EU ACHO …

SOLIDÃO E FALSA SOLIDÃO

Eu, que pouco li Thomas Merton, copiei no entanto de algum artigo seu as seguintes palavras: “Quando a sociedade humana cumpre o dever na sua verdadeira função as pessoas que a formam intensificam cada vez mais a própria liberdade individual e a integridade pessoal. E quanto mais cada indivíduo desenvolve e descobre as fontes secretas de sua própria personalidade incomunicável, mais ele pode contribuir para a vida do todo. A solidão é necessária para a sociedade como o silêncio para a linguagem, e o ar para os pulmões e a comida para o corpo. A comunidade, que procura invadir ou destruir a solidão espiritual dos indivíduos que a compõem, está condenando a si mesma à morte por asfixia espiritual.”

E mais adiante: “A solidão é tão necessária, tanto para a sociedade como para o indivíduo que, quando a sociedade falha em prover a solidão suficiente para desenvolver a vida interior das pessoas que a compõem, elas se rebelam e procuram a falsa solidão. A falsa solidão é quando um indivíduo, ao qual foi negado o direito de se tornar uma pessoa, vinga-se da sociedade transformando sua individualidade numa arma destruidora. A verdadeira solidão é encontrada na humildade, que é infinitamente rica. A falsa solidão é o refúgio do orgulho, e infinitamente pobre. A pobreza da falsa solidão vem de uma ilusão que pretende, ao enfeitar-se com coisas que nunca podem ser possuídas, distinguir o eu do indivíduo da massa de outros homens. A verdadeira solidão é sem um eu.

Por isso é rica em silêncio e em caridade e em paz. Encontra em si infindáveis fontes do bem para os outros. A falsa solidão é egocêntrica. E porque nada encontra em seu centro, procura arrastar todas as coisas para ela. Mas cada coisa que ela toca infecciona-se com o seu próprio nada, e se destrói. A verdadeira solidão limpa a alma, abre-se completamente para os quatro ventos da generosidade. A falsa solidão fecha a porta a todos os homens.

Ambas as solidões procuram distinguir o indivíduo da multidão. A verdadeira consegue, a falsa falha. A verdadeira solidão separa um homem de outros para que ele possa desenvolver o bem que está nele, e então cumprir seu verdadeiro destino a pôr-se a serviço de uma pessoa.”

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

FALANDO A MESMA LÍNGUA

Semelhante a um fone de ouvido convencional, aparelho promete traduzir quarenta idiomas em tempo real. No futuro próximo, seremos todos poliglotas?

A busca incessante da humanidade por quebrar a barreira dos idiomas foi retratada em diversas obras, a começar pela mais famosa de todos os tempos.

Segundo o Gênesis do Velho Testamento, as religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo) acreditavam que todas as línguas derivaram de um episódio retratado na Bíblia: a Torre de Babel. Há pouco mais de um século, o médico polonês Lázaro Zamenhof (1859-1917) formulou o que seria uma língua universal, o esperanto. A ideia não vingou e nem mesmo o inglês, que por razões geopolíticas, econômicas e culturais se impôs como o mais abrangente, chega a todos os lugares. Segundo o instituto cultural British Council, apenas 5% da população brasileira fala a língua de Shakespeare, e só 1% de forma fluente. Nesse contexto, as tecnologias de inteligência artificial (IA) surgiram como um alento. Em 2006, o Google lançou o Google Tradutor. Outras invenções, como o iLi, um colar japonês de tradução off­line, e o Megahonyaku, um megafone da Panasonic voltado para o transporte público de Tóquio, vieram togo atrás. Mas as reclamações costumavam ser as mesmas: o serviço é útil para ações cotidianas como pedir um táxi, mas ineficientes para atividades complexas como a versão de um documento para outra língua. Agora, um lançamento põe um pouco mais de esperança na Babel humana. É o caso do fone de ouvido que ilustra este post. Ele parece um aparelho comum, desses encontrados em lojas de eletrônicos, mas vai além disso – pelo menos, a promessa é essa. Trata-se do Timekettle WT2Edge, um fone sem fio que, segundo o fabricante, é o primeiro a oferecer tradução simultânea bidirecional, quando os dois interlocutores falam e escutam o conteúdo na língua que desejarem. Para conferir tal façanha, o usuário deve baixar o aplicativo disponível para Androide iOS, determinar os idiomas de entrada e saída, compartilhar um dos fones com a outra pessoa – uma prática ainda não recomendável em tempos de pandemia – e iniciar a conversa.

Em sua versão on-line, o dispositivo da startup sino-americana Timekettle traduz conversas em quarenta idiomas – incluindo o português – e 93 dialetos, cobrindo quase 85% da população mundial. A empresa garante ter precisão de 95% na tradução inglês-chinês e ao menos 80% em outras combinações (ai que mora o perigo). O modelo é equipado com tecnologia de redução de ruídos e permite que uma pessoa continue falando mesmo enquanto a tradução está ocorrendo. Outra promessa é que a conversão de línguas leva apenas de 0,5 a 3 segundos. “Se o serviço falhar ou demorar muito, as pessoas não vão usar”, reconhece KazafYe, chefe de marketing da Timekettle, em entrevista na sede da empresa, em Shenzhen, na China. Empolgada com o sucesso da empreitada até aqui, a empresa quer incluir o tradutor em situações mais complexas, como uma reunião de negócios ou uma paquera mais promissora. Disponível para compras pela internet, o produto custa 109 dólares, com frete de 10 dólares para o Brasil (equivalente a 650 reais no total) – e entregas previstas para abril.

A novidade é bem-vinda, mas ainda é cedo para decretar o fim dos tradutores humanos ou do interesse das pessoas em aprender novas línguas. Mesmo assim, o notável desenvolvimento dos aplicativos já permite questionar a real necessidade de alguém se tornar um poliglota nas próximas décadas. Quando o Google Tradutor surgiu, o processo era estatístico, semelhante a uma consulta ao dicionário. O computador cruzava dados e buscava o equivalente mais recorrente na língua a ser traduzida. Tal método ocasionava constantes erros de concordância e gerava frases sem sentido, especialmente em casos de palavras homônimas como “rio”, que tanto pode funcionar como verbo ou substantivo em português, ou de múltiplos sentidos, como hard (difícil ou rígido), em inglês. O contexto das conversas, portanto, era ignorado até que, em 2016, o tradutor mudou seu modelo para o chamado sistema neural, que trabalha com aprendizagem de máquina. As informações são computadas como se fossem neurônios artificiais, simulando o aprendizado humano. “A análise é feita em dois sentidos e abrange a sentença, não mais uma única palavra, o que acabou melhorando a fluência e a adequação”, diz Helena Caseli, doutora em ciência da computação da Universidade Federal de São Carlos (UFSGar).

O fato de as línguas serem vivas, com o constante surgimento de palavras, impossibilita uma tradução artificial 100% infalível, mas confirma que os algoritmos são cada vez mais capazes de considerar variáveis como as distintas entonações. De certa forma, os recentes lançamentos remetem a outra obra literária, O Guia do Mochileiro das Galáxias (1979), de Douglas Adams, clássico da cultura nerd adaptado para o cinema em 2005, no qual um tipo de peixe, o Babel – a referência é óbvia -, era introduzido no ouvido dos viajantes cósmicos, de modo que pudessem compreender todas as línguas do universo. Resta saber em quanto tempo a vida imitará a arte.

A busca incessante da humanidade por quebrar a barreira dos idiomas foi retratada em diversas obras, a começar pela mais famosa de todos os tempos.

Segundo o Gênesis do Velho Testamento, as religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo) acreditavam que todas as línguas derivaram de um episódio retratado na Bíblia: a Torre de Babel. Há pouco mais de um século, o médico polonês Lázaro Zamenhof (1859-1917) formulou o que seria uma língua universal, o esperanto. A ideia não vingou e nem mesmo o inglês, que por razões geopolíticas, econômicas e culturais se impôs como o mais abrangente, chega a todos os lugares. Segundo o instituto cultural British Council, apenas 5% da população brasileira fala a língua de Shakespeare, e só 1% de forma fluente. Nesse contexto, as tecnologias de inteligência artificial (IA) surgiram como um alento. Em 2006, o Google lançou o Google Tradutor. Outras invenções, como o iLi, um colar japonês de tradução off­line, e o Megahonyaku, um megafone da Panasonic voltado para o transporte público de Tóquio, vieram togo atrás. Mas as reclamações costumavam ser as mesmas: o serviço é útil para ações cotidianas como pedir um táxi, mas ineficientes para atividades complexas como a versão de um documento para outra língua. Agora, um lançamento põe um pouco mais de esperança na Babel humana. É o caso do fone de ouvido que ilustra este post. Ele parece um aparelho comum, desses encontrados em lojas de eletrônicos, mas vai além disso – pelo menos, a promessa é essa. Trata-se do Timekettle WT2Edge, um fone sem fio que, segundo o fabricante, é o primeiro a oferecer tradução simultânea bidirecional, quando os dois interlocutores falam e escutam o conteúdo na língua que desejarem. Para conferir tal façanha, o usuário deve baixar o aplicativo disponível para Androide iOS, determinar os idiomas de entrada e saída, compartilhar um dos fones com a outra pessoa – uma prática ainda não recomendável em tempos de pandemia – e iniciar a conversa.

Em sua versão on-line, o dispositivo da startup sino-americana Timekettle traduz conversas em quarenta idiomas – incluindo o português – e 93 dialetos, cobrindo quase 85% da população mundial. A empresa garante ter precisão de 95% na tradução inglês-chinês e ao menos 80% em outras combinações (ai que mora o perigo). O modelo é equipado com tecnologia de redução de ruídos e permite que uma pessoa continue falando mesmo enquanto a tradução está ocorrendo. Outra promessa é que a conversão de línguas leva apenas de 0,5 a 3 segundos. “Se o serviço falhar ou demorar muito, as pessoas não vão usar”, reconhece KazafYe, chefe de marketing da Timekettle, em entrevista na sede da empresa, em Shenzhen, na China. Empolgada com o sucesso da empreitada até aqui, a empresa quer incluir o tradutor em situações mais complexas, como uma reunião de negócios ou uma paquera mais promissora. Disponível para compras pela internet, o produto custa 109 dólares, com frete de 10 dólares para o Brasil (equivalente a 650 reais no total) – e entregas previstas para abril.

A novidade é bem-vinda, mas ainda é cedo para decretar o fim dos tradutores humanos ou do interesse das pessoas em aprender novas línguas. Mesmo assim, o notável desenvolvimento dos aplicativos já permite questionar a real necessidade de alguém se tornar um poliglota nas próximas décadas. Quando o Google Tradutor surgiu, o processo era estatístico, semelhante a uma consulta ao dicionário. O computador cruzava dados e buscava o equivalente mais recorrente na língua a ser traduzida. Tal método ocasionava constantes erros de concordância e gerava frases sem sentido, especialmente em casos de palavras homônimas como “rio”, que tanto pode funcionar como verbo ou substantivo em português, ou de múltiplos sentidos, como hard (difícil ou rígido), em inglês. O contexto das conversas, portanto, era ignorado até que, em 2016, o tradutor mudou seu modelo para o chamado sistema neural, que trabalha com aprendizagem de máquina. As informações são computadas como se fossem neurônios artificiais, simulando o aprendizado humano. “A análise é feita em dois sentidos e abrange a sentença, não mais uma única palavra, o que acabou melhorando a fluência e a adequação”, diz Helena Caseli, doutora em ciência da computação da Universidade Federal de São Carlos (UFSGar).

O fato de as línguas serem vivas, com o constante surgimento de palavras, impossibilita uma tradução artificial 100% infalível, mas confirma que os algoritmos são cada vez mais capazes de considerar variáveis como as distintas entonações. De certa forma, os recentes lançamentos remetem a outra obra literária, O Guia do Mochileiro das Galáxias (1979), de Douglas Adams, clássico da cultura nerd adaptado para o cinema em 2005, no qual um tipo de peixe, o Babel – a referência é óbvia -, era introduzido no ouvido dos viajantes cósmicos, de modo que pudessem compreender todas as línguas do universo. Resta saber em quanto tempo a vida imitará a arte.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 17 DE ABRIL

A POBREZA É FILHA DA IGNORÂNCIA

Pobreza e afronta sobrevêm ao que rejeita a instrução, mas o que guarda a repreensão será honrado (Provérbios 13.18).

Rejeitar a instrução é consumada loucura. Desprezar a disciplina é insensatez. Fazer pouco caso da correção é cair nas malhas da afronta. A ignorância é a mãe da pobreza. Os tolos desprezam o conhecimento, abandonam a instrução e fogem da árdua lida dos estudos. Só não podem fugir da pobreza. Esta é filha da ignorância. O que guarda a repreensão, porém, recebe tratamento honroso. Aquele que tem humildade para aprender e coração quebrantado para ser repreendido é colocado em lugar de honra. Deus dá graça aos humildes, mas rejeita os soberbos. Exalta os humildes e humilha os arrogantes. Só os ignorantes rejeitam a repreensão. Só os tolos abandonam a instrução. Só os insensatos fazem troça da disciplina. Caminharão pela estrada sinuosa da pobreza e da desonra. Aqueles, porém, cuja cerviz se dobra diante da correção e cujo coração é humilde para receber instrução, esses ganham honra e riqueza. Caminham pela estrada reta da bem-aventurança, alcançam os horizontes ensolarados da prosperidade e chegam ao destino certo da felicidade.

GESTÃO E CARREIRA

A REINVENÇÃO DOS HEADHUNTERS

As novas tecnologias e as crises financeiras fizeram com que o mercado de hunting precisasse ampliar seu escopo de atuação. Para sobreviver nessa área, é preciso inovar

Até uma década atrás, a figura dos headhunters era emblemática. Sua rede de contatos era um ativo tão valioso que poucos questionavam a necessidade de pagar por seus serviços para encontrar o executivo ideal para uma vaga – principalmente as de alto escalão. Mas essa aura começou a ser dissipada nos últimos anos. Afinal, com o desenvolvimento de sites de emprego e a popularização do LinkedIn, qualquer um tem acesso a um banco de candidatos mundial. As consequências são o surgimento de concorrentes de pequeno porte que conseguem competir de igual para igual com as grandes firmas de hunting e a internalização do processo de recrutamento nas empresas. Só com esses fatores o cenário já seria complexo. Mas aí surgiram as crises econômicas: tanto a internacional, de 2008, quanto a nacional, de 2014, impactaram fortemente o setor. O resultado é uma necessidade urgente de reinvenção.

AO LADO DA LIDERANÇA

Mais do que fazer seleção, os headhunters precisam ter um papel consultivo. Um estudo de janeiro de 2018, feito pela Associação de Recrutamento de Executivos Consultoria de Lideranças (Aesc) em parceria com The Conference Board comprova essa percepção. Os pesquisadores entrevistaram mais de 1.000 presidentes e diretores de empresas para descobrir qual era o principal desafio na era digital. O resultado não foi inovação nem investimentos em infraestrutura, mas, sim, atrair e reter os melhores talentos. “Diante desse problema, percebemos que a demanda por nossos serviços, especialmente os de consultoria aumentou”, afirma Karen Greenbaum, presidente da Aesc. O setor sempre teve esse tipo de atuação – mas as consultorias estão indo para um nível mais profundo. “Há o crescimento em planejamento de sucessão, análise da eficácia do conselho e avaliação de desenvolvimento de liderança”, diz Karen. Não é à toa que, em fevereiro, a Heidrick & Struggles, uma das firmas mais conhecidas por recrutamento para o alto escalão, inaugurou sua área voltada exclusivamente para consultoria. “A intenção é criar uma linha de serviços para complementar nosso portfólio. A nova realidade do mercado empurrou companhias como a nossa a desempenhar atividades ainda mais especializadas”, diz Dárcio Crespi, sócio­ diretor da Heidrick & Struggles.

O fato é que especialistas em recrutamento conhecem como ninguém o que são profissionais de alto nível, e é fundamental para as grandes empresas saber como seus talentos estão em relação ao demais do mercado. Ao mesmo tempo, os caça-talentos dominam como poucos a estrutura interna e as necessidades das companhias, o que faz com que ofertas como a avaliação de desempenho e potencial, treinamento de lideranças e comparação externa de executivos ganhem destaque.

Luís Souza, vice-presidente global de recursos humanos da japonesa Fitjitsu, a décima maior empresa de serviços de tecnologia da informação do mundo, costuma utilizar o serviço de recrutamento e consultoria para as unidades espalhadas por todos os continentes. Para ele, a tendência é de crescimento por meio de parcerias. “Acredito que ainda podem ocorrer novas fusões e aquisições”, diz Souza, referindo-se a uma das grandes movimentações do mercado: a compra do Hay Group, especializado em desempenho organizacional, pela Korn Ferry. Um negócio de 452 milhões de dólares que foi concluído em 2015.

Outro movimento é o de atração dos headhunters para os conselhos das companhias, uma prática corriqueira nos Estados Unidos, mas que apenas recentemente chegou ao país. “Osclientes começam nos chamando na hora de substituir um profissional. Mas, depois de o vínculo ser estabelecido, a consultoria acaba atendendo outras frentes”, afirma Luís Cabrera, sócio -proprietário da Panelli Motta Cabrera, um dos primeiros caça-talentos do país.

FOCO NOS TEMPORÁRIOS

Após a reforma trabalhista no Brasil, a inglesa Odgers Berndtson trouxe ao país uma divisão chamada Odgers Interim para auxiliar companhias a contratar pessoas que queiram trabalhar por projetos. “A área de recursos humanos sabe que atrair interinos adequados pode trazer um novo olhar sobre os negócios e contribuir para seu desenvolvimento”, diz Luiz Wever, presidente da Odgers Berndtson. O novo braço já alocou, desde fevereiro, quatro diretores temporários para áreas de mídia e de desenvolvimento de negócios.

Outra que se antecipou à lei foi a Robert Half, que desde 2009 tem uma divisão especializada em contratar profissionais por projeto no Brasil. Globalmente, esse setor representa 90% do faturamento anual da companhia. Por aqui, a área cresce mais rápido do que em qualquer um dos 19 países nos quais a Robert Half atua. Somente no ano passado, houve um aumento de 35% no preenchimento de posições desse tipo. “Antes se achava que temporário era apenas para áreas operacionais. Mas hoje se entende o valor desse profissional a áreas estratégicas”, afirma Lucas Nogueira, diretor associado da Robert Half.

FORTALECENDO CONEXÕES

Para atrair mais clientes e se posicionar no mercado, algumas empresas de hunting estão investindo no compartilhamento de conhecimento. A Signium é um exemplo. A empresa que busca executivos de alto escalão com sede em Chicago e atuação em 29 países chegou ao Brasil em 2016 para atuar como uma “butique de recrutamento” nos setores de especialidade dos três sócios, como bens de consumo, varejo e farmacêutico, e, claro, consultoria. Mas, para se destacar, o escritório passou a organizar eventos e cursosgratuitos em parceria com o lnsper. A ideia é reunir, no mesmo espaço, lideres (sejam eles executivos ou empreendedores) e universitários. Assim, as duas pontas – jovens em potencial e veteranos do mercado de trabalho – entendem as demandas umas das outras, aumentando a chance de que as escolhas profissionais sejam boas para ambas as partes. “Isso acaba nos gerando oportunidades de negócios. Quando uma empresa identifica que um profissional tem potencial para ser gerente, mas também um perfil de empreendedor, ajudamos a desenhar a carreira para que ele possa crescer sem se frustrar”, diz Jorge Kraljevic, sócio-diretor da Signium no Brasil.

Em outra frente, a Inniti, especializada em recrutamento, governança corporativa, desenvolvimento organizacional e de liderança, aproveita seu conhecimento da realidade do mercado para organizar eventos. Capitaneadas por Joseph Teperman, sócio- fundador da empresa, as palestras têm o objetivo de compartilhar tendências com presidentes e diretores de empresas. “‘Na primeira edição do InnitiDay em 2017, tivemos 300 participantes e, para este ano, projetamos 700”, diz Teperman.

Atuar de modo inovador é mesmo a nova regra do setor de recrutamento. Mas se tem uma coisa que nunca muda numa seleção é a importância do olho no olho e do feeling de que aquele candidato é o correto para determinada vaga – habilidade que sempre será reconhecida pelo mercado. “Há muitas perdas quando se faz sozinho uma seleção, porque o resultado desse processo pode não ser a realidade do mercado. Por isso, depois de internalizarem as etapas de recrutamento, muitas companhias deverão voltar atrás na decisão e recontratar consultorias”, diz Rogério Machado, diretor de recursos humanos da Coca-Cola Femsa.

CARDÁPIO AMPLIADO

A variedade de serviços oferecidos pelas empresas de recrutamento aumentou

ACIMA DO NÍVEL C

Busca por executivos para o conselho de administração

AVALIAÇÃO

Monitoramento do perfil de profissionais em paralelo aos concorrentes

COACHING

Indicação de encaminhamento para os executivos se aperfeiçoarem

TREINAMENTO

Sugerir como os clientes podem se desenvolver para melhorar a sua performance

MARCOS DE UM NOVO TEMPO

Fatos que indicam as mudanças de rumos do setor de recrutamento

O QUE: A rede social LinkedIn adquire o site educativo Lynda

QUAND0: 2015

POR QUE: Completar a oferta de cursos on-line para aperfeiçoamento profissional

O QUE: A Korn Ferry compra o grupo Hay Group

QUANDO: 2015

POR QUE: Aumentar a presença global e criar oportunidades de serviços combinados de recrutamento e desenvolvimento

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PODEMOS APRENDER A ESQUECER?

Dispomos de mecanismos de controle que nos permitem esconder ativamente uma recordação; recorrer a esse processo, no entanto, pode prejudicar a memória geral

Se uma panela quente cai do fogão, é muito provável que sua primeira reação seja fazer um gesto para segurá-la, mas no último momento retire a mão para evitar a queimadura. Isso ocorre porque o controle executivo pode intervir para interceptar a ação, quebrando a cadeia de comandos automáticos. Algumas pesquisas recentes sugerem que o mesmo pode ser verdade quando se trata do reflexo da recordação – o que significa que o cérebro pode parar a recuperação espontânea de registros dolorosos.

As memórias são inseridas em uma teia de informações interligadas. Como resultado, uma lembrança pode acionar outra, fazendo-a aflorar sem esforço consciente. “Quando recebemos um estímulo que funciona como lembrete, a resposta automática da mente é nos fazer ‘um favor’, buscando conteúdos associados”, diz o neurocientista Michael Anderson, pesquisador da Universidade de Cambridge. “O problema é que às vezes somos lembrados do que não queremos.”

Estudos de imagem já haviam indicado que as áreas frontais do cérebro podem amortecer a atividade do hipocampo, uma estrutura crucial para a memória, suprimindo assim a recuperação de memórias. Buscando aprender mais sobre o assunto, Anderson e seus colegas investigaram o que acontece depois que a ação do hipocampo é interceptada. Os cientistas deram a 381 estudantes universitários a tarefa de decorar pares de palavras vagamente relacionadas. Mais tarde, mostraram um vocábulo aos voluntários e pediram, primeiro, que recordassem o outro e, em seguida, fizessem o oposto: ativamente não pensassem na outra palavra. Às vezes, entre uma tarefa e outra, eram mostradas aos participantes imagens incomuns, como um pavão de pé em um estacionamento.

Em artigo publicado no periódico científico Nature Communications, os pesquisadores descobriram que a capacidade dos participantes de recordar posteriormente os pavões e outras imagens estranhas foi cerca de 40% menor se tivessem sido instruídos a evitar memórias de palavras antes ou depois de ver as imagens, em comparação com os ensaios em que os estudantes tinham sido convidados a se lembrar das palavras.

A descoberta fornece evidência adicional de que dispomos de um mecanismo de controle de lembranças e sugere que tentar esconder ativamente uma recordação específica pode afetar negativamente a memória geral. Os pesquisadores chamam o fenômeno de “sombra amnésica” porque, aparentemente, bloqueia a lembrança de eventos não relacionados, que aconteceram enquanto a atividade do hipocampo estava diminuída.

Atualmente, Anderson e a neurocientista Ana Catarino pesquisam a possibilidade de treinar pessoas para suprimir memórias. Eles estão conduzindo uma experiência na qual acompanham atividade cerebral dos participantes e, em tempo real, os informam sobre atividade amortecida de seu hipocampo. Os pesquisadores levantam a hipótese de que, uma vez aperfeiçoado, esse processo possa ajudar as pessoas a aprender como controlar o que querem esquecer, de forma seletiva. O que ainda não está claro é que destino dar à carga emotiva que acompanha as recordações dolorosas.

LEMBRANÇA VAI, EMOÇÃO FICA

Para Sigmund Freud, o criador da psicanálise, a mente tem uma espécie de “depósito” onde são guardadas as memórias e pensamentos reprimidos: o Inconsciente. Freud elaborou suas teorias muito antes de qualquer pesquisa neurocientífica, mas os estudos mais modernos comprovam que ele tinha razão. A instância psíquica inconsciente realmente existe, e tem um papel muito maior do que se pensava. Isso leva muitos cientistas a considerar que não basta simplesmente esquecer uma memória traumática, por exemplo, pois a “impressão emocional” dela continua a existir. O mais indicado, portanto, seria recorrer a um processo psicoterápico para aprender a lidar com essa experiência.