A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SOB O SIGNO DA INTOLERÂNCIA

Pesquisas na área de psicologia social e sociologia mostram que se suportamos o desconforto inicial da diferença temos muito a ganhar, não só afetivamente, mas também do ponto de vista cognitivo. Em outras palavras, a diversidade nos torna mais inteligentes.

É na diversidade que nos constituímos, mas a maioria das pessoas passa a vida se rebelando contra ela. A diferença atrai, mas em geral o que prevalece é o incômodo que causa – a ponto de, em muitos casos, suscitar o ódio. Não por acaso, em 3 mil anos de civilização a história registra apenas 500 anos não contínuos de paz. Mas é bom lembrar que o fato de não haver documentação precisa pode ocultar conflitos que se perderam. Nas últimas semanas, a polarização de opiniões, traduzida em intenções de votos, tem dividido o país, tem trazido à tona uma triste realidade: somos menos informados e mais machistas, homofóbicos, elitistas, higienistas, violentos e raivosos do que gostamos de admitir. O que nem sempre percebemos é que, não raro, a intolerância transfigura-se em tragédia, marcada pela enorme dificuldade de convivência com aqueles que têm formas diversas de ser e estar no mundo, mas também expõe o fato de que, mesmo contra nossa vontade, a diferença existe – seja na anatomia, no desejo, na pele, na crença, no afeto, na sexualidade ou na maneira de ser.

No processo de constituição psíquica, o ódio aparece como elemento primordial. Na etimologia grega, odeum significa “pequeno teatro” destinado a apresentações de música e declamação de poesias. Num primeiro momento, essa ligação pode parecer disparatada, mas convém considerar que no lugar onde são dramatizadas as emoções mediadas pela arte, a presença do ódio é recorrente. Na origem latina. odium refere-se a repugnância, aversão, evocando a ideia de repulsa e horror, acompanhada da certeza de que aquilo que provoca esse sentimento deve ser evitado. Possivelmente por isso, o assunto merece pouca atenção. Não por acaso, o psicanalista Mauro Mendes Dias, autor do livro Os ódios Clínica e política do psicanalista (Iluminuras, 2012), usa a palavra no plural. Seu intuito é justamente marcar a multiplicidade de maneiras de abordar e refletir sobre o assunto, tão complexo.

Falar do ódio não parece fácil. Nos escritos sobre psicanálise, o tema parece não despertar grande interesse em autores além de Freud. Entre as exceções estão alguns autores como Jacques Hassoun, que aborda o assunto em O obscuro objeto do ódio, e Jacques Lacan, que articula o tema em vários momentos de sua obra, avançando na abordagem em seu Seminário 20. Não seria exagero supor que abordar o tema desperta algum mal-estar, já que o ódio é a mais arcaica testemunha da incompletude e do desconforto, antes mesmo que as palavras dessem forma ao sentir.

Sua importância, porém, é grande. Constitutivo da noção de Outro, de estrangeiro, de diferente, o ódio surge permeado por uma rede complexa de afetos. “A princípio, parece evidente que a questão do(s) ódio(s) seja, além de clínica, também política. Todas as patologias sociais ligadas ao fanatismo e à segregação exigem uma compreensão teórica dessa paixão ‘triste’, que ao lado do amor e da ignorância forma um conjunto que Jacques Lacan denominou “paixões do ser”, escreve Maria Rita Kehl na apresentação do livro de Dias.

Freud afirma que o ódio é mais antigo que o amor e que os dois não se acham numa relação simples de contraposição. Ele fala da rejeição primordial do mundo externo repleto de estímulos que incomodam o “eu”: nas origens das relações está a expressão da repulsa primitiva. “O ódio está colocado antes porque logicamente é preciso considerar o Outro barrado que dá constituição ao sujeito. Outro esse que Freud alinha com o desprazer, como barra que atualiza a Lei da castração”, assinala Dias.

Nestes tempos incertos, em que tanta gente se mostra cheia de certezas, parece oportuno refletir sobre a dificuldade de aceitar o outro, em geral acompanhada de tentativas de evitar, subestimar ou ignorar aquele que parece nos provocar com a diferença. Uma forma diluída (e disfarçada) de vivenciar o ódio. O que pesquisas na área de psicologia social e sociologia mostram, porém, é que se suportamos o desconforto inicial da diferença temos muito a ganhar, não só afetivamente, mas também do ponto de vista cognitivo. Em outras palavras, a diversidade nos torna mais inteligentes.

A CIVILIZAÇÃO NÃO ESTÁ PRONTA!

O preconceito está por trás de todos os mecanismos de exclusão. “A intolerância é despertada pelo que está fora dos padrões”, diz a socióloga Luci Ribeiro, doutora em sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com pós-doutorado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), autora do livro Estranhos no mundo contemporâneo: exclusão social, preconceito e intolerância (Appris, 2014). “Vivemos em tempos de mudança econômica, social e de comportamento e isso abala muito a estrutura emocional daqueles que sempre tiveram lugar de privilégio”, afirma a pesquisadora, integrante do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Ciências Sociais (Lenps) da Universidade Estadual de Londrina (UEL). “Quando olhamos para o momento atual, de grande retrocesso social, é preciso considerar nosso passado recente marcado pela saída da ditadura e para a abertura democrática”, observa Ribeiro. Segundo ela, muitas vezes a ideia de segurança está associada à crença de que há formas ” corretas” de agir. Ela salienta que quando pensamos no período da ditadura sabemos que era tudo muito padronizado: havia trabalhadores e patrões; as mulheres tinham seu lugar como mães, esposas e sofriam a violência caladas; a homossexualidade era tratada como doença. “Aí vemos não só no Brasil, mas em vários países, uma abertura que faz com que os padrões sejam questionados; os lugares sociais e psíquicos começam a ser desfeitos e, assustadas, muitas pessoas buscam ‘segurança’, na tentativa de se convencer de que sua existência não está sendo colocada em xeque.” Outro ponto a ser considerado é a despolitização. ” Infelizmente não somos politizados para fortalecer estruturas de poder para garantir nossa constituição”, afirma Ribeiro. Ela ressalta que a eleição de deputados e senadores reproduz a velha política com a cara do novo. Não olhamos os programas de governo nem analisamos promessas dos candidatos. Há uma política com “p” minúsculo, muito mal conduzida, que tem como consequências a corrupção, a violência, a má qualidade dos serviços públicos. Em sua opinião, a situação não é ” culpa” do governo simplesmente, somos todos responsáveis; o quadro é multifatorial e como cidadãos muitos se retiram da cena, de forma emocionalmente imatura. “O que vemos em tempos de abertura é a necessidade de lidar com as consequências dos votos, é um aprendizado. Só que ainda temos a herança que valoriza o autoritarismo de uma figura masculina que fala mais alto, bate na mesa e diz que ‘vai dar jeito em tudo isso aí’. Mas, afinal, o que é ‘isso aí’?”, questiona Ribeiro. A pesquisadora lembra o pensador Norbert Elias, que trabalha muito com a questão da ” descivilização”, que o autor entende como padrões de sociabilidade, ou seja, a capacidade de conviver de forma pacífica em sociedade. De acordo com Elias, a civilização não está “pronta”. As relações que nos permitem coexistir tendem a se desgastar, por isso precisamos cuidar constantemente desse processo, pois os retrocessos acontecem. “Há momentos de claro recrudescimento das relações, com mais violência e menos empatia”, afirma a socióloga.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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