A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

INCLUSÃO NO ENSINO SUPERIOR … É POSSÍVEL?

Pessoas com deficiência cognitiva ainda têm dificuldades em encontrar estratégias desenvolvidas em universidades que possam viabilizar a verdadeira inclusão, principalmente no sentido de absorver conteúdos acadêmicos

Pedro é um rapaz de 20 anos de idade. Sempre fora esportista e há dois anos prestou vestibular e foi inserido em uma renomada universidade. Entretanto, há cerca de um ano, um grave acidente automobilístico mudou totalmente sua vida. Pedro teve um traumatismo cranioencefálico. O traumatismo cranioencefálico é uma lesão no cérebro, não de natureza genética ou degenerativa, mas causada por uma agressão externa. Constitui um grande problema na sociedade atual, uma vez que, em sua maioria, atinge jovens em idade produtiva, e como poderemos ver devido, também, aos comprometimentos cognitivos, sociais e emocionais na vida do paciente que sofre tal dano.

Os estudos divulgados em 2010 e 2013 pela Organização Mundial da Saúde são assustadores, indicativos de uma situação mundial muito crítica no trânsito. No ano de 2010, aconteceram 1,24 milhão de mortes por acidente de trânsito em 182 países do mundo.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Prevenção a Acidentes de Trânsito, em São Paulo, de cada dez vítimas de paralisia quatro se envolveram em acidentes de trânsito. As batidas de motos, de carros e atropelamentos agora são a principal causa de lesões na medula.

No caso de Pedro, o trauma ocorreu na parte lateral esquerda da cabeça e parcialmente frontal, afetando importantes áreas cerebrais. O rapaz permaneceu em coma por dois meses, teve comprometimentos na saúde, fraturas diversas e, neurologicamente, lesão axional difusa.

A lesão axional difusa ocorre quando um axônio, ou vários, é destruído ou lesionado. O axônio é uma parte do neurônio prolongada, responsável por passar informações a outro neurônio. Esse processo neural é chamado de sinapse.

O funcionamento sináptico pode ser associado, para efeito de ilustração, àquela antiga brincadeira de telefone sem fio, em que cada neurônio vai passando a informação que recebeu de um outro, para o próximo, sucessivamente, até que essa informação chegue ao seu destino e seja totalmente processada para que haja uma resposta ou para que qualquer outra função cerebral seja acionada.

Quando um axônio é destruído ou lesado significativamente o neurônio inteiro morre. Outros, que dele dependem para receber estímulo, podem morrer também. Nesses casos, a comunicação intraneural fica bastante comprometida, sabendo-se que todas as informações que chegam ao cérebro e requerem uma resposta devem passar por esse processo de comunicação neural.

Houve grave lesão cerebelar, que comprometeu áreas motoras e de equilíbrio, além de comprometimentos neurológicos, muitos deles causados pela lesão axional difusa: fala, leitura e escrita, memória, atenção, funções executivas, velocidade no processamento da informação, abstração foram alguns.

Geralmente, nesses casos de TCE (traumatismo cranioencefálico), o paciente também é afetado na área emocional, podendo apresentar sintomas de estresse pós-traumático, depressão, embora este não tenha sido o caso de Pedro, apesar dele passar a apresentar uma labilidade emocional e excitabilidade.

Apesar de todo o drama pessoal pelo qual passava, o rapaz decidiu lutar, encarando seus novos desafios, passando a frequentar sessões semanais de fisioterapia, musculação, pilates, equoterapia e acompanhamento psicopedagógico, que, desde o início, o ajudaram muito nos processos de reabilitação.

Assim, decidiu continuar seus estudos universitários, mas o grande problema enfrentado agora era justamente manter o curso, com todas as limitações que passara a ter. A universidade, por sua vez, diante do ocorrido, deveria, então, passar a avaliar e lidar com Pedro no regime de inclusão, mas surgia a grande questão: como praticar a inclusão pedagógica na universidade? Quais as estratégias que viabilizariam essa inclusão, na prática? E não só no caso de Pedro, mas nos demais casos que envolvem defasagens em processos cognitivos, como atuar frente ao conteúdo acadêmico?

MUDANÇA DE PERFIL

Quando se fala em inclusão, em instâncias como o ensino superior, logo se pensa em pessoas com deficiência física e acessibilidade, ou em pessoas com deficiência auditiva e visual e a inclusão acontece de uma forma menos complexa, passando-se à tradução do conteúdo didático usando-se o sistema braile ou o de Libras, utilização de recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência física e outros recursos próprios para essas situações. Mas e nesse caso, em que um aluno que sofreu um TCE ou por algum outro motivo repentino muda seu perfil cognitivo como estudante, como praticar a inclusão pedagógica? Como incluir no ensino superior alunos com deficiências intelectuais?

No Brasil, pouco se discute esse tipo de inclusão no ensino superior e praticamente inexiste literatura que oriente educadores e gestores nesse sentido, indicando, ainda, uma carência de debates, estudos e criação de estratégias voltadas a esse assunto tão relevante e que merece mais atenção das políticas educacionais e da sociedade.

Quem tem deficiência intelectual ou comprometimentos cognitivos foi sempre visto de forma estigmatizada, como incapaz, diferente, e, portanto, sem condições de frequentar um curso superior, uma vez que o mesmo exige um alto grau de complexidade intelectual para o acompanhamento do currículo acadêmico.

É grande a preocupação e responsabilidade por parte da universidade em preparar seus alunos para o mercado de trabalho. Assim, existe a dúvida a respeito de quais seriam os recursos que deveriam ser utilizados nesse caso. Infelizmente, por falta de preparo, de estratégias, ou mesmo diante da preocupação em formar profissionais de excelência para o mercado, muitas universidades acabam desistindo desses alunos, ao tratarem os casos apenas como uma inclusão social, acolhendo-os, porém sem saber elaborar novas estratégias para promover, de forma individualizada e real, a aprendizagem de cada aluno diante de suas necessidades. Como consequência, o aluno não evolui em seu potencial de aprendizagem, não acompanha o processo e acaba desistindo do seu curso e de seu sonho.

De acordo com estatísticas da Organização Mundial da Saúde, 10% da população têm algum tipo de deficiência, sendo que desse percentual 50% têm deficiência intelectual. Existe uma demanda muito grande de alunos com deficiências intelectuais em todas as etapas da educação, além dos casos como o de Pedro, que exigem do sujeito uma readaptação escolar frente a sua nova situação cognitiva.

A Constituição Federal garante, em seu artigo 205: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

O Decreto nº 6.571, de 17 de setembro de 2008, em seu 2° artigo, cita a inclusão no ensino superior, além de outros pareceres e decretos referentes à inclusão no ensino básico, que deixam clara a intenção de apoiar esses alunos na continuidade de seus estudos em outras instâncias.

Segundo a nota técnica n° 4 de 2014, da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), a Convenção Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2006), promulgada no Brasil, estabelece o compromisso de assegurar às pessoas com deficiência um sistema educacional inclusivo em todos os níveis de ensino.

Em termos de legislação, as pessoas com deficiências físicas, assim como aquelas que sofrem com deficiências na área cognitiva, ou ainda as que apresentam problemas de aprendizagem e que podem ser beneficiadas no Regime de Inclusão, estão respaldadas em seus direitos a um processo de educação e escolarização, em todos os níveis que lhes garantam tais necessidades. Porém, na realidade, nem sempre isso ocorre, pois tanto as instituições como os educadores possuem muitas dúvidas ainda a respeito de como praticar essa inclusão, principalmente quando a demanda exige uma flexibilização de conteúdos e de recursos didáticos e metodológicos.

Se na educação básica este se configura um dos maiores problemas para que a inclusão ocorra verdadeiramente, na educação superior o processo é ainda mais difícil, uma vez que a complexidade do conteúdo acadêmico é muito maior e a flexibilidade desse conteúdo exige um trabalho muito minucioso, pois trata-se de um material bastante importante para o futuro profissional do aluno. Sendo assim, qualquer perda nesse conteúdo poderá ocasionar futuramente uma lacuna em sua prática profissional.

DIRECIONAMENTO

As políticas de inclusão preveem alunos no ensino superior, mas falta direcionamento, nesse sentido, aos gestores, coordenadores, pedagogos e professores universitários a fim de prepará-los para essa inclusão, para o trabalho a ser realizado com a metodologia que envolve esta flexibilização, enfim, em relação à criação de novos recursos pedagógicos e didáticos para esta demanda de alunos.

Os recursos e as estratégias deverão, ainda, ser escolhidos de acordo com as necessidades dos alunos mediante casos diferentes de inclusão. Sendo assim, eles sempre serão individualizados, direcionados a cada caso e necessidade em particular.

Um aluno que dentro desse contexto possui áreas como a atenção e memória debilitadas em grau leve poderia, por exemplo, fazer uso de aparelho gravador em sala de aula, recorrendo a outro tipo de estratégia para a recepção e o processamento da informação, que lhe garanta posteriormente a repetição das aulas, para estudo. Já outro aluno, que tenha esse quadro de forma mais severa, precisará de outro recurso, pois apenas essa mudança didática não suprirá suas necessidades.

Pedro, por exemplo, necessita de alguém que leia e medie sua interpretação, direcionando sua inferência sobre o conteúdo a ser aprendido. Dessa forma, para os estudos, necessita de um tutor que o auxilie no processo de aquisição de novos conhecimentos, uma vez que as habilidades necessárias para esse processo foram comprometidas.

As avaliações e o próprio conteúdo disciplinar podem ser adaptados, de acordo com a necessidade individual do aluno, diante de seu problema. Dessa forma, para que esse atendimento seja realizado, faz-se necessária a presença de um psicopedagogo ou outro profissional capacitado, que, estudando caso a caso, consiga criar estratégias didáticas e metodológicas para garantir a esses alunos acessibilidade ao ensino em condições de igualdade com os demais alunos, como a lei prevê.

Cabe aqui salientar ainda, segundo Werneck (1997), que, de acordo com a ONU, alguns fatores que interferem na inclusão são a ignorância, a negligência e o medo. Esses fatores, diz o estudioso, são mantidos certamente pela desinformação a respeito das deficiências e inclusão.

DIFERENÇA

Há uma grande diferença entre integração social e inclusão escolar. Na primeira opção, o aluno é acolhido, tratado com respeito e carinho, mas precisa se adaptar ao ensino, procurando estratégias, mediadores fora da instituição, para acompanhar o ritmo de sua série escolar. Já a segunda funciona de forma contrária, ou seja, é a instituição escolar que se adapta ao aluno, em todos os sentidos e não apenas no aspecto físico.

Não é o fato de estar dentro da sala de aula, matriculado, acolhido pelos grupos discente e docente que fará com que esse aluno, que tem necessidades diferenciadas, esteja incluído.

E não se pode falar em inclusão se houver ainda escolhas diante de quais alunos poderiam estar mais preparados para serem incluídos pedagogicamente, ou quais seriam aqueles que responderiam melhor a essa inclusão.

Os professores nesse processo julgam-se despreparados e impotentes frente a essa realidade. Reclamam, sentem-se sozinhos, dizem não terem estudado para enfrentarem tais situações, sentem-se receosos ao que podem, devem ou não fazer diante desses alunos, ou seja, como mudar e adaptar sua prática pedagógica às diferentes situações de inclusão que lhes são impostas. E, então, muitas vezes desistem, até mesmo receosos em pedir ajuda, ou, ainda pior, sem saberem a quem recorrer.

Assim, antes de qualquer atitude frente à inclusão, o primeiro passo para se chegar a ela é a capacitação do professor nessa área. Obviamente, ele não precisa, necessariamente, nem obrigatoriamente, de uma especialização em educação especial, mas sim de estratégias para saber lidar com o aluno com deficiência, assim como, juntamente com um profissional especializado (aí, sim, um especialista em educação especial ou um psicopedagogo), ser capacitado a adaptar seu conteúdo disciplinar, seu processo avaliativo e sua didática a fim de alcançar esse aluno com dificuldades, possibilitando ao mesmo o acesso a esse material, no sentido de promover, ao máximo, seu potencial frente ao processo de aprendizagem.

De acordo com Pires (2006), “é o reconhecimento das desigualdades que nos constroem enquanto humanos e sociais, através da valorização das diferenças que dão sentido à complexidade dinâmica do ser humano”.

Nesse sentido, um olhar sensível e aguçado, criatividade, conhecimento do assunto e ousadia são habilidades indispensáveis ao professor em sua práxis frente ao desafio da inclusão, que já faz parte da realidade educacional.

AVALIAÇÃO

Tratando-se de inclusão de aluno com comprometimentos cognitivos, este deveria, previamente à matrícula, passar por avaliação neuropsicológica, para que, ao chegar à instituição escolar, os profissionais que o recebessem conseguissem, mediante seu laudo, elaborar os processos necessários de adaptação, que vão diferir, como dito antes, dependendo de cada caso.

Para que esse processo ocorra há necessidade da presença desse profissional capacitado na área, seja como consultor, coaching ou mesmo parte da equipe pedagógica, que dará esse suporte necessário ao corpo docente no processo de mediação entre o aluno de inclusão e seu processo de aprendizagem. É certo que não existem receitas prontas e muito menos aquelas que se aplicam de maneira generalizada. Cada caso é individual e exige um olhar também individualizado, criativo e humanitário e estimulado, enquanto aluno acadêmico.

Pedro continua otimista e não quer desistir de seu curso. Porém, sabe o quanto essa etapa de sua vida lhe será mais difícil. Espera ser realmente compreendido por sua universidade em suas necessidades.

Falar em inclusão exige uma quebra de paradigmas educacionais e sociais. A ideia de uma escola e de uma sociedade inclusiva baseia-se na aceitação da diversidade em todos os sentidos e vemos que o nosso país está, apenas, engatinhando nessa nova filosofia de vida. A jornada está só começando!

A NOVA LEI BRASILEIRA DE INCLUSÃO

A lei Brasileira de Inclusão, recentemente aprovada no Senado Federal e sancionadas pelo Executivo com vetos, apresenta uma série de avanços em relação aos direitos das pessoas com deficiência. Entre os muitos artigos, alguns se relacionam especificamente às pessoas com deficiência cognitiva. O artigo 6°, por exemplo, diz que a deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, inclusive para se casar ou constituir união estável: exercer direitos sexuais e reprodutivos: exercer o direito de decidir sobre o número de filhos e de ter acesso a informações adequadas sobre reprodução e planejamento familiar: conservar sua fertilidade, sendo vedada a esterilização compulsória; exercer o direito à família e à convivência familiar e comunitária, exercer o direito à guarda. à tutela, à curatela e à adoção. em igualdade de oportunidades em relação aos demais. Dentro do tema, as pessoas com deficiência intelectual só poderão receber curatelas protetivas e não restritivas, aquelas que tiravam direitos básicos, como casar, votar, ser votado e até mesmo retirar a Carteira Nacional de Habilitação, salvo exceções.

Estão contemplados benefícios que dizem respeito à inclusão na sociedade em seus amplos aspectos, como trabalho, educação, moradia, entre outros.

ORIGEM DA LIBRAS

A língua Brasileira de Sinais teve sua origem a partir do Alfabeto Manual Francês. que chegou ao Brasil no ano de 1856. Um surdo natural daquele país, Ernest Huet, veio ao Rio de Janeiro a passeio e observou um grupo de surdos perdidos e mendigando na praia. Preocupado com a falta de comunicação dessas pessoas, passou a se dedicar voluntariamente ao ensino dessa língua. Os brasileiros logo aprenderam e divulgaram por todo o país. A Libras é formada pelos componentes pertinentes às línguas orais, como semântica, pragmática, sintaxe e outros elementos, preenchendo os requisitos científicos para ser considerada instrumento linguístico de poder e força. Embora possua todos os elementos classificatórios identificáveis de uma língua e demande prática para seu aprendizado, como qualquer outra língua, a Libras se distingue do Português, como língua oral. A diferença básica entre as duas modalidades de língua não está no uso de aparelho fonador ou na utilização das mãos no espaço, mas em certas características da organização fonológica das duas modalidades: a linearidade, mais explorada nas línguas orais, e a simultaneidade, que é marca básica das línguas de sinais. Todos os sinais que se incorporam ao léxico usam os parâmetros considerados gramaticais.

AVANÇO

Segundo o Ministério da Educação, o Brasil quadruplicou o número de pessoas com deficiências matriculadas no ensino superior nos últimos anos. Esse número passou de 145 mil em 2003 para 698 mil em 2014. Na rede federal de educação superior, esse índice quintuplicou, passando de 3.705 alunos para 19.812 no mesmo ano.

Esse índice é o resultado de avanços em políticas públicas inclusivas, que, através da legislação, asseguram o direito à educação aos portadores de necessidades especiais, sejam elas físicas, sensoriais, intelectuais, ou outras, no sentido de se vencer o desafio da universalização do acesso à educação, como um direito de todos.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.