A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O TRAUMA DOS OUTROS

Presenciar a violência experimentada por aqueles que nem conhecemos pode ser, em alguns casos, tão traumático quanto experimentar o sofrimento na própria pele. Cientistas tentam descobrir os mecanismos cerebrais que sustentam esse fenômeno

O que acontece em nosso cérebro quando vemos pessoas passando por situações de violência, sofrendo dores físicas ou emocionais que possam acarretar traumas? Cientistas descobriram que as mesmas regiões ativadas quando sentimos dor também são acionadas nas situações em que observamos outros passarem por alguma experiência dolorosa. Esse processo foi mostrado em um estudo desenvolvido pelo Instituto Karolinska, na Suécia, e publicado na revista Nature Communications. Segundo pesquisadores, somos capazes de “aprender” a ter medo apenas observando a reação alheia. Uma explicação para isso parece estar no funcionamento do sistema opioide endógeno.

Ver expressões de dor ou ansiedade pode nos dar informações importantes sobre o que é perigoso e deve ser evitado. Às vezes, porém, podemos desenvolver o desconforto diante de situações que, racionalmente falando, não nos ameaçam. O sistema opioide deve, pelo menos em tese, aliviar a dor e o medo, mas ele não funciona de forma tão eficaz em todas as pessoas, o que pode concorrer para que alguns desenvolvam síndrome de ansiedade simplesmente por ver outros experimentarem um trauma.

“Alguns são mais sensíveis que outros a essa forma de aprendizagem social”, observa o coordenador do estudo, o neurocientista Jan Haaker, pesquisador do Departamento de Neurociências Clínicas do Instituto Karolinska. “Nosso trabalho mostra que o sistema opioide endógeno influencia nossa sensibilidade e pode explicar por que alguns pacientes desenvolvem transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)apenas observando situações assustadoras ou trágicas, ainda que não se envolvam diretamente nelas”, afirma Haaker, autor principal do estudo.

Ele notou que, depois de ataques terroristas, queixas de ansiedade, bem como episódios de medo muitas vezes infundado e crises de pânico, tendem a aumentar mesmo entre aqueles que não são vítimas nem têm nenhum parente ou amigos próximos atingidos. “Muitos dos pacientes nem estavam presentes no local dos ataques”, afirma.

Em um estudo duplo-cego, os pesquisadores alteraram a química do cérebro de 22 voluntários saudáveis, usando uma substância para bloquear o sistema opioide. Os participantes de um segundo grupo receberam apenas um placebo inativo e, na sequência, todos assistiram a um vídeo em que outras pessoas foram submetidas a choques elétricos.

SEMPRE UMA SURPRESA

O cérebro normalmente atualiza seu conhecimento a respeito do que é perigoso com base naquilo que nos surpreende, mas, quando o sistema opioide dos voluntários foi bloqueado, as pessoas continuaram a reagir como se fossem pegas de surpresa, ainda que racionalmente soubessem que veriam a cena do choque elétrico. Também chamou atenção dos pesquisadores suecos que a resposta a esse estímulo foi amplificada mesmo quando os participantes do primeiro grupo continuaram a ver outras pessoas sendo submetidas a choques. A reação exacerbada em determinadas áreas do cérebro, como a amígdala, a região periaquedutal e o tálamo, indica que a dor alheia é percebida como se a própria pessoa a sentisse. A comunicação entre essas e outras áreas do cérebro ligadas à capacidade de compreender experiências e pensamentos de outros indivíduos também se mostrou aumentada.

“Quando os voluntários foram submetidos a estímulos ameaçadores que tinham previamente sido associados com a dor dos outros, eles transpiravam mais e apareciam com mais medo do que aqueles que tinham recebido o placebo”, conta Andreas Olsson, professor do Departamento de Neurociências Clínicas do Instituto Karolinska. Ele lembra que essa aprendizagem reforçada em relação ao medo se mantinha mesmo três dias após o experimento ter terminado. Segundo Olsson, o estudo contribui para ampliar a compreensão da psicologia subjacente ao medo. As descobertas podem ajudar milhões de pessoas que sofrem com sintomas de ansiedade. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, só no Brasil, mais de 9% da população apresenta os sintomas da patologia.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.