EU ACHO …

DOÇURA DA TERRA

Não sei se muitos fizeram essa descoberta – sei que eu fiz. Também sei que descobrir a terra é lugar-comum que há muito se separou do que exprime. Mas todo homem deveria em algum momento redescobrir a sensação que está sob descobrir a terra.

A mim aconteceu na Itália, durante uma viagem de trem. Não é necessário que seja a Itália. Poderia ser em Jacarepaguá. Mas era a Itália. O trem avançava e, depois de uma noite mal dormida em companhia de uma sueca que só falava sueco, depois de uma xícara de café ordinário com cheiro de estação ferroviária – eis a terra através das vidraças. A doçura da terra italiana. Era começo de primavera, mês de março. Também não precisaria ser primavera. Precisava ser apenas – terra. E quanto a esta, todos a têm sob os pés. Era tão estranho sentir-se viver sobre uma coisa viva. Os franceses, quando estão nervosos, dizem que estão sur le qui-vive. Nós estamos perpetuamente sobre o que viver.

E à terra retornaremos. Ah, por que não nos deixaram descobrir sozinhos que à terra retornaremos: fomos avisados antes de descobrir. Com grande esforço de recriação descobri que: à terra retornaremos. Não era triste, era excitante. Só em pensar, já me sentia rodeada desse silêncio da terra. Desse silêncio que a gente prevê e que procura antes do tempo concretizar.

De algum modo tudo é feito de terra. Um material precioso. Sua abundância não o torna menos raro de sentir – tão difícil é realmente sentir que tudo é feito de terra. Que unidade. E por que não o espírito também? Meu espírito é tecido pela terra mais fina. A flor não é feita de terra?

E pelo fato de tudo ser feito de terra – que grande futuro inesgotável nós temos. Um futuro impessoal que nos excede. Como a raça nos excede.

Que dom nos fez a terra separando-nos em pessoas – que dom nós lhe fazemos não sendo senão: terra. Nós somos imortais. E eu estou emocionada e cívica.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A INFIDELIDADE FELINA

Estudo chega à ruidosa (e esperada) conclusão de que gatos são mais egoístas que os cachorros – a explicação pode estar na evolução das espécies.

Nos anos 1930, o poeta americano T.S. Eliot (1888-1965), já internacionalmente celebrado, decidiu presentear seus afilhados com uma série de poemas sobre gatos. Virou um clássico, obra-prima da literatura infantil que serviria de inspiração para o musical Cats, da Broadway. “É fácil pôr um cão na linha – é só fazer uma cosquinha / ou um carinho no seu queixo/que ele é só riso e remelexo.

/ … pra um gato vir a tolerar / ser seu amigo e te aceitar/ dê algo que ele não rejeite/como um pratinho só com leite/ de vez em quando aceitará / um caviar, ou um foiegras…”, escreveu, aqui na tradução de Caetano W. Galindo, para então avisar que “GATO NÃO É CÃO”, em capitulares estridentes. O que T.S. Eliot intuía, e outros tantos gênios das letras percebiam, como Ernest Hemingway e Jorge Amado, ao conviver com bichos de estimação, a ciência acaba de comprovar: felinos não são como canídeos.

Um estudo recentemente conduzido pela prestigiosa Universidade de Kyoto, no Japão, mostrou que, ao contrário dos cães, os gatos carregam um traço de personalidade peculiar – eles não evitam estranhos que se comportam mal com seus donos. No experimento, um gato observou seu dono tentar abrir uma caixa, enquanto dois estranhos estavam sentados ao seu lado. O proprietário então pede ajuda a um deles. Em um teste, o estranho o ajuda na tarefa. Em outra situação, o humano se recusa a auxiliá-lo. O outro estranho ficou sentado passivamente, sem fazer nada, nas duas situações. Em seguida, eles ofereceram guloseimas ao felino. O gato degustou fartamente o petisco, sem mostrar preferência pela comida oferecida pelo ajudante nem recusar a dada por aquele que não quis ajudar. Os pesquisadores haviam feito o mesmo teste com cachorro, que evitaram a comida oferecida por quem não auxiliou o dono. A explicação está atrelada à evolução das espécies: os cães foram capazes de se tornar parceiros cooperativos com os humanos por meio da domesticação baseada na alta sociabilidade de seu ancestral, o lobo”, disse Hitomi Chijiiwa, a principal pesquisadora do estudo de Kyoto. “Os antepassados dos gatos, os gatos selvagens, eram caçadores solitários e, mesmo na domesticação, os felinos não foram selecionados para cooperação com humanos.”

O trabalho é relevante, ao abrir uma janela, mas não oferece certezas. Algumas experiências mostram que os bichanos desenvolvem laços emocionais com seus donos. “O gato gosta do tutor, amoroso a seu modo, que é diferente dos cães, mas seu instinto de sobrevivência fala mais alto”, diz a veterinária Kellen Oliveira, presidente da Comissão de Bem-Estar Animal do Conselho Federal de Medicina Veterinária.

Gatos, enfim, vivem conosco, mas não dependem totalmente dos donos – certamente não no sentido da dependência emocional apresentada pelos cachorros. Domesticados há 9.500 anos, elesnão parecem completamente afetivos aos humanos. Os gatos têm várias atitudes que parecem desafiar qualquer explicação racional o que lhes confere grande parte do seu charme: o ritual de avançar sobre um cobertor, o hábito de deitar o corpo em cima do teclado do computador, o jeito de ficar encarando com olhar fixo na parede – e, talvez o mais dramático, o ataque de maluquice depois de fazer cocô. Não são, definitivamente, como cães -e ter um ou outro, ou ambos, “vai do gosto e da personalidade do freguês. A infidelidade felina não é necessariamente ruim, é apenas um jeito de ser.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 14 DE ABRIL

O VALOR INESTIMÁVEL DO BOM SENSO

A boa inteligência consegue favor, mas o caminho dos pérfidos é intransitável (Provérbios  13.15).

O bom senso cabe em todo lugar. O bom senso abre portas, desbloqueia caminhos, remove obstáculos e alcança favores. O bom senso ou a boa inteligência não trilha pelo caminho da arrogância. Não estica o pescoço com a tola intenção de sobressair-se sobre os demais. O bom senso não proclama seus próprios feitos, não faz propaganda de suas próprias obras nem se arvora soberbamente contra os outros apenas para denunciar suas fraquezas. A boa inteligência consegue favor porque segue as pegadas da humildade, e a humildade é o portal da honra. Completamente diferente é o caminho do pérfido, soberbo e infiel. Seu caminho é áspero e intransitável. Sua companhia é indesejável, suas palavras são insensatas, suas ações são injustas, sua vida é um laço mortal. A Palavra de Deus nos mostra que o segredo da felicidade é afastar-nos do caminho dos perversos. Diz o salmista: Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite (Salmos 1.1,2).

GESTÃO E CARREIRA

DESAFIO PARA QUEM FICA

Profissionais que estão trabalhando em empresas que passam por processo de recuperação judicial sofrem com a instabilidade, mas podem desenvolver novas competências

Mesmo com uma participação de 30% na venda de livros no Brasil, a Saraiva não conseguiu frear o aumento de suas dívidas, que chegaram a 675 milhões de reais em 2018. Pressionada por seus credores (principalmente os bancos), fornecedores e editoras de livros, a empresa não viuoutra saída senão entrar em recuperação judicial. Na esteira desse processo, 700 profissionais foram demitidos e nove lojas foram fechadas.

A recuperação judicial é um recurso usado pelas companhias que estão com problemas financeiros. Seu objetivo é evitar a falência e proteger funcionários, fornecedores e clientes. Avianca, Copel, Oi, Livraria Cultura e Odebrecht são outras organizações que, ao lado da Saraiva, engrossam a lista da RJ – sigla usada pelo mercado para se referir à recuperação judicial. Em 2018, 1.408 empresas usaram esse recurso. O recorde foi registrado em 2016, quando 1.863 empresas foram afetadas pelo cenário recessivo que ganhou força em 2014, segundo informa o Indicador Serasa Experian de Falências e Recuperações.

Como os processos desse tipo costumam vir acompanhados de demissões e cortes de recursos, é comum o pânico se instalar entre os funcionários quando a RJ é declarada. Os empregados temem por seu cargo e, pior, pela falência da companhia, que pode fechar as portas sem recursos nem sequer para pagar as rescisões trabalhistas. Mas esse é o pior cenário. Normalmente, as empresas têm chance real de se reerguer, do contrário não teriam o pedido de RJ aprovado pelo juiz.

AS DIFICULDADES

Aqueles que estão próximos da direção tendem a sentir diretamente a pressão dos credores e, principalmente, do administrador judicial – um profissional destacado pelo juiz para acompanhar de perto o cumprimento das obrigações assumidas pela companhia. “Esse administrador não gerencia o negócio, mas acaba interferindo bastante na operação, especialmente, quando avalia que as medidas adotadas afetarão o pagamento das dívidas”, diz Walfrido Jorge Warde Júnior, advogado especializado em litígios empresariais e sócio- fundador do Warde Advogados. Valedizer que, embora seja nomeado pela Justiça, o administrador judicial não é um servidor público. A função é exercida por advogados, economistas, administradores e contabilistas que se cadastraram para exercer o cargo. Os demais funcionários de uma companhia em RJsofrem, em geral, com a deterioração das condições de trabalho. Não é incomum, por exemplo, o parcelamento do salário em três ou até mais vezes. A remuneração pode inclusive ser reduzida mediante negociação. Carlos Roberto Marques, de 37 anos, trabalhou por dois anos na Passaredo Linhas Aéreas. Com sede em Ribeirão Preto(SP), a companhia conseguiu se recuperar depois de passar por um processo que levou cinco anos, de 2012 a 2017, e envolveu uma dívida de 200 milhões de reais. Entre março de 2016 e março de 2018, Carlos trabalhou como executor de escala de tripulantes, cargo que envolvia organizar os turnos de trabalho de pilotos e comissários, mas a experiência foi complicada. “Nunca houve reunião, comunicados. Também nunca se importaram em nos motivar. Eu ficava pelo amor à aviação e pela falta de oportunidades no mercado. Em Ribeirão Preto, não há outra companhia aérea”, diz o profissional, demitido junto com outros 160 colegas, e teve a rescisão paga em 12 parcelas.

Eduardo Busch, diretor executivo da Passaredo Linhas Aéreas, recomenda que muitos empregados precisaram fazer “sacrifícios pessoais” e suportar “grandes pressões externas” para a companhia se reerguer.

“O processo de recuperação judicial da Passaredo não foi uma opção foi uma necessidade para que a empresa pudesse continuar operando. Não foi um processo fácil, mas hoje vemos que foi essencial para que pudéssemos seguir em frente”, afirma.

BALANÇO PESSOAL

A decisão de suportar os desafios de uma RJ é uma questão-chave nessa discussão. “É preciso avaliar tanto a disposição para lidar com os problemas naturais do processo como também a possibilidade de crescer profissionalmente com os desafios”, diz Maria Eduarda Silveira, gerente de   recrutamento da Consultoria Robert Half. Como a folha de pagamento é uma das primeiras a passar pela tesoura, as equipes tendem a ficar mais enxutas. “Muitas vezes, isso é sinônimo de mais trabalho, mas pode ser uma oportunidade para ser mais produtivo”, diz Maria Eduarda.

Na opinião de Marcos Theisen, de 33 anos, trabalhar como analista financeiro da Teka, fabricante    de roupas de cama mesa e banho, que está em RJ desde 2012, é uma baita oportunidade.  Formado em gestão financeira e contratado pela empresa há quatro anos. Marcos tem a oportunidade de lidar com processos mais complexos do que se a companhia estivesse num período normal – como títulos e empréstimos de curto prazo que necessitam de negociações especificas. “Para mim, esse é um motivo a mais para ficar.” Enredada em um processo que se arrasta há sete anos, a companhia sediada em Blumenau (SC) está pagando o salário em três parcelas e ainda parou de recolher o FGTS. Por essas questões, o analista não teme a demissão. “Contratar alguém ficou muito mais difícil, e isso deve desmotivar a empresa a levar adiante qualquer plano de substituir um profissional por outro”, diz. Procurada, a gestora judicial da Teka, Fabiane Esvicero, preferiu não comentar as declarações do funcionário e a situação da empresa. Ela foi nomeada para o cargo depois que a Justiça determinou o afastamento do diretor Frederico Kuehnrich Neto por supostas irregularidades na gestão.

TRANSPARÊNCIA

A comunicação é uma das questões mais importantes em uma situação de recuperação judicial. Quando ela é falha ou inexiste, o clima de insatisfação tende a crescer e a boataria corre solta, o que prejudica a produtividade. Portanto, se por um lado os profissionais devem evitar se contaminar pelas conversas de corredor, por outro as companhias precisam comunicar bem as equipes.

Na Saraiva, por exemplo, foi criado um plano de comunicação para o público interno. “O intuito é trazer o máximo de transparência à condução do atual momento da empresa”, diz Henrique Cugnasca, diretor financeiro e de RH da Saraiva. Dentro desse pacote, a livraria produziu uma cartilha para explicar o beabá da recuperação judicial e esclareceu, por meio de diversos materiais, como esse processo afetaria a rotina. “No dia em que a empresa protocolou o pedido de RJ, os colaboradores foram os primeiros a ser informados”, diz Henrique. A Saraiva também ampliou o programa Café com o Presidente, que consiste em um bate-papo do executivo com os empregados das lojas; do escritório e do centro de distribuição. Os encontros passaram a acontecer mensalmente, e não mais a cada dois meses. Em paralelo, foram criados um cronograma de newsletters mensais específicas sobre o tema e um endereço de e-mail para as pessoas mandarem perguntas. Esse canal vem sendo usado pelos interessados em saber em que situação se encontra o processo da Saraiva, que atualmente emprega 2.400 pessoas. O primeiro plano foi apresentado aos credores em fevereiro de 2018, porém, apenas no final de agosto o pedido foi aprovado. Em paralelo, um novo conselho foi anunciado após o afastamento do presidente da empresa, Jorge Saraiva Neto, a pedido dos credores.

EM BUSCA DE INFORMAÇÕES

Quando a empresa não adota uma postura transparente com seus profissionais, eles podem solicitar informações diretamente com o administrador judicial, segundo Odair de Moraes Jr., fundador do escritório Moraes Jr. Advogados. Ao longo dos últimos 20 anos, ele e sua equipe atenderam mais de 1.000 empresas em processo de reestruturação

Desde que haja abertura, os especialistas sugerem aos funcionários que tentem obter informações sobre a possibilidade de seus cargos serem extintos. Ainda que a maior parte das demissões ocorra no início da RJ ou até mesmo antes de ela ser formalizada (muitas empresas fazem isso para postergar o pagamento das rescisões), novas demissões costumam ocorrer com frequência. Sentindo a instabilidade da empresa em que trabalhava, Mayra Reis , de 35 anos, conseguiu a resposta que queria. Seu chefe na fabricante Alpex Alumínio, com sede em São Paulo, não só confirmou que a companhia entraria em RJ, o que aconteceu em 2014, como também adiantou que ela seria demitida assim que o processo fosse formalizado. A então gerente de comunicação e marketing suspendeu o plano de comprar a casa própria e colocou em ação seu plano B. Alguns meses depois da demissão, ela fundou a própria agência, a Alma Gestão de Comunicação e Marketing, para atender empresas de pequeno porte. Curiosamente, muitos de seus clientes também estão em RJ. “Essa vivência, que tinha tudo para ser negativa, trouxe resultados positivos para mim pois eu consegui enxergar a importância da área de comunicação para as empresas nesse momento”, diz Mayra. “Também tive ganhos pessoais. Como empreendedora, fiquei mais atenta aos custos, ao gerenciamento de fornecedores e aos contratos com funcionários e com terceiros. A experiência na Alpex me deixou alerta.”

QUESTÃO DE PERFIL

Trabalhar em uma empresa em recuperação judicial pode ser estressante, especialmente se os problemas financeiros forem graves. Mas é possível aprender a conviver com as turbulências e até crescer com os desafios. Maria Eduarda Silveira, gerente de recrutamento dá consultoria Robert Half, Lista cinco competências comportamentais essenciais para quem está passando pela experiência.

COMPROMETIMENTO

Identifique e supere obstáculos de forma proativa, cumpra os prazos, vá além do seu trabalho e saia da zona de conforto.

MATURJDADE

Mantenha o equilíbrio diante de situações complexas. Tenha foco no trabalho e não se deixe abalar por possíveis fofocas no ambiente corporativo.

APRENDIZADO

Esteja aberto a ouvir e aprender, adquirindo, assim, experiência e conhecimento.

RESILIÊNCJA

Lide com situações de crise e de oposição sem desanimar nem deixar abalar seu rendimento.

PRODUTIVIDADE

Esse é um momento importante para a empresa e a alta produtividade é fundamental. Ponha a mão na massa e participe da execução dos trabalhos a fim de potencializar as entregas da área.

COMO FUNCIONA A RJ

Quando uma empresa perde a capacidade de pagar suas dívidas e de manter suas operações, ela pode solicitar a recuperação judicial. Companhias de diferentes portes e setores têm direito ao recurso, porém, é preciso demonstrar que o problema financeiro é temporário, portanto, passível de recuperação. É disso que vai depender a aprovação do pedido de RJ pelo juiz. Após o sinal verde da Justiça, as empresas têm as seguintes etapas a cumprir:

PLANOB

Em 60 dias, é preciso apresentar um plano aos credores com a descrição de ações para sanar problemas financeiros. Em geral, as medidas envolvem corte de custos, o que pode incluir demissões. As companhias também informam o prazo em que farão as ações e quais os resultados esperados. A apresentação desse plano e a realização de assembleia com os credores são considerados dois avanços da lei de recuperação de empresas e falências, de 2005, pois isso deu às empresas flexibilidade para negociar seus débitos. Antes dela, quando estava em vigência a lei das concordatas, as pendências financeiras eram parcelas em condições fiscais preestabelecidas.

CONVENCIMENTO DOS CREDORES

Após a apresentação do plano de recuperação, os credores têm 180 dias para aprova-lo. Para isso, a empresa deve realizar assembleias para reunir todos os envolvidos no processo, ou seja, todas as pessoas (físicas e jurídicas) para as quais ela deve dinheiro. Em geral, os credores buscam renegociar as condições de pagamento apresentadas pelas empresas. Por causa disso, é natural que sejam feitos ajustes no plano e, consequentemente, novas assembleias. Também é comum que o prazo de 180 dias se alongue. Quanto mais complexa a operação, quanto maior o número de envolvidos, maior é o risco de essa etapa se estender.

MÃO NA MASSA E COBRANÇA

Com a aprovação do plano, começa o período de fiscalização. O juiz determina um administrador judicial (aj) para supervisionar o cumprimento do plano e, eventualmente, denunciar irregularidades. Em geral, esse período leva dois anos, o que não quer dizer que toda a dívida será paga nesse intervalo – quando o montante é alto, a empresa consegue um prazo de 15 a 20 anos para se acertar com os credores.

RECUPERAÇÃO OU FALENCIA

O período de fiscalização, que são os dois primeiros anos, é fundamental para o juiz avaliar o andamento do processo. Caso a empresa não consiga colocar o plano em prática e pagar as dívidas no prazo estipulado, o juiz pode decretar sua falência. nasituação oposta, ele pode decretar o fim da rj considerando o cumprimento dos dois primeiros anos do plano. Ou seja, ainda que a empresa tenha outras dívidas para saldar (em prazos que chegam a 20 anos), o processo de RJ pode se encerrar com base numa avaliação parcial.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A CLÍNICA PSICANALÍTICA E O AMOR

O dia a dia dos consultórios de Psicanálise está recheado de pessoas que os procuram para aplacar seus corações e almas, em função de dores de amor, que apresentam sintomas que o tornam razão de análise

Quando o amor assalta Ele rouba a solidão Para oferecera falta!

Cotidianamente recebemos em nossos consultórios senhores desalmados e seus desejos, não são senhores em suas próprias casas e também são incapazes de fugirem de si mesmos: “Quem muito se evita, se convive”. São senhores que trazem o amor em seus bolsos, rostos e estampado em seus sintomas, fazendo dele, do amor, a demanda de análise com a política do inconsciente.

O amor é uma das cinco palavras-chave pelo qual as cadeias de associações significantes circulam pela análise. Em análise aparecem o amor, a morte, a sexualidade, o dinheiro e a família como alavancas da história de vida. É necessário, na clínica, que o analista fique atento a esses temas no bem dizer do paciente.

Sob pressão, os pacientes desesperam-se frente ao desamparo – despreparo de amor – que parece guiá-los ao insuportável, promovendo erupção na angústia, deixando-os à mercê do destino pulsional. Este que “ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos”, busca o tratamento de um gozo sem limites visíveis, indo além do princípio de prazer nas redondezas das pulsões de morte. Uma perdição. “Viver é um negócio muito perigoso”. Até que, nos encontros e desencontros da vida, descobrem a “cura pela palavra”, uma “limpeza de chaminé”, “a cura pelo amor”; a Psicanálise! A Psicanálise pode ser compreendida neste artigo como a arte de possibilitar, com as palavras do inconsciente, caminhos mais suportáveis de viver! Fazer amor com o desejo.

Palavras e amor são duas invenções humanas necessárias para o laço social e a vida em civilização. A palavra nos convoca à fala e à escuta. O amor nos provoca a caminharmos e considerarmos nossa ímpar existência a par do outro. Eis duas propostas, também feitas por Freud: “Fale!”, “Caminhe!”. Em Freud amor é reencontro! Há reminiscências de fatos, de experiência que ecoa como aparente falta. O amor está fadado ao familiarmente estranho outrora registrado em nosso aparelho psíquico nos traçados pulsionais e nas atmosferas inconscientes.

Lacan já nos apontava que “todo mundo demanda amor”, e que “toda demanda é demanda de amor”, e o amor, ainda, no fundo “demanda amor e mais, ainda”. Com o amor e embaraços das histéricas, que chegavam à clínica, Freud aprendeu a fazer transferência e promoção do tratamento. O preliminar de uma análise é fazer a mutação da demanda de amor para a construção de transferência. O amor possibilita o tratamento, um amor à verdade, dizia Freud.

Em se tratando de transferência, aparece também, em Psicanálise, a resistência. Freud postula como alerta que “não pode haver dúvida de que a irrupção de uma apaixona da exigência de amor é, em grande parte, trabalho da resistência”. O amor em sua face de resistência é de natureza úmida, aponta-nos a lógica lacaniana. “O amor é dar o que não se tem a quem não o quer”, diz Lacan, no Seminário VIII. Se bem olharmos esta é uma das entradas de análise da neurose, entregar seu desejo a quem apenas pode escutá-lo, não o querendo para si, e sim para devolução de um reflexo mais claro das profundezas do inconsciente. Temos algo do amor, há uma entrega que atravessa o narcisismo, o amor é não todo dar o que não se tem a quem não o quer, há algo de si nesse investimento que busca o reencontro com um objeto perdido e ressuscitado nos fantasmas psíquicos. Citado em análise, o amor tem faces impossíveis e insuficientes. De uma espécie de amor que vem com palavras, eis a salvação pela análise!

HISTÓRIAS DE AMOR

Na clínica da Psicanálise escutamos histórias de amor, nem por isso, finais felizes, pois o que escutamos não são os finais, e sim a travessia de uma vida, cuja felicidade se resume em apenas parcelas. O amor em análise é o que possibilita que o inconsciente diga! O amor é suporte, tanto no sentido de base quanto no sentido de suportar. O amor carrega em seu bojo a política do inconsciente. “Falar de amor, com efeito, não se faz outra coisa no discurso analítico”. O amor é a fome do ego! Como volúpia é fabricação de libido. Ponto de análise. Falar de amor, aponta Lacan, é em si mesmo um gozo, e o gozo é aquilo que começa fazendo cócegas até que se promova a fogueira. O amor é fogo!

O amor só pode existir como objeto causa de desejo, política e laços do inconsciente, um paralelo ao lugar do analista, um vazio, um reflexo, uma falta que demanda invenção, encontro e amarração, para poder “transbordar” o fantasma da vida cotidiana. Ele demanda um Mais, Ainda enquanto ainda se respira a ilusão do reencontro com o objeto, algo apontado por Freud no Além do Princípio de Prazer. O amor se não for cuidado cai no mortífero do gozo e perde sua segurança. O amor cuidado é aquele que transparece lugar ao sujeito, sua falta e seu desejo.

Quanto ao lugar do analista frente à causa de desejo do amor, Freud é enfático: “Já deixei claro que a técnica analítica exige do médico que ele negue à paciente que anseia por amor a satisfação que ela exige. O tratamento deve ser levado a cabo na abstinência”. Lacan reforça dizendo que o discurso da demanda é “aquilo que lhe peço não me dê, pois não é isto”. O inconsciente ama aquilo que lhe dá voz. É como se o paciente dissesse nas entrelinhas: Aquele que me ouve, eu o amo. E o psicanalista em “transmissão”, em sua ética de desejo, respondesse: aquilo que ele busca de amor é a mola mestra para o tratamento, não podendo eu, analista, respondê-lo, e sim possibilitá-lo, a partir desse investimento, que ele faça alguma coisa consigo mesmo.

O amor, como romântico, assassina o gozo mortífero e faz nascer uma parceria de sujeito, duas faltas familiarmente estranhas oferecendo-se uma à outra em busca de um saber recíproco sobre o que é ser a si mesmo! O amor é um inédito reencontro. O amor é sentido e não pode ser recalcado. Suas políticas, em contrapartida, isto é, suas ideias que buscam um Outro, estas sobram para todo lado, podendo escorrer nas palavras de um simples recado, rechaço do inconsciente. As políticas do amor são os laços sociais do sujeito.

Em se tratando do simbolismo do amor, o romantismo tem perdido espaço na civilização de nossa época, cujo imediatismo é entrave para construções e preparações suaves das coisas humanas. O amor executa experiências e histórias de vida, deixa espaço para palavras, construções e esperanças. Em encontro com o real, aquilo que não vai bem inclina o amor à beira do gozo. As políticas do amor são semblantes “peri-gozos”!

GOZO E CASTRAÇÃO

A ausência de amor é o gozo avassalador, acesso ao objeto sem lugar de sujeito e desejo, sem ponto de falta, sem busca. Abstinência de amor é uma das causas das neuroses. É a solidão de um corpo abandonado aos bel-prazeres do ordenamento do super eu, e é ali que o amor com sua loucura é um aro de cura! O renascimento da condição faltante, desejante, falante, inaugural de sujeito com possibilidades de promoções e invenções que lhes são próprias para novas buscas. É o resgate de um ego para que assuma sua responsabilidade naquilo que se queixa. Lidar com a falta sem assassinar o desejo é fazer desdobrar o Eros que nos movimenta. Suportar o amor é não para qualquer um.

O amor é ambivalente, eis mais um dos apontamentos de Freud: “A história das origens e relações do amor nos permite compreender como é que o amor com tanta frequência se manifesta como ‘ambivalente’, isto é, ensinar o filho a amar é uma das possíveis tarefas dos pais trabalhadas por Freud em 1905.

Ainda com Freud temos a notícia de que “muito antes da puberdade já está completamente desenvolvida na criança a capacidade de amar.

“SELF” SOB AS ÁGUAS

Por vezes busca-se o narcísico do amor, só pelo narcisismo é que podemos amar, pelos seus destinos. Das formas de amar, podemos pensar que aventurado foi Narciso, que tirou “self ” sob as águas (tão narciso que nem precisou de máquina fotográfica), se perdeu no império da própria imagem e morreu afogado no encontro com o real pelo simbólico que nunca disse! Do Narciso das águas veio ao Narciso do império das imagens, morrendo em aquisições ao discurso do mestre e leitos de hospitais. Dos amores narcísicos temos ainda, como exemplo, aquele que diz “eu te amo” para apenas escutar o “eu também”!

O ato analítico é um destino possível ao apalavrar do amor! É lá que “grandes pedras do fundo do chão vêm à flor”.

No apetitoso prazer da memória o inconsciente em transferência escapa nas falas e se manifesta em lembranças encobridoras:

“A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada acompanhado de impulsos de ódio contra o mesmo objeto”. Devido ao núcleo do amor ser um vazio de registro e não um objeto, ele é também habitado pela pulsão de morte que se inclina silenciosamente à reação de destruição em suas castrações, em seus términos com o objeto eleito como destino do verbo, ato e linguagem, de amar. Não é incomum, por exemplo, vermos destruições após o rompimento de um relacionamento. Aqui é preciso algum saber fazer com a pulsão de morte, já que o término de amor pode acarretar em um a finidade de sujeito. Entretanto, ele também atua na promoção de sublimação, com Eros e outras políticas de viver, causas de desejos! Não é incomum, também, vermos o término de um suposto amor ser a salvação. Abertura de novas saídas, outras invenções, renascimento de Édipo.

Enquanto ainda não se sente, sendo um núcleo faltoso da própria natureza, ele, o amor, está próximo do desejo que do gesto da mistura se entrelaça, porém nos instintos da pulsão com a ordenação de um superego que no amor soa como um beijo podendo gritar na solidão. O amor, nesse ponto, oferece a segurança para a perdição narcísica do mesmo jeito. O amor é o ponto sublime que questiona o gozo acompanhado de impulsos de ódio contra o mesmo objeto”. Devido ao núcleo do amor ser um vazio de registro e não um objeto, ele é também habitado pela pulsão de morte que se inclina silenciosamente à reação de destruição em suas castrações, em seus términos com o objeto eleito como destino do verbo, ato e linguagem, de amar. Não é incomum, por exemplo, vermos destruições após o rompimento de um relacionamento. Aqui é preciso algum saber fazer com a pulsão de morte, já que o término de amor pode acarretar em uma finidade de sujeito. Entretanto, ele também atua na promoção de sublimação, com Eros e outras políticas de viver, causas de desejos! Não é incomum, também, vermos o término de um suposto amor ser a salvação. Abertura de novas saídas, outras invenções, renascimento de Édipo.

Enquanto ainda não sofreu o corte, sendo um núcleo faltoso pela própria natureza, ele, o amor, está mais próximo do desejo que do gozo. Sua mistura se entrelaça, porém, nos destinos da pulsão com o ordenamento de um superego que no amor se cala no beijo podendo gritar na solidão! O amor, nesse ponto, oferece a segurança para a perdição narcísica do sujeito. O amor é o ponto sublime que questiona o gozo.

AMORES DO EGO

Ego, instância psíquica trabalhada por Freud para designar aquilo que o sujeito sabe e é de si mesmo para ele mesmo em cunho consciente e inconsciente.

O ego não é senhor em sua própria casa, pois tem a árdua tarefa de servir, mediar e organizar as exigências dos seus três amores: do isso. do super eu e do mundo externo, sertão de grande Outro, restando a si mecanismos de defesas para suportar e seguir. O ego recai ao corpo e ao nome do sujeito. Em sua face real é o eterno enigma do “quem sou eu?’, mistério gozoso de cada um. Na vertente imaginária é um ideal de eu que se encontra e se perde em imagens advindas de um contato com o Outro. Em posição simbólica o ego é um eu ideal que encontra-se com as palavras. Em análise perpetua resistências no âmbito do recalque. do ganho secundário proveniente do adoecimento e da transferência. A clivagem do eu é um recurso possível em que falha a formação de compromisso. O ego padece de amores, seus tentáculos buscam existir nos olhares de seus senhores.

NEUROSE! NO TEU NOME HÁ AMOR

A neurose pode ser definida como a primavera dos nervos que entre ódio e amor aflora o infantil como organização singular do universo pulsional. É um efeito colateral partido pelo corte cirúrgico do recalque. O recalque é uma operação constante que mutila o império do prazer, dando-lhe um basta e apresentando o princípio de realidade, que origina um nascimento psíquico enquanto sujeito na cesárea simbólica. Neurose é um animado modo de dizer por linhas tortas que é impossível todo amor e que é insuficiente servir-se como senhor de amor aos impérios gozosos que lhe exigem mediações do desejo com o Outro em amostras nada grátis do desempenho social e sexual. As neuroses buscam um amor que seja guia e lhe dê segurança. O amor lhe dá, na ilusão que lhe é própria, certa certeza de que eu existo. Amo e sou amado, logo existo! No amor um lugar é encontrado, a neurose se aloja. A neurose ama, inclusive, seu sintoma, busca, ao passo que quer refazê-lo, salvar algo dele. O amor da neurose se entrelaça ao ódio, seu protótipo desdobrável. O amor permite certa autonomia à neurose, o sujeito se autonomeia.