do conto “Feliz aniversário”, por exemplo, é da impressão de uma festa que não foi diferente de outras diferentes de aniversário; mas aquele era um dia pesado de verão, e acho até que nem pus a ideia de verão no conto. Tive uma impressão, de onde resultaram algumas linhas vagas, anotadas apenas pelo gosto e necessidade de aprofundar o que se sente. Anos depois, ao deparar com essas linhas, a história inteira nasceu, com uma rapidez de quem estivesse transcrevendo cena já vista – e, no entanto, nada do que escrevi aconteceu naquela ou em outra festa. Muito tempo depois um amigo perguntou-me de quem era aquela avó. Respondi que era a avó dos outros. Dois dias depois a verdadeira resposta me veio espontânea, e com surpresa: descobri que a avó era minha mesma, e dela eu só conhecera, em criança, um retrato, nada mais. “Mistério em São Cristóvão” é mistério para mim: fui escrevendo

tranquilamente como quem desenrola um novelo de linha. Não encontrei a menor dificuldade. Creio que a ausência de dificuldade veio da própria concepção do conto: sua atmosfera talvez precisasse dessa minha atitude de isenção, de certa não participação. A falta de dificuldade é capaz de ter sido técnica interna, modo de abordar, delicadeza, distração fingida.

De “Devaneio e embriaguez duma rapariga” sei que me diverti tanto que foi mesmo um prazer escrever. Enquanto durou o trabalho, estava sempre de um bom humor diferente do diário e, apesar de os outros não chegarem a notar, eu falava à moda portuguesa, fazendo, ao que me parece, experiência de linguagem. Foi ótimo escrever sobre a portuguesa.

De “Os laços de família” não gravei nada.

Do conto “Amor” lembro duas coisas: uma, ao escrever da intensidade com que inesperadamente caí com o personagem dentro de um Jardim Botânico não calculado, e de onde quase não conseguimos sair, de tão encipoados e meio hipnotizados – a ponto de eu ter que fazer meu personagem chamar o guarda para abrir os portões já fechados, senão passaríamos a morar ali mesmo até hoje. A segunda coisa de que me lembro é de um amigo lendo a história datilografada para criticá-la, e eu, ao ouvi-lo em voz humana e familiar, tendo de súbito a impressão de que só naquele instante ela nascia, e nascia já feita, como criança nasce. Este momento foi o melhor de todos: o conto ali me foi dado, e eu o recebi, ou ali eu o dei e ele foi recebido, ou as duas coisas que são uma só.

De “O jantar” nada sei.

“Uma galinha” foi escrito em cerca de meia hora. Haviam me encomendado uma crônica, eu estava tentando sem tentar propriamente, e terminei não entregando; até que um dia notei que aquela era uma história inteiramente redonda, e senti com que amor a escrevera. Vi também que escrevera um conto, e que ali estava o gosto que sempre tivera por bichos, uma das formas acessíveis de gente.

“Começos de uma fortuna” foi escrito mais para ver no que daria tentar uma técnica tão leve que apenas se entremeasse na história. Foi construído meio a frio, e eu guiada apenas pela curiosidade. Mais um exercício de escalas.

“Preciosidade” é um pouco irritante, terminei antipatizando com a menina, e depois, pedindo-lhe desculpas por antipatizar, e na hora de pedir desculpas tendo vontade de não pedir mesmo. Terminei arrumando a vida dela mais por desencargo de consciência e por responsabilidade que por amor. Escrever assim não vale a pena, envolve de um modo errado, tira a paciência. Tenho a impressão de que, mesmo se eu pudesse fazer desse conto um conto bom, ele intrinsecamente não prestaria.

“Imitação da rosa” usou vários pais e mães para nascer. Houve o choque inicial da notícia de alguém que adoecera, sem eu entender por quê. Houve nesse mesmo dia rosas que me mandaram, e que reparti com uma amiga. Houve essa constante na vida de todos, que é a rosa como flor. E houve tudo o mais que não sei, e que é o caldo de cultura de qualquer história. “Imitação” me deu a chance de usar um tom monótono que me satisfaz muito: a repetição me é agradável, e repetição acontecendo no mesmo lugar termina cavando pouco a pouco, cantilena enjoada diz alguma coisa.

“O crime do professor de matemática” chamava-se antes “O crime”, e foi publicado. Anos depois entendi que o conto simplesmente não fora escrito. Então escrevi-o. Permanece, no entanto, a impressão de que continua não escrito. Ainda não entendo o professor de matemática, embora saiba que ele é o que eu disse.

“A menor mulher do mundo” me lembra domingo, primavera em Washington, criança adormecendo no colo no meio de um passeio, primeiros calores de maio – enquanto a menor mulher do mundo (uma notícia lida no jornal) intensificava tudo isso num lugar que me parece o nascedouro do mundo: África. Creio que também este conto vem de meu amor por bichos; parece-me que sinto os bichos como uma das coisas ainda muito próximas de Deus, material que não inventou a si mesmo, coisa ainda quente do próprio nascimento; e, no entanto, coisa já se pondo imediatamente de pé, e já vivendo toda, e em cada minuto vivendo de uma vez, nunca aos poucos apenas, nunca se poupando, nunca se gastando.

“O búfalo” me lembra muito vagamente um rosto que vi numa mulher ou em várias, ou em homens; e uma das mil visitas que fiz a jardins zoológicos. Nessa, um tigre olhou para mim, eu olhei para ele, ele sustentou o olhar, eu não, e vim embora até hoje. O conto nada tem a ver com isso, foi escrito e deixado de lado. Um dia reli-o e senti um choque de mal-estar e horror.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

POR DENTRO DA MENTE DOS NEGACIONISTAS

Impulsionada por políticos, médicos e ativistas bolsonaristas, a negação da história e da ciência vira uma atitude corriqueira na sociedade e ganha forma na promoção da hidroxicloroquina, na recusa em aceitar o número de mortes pelo coronavírus ou na rejeição às máscaras, ao lockdown e às medidas de isolamento social

O negacionismo é insidioso e traiçoeiro. Ele se espalha por ruas, bares, igrejas, mídias sociais e se dilui, sorrateiro, em toda a sociedade. Quando menos se espera, seu parente começa a falar bem da hidroxicloroquina e a dizer que não quer ser imunizado com vacina chinesa. Ou vem um colega e diz que não houve viagens à Lua e que a Terra é plana. Poucos batem no peito e afirmam: “Sou negacionista!”, mas em conversas informais e em notícias de jornais o pensamento científico está sendo ultrajado com uma fúria medieval em todos os cantos do Brasil.

Embora haja influência estrangeira, a atitude de negar a história e a ciência por aqui tem características especiais. Primeiro há um presidente negacionista, Jair Bolsonaro, liderança que exerce o charlatanismo à luz do dia fazendo propaganda enganosa de medicamentos e influenciando milhões de pessoas com ideias fora do lugar. E depois existem questões locais, como a tentativa de fazer revisionismo histórico com o golpe de 1964 e a Ditadura, ou a negação do racismo estrutural, fato perverso e incontestável.

Assumindo-se parcialmente, os negacionistas ocupam hoje uma zona de sombra na sociedade, mas emitem um barulho infernal. Poucos são negacionistas em tudo, mas uma parte cada vez maior da população está aderindo a uma ou outra ideia estapafúrdia que ofende o consenso científico. O que move essas pessoas pode ser a crença religiosa, um interesse político ou econômico ou a mera falta do que pensar. Não é preciso ser terraplanista ou antivacina para ser negacionista. Há outras questões atuais para tripudiar a ciência. Uma das teorias conspiratórias em voga diz que a Organização Mundial de Saúde (OMS) está a serviço da China. Outra, que a Coronavac não é eficaz. Fala-se também que o isolamento social e o lockdown não funcionam e que há uma ameaça comunista no Brasil. O principal efeito disso é perturbar políticas públicas produtivas e desacreditar instituições confiáveis com o objetivo de criar controvérsia. E, no limite, o aconselhamento anticiência pode levar pessoas à morte, por não respeitarem o isolamento, não usarem máscaras ou adotarem caminhos médicos falaciosos, como o tratamento precoce receitado pelos médicos bolsonaristas.

Nesse contexto de desmoralização da ciência, surgiu uma associação chamada Médicos pela vida, que promove exatamente o tratamento precoce de Bolsonaro. O grupo de 267 médicos das mais diversas especialidades resolveu defender abertamente experiências que contrariam o consenso científico. Assinou um documento na Câmara da cidade gaúcha de Santa Maria em que estimula o uso do chamado kit Covid, composto pelos medicamentos hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, bromexina, nitazoxanida, zinco, vitamina D, anti-coagulantes e inventado pelo governo Bolsonaro. Segundo o gastroenterologista Eduardo de Freitas Leite, que preside o grupo, o vírus é de baixa letalidade e se o paciente for submetido à terapia com os remédios do kit, a chance de se salvar é grande. “O que causa a morte das pessoas não é o coronavírus, mas a forte reação do sistema imune”, afirma. Leite explica que as medidas de distanciamento social e o lockdown só causam desespero na população. “Onde já se viu não poder sair com os amigos para um bar”, reclama. O médico despreza a OMS. “A instituição está corrompida, quem manda é o cartel das empresas farmacêuticas”, ressalta. O cirurgião conta que quando esteve na sessão solene para a assinatura do documento em Santa Maria utilizou a cloroquina. “Sou um homem de 72 anos e sempre que viajo de avião, pego algum vírus. Então, antes de voar tomei meu comprimido”, conta.

Mesmo com fartos trabalhos científicos que negam o potencial desse medicamento contra a Covid-19, os negacionistas não mudam o discurso e buscam uma oportunidade para professar o obscurantismo. Um de seus alvos imediatos é a Nasa, que levou o homem à Lua e atualmente opera o veículo-robô Perseverance na superfície de Marte. Evidentemente, eles não acreditam na viagem de Marte e muito menos na chegada à Lua. “A Nasa não me engana, a Terra é plana” é um dos slogans que vem sendo divulgados atualmente nas mídias sociais pelos detratores da ciência. Outro alvo de sempre é o físico Isaac Newton e suas leis básicas da física. O questionamento à Lei da Gravidade sempre se insinua em grupos terraplanistas. O próprio Olavo de Carvalho, guru dos bolsonaristas, questionou a gravitação como explicação para vários fenômenos na natureza. Um dos problemas do negacionismo mais empedernido, é que ele começa a se confundir, na cabeça de seus membros, com uma espécie de conhecimento secreto, que envolve uma presunção de superioridade. Não por acaso, sempre que há negacionistas surge a conversa dos Illuminati e das pessoas que enxergam a verdade. Mas quando precisam falar fora das bolhas, muitos deles se calam ou sucumbem por falta de argumentos.

Não é o caso do servidor público Joy Costat Calleri, 26 anos, de Taperoá (BA), que terminou o ensino médio, e fala abertamente de suas posições anticiência. Ele conta que se tornou terraplanista por influência religiosa, mas que não é negacionista e “apenas reflete a realidade”. “A Bíblia da qual faço uso e acredito fala sobre uma Terra estacionária e com bordas, semelhante ao modelo Terra plana”, diz. “Não posso acreditar numa ciência que diz que viemos do macaco e que a Terra foi criada através da explosão do Big Bang.” Quanto ao fato do planeta ser observado do espaço em sua configuração circular, ele afirma “não acreditar, de forma alguma, na hipótese de que o homem possa ir ou ter ido ao espaço”. Sua tese é que não existem as tecnologias necessárias para isso. “Hoje eles alegam que não vão à Lua porque não têm tecnologia o bastante e como o homem foi à Lua no século passado, sem as grandes tecnologias que temos hoje? É meio que hipocrisia”, questiona. Calleri também dúvida da Lei da Gravidade. “Segundo os globistas, a gravidade puxa tudo para o centro da Terra, porém, para mim, o que refuta essa hipótese é que os aviões voam sem nenhum problema”, diz. Quanto às vacinas, ele diz que as toma, mas não confia em todas. “Essa da Covid é muito precoce para podermos confiar”, diz.

Na política, em São Paulo, o deputado estadual Douglas Garcia (PTB), 27, vice-presidente do Movimento Conservador, organização de direita, se destaca na divulgação de ideias anticiencia. Sem pudor, o parlamentar defende que o médico, ao atender o paciente, deve ter plena liberdade de prescrever o medicamento que lhe pareça mais apropriado contra o coronavírus e, nas suas palavras, medidas de distanciamento social, como as implementadas no estado, são irrelevantes. “Costumo sair para confraternizar com meus amigos, sou a favor do isolamento vertical”, afirma. A respeito do uso obrigatório de máscara diz que “só usa porque não quer arrumar confusão”. O deputado dissemina a ideia de que a OMS é uma instituição contaminada politicamente pela China e pela Rússia, países comunistas, e declara seguir ensinamentos de médicos como o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), que minimiza a pandemia. “Tudo que a OMS recomenda, faço ao contrário”, afirma.

POLÍTICAS PÚBLICAS

Entre os grupos anônimos anticiência que rondam as redes sociais um dos mais representativos desse momento pandêmico é o denominado Curitiba Patriota. Seu principal líder, César Hamilko, expõe um pensamento sanitário nebuloso e acredita que o Brasil está sob permanente ameaça comunista. “Temos certeza de que o tratamento precoce dá certo, é a principal ação de combate contra o vírus”, afirma. Ele diz que seu grupo optou por fazer uso profilático do medicamento ivermectina, um anti-helmíntico. “Cuidamos de nossa imunidade com vitaminas C, D, Zinco e outras mais”, afirma. A respeito da OMS é veemente. “Eles não são confiáveis”, diz. Em São Paulo, outro movimento recém-formado, o Liberta Brasil, que mantém um acampamento no vão do MASP, também desafia a ciência. Um de seus líderes, o professor de muay thai Ricardo Roggieri, diz que não usa máscara e ele e toda a família tomam um comprimido de hidroxicloroquina por semana. “Só lamento que qualquer pessoa de direita que defenda a liberdade e está contra as imposições de isolamento de governos municipais e estaduais seja chamada de terraplanista”, afirma.

A prefeita de Bauru, Suéllen Rosin (Patriota), está naquele lugar difuso em que o negacionismo pode prejudicar políticas públicas e acha que medidas de lockdown na sua cidade são pouco funcionais. Suéllen teve uma reunião com Bolsonaro para tratar da pandemia e foi acusada pelo secretário de Desenvolvimento Regional de São Paulo, Marco Vinholi, de ser negacionista. “Não se trata de ser contra ou a favor do lockdown. Tenho obrigação de governar para todo mundo. A política de isolamento é paliativa. O vírus não vai desaparecer”, justifica. Ela se considera cristã e diz que a base do seu pensamento é a palavra de Deus. “A ciência inclusive foi criada por ele. Governo pedindo sabedoria para Deus todos os dias para fazer boas escolhas”, afirma.

Por mais incrível que pareça, a confusão a respeito das medidas contra a Covid-19 foi criada por negacionistas em posições de poder. Em vez de esclarecer, esses personagens querem confundir. Mesmo 502 anos depois de Fernão de Magalhães dar uma volta completa no globo terrestre e 100 anos depois da vacina contra a varíola comprovar a sua eficácia, ainda há gente que questiona a imunização ou acha que a Terra é plana. A atitude de ceticismo exacerbado e irracional diante de tudo que não vem de Deus e a desconfiança das explicações científicas para os fenômenos naturais, estimulada pela Igreja durante séculos, continua mais forte do que nunca no Brasil. Como disse na semana passada o ambientalista e filósofo Ailton Krenak, a máquina negacionista no Brasil e no mundo está mais ativa do que nunca. E é indispensável que ela seja combatida.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 25 DE ABRIL

O VALOR DA MULHER SÁBIA

A mulher sábia edifica a sua casa, mas a insensata, com as próprias mãos a derruba (Provérbios 14.1).

As mulheres sempre estiveram na vanguarda dos valores morais que sustentam a vida familiar. Quando as mulheres abandonam esses princípios, é porque a sociedade está chegando ao fundo do poço de sua degradação. O sábio nos fala de dois tipos de mulheres. Não fala de mulheres ricas e pobres, jovens e velhas, belas e desprovidas de refinados predicados físicos, mas de mulheres sábias e insensatas. A mulher sábia edifica a sua casa, pois é arquiteta dos valores morais que ornam a vida familiar. Se a construção com pedras e tijolos exige investimento e perícia, quanto mais a construção do lar e dos relacionamentos! A mulher sábia é aquela que investe seu tempo, sua vida, seus sentimentos, seus recursos e sua alma em pessoas, mais do que em coisas. Valoriza mais relacionamentos do que objetos. Dá mais importância à beleza interna do que ao requinte externo. A mulher insensata, porém, é demolidora. Suas palavras e ações provocam um verdadeiro terremoto na família. Ela desagrega, divide e separa. Suas mãos não trabalham para o bem, mas para o mal. Ela não é uma escultora do eterno, mas uma costureira do efêmero.

GESTÃO E CARREIRA

NEGÓCIOS DE FAMÍLIA

Como os Family Offices protegem grandes patrimônios – principalmente em momentos de crise

Grandes fortunas vêm, invariavelmente, acompanhadas de necessidades complexas e extremamente burocráticas: a gestão de patrimônios muito grande se diversificados, a administração de imóveis e bens móveis, a contabilidade insana, as idiossincrasias do staff, problemas de governança dentro da empresa e da própria família, o planejamento societário, sucessório, tributário…

Os problemas parecem não ter fim, mas têm solução. André Benchimol, sócio fundador do family office paulistano G5 Partners, define o negócio como um “hub de soluções”. “Esse tipo de negócio nasceu nas grandes e afortunadas famílias como os Rothschild, por exemplo, que, por uma extensa necessidade de serviços especializados, começaram a formar um time de especialistas com o único objetivo de resolver todas essas necessidades e burocracias”, explica ele.

Benchimol acrescenta que o family office é capaz de dar todo o auxílio possível para a gestão de patrimônios colossais com a vantagem de, por não ser vinculado a nenhuma instituição financeira, manter a máxima transparência e envolvimento na prestação do serviço. No nosso caso, nem na hora de remunerar o nosso próprio serviço permitimos um conflito de interesses. Trabalhamos apenas com a taxa de administração 100% paga pelo cliente.” Segundo ele, nenhum rebate (comissão) é retido, e todo o resultado dos investimentos retorna para o cliente.

TEMPOS DE COVID

Uma das vantagens de se ter a riqueza administrada por um family office é o “olhar do todo”. Pode acontecer de uma família não ter todo seu patrimônio gerido por uma empresa do tipo, mas eles certamente irão olhar para tudo o que a família teve e tem, fez e faz, de modo a ter maior noção das vantagens e dos riscos dos investimentos que indicarão na gestão daquela parte do patrimônio que lhes foi conferida.

Em tempos de crise como a atual, essa capacidade de visão – incluindo agora um ainda mais aguçado ”olhar para fora” – é crucial para as estratégias de proteção patrimonial. “A todo instante analisamos o mercado como um todo. Por exemplo: por que as pessoas perderam tanto dinheiro com a queda da bolsa em março? Porque estavam excessivamente compradas em risco, sem saber. Como mantemos uma visão a longo prazo, conseguimos criar oportunidades sólidas mesmo no meio da crise”, garante Benchimol.

A G5 abriu as portas em 2007 com menos de dez funcionários no time. Hoje são mais de 80 fazendo a gestão de RS 13 bilhões de 200 famílias, média de R$ 65 milhões por família – o patrimônio sob gestão de cada uma delas varia bastante, sendo que o mínimo para entrar no portfólio da G5 é de R$ 10 milhões, valor relativamente baixo quando comparado a outros family offices. “Eu adoraria prestar esse serviço para uma gama ainda maior de clientes, com patrimônios menores, mas chega um ponto em que fica inviável para o cliente, em termos de custos ou para nós, em termos de receita.  Se eu taxar um patrimônio pequeno com o mesmo percentual que eu taxo um patrimônio grande, ficaria caríssimo para o cliente; se eu diminuir o percentual, nós é que não temos receita”, analisa.

A Tera Capital, outro Family office de São Paulo, aplica estratégia oposta. Segundo a sócia Juliana Pagetti, o modelo é quase um “serviço boutique”. Eles atendem somente 14 famílias, reunindo um total de RS 6 bilhões sob gestão (média de RS 430 milhões por família). “Não é um modelo escalável, mas queremos mantê-lo assim, com poucos e bons relacionamentos”, afirma. Segundo ela, o fato de manter um portfólio mais reduzido permite que os cinco sócios da Tera estejam diariamente envolvidos nas questões das famílias que estão sob seus cuidados.

Assim como a G5, a Tera não tem como foco os serviços de concierge, ou seja. aqueles referentes ao dia a dia pessoal dos clientes. A empresa tem três fundos proprietários, que integram uma parcela pequena da carteira dos clientes e que servem de balizadores de estratégias para a gestão dos ativos.

A Sonata, por sua vez, atua de modo diferente dos dois anteriores. Nasceu do projeto de conclusão de curso de Camila Magalhães quando ela se formava na faculdade, há dez anos. O plano era construir uma estrutura que tivesse por objetivo atender mulheres e seus patrimônios. Durante dez anos, foi um escritório constituído apenas por mulheres, o que começou a mudar há poucos meses, desde que o primeiro homem passou a integrar o time.

Camila conta que, apesar desse direcionamento, a ideia não é levantar nenhuma bandeira de gênero, mas explorar um segmento de mercado pouco atendido. Mesmo assim, 40% dos atuais clientes são homens. O escritório atende 20 famílias, com um patrimônio total sob gestão de RS 3 bilhões (média de RS150 milhões por família). “Nossa porta de entrada é o investimento, a carteira de aplicações financeiras, mas lidamos com algo bem maior que isso. Levamos muito a sério as finanças comportamentais, aquilo que foi feito ao longo da construção do patrimônio da família, qual é o jogo de relações daquela família, quem toma as decisões, qual é o espaço que as gerações de cima dão às gerações de baixo. Acabamos ajudando em muitas outras áreas da vida dos clientes, que não se limitam à gestão financeira.” Quase como uma extensão daquela própria família, segundo a fundadora.

OLHAR PARA O FUTURO

Tatiana Abrahão, também sócia da Tera, conta que muitos clientes aparecem com situações e necessidade diversas, principalmente questões ligadas a governança e sucessão. Em situações como essas, é comum que o family office busque soluções junto a escritórios de advocacia e outros profissionais especializados em tais demandas. Sucessão, aliás, é um tema que costuma representar um momento complexo e conturbado nos negócios e no âmbito pessoal da família, pois geralmente envolve a perda de um ente. É um processo juridicamente longo e burocrático. Quanto maior o patrimônio, maiores são as chances de haver disputas e rupturas entre herdeiros. Isento de conflitos de interesses, um family office pode desempenhar papel decisivo na defesa do futuro desse patrimônio: seus especialistas conhecem não só a procedência da riqueza em sua totalidade como as interações e a dinâmica familiar. “Em certas situações, podemos intermediar uma assessoria de governança que irá orientá-los e direcioná-los em todos os aspectos, para que não haja nenhuma ruptura, para que se mantenha a unida para que se chegue ao consenso de como o patrimônio vai ser gerido, quem vai assumir a empresa, quem tomará as decisões econômicas, quem terá o poder político na organização.”

Um family office, por fim, não existe apenas para garantir o status quo atual de uma família. Existe para garantir a preservação daquela riqueza por muito tempo. As famílias que procuram por um family office em geral não estão querendo passar de multimilionárias a bilionárias”, acredita Benchimol. “Seu objetivo é a manutenção do patrimônio para as futuras gerações”.

O SEGREDO DOS BILIONÁRIOS PARA ENFRENTAR A TEMPESTADE

Os single-family offices – empresas financeiras criadas para controlar os ativos das pessoas mais ricas do mundo – vêm ganhando muito dinheiro durante a pandemia de coronavírus.

Mais de três quartos (76%) desses family offices dedicados a uma única família disseram que suas carteiras tiveram desempenho de acordo com as empresas ou mesmo acima delas este ano, até o momento, segundo o Relatório sobre Family Offices do banco suíço UBS.

Alguns deles perderam dinheiro durante as piores semanas da pandemia de coronavírus, e a maioria destes já recuperou essas perdas. Alguns tomaram dinheiro emprestado entre março e maio para tirar proveito de negócios a preços convidativos, de acordo com o UBS.

Beneficiado pela pandemia, Josef Stadler, diretor do Departamento Global de Family Offices da UBS Global Wealth Management, afirma: “Esperamos ver grandes mudanças nos próximos meses”. Segundo o relatório, é para ações e imóveis que o dinheiro deles deverá ser direcionado agora. Quase metade (45%) disse que compraria mais ouro.

Normalmente, somente os riquíssimos contam com um single­fanlily office. Os custos variam, mas a maioria dos consultores diz que é necessário dispor de pelo menos USS100 milhões para montar um. A maioria dos proprietários é formada por bilionários.

Em seu relatório, o UBS fez um levantamento com 120 family offices, os quais, em conjunto, cuidam de USS 14,24 bilhões. No entanto, em relatório do ano passado, a Campden Research estimou que havia 1.700 deles em todo o mundo, a maioria nos EUA, seguidos pela Europa, embora a Ásia esteja se aproximando rapidamente.

Um single-family office pode começar por uma pequena equipe de meia dúzia de funcionários que delegam a gestão do dinheiro a terceiros. Os maiores se assemelham a um banco pessoal, com dezenas ou centenas de funcionários envolvidos em transações multimilionárias em todo o mundo.

Esses single-family offices de grande porte têm “perfil de tipo institucional”, explica Stadler. Seus processos de investimento se assemelham aos dos grandes bancos e eles “aceitam e gerenciam os riscos como nenhum outro investidor”.

No início de julho, o bilionário John Paulson disse estar fechando seu fundo de hedge, o John Paulson & Co., e transformando-o efetivamente em um dos maiores family offices do mundo. Com mais de 100 funcionários, ele passará a gerir apenas o patrimônio pessoal de Paulson, estimado pela Forbe em 2 bilhões. Com poder financeiro atuante, os single-family offices estão começando a fazer fusões e aquisições com os bancos de investimento. Esses “negócios de clube” costumam ser efetuados por vários family offices que agregam seu dinheiro.

Por outro lado, eles podem ser engolidos por seus rivais de maior porte: os multi-family offices. Em abril, quando as bolsas de valores estavam na pior, a Stonehage Fleming, maior multi-family office da Europa, comprou a Cavendish Asset Management, fanily office da família Lewis.

Contudo, a pior fase da pandemia de coronavírus ainda não passou e muitos family offices estão reequilibrado às pressas suas alocações de ativos para gerir riscos de longo prazo.

Esses pontos estavam na pauta da 11ª Cúpula Global de Investimentos de Family Offices, em Mônaco. Ela foi anunciada como uma reunião, na última semana de julho, de uma riqueza de USS 4,5 trilhões. Número que agora já deve estar maior.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MULHERES NO PODER – II – ELES SÃO “FORTES”, ELAS SÃO “CHATAS”

O homem que grita e dá um murro na mesa pode ser considerado grosseiro, mas também é visto como forte. Se uma mulher agir de forma semelhante, fala-se de descontrole, loucura e, não raro, surgem comentários maldosos sobre sua vida particular

Apesar dos avanços e das transformações sociais, é possível que muita gente ainda acredite que, para não terem problemas no âmbito profissional, as mulheres devessem aceitar os modelos que ainda imperam no imaginário masculino: aquela que deseja ser conquistada, a secretária que faz tudo sem nunca pedir nada em troca, a mãe que acolhe e apoia. Mas felizmente muitas já se sentem em condições de assumir o protagonismo, mostrando capacidade, exigindo seus direitos e competindo pelo que desejam. Essa atitude deixa muitos – e muitas – colegas desconfortáveis. Disso resulta uma equação simplista: mais poder para “elas”, menos para “eles”. Mesmo em cargos de chefia, muitas mulheres enfrentam a resistência velada, por exemplo, quando decisões são tomadas em sua ausência, como se houvesse um nível sutil de acesso que não lhes é permitido.

A reação explícita a essas situações, entretanto, pode custar caro. Em geral, existe uma crença tácita: só quem tem taxa elevada de testosterona está autorizado a revelar a própria arrogância e a intervir de forma agressiva. O homem que grita e dá um murro na mesa pode ser considerado grosseiro, mas também é visto como forte. Se uma mulher agir de forma semelhante, fala-se de descontrole, loucura e, não raro, surgem comentários maldosos sobre sua vida pessoal. Quando uma mulher tem prestígio e é determinada, geralmente já é definida como intransigente – mesmo por aqueles que não convivem com ela. Possivelmente, prevalece um estereótipo difícil de superar: a competência feminina ameaça mais que a masculina – e isso vale tanto para homens quanto para outras mulheres. Além disso, neles a arrogância costuma ser perdoada, mas nelas não: ele é forte: ela é chata.

Recentemente uma pesquisa da Universidade de Michigan indicou que os estrógenos podem ter papel semelhante no organismo, independentemente do gênero. Um teste revela o aumento da produção de hormônios nas mulheres que têm um comportamento dominante nas situações de conflito. Outros estudos, entretanto, mostram que elas são menos propensas à dominação social e mais inclinadas a tomar atitudes que favoreçam o igualitarismo, enquanto eles tendem a favorecer as hierarquias. Além disso, estão mais propensos a valorizar o próprio trabalho, aceitando compensações e reconhecimentos, ainda que não merecidos.

Já as mulheres muitas vezes sentem que devem render ainda mais, como se as rondasse a culpa de ter feito “um pouco menos” – mesmo que na prática isso não se confirme. E as críticas mais mordazes, não raro, vêm de outras mulheres – o que é compreensível, pois pretendem que as outras também sejam perfeitas. Em geral. o processo se repete em casa, na relação entre mães e filhas. Resultado: espera-se de uma mulher na chefia mais compreensão e de uma subordinada, mais esforço. Talvez não seja por acaso que as mulheres se afirmem principalmente em alguns setores. Quando não estão ocupando posições importantes por motivos familiares, geralmente são as executivas de setores como jurídico, comunicação, finanças. Porém, é pouco provável que se tornem figuras carismáticas, que arrebatam as massas.